quarta-feira, 1 de abril de 2009

Pela ordem, senhores!




Fotos: Míriam Santini de Abreu

Por Elaine Tavares – jornalista

A Assembléia Legislativa de Santa Catarina votou e aprovou por amplíssima maioria o novo Código Estadual do Meio Ambiente. Não valeram os estudos, as contradições, a polêmica, nem mesmo a sombra da tragédia ambiental que se abateu sobre a região do Vale do Itajaí, que praticamente derreteu a cidade de Blumenau. Dos 41 deputados, 38 votaram sim, sete se abstiveram e dois estavam ausentes. Nas galerias lotadas de pequenos agricultores vindos de todos os cantos do estado, não havia espaço para a dúvida: o código era a salvação da lavoura.

Usando o artifício da manipulação, os deputados transformaram toda discussão da lei num único ponto: o espaço nas margens do rio. Durante os discursos, foi o que predominou. Os ambientalistas, acossados em um pequeno espaço do plenário, eram vistos como inimigos. Ao final, o que parece ter ficado realmente claro é que os organismos de luta ambiental não conseguiram levar o debate aos agricultores, o que favoreceu aos governistas, que deram coloração ideológica ao tema. Tampouco os demais movimentos organizados, como os sindicatos mais combativos, se envolveram na luta. O resultado foi, em nome do “desenvolvimento”, a abertura de uma porta para a destruição ambiental do estado que já acumula a estatística de ser o que mais degrada a mata atlântica.

O cenário da trama
Plenário lotado, saguão da assembléia também. Como o espaço ficou pequeno, mais um telão foi montado na rua, sob uma imensa e cara estrutura de lona. Os discursos se sucediam em clima de guerra. As falas iam direto ao coração dos pequenos produtores, que passaram a figurar como os “grandes prejudicados”, caso o código não passasse. Assim, a lógica era essa: quem se manifestasse contra o código era automaticamente contra a pequena produção. Não havia meio termo.

Entre os milhares de pequenos produtores que se postavam em frente aos telões o clima era de confronto com qualquer um que parecesse ligado à luta ambiental. “A senhora é ambientalista?” Diante da negativa, as falas transbordaram em justificativas. E, no fundo, eles certamente têm razões para buscar a aprovação do código, embora não conheçam dele as “letras pequenas”. No geral, querem apenas defender o direito de plantar mais perto do rio e cortar as árvores que hoje estão proibidas de corte como a araucária e o angico.

Vindo da cidade de Bocaiúva, Ivone Rodrigues da Silva, mais conhecido como “Calça-Larga”, não hesita em defender o código. Com ele vieram mais dezenas de agricultores lotando quatro ônibus. “A senhora veja que um pequeno produtor tem pouca terra. Se tiver de deixar 30 metros do rio, o que nos sobra? Nós vamos ficar sem espaço para plantar. E somos nós os que plantamos a comida de toda a gente. Como vamos produzir arroz, feijão?”

Fernando Carlos Mezzaroba veio de Videira, também num grupo de vários ônibus. A preocupação dele é com a madeira. “E as árvores? Eu tenho 400 pinheiros lá na minha terra e não posso fazer nada com eles. Então, o que a gente faz? A gente corta quando elas brotam, porque se vingar, não dá mais pra tirar. Isso é o que acaba com o pinheiro, porque ninguém mais quer plantar”.

Rubens Hoffmann, de Mirim Doce, também justificava o apoio na necessidade de usar o espaço perto do rio. “A gente planta, mas a gente conserva. A gente faz o manejo de forma correta. Nós fazemos isso a vida inteira. Agora tá esse problema todo porque não se pode mais cortar árvore. Nós sabemos como fazer. Ninguém aqui é contra preservar a natureza, mas nós precisamos sobreviver”.

Calça-Larga insistia em dizer que sem essa liberação das margens do rio os pequenos vão migrar para a cidade e causar mais problema social. “No campo a gente vive melhor, na cidade o caminho é o da marginalidade. Mas se não tivermos terra, como vamos fazer? Esses ambientalistas que são contra o código não conhecem o campo, não tem um palmo de terra. A gente sabe como usar e cuidar”.

Sem orientação
Os agricultores centram suas críticas nos órgãos de fiscalização. Segundo eles, a polícia ambiental tem mais poderes que a polícia normal. “Eles entram e prendem se a gente arrancar uma árvore. Nós não somos ladrões, isso não tem cabimento. A gente só quer plantar. Não tem ninguém para nos orientar, só sabem fazer autuação”.

Esse desabafo dos camponeses tem sua dose de sentido. Orientação é o que parece não haver, seja do ponto de vista do estado, seja do ponto de vista dos movimentos ambientalistas. O discurso contrário ao código não conseguiu se espalhar entre os agricultores, ficou confinado a debates acadêmicos. O governo, espertamente, bateu em dois pontos muito específicos e, com o apoio das entidades de classe, conseguiu a adesão de toda a gente. Poucos dos que faziam vigília em frente à Assembléia sabiam que os maiores beneficiados com o novo código são as gigantes empresas de aves e suínos. Estas sim é que encherão seus baús destruindo os rios e as florestas. Para se ter uma idéia, conforme dados do Levantamento Agropecuário Catarinense, dos aproximadamente seis milhões de hectares que servem à produção agrícola de Santa Catarina, 32,52% pertencem a apenas 1,9% dos proprietários rurais, detentores de grandes latifúndios. E aos pequenos, grande parte no sistema de integração do agronegócio, coube vir fazer a pressão.

Outra coisa que produtores reunidos na Praça Tancredo Neves não sabiam é que, se a preocupação pela aprovação era o uso das margens dos rios, então não precisava tanta mobilização, uma vez que o pequeno agricultor familiar, em função da reconhecida função social da sua atividade, já tem autorização legal, pelo próprio Código Florestal (lei 4.771/65) - que a lei estadual em questão pretende revogar - para utilizar as áreas de preservação permanente, desde que o faça mediante um sistema de manejo agroflorestal sustentável. Muitos deles ao receberem essa informação ficavam em silêncio, não acreditando.

O que predominou foi a ideologia do progresso. Nas faixas colocadas por todo o plenário e no lado de fora, esse era o recado. O campo quer embarcar no trem do progresso, mesmo que para isso a natureza tenha de ser sacrificada. O já antigo discurso de domínio do homem sobre a natureza segue pontificando, a despeito de todos os sinais que o planeta tem dado de que, se não há cuidado com a natureza, é o homem quem sofre. Nesse caso, ainda foi usado o desconhecimento dos camponeses sobre o Código Florestal, levando-os a sair de suas casas para defender um direito que eles já tem. Na verdade, o que vieram fazer na capital, depois de horas de viagem, foi garantir vantagens aos grandes, aos que já absorvem toda a sorte de privilégios e que estavam tolhidos pelo Código Florestal. Estes, pelo seu lado, não se fizeram visíveis na Assembléia.

Para um pequeno agricultor que levanta de madrugada e com sacrifício consegue plantar apesar de todas as condições contrárias, fica bem difícil aceitar o argumento de que eles não preservam a natureza. E, de certa forma, isso não é verdade. No geral, os pequenos produtores sabem muito bem como fazer o manejo dos recursos naturais. O que talvez não tenham ainda se dado conta é que, em Santa Catarina, muito da agricultura de subsistência foi desbancada pelo sistema integrado, no qual o pequeno segue sendo o dono de sua terrinha, mas está de forma irremediável dependente da grande empresa. É ela, em última instância, que dá as cartas e define as pautas.

Mas, sobre isso, os seus organismos de classe não fazem debate, a mídia aponta os ambientalistas como eco-chatos, terroristas, hippies e outros tantos adjetivos que induzem ao desmerecimento das causas, e o governo busca usar as dificuldades dos pequenos para favorecer, na verdade, aos grandes empresários do agronegócio. São apenas negócios. A natureza é só cenário para o chamado “desenvolvimento”. Para que venha a riqueza da “modernidade” é preciso destruir as margens dos rios, ocupar os topos de morro, garantir o corte indiscriminado das árvores e outras tantas aberrações. Os pequenos são engolidos por esse discurso e os grandes seguem desfrutando dos benefícios das leis especialmente preparadas para eles.

O fim da espécie
A aprovação do Código Estadual de Meio Ambiente deixa muito visível o significado do chamado sistema democrático-capitalista. Este é, na verdade, um sistema sem lei. Nele, as leis mudam sempre que for necessário atender aos interesses do grande capital. E, de forma extremamente competente, o sistema consegue enredar nas suas tramas aqueles que deveriam ser os seus maiores opositores. É a velha alienação já apontada por Marx.

De qualquer forma, a luta contra o código catarinense não termina aqui. Há muitas disputas a se fazer no campo jurídico e há tempo para se fazer a orientação necessária tanto entre os agricultores como na comunidade urbana. Vai depender da vontade política dos movimentos sociais, dos sindicatos, em assumir isso como uma luta conjunta em defesa da vida.

Os efeitos da destruição causados pelo modelo de desenvolvimento capitalista estão aí e se manifestam cotidianamente nas secas, nas enxurradas, nos dias de extremo calor, de extremo frio, no efeito estufa, nos tsunamis, nos ciclones, nos furacões, no derretimento das geleiras. Todas estas coisas acabam afetando a vida dos humanos em geral, como espécie. Segundo o cientista inglês James Lovelock, a terra é um sistema vivo que se auto-regula. Se o homem busca destruí-la com seu desejo de domínio, vai se dar mal. A terra tem condições de suportar os processos de degradação, ela realiza transições, vai se acomodando. Lovelock deixa claro que a destruição provocada pelo humano pode levar ao desaparecimento da espécie, não da terra. Esta se recupera.

O código ambiental de Santa Catarina legaliza o crime contra a natureza. Ela vai balançar, mas deve resistir. Já o homem... Talvez seja hora de se discutir de forma mais sistemática e responsável o modelo de desenvolvimento que nos é apresentado como panacéia de progresso e modernidade. Sem mudar o nosso modo de organizar a vida, fatalmente pereceremos como espécie.

Já o teatro do poder, protagonizado pelos deputados catarinenses, este deve ser visto como o que realmente é: um espaço de porta-vozes a soldo do grande capital. Não é à toa que seu bordão mais usado é o indefectível: “pela ordem, senhores”. Pois é, pela ordem!

Aos movimentos cabe desordenar, desvelar, subverter.

terça-feira, 31 de março de 2009

BOLETIM ELETRÔNICO DA POBRES


A P&N começará a enviar um BOLETIM ELETRÔNICO para interessados que cadastrarem e-mail. Cadastre-se em revistapobresenojentas@gmail.com

Mudanças à vista


Míriam Santini de Abreu

Do meu apartamento dá para ver o quadrante sul de um cemitério, uma pracinha arenosa, casas e, algo de que gosto muito, um filete distante de montanhas azuis. Na semana passada cortaram tudo o que havia de verde ao lado da praça; agora descubro que ali irá ser construído um prédio. Os tapumes já foram fincados na terra seca. Mais uns meses e minha vizinhança irá virar concreto.

Assembléia aprova Código Ambiental

A Assembleia Legislativa aprovou no dia 31 o Projeto de Lei nº 238/2008, que institui o Código Ambiental de Santa Catarina. O Projeto de Lei recebeu 31 votos a favor e sete abstenções, sem nenhum voto contrário. P&N em breve irá falar mais sobre isso.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A cidade invisível

Elaine Tavares - jornalista

Enquanto milhares de pessoas se esbarram no terminal urbano e empilham-se nos coletivos urbanos, no ritmo louco entre a casa e o trabalho, sem tempo para pensar sobre os motivos de terem de viver assim, os governantes seguem decidindo coisas que tem ligação direta com a vida das gentes. E aí está o paradoxo. Eles decidem pelas gentes, e as gentes sequer sabem o que acontece. O que lhes cabe é sofrer as políticas, e assim mesmo, sem tempo para que possam pensar.
É o que acontece com o plano diretor. E o que é isso? É a lei que define como vai se organizar a cidade, nosso espaço de viver. O prefeito Dário Berger no seu primeiro mandato propôs o plano diretor participativo levando a discussão para os bairros e proporcionando que as pessoas pudessem opinar e decidir. E assim foi. Por meses as comunidades se reuniram, debateram, planejaram, decidiram, fizeram oficinas, informaram. Uma coisa linda de ver. Pois agora, depois de três anos de trabalho a prefeitura manda uma carta para os representantes das comunidades no Núcleo Distrital agradecendo o apoio e pedindo toda a estrutura de volta. Ou seja. A participação acabou. Segundo a prefeitura, agora serão os técnicos os que vão finalizar o processo e, com isso, ninguém sabe se o que foi exaustivamente discutido nas comunidades será levado em conta.
Coisa típica isso. Usa-se a comunidade, faz-se a propaganda da “participação”, mas a decisão mesmo será dos tecnocratas. Não é nem dos técnicos porque como a gente sabe, a decisão é política. O plano diretor atenderá os interesses dos grandes e poderosos. Grandes prédios, empreendimento gigantescos, tudo para dar mais beleza e conforto aos graúdos. Que importa se não há planejamento viário, que importa se não há água suficiente. Toca a encher de gente os bairros, verticalizar, asfaltar.
Bom, lá no Campeche a comunidade disse não. Primeiro diz que não vai entregar a sala onde estava instalada a representação distrital. Segundo, vai continuar acompanhando bem de perto os trabalhos. Terceiro, vai fazer valer aquilo que, de forma democrática e participativa, a comunidade decidiu. Daí que é muito importante as demais comunidades fazerem o mesmo porque plano diretor é coisa séria. Ele diz respeito a nossa vida mais cotidiana. Ele pode dar respostas para as filas no trânsito, para a falta de praças, para a melhoria da qualidade de vida de todos. Eu disse de todos e não só dos ricos. Plano diretor é coisa para ser acompanhada por todos nós.
A gente sabe que não é fácil viver nesta moenda do capital. Sempre cansado, trabalhando demais, e ainda ter de bancar as peleias com o poder público. Mas é necessário. Sem isso a cidade segue sendo espaço para poucos. São muitas as lutas para travar, eu sei. Mas, esta, é fundamental. Então, no seu bairro, procure a associação de moradores e diga que não aceita entregar a decisão do plano diretor para quem não vive os problemas reais da cidade. O prefeito Dário iniciou um processo participativo e não tem o direito de parar agora. A cidade também é nossa.

Assembléia pode aprovar Código Ambiental no dia 31

No dia 31 (terça-feira), a proposta do Código Ambiental de SC será deliberada em reunião conjunta das comissões na Assembléia Legislativa, seguindo, depois, para votação em Plenário. Se aprovado o projeto oportunista, o Estado estará na contramão de todas as discussões sobre a questão ambiental. Para entender o assunto, acesse
http://www.apremavi.org.br/mobilizacao/santa-e-fragil-catarina/
Para saber como está a tramitação na Assembléia, acesse:
http://www.alesc.sc.gov.br/noticias/mostraintegranoticia.php?codigo=19988

sábado, 28 de março de 2009

Estio

Míriam Santini de Abreu
Um anoitar alaranjado era como calda ardente sobre a Babitonga. Na margem lavrada, a palmeirinha encolhida de umidades sonhava que era plumagem de pavão.

O que é isso?


Tás curioso para saber o que é isso??? Leia a Pobres & Nojentas número 17, que circula em meados de abril!

Rádio Campeche na internet

A Rádio Comunitária Campeche também pode ser ouvida via internet. É só entrar no sítio www.radiocampeche.com.br e clicar em "Escute a rádio aqui". A programação musical é feita por 10 pessoas, com ampla variedade de estilos, gêneros e ritmos, sendo que no mínimo toca 80% de música produzida no Brasil. Tem também os programas ao vivo. Alguns deles: Campo de Peixe (sábado, 11 horas); Pra Desterro Falar (segunda às 20 horas), Comunidade no ar (quarta às 11 horas); Quarta Instrumental (quarta, 20 horas); Chão de Terra (todo dia das 6 às 7); Coisarada (sabado às 19 horas); Músicas do Mundo (domingo, 21 horas); Agenda Sul (quinta às 21 horas).

sexta-feira, 27 de março de 2009

Novidade na equipe de P&N!

Será no dia 16 de abril, no Auditório do Centro Sócio-Econômico da UFSC, às 19h, o lançamento do livro da jornalista Elaine Tavares: “Porque é preciso romper as cercas: Do MST ao Jornalismo de Libertação”. Neste trabalho, Elaine narra uma histórica ocupação do MST, a da Fazenda Anonni, no interior do Rio Grande do Sul, ocorrida em 1985/86. E, nesse contar das lutas das gentes, ela desvela a sua própria trajetória na busca de um jornalismo que se compromete e toma posição, sem perder o foco na realidade objetiva.
São os primeiros passos da discussão do que mais tarde Elaine veio a cunhar como Jornalismo Libertador, conceito no qual se ampara o jornalismo que não é servil, nem porta-voz dos poderosos, mas que narra a vida desde o olhar da comunidade das vítimas, como ensina o filósofo da libertação, Enrique Dussel.
Hoje, falar deste acampamento que existiu no interior de Sarandi, com mais de seis mil pessoas acampadas, é recuperar o caminho histórico do MST, atualmente acossado por agressões de toda sorte, como a que obriga o fechamento de suas escolas no Rio Grande do Sul. Então, o lançamento do livro acaba sendo também um momento de justo apoio a este movimento que tem sido um sendero de luta e transformação.
Assim, o encontro terá o poema de Cesinha, a música de Rafael Galcer e José Amorim, a fala de Vilson Santin, produtos da reforma agrária para serem degustados (vinho, queijo e salame) e o livro da Elaine. Uma noite para homenagear o MST e conhecer suas origens.


Sobre a autora: Elaine Tavares, jornalista e pesquisadora no IELA/UFSC, é gaúcha nascida em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Viveu sua infância em São Borja, na barranca do rio Uruguai e, depois, foi virar mulher às margens do "Velho Chico", em Pirapora, Minas Gerais. Das heranças ribeirinhas que amealhou, estão a paixão pela vida dos que andam nas estradas secundárias e o amor pela narração das histórias. Contar das gentes tem sido sua sina. Vivendo em Florianópolis desde 1987, também aprendeu com o mar que, às vezes, é preciso se jogar barulhento nos penhascos para capturar a beleza de se ser quem se é.


Dia 16. 19h
Auditório do CSE/UFSC

quinta-feira, 26 de março de 2009

Anel de lua

Shânkara, filha de Fernando Karl, colaborador da Pobres & Nojentas, com os dedos enluarados na noite marinha.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O castelo das sete palavras


Míriam Santini de Abreu

Sete palavras nunca escritas, nunca ditas. Sete palavras que desvendam o mundo. Sete donzelas as vigiam, os olhos-marinhos desbotados atrás das barbacãs da muralha. Nas madrugadas de lua cheia, o vento rumoreja a primeira sílaba de cada palavra. Mas ninguém ouve.

domingo, 22 de março de 2009

E louvemos agora as grandes máquinas...

Míriam Santini de Abreu
Ouvi o ronco da motosserra numa manhã. Imaginei que a prefeitura estaria limpando o terreno baldio atrás do prédio onde moro. Mas o resultado eu só vi na noite do dia seguinte, quando cheguei em casa e fui recolher a roupa. Tudo, absolutamente tudo, havia sido arrancado, inclusive a árvore querida na qual pousavam pássaros e que eu gostava de contemplar da janela da sala. De dia fui conferir o estrago. Dela só restou um toco com algumas farpas, em meio a um solo nu e poeirento.
Quando estive em Cambará do Sul (RS), ouvi uma piada freqüente. A região gaúcha não é mais chamada de Campus de Cima da Serra, e sim de Pinus de Cima da Serra. O pinus tomou a terra onde pastava o gado porque dá mais dinheiro. Os produtores, sempre às voltas com as migalhas da pífia política agrícola do governo, agora se dedicam às enfileiradas plantações, que crescem rápido nestas terras do Brasil.
Gosto de “viajar” no Google Earth, que permite observar qualquer parte da Terra, especialmente com o recurso pelo qual se vê o mundo em três dimensões. É com fascínio amedrontado que observo a Mata Atlântica pontilhada de cidades, a Serra do Mar cheias de estrias-estradas, a cratera cinzenta da mina de cobre de Chuquicamata no coração do Deserto de Atacama, o fulgor de Manhattan, tal como no filme AI - Inteligência Artificial. Ali está o resultado do trabalho social no que ele tem de poético, estupendo, perverso. E principalmente o resultado deste trabalho sobre a superfície terrestre. A motosserra que despedaçou a minha arvoreta é filha dessa história, gene de uma linhagem cujo apetite é cada vez mais voraz. Veja o tamanho desta fome em:
www.youtube.com/watch?v=-pLsjqPAIdE
http://www.youtube.com/watch?v=TLhGVOZL8JU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=RLumXbRP3Fc&feature=related

terça-feira, 17 de março de 2009

Alguém que saiba fazer sabão!

Elaine Tavares
Houve um tempo, há muito tempo, em que se podia falar, no Brasil, de uma pobreza digna. Não se tinha muito conforto, nem eletrodomésticos, nem celular.Os móveis eram velhos, mas a comida farta. A mesa, simples, sempre tinha umbom café, um almoço de encher o bucho e até frutas, visto que boa parte das casas tinha um pátio onde vicejava uma ou outra daquelas delícias da infância. Talvez tenha sido daí que surgiu aquele preconceituoso dito popular tão usado até hoje. “Sou pobre, mas sou limpinho”.
Pois eu, que não sou dada a visitas a supermercado, me vi diante até dessa possibilidade. De, em sendo pobre, não poder mais nem ser limpinha. É que, numa das minhas incursões esporádicas, trazia na lista de compras o tal do sabão em pó. Diante da prateleira, pasmei. Fiquei sem voz. Não podia ser possível! Procurei entre as várias marcas e nada. A mais barata custava 6,50 reais.
Chamei o garoto-trabalhador e perguntei se não havia um engano. A marca mais famosa passava dos sete reais. “Não, é isso mesmo”, respondeu o menino, me olhando como se eu tivesse caído de Marte naquela manhã. Fui ao bom e velho sabão de côco, afinal, minha vó já usava. Não podia pagar sete reais por uma caixa de sabão em pó que nem um quilo tem.
Na prateleira do sabão em barra, outro pasmo. O sabão de côco é artigo de luxo. Uma barra custa quase quatro reais. E aí? O que fazer? Como lavar a minha roupa sem ficar com aquela cara de otária, de quem está sendo dilapidada do pouco que consegue ganhar vendendo a força de trabalho num mundo capitalista selvagem?
Uma barra de sabão não seria suficiente para lavar minhas roupinhas, isso ainda considerando meu metro e meio. E comprar várias barras, daria elas por elas. Bom, só me restava procurar alguém nessa cidade que soubesse como fazer sabão de cinza, como nos tempos de antes da minha vó. Tô procurando. Ainda não achei. Esse artigo é um apelo. Quem souber, por favor, me ligue, me mande um correio, me ajude. Alguma coisa precisa ser feita para que eu siga...Desgraçada sim, sem esperanças, perdida de minha humanidade, mas, pelo menos, limpinha....Quem sabe, um dia, a gente, juntos, possa vencer esse sistema tão medonho!!!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Seguem abertas as inscrições para quinta edição das Jornadas Bolivarianas

Seguem abertas as inscrições para quinta edição das Jornadas Bolivarianas, de 06 a 09 de abril na UFSC. A programação é a seguinte:

Programação das Jornadas Bolivarianas – Quinta edição
Auditório da Reitoria/ UFSC
06.04.2009

Manhã
. 8h30min – Abertura
Coordenação: Nildo Ouriques
Era Obama: Estratégias dos Estados Unidos para a América Latina
. 9h - John Saxe-Fernandez – México
. 10h30min - Debate

Tarde
Apresentação de Trabalhos
14h30min
. A concepção de educação escolar bolivariana da Venezuela: Proyecto Simoncito, Escuela Bolivariana e Liceo Bolivariano e os avanços nos 10 anos de governo bolivariano – Débora Villeti Zuck e Francis Mary Guimarães Nogueira
. A reconfiguração do Estado Venezuelano inscrito na Constituição de 1999 e o processo de universalização escolar: As missões Robinson, Ribas e Sucre – Francis Mary Guimarães Nogueira e Maria Lucia Frizon Rizzotto
. Educación popular contra analfabetismo econômico - Mario A. Solano S. (Costa Rica)
. Povos indígenas Latino-Americanos e protagonismo político no Brasil - Liliam Faria Porto Borges e Paulo Humberto Porto

Noite
. 18h30 - vídeo
A crise econômica e política nos EUA
Coordenação: Beatriz Paiva
. 19h - Nildo Ouriques – Brasil
. 20h - Debate

07.04.2009
Manhã
. 8h30min – Vídeo
Direitos Humanos e Democracia na América Latina
Coordenação:
. 9h - Martin Almada – Paraguai
. 10h - Debate

Tarde
Livre
Noite
. 18h30min – vídeo
Resposta da América Latina à política dos Estados Unidos
Coordenação: Fernando Prado
. 19h - Jorge Hernández Martínez - Cuba
. 20h - Debates

08.04.2009
Manhã
. 8h30min – vídeo
Estados Unidos, Imperialismo e Soberania Nacional
Coordenação: Luis Felipe Magalhães Ayres
. 9h - Marco Gandásegui – Panamá
. 10h – Waldir Rampinelli - Brasil
. 11h – Debate

Tarde
Apresentação de Trabalhos - 14h30min
. A política externa brasileira do governo Lula e a atuação da Petrobrás na Bolívia – Márcio Roberto Voigt e Daniel da Cunda Corrêa da Silva
. O outro lado da crise: a vez e a hora da integração – Rafael Moraes e Róber Iturriet Avila
. Dominación versus liberación, la necesidad de construir el socialismo bolivariano aqui y ahora - Coletivo Zamora (Venezuela)
. Tipologia das Revoluções Antiimperialistas na América Latina - Luiz Fernando Sanná Pinto

Noite
Mesa
Terrorismo de Estado e democracia na América Latina
Coordenação: Edgar Matiello
. 18h30min - vídeo
. 19h -Hernando Calvo Ospina - Colômbia

09.04.2009
. 9h – Mesa redonda: América Latina insurgente
Coordenação: Elaine Tavares
. John Saxe-Fernandez – México
. Martin Almada – Paraguai
. Marco Gandásegui – Panamá
. Hernando Calvo Ospina - Colômbia
. Jorge Hernández Martínez - Cuba
. Nildo Ouriques - Brasil

quinta-feira, 12 de março de 2009

P&N na luta contra a criminalização dos movimentos sociais

A equipe da Pobres & Nojentas participou na quinta-feira, dia 12, do Ato Nacional contra a Criminalização dos Movimentos Sociais e em Solidariedade aos Praças de Santa Catarina. Foi um ato em defesa da liberdade de organização das forças populares e pelo direito de cada setor da sociedade e do conjunto da classe trabalhadora de lutar por suas justas reivindicações.

A criminalização dos militantes populares e dos que vivem na pobreza é um sórdido mecanismo de poder utilizado pelas elites dominantes para manter seu “status quo” às custas da exploração da maioria do povo.

Em Santa Catarina, a aliança entre os oficiais da Policia Militar e o governador Luiz Henrique (PMDB) - governo esse que representa a oligarquia catarinense - se tornou uma afronta a todos os princípios democráticos, com perseguição às lideranças estudantis, sindicais e populares, como aos Praças da PM, que lutam por melhores condições salariais.

A tentativa de expulsar e de prender lideranças da corporação; o fechamento do sítio na internet da entidade que representa a categoria, a APRASC; o pedido na justiça de extinção da entidade, bem como, a qualificação do movimento como terrorista e guerrilheiro, tem requintes de um trágico período repressor da nossa recente história, iniciada em 1964. Em Florianópolis, é constante a tentativa de criminalizar os movimentos sociais. O prefeito Dário Berger (PMDB) se utiliza de parte do Comando da PM para prender e agredir dirigentes sindicais, inclusive com ameaças de morte e perseguições a estes diretores.

É preciso unirmos forças contra a repressão e a criminalização. É preciso honrarmos a luta de todos aqueles que dedicaram e dedicam suas vidas por uma País melhor, mais justo e democrático. Não podemos aceitar que o conservadorismo se institucionalize novamente em nossa pátria. Seja no campo ou na cidade, na luta dos sem-terra pela Reforma Agrária, na luta dos sem-teto por moradia, na luta dos trabalhadores por emprego e melhores condições salariais e na luta de todos por uma sociedade mais justa e solidária.

A primeira vez da palavra

Uma palavra
há de ser poética desde que você a coloque em lugar imprevisto, desde que ela dê
alarme, desde que ela quebre o muro da velha ordem. É preciso sempre escrever a
primeira vez de uma frase. E é preciso fazer o serviço com paciência para que o
gozo dê frutos.
Manoel de Barros

Convite da Pobres & Nojentas

Dia 16 de abril, às 19h, no auditório do CSE da UFSC, em Florianópolis, haverá o lançamento do novo livro de Elaine Tavares, editora da P&N, com o título "Porque é preciso romper as cercas - Do MST ao jornalismo de libertação". Também será um ATO DE APOIO E SOLIDARIEDADE ao MST. Mais informações em breve!

segunda-feira, 9 de março de 2009

O benzedor de pedras

Míriam Santini de Abreu

Houve uma tarde em que o calor era como benzedura do Reino de Baixo. Estava eu, como sói acontecer aos açoitados por miragens, coberta com linho, nos pés sandálias ornadas com lápis-lazúli extraído das minas de Badakshan. Karl vinha ao meu lado. E por olhá-lo com olhos de Ishtar, alcei os braços e ordenei aos elementos: - Agora chove.
E então a canícula se rendeu a mim. Os primeiros pingos grossos nos flagraram à beira dos jardins no Mar da Babitonga.
Karl é assim: benze pedras e elas se apaixonam por peixes.

Jornalismo, tranças e raízes


Míriam Santini de Abreu

Penso no texto jornalístico à moda das tranças ou das raízes. Se há seres que falam, lugar e tempo de onde falam, há que trançar com cuidado, arrematando as pontas com a bela fita da linguagem. Os fatos existem porque existimos e damos a eles significados. Mais espaço e história, e o significado aponta para uma direção ou outra.
História tal como pedras e troncos cobertos de musgos sobre os quais as raízes se agarram, se asfixiam às vezes, se interpenetram. Diz Thomas Mann: “É muito fundo o poço do passado. Não deveríamos antes dizer que é sem fundo esse poço?”

Nas ruas rebeldes, presente!...

Elaine Tavares, jornalista
Eu tenho outros pensares sobre a morte. Acredito firmemente que há mortos que nunca morrem. Estes são aqueles, imprescindíveis, que estão sempre na ponta de lança das lutas. Por isso não perco meu tempo com lágrimas. Gosto de celebrar meus mortos seguindo seus exemplos.
Por isso que estes dias, nas passeatas das gentes em luta pelo transporte coletivo, eu os vi, vivos, carregando bandeiras vermelhas, tal qual faziam em vida. Dois queridos companheiros desta UFSC, cujos corpos já não estão. Mas que eu jamais considerarei mortos, porque vivem em mim e em tantos outros que os amam.
Nas tardes quentes em que os jovens estudantes, junto com os militantes sociais, enfrentavam a polícia e o nojo dos passantes, pude vislumbrar o meu querido amigo Eduardo Dalri, militante comunista, implacável diante da injustiça, sempre presente nos protestos e nas lutas. Caminhava colado na pele daquela gurizada que iniciava agora o caminho tantas vezes por ele percorrido. Eduardo nunca morrerá enquanto houver um menino clamando justiça.
E o outro, que vi, riso largo, olhar azul, correndo por entre o povo, foi o Assis, guerreiro da gente, amigo fiel, eterno militantes de todas as causas. Assis sempre puxou a orelha dos estudantes da UFSC, no seu jeito meigo/bruto. “Não sejam burros, tem que lutar”. Ver ali, carregando o carrinho de som, o Diógenes, da Economia, foi ver o Assis. Era o sonho do Assis, um DCE de luta.
E assim são as coisas. Os nossos mortos seguem aí, vivos em nós. Eles não precisam de bustos, de placas, de nada que não seja nossa boa e velha luta. Mas, sempre é bom lembrá-los. E nem precisa ser em datas específicas. Falo isso porque me lembro das mulheres que foram ao sepulcro chorar por Jesus, quando ele se foi. Foram duramente repreendidas por um anjo que guardava a tumba. “Por que procurais entre os mortos aquele que vive?”. Faço minhas estas palavras, e conclamo aos que amam estes dois companheiros que foram para outro plano há tão pouco tempo a não procurá-los entre os mortos. Porque não estão. Eles vivem, nas ruas rebeldes... É lá que o reverenciamos!

domingo, 8 de março de 2009

Berro D'Água

Miriam Santini de Abreu

A propósito de uma postagem no blog
www.filosofadapedra.blogspot.com, em que é citado o livro “A morte e a morte de Quincas Berro D'Água”, de Jorge Amado, fiquei a pensar em como seria o berro da água. Por que a água berraria? E não de trata do sussurro de um fio d´água em meio à floresta, do gorgolejar da água em um velho encanamento, do trovejar de uma cachoeira numa queda de 50 metros. Trata-se de um berro, que também é diferente de um grito. O segundo implica susto; o primeiro, pavor. Quincas Berro D'Água berrou quando tomou água em vez de pinga. Mas o berro era dele, não da água. Teria a água berrado ao perceber que, sendo água, inundaria a garganta acostumada com pinga? A Filósofa da Pedra despertou uma inquietação que irá dar assunto para crônica.

Sobre o Dia Internacional da Mulher

hoje


hoje há uma nova luz no horizonte
e é uma dádiva do dia
hoje
momento a momento
muda o mundo,
a vida acontece
germina o futuro
hoje é o chão da existência

helena kolody

quarta-feira, 4 de março de 2009

Americanas mesquinha

Míriam Santini de Abreu
Não gosto de loja de departamentos. São impessoais, estão sempre lotadas. Mas precisava de um certo produto, que encontrei em uma loja no centro de Florianópolis. Caro, mas comprei. "Vai na Americanas!" - ouvi, dias depois. Lá estaria mais barato. E estava. Fiquei uns 15 minutos escolhendo mais algumas peças do produto. Ninguém à vista para pedir informação. Na fila esperei uns 10 minutos. A moça que me atendeu no caixa, simpática, reclamava de dor nas costas. A cadeira na qual sentava estava longe de ser confortável.
Na saída, chuva assustadora. Eu, assim como outros clientes, espero na frente da loja o aguaceiro passar. Mas decido pedir uma sacola plástica, daquelas grandes, para colocar uns livros, porque a sacola em que haviam embalado minhas compras era muito pequena, sem condições de abrigar algo além das mercadorias. Pois o segurança responde que não. Nada de bolsas. Nao podia dar. Óbvio que a iniciativa não partira dele. Certamente eram ordens do gerente, obedecendo algum coordenador, preocupado com as planilhas de algum diretor cuja cara o vigilante nunca deve ter visto.
Eu já detestava loja de departamentos. Agora detesto mais. E pago o que o comércio de rua cobrar, mas nas Americanas não entro mais. De império mesquinho, que nega sacolas de plástico e não garante cadeiras decentes para os seus trabalhadores, quero distância.

O tempo e o medo



Tem sido assim. Calor e umidade durante o dia, chuva tremenda no final da tarde ou noite. De dar medo.

domingo, 1 de março de 2009

Olhar de viajante


Míriam Santini de Abreu

Um homem com os olhos sombreados pelo chapéu, sentado na beira do rio, conta histórias sobre o saci. Lugar: o sertão paulista. Outro homem, rosto fino marcado por rugas, bate na terra com um sarrafo e revela que assim encontra objetos enterrados na mata, arte batizada de rabdomancia. Lugar: o litoral fluminense. São pessoas assim que os viajantes encontram Brasil afora, memória plena de causos, vidas enlaçadas com todos os que se dispõem a sentar e ouvir.
Há boa literatura sobre viajar, deslocar-se no tempo e no espaço, deixar para trás o que é familiar. Mas os significados disso são sempre muito pessoais. Viajar, penso eu, também é um ato de profunda fé. É preciso acreditar que o tempo passado longe dos amores, dos amigos, do que nos é sagrado, será generoso. Que a sorte será boa. Viajar é se desprender momentaneamente do-que-é para apostar no que-virá-a-ser.
Viagens também revelam o sem-fim de experiências de vida. Muitas vezes fica-se um dia, dois em uma cidade, um pequeno lugarejo, e no terceiro alguém nos cumprimenta, porque nos viu no dia anterior. Ou então basta entrar na padaria de uma ruazinha para receber o sorriso de uma atendente para quem somos ligeiramente familiares. Aí se tem a sensação de já pertencer àquela terra, àquelas rotinas, como se não houvesse lugar para voltar. Ali nascemos, ali ficamos. Por isso o retorno ao lar às vezes deixa a alma cheia de penumbras. A gente percebe que é de todos os lugares, e também de nenhum.
Nas últimas décadas o ato de viajar passou a fazer parte do lazer administrado, com uma imensa rede de negócios voltada para a prestação do turismo. Esse é mais um serviço do capitalismo. Mas conhecer aqueles homens – um na beira do rio, outro na trilha no meio da mata – é algo que não está em nenhum pacote turístico.

Jardim interno


Míriam Santini de Abreu
Às vezes, a alma é lama, mas às vezes é um jardim interno. E às vezes o jardim interno que é a alma espia descaminhos e, como quem não quer nada, entrelaça as sebes delgadas com um outro jardim. E exulta.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Endereço

Que graça! Em que lugar se pensa tanto na
beleza?!


Marujo de patas

Míriam Santini de Abreu
Era leitosa a tarde, parte dos morros coberta pela neblina. Eu mascava azedinhas sobre um tapete de trevos úmidos ao lado do embarcadouro quando o pequeno cão se aproximou. Queria se despedir. Descobrira um grande segredo: sob as águas daquela tranqüila baía homens cruéis haviam escondido um tesouro. Quando abri os olhos para desfazer a miragem, o pequeno marujo de patas já se largava ao desconhecido.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Seminário do Mucap em março

Quando: 5, 6 e 7 de março no Plenarinho da Assembléia Legislativa de Santa Catarina

5 de março

18h: Reunião do MUCAP: avaliação e planejamento do Movimento

6 de março

18h: Transporte Público, com Lúcio Gregório (Secretário de Transporte da gestão da prefeita Luisa Erondina – SP)

7 de março

09h: Organizações Sociais e Privatizações, com Sara Gramemann (Professora da UFRJ)

12h: Almoço na Vigília “Quartel da Liberdade” da APRASC e do Movimento Mulheres que Lutam, na Praça da Bandeira

14h: Organizações Sociais em Santa Catarina: o exemplo do Hemosc e do Cepon, com Mário Zunino (Hemosc)

Após as palestras: debate e formação para a campanha e formação de um projeto de iniciativa popular contra as O.S e em defesa do serviço público.

Contato para inscrições:
mucap@sintufsc.ufsc.br

Experiência e delícia

Míriam Santini de Abreu
Eu às vezes almoço no serviço. Pago uma "quentinha" em um restaurante qualquer no centro de Florianópolis e, quando como, às vezes nem coloco a comida no prato. Fica na "quentinha" mesmo - geralmente apoiada na mão esquerda, e não na mesa - e ainda tenho o hábito de comer sem faca, espetando e cortando tudo com o garfo. Dias desses deixei espantado um colega. - Cruzes, que modos! Me falta finura, admito.
Mas é certo que comer pode ser uma experiência, não só uma necessidade. No Carnaval visitei o Cé e a Val, irmão e cunhada, em Porto Alegre. Os dois têm gosto de preparar delícias. Serviram risoto com alho-poró, que eu só não repeti, depois da terceira vez, porque estava no limite da honra. Pratos, taças, bebida, tudo num impecável serviço de mesa. Tive que admitir: foi uma experiência.

Parque Getúlio Vargas: vida que flui


O Parque Getúlio Vargas, ou dos Macaquinhos, em Caxias do Sul, vivia jogado às traças. Mas, assim como o Parque Cinqüentenário, foi reformado, e agora está assim, ponto de encontro, namoro, caminhada, brisa nas bochechas, vida que flui entre árvores e crianças.

Chimia de figada



Míriam Santini de Abreu
Tive o gosto de mais uma vez participar do ritual de preparo da figada, comandado por minha mãe e minha tia. Lavar, moer, ferver, adoçar e depois despejar a massa viscosa em potes de vidro. E terminar a lida passando a chimia num pão novo! A vizinhança da mãe comenta: - Mas hoje tem tudo no supermercado!
Tem... Mas não a experiência!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A mão que me alimenta

Elaine Tavares
Nós somos a teia de nossas relações. Ao longo da vida vamos amealhando pessoas com as quais costuramos essa bonita colcha que é nossa existência. E, nesse costurar, vamos tecendo a “família”. Coloco a palavra entre aspas porque entendo que família é algo que está além da consangüinidade. Senti isso neste verão quando, trabalhando, não encontrei aqueles que me alimentam nos dias de labor. Eles, que para muitos são invisíveis, se mostraram absolutamente essenciais para minha existência. Sem estas criaturas, a colcha do meu viver ficou mais feia.
Reparei nisso no dia em que os vi voltar. Era uma tarde quente e, ao escapulir da sala para levar um documento, os percebi lavando mesas e preparando o bar para voltar à ativa. Ali estavam com seus sorrisos e seus rostos iluminados. Enchi-me de alegria, pois eles me faziam falta. Num átimo percebi que estes seres também são minha família. Estão colados em mim. O Emerson, que no escondido da cozinha prepara os lanches, a Elisângela que nunca aparece, mas faz aqueles bolos deliciosos que nos espreitam no vidro. O Leandro, o Éderson, o Itamar e a Bruna que se revezam na azáfama de atender toda a gente nas horas de burburinho, sempre com um sorriso, apesar do cansaço. E o Habdon, que invariavelmente tem um comentário sobre a política da América Latina. Nenhum lanche é servido sem uma boa análise.
Cada um deles, presentes no meu cotidiano, tece parte de mim. É das mãos deles que vem o café, o pastel, o bolo, o sanduíche, a energia que move meu corpo nestas tantas lutas. Por isso, nestes dias de volta às aulas, eu me sinto impelida a agradecer. Porque eles poderiam ser só funcionários do bar, seres anônimos. Mas não são. Estas vidas que vendem sua força de trabalho ao Marcos e Angelis, têm nome próprio, são seres singulares, meus companheiros de classe. Cúmplices no sonho de uma vida boa. Eles no balcão e eu criando mundos com palavras. Trabalhadores, todos nós, conspirando para que chegue a sociedade sonhada, na qual não existam explorados nem oprimidos. Essa coisa boa que chamamos socialismo...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Todo Poder é triste

"Não há potência má, o que é mau, há que se dizer, é o grau mais baixo da potência, e o grau mais baixo da potência é o Poder. O que é a maldade? É impedir que alguém faça o que pode, que efetue sua potência. De modo que não há potência má, há Poderes maus. Talvez por isto, todo Poder seja mau por natureza. A tristeza está ligada aos sacerdotes, aos tiranos, aos juízes, porque estes proíbem a potência de se expressar. Todo Poder é triste”.
Gilles Deleuze (1925-1995).


O Abecedário de Gilles Deleuze

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Pobres & Nojentas 16 chegou!

A luta das mulheres dos Praças que tomou os quartéis e às ruas em Santa Catarina – um movimento em defesa da dignidade de uma classe de trabalhadores que sofre com os desmandos do Governo Estadual – é a matéria de capa, assinada por Elaine Tavares, da edição número 16 de Pobres & Nojentas que chega às mãos dos nossos leitores a partir de hoje. A luta dos desabrigados pela enchente que atingiu o Estado no final do ano passado também é contada pelas mãos da jornalista Miriam Santini de Abreu nesta edição. Como sempre, a Pobres & Nojentas, vem para dar voz aos marginalizados e mostrar que outra forma de comunicação e jornalismo, além do que se vê mídia burguesa, é possível de ser construída. Vale a pena conferir esta nova edição que abre o ano de 2009. A Pobres & Nojentas também está à venda na banca da UFSC e na da Catedral, em Florianópolis. Não percam!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Movimentos formam Frente contra Aumento da Tarifa

Marcela Cornelli

Confira abaixo o Manifesto contra o Aumento da Tarifa, lido nesta terça-feira, dia 10/2, na Câmara de Vereadores em Florianópolis. O documento foi elaborado como resultado da formação da Frente Contra o Aumento da Tarifa, formada no dia 9/2, em Florianópolis, que mais uma vez vai chamar toda a população às ruas contra o aumento abusivo das passagens de ônibus na Capital e por um transporte público de qualidade e acessível a todos.

A próxima reunião da Frente Contra o Aumento da Tarifa será no dia 16 de fevereiro, às 18 horas, no Sindicato dos Bancários de Florianópolis.

Manifesto Contra o Aumento da Tarifa

Senhores e senhoras parlamentares:

Na noite de ontem (9/2), nos articulamos - militantes do Movimento Hip Hop, Portal Desacato, Centro Acadêmico Livre de Pedagogia (CALPE-UFSC), Movimento Passe Livre (MPL), PT (Partido dos Trabalhadores), UFECO (União Florianopolitana das Entidades Comunitárias), PJ (Pastoral da Juventude), Juventude Avançando (JÁ), Centro Acadêmico Livre de Arquitetura (CALA-UFSC), Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários (SEEB), Associação dos Praças de SC (APRASC), Movimento Universidade Popular (MUP), Movimento Mulheres que Lutam, Movimento das Esposas e Familiares dos Praças, Consulta Popular, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Centro Acadêmico Livre de História (CALH-UFSC), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Diretório Central dos Estudantes (DCE-UFSC), Centro Acadêmico Livre de Letras (CALL-UFSC), União da Juventude Socialista (UJS), União Catarinense dos Estudantes (UCE), Núcleo Plano Diretor Participativo da UFSC, Grupo de Ação Feminista (GAFE), Centro Acadêmico Livre de Serviço Social (CALISS-UFSC), TV Floripa, Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Estadual de SC (SINTESPE), Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis (SINERGIA), Movimento das Mulheres Trabalhadoras Urbanas (MMTU), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), União Estadual de Moradia Popular (UEMP/SC), Sarcástico, Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina (SINDPREVS/SC), Gabinete do Vereador Battisti de São José, Colegiado Estudantil do CEFET/SC, estudantes e independentes – para construir uma mobilização popular para barrar o aumento da tarifa de ônibus e exigir do poder público, soluções urgentes para o transporte coletivo da Grande Florianópolis.

A Frente Contra o Aumento exige a imediata redução da tarifa, que passou de R$2,50 para R$2,70 em dinheiro e de R$1,98 para R$2,10 no cartão. Um reajuste de 6,66% que ultrapassa os 6,17 da inflação baseado no Índice do Custo de Vida, do Dieese. Se somarmos os reajustes desde 1994, início da administração Amin, os números ficam ainda mais dramáticos: de 1994 até agora, a passagem passou de R$0,30 para os atuais R$2,70 em dinheiro ou R$2,10 no cartão. Isso representa simplesmente cerca de 600% de aumento, contra aproximadamente 218% de aumento na inflação do mesmo período. O drama ganha contornos reais se pensarmos que cada passagem custará 0,6% do total do salário mínimo. Multipliquem por todas as vezes que os senhores e sua família utilizam o sistema e entenderão a revolta do povo de Florianópolis.
Exigimos também a municipalização da COTISA – prometida pelo prefeito Dário Berger, há três anos, que poderia reduzir em até 10% a tarifa – e ainda a execução de um novo projeto para cidade, construído pelas forças populares que a ela querem ter acesso.

É imprescindível acabar com a lógica individualista, antipopular, repressiva, adotada pelos governos municipal e estadual de Dário e Luiz Henrique, que rege aspectos vitais como a mobilidade, acessibilidade e a ocupação urbana.

É inconcebível a manutenção do vínculo entre o custo do transporte e a tarifa e a defesa do sistema privado de concessão. O transporte é um serviço essencial que, de acordo com a Constituição, deve ser garantido pelo Estado, assim como a saúde e educação. A Prefeitura de Florianópolis segue uma política óbvia de priorização do transporte individual motorizado com alargamento de vias, construção de mais elevados, apoio à especulação imobiliária, incentivo à entrada de mais automóveis nas ruas. Age completamente na contramão da vontade da população que pede respostas para os congestionamentos, a poluição, o alto preço da tarifa, a péssima qualidade dos ônibus, a falta de horários, a demora nos trajetos.

Florianópolis será lembrada pelas Revoltas da Catraca de 2004 e 2005, pela resistência das comunidades e da juventude aos abusos e das empresas de transporte e do poder público. E mais uma vez a população está disposta a se levantar para ser ouvida, ocupar vias, apitar e protestar na Câmara e Prefeitura da cidade, debater e buscar soluções para os problemas que os governantes não resolvem.

Florianópolis, 10 de fevereiro de 2009.

Frente Contra o Aumento da Tarifa

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Varais ao sol

Míriam Santini de Abreu
Dizem que o sol nasce para todos. Igualmente banhados pelos raios generosos, teríamos as mesmas oportunidades. Mas não. O sol não é social, ele é natural. E a frase de efeito fica assim apenas bonita, mas nada diz da crua desigualdade da nossa existência. Mas então completo a frase: sol nasce para todos os varais. Ah! Os varais são sociais. A roupa no varal conta um pouco do que somos, do que temos. O vestido de baile na segunda, fraldas na quarta, uma camiseta com o escrito AMOR na sexta, tudo pendurado ao sol. Panos cujo formato, cor, acessórios desvendam parte do que nos move.
Todo o serviço de casa me aborrece profundamente, menos lavar roupa e leva-lá à luz e ao ar. No balde, amontoadas, são algo sem forma; presas aos fios, se libertam. Às vezes, quando estendidas, roçam o rosto da gente, suaves, às vezes furiosas quando lhes açoita o vento sul. E então se enrolam numa promíscua confusão de viscose, algodão, náilon. Quando aparece um vizinho ou vizinha na mesma lida, trocamos olhares cúmplices e um sorriso fugaz. Missão comum: evaporar a água dos panos.
Nos dias em que o sol é ardente, gosto de terminar o serviço e depois me debruçar na janela para espiar o processo de secar. Os prendedores enfileirados parecem andorinhas coloridas. Cantos do mundo onde pano e grampo viram roupandorinha. É prazer igual a chegar em casa minutos antes de uma chuva forte de verão, a tempo de recolher a roupa seca e cheirosa.
Dirão talvez que isso seja coisa desimportante. O mundo se contorce e estou eu a meditar sobre varais. Mas respondo que, tantas vezes, os gestos mínimos ou raros, a pequenez, a desimportância podem ser revolucionárias. Tudo banhado pela luz. Dúvida? Voe para http://admiradoresdevarais.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Filósofa da Pedra


Acontece sempre nas madrugadas em que o vento sul açoita de um modo um pouco mais ostensivo o musgo que cobre as veias da pedra. Então, liberta de seu silêncio absorto, a Filósofa da Pedra, sem bondade nem maldade, sopra inquietações que deslizam rua abaixo, depois rolam, entram em incontida refrega, até se atirarem ao mar. As ninfas que vigiam a entrada da pedra escrevinham garatujas, tentando inutilmente eternizar, em tabuinhas de argila, os impropérios ou as voluptuosas sílabas fundidas no discurso da Filósofa. Sobram fragmentos, muitos deles reproduzidos dia a dia neste blog cujo Verbo vem dos tempos de Set. Quando a Filósofa da Pedra emerge da gruta, visível por apenas 50 milisegundos, envolta em negros cabelos, os olhos latejantes, é audível, sempre, apenas um estilhaço de suas breves palavras:
- Esperem. A grande onda virá...


Blog da Filósofa da Pedra:



A fada de São Chico

Foto de Ana, avó de Fernando Karl, do alto de seus 97 anos.
Uma fada que mora em São Francisco do Sul, SC

Beijos ilhéus ao Karl

Fernando Karl, poeta e jornalista colaborador desta Pobres, completa hoje 48 translações. Recebi Casa de Água, edição comemorativa dos 25 anos de produção poética de Karl. A edição ficou linda e leve. Quem deseja adquirir o livro pode entrar em contato com o Antonio, dono do sofisticado Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do contato@sebodomquixote.com.br ou do telefone: (47)3633-5365. Detalhe: o livro só pode ser encontrado no Sebo Dom Quixote. O preço do exemplar é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00). Isso significa que, por apenas R$ 35,00, você pode levar para casa 25 anos de dedicação ininterrupta à arte de escrever.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O grande jardim

Míriam Santini de Abreu

Contei a Fernando Karl de meu imenso amor pela obra José e seus Irmãos, de Thomas Mann. José, que adorava a lua sob o terebinto do deserto. E Fernando fez um poema:


O GRANDE JARDIM

Dedico à Míriam

O grande Jardim,
em cuja periferia coberta de moitas andei à toa,
já está fechado para mim.

Alguém que visitasse aquela moça gaúcha em seu terraço grego,
ornado com uma pequena balaustrada
e crivado com vasos de terracota,
a flagraria lendo "José", de Thomas Mann.

Alguém que visitasse esta moça chamada Míriam,
dificilmente poderia imaginar que ela fizera
incursões marítimas pelo Adriático em busca de José,
o belo José.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Relatos sobre a Ilha


Os primeiros europeus que aportaram na Ilha deixaram relatos preciosos sobre a natureza, os habitantes, os primeiros povoamentos. Parte desses relatos de viajantes estrangeiros, que nos visitaram nos séculos XVIII e XIX, virou livro. Um dos viajantes, Antoine Joseph Pernetty, esteve na Ilha em 1763, e assim inicia suas observações:"Foi a 23 (novembro 1763) que nos apercebemos pela primeira vez da terra do Brasil, cerca de 15 léguas de distância; entretanto, pudemos ancorar somente a 29, na baía que forma um canal em volta da Ilha de Santa Catarina".
Num dos trechos do capítulo dedicado à história natural da Ilha e da costa do país, Dom Pernetty traça uma impressão peculiar do ambiente que o cerca, especialmente do manguezal:


"...O ar insalubre deste clima é verdadeiramente a causa da palidez dos brancos que ali habitam. Destes bosques onde o sol jamais penetra, elevam-se vapores densos que formam brumas eternas no alto das montanhas que cercam a ilha. As partes baixas, muito alagadiças, estão igualmente cobertas desde às seis ou sete horas da tarde até às oito horas do dia seguinte, quando o sol as dissipa. Estes vapores possuem em geral um odor lodoso que, com a circulação do ar fechada, parece dissiparem-se para dar lugar a outros que se sucedem. Este ar insalubre é corrigido levemente pela quantidade de plantas aromáticas, cuja perfume suave se faz sentir a três ou quatro léguas do mar, levado pelo vento da terra. Entretanto, fica-se recompensado deste abandono da natureza pela singularidade dos animais e das plantas produzidas por este clima. A ilha é amaldiçoada pelo homem rico que quer gozar, mas é muito cara aos naturalistas..."


Fonte: Ilha de Santa Catarina: relato de viajantes estrangeiros nos Séculos XVIII e XIX. Organizado por Martim Afonso Palma de Haro. Florianópolis: Editora da UFSC/Editora Lunardelli, 1990. (3° ed.) 329p.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Montanhas Semiramis




Míriam Santini de Abreu

Diz a lenda que a Deusa, um pouco cansada depois do sétimo dia da Criação, entediou-se com o formato das montanhas Semiramis, na Pérsia. Os cumes pontudos e arrogantes pareciam desafiá-la, a Deusa que os havia criado. Então olhou em volta, os olhos dourados estreitados, desejando outra forma para a pedra que a inquietava.
O seu mundo ainda era um afresco. Num canto dele, espiou uma das criaturas cujo esboço havia lhe custado ordens imperiosas ao barro, para que ficasse da forma como havia sonhado. Um sonho estranho, no qual ela havia custosamente caminhado até o alto das montanhas Semiramis para buscar a Chuva. E a Chuva lhe havia sido ofertada por aquele estranho ser que agora ela observava. Assim que despertou, deitada sobre trevos úmidos, soprou a idéia ao barro e fez o homem.
Agora, findos os dias, estudou os detalhes de sua criação.
Passaram-se eras. E então, a Deusa contemplou os braços do homem. Os braços que fizera para ele. Sorrindo, acariciou com os dedos as pontas incisivas das montanhas Semiramis.



Bolsa da Pobres!

Sucesso total a "bolsa ecológica" de Pobres & Nojentas!

Sol de verão

O sol anda imenso em Floripa. Suam as gentes, as flores, as pedras. Até os pensamentos suam.

E o sol manda um presente:

http://br.youtube.com/watch?v=5MltrnVOG2s

Um espelho no banheiro

Por Elaine Tavares - jornalista

Apesar de estarmos no século XXI algumas questões ainda permanecem estagnadas no serviço público, principalmente na universidade. Uma delas é o completo desconhecimento da “mulheridade”.. Uso esse conceito em vez do de “gênero” porque o segundo não me compraz. Parece-me que de alguma forma esteriliza as lutas pela emancipação das mulheres e torna tudo meio gosmento, sem identidade. Por isso inventei o conceito de “mulheridade”, porque creio que falar da mulher é falar da diferença e da posição de classe. Não dá para só pensar na mulher como um gênero, porque este gênero se divide em classes e as mulheres da classe dominante são tão opressoras quanto os homens, por isso não me permito misturar as coisas.

Quando digo mulheridade quero falar do jeito específico de ser mulher trabalhadora, lutadora, cheia de vontade de mudar esse mundo que aí está como espaço do consumo, da dominação, do medo e da opressão.

Pois um dos aspectos da mulheridade é a beleza. E isso bem que poderia ser considerada coisa do gênero, porque é comum às mulheres que oprimem e às que lutam. Há uma coisa em nós que nos move na direção da beleza, esse jeito de escolher um adereço, uma pintura. Pode ser a mulher mais pobre do mundo, mas ela sempre vai encontrar um jeito de realçar o que é bonito nela. Por isso me encantam as mulheres indianas. Mesmo na mais triste miséria elas vestem-se de cores, pulseiras e pingentes. Sabem que a beleza é um estado de espírito e que se precisa dela para ter força de lutar e mudar as coisas. A beleza nos aquece, enternece, salva. Veja a diferença de uma Margareth Thatcher, a dama de ferro inglesa, com seus terninhos sem sal e o cabelo armado como um capacete. Mulher sem mulheridade. No poder feito um homem, com toda a sua vileza, crueldade, desprovida de ternura.

Outra coisa que atrai ás mulheres é o espelho. Filhas diletas de narciso elas não podem ver um. Porque as mulheres cheias de mulheridade gostam de se ver. No reflexo invertido elas saúdam a beleza, a graça, a ternura que brota nos seus corpos, nos olhos cheios de brilho e vontade de transformar as coisas em volta. Esse adereço indispensável é coisa mítica, é primal. Sem a imagem por inteiro antes do arrancar para o dia, parece que falta algo. É por isso que as mulheres aproveitam cada falso-espelho como as vitrines, por exemplo. Parece que há sempre que confirmar a beleza que nos é intrínseca.

Na Universidade Federal de Santa Catarina o único banheiro a ter um espelho onde a gente se vê por inteiro é o Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Pudera. Ele, geralmente, é dirigido por mulheres. E elas lá sabem muito bem da mulheridade que lhes cabe. Sempre falei deste delicado detalhe do CFH, sonhando com o dia em que o Centro onde trabalho também tivesse espelhos de se ver por inteiro no banheiro feminino. Mas os demais centros são masculinos demais, incapazes de um gesto de ternura e compreensão da mulheridade.

Pois, ao voltar à ativa neste janeiro, tomei um susto. Susto bom. Ao entrar no banheiro do Centro Sócio-Econômico lá estava ele. Enorme. Desci as escadas conferindo o banheiro de cada andar. E, em todos, assomava o santo oráculo da beleza feminina. Isso me deu um alento. Se no CSE, ao assumir a nova direção sob o comando de Ricardo Oliveira, deu-se um passo na direção da compreensão da mulheridade, isso significa que esta universidade pode, sim, um dia mudar. Sair do atraso, do conservadorismo, do pensamento único, patriarcal, colonialista. O professor Ricardo me surpreendeu com esse gesto de profunda ternura e me deu esperanças! Isso foi um bom começo de ano!

A arte vazia do arqueiro de palavras

Schopenhauer

Fernando Karl

Há um pensamento do filósofo alemão Schopenhauer, que li em "O Mundo como Vontade e Representação", que reza assim:
O ponto em que a Coisa-em-si entra mais imediatamente no fenômeno é aquele em que a consciência ilumina a Vontade.
A Vontade é, para Schopenhaeur, irracional. A Vontade, no fundo, não sabe o que quer. E, para educá-la, só há uma saída: focarmos as coisas que nos cercam (ou as coisas que imaginamos) com o Vazio da contemplação tranqüila, sem intenção, desapegada.
Segundo Kenzo Awa, mestre do Kyudô (Caminho do Arco), se quisermos acertar o alvo, devemos proceder assim: “Na máxima tensão, sem intenção”.
Algo dispara a flecha, Algo acerta o alvo.
Algo: outro nome para o Deus, para a quintessência.
Mas também Algo
diz pára de ressentimento
diz pára de medo
diz pára de mentir
diz pára de sofrer
diz pára de desamor
diz pára de pobreza
O Eu, que só será Eu se for um Vazio reverente, se torna o claro espelho do objeto. Wu wei: ação na não ação. Noutras palavras, o Eu deixa fluir, reverente, o Algo que o rege no íntimo; o Eu não se intromete, deixa a onda jorrar, a música ser música.
Vazio (Capítulo 1 do Tao): “Não sendo, podemos contemplar sua essência”.
Objeto (Capítulo 1 do Tao): Sendo, apenas vemos sua aparência”.
O Deus, segundo o Evangelho são João, “é Espírito”. E, sabemos, o Espírito sopra onde quer.
Se me permitem um exemplo: Na máxima tensão, o Eu profundo de cada um de nós contempla, sem intenção, a seguinte cena prosaica: um bule que verte chá fervente na toalha de linho. A Coisa-em-si (que é libérrima e irracional por natureza) é que retém a potência profunda do que está acontecendo com este bule que verte chá fervente na toalha de linho. Se o Eu se intrometer nesta imagem do bule que verte chá fervente na toalha de linho, o Eu só terá a fantasia, a farsa, e se transformará num bicho peludo de longas patas, mais conhecido como ego. Por outro lado, se o Eu deixar fluir a Coisa-em-si deste bule que verte chá fervente na toalha de linho, aí o Eu terá a presença do Algo, do Deus que, respeitado em sua ancestralidade, virá à tona e revelará ao Eu todo o Seu Mysterium.
E sendo Mysterium, é improviso, é Vita Nova, é Algo, é o Deus, é paraíso, é jazz do coração.
Nunca é demais recordar a etimologia do vocábulo Deus: vem do sânscrito –, onde é grafado D'jeus e significa lua clara no céu: mente silenciosa, sem sonhar.
De onde se conclui que o Deus, tendo forma lunar, é o feminino.
O Deus, o Algo, é luz, é consciência.
A quem o Deus serve, a quem o Algo serve? A todo Eu que tiver consciência do Deus, do Algo.
Quando pronuncio a palavra feminino, não me refiro à mulher, mas ao Ser, que tanto pode ser macho ou fêmea.
Há homens que são mais femininos que as mulheres.
O cano do canhão é o pênis masculino; os edifícios pontiagudos são pênis masculinos; o punhal é o pênis masculino.
A árvore é feminina; a pérola é feminina; o vento é feminino.
A Coisa-em-si: aquilo que independe do espaço e do tempo.
A Coisa-em-si independe da causa e do efeito.
Segundo Platão, uma Idéia é aquilo que sempre é, mas nunca vem a ser, nem deixa de ser.
Idéia: objetividade imediata da Coisa-em-si. Para Schopenhauer, a Coisa-em-si é pulsão vital (a Trieb freudiana: força vital). Pulsão como discernimento vital? Ainda mais: pulsão como discernimento vital do discernimento vital. Pulsão (a partir de um aforismo de Lacan): objeto jamais fixável de uma vez por todas. Fixar o que não pode ser fixado, isto é função da arte que cria a consciência que ilumina a Vontade. Para Schopenhauer a maior das artes é a música. Ele a menciona em "O Mundo como Vontade e Representação": se tudo findasse, ainda não findaria a música.

O texto acima, inédito, é um fragmento do livro O cacto e o angorá (o aqui e o agora) – A arte vazia do arqueiro de palavras, de Fernando José Karl.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Varais

Escrevi uma crônica sobre varais para o amigo e jornalista Eduardo Schmitz, do Observatório Local, de Taió. Concordamos: jornalista parece gostar de varal!

Comentário do Eduardo:

Não gosto de tocar nas roupas de varais, a não ser as que jazem estendidas no quintal de casa. São como vampiros cujo gene lhes permite regalar-se ao sol. Carregadas de sensação, são mortas-vivas sedentas de um corpo para deles roubar o espírito e viver outra vez. Quando cursava a quinta série a professora de português (Veneranda) passou à turma a tarefa de escrever alguns versos descrevendo a rua onde cada aluno morava. No meu tinha um trecho que dizia: "Na minha rua existem varais que não se esvaziam mais". Bobinho é claro, mas nunca esqueci deste verso e da visão da rua.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Câmara aprova projeto que pisoteia direitos dos municipários




Veja entrevista com Charles Pires, do Sintrasem, sobre as implicações do projeto

A administração de Dário Berger e a quase totalidade da Câmara de Vereadores de Florianópolis disseram a que vieram na noite de segunda-feira, dia 26. Em sessão que teve convocação extraordinária e que atropelou o regulamento da Casa, foi aprovado o projeto que cria o Regime Próprio de Previdência dos servidores do município. Entre outros problemas, o texto do projeto prevê que o dinheiro arrecadado para garantir as aposentadorias será jogado no mercado financeiro. Como se sabe, os fundos de pensão que administram esses valores são os que sofreram as maiores perdas na crise financeira iniciada em 2008. A alíquota de pagamento também subirá de 8% para 11%, significando perda salarial para os trabalhadores.

Servidores com cargos comissionados praticamente lotaram a galeria da Câmara de Vereadores, deixando de fora quem estava na manifestação contra o ataque ao bolso e aos direitos dos municipários. O SINTRASEM - Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis - organizou a luta contra a aprovação do projeto do lado de fora da Câmara. Para garantir que os servidores não entrassem para protestar, a Polícia Militar isolou a entrada do Plenário. Houve agressão aos manifestantes quando servidores e lideranças sindicais exigiram o direito de entrar na assim chamada "casa do povo". O cinegrafista da TV Floripa, além de outros manifestantes, teve os olhos atingidos por spray de pimenta. E assim começa a segunda administração de Dário Berger em Florianópolis.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Movimento dos Atingidos pelo Desastre se levanta em Blumenau

Míriam Santini de Abreu

Mais uma luta se faz sob a figueira que inunda de sombras a entrada da prefeitura de Blumenau (SC). A maioria dos homens, mulheres e crianças que ali se encontraram na tarde de 22 de janeiro não havia saído de suas casas. Para eles, o que antes era um endereço virou amontoado de terra, pedra e escombros. Identificavam-se pelo abrigo onde foram deixados pelo poder público. Mas já faz dois meses. Agora, formaram o Movimento dos Atingidos pelo Desastre e apenas ontem, organizados, arrancaram uma data na agenda do prefeito João Paulo Kleinübing. Serão recebidos na terça-feira, 27, às 14 horas.

“Houve uma catástrofe, mas não podemos ser esquecidos, não podem tratar isso como coisa normal”, dizia Nelson de Almeida Rodrigues, 53 anos, que está em um abrigo com a família. Ele perdeu a casa onde morava, no bairro Asilo, e quer ver cumprida a promessa que os governantes fizeram de reconstruir as moradias. Há três anos ele também espera a decisão judicial para responsabilizar quem o atropelou quando pilotava uma motocicleta. A cirurgia no fêmur direito lhe custou a plena capacidade para o trabalho. “Tem hora que dá vontade do cara gritar”, desababa Nelson.

O Movimento exige a imediata reconstrução gratuita das casas e definição de prazo para que todos os desabrigados tenham as suas moradias. Também esperam mais agilidade da Defesa Civil, que dá o parecer sobre a situação das áreas que ainda não foram vistoriadas. A luta tem o apoio do Fórum dos Movimentos Sociais e Fórum dos Trabalhadores de Blumenau. Tulio Vidor, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Ensino Superior de Blumenau (Sinsepes), conta que, logo depois do desastre, pessoas ligadas às entidades que compõem os Fóruns começaram a visitar os abrigos para verificar a situação de seus trabalhadores. Formaram-se grupos para fiscalizar, levantar os problemas, esclarecer a população e cobrar providências. Os desabrigados e desalojados organizaram reuniões e duas plenárias e criaram o Movimento dos Atingidos pelo Desastre, que ontem obteve a primeira vitória.

Nelci Klaus de Morais e Luciana Ribeiro não se conheciam, mas agora sabem que há muito em comum a uni-las. Ambas tem três filhos e estão no abrigo da escola Júlia Lopes de Almeida. Antes das chuvas que arrasaram a cidade, elas moravam de aluguel. “Perdi todos os meus móveis, que ainda estou pagando, mas salvamos nossas vidas”, diz Nelci. Agora, recebendo 500,00 por mês e endividada, ela não tem como alugar outro imóvel. Luciana deixou na casa de parentes o que conseguiu salvar. A preocupação de ambas é serem forçadas a sair da sala de aula onde se abrigam para voltar ao ginásio da escola. “O ginásio é quente, tem goteiras, não dá para ficar lá.”

A situação pode ter data marcada para ficar pior. Com a volta às aulas no final do mês, a prefeitura de Blumenau começou a discutir o projeto de “moradias provisórias”. Na verdade, são obras para levar as famílias a galpões. Planeja-se concluir o primeiro no Bairro Badenfurt, onde deverão morar em torno de 40 famílias. Além do Badenfurt, estão mapeadas as regiões do Garcia, Progresso, Velha, Itoupava Seca, Itoupava Norte e Salto. Os prédios seriam locados e adaptados pela Prefeitura para as construções de moradias em parceria com o Governo do Estado. Só que, nas condições definidas pelo município – e sem ouvir as pessoas - os desabrigados não aceitam deixar os atuais abrigos.
Até agora, a prefeitura não deu informações elementares como localização exata, capacidade de pessoas, segurança, respeito à privacidade familiar, tempo de permanência. Também não há garantia de que o tal “provisório” não vire “definitivo”. “Os recursos das doações, que deveriam ser destinados a resolver nosso problema de moradia, estão servindo para aumentar a especulação imobiliária. Isso porque o dinheiro é usado para pagar aluguel de casas e não para a construção das moradias destruídas pelas chuvas”, diz a Carta Aberta à população. Nicacio Antonio Mariano, da coordenação do Movimento, diz que faltam esclarecimentos por parte da prefeitura, e por isso a luta também é por acesso e discussão pública sobre os projetos e propostas em tramitação.

Instalada em um abrigo no bairro Progresso com a filha de 2 anos, Josiane Butci, 25 anos, divide o lugar com cerca de 40 pessoas, e a maioria se conhece porque eram vizinhos. “A falta de informação é o problema maior, porque não sabemos quando e para onde vamos, e quanto tempo teremos que ficar nos galpões”, diz ela.

Os abrigos têm um regulamento que define a hora das refeições. Quem chega atrasado não come. Há denúncias de que crianças são impedidas de se alimentar porque os pais precisam sair para trabalhar e as deixam na companhia de outros desabrigados. O horário de visitas também é controlado, assim como a hora de apagar as luzes. Muitos desabrigados, em suas falas, comparam a experiência a uma prisão. Há outras situações humilhantes, como a proibição de reuniões do Movimento. Qualquer atividade depende de autorização da SEMASCRI (Secretaria Municipal da Assistência Social). Os desabrigados, já fragilizados pela falta de privacidade e de conforto adequado, ouvem ameaças de expulsão do abrigo e de demissão do emprego. Em muitos casos a presença de militares serve para aumentar a intimidação.

Mas dois meses depois do desastre, e agora que na mídia se fala mais do verão e dos turistas, os desabrigados de Blumenau mostram que, para além dos gestos solidários, o que se faz fundamental é a luta.

Outras reivindicações do Movimento


- Os Abrigos Provisórios devem ser construídos em localização adequada, com segurança,
- Participação dos desabrigados nas decisões e definição do tempo de permanência nos abrigos provisórios.
- Direito de reunião, de ir e vir e fim imediato das perseguições e ameaças nos abrigos
- Respeito às famílias nos abrigos e direito de privacidade
- Acesso às informações de recursos das doações e sua destinação final.
- Não-demissão e repressão no ambiente de trabalho
- Reconhecimento do Movimento dos Atingidos pelo Desastre como legítimo representante de todos os desabrigados e atingidos

LEIA MAIS NA PRÓXIMA EDIÇÃO DA REVISTA POBRES & NOJENTAS, QUE CIRCULA EM FEVEREIRO

A voz do Movimento nas ruas

Crédito: Míriam Santini de Abreu, da revista Pobres & Nojentas