segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SOBRE FILMES, SACOLAS PLÁSTICAS, NOVELA... QUE MAIS?

Li Travassos, de Curitiba

Faz tempo que, por diversos motivos, ando com vontade de escrever novamente um texto para talvez ser publicado na Pobres, coisa que nunca mais fiz depois que vim embora de Floripa, mas acaba que sempre falta tempo, e nada... Mas de hoje não passa. Vamos começar pelo fim. Ou quase. Neste sábado, dia 4 de fevereiro, ouvi no programa "Espaço Aberto com Miriam Leitão", da Globo News, uma entrevista com o embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, sobre o aumento de vistos para brasileiros entrarem nos Estados Unidos. Claro, estamos ganhando e gastando mais, então porque não ir gastar por lá? O fato é que este Sr. afirma, no referido programa, que a imagem do brasileiro lá fora mudou para melhor. Que o brasileiro está sendo visto com melhores olhos. Será? Ainda neste sábado, no canal Telecine, passou o desenho americano "Rio" (da 20th Century Fox e Blue Sky Studios). Adoro desenho, quase fui ver este no cinema quando passou, as cenas de divulgação são pássaros dançando e cantando, super lindinho, então fiquei bem animada para ver. Além disso, o filme é dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, o mesmo da trilogia "Era do gelo", que eu adoro... Então tá.

Começa o filme com a tal cena do trailer: pássaros no Rio de Janeiro cantando e dançando, super fofo. Até que são engaiolados por traficantes de animais, e mandados para os EUA. Lá, a gaiola de uma ararinha azul macho, ainda filhote, acaba caindo na rua, no meio da neve, e o bicho é socorrido por uma menina super bacana, que resolve cria-lo como animal de estimação. Quinze anos depois (sabe lá se este bicho costuma viver tudo isso na vida real, mas...) a moça, então dona de uma livraria, recebe como cliente um cientista brasileiro (pra lá de nerd, assim como ela) que ao ver a arara informa que é um animal em vias de extinção de fato, pois há apenas uma fêmea no Brasil, e aquela que ali se encontra seria o último macho. E ele convence a "dona" da arara a levá-la para o Rio de Janeiro, para procriar. Lá chegando (época de carnaval), o macho é colocado junto com a fêmea, que não quer saber de namoro, mas sim de fugir, pois foi criada livremente. Os dois acabam sendo capturados por um garoto pequeno que, com a ajuda de uma cacatua, os rouba para um grupo de contrabandistas de animais. Todos moram em uma grande favela, e os mil barraquinhos da favela são mostrados até a náusea...

Os pássaros conseguem fugir dali, e libertar todos os outros, justo em um dia que tem jogo de futebol na TV, e já tem carnaval rolando na rua, e eles passam por uma praia, onde há vários macaquinhos que roubam as joias dos turistas... As araras estão presas por uma corrente, então são ajudadas a se soltar por um cachorro que tem um desmanche de carros. O cachorro se fantasia de Carmem Miranda no Carnaval. O menino que ajudou a roubar os pássaros também ajuda a salvá-los, já que ele só está no crime por ser órfão e pobre... No fim, claro, tudo acaba bem, as duas araras são salvas pelos cientistas, se reproduzem, os cientistas acabam juntos, e sabe lá se adotam o menor envolvido no crime, ou se apenas o colocam para trabalhar, com beeeeeeeeeeeeem menos de 16 anos, no centro de preservação de ararinha azul que fundaram... Tudo isso, claro, ao som de Tom Jobim, Jorge Bem, Sérgio Mendes...

Vejamos, então, a imagem do Brasil lá fora: tráfico de animais em extinção, favela, carnaval (mulher quase sem roupa), futebol, praia (mais mulher quase sem roupa), menores trabalhando para criminosos, desmanche de carros, macaquinhos ladrões (?!), trabalho infantil... e música de alto nível. Mas mudou muuuuuuuuuuuuito, não foi? Para mim, a serem juntadas a imagem de um típico pássaro brasileiro, malandragem e Rio de Janeiro, ficávamos com o Zé Carioca, da Disney, que ao menos tinha a desculpa de ter produzido a ideia em mil novecentos e antigamente. Se alguma coisa está mudando na imagem do Brasil lá fora, não é graças a esta animação, que nem tem tantas cenas fofinhas assim, acredite! Ainda bem que não fui ver no cinema.

Acabou a noite de sábado? Nããããããooooo. Depois deste filme, veio um de Sylvester Stallone (va bene que deste a gente não espera mesmo nada de bom) chamado "Os Mercenários", em que ele junta vários porrudos de Hollywood numa gang de mercenários, e eles vão invadir "uma ilha latino-americana dominada por um ditador militar" para derrubá-lo do poder. Te lembra o que os EUA gostariam de fazer com algum país?

Bueno, vamos voltar alguns dias atrás e mudar de assunto. Vamos falar das benditas sacolinhas plásticas, que eu, em outros textos, já defendi como um direito do consumidor a ser levado para casa junto com as compras, já que costumam ser usadas para colocar o lixo por uns 80% da população brasileira ou mais, porém vêm sendo tratadas há tempos como o inimigo público número um. Se for para serem substituídas por algo, deveria ser por sacolinhas também de plástico, pero biodegradável, cujo preço já deveria estar embutido nas compras, assim como os destas sacolinhas atuais estão. Pois bem, São Paulo está dando a largada no que creio que vai ser uma das maiores sacanagens contra o povo brasileiro, especialmente contra os pobres, só para variar: as sacolinhas biodegradáveis são cobradas a parte. Beleza. Tem uns e outros que aparecem na TV dizendo: ah, eu não ligo de ter sacolinha, coloco tudo em uma caixa, que coloco no carro, e tudo bem. Que-ri-dos: isto poderia ser feito por vocês desde sempre. Sacolinhas são feitas especialmente para pessoas que NÃO TÊM CARRO (acredite, elas existem!) e precisam carregar as compras na mão, por vezes por muitas quadras.

Outros, completamente fora da casinha, não cansam de sugerir que alguém (a mulher da casa, por suposto, que não tem mesmo nada que fazer) monte vários pacotinhos de jornal (quem, sem ser jornalista, lê jornal de papel hoje em dia, a ponto de ter sempre um exemplar a disposição???) e coloque o lixo nestes pacotinhos. Se furar, alguém terá que limpar toda a sujeira (a mulher, de novo, por suposto)! Se você der sorte de não rasgar, eles deverão por fim ser colocados em sacos de lixo grandes, daqueles pretos, que são, estes sim, muitíssimo prejudiciais para a natureza, mas você tem o direito de fazê-lo, afinal pagou pelo saco de lixo, não? E pela sacolinha, decerto não pagou. Decerto o preço dela não está incluído nas compras. Por isso, a nova sacolinha, biodegradável, será cobrada. E os pobres, que mal têm dinheiro para as compras, vão ter que desembolsar por elas o dinheiro de alguns pães por mês. Isto se não preferirem levar para casa, por um valor maior, as sacolas retornáveis. Tanto umas quanto outras com o nome do estabelecimento, do qual o consumidor sairá fazendo propaganda e pagando por isso.

Tirante toda a sacanagem dos que têm muito sobre os que têm muito pouco, que já não é nenhuma novidade, há que se dar algum destaque ao que há de novo neste suposto comportamento ecologicamente correto. Ele está visivelmente conectado ao que muitos, erroneamente, chamam de feminismo ecológico. Esta linha de ação e pensamento não é ecológica, muito menos feminista. Senão, vejamos: propõe que sejam usadas fraldas de pano; que a comida seja toda preparada em casa; que se evitem as sacolinhas de plástico... Assim, vamos gastar litros e litros de água limpa preciosa lavando fezes e urina; vamos gastar quantidades imensas de combustível preparando separadamente, em cada residência, cada naco de comida que formos levar a boca; vamos deixar de usar sacolinhas plásticas (na sua maioria brancas) para colocar o lixo, e ao invés disso vamos usar os super poluidores sacos de lixo pretos. Bela ecologia!

E onde está o feminismo em responsabilizar as mulheres pela salvação do mundo e da espécie, sugerindo que assumam mais um zilhão de tarefas, ao invés de exigir que os responsáveis produzam fraldas descartáveis biodegradáveis, assim como as sacolas plásticas, e que se elimine dos alimentos industrializados todos os componentes nocivos à saúde? Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus, e a nós mulheres dai soluções e paciência, que a nossa já foi para o saco (de lixo, plástico).

Por fim, quero falar um pouquinho da novela Fina Estampa, de Aguinaldo silva, que passa às 21 e tantos na Globo, e das incongruências de alguns personagens bacanas. Os personagens seriam René, chefe de cozinha, descendente de uma família rica e falida, que troca a perua Tereza Cristina pela trabalhadora Griselda, e a própria Griselda, que trabalhou a vida toda como "faz tudo" para sustentar os filhos sozinha, até ganhar na loteria e abrir uma loja de materiais de construção com uma turma de "faz tudo" do sexo feminino.

A cena que me deixou "bem feliz" com René ocorreu justamente no dia em que ele saiu da casa de Tereza Cristina, e se dirigiu ao filho, menor de idade, na puberdade, a quem ele sempre deixa claro considerar uma criança, e disse: "Não esqueça que agora é você quem manda aqui". Ora, *# e ***! Já seria péssimo se ele dissesse a estúpida frase, extremamente comum em filmes, novelas, e decerto na vida real, que os homens costumam dizer aos filhos machos quando vão embora de casa por algum motivo: "Agora você é o homem da casa", ou a outra, pior, mas ainda não tão horrível: "Agora você precisa cuidar de sua mãe no meu lugar"! Não! Foi: "Agora é você quem manda aqui"! Ou seja, para um homem que não tem problema em usar bolsa, ganhar a vida fazendo comida, namorar uma mulher a quem os inimigos chamam de "bigoduda" e "machorra", externar o estúpido estereótipo de gênero de que o filho que nem entrou na adolescência deve assumir o comando da casa com sua saída, apenas por ter nascido com algo balançando entre as pernas, é de amargar! Tá legal: a mãe do guri é doida de pedra. Mas ou bem ele leva o filho para viver com ele, ou bem ela, que é a adulta em questão, além de ser dona da casa e de tudo o mais, é quem vai assumir as rédeas, que aliás, nunca estiveram nas mãos do marido de fato. Enfim, é uma frase totalmente impossível de imaginar na boca deste personagem. Furo do deus-pai-todo-poderoso-escritor-da-novela.

Outro, de matar igualmente, foi a aceitação, por parte de Griselda, de que uma das mulheres que ela treinou para trabalhar como "faz tudo" em sua loja, tenha cortado a calça do uniforme quase na altura das virilhas, e que use de todas as armas possíveis para seduzir os clientes, quando ela mesma sempre exigiu respeito, e nunca permitiu que abusassem dela por ser mulher. Se Griselda existisse de fato, Deborah não teria a menor chance de trabalhar com ela.

Para terminar meu texto de vez, não posso deixar de chamar a atenção para uma cena entre Griselda e a ex nora Teodora, na qual esta última havia começado a trabalhar em um hotel, como camareira, para conseguir a guarda do filho, criado pelo pai e a avó (Griselda). A ex sogra faz um discurso de que ela poderia limpar quantas privadas quisesse, e jamais conseguiria a guarda do filho, que ela abandonou com o pai, etc., etc. Ora, já deu para a bolinha de todo mundo esta história de que "limpar privada" é castigo, como costuma aparecer nas cenas de presídio (e outras mais) das novelas, e como não deixou de rondar nestas cenas iniciais de Teodora trabalhando pela primeira vez na vida.

Chega de desqualificar o trabalho braçal, de desqualificar o trabalho doméstico, de desqualificar o trabalho braçal feminino, que em muitíssimos casos é de limpeza. Felizmente, desconheço pessoas que nunca tenham limpado uma privada ao menos uma vez na vida. A não ser que não o tenham feito por alguma deficiência física, devem ser pessoas realmente intragáveis, do tipo que não fazem muita falta no mundo. E eu aposto que a maioria esmagadora das pessoas que assistem as novelas da Globo, já limpou e vai limpara ainda, muita privada. Porque defecar é humano, chafurdar na sujeira é coisa de porcos, e dinheiro para pagar alguém para lavar a privada, e fazer todo o resto do serviço doméstico, são poucos que têm. Claro que é um serviço feito na maior parte das vezes pelas mulheres. E que são elas a maioria dos que assistem este tipo de programa. É hora dos autores de novela lembrarem disso de uma vez por todas.

Ufa, ficou enorme, né? É o que dá "ir guardando assunto"... Obrigada a você, que leu até o fim!

Bloco desfila em Florianópolis em defesa das florestas

O Comitê Brasil/SC em Defesa das Florestas formou bloco que irá desfilar no Domingo de Carnaval, dia 19, às 17 horas, na rua da Capela, esquina com a avenida Campeche, no Campeche, em Florianópolis. O bloco chamará a atenção para a defesa das florestas, ameaçadas pelas propostas de mudança no Código Florestal, cujo projeto está no Senado Federal para votação.

Na terça-feira de Carnaval também haverá uma ação na Barra da Lagoa, em conjunto com o Comitê Brasil/SC, em parceria com a ONG Apreender e Tamar, para a campanha “Mangue faz a diferença”.

Leia mais em:

http://www.florestafazadiferenca.com.br

http://comitebrasilsc.blogspot.com

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A democracia e sua expressão

Elaine Tavares

O teórico do jornalismo, Adelmo Genro Filho, já havia revelado no seu livro “O Segredo da Pirâmide” que, apesar de ser filho dileto do capitalismo, existem momentos nos quais o jornalismo não pode esconder as contradições da vida real. Daí a possibilidade do seu caráter revolucionário. Penso que é o que temos visto, nos últimos dias, na televisão. Apesar da posição sempre servil das emissoras com relação ao poder, e das informações aparentemente desconexas, se procurarmos juntar os fios das informações, podemos ter um quadro sem retoques da tão defendida democracia liberal. Nela, ao contrário do que dizem os porta-vozes dos governos, o que não existe é a liberdade. Mas é preciso aclarar: a liberdade dos pobres. A eles é vedado o direito a qualquer reivindicação. Se ficarem quietos, agüentando tudo, está certo. Mas se resolverem gritar contra qualquer filigrana do poder, a força da “democracia” aparece com um estrondo sem lugar.

Todos os dias, a pedagogia da sedução do sistema capitalista joga para dentro das cabeças a idéia de que a democracia do mundo ocidental é a melhor coisa que pode acontecer aos povos. Foi assim quando os Estados Unidos quis invadir o Afeganistão. Pintaram os talibãs como diabos e diziam que a alegria só voltaria ao país se ali entrasse a democracia. Invadiram, depuseram o talibã, implantaram a democracia e tudo seguiu como antes: violência, terror, mortes. Depois foi a vez do Iraque. Sadam era o demônio antidemocrático. E lá foram os soldados estadunidenses a levar a democracia. Resultado: violência, terror e milhões de mortos. Cenas que seguem se repetindo até hoje. Ora, se a democracia iria resolver tudo, como não resolveu? Ano passado foi a Líbia que mereceu a visita da democracia. Que se passa por lá agora? Por que os meios não nos contam? Reina a paz? A mesma que eles querem impor à Síria, agora a bola da vez para receber a democracia.

Mas, não precisamos ir muito longe, no Oriente Médio, para ver como a democracia se comporta. Basta uma olhadinha para nós mesmos. A desocupação da comunidade do Pinheirinho no final de janeiro, com todos os requintes de brutalidade, é um exemplo bem claro. Os empobrecidos, sem casa, sem esperança, sem nada, ocuparam uma terra abandonada. Lá ergueram suas casas e lá viveram por oito anos. Uma vida. Agora, a justiça (assim, com minúscula) decide que ali não é lugar de pobre morar e começa todo um processo de demonização das pessoas. São bandidos, marginais, gentes sem estofo. Não merecem a pena de ninguém, daí que as cenas brutais das casas sendo destruídas, das famílias sendo despejadas, dos animais sendo mortos e outras tantas gentes sendo presa ou desaparecida já não comove boa parte das pessoas. O recado da democracia já havia sido dado: aquelas criaturas não eram gente, logo, a violência é bem vinda. É limpeza.

Hoje, assisti as cenas na Bahia, divulgadas pelos jornais nacionais. Os repórteres falam dos vândalos que saqueiam lojas, dos bandidos que circulam pela madrugada baiana, das “badernas” dos familiares dos policiais em greve e, é claro, os grevistas são pintados como os grandes responsáveis pelo caos que se instalou na bela capital baiana. Então mostram a atitude acertada do governo central que mandou jovens do exército nacional para garantir a lei e a ordem. E mostram alguns moradores saudando a vinda do exército para salvá-los. Os confrontos em frente a Assembléia onde estão os trabalhadores em greve são mostrados como distúrbios irracionais. Nenhuma das reportagens toca no nome do governador baiano, Jaques Wagner, como se o governo não tivesse absolutamente nada a ver com isso. Quando seu nome aparece é como o cara que vai garantir o carnaval, nem que tenha de trazer todo o exército para as ruas. Claro, a folia dos endinheirados é mais importante do que liberar uns poucos caraminguás aos policiais.

Pois essa é tão amada democracia burguesa. A lei e a ordem dos poderosos, dos que tem o dinheiro, dos que tem o poder. Qualquer rugosidade nessa paz do poder, e os remédios são imediatamente utilizados sem qualquer piedade. Há que impedir que a “doença” se alastre e há que agir com rapidez. E as doenças são, comumente, os empobrecidos, os sem-teto, sem terra, sem trabalho, os explorados, gente que vive assim, não porque quer, mas porque é levada à margem pela ganância e a sede de lucros de quem manda. Mas esses precisam ficar quietos, acatar todas as leis que são criadas contra eles, precisam aceitar de cabeça baixa todas as decisões que os graúdos lhes impõe, ainda que sejam injustas e imorais.

E a coisa é tão bem arrumadinha que, por vezes, as próprias “vítimas” – que é a maioria da população – aceitam a idéia de que é preciso viver na paz, sem perturbar a ordem dos que mandam. Aceitar o cabresto e viver das migalhas.

Ocorre que gente há que diz não. Não aceita. Não quer. Gente há que quer morar, viver, comer sorvete, levar o filho ao parquinho, ver um bom filme no cinema. Gente há que não se deixa enganar pelo canto vazio da ideologia que se expressa na escola, na família, na TV. Gente há que luta, que se rebela, organizadamente ou não.

O quadro da democracia burguesa é mais ou menos assim. Os que são jogados na miséria e na exploração, ou se revoltam individualmente e roubam, matam, perdem sua humanidade, ou se organizam em sindicatos, movimentos, e lutam coletivamente por mudanças. Uma coisa ou outra sempre vai acontecer, ou as duas juntas ao mesmo tempo. Não dá para fugir disso. É da condição humana caminhar para a beleza. Ninguém pode aceitar viver sem isso.

Assim, sejamos espertos, observemos as notícias com o grosso lápis da história e vamos ligando os fios. O desenho final é o quadro da opressão massacrando aqueles que querem participar do banquete, enquanto na televisão os lobos aparecem como cordeiros, e os cordeiros como lobos. Um espelho invertido que precisa ser quebrado. Já vimos essa história aqui mesmo na pele, com a revolta da catraca, ou a luta dos professores pelo simples cumprimento de uma lei.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um copo d'água

Fernando Karl

Sonhei que eu nunca havia nascido e, assim ainda não nascido, ardia o meu coração inquieto com a possibilidade de encontrar quarto onde eu beberia um copo d'água no escuro: quando nasci, a primeira coisa que eu li foi:

"A poesia é um copo d'água bebido no escuro"

Mario Quintana

Daí aprendi que, por mais belo que seja o mundo externo, eu só veria

o mundo se eu baixasse as pálpebras.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Supremo é acionado para suspender a desocupação de Pinheirinho

A Associação Democrática por Moradia e Direitos Sociais de São José dos Campos (SP) entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão da desocupação de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). A posse da área é reclamada pela massa falida da empresa Selecta, e vinha sendo ocupada, desde 2004, por cerca de 1,3 mil famílias sem teto.

Ainda segundo a Associação, a União passou a manifestar interesse pela solução do problema e chegou a firmar um termo de compromisso com o governo paulista e com o município de São José para regularizar a gleba de terras. Foi assim que o caso foi parar na Justiça Federal, com decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) suspendendo a desocupação. Mesmo assim, no último domingo, a Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) e a Guarda Municipal de São José dos Campos iniciaram, com extrema violência, a desocupação da área.

PM retoma repressão contra moradores do Pinheirinho

Os moradores do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), expulsos neste domingo (22) em uma reintegração de posse violenta, voltaram a ser reprimidos após enfrentamento com a Polícia Militar de SP. Por volta das 9h, os moradores se reuniram na Praça Afonso Pena, que fica próxima ao terreno que ocupavam desde 2004, para protestar contra a expulsão arbitrária promovida pelos governos estadual e municipal e a Polícia Militar e a Guarda Civil Municipal. Segundo os moradores, o objetivo da manifestação era “denunciar a ação criminosa dos governos estadual e municipal do PSDB que ordenaram de forma ilegal o despejo de 9 mil famílias da Ocupação Pinheirinho, neste domingo”. A Polícia Militar, que está no local desde a desocupação, lançou contra a manifestação bombas de efeito moral e balas de borracha. Além disso, moradores que reclamaram da falta de organização da fila para a retirada de bens e pertences foram agredidos por homens da Guarda Civil Municipal com tiros de borracha. As famílias denunciam que os bens estão sendo retirados pela prefeitura sem a participação das famílias.

O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, disse neste domingo que a ação de reintegração de posse do Pinheirinho, “atropelou” as negociações para a desocupação pacífica do local. Carvalho vinha acompanhando o caso e um de seus assessores, que estava no local durante a reintegração, foi atingido por uma bala de borracha na perna. O governo federal determinou que, além de Carvalho, os ministros José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, acompanhem a resolução do conflito.

Entenda o caso

O terreno ocupado pelas famílias desde 2004 possui 1,3 milhão de metros quadrados e está localizado na zona sul de São José dos Campos. O local pertence à massa falida da empresa Selecta, do grupo de Naji Nahas, que entrou com o processo para a retirada das famílias na época da ocupação.

A ordem de reintegração de posse foi emitida pela pela juíza Márcia Faria Mathey Loureiro, da 6ª Vara Cível de São José dos Campos, no final de 2011 e, desde então, os moradores lutam para permanecer na área. No último dia 17, a reintegração de posse chegou a ser suspensa por liminar concedida pela juíza Roberta Monza Chiari, da Justiça Federal. No entanto, no dia seguinte, foi cassada.

Durante a ação da PM, um juiz do Tribunal Regional Federal (TRF) chegou a determinar a suspensão da retirada das famílias, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) determinou a continuação da reintegração de posse. Um novo recurso foi ajuizado no Supremo Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, pelos advogados dos moradores, para barrar o despejo. Fonte: Brasil de Fato

Veja vídeo da ação da PM em:

http://www.youtube.com/watch?v=DDKp4wJPMxI&feature=share

Leia texto de Raquel Rolnik, urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Em http://raquelrolnik.wordpress.com/2012/01/23/pinheirinho-cracolandia-e-usp-em-vez-de-politica-policia/

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um sítio encantado



Por Jussara Godoi

Encontrei D. Quixote de La Mancha! Ele vive bem aqui pertinho. Com apenas seis horas de viagem podemos desfrutar de momentos agradáveis, junto a ele e sua amada Dulcinéia. "Neni" e "Nesta", como preferem ser chamados, assim como o personagem de Cervantes, vivem felizes a inventar histórias como a "seita do TCHUM", criada e contada com tantos detalhes que o ouvinte jamais desconfiaria que tal "história" só existe em suas mentes.

O lugar onde vivem herdaram dos pais de Neni, que ainda moram com eles. O pai, com 91 anos, e a mãe de 83, ambos com muita saúde e disposição. Neni é o filho mais velho, nunca estudou e viveu sempre no sítio. Casou-se com Ernestina, com quem teve cinco filhos. Quando os filhos cresceram ele deu um conselho: "se vocês quiserem estudar, vão à busca, pois eu não possuo dinheiro para ajudá-los, mas prometo ficar aqui e transformar esse sítio num lugar bom. Assim vocês sempre podem vir me visitar". Os filhos foram embora, estudaram e permaneceram na cidade. Agora, sempre que podem, visitam o pai, que cumpriu sua promessa. Neni se transformou num ambientalista convicto e, apesar de não ter estudo formal, pratica no lugar o método defendido pelo educador Paulo Freire, nem sempre aplicado nas escolas, que é o de aprender a partir do seu local e da sua realidade.

Neni procurou a escola do Município para oferecer aos alunos a oportunidade de ver, na prática, a importância da preservação da natureza e do meio ambiente. E os alunos vêm até ele para "conferir" o resultado do aprendizado em longas caminhadas de conhecimento. Neni não se cansa de falar e de ensinar sobre como fez do seu sítio um lugar para acolher pessoas. Mas não qualquer uma: "aqui só entra quem tem espírito solidário".

Lá no sítio não precisa pagar nada, é chegar e aproveitar, enquanto está lá dentro, de tudo o que o sítio possui, a água, os espaços, as frutas. Mas tem regras claras: é preciso sempre trazer uma pessoa doente, ou velhinha, ou deficiente, para que possa também ter o direito de usufruir. É que, segundo Neni, muita gente não gosta da companhia dos velhos ou dos doentes, preferem sair sozinhos e deixá-los em casa. Ele não acha isso bom.

As instalações são preparadas dentro das condições que o sítio oferece: tem muita água, muito verde, muita fruta e uma cabana, que pode abrigar até umas oito pessoas. Mas dificilmente tem só esse número, pois muitos vão com barracas ou então ficam só durante o dia. Difícil é ir embora.

Cada vez que visitamos esse casal ficamos mais encantados com a simplicidade e a maneira com que os dois encaram a vida. Nesta está sempre a cuidar dos bichinhos, dos idosos, dos que precisam. "Eu sempre gostei de ajudar as pessoas", diz, sorrindo, com seus olhinhos verdes brilhando. Ele passa o dia a plantar e cuidar da água que existe em abundância, fazendo nascer a ideia de construir as piscinas e os açudes. E não é que mesmo com as secas, que ocorrem por lá de vez em quando, Neni nunca ficou sem água.

Já estiveram por lá os representantes de órgãos públicos, para persuadi-lo a pegar algum dinheiro e investir no lugar. Ofertas estas sempre recusadas. "Se eu pegar dinheiro público então todas as pessoas poderão usar o local, já que é do público. Mas não é esse o meu objetivo, pois aqui eu faço tudo quando eu quero, do jeito que eu quero". E tema mais: "eu não preciso de dinheiro, dinheiro só traz problema, vivo bem, com o que tenho aqui".

Todos os dias ele repete, sentado em volta de um fogão de lenha, ou da lareira que ele mesmo construiu: "Como a vida é boa! Para que vida melhor do que esta?". Realmente, viver longe das neuroses das cidades, respirando muito ar puro, se alimentando de forma saudável, sem uso de nenhum tipo de agrotóxico, na terra própria, é coisa que não tem preço. E não adianta alguém oferecer dinheiro para que ele construa com mais “rapidez” as instalações de uso comum. Ele não aceita. Prefere fazer tudo aos poucos, conforme pode.

As leituras que faz são somente da Bíblia, apesar de não seguir nenhuma religião. É daí que ele tira as suas conclusões sobre como viver em paz. Gosta de ficar horas "proseando" com os convidados sobre a vida, sobre o mundo, sobre as pessoas. É "quase" um filósofo! Pode chegar lá qualquer hora do dia ou da noite, que ele recebe com uma gargalhada, como se o aguardasse há muito tempo. Esta é mais uma de suas qualidades.

Lá não se tem hora para nada, em qualquer tempo se prepara uma boa refeição e se reparte com os "outros seres" do lugar: cachorro, pato, gato, cabrito, etc... De vez em quando ele faz uma brincadeira. “Diga lá para os pastores que falam para o povo que quando a gente morrer vai viver no paraíso, entre os bichos, que aqui nós já fazemos isso".

Ele tampouco importa ao "desconfiar" que suas galinhas estão sumindo, e sabe muito bem que o dono da venda recebe muitas delas em troca de "pinga". Obra de um bêbado da região, que dorme na igreja ao lado do sítio. "O coitado precisa e pra mim não faz falta", diz ele. E o Sancho Pança, seu fiel escudeiro, onde está?? Bem, Sancho somos todos nós que o visitamos e ficamos maravilhados ao ouvir suas histórias, seus sonhos e suas risadas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A senhora Quanza coroada a peixes entra na chuva

Paul Biddle, 2009

Um pequeno estudo sobre Física Quântica

Fernando José Karl

A tranquila contemplação do objeto natural: a chuva: onde a senhora Quanza entra coroada a peixes. Deixo-me perder neste objeto: a chuva: mas ainda existindo enquanto puro sujeito do conhecimento.

A senhora Quanza, coroada a peixes, enraiza-se na chuva.

Quem sou?

A resposta se esgueira em torno da pergunta, fixando desesperadamente os olhos em seu rosto enigmático.

De onde vim?

A resposta se esgueira em torno da pergunta, fixando desesperadamente os olhos em seu rosto enigmático.

Para onde vou?

A resposta se esgueira em torno da pergunta, fixando desesperadamente os olhos em seu rosto enigmático.

O que nós, escritores, podemos aprender com os lagartos ou copiar dos pássaros? Na rapidez está a verdade. Quanto mais rápido o jorro, mais veloz a escrita, mais sinceros nós somos. Na hesitação entra o pensamento. Com a demora vem o esforço de encontrar um estilo, em vez de saltarmos para verdade. Mas se procuramos nos voltar para ver o pensamento, aprisioná-lo nas tarrafas da análise e nas armadilhas das definições unívocas, ele também se esvanecerá como fumaça. Há portanto uma singular significação da linguagem, tanto mais evidente quanto mais nos entregamos a ela, tanto menos equívoca quanto menos pensamos nela, rebelde a toda posse direta, mas dócil ao encantamento da linguagem, sempre aí quando confiamos nela ao evocá-la.

Provérbio árabe: “Não é porque o céu está nublado que as estrelas estão mortas”.

O mais insignificante descerra a porta maciça: eis o que tudo é um ponto (.) nada mais.

Um ponto (.) que recebe a alcunha de quantum (unidade de energia luminosa): esse ponto (.), ou quantum, é capaz de deixar a natureza tão flexível, que se torna possível a inexplicável transformação de não-matéria em matéria, de tempo em espaço, de massa em energia.

Devemos aprender o domínio da potentia que está fora do tempo e do espaço: e a potentia que está fora do tempo e do espaço nada mais que o pensamento.

A não-localidade quântica: a consciência é não-local: não acontece dentro do tempo e do espaço: não sou eu quem pensa, mas Algo pensa em mim: não sou eu quem ajo, mas Algo age em mim: esta não-ação preconizada pelas práticas orientais não é senão integrar-se à ação, a superior, a sublime. Um exemplo? Os mestres-arqueiros do Kyudô (O caminho do arco) são capazes, mesmo com uma venda nos olhos, de acertar várias vezes o centro do alvo: daí se chega à conclusão: Algo dispara a flecha, Algo acerta o alvo.

Quantum: unidade básica da matéria ou energia: 100 milhões de vezes menor que o átomo mais ínfimo: no nível quântico, a matéria e a energia estão interligadas: devemos aprender a mergulhar no domínio: Algo ou o Outro : e dali ditar a própria realidade: no nível quântico, matéria e energia tornam-se alguma coisa que não é matéria nem energia: os físicos, às vezes, referem-se a esse estado primordial como singularidade.

O quantum é invisível: a palavra invisível significa que, além de não ser visto pelos olhos, é também imperceptível para qualquer instrumento inventado pelo homem.

O ponto (.) em que a coisa-em-si entra mais imediatamente no fenômeno é aquele em que o fio de ouro da consciência ilumina a Vontade/a Pulsão, que jamais pode tornar-se objeto da consciência, a não ser através de uma ideia (Vorstellung) que a representa.

O fóton (unidade de energia luminosa) é um quantum de luz: cada quantum é feito de vibrações invisíveis: fantasmas de energia à espera de assumir a forma física.

Que algo tão extraordinário como um estado de consciência surja em consequência da irritação do tecido nervoso é tão inexplicável quanto o aparecimento do Gênio quando Aladim esfrega a lâmpada: a consciência existe, é incontestável, e atrás dela nada existe que possamos perceber: mas ela não existe senão acasalada à linguagem, e não é a primeira que aparece, é a segunda: a função da consciência é a de se perder, obscuramente, na linguagem: a consciência não pode se contemplar a si mesma sem passar pela linguagem.

A linguagem não tem nenhuma relação conexa com a realidade: não há pensamento sem expressão: a linguagem é um fenômeno emotivo: nós pensamos frases, não pensamos pensamentos: a palavra é a decisiva simplificação: há menos palavras que frases: o número de sons ou de elementos fonéticos contidos nas palavras é muito menos que as próprias palavras: a escrita registra os sons: não existe memória sem emoção.

A linguagem animal implica uma aderência do sinal com a coisa significada: para que a aderência cesse e o sinal adquira um valor independente do objeto, é necessária uma operação psicológica que está no ponto de partida da linguagem humana.

Na Física Quântica, as coisas permanecem como possibilidades, até que um ser consciente de fato as observe.

A.........................B, C, D, F, G etc

__________

Algo

ou

o

Outro

Toda área abaixo da linha não é uma região para ser visitada no espaço e no tempo. A mente e o corpo ficam acima da linha: A é um evento mental, um pensamento: todas as outras letras: B, C, D, F, G etc, correspondem a processos físicos que se seguem a A.

Os estados mentais são invisíveis e não têm peso.

O pensamento é imaterial.

Todas as mudanças físicas no organismo podem estar ligados a uma cadeia natural de causa e efeito, exceto o espaço abaixo da linha depois de A: ali, no espaço abaixo da linha, é onde respira o Algo ou o Outro: esse Algo ou o Outro é o ponto em que primeiro ocorre a transformação do pensamento em matéria: e precisa ocorrer, ou os outros eventos não ocorrerão: essa transformação não leva nenhum tempo nem acontece em algum lugar.

A imagem assemelha-se a uma fila de pessoas passando uma ânfora umas às outras, onde todas apanham a ânfora da anterior, menos a primeira, que a pega não sabendo de onde: ou talvez a pegue de lugar nenhum.

Na Fonte da inteligência há pouca diferença entre pensamentos e moléculas: as palavras e as imagens funcionam como as moléculas reais para disparar o contínuo processo da vida.

Aquele que se denomina o Algo ou o Outro em nós, é aquele que está para além de uma dimensão imaginária, sendo o portador de um tesouro de significantes, isso é, o Algo ou o Outro é uma instância que é feita de palavras: o significante não é o som pronunciado ao se enunciar a palavra, mas a sua imagem acústica. As palavras: sentimento, então, que, jamais, um, pelo etc: não são significantes porque não formam imagens acústicas. Já as palavras: céu, búfalo, xícara, aqueduto, diamante etc: são significantes porque formam imagens acústicas.

O sim diz respeito ao campo do Algo ou do Outro, pelo fato do sujeito, pela sua inconsistência, só poder aparecer Outrificado.

Sim, faço do Agora o foco principal de minha vida.

O observador silencioso de todo processo: só existe matéria se houver o observador consciente: ao toque de um pensamento um neuropeptídeo (molécula mensageira) aflora na existência: o fóton, que não é quase nada, porque feito de mínima matéria, pode lampejar dentro e fora da existência.

A grande capacidade do neuropeptídeo é a de obedecer aos comandos da mente com a velocidade da luz: 300 mil km/s. No mesmo instante em que você pensa Sou feliz, um neuropeptídeo (molécula mensageira) transforma sua emoção, que não tem nenhuma existência sólida no mundo material, numa partícula de matéria tão perfeitamente afinada a seu desejo que todas as células de seu corpo, literalmente, ficam sabendo dessa felicidade e a compartilham.

No Oriente, meditação significa a ausência de objetos na mente. Quando não há pensamentos se movendo dentro de você, há uma quietude. O buraco real clama por um significante que o fixe a um objeto e por uma imagem que lhe dê consistência, mas tudo o que o buraco real encontra é a marca de um objeto ausente objeto a o silêncio.

De que maneira um padrão neural se torna um vaso sagrado é uma questão que a neurobiologia ainda não elucidou. Se pedirmos para alguém fechar os olhos e imaginar um objeto: vaso sagrado, as mesmas áreas do cérebro se ativarão, como se estivessem vendo o objeto: vaso sagrado. A verdade é que o cérebro não sabe a diferença entre um vaso sagrado que ele vê com os olhos abertos nesta sala, por exemplo, e um vaso sagrado que ele vê com os olhos fechados, através da memória, pois os mesmos neurônios são ativados. Tanto faz se o vaso sagrado está fora ou dentro do cérebro, um padrão neural é que constrói o vaso sagrado com a forma de uma imagem. O objeto: vaso sagrado e a imagem do vaso sagrado, ambos são reais para o cérebro que, depois, repassa as informações sobre o que viu e sentiu sobre o vaso sagrado para todo o corpo.

Tudo o que nos cerca, e nós mesmos, é apenas restolho de um colosso invisível: somos o grande envergonhado que se faz pequenino: não há nada mais atual que a grande infância esquecida: as sombras só ganham vida quando carregadas pelo desejo: a presença insidiosa do desejo: pois o desejo é o cerne da magia: dir-se-ia que é uma lei do espírito só encontrar o que não se procurou: o acaso é fundamental: as partículas não seguem o bom senso: o essencial não ocorre no espaço e no tempo, mas nas tessituras ancestrais do pensamento.

serendipity

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Televisão: fábrica de mais-valia ideológica

Elaine Tavares

A televisão é uma usina ideológica. Gera milhares de megawatts de ideologia a cada programa, por mais inocente que pareça ser. E ideologia como definiu Marx: encobrimento da realidade, engano, ilusão, falsa consciência. Então, se considerarmos que a maioria da população latino-americana, aí incluída a brasileira, se informa e se forma através desse veículo, pensá-la e analisá-la deveria ser tarefa intelectual de todo aquele que pensa o mundo. Afinal, como bem afirma Chomsky, no seu clássico “Os Guardiões da Liberdade”, os meios atuam como sistema de transmissão de mensagens e símbolos para o cidadão médio. “Sua função é de divertir, entreter e informar, assim como inculcar nos indivíduos os valores, crenças e códigos de comportamento que lhes farão integrar-se nas estruturas institucionais da sociedade”. Não é sem razão que bordões, modas e gírias penetram nas gentes de tal forma que a reprodução é imediata e sistemática.

Um termômetro dessa usina é a famosa “novela das oito”, que consolidou um lugar no imaginário popular desde os anos 60, com a extinta Tupi, foi recuperado com maestria pela Globo e vem se repetindo nos demais canais. O horário nobre é usado pela teledramaturgia para repassar os valores que interessam à classe dominante, funcionando como uma sistemática propaganda que visa a manutenção do estado de coisas. É clássica, nos folhetins, a eterna disputa entre o bem e o mal, o pobre e o rico, com clara vinculação entre o bem e o rico. Sempre há um empresário bondoso, uma empresária generosa, um fazendeiro de grande coração, que são os protagonistas. E, se a figura principal começa a novela como pobre é certo que, por sua natural bondade, chegará ao final como uma pessoa rica e bem sucedida, porque o que fica implícito que o bem está colado à riqueza, vide a Griselda de Fina Estampa, a novela da vez.

Outro elemento bastante comum nas novelas é o da beleza da submissão. Como os protagonistas são sempre pessoas ricas, eles estão obviamente cercados dos serviçais, que, no mais das vezes os amam e são muito “bem-tratados” pelos patrões. Logo, por conta disso, agem como fiéis cães de guarda. Um desses exemplos pode ser visto atualmente na novela global. É o empregado-amigo (?) da vilã Tereza Cristina. Ele atua na casa da milionária como um mordomo, cúmplice, saco de pancadas, dependendo do humor da mulher. Ora ela lhe conta os dramas, ora lhe bate na cara, ora lhe ameaça tirar tudo o que já lhe deu. E ele, premido pela necessidade, suporta tudo, lambendo-lhe as mãos como um cachorrinho amestrado. Tudo é tão sutil que não há quem não se sinta encantado pelo personagem. Ele provoca o riso e a condescendência, até porque ainda é retratado de forma caricata como um homossexual cheio de maneios, trejeitos e extremamente servil.

Mas, se o servilismo de Crô pode ser questionado pela profunda afetação, outros há que aparecem ainda mais sutis. É o caso da turma da praia que, na pobreza, hostilizava Griselda e, agora, depois que ela ficou rica, passou para o seu lado, vindo inclusive trabalhar com a faz-tudo, assumindo de imediato a postura de defensores e amigos fiéis. Ou ainda a relação dos demais trabalhadores com os patrões “bonzinhos”, como é o caso do Paulo, o Juan, o homem da barraquinha de sucos, e o Renê. Todos são “amigos” e fazem os maiores sacrifícios pelos patrões, reforçando a ideia de que é possível existir essa linda conciliação de classe na vida real. O grupo que atua com o cozinheiro Renê, por exemplo, foi demitido pela vilã, não recebeu os salários, viveu de brisa por um tempo e retomou o trabalho com o antigo chefe por pura bem-querença. Coisa de chorar.

Nesses folhetins também os preconceitos que interessam aos dominantes acabam reforçados sob a faceta de “promoção da democracia”. O negro já não aparece apenas como bandido, mas segue sendo subalterno. No geral faz parte do núcleo pobre, mas é generoso e sabe qual é o “seu lugar”. É o caso do ético funcionário da loja de motos. Um bom rapaz, que, no máximo, pode chegar a gerente da loja. As pessoas que discutem uma forma alternativa de viver aparecem como gente “sem-noção”, no mais das vezes caricaturada, como é o caso da garota que prevê o futuro, a mulher negra que era bruxa, o rapaz que brinca com fogo ou os donos da pousada que em nada se diferem de empresários comuns, a não ser nas roupas exotéricas. Ou o personagem do Zé Mayer, numa antiga novela, que via discos voadores, não aceitava vender suas terras e, no final, “fica bom”, entregando sua propriedade para a empresária boazinha que era dona de uma papeleira. Os homossexuais também encontram espaço nas novelas, dentro da lógica da “democratização”, mas continuam sendo retratados de forma folclórica, como é o caso do Crô, na novela das oito, ou do transexual da novela das sete. Já o índio, como é invisível na vida real, tampouco tem vez nas tramas novelistas e quando tem, como a novela protagonizada por Cléo Pires, vem de forma folclórica e desconectada da vida real. E assim vai...

Gente há que fica indignada com os modelos que as telenovelas reproduzem ano após ano, mas essa é realidade real. Os folhetins nada mais fazem do que reforçar as relações de produção consolidadas pelo sistema capitalista. Até porque são financiados pelo capital, fazendo acontecer aquilo que Ludovico Silva chama de “mais-valia ideológica”. Ou seja, a pessoa que está em casa a desfrutar de uma novela, na verdade segue muito bem atada ao sistema de produção dessa sociedade, consumindo não só os produtos que desfilam sob seu olhar atento, enquanto aguardam o programa favorito, mas também os valores que confirmam e afirmam a sociedade atual. Prisioneira, a pessoa permanece em estado de “produção”, sempre a serviço da classe dominante. Assim, diante da TV – e sem um olhar crítico - as pessoas não descansam, nem desfrutam.

É certo que a televisão e os grandes meios não definem as coisas de forma automática. Como bem já explicou Adelmo Genro, na sua teoria marxista do jornalismo, os meios de comunicação também carregam dentro deles a contradição e vez ou outra isso se explicita, abrindo chance para a visão crítica. Momentos há em que os estereótipos aparecem de maneira tão ridícula que provocam o contrário do que se pretendia ou personagens adquirem tanta força que provocam um explodir da consciência. E, nesses lampejos, as pessoas vão fazendo as análises e podem refletir criticamente. Mas, de qualquer forma, esses momentos não são frequentes nem sistemáticos, o que só confirma a função de fabricação de consenso que é reservada aos meios. Um caso interessante é o do transexual que está sendo retratado na novela da Record, que passa às dez horas. “Dona Augusta” é nascida homem e se faz mulher, sem a folclorização do que é retratado na Globo. É “descoberta” pelo filho que a interna como louca. Toda a discussão do tema é muito bem feita pelos autores, sem estereótipos, sem falsa moral. Mas, é a TV dos bispos evangélicos, que, por sua vez, na vida real pregam a homossexualidade como “doença”. São as contradições.

De qualquer sorte, a teledramaturgia brasileira deveria ser bem melhor acompanhada pelos sindicatos e movimentos sociais. E cada um dos personagens deveria ser analisado naquilo que carrega de ideologia. Não para ensinar aos que “não sabem”, mas para dialogar com aqueles que acabam capturados pelo véu do engano. Assim como se deve falar do que silencia nos meios, o que não aparece, o que não se explicita, também é necessário discutir sobre o que é inculcado, dia após dia, como a melhor maneira de se viver. Pois é nesse entremeio de coisas ditas, malditas e não ditas, que o sistema segue fabricando o consenso, sempre a favor da classe dominante.

Justiça do Trabalho bloqueia R$ 4,7 milhões da BRF Foods

A Justiça do Trabalhou determinou na quarta-feira,18, o bloqueio R$ 4.710.000,00 (quatro milhões, setecentos e dez mil reais) da conta bancária da Empresa BR Foods (Sadia S.A. e Perdigão). Os valores já estão à disposição da Justiça do Trabalho em razão de convênio que permite aos Juízes do Trabalho bloquear de forma on-line as contas das empresas.

O dinheiro foi bloqueado em razão do descumprimento de decisão judicial que obrigou a empresa a conceder pausas de recuperação de fadiga de 8 minutos a cada 52 minutos de trabalho em atividades repetitivas (item 17.6.3 da NR 17), e notificar as doenças ocupacionais comprovadas ou objetos de suspeita de seus empregados na Unidade de Capinzal, no meio oeste catarinense.

A empresa já havia sido intimada a cumprir obrigações em junho de 2011, tendo descumprido a determinação, fato que gerou a multa de quase R$ 5 milhões.

A decisão judicial do bloqueio foi publicada hoje no Diário Oficial do Estado (DOE).A direção da BRF Foods tem prazo de 5 dias para embargar o decisum que será julgado pela Vara do Trabalho de Joaçaba.

Entenda o caso:

No dia 08 de fevereiro de 2010, a Juíza da Vara do Trabalho de Joaçaba, Lisiane Vieira, concedeu tutela antecipada em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho obrigando a empresa a conceder pausas de recuperação de fadiga de 8 minutos a cada 52 minutos em atividades repetitivas e notificar as doenças ocupacionais comprovadas ou objetos de suspeita. A mesma tutela proibiu a BRF Brasil Foods S.A . de promover jornadas extras para minimizar os efeitos nocivos do trabalho a seus funcionários. Ao julgar mandado de segurança movido pela empresa, o Tribunal Regional do Trabalho cassou a tutela antecipada, mas em recurso interposto pelo MPT o Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade, restabeleceu a decisão da Vara do Trabalho de Joaçaba.
O descumprimento das pausas gerou a execução de multa no valor de R$ 10.000,00 ao dia, desde 28/06/11. Também foram executadas multas de R$ 20.000,00 ao dia, desde 28/06/11, em razão da BRF Brasil Foods SC não emitir Comunicações de Acidentes de Trabalho e por prorrogar a jornada de trabalho. As multas somam R$ 4.710.000,00 (quatro milhões, setecentos e dez mil reais). O Frigorífico solicitou à Justiça a nomeação de um bem em garantia ao invés de realizar pagamento em dinheiro, pedido negado em razão da legislação processual estabelecer prioridade de penhora em dinheiro.

A Empresa:

A BRF Brasil Foods fechou 2010 como a terceira maior exportadora do país e um faturamento líquido de R$ 23 bilhões. É uma das maiores empresas de alimentos do mundo, e foi criada a partir da associação entre a Perdigão e Sadia. Atua nos segmentos de carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos industrializados (margarinas e massas) e lácteos, com marcas consagradas como Perdigão, Sadia, Batavo, Elegê, Qualy, entre outras.

A BRF Brasil Foods S.A. de Capinzal que responde por 9% das exportações mundiais de proteína animal é a única companhia do Brasil com rede de distribuição de produtos em todo o território nacional. A Unidade que abate cerca de 450.000 frangos/dia, emprega hoje 4.500.

Importante salientar que perícias realizadas em frigoríficos apontam que cerca de 20% de toda a mão de obra do setor estão acometidos de doenças ocupacionais.

Processo: ACP 01327-2009-012-12-00-0 e CS 01327-2009-012-12-01-2