sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O povo Mapuche segue em luta

Por Elaine Tavares – jornalista

Pouca gente sabe, mas existe um povo que nunca foi conquistado pelos espanhóis aqui na América Latina. Com a chegada dos brancos europeus, civilizações complexas foram dizimadas, estados foram destruídos, nacionalidades extintas. Mas, o povo que habitava as margens dos rios Biobío e Toltén, no que é hoje o sul do Chile, nunca se deixou vencer, nem mesmo pelos incas que, antes da dominação espanhola, também chegaram a conformar o império do Tawantinsuyo.

Ao longo de 300 anos de invasão européia, este povo guerreiro enfrentou com valentia e audácia a fúria dos espanhóis até ser reconhecido como um estado autônomo dentro do imenso território conquistado. São os Mapuche, palavra que designa “gente da terra”, na língua mapudungun. Nestes séculos todos em que reinaram Espanha e Portugal aqui por estas terras, os mapuche resistiram altivamente a qualquer investida, chegando a usar, com sucesso, táticas de espionagem bastante eficazes. Além disso, incorporaram as novidades das forças produtivas inimigas para fortalecer a sua defesa.

Pois esta gente única, hoje segue em pé de guerra, agora contra o estado chileno que tem atuado como opressor e também contra as transnacionais que invadem seu território. Nunca vencidos, os mapuche enfrentam com a mesma dignidade ancestral, os novos desafios que se apresentam. Saber da sua história é o primeiro passo para compreender suas demandas político/econômico/culturais e adentrar pelas intricadas trilhas de Abya Yala (nome dado pelos originários ao que os brancos chamam de América Latina).

Luan-Taru – o grande herói mapuche
Assim que desembarcaram na parte leste do que hoje é América do Sul os espanhóis iniciaram suas guerras de conquista e destruição, derrotando primeiramente os incas. A região mapuche, mais ao sul, logo passou a ser também espaço da cobiça. Muitas foram as batalhas entre eles e os invasores. Numa dessas escaramuças, em 1546, um menino mapuche, filho do lonko (guia do povo) local, foi capturado pelas tropas inimigas. Seu nome era Luan-Taro, de luan (guanaco) e de taro (conhecida ave de rapina da região), que na língua mapundungun queria dizer “veloz”. Ele tinha pouco mais de 11 anos e foi levado para servir ao comandante Pedro Valdívia. Durante muito tempo participou das batalhas, cuidou dos cavalos, fez-se ginete e aprendeu táticas militares. Por não saber pronunciar direito seu nome os espanhóis o chamaram Lautaro. Seus olhos escuros observavam todas as atrocidades que as tropas de Valdívia cometiam contra seu povo. Ele se fazia mudo e aprendia mais e mais.

No ano de 1552 Luan-Taru montou num cavalo e deu de rédea pelo campo afora. Os espanhóis não fizeram caso, era só mais uma fuga de “índio”. Só que este não iria apenas escapulir e sumir da vista dos espanhóis. Ele imediatamente se apresentou diante dos chefes mapuche e ofereceu-se para ensiná-los a lutar. Mostrou o cavalo – até então desconhecido pelos originários – ensinou a montar e a tal ponto que os mapuche tornaram este animal quase como uma parte do seu ser. Usaram a vantagem do inimigo a seu favor, transformando-se em centauros, quase invencíveis sobre o cavalo. Luan-taru ainda os ensinava a lutar em campo aberto, introduzia novas armas, mostrava as técnicas de guerra aprendidas com os espanhóis e usava cada uma delas para enfrentá-los em pé de igualdade. Tamanha foi a liderança deste jovem mapuche que em pouco tempo era escolhido como o Toqui (chefe máximo na guerra).

Tornado líder das batalhas, Luan-taru ensinou a técnica do batalhão, da retirada estratégica e ainda criou um eficaz sistema de espionagem que envolvia crianças, velhos e mulheres. Eles eram introduzidos no contexto espanhol como traidores do povo mapuche, loucos, bêbados ou servos e, fingindo não entender o idioma, arrebanhavam informações importantes que eram repassadas por um também engenhoso sistema de sinais enviado através dos ramos das árvores. Foi por conta da sabedoria militar de Luan-taru que o próprio Valdívia caiu prisioneiro dos mapuche pouco tempo depois. Sob a liderança do jovem Toqui, os mapuche enfrentaram por anos, sem fraquejar, as tropas espanholas. A palavra de ordem que movia as gentes era o seu grito de guerra: “Adiante, mapuches, vamos tomar Madrid”. Ele não chegou a Madrid, mas tampouco foi vencido em batalha. Sua morte se deu num acampamento perto do Rio Maule. Luan-taru descansava nos braços da sua mulher, Guacolda, numa tenda de campanha. Emboscado por uma pequena tropa liderada por Francisco de Villagra, ele foi surpreendido e transpassado por uma lança, no ano de 1557. O jovem Toqui encantou, mas a luta mapuche não acabou. Como um verdadeiro mestre ele havia ensinado seu povo, e a resistência seguiu pelos 300 anos afora.

Os mapuche e o estado chileno
A luta do povo Mapuche não foi em vão. Diante de um continente dominado, a Espanha obrigou-se a aceitar a autonomia desta nacionalidade, sendo traçadas, inclusive, fronteiras territoriais bem claras. O “wall mapu”, território e também espaço sagrado dos mapuche, permaneceu intacto até que chegaram as guerras de independência. Durante este processo os mapuche foram, por várias vezes, mostrados como exemplo, inclusive por Bernardo O´Higgins, um dos grandes heróis da independência do Chile, que falava fluentemente o mapudungun. Mas, com o passar do tempo, e já sem a presença de O´Higgins, a nação mapuche teve de enfrentar a saga capitalista que começava a se expressar nos estados-nacionais criados pós independência. Depois de uma década de conflitos, estabelece-se o conservadorismo no Chile, e os ideais de Bolívar são esquecidos. Descobre-se a riqueza do cobre e do trigo. Em 1861 o liberalismo se instala e duas décadas depois havia “modernizado” o país a partir da exploração do cobre e do salitre. Neste período inicia-se uma campanha agressiva de “nacionalização” do Chile, e a proposta era a de incluir todas as diferenças no conceito único de “chileno”, daí o processo que ficou conhecido como “pacificação da Araucanía”, região onde viviam quase duzentos mil mapuche.

Este foi um período conturbado, com inclusive a presença de um francês na área do Arauco, que havia se autoproclamado rei. Aquele era, portanto, um espaço conflagrado e o governo decidiu iniciar um trabalho de colonização, criando cidades, abrindo estradas, levando escolas e hospitais. Mas, neste movimento, a república chilena jamais reconheceu os mapuches como um povo autônomo, que tinha sua própria cosmovisão e sua forma original de organizar a vida. Considerava-os “araucanos”, simples moradores daquele espaço de terra e acreditava que todos deveriam se unificar sob a mesma bandeira. Não houve conversa nem respeito.

Neste meio tempo, em 1879 o Chile trava com a Bolívia a Guerra do Pacífico, por conta das minas de salitre. O ouro branco era responsável por quase 75% dos ingressos financeiros do país. . Não bastasse isso, se registrou a existência de ouro nas terras do sul, o que tornou ainda mais aguda a ocupação do território mapuche. Assim, a chamada pacificação acabou sendo uma guerra suja e significou justamente a invasão do “wall mapu” por hordas de aventureiros e de colonos enviados pelo governo que tomavam terra, gado e expulsavam violentamente as famílias. Então, aproveitando que o exército nacional estava envolvido na guerra do pacífico, os mapuche se levantaram em rebelião. Mas, com o fim da guerra com a Bolívia, o exército voltou seus olhos para a região mapuche e recomeçou a ocupação. Durante muito tempo o povo resistiu, mas no ano de 1881 os mapuche foram finalmente vencidos e incorporados à república chilena, perdendo o estatuto de comunidade autônoma. A partir daí os originários foram colocados em “reduções”, e suas terras ancestrais passaram para as mãos dos colonos brancos enviados para “civilizar” um espaço territorial que desde os tempos imemoriais estivera sob o domínio do povo mapuche. Este mesmo processo de colonização também foi encaminhado no lado argentino, para onde se estendia o wall pamu.

A resistência mapuche
Desde a derrota diante do exército chileno em 1881, os mapuche seguiram resistindo na intenção de recuperar seu território, porque para este povo, o território não é apenas a terra. Ele significa uma unidade física e cosmológica, onde coabitam seres humanos, bichos, matas, rios, deuses, enfim, é muito mais do que a idéia de propriedade privada imposta pelo capitalismo. No vídeo “El despojo”, fala um mapuche: “Os deuses habitam esse lugar, e nós nos sentimos protegidos pela paisagem. O território não é só terra, é herança cultural. Da terra vem a araucária, que nos foi dada por deus, dela vem o pinhão que recolhemos e que nos permite viver. É nossa riqueza”. Há uma relação profunda entre a vida mapuche e os deuses que habitam o wall mapu. “Eles se comunicam através do sonho e assim nós sabemos se o verão vai ser bom se a colheita será farta, se o inverno vem rigoroso”. Sem wall mapu os mapuche perdem essa ligação. Um pouco da compreensão desta realidade foi conseguida durante o governo de Salvador Allende, que iniciou um processo de Reforma Agrária no qual respeitava a lógica mapuche de organização da vida, fincada na comunidade. Mas, a ditadura militar chilena, que inicia em 1974, com o golpe liderado por Augusto Pinochet, promove mais uma divisão das terras comunitárias que se havia conseguido ao longo dos anos de luta. Não bastasse isso, a região da Araucanía, a exemplo do que passou a acontecer também no sul do Brasil, se transforma em espaço da plantação do pinus, matando as araucárias. E as personagens nefastas que vão tomando conta da terra mapuche são as transnacionais do campo do reflorestamento. Heresia pura. A terra que dá o pinhão, a unidade sagrada, é rompida em nome do lucro e da “plantation”.

Em resposta a essa política da ditadura a luta mapuche se organiza de forma mais orgânica e começam os movimentos pela recuperação do território e pela auto-determinação que eles lograram manter ao longo de mais de 300 anos, em pleno domínio espanhol. Nos anos 90, com a instituição do Aukin Wallpamu Ngulam (Conselho de Todas as Terras – espaço de organização e governo do povo mapuche) esta nacionalidade inaugura nova onda de mobilização com a ocupação das empresas transnacionais de reflorestamento e de energia, incêndio das plantações, passeatas, ocupações de prédios públicos. Uma reação radical que os coloca hoje sob a Lei de Segurança Nacional e os denomina “terroristas”. O estado chileno, sob o comando de uma ex-ativista de esquerda, sequer deu fim a esta lei arbitrária da ditadura de Pinochet. Os militantes mapuche, quando presos em algumas destas ações que visam a recuperação e a proteção do seu território, são presos como bandidos e ainda está longe de o estado chileno compreender a dimensão do que seja a nacionalidade mapuche e o que significa para esse povo manter seu espaço original.

A luta hoje
Conforme conta o professor de história e militante da causa mapuche, Bóris Ramírez, a luta hoje está amparada em três grandes eixos: recuperação do território ancestral, autodeterminação e fim da discriminação pelo Estado. E o que se vê no sul do Chile é um enfrentamento entre o estado e o povo, num contexto de completa militarização da região da Araucanía e criminalização do movimento, no qual os mapuche em luta são presos, torturados ou assassinados sob a denominação de “terroristas”. É a completa inversão da história. Aqueles que são os donos da terra – que foram roubados e espoliados – são os que agora se tornam os vilões por quererem de volta o que sempre lhes pertenceu. Mas, no Chile, o racismo é uma doença endêmica e só agora, com as lutas do povo mapuche avançando para dentro das cidades, onde estão muitos dos membros desta nacionalidade, é que este tema começa a ser desvelado. Desde os tempos da chamada “pacificação” os winka (os brancos) consideram que é legítimo colonizar as terras dos “índios”, porque, afinal, para eles, aquele povo que se manteve autônomo por tanto tempo nesta América dominada, não deve nem ser humano. “O racismo é uma coisa bem séria no Chile. Custa muito reconhecer a mestiçagem, e há muita discriminação contra peruanos e equatorianos. É uma contradição porque na escola se usa muito a história dos mapuche como um povo guerreiro que resistiu ao império espanhol, mas, por outro lado, essa imagem fica só no passado. Hoje, os mapuche são apontados como bêbados, vadios e sequer são reconhecidos como cidadãos chilenos, uma vez que qualquer ação deles não é julgada pela lei ordinária, e sim pela Lei de Segurança Nacional”, conta Bóris.

Outra contradição é que o governo finalmente assinou o Convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que define os direitos dos povos originários e de outros grupos que se constituem uma identidade própria, como os quilombolas, mas apesar disso segue tratando os mapuche como bandidos. “Seria necessário uma redefinição constitucional para que esta questão se resolvesse pelo menos do ponto de vista do direito. Porque a Constituição chilena não os reconhece como um povo originário, que tem direito a autodeterminação”.

Reconhecidos ou não pelo governo chileno, para os mapuche a luta segue. E, hoje, o que era uma batalha dentro das fronteiras do estado-nação, já tomou outras dimensões. Os principais embates da nacionalidade mapuche são contra as grandes empresas florestais e a as hidrelétricas, a maioria propriedade de empresas estrangeiras, uma vez que no Chile, o processo neoliberal foi levado às últimas consequências. Então, a luta assume proporções gigantescas porque o enfrentamento é com o próprio capital, que se expressa ali na região através destas empresas cujos donos estão em lugares não sabidos. Não é sem razão que, praticamente todos os dias, tenha algum mapuche sendo preso ou assassinado. É a razão da força se impondo tal qual nos tempos coloniais.

As relações com os demais movimentos sociais
A luta dos mapuche até bem pouco tempo era uma coisa meio fechada, resolvida entre eles. Pudera, fica difícil confiar nos winka (brancos). A própria esquerda também tem visões muito diferenciadas sobre a questão indígena. Há quem defenda a integração, outros a “guetização”, o que torna o diálogo bem mais difícil. O novo movimento originário que se expressa em Abya Yala com mais vigor desde o final dos anos 80 não quer mais este paternalismo fingido que vigorou por décadas nos países, com os originários sendo tutelados em reservas, e também não querem essa proposta de “branqueamento” que se expressa na idéia de “integração”. Os originários querem o direito de viver nas suas terras, de acordo com sua cultura e seguindo outras formas de organização da vida. Daí a proposta dos estados plurinacionais, que em nada quer dizer separatismo como querem fazer crer os racistas que não aceitam a idéia de que um povo possa ter mantido ao longo de todos estes anos sua identidade originária.

No Chile, hoje, os mapuche já conseguiram sair de suas fronteiras e estabelecer parcerias políticas. Vários movimentos sociais apóiam a luta originária e nos episódios de prisão ou assassinato, se manifestam, dão suporte e denunciam internacionalmente. Além disso, participam ativamente das marchas e protestos que o povo mapuche organiza para se fazer visível a um país que insiste em não reconhecê-lo. Mas, segundo Ramírez, esta parte da esquerda organizada ainda é muito pequena no Chile, embora contribua muito ao levar a discussão para o reduto winka.

A organização dos mapuche avança agora no rumo da Argentina, o que torna o assunto ainda mais complexo, por sair das fronteiras do estado-nacional. É que a região de Neuquén, no país vizinho, faz parte do território ancestral, o wall mapu, e os mapuche que ali vivem igualmente se sentem parte da mesma nacionalidade. Não é à toa que esta aproximação seja vista como um “perigo” pelos governantes dos dois países, incapazes de compreender a nova configuração do mundo abyayálico. Os povos originários não entendem o mundo como um espaço esquadrinhado artificialmente pelo povo conquistador. Eles vivenciam seu território como espaço unitário de corpo/terra/espírito/deuses. As fronteiras são outras. E a proposta de autodeterminação é a única possível para estas nacionalidades que se encontram firmemente organizadas num tronco comum de cultura. Eles não buscam se separar do estado-nação onde estão fincados, mas exigem que este estado os reconheça como nacionalidade autônoma, capaz de gerir seus destinos e também de atuar em sintonia com os interesses de todo o povo chileno e argentino. Entender isso é dar um passo para o futuro. A América Latina não pode mais ser a mesma que foi fundada hegemonicamente pelos criollos com as guerras de independência. Assim como muitos estados-nação estão refundando suas repúblicas, tais como a Venezuela, o Equador e a Bolívia, também o continente precisa se refazer. Abya Yala reclama seu lugar. E o povo mapuche está fazendo sua parte nesta nova conformação. Das entranhas da Araucanía ouve-se o grito mapuche de Luan-taru e todos os outros heróis tombados: pulchetun... pulchetun... Esta palavra, na língua dos “hombres de la tierra”, quer dizer: faça deslizar a flecha mensageira. E lá vai ela, rasgando as fronteiras, constituindo a terra do esplendor.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Centro de Recreação E.T


Pobres e Nojentas em tarde de descontração no centro de Recreação E.T. Lugar perfeito para quem está sofrendo mal de amor, solidão, medo, angústia. É só chegar e tudo passa. Não é a ilha de caras, é claro. Mas, na ilha de Meiembipe, é o melhor lugar para se ficar.

domingo, 1 de novembro de 2009

Lentamente, ao sol

Elaine Tavares
Finalmente o sol. Queimando, esquentando, ardendo. Saio de um lugar ruim, cabeça fervendo. Caminho a esmo pelo centro de Florianópolis, olhando as pessoas e pensando na fragilidade da vida. Tão pouco tempo temos neste planeta azul. O tempo da gente comparado ao tempo histórico da raça é um grão de areia. Vou repassando nossa insignificância individual, enquanto percebo nas caras que passam por mim a urgência dos tempos modernos. Toda a gente tem pressa demais. Eu também, tal qual o coelho da terra encantada de Alice. “Não tenho tempo... não tenho tempo”. E o tempo, como já falou Einstein é tão relativo. Tempo do relógio? Tempo da natureza? Tempo biológico? Qual deles vamos seguir?...
Naquela tarde de quinta-feira meu tempo era o interior. Misteriosamente estava lento. Lembrei de Milton Santos, o nosso grande geógrafo, que dizia: “O futuro será dos homens lentos”. Ele era um mestre, deveria estar com a razão. Talvez seja mesmo hora de diminuir o ritmo, fazer como no poema... “Se eu tivesse que viver de novo tomaria mais banho de chuva, brincaria com barquinhos de papel, daria mais risada, ficaria mais tempo com os amigos...” Ah estes pensares outonais!
O sol seguia sua órbita escaldante. Melhor mesmo era tomar um chope. Três horas da tarde, depois de um dia inteiro enfrentando aparelhos estranhos. Sim, eu tinha direito. “Querido, um chope bem gelado!” O líquido dourado caiu, redondo, e na minha frente seguia o frenesi das pessoas. O mercado fica bem na boca do terminal urbano, por onde passam mais de 200 mil almas por dia, em desvairada carreira, correndo atrás do tempo, que escapa, fugidio. O dia escorria e eu ali, pensando no tempo. Então fui ao banheiro. E no mercado isso é algo surreal. Para se chegar lá é preciso pegar um elevador que nos leva ao primeiro andar. Não há escadas, portanto, sem escapatória. Entra-se, aperta-se o botão e o elevadorzinho de ferro vai subindo, numa assustadora lentidão. E ali, presa na gaiola branca, fica-se a mercê daquele arrastado subir. Perde-se totalmente o controle sobre o tempo. O controle é da máquina. Prisioneiros somos.
Então entendi. A vida é um presente, um momento único. Cada instante vivido nunca mais vai voltar. Por isso se faz necessária a lentidão. Sorver os segundos, saborear cada instante. O viver é sopro, já se apaga. Nesta tarde de verão atrasado, nada mais nos resta a não ser um aceno curto e a frase pagã; “querido, traz mais um!”...

sábado, 24 de outubro de 2009

Um ato de amor

Elaine Tavares
Há dias em que pertencer à espécie humana me envergonha profundamente. Vi, outra noite, o que aconteceu em Chapecó, quando um grupo de jovens trucidou um rapaz. Os garotos se aproximavam do outro, caído, e chutavam, golpeavam com um capacete e até com uma barra de ferro. E o cara, ali, indefeso e só. Penso em quanta solidão também não haveria dentro daqueles que feriam. Quanto ódio guardado, quanta gana de causar dano... Fico pensando se nós, como humanos, não estamos in-voluindo. Que tipo de gente gesta uma sociedade baseada no egoísmo, no individualismo, no consumismo? Que tipo de gente pode vingar de um sistema em que para que um viva outro tenha de morrer? E é aí que me envergonho. Não por conta do gesto isolado de um grupo de desesperados, mas por este ato coletivo de construir uma sociedade tão pouco solidária e amorosa.
Eu vivo com alguns bichos e eles me dão lições todos os dias. Esta semana foi assim. Achamos uma gatinha perdida no mato. Algum humano havia “jogado fora” o serzinho para que morresse sem incomodar. Resgatamos, acolhemos e trouxemos para casa. Ela miava feito doida e logo todos os bichos da casa estavam ao seu redor. Juanita cheirou e arreganhou os dentes, brava pela intrusão. Zumbi, Tupac e Zé Pequeno também não gostaram da presença. Mas Steve, o cachorro, apesar de ser de outra “espécie” logo tomou para si a tarefa de protegê-la, e, lambendo-a, ia empurrando os demais gatos, bravos, para longe.
Miudinha, a gata cabia inteira na palma da mão. Estava assustada, então tomou leitinho e foi dormir na cama dos humanos, para ficar mais protegida. No meio da noite, o susto. A gatinha sumira da cama. Procura aqui e ali e nada. Então, alguém pensou em olhar dentro da casa do Steve e lá estava ela, encolhidinha, dormindo aconchegada ao cachorro.
No dia seguinte, outra lição. Já familiarizados com o cheiro e o miadinho, os demais gatos foram se chegando. Não arreganhavam mais os dentes e até arriscavam umas lambidas. Mas, no fim da tarde, quando o sol despencava na barra do céu, vi a cena que me enterneceu. Buscando a peito de uma mãe, a gatinha parecia perdida sobre o tapete. Então Tupac chegou de manso, deitou ao seu lado e puxou-a com a patinha. Aconchegou no peito e passou a lamber, devagar, como a dizer: “não tema mais. Estou aqui”. Agora nossa Sub Ramona está assim, protegida pelos seus novos irmãos. Quão simples é um ato de amor!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Uruguai pelo olhar de Carlos Liscano

O Uruguai com Tabaré Vasquez: olhar sobre a conjuntura. Este é o tema da conversa que o IELA promove no dia 21 de outubro, às 15h, no Auditório do CSE/UFSC, com o dramaturgo e escritor uruguaio Carlos Liscano. Conhecido no mundo do romance latino-americano, Liscano decidiu, pouco antes das eleições, realizar uma entrevista com o então candidato Tabaré Vasquez. O trabalho que resultou num livro no qual Tabaré revela suas raízes, fincadas num conhecido bairro popular de Montevidéu (La Teja), e aponta os caminhos que iria seguir caso ganhasse as eleições.
Nascido no Uruguai em 1949, no mesmo bairro que Tabaré, Carlos Liscano esteve preso sob a ditadura militar dos 22 aos 35 anos de idade e foi na prisão que ele começou a sua carreira de escritor. Liberado em 1985, buscou exílio na França, onde publicou seu primeiro livro, “A mansão do Tirano”. Em 1996 regressou ao Uruguai e durante a campanha de Tabaré decidiu acreditar no processo de mudança.
Hoje, passados alguns anos daquela histórica entrevista, Carlos Liscano, fala sobre o governo de Tabaré Vasquez e analisa o quê de concretização aconteceu em relação aos planos anunciados no livro. Uma boa oportunidade para conhecer a realidade política, econômica, cultural e artística deste país irmão que, com a eleição de Vasquez saiu da eterna dicotomia entre os blancos y colorados, apontando uma nova vertente na política.

Dia 21 de outubro
15h
Auditório do CSE

domingo, 18 de outubro de 2009

As lutas populares o financiamento

Elaine Tavares
Eu lembro quando era bem menina e fazíamos campanha para os chamados anticandidatos do MDB. Era a ditadura militar e tudo se fazia escondido. Ainda assim, num mutirão de poucas pessoas recolhia-se dinheiro e faziam-se os panfletos que eram empurrados por baixo das portas durante a madrugada. Depois, no final dos anos 70, quando se começou a construção da CUT e do PT, os lutadores sociais faziam a mesma coisa. Era uma romaria com o chapéu para gente ir a encontros, reuniões, para organizar o povo. Todo o financiamento da luta era feito pelos próprios trabalhadores, pela gente em movimento. Ninguém media esforço. Era brechó, venda de disco, de livro velho, de tudo o que se podia imaginar, e na solidariedade de classe, íamos construindo o sonho da anistia, da democracia, da libertação.
Naqueles dias, as coisas também eram feitas por nossas próprias mãos. As faixas de papel, a cola de farinha, as tintas malucas para as pichações nos muros. Jamais se pensaria em pagar alguém para produzir um panfleto. Tudo era artesanalmente produzido, com os talentos que arrebanhávamos nas fileiras da luta. E, na azáfama de fazer acontecer, se dava a mística da solidariedade, da partilha, da cooperação.Hoje os tempos mudaram, os velhos militantes apaixonados assumiram postos de mando nos sindicatos, nas centrais, nos partidos e tudo perdeu a sua aura. Agora, para não se perder tempo, os materiais de divulgação e propaganda são feitos por assessores, as faixas são terceirizadas e parece que todo mundo fica paralisado quando não há dinheiro para fazer as coisas.Outro dia, durante uma discussão sobre a Conferência Nacional de Comunicação, a qual acredito que não servirá para nada, a não ser respaldar os desejos dos grandes empresários da comunicação, sugeri que fizéssemos uma conferência paralela, assim, com as nossas regras e não com as que foram impostas pelos empresários. Foi interessante observar a reação dos lutadores. A idéia soou como um completo absurdo. “Como vamos trazer as pessoas do interior?” “Como vamos alugar um lugar para o encontro? E onde as pessoas vão dormir? E todos os custos, quem vai bancar?” Perguntas tolas, diante da grandiosidade da liberdade...
Então eu lembrei a todos daqueles dias em que nós movíamos o mundo sem grana dos sindicatos, sem ajuda das fundações estadunidenses, sem grana do governo. Nós construímos partidos, centrais, mudanças importantes. Nós fizemos coisas demais com o financiamento dos próprios trabalhadores, com gente dormindo na nossa cama, comendo nossa comida, dividindo as parcas economias. Mas, naqueles dias, nós éramos movidos por uma paixão infinda, um desejo abissal de mudar o mundo e nossa pobreza jamais foi obstáculo para nada.
Hoje vejo alguns lutadores com ares de saciedade, descansando nos aparelhos, aceitando dinheiro das fundações estrangeiras, esperando migalhas do governo e, por conta disso, se rendendo às regras impostas pelos patrões.Eu repilo isso. Tenho nojo e ódio. Quero de volta a luta renhida, feita por nós mesmos, financiada por nós mesmos, na solidariedade, no amor. Quando ninguém nos impunha pautas e ninguém nos infligia regras. Éramos livres! Pois quero outra vez essa liberdade... Ou nada!

Oração

A palavra vendaval pra nada serve se não puder ser uma oração nas folhagens.

Novo e belo blog

Na sexta foi a vernissage de apresentação do blog de Francine Canto, www.poemasdefrancinecanto.blogspot.com
que aconteceu à meia-noite em ponto, na terceira nuvem à esquerda da relva. Coisa linda, linda!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Inciput erat verbum

Li em algum lugar que o Tao (o Algo, o Deus) é aquilo que se ouve e não tem som: voz do silêncio: sopro: com esta voz "quase" inaudível o Tao criou, no vazio em que se refaz infatigável: a pedra e a chuva, o carvalho e o mar: e todas as outras coisas.
Inciput erat verbum: no princípio era a palavra: uma das formas de honrarmos o pequeno sopro das palavras: pedra, chuva, carvalho, mar: é deixar que elas desvelem, e não nós, o que há de mais íntimo nelas.
Há pouca matéria numa palavra que nem mar, por exemplo, um pequeno sopro. Há pouca matéria em todas as palavras, por isso elas são, algumas vezes, desprezadas. Mas elas sempre esposam o infinito.
A palavra céu, para os hindus, é um ser vivo e não apenas uma palavra criada para a usura ou fins pessoais.
Assim as palavras: ancoradouro, turmalina, adágio, veneziana: são seres vivos que jorram da terceira margem do rio e, como seres vivos, devem ser honrados.
A palavra vendaval pra nada serve se não puder ser uma oração nas folhagens.

Aquilo que olhamos atentamente, olha atentamente para nós.
gerard manley hopkins

Se olho a palavra chuva atentamente, ela olha atentamente para mim, com suas curvas líquidas, com seus mistérios divinos, porque só a palavra chuva é quem sabe de si.
Se a palavra é sopro e sopro é vida.
shakespeare
Não que o Tao necessite de palavras, mas também o Tao aprecia comunicar-se através de palavras.
Escutar o que sopra do Tao: isto é honrá-lo.
O poeta é aquele que nunca sabe o que vai pronunciar uma palavra criada pelo Tao, feito uma criança que nunca sabe para onde vai a onda do mar ou as nuvens do céu: ele aguarda que o Tao (o Algo, o Deus) sopre: isto é honrar o jazz da vida, ou reverenciar a respiração do indestrutível.

Fernando José Karl

Viva o dia da resistência originária!

Elaine Tavares
É outubro na pequena ilha de Santa Catarina, um outubro friorento, nunca visto. Diferente, com certeza, daquele outubro de 1492, quando Cristóvão Colombo aportou em Santo Domingo, julgando ter chegado às Índias. Na manhã daquele dia 12 um pequeno grupo da etnia Taino observou a grande nau e preparou-se para o encontro. Na praia, eles esperaram, sem maldade. Pouco depois desciam os espanhóis e nunca mais a vida seria a mesma. Começava ali um processo de destruição que dura até hoje.

No rastro da invasão, povos inteiros foram dizimados, civilizações foram destruídas e milhões de almas aprisionadas. A conquista das terras novas, por espanhóis e portugueses, abriu caminho para a sangria das riquezas que, levadas para a Europa, propiciaram o florescimento do capitalismo, um jeito de organizar a vida tão predador quanto os tempos feudais.

As comunidades autóctones foram conquistadas por cavalos, canhões e homens de além mar. Mas, apesar da dominação, as gentes originárias nunca se renderam de verdade. Vencidas sim, mas não destruídas. Vez ou outra, ao longo destes 500 anos, levantaram-se os heróis da liberdade. Tupac Amaru, Tupac Catari, Sepé Tiarajú, Guaicaipuro, Daquilema Apu e tantos outros, abrindo caminhos que hoje seguem sendo trilhados.

Nestes primeiros anos do século XXI as culturas originárias estão vivendo um novo esplendor. Levantadas em luta elas buscam o reconhecimento de seus deuses, de seu jeito de viver. Querem ser reconhecidas como nacionalidades e recuperam seus verdadeiros nomes. Não mais índios, como se fossem uma coisa só. Não! São aymara, guarani, quíchua, shuar, bororo, caraíba, xavante, tamoio, uru, sioux, navajo, zapoteca, naso, embera, mapuche... e centenas de outros que voltam a dizer sua palavra viva.

Muito há para conquistar, muita luta por travar, mas a primeira delas é com os bem intencionados que dizem lutar pelos direitos dos originários, mas não lhes reconhecem o direito de ser quem são. É fato que grande parte das comunidades autóctones estão submetidas pela lógica do capital e, tal qual os empobrecidos de outras etnias são companheiros de classe: a dos oprimidos pelo sistema capitalista. Mas, de qualquer forma, para além desta condição de parceiros de classe, muitos dos originários que ainda vivem em comunidades estabelecidas por laços de parentesco tem sua especificidade étnica. Esquecer isso é não compreender que estes povos, mesmo tendo passado 500 anos, jamais se olvidaram de sua velha cultura, passada de pai para filho, no silêncio da resistência.

Não é sem razão que as comunidades autóctones tenham logrado conquistar o estado plurinacional na Bolívia e no Equador, garantindo assim a condição de seguir mantendo sua forma original de organizar a vida. Não como um retorno obtuso a um passado acrítico de tradições, mas dialeticamente uma volta acima, recuperando os conceitos que podem ser retomados e inventando novas formas de viver num mundo que já não é mais o mesmo de antes. Um jeito permeado de telúricas lembranças, sim, mas diferente.

Hoje, o movimento originário avança e não se submete mais a teorias alheias. Conquistou sua maturidade, construindo saberes próprios, desgarrados do eurocentrismo e da submissão. Lutam pelo seu território, pela sua cultura e seus deuses. Sabem que são parte de um sistema que depreda, que destrói, que esgota a natureza. Sabem ser também parte do mesmo exército de desvalidos que representam a periferia do capital. Mas, como nacionalidades, querem o direito de viver de acordo com suas próprias regras, atendendo ao chamado da terra-mãe.

É este novo movimento autóctone que dá o seu grito neste 12 de outubro. Não mais como um povo tutelado pelos estados-nação, mas como uma gente que conquistou a possibilidade de voltar a dizer seu nome e de gerir a própria existência. Hoje, neste 2009, nunca o dito de Tupac Catari foi tão verdadeiro. “Eu voltarei e serei milhões”. Pois assim é agora.

Viva a resistência dos povos de Abya Yala!
12 de outubro de 2009
Desde a terra dos Guarani - Meiembipe

A Obscenidade do Império obtém o Diploma da Paz

Por Raul Fitipaldi

A Velha Prostituta, e sua filha Suécia, continuam exercendo um fascínio extraordinário sobre os escravos da Colônia com seus reis assassinos de ursos, suas feias rainhas, seus príncipes alcoólatras e suas princesas promíscuas. Mas não só. Também com sua idolatria ao filho bastardo, os Estados Unidos. Li e reli alguns comentários dos líderes da América Latina sobre a entrega do galardão à ignomínia conhecido pelo nome de “Prêmio Nobel da Paz”. Prêmio de marketing político que já foi dirigido a dar álibi a figuras tão rastejantes como Shimon Peres, serviçais como Mohamed ElBaradei, pró-ocidentais como Shirin Ebadi; cínicas como Jimmy Carter (outro membro do partido democrata ianque); corrompidas como Kofi Annan; dentre outras delícias da impostura. O “Alfredinho” me faz acreditar que o nosso nível de idiotização perante o espetáculo mediático continua quase intato. Apenas a Senadora colombiana Piedad Córdoba tomou distância suficiente do tom de obamania que ainda assola o continente, quando disse “que espera que, depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, rechace definitivamente o acordo para a instalação de sete bases militares do seu país em território colombiano e se perguntou quando é que se fechará a prisão que Washington mantém ilegalmente em Guantánamo, Cuba.”
Só neste mundo dominado por minorias medievais, sátrapas e obscenas, o Presidente de uma nação manchada de sangue, que aplica golpes associada às oligarquias mais apátridas e grosseiras, que passa pela pior crise da sua história, que desfila sua decadência impudica, que pratica o genocídio a diário com naturalidade demoníaca fora do seu território, e o crime de estado em casa, pode receber um prêmio à paz. Não seria melhor um Prêmio Kissinger à Morte?
O Nobel da Paz é um Prêmio Obsceno para um País Obsceno. Prêmio para distrair o foco dos fracassos acumulados em nove meses pela jovem administração obamaniaca no Afeganistão, no Iraque. A implicância dos EUA no golpe em Honduras, na preparação de um golpe na Guatemala, a tentativa de desestabilização dos governos da Venezuela com paramilitares no Zulia, as campanhas maciças contra Evo Morales e seu povo, as tentativas de quebrar e confundir a mobilização popular no Equador, o apoio constante aos oligarcas do campo argentino, e sobretudo, a instalação das Sete Bases Militares Gringas na Colômbia, aqui, na Pátria Grande. O país da cadeira-elétrica, da exploração sistêmica de hispanos, da falta de saúde, da obesidade, do maior consumo de drogas, dos criminosos em série, é dirigido pelo Prêmio Nobel da Paz.
Pareceria que o fato do Mr. Obama ser um cidadão negro, charmoso, jovem, lhe confere ao Império a possibilidade de fazer-se um lifting momentâneo badalado pelas redes de multiplicação do sistema, as modeladoras da opinião do mundo. Essa máscara da paz está grudada na pele com sangue iraquiano, sudanês, afegão, hondurenho, mexicano, haitiano, e, se nossos líderes não se arrancam, por muito que doer, esse “MÁSCARA” do Prêmio Nobel da Paz, só brotarão mais rios de sangue na região. Não há nenhum texto de política de estado que indique que há de se aplaudir o chefe de um bando de criminosos (o insinua Maquiavel, é verdade...), seja qual for a gangue, mesmo que sejam os ainda sócios majoritários e consumistas dos Estados Unidos de Sua América, não da Nossa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Temporalidades

Míriam Santini de Abreu

Mais dia, menos dia descobre-se que há um tempo fora e um tempo dentro da gente. Às vezes, mais de um. O tempo de fora dita a hora, o dia, a estação. O tempo de fora é moldado pela natureza e também pelo engenho humano. E a gente deseja – e aceita - que o tempo de dentro responda a esse estímulo que nos chega pelos sentidos. A gente deseja que, às 17 horas do primeiro sábado ensolarado de primavera, também no tempo de dentro sinta-se um calor tépido, que deixe a alma macia. E a gente aceita que, no mais frio e chuvoso domingo do inverno, também na alma a umidade frouxa congele. Mas há uma contradição que atordoa: estar, no céu, o sol do meio-dia, e na alma o escuro de antes do nascimento do sol. Um escuro que impede a primavera de nascer também no tempo de dentro. Em qualquer dessas circunstâncias as palavras nascem. Mas a primeira deve ter nascido para celebrar a mais perfeita sintonia entre o tempo de fora e o tempo de dentro. E a segunda, certamente, para tentar arrancar do peito, pelo Verbo, a pesada pedra que tudo sepulta quando essa sintonia se quebra. E se assim não sentem, como podem os anjos compreender os homens?

Caminhando pelo Equador

Elaine Tavares

A cidade de Quito é uma belezura. O chamado casco colonial parece sair das páginas de um livro. Não é à toa que foi tombado como patrimônio da humanidade. Tudo está muito bem conservado e a impressão que se tem é de que se está passeando pelas ruas de um longínquo 1800. As igrejas pulam em cada esquina, imensas, descomunais, expressão máxima da dominação. Toda a cultura originária está aplastada. O que assoma é a morada da aristocracia com seus solares, seus pátios internos, suas arcadas.

Muitas das casas hoje se transformaram em pequenos centros de compra e o contraste é inevitável. No meio da cultura colonial o que vende mesmo é o artesanato originário. Ou seja, o produto é a cultura autóctone, mas a arquitetura é a da dominação. Tudo acaba se integrando como o que de fato acontece nesta América mestiça. Nas ruas é a população indígena que aparece com mais vigor, imorrível, apesar de tantos anos de opressão. São originários os vendedores nas ruas, os pequenos comerciantes, a gente que caminha para lá e para cá, num afã febril.

Até mesmo antigos conventos passaram à condição de comércio e muitos chegam ao limite da heresia, o que parece estranho numa cidade tão católica. Contam que as dezenas de igrejas estão sempre lotadas nas missas, mas mesmo assim, fazem-se piadas com as coisas do sagrado. Uma delas diz respeito a um antigo monge, o padre Almeida, que costumava fugir do convento durante a noite para fazer cantorias com sua guitarra. Para sair pela alta janela ele tinha de escalar um crucifixo e pisar na cabeça de Cristo. Diz a lenda que um dia, quando o padre iniciava sua escalada para fora, ao pisar na testa cravejada de espinho de Jesus, ele teria suspirado e dito: Até quando, padre Almeida? E este, assustado, mas não persuadido de ficar no convento, teria respondido: Até a volta, senhor! Pois o lugar deste fato virou restaurante e ali está em destaque a figura do padre a fugir...

Ainda próximo a Praça Maior fica o solar de onde Manuela Saenz atirou uma coroa de flores para Simón Bolívar, quando este entrou na cidade, vitorioso. É uma casa imponente, toda rosa, cheia de janelas. Ali é ponto de peregrinação daqueles que sabem do que foi a força deste amor entre Manuela e Simón. No balcão parece bailar a paixão desesperante que levou aquela pequena mulher quitenha a se transformar na Cabaleresa del Sol, guerreira, indômita, senhora dos exércitos e libertadora do libertador. Seu nome ecoa pela cidade como um mantra e seu retrato está em todos os lugares. Ela, vulcânica, reina, deusa, na Quito das igrejas.

Também pelas estreitas ruas pode-se apreciar os “agachaditos”, que são as comidas callejeras. Tudo o que se vende por ali tem algo de milho, a cultura ancestral. Qualquer coisa é “agachadito”, pode ser uma fritura, um peixe, uma tortilla, uma sopa, um molho de galinha. Diz a lenda que o nome nasceu por conta do hábito de um antigo habitante que se fazia de dândi, metido a rico sem ter tostão. Ele andava pelas festas, vestido com roupas da moda, mas não tinha dinheiro para comer. Então, quando vinha a fome, ele buscava os vendedores de rua e comia seus quitutes. Para não ser visto pelos que o consideravam rico, ele se abaixava. Daí nasceu o “agachadito”. Coisas divinas feitas por mãos populares.

Toda a cidade de Quito pode ser admirada de cima do Panecillo, uma dos montes que cercam a cidade. Este, por ter o formato de um pão é assim chamado: pãozinho. Ao chegar lá em cima outra cena surpreendente desta cidade sem igual. Impávida, domina a paisagem a estátua descomunal de uma virgem, representando a cultura religiosa que é tremendamente opressiva por ali. O curioso é que para mostrar que também respeita a visão dos vencidos, a cidade decidiu colocar sob os pés da virgem imensa, um artefato originário, uma olla, que representa uma espécie de vaso cerimonial das culturas indígenas. Mas, basta uma olhadela para se verificar o quanto aquilo é só um gesto ritual. Enquanto a virgem recebe cuidados e atenção, tendo, inclusive, uma iluminação belíssima, capaz de ser vista de qualquer ponto da cidade, a olla se mantém na escuridão, escondida e abandonada, ruindo sob a ação do tempo.

Do Panecillo também se pode ter uma visão deslumbrante da cidade. Dali, é possível observar como se deu a Batalha de Pichincha, comandada pelo jovem general José Antônio Sucre, em 24 de maio de 1822. Em menor número - ao pé do grande vulcão que leva o nome de Pichincha - mas com uma estratégia genial, o mariscal logrou vencer as tropas realistas e libertar Quito do jugo espanhol. Em pé, no beiral disponível sob a virgem, chega-se a ouvir os gritos da batalha, tamanha é a magia que se desprende na noite quitenha, iluminada como se tivesse milhares de fogueirinhas.

Outro lugar cheio de energia é o mercado de artesanato no bairro de Mariscal. Ali se concentram mulheres e homens que tecem a beleza da cultura originária. Muitos deles vêm da região de Otavalos, onde estão os kichuas. Impossível não se embasbacar com a belezaa das mulheres originárias, com suas saias pretas, blusas bordadas e o indefectível hualca , colar de contas amarelas que representa a riqueza da cultura autóctone. “Isso nos faz ter sempre em conta aquilo que nos dá a vida, o sol, o milho, além de ressaltar a beleza da mulher”, dizem.

De resto, a cidade de Quito é cheias de outros escondidos encantos, como o mercado de Hipiales, onde se concentra o comércio popular. Ali, por entre as barracas, as gentes oferecem sacrifícios ao deus consumo. Isso sem contar os milhares de minúsculos bares e cafés que oferecem o tradicional “seco de chivo”, que parece ser a comida mais pedida por ali. É feita com carne de bode e me pareceu delicioso. Também tem as dezenas de praças, grandes, pequenas, de todo o tipo, onde as gentes descansam sob o sol andino. Nas fraldas dos vulcões se amontoam as casinhas da gente mais empobrecidas. Mas nada que se compare às favelas brasileiras. Talvez por causa do frio rigoroso, todas elas, mesmo as mais simples, são de material. Luis Gavillán, que trabalha como motorista, esclarece que com Rafael Correa as coisas estão melhorando. “Eu votei nele quatro vezes e não me arrependi”.

Outro ponto magnético é a pequena comunidade de Calacalí, a poucos quilômetros da capital. Ali, em meio a casinhas coloridas fica o exato lugar onde uma missão franco-espanhola, em 1736, mediu a metade do mundo, estabelecendo os equinócios e os solstícios. Um pequeno marco estabelece a linha e a pessoa pode ficar com um pé em cada hemisfério da terra. Não sei bem porque, mas algo nos atrai mais ao sul. Creio que é magia!

E assim é uma visão parcial desta cidade pulsante, cheia de contrastes e multicultural. Vigiada pelos vulcões que a circundam, por Sucre, por Manuela. Amada pelas gentes, espaço de disputas. Cidade/país em construção. E, por entre lutas, avanços e desacertos, os equatorianos seguem acreditando que por força de suas livres vontades, a vida vai ficar melhor. “Até hoje todos os presidentes desta república só nos roubaram. Agora, tem problemas, é fato, mas também há avanços incríveis. Nós vamos saber caminhar para um tempo melhor”, diz Luis. “E vamos conquistar outro tipo de desenvolvimento que não este, predador, do mundo neoliberal”, ensina Gonzalo Guzmán, líder indígena. O rosto altaneiro dos grandes caciques dos povos originários do Equador, que estão unidos em assembléia numa praça em frente ao teatro da Universidade Central, parecem concordar. Haverá de estar sendo gestado um novo Equador. Pluricultural, livre.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Você sabe o que anda comendo? Parte 2 - Falha nossa!

Li Travassos, de Florianópolis

Graças a uma leitora vegan, chamada Liliana (outra Li, pelo jeito), que postou um comentário em 30 de setembro de 2009, descobri que o corante do tipo Xantofila é vegetal, portanto natural, e não artificial, como havia sido dito no meu artigo "Você sabe o que anda comendo?" publicado em 11 de Julho de 2009 aqui, no blog da Pobres. Por minha conta, descobri também que o corante Betacaroteno aparece nas duas listas do texto, tanto na lista de naturais, como na de artificiais. Ele também é natural e vegetal. Sua fontes são vegetais como
cenoura, abóbora, beterraba, mamão, manga, batata doce, e também couve, repolho, espinafre, agrião e brócolis. Peço mil desculpas, mas retirei as listas de um artigo na internet, que continha estes dois erros. O importante é ter noção de que a maioria dos alimentos que comemos contêm aditivos, e que precisamos buscar suas origens. Há um tempo atrás, uma reportagem da TV Globo informou que uma de cada dez pessoas que consomem corantes com frequência, desenvolve algum tipo de alergia. Agradeço muito a Liliana pela informação, e reitero meu pedido de desculpas. Se quiser reler o artigo, ou ler o comentário, vá em http://pobresenojentas.blogspot.com/2009/07/voce-sabe-o-que-anda-comendo.html

Negra: de tua língua nascerão liberdades

Por Raúl Fitipaldi

Me disseram que está morta. Que absurdo! Quanta ignorância carrega nossa urbanidade, tão branca e euro-centrista. Acaso não conseguem entender, irmãos das citys, que La Negra foi dormir no colo da Pachamama? Tá lá, escutem como uma brisa vem surgindo dos riachos, vem viajando num tardio minuano, que de raro, brotou em San Miguel de Tucumán. Escutem, couro redondo é batido com lento esmero. Abaixem os ouvidos, como para escutar o galope. Vem pela terra: é brisa grave, funda.
Já ouvi essa brisa estalar em ventos, em furacões, em trovões de Pátria Grande. Já a ouvi cortar as torturas com agudos estrepitosos e calmos.
Um parto gigantesco acontece no ventre da Pachamama, corais de pássaros índios entoam Tejada Gómez, Félix Luna, Pablo Milanés, Silvio, e Chico e Milton, e Charly e Fito, e tudo aquilo que ao povo se dirige e do povo se trata. Corais de ponchos mestiços e negros e vermelhos e pobres ponchos reluzentes abrigam mãos de mulher mansa, como mansa pode ser a guerra na réplica da denúncia. Escutem, escutem.
Vejam e escutem os cintilares. Aumentam as estrelas na Pátria Grande. São infinitos teus olhos Pachamama, iluminando este caminho insurgente. Nossa boca beija com tuas toadas insurgentes; nossa língua canta teu recital que contesta, nosso repertório foi por ti escolhido.
Pela Pachamama que esteve mais de 70 anos na terra, nos tratando de TÚ e de VOS.
Pachamama dos céus e da terra, dos mares e dos rios, das cordilheiras e dos desertos, Pachamama do Jardim da República. Terra-mãe dos povos sedentos, terra-mãe da minha minúscula adolescência, de minha sonhadora juventude, da minha maturidade inalcançada, desta solidão que me arrepende. Terra-mãe que com tuas palavras mandaste meu bico em riste, andar pelas ruas rebeldes de Montevidéu, Buenos Aires e Desterro. Um dia sonhei contigo em Jujuy, eu estive em Jujuy, mas nunca no jardim onde nasceste. Pachamama que me deixas cru e só no lombo agreste do chão, preparas minha cama, com sedas e perfumes, para a hora de eu voltar-te a escutar ao vivo.
Pachamama-Negra-Sosa, Mercedes só concedidas para doçura deste povo; que não morres-te como mentem, porque és a Terra de Antes da Terra, de tua língua seguirão jorrando nossas vozes à Luta, de tua língua dourada, nascerão cada uma das Nossas Liberdades.

domingo, 4 de outubro de 2009

Duerme, negrita!

Elaine Tavares
Por la mano de Vitor Jara: "Duerme, duerme, negrita, que tu mamá está en el campo, negrita"... Se foi "la negra", a mulher que nos anos setenta tanto me ensinou sobre "nuestra américa" e suas lutas... Com ela, ainda menina, entendi o Chile, a Argentina, as ditaduras e tantas coisas mais... Mercedes encantou e é destes mortos que nunca morrem...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quito, a metade do mundo

Elaine Tavares
É noite quando o avião começa sua descida na cidade de Quito, Equador. Da janela o viajante já pode notar o desenho de um lugar que a primeira vista parecer ser de sonho. As luzes aparecem em suas formas geométricas e formam figuras míticas. O aeroporto fica no meio de tudo e a impressão que se tem è de que o avião vai se arrastar por entre as casas. Mas é de manha que vem a surpresa maior e as retinas brasileiras parecem não dar conta do que vêem. A cidade é cercada por vulcões e, de qualquer lugar onde se esteja ali estão eles a vigiar.
Pelas ruas a vida é puro fermento. Os professores estão em greve e fazem cortes de rua, os famosos “paros”. Querem mudanças na lei de educação superior que está em discussão no paìs. Também estão em movimento os indígenas, trabalhando igualmente para manter suas vontades na nova lei de águas. Ao todo são 14 novas leis apresentadas pelo executivo e a população vive as voltas com os debates e discussões. A nova Constituição assim o exige, tudo està para ser regulamentado. As coisas estão mudando no Equador e isso se pode sentir nas ruas. Hà um frisson e todos sabem o que està passando.
È certo que este não è um processo fácil. Não houve nenhuma revolução. As coisas precisam ser feitas sob a pressão de uma oposição dura. Então, tal e qual a Venezuela no inicio do século XXI, o Equador vive a luta de classes no seu cotidiano, e de maneira bastante acirrada. Entre um corte de ruas aqui e outro ali, a grande cidade de Quito e os demais recantos do Equador vão construindo seu presente com os olhos postos no futuro.
Em Quito também vigiam as mudanças os espìritos de Manuela Saenz, a grande mulher equatoriana, libertadora do libertador. E também Sucre, o mariscal apaixonado, artífice da libertação. Pelas ruas de pedra do centro histórico pode-se sentir que os desejos de liberdade que um dia afloraram nas guerras de independência, e ainda antes, nas revoltas indígenas, segue aprisionado. Há muito por fazer, mas os equatorianos estão caminhando. Vulcânicos, apaixonados e seguros de que só a vontade do povo unido pode mudar as coisas. Eu caminho por entre eles e aprendo!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O povo resiste, luta e vencerá em Honduras!

Nas primeiras décadas século XVI, quando no imenso território que hoje é o Brasil os colonizadores começavam e explorar o pau brasil para ocupar o território, na América Central a colonização espanhola seguia acelerada, dizimando povos nativos, “empunhando uma espada e uma cruz na outra mão”. Numa das regiões que hoje é o território hondurenho, os desde então chamados indígenas resistiram com mais força, liderados por Lempira. Este foi traído e morto em combate, mas deixou rastros na cultura e na ideologia do povo mestiçado nos quase cinco séculos seguintes. A moeda de Honduras chama-se Lempira, uma cínica homenagem burguesa ao herói indígena.
Mas na alma profunda do povo mestiço, ficou a mensagem: o povo não se renderá, embora continue sendo traído, agora por modernos gestores dos monopólios, a maioria dos quais de origem estadunidense.
Desde o dia 28 de junho tem manifestações todos os dias nas principais cidades de Honduras, especialmente na capital, Tegucigalpa. É assim mesmo, todos os dias, sem que ninguém faça um panfleto sequer de convocação, reúnem-se e protestam aos milhares. Nos dias de convocação, são trinta ou cinqüenta mil pessoas na capital e em San Pedro Sula, a cidade industrial.
Os gorilas (e nenhum outro nome lhes cabe tão bem) realizaram um golpe preventivo, seqüestrando o presidente, no dia 28 de junho, justamente para que os trabalhadores e o povo pobre não começassem a tomar gosto pela soberania popular e pelos direitos elementares. Manuel Zelaya tinha aumentado os salários, distribuído terras, rurais e urbanas, entrou na ALBA, e, gota d´água, convocara um referendum com o objetivo de eleger uma assembléia constituinte.
Erraram nos cálculos os golpistas, pois o povo já começara a gostar de transformações, e não saíram mais das ruas. Não deram um único dia de trégua aos usurpadores.
Com o retorno de Zelaya, no dia 21 de setembro, indo pedir proteção justamente na embaixada brasileira, a euforia popular se multiplicou por cem. Esse plano foi inteligentíssimo, pois o Brasil é um país respeitado por lá, e força o governo brasileiro a girar à esquerda na sua política internacional. Se Zelaya fosse para a embaixada da Venezuela, não haveria tanta repercussão internacional, e os gorilas poderiam com mais facilidade invadi-la. Se fosse para a embaixada dos Estados Unidos, ela não seria invadida, mas a saída diplomática seria pela direita. Desde que se espalhou a notícia da presença de presidente legítimo, Honduras deixou de ser um país em “transe” e agora é um país em ebulição. Não tem mais jeito, a menos que liquidem multidões pela força. Os golpistas perderão!
Reprimem violentamente, e isso enfurece mais os manifestantes, radicalizando os ânimos. Decretam toque de recolher, e, pelo tempo de duração, acabam indignando também a parte da população que está indecisa, pois começa a haver uma crise de abastecimento. Suspendem o toque de recolher, e centenas de milhares aparecem em marcha, no centro da capital. Reprimem com mais violência, e instigam revoltas sempre mais fortes. Agora, às 17:00h locais (20:00h de Brasília) lançam o estado de sítio, para reprimir mais…
Não se despreze o fato de que estão matando gente, neste momento. Se o governo golpista reconhece uma morte entre os manifestantes, é porque já devem ser dezenas. Realizam prisões em massa, e precisam usar estádios como prisões, lembrando o Chile de 1973. Como ainda podem falar em democracia?!? Rádios e canais de televisão independentes fora do ar, aeroportos fechados, inclusive para impedir a presença de organismos internacionais. Uma ditadura no sentido mais exato da palavra.
E os filhos de Lempira não param de ir às ruas, e já perderam o medo até mesmo de morrer. “Nos tienen miedo porque no tenemos miedo” cantam diante dos repressores, e é verdade, porque já não temem nada. E os gorilas atacam porque todo gorila tem medo de povo na rua. Senhoras idosas, senhores de cabelo brancos, meninos, muitos jovens, todos vão às ruas. Regressando quinhentos anos na ideologia, a espada e a cruz estão juntas no combate ao povo mestiço do século XXI, assim como estavam juntas no século XVI massacrando e “reduzindo” os descendentes do povo maya. O bispo chefe da igreja católica também é gorila, desde o primeiro dia do golpe, muito embora padres católicos estejam com a resistência, assim como os evangélicos, os umbandistas e os antigos credos indígenas remanescentes.
O povo vencerá em Honduras, e isso é questão apenas de tempo e de forma. Se ainda nesta data as forças de repressão estão massacrando o povo, esse jogo vira, e em pouco tempo os organismos internacionais terão que ir garantir a vida dos gorilas. A menos que algum país abasteça de armas e munições as forças da repressão (e Israel já mandou tecnologia e instrutores de massacre) em algum momento o exército e a polícia terão que recuar, como já esboçam fazer nas escaramuças dos bairros.
A luta do povo hondurenho é nossa luta! Honduras de 2009 não pode ser a Guatemala de 1953, ou seja, o limiar de uma onda de golpes militares por todo o continente. A vitória do povo hondurenho será a nossa vitória, pois avançarão lá em soberania popular, espalhando exemplo, e os gorilas de todo o continente, inclusive os daqui, terão que pensar muito mais antes de cometer desatinos.
O governo brasileiro precisa jogar duro na ONU, e exigir uma decisão de fechamento do cerco sobre os golpistas, forçando-os a fugir enquanto têm tempo, e levando-os aos tribunais internacionais para que paguem por seus crimes. Ou o mundo vai esperar a continuidade do massacre, que pode se intensificar muito quando acabarem as munições não letais e usarem apenas as outras. Já que o povo hondurenho venceu, é preciso que os governos e os organismos multilaterais parem de fazer cena e ocupem espaço para evitar que em poucas horas os golpistas matem milhares de pessoas. Em Honduras reside parte significativa da direita mais reacionária e dos algozes mais sanguinários de todo o continente, e o mundo não pode desprezar esse elemento. Eles podem matar muita gente em poucas horas, num derradeiro suspiro de vilania.
Avante filhos de Lempira, ao pescoço dos gorilas!

Florianópolis, Santa Catarina – Brasil, 23 de setembro de 2009.
Amauri Soares
Deputado Estadual

Bravos jornalistas

Míriam Santini de Abreu

O companheiro jornalista Raul Fitipaldi me ligou cedo nesta segunda-feira, 28. É que nas primeiras horas da manhã a Rádio Globo de Honduras fora invadida pelo exército golpista de Roberto Micheletti, e a emissora estava fora do ar. Uma onda de gelo me percorreu, aguçada pela chuva incessante lá fora, ameaçando mais uma vez deixar Santa Catarina sob a água.
Passei a tarde em busca de informações, temendo o pior, porque os companheiros jornalistas da Rádio Globo de Honduras não são desses de linha de montagem de pseudo-notícias.
Pois às 16h30 em Honduras se soube que eles fugiram dos militares por uma corda desde uma janela. Relata Raul, a partir de informações vindas de lá: “Agora a rádio está transmitindo de forma precária desde a periferia de Tegucigalpa, em lugar oculto. As pessoas a localizam pelos telefones celulares dos jornalistas e pelo chat da rádio. Esses jornalistas heróis agora se dedicam através da rádio clandestinizada a proteger a comunidade das agressões nos morros, nos bairros e colônias. ISSO É JORNALISMO. Honduras está de festa pela coragem do jovem jornalista Rony Martínez Chávez e do licenciado David Romero Ellner. Heróis de Honduras junto aos desaparecidos e mortos, e à última martir hondurenha, a trabalhadora e estudante Wendy Ávila, sepultada hoje em Tegucigalpa e assassinada com gases tóxicos jogados fora e dentro da embaixada do Brasil.”
Na grande mídia do Brasil, que alardeia isenção e imparcialidade, continuam chamando Micheletti de “presidente interino”.
Raul e o jornalista Celso Martins, aqui de Floripa, estão em contato direto com os colegas de Honduras. Cumprimentos cheios de orgulho aos dois e aos jornalistas hondurenhos!

Veja vídeo com depoimentos sobre a situação de Honduras em
http://www.youtube.com/watch?v=6KjVNZ5j1BI

Visite o blog
http://honduraselogoali.blogspot.com

Rádio Globo de Honduras é invadida

Nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira a Rádio Globo de Honduras foi invadida pelo exército golpista, todos os jornalistas foram presos e a rádio fechada.

domingo, 27 de setembro de 2009

Governo golpista decide fechar Rádio Globo e Canal 36

Em Honduras, recrudesce a violência do governo golpista contra os partidários da resistência. No sábado foi assassinado o sobrinho de Alejandro Villatoro, o dono da Rádio Globo, que tem sido incansável na divulgação de todas as manifestações do povo hondurenho. E neste domingo o governo liberou um decreto no qual determina o fechamento da Radio Globo, assim como do Canal 36, veículo que também tem se pautado por um jornalismo independente.
Não bastasse isso o governo golpista decidiu dar um ultimato ao presidente Luiz Inácio para que retire Zelaya e também os brasileiros de dentro da embaixada. Segundo o chanceler golpista, como o Brasil não reconhece o governo de Micheletti, não há porque reconhecer a embaixada como um lugar neutro. “Estamos considerando um escritório privado”, ameaçou. Fonte: Iela

Situação em Honduras

Com várias emissoras de rádio fora do ar, apenas algumas ainda logram transmitir desde Honduras. Aqui se pode ouvir a Radio Uno, de San Pedro Sula, que anuncia o uso de armas químicas diante da Embaixada do Brasil, nesta tarde de 25 de setembro. Ouvir.
http://www.radiouno830.es.tl/

sábado, 26 de setembro de 2009

Sindicato dos Jornalistas organiza ato de solidariedade ao povo de Honduras

A Esquina Democrática, no centro de Florianópolis, transformou- se, por pouco mais de duas horas, em lugar de resistência e de combate pela liberdade. Sexta de luta em mais uma Primavera Quente, nome da série de atividades que o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina realiza em setembro. Entre 11h30 e 14h, o SJSC organizou um ato com abaixo-assinado em solidariedade ao povo hondurenho, que está em luta para restabelecer o governo constitucional de Manuel Zelaya. Foram recolhidas mais de 200 assinaturas, que serão enviadas à Radio Globo de Honduras, à embaixada brasileira em Honduras e ao gabinete do governo golpista.
Quem passou pelo local leu os cartazes que explicavam o que está acontecendo em Honduras e conseguiu sair mais informado, uma vez que os grandes meios de comunicação mais deturpam a notícia do que repassam informes confiáveis. As pessoas que assinaram o manifesto ainda receberam um panfleto com uma breve história sobre Honduras e a luta pela liberdade.
O ato recebeu o apoio de várias entidades do movimento sindical e popular da Capital. Vieram o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a Associação dos Docentes de Ensino Superior de SC, o pessoal do Sindicato do Judiciário Federal, dos Previdenciários, da Associação José Martí, do Portal Desacato, da Revista Pobres e Nojentas, jornalistas e estudantes de jornalismo, além de dirigentes do Sindicato dos Jornalistas. Todos se envolveram na distribuição de folhetos, na coleta de assinaturas e na conversa com a população.
A iniciativa do SJSC se deu diante dos fatos que se agravam em Honduras, com bloqueio de informações, retirada de sinal de rádios combativas, violência policial, assassinatos e desaparições, convoca todos os sindicatos e lutadores sociais para um ato em defesa do povo de Honduras, contra o cerceamento de informações, contra a violência e pelo retorno de Manuel Zelaya ao poder.
O ato mais uma vez teve o apoio estrutural do Sintrajusc, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina, que forneceu o equipamento de som, mesa e cavaletes.
Leia abaixo o texto do abaixo-assinado:
Nosostros, periodistas y moradores de la ciudad de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, firmamos esta petición en solidariedad al pueblo hondureño por su lucha para restablecer el gobierno constitucional de Manuela Zelaya. Repudiamos el golpe de Estado que tiene impuesto la violência, la censura a los medios, que asesina la gente en las calles, que apresa y desaparece militantes sociales. Exijimos que sean garantizados los derechos de la gente a libre manifestação, a la libre expresión, a la libre circulación. Hondura es una amada parte de nuestra Pátria Grande, y la vitória de la gente hondureña es la vitória de Nuestra América. Adelante pueblo. Fuera golpistas! Pátria o Muerte!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Juro que vi e ouvi

Celso Vicenzi

“Meninos, eu vi!” Menos do que o índio timbira no épico I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, mas eu vi. Juro que vi. Vi e ouvi. E não vou esquecer mais esta pérola da mídia televisiva. E não foi em uma emissora de quinta categoria, não. Era a principal do país. Data: 18 de setembro de 2009, pela manhã. A apresentadora entra ao vivo, durante a programação, para anunciar que o vice-presidente da República, José Alencar, fora internado às pressas na noite anterior, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Como se sabe, aos 77 anos, José Alencar trava uma batalha incansável contra um câncer de abdômen há mais de uma década (procurei no Google e alguns jornalistas falam em 12 outros em 15 anos; pelo menos não havia discordância sobre o número de cirurgias: 15 no total). Nessa não menos épica resistência às frequentes internações para tratamento, Alencar tem demonstrado uma obstinação admirável e um bom humor incomum para quem padece dessa enfermidade. Pois bem, na noite de 17 de setembro, o vice-presidente, mais uma vez, sente mal-estar e é prontamente transferido de Brasília para São Paulo. O repórter da Globo, já o aguardava na entrada do hospital e tão logo Alencar desembarcou, partiu em sua direção com a seguinte pergunta: “O senhor está se sentindo bem?”

Sim, juro, foi isso que ele perguntou depois de uma década de luta contra um câncer, 15 cirurgias e sabe-se lá quantas internações. Estou pasmo até agora. O repórter teve tempo suficiente para escolher a pergunta. E eis que ele não titubeia: “O senhor está se sentindo bem?” Alencar foi novamente um gentleman e alinhavou algumas considerações triviais, tentando esboçar otimismo e, claro, desvencilhando-se o mais rápido daquele repórter. Mas poderia ter sido mais irônico: “Estou ótimo! Estava em Brasília até há pouco, sem fazer nada e pensei: por que não fazer uma visita aos médicos do Sírio-Libanês?”

Corta para Santa Catarina. Escolha o menu: pode ser uma daquelas enchentes arrasadoras, soterramento de casas ou vendavais e ciclones que devastam tudo por onde passam. Perda total e mortes. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi repórteres, microfone em punho, invadindo espaços privados – sem pedir licença – e nestes cenários onde o silêncio fala mais alto, encaixarem a pergunta: “A senhora está triste?” Ou então: “Como o senhor está se sentindo?”. Perguntas endereçadas, não raro, a cidadãos e cidadãs que perderam casa, móveis, tudo – e choram a morte de familiares.

Recentemente, uma das perguntas foi: “E a senhora não está triste com tudo isso?” Para sorte do repórter, que merecia ouvir impropérios, sabiamente respondeu: “Não, estou feliz porque estou viva".

Saber perguntar é o que há de mais importante na atividade jornalística. Sem boas perguntas não se extrai boas histórias, não se constroem bons textos, bons títulos. Não se chega à apuração dos fatos, não se compreende o que está acontecendo, não se desmascara o mentiroso e, sobretudo, permite vida fácil a quem se especializou em enganar a opinião pública. Perguntas precisam incomodar os poderosos, encurralar os falsários, revelar aquilo que se esconde e que é de interesse público. Não por um simples exercício de contestação, mas porque a essência dos fatos não costuma vir à tona com facilidade. Há muitas técnicas para se obter boas respostas. Mas todas dependerão de boas perguntas. E se o jornalista não sabe o que busca, dificilmente encontrará. Se só pergunta por perguntar, despretensiosamente, superficialmente, estará a quilômetros de distância da competência que se exige para exercer a função. Porque com ou sem diploma, jornalistas são o oxigênio das sociedades democráticas.

Há diferentes tipos e técnicas de entrevista. O bom entrevistador saberá escolher a abordagem mais adequada para cada tipo de entrevista e de entrevistado. Por isso, é fundamental a preparação, que começa com uma boa formação profissional e leituras, muitas leituras sobre todos os principais campos do conhecimento humano. Não saberá perguntar quem não se interroga sobre o que acontece no mundo. Se não investiga as razões de algo ser como é, ou aparenta ser. Teoria, técnica, intuição, delicadeza, conhecimento do assunto, sensibilidade, argumentação, clareza, improviso, criatividade. Tudo pode ser usado para obter boas respostas.

Jornalista é alguém que precisa fazer perguntas para tentar compreender os fatos, desvendar a realidade, decifrar o ser humano, entender os mecanismos que desencadeiam tragédias que poderiam ter sido evitadas e, principalmente, saber quais interesses estão em disputa e quem são ou serão os beneficiados. Ou não é um jornalista, mas um segurador de microfone. Um anotador de recados.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

P&N 19 já está circulando!

A edição 19 da revista Pobres & Nojentas já está circulando!
Compre a sua na banca na frente da Catedral, em Florianópolis, ou faça de uma vez essa assinatura!

ATO EM DEFESA DE HONDURAS E DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO PAIS IRMÃO


O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, diante dos fatos que se agravam em Honduras, com bloqueio de informações, retirada de sinal de rádios combativas, violência policial, assassinatos e desaparições, convoca todos os sindicatos e lutadores sociais para um ato em defesa do povo de Honduras, contra o cerceamento de informações, contra a violência e pelo retorno de Manuel Zelaya ao poder. Honduras é parte da grande pátria Latino-Americana e a vitória de sua gente é a vitória da gente brasileira. Será nesta sexta-feira, dia 25 de setembro, na Esquina Democrática em Florianópolis, das 11h30min às 14h. Venha participar! O povo de Honduras em luta precisa de cada um!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jornalismo de resistência

Por Elaine Tavares - jornalista

Nada é mais animador do que acompanhar a cobertura jornalística da Rádio Globo de Honduras nestes dias de golpe de estado. Primeiro porque a equipe chefiada por Don David Romero imediatamente tomou posição: contrária ao golpe. Claramente, sem vacilação. E depois, pela postura jornalística que esta mesma equipe tomou ao longo destes meses. Os jornalistas noticiam dia e noite tudo o que acontece no país. As mobilizações populares, as reuniões, os debates. Eles abrem o microfone para todas as vozes, mesmo as golpistas.
A rádio Globo e toda sua equipe está sendo nestes dias um ponto de apoio para toda a população. As pessoas confiam nos repórteres, ligam dos cantos mais remotos do país, passam informações, chamam seus companheiros para mobilizações. Usam a rádio como um espaço democrático e participativo de união e mobilização. E os jornalistas não se furtam a passar sua opinião sobre os atos dos golpistas.
Hoje, dia 22 de setembro, eram cinco horas da manhã quando o exército hondurenho chegou diante da embaixada brasileira e ali estavam os repórteres da Rádio Globo, relatando tudo. E mais, chamando o povo a sair de casa, a vir para a rua e se manifestar em apoio da legalidade constitucional, que é o retorno de Zelaya ao governo. Para quem vive num país onde a maioria dos jornalistas é cortesã do poder, este é um momento de pura emoção. Os jornalistas hondurenhos, pelo menos os da rádio Globo, estão do lado da maioria das gentes. Eles não ficam protegidos pelo exército golpista. Eles ficam no meio do povo, correndo os mesmos riscos.
Naquelas primeiras horas da manhã, as gentes que vivem longe da capital congestionavam as linhas da rádio para passar informação. O país inteiro se expressa pelas ondas livres desta emissora que, apesar de privada e pertencer a um liberal, encontrou no seu corpo jornalístico o esteio onde amparar a realidade vista pelos olhos do povo.
Para nós, que somos informados pelo jornalismo entreguista e amorfo das grandes redes do Brasil, ouvir a Rádio Globo de Honduras é quase como sorver o néctar daquilo que devia ser o jornalismo em todos os lugares. Um fazer absolutamente encarnado na vida real, das maiorias, do povo. Um espaço de expressão de todas as vozes e não só de algumas. A equipe de jornalistas da Rádio Globo me enche de orgulho de ser o que sou: jornalista. Alguém comprometido e parcial. Porque não dá para ser neutro diante de um golpe ou diante da destruição da vida das gentes. Que vivam os jornalistas de Honduras, uma categoria que tem o amor e a confiança do povo. Coisa rara e por isso digna de nota.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Paraguai inventado

Elaine Tavares
O professor Mauro César Silveira, do Curso de Jornalismo da UFSC, foi o conferencista na primeira atividade do Núcleo de Estudos da História da América Latina, coordenado por Waldir Rampinelli. Ele trouxe as informações sobre o estudo que fez das charges publicadas em jornais brasileiros durante o episódio da Guerra contra o Paraguai, de 1864 a 1870. Este trabalho acabou virando livro, esgotou, e agora deve ser reeditado pela editora da UFSC em 2010.
Mauro tem formação em jornalismo, mas fez mestrado e doutorado em História, porque entende que o jornalismo só pode expressar seu compromisso social se tiver perspectiva histórica. E a opção pela busca do desvelamento da idéia-imagem do Paraguai durante o período da guerra contra aquele país surgiu justamente para observar como o jornalismo considerado mais crítico da época desenhou o conflito. “Eu sempre acreditei que o jornalismo tem como papel central quebrar estereótipos, eliminar os preconceitos e esperava encontrar isso nas charges, porque sempre foi do humor, da caricatura, essa coisa de questionar o poder”.
Mas, ao pesquisar nas folhas satíricas mais importantes da corte Mauro ficou surpreso ao perceber que todas elas, mesmo as mais críticas, tinham a mesma idéia preconceituosa do Paraguai. E mais, ao logo da pesquisa, ele constatou que a maior tragédia do continente latino-americano, que massacrou um povo inteiro, tinha sido apresentada como a saga de um “sanguinário e cruel” dirigente: Francisco Solano Lopes. Isso sem contar no desrespeitoso e preconceituoso tratamento dado ao fato de que a maioria dos paraguaios era indígena.
Mauro levantou 591 imagens que se referiam ao Paraguai, 202 delas especificamente relacionadas com a questão do conflito. E, em todas estas, a referência a Solano Lopes era a de um inimigo sádico e sanguinário. “Solano aparecia sempre associado ao demônio ou a uma ave de rapina, e os desenhos ainda apresentavam o castigo que ele devia merecer: a morte. Ou seja, o jornalismo estava totalmente submetido à visão oficial de que a guerra era uma cruzada civilizatória para libertar os paraguaios de um louco”. O professor destaca a importância deste tipo de trabalho para compreender como o jornalismo ainda hoje faz esse jogo de servidão ao poder instituído. Lembrou da invasão do Iraque, evento tão contemporâneo, que foi referendado pela mídia com a mesma lógica de mentiras.
O fato é que esta imagem construída durante a guerra contra o Paraguai - que é conhecida como um tremendo genocídio uma vez que dos um milhão e trezentos mil habitantes do Paraguai, restaram pouco mais de 200 mil no final do conflito – até hoje povoa o imaginário social, fazendo do país de Solano Lopes sempre um “lugar ruim”. Mauro lembra que até no esporte, um espaço do jornalismo que aparece como neutro politicamente, esta imagem do Paraguai é bastante reforçada. “Agora pouco se falava que os times pequenos que disputam o campeonato brasileiro são como cavalos paraguaios, ou seja, pensam grande e morrem no meio do caminho. Isso é uma alusão à Solano Lopes que, segundo a mídia da época, foi quem declarou guerra ao Brasil, sem se dar conta que lutava contra um gigante e por isso foi derrotado. Ora, nada mais mentiroso. A guerra começou porque o Brasil invadiu o Uruguai e servia aos interesses dos latifundiários gaúchos e do império inglês. Solano Lopes apenas se defendeu.
Mauro também mostrou uma reportagem bem atual da revista Veja em que ela mostra os dez países que mais fazem falsificações. Nesta lista não estava o Paraguai, mas o título da matéria era: Made in Paraguai. Isso só reafirma a idéia-imagem de um lugar onde reina a pobreza, a feiúra, a corrupção e a falsificação. Tudo herança daqueles dias da guerra. “Até o Almanaque Abril, na sua edição deste ano, divulga informações incorretas sobre o conflito. Diz que Solano declarou guerra contra o Brasil porque queria chegar ao mar. Não fala da invasão do Uruguai, não fala que o Brasil nem exército tinha, montou um com escravos e pobres. Ou seja, a guerra contra o Paraguai segue criando preconceitos e mentiras”.
O trabalho de Mauro Silveira é uma instigante reflexão sobre o caráter cortesão do jornalismo atual que, tal qual nos dias da guerra contra o Paraguai, nada mais é do que um modelo de propaganda como bem já apontou o teórico estadunidense Noam Chomski. Basta que se observe como trata a Venezuela, Hugo Chávez ou o aymara Evo Morales. Exceções há que só confirmam a regra.

Editora Expressão Popular celebra 10 anos com lançamento de livros na UFSC

A Editora Expressão Popular está celebrando 10 anos. Uma proposta dos Movimentos Sociais, que sentiram a necessidade de formação política para a Classe Trabalhadora, que é o motor transformador, para construir uma sociedade com justiça social.
Propõe dar condição de acessar livros de Pensadores Clássicos e Modernos de alto gabarito, que trabalham temas políticos para a libertação do pensamento coletivo, livros estes que são impossíveis de serem acessados em outras editoras que os comercializam simplesmente como mercadorias e de alto custo.
A Editora Expressão Popular entende que o acesso ao saber é um direito de todos, e não só dos economicamente privilegiados.
O Ato contará com o Lançamento de quatro Livros de Leandro Konder: A derrota da dialética; Introdução ao fascismo; Marxismo e alienação; O marxismo na batalha das idéias e será apresentado um vídeo do autor que contextualizará um pouco os temas. Teremos a presença de um representante da Expressão Popular que fará uma análise sobre a Editora e a conjuntura política atual.
E é com muita alegria que convidamos você para participar dessa comemoração, aqui em Florianópolis no dia 28 de setembro de 2009 no Auditório do CED - UFSC às 18:00 horas. Ao final, um pequeno coquetel com produtos da Reforma Agrária, e o “coquetel dos livros”. Estaremos também no dia 29/09 em Criciúma – UNESC; 30/09 em Blumenau – FURB; 01/10 em Lages e 08/10 em Chapecó.
Convidamos você que compartilhar desta convicção ideológica.
Ajude-nos a divulgar esta mensagem, repassando para seus amigos.
PÁTRIA LIVRE Editora Expressão Popular Brigada Mitico – MST DCE da UFSC

Convite a quem ama a Primavera e os livros


domingo, 20 de setembro de 2009

Pobres & Nojentas 19 chega com a Primavera

A revista Pobres & Nojentas n. 19 chega nesta semana, junto com a Primavera! Nela há reportagens sobre a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos trabalhadores da Previdência Social, e também um perfil do maestro Newton Kramer dos Santos, que semeia música num rancho de canoa na praia do Campeche, em Florianópolis, além dos artigos e colunas que já são a marca da P&N. Há ainda um ensaio de imagens que são puro fogo. Registre-se que parcela significativa das fotografias desta edição, inclusive o ensaio de imagens, contou com o trabalho dos repórteres fotográficos Claudio Silva e Luís Prates, dois profissionais de "mão mandona" que sabem domar as manhas da luz.
A gente avisa quando a nossa filhota chegar!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Reforma agrária em Santa Catarina

Em Taió, no Alto Vale do Itajaí (SC), o MST planta mais uma semente da reforma agrária. Veja o vídeo na conta de P&N no You Tube:
http://www.youtube.com/PobresyNojentas?gl=BR&hl=pt

O medo

Elaine Tavares
É uma coisa assim, que chega no meio da madrugada, ou numa tarde de sol. A gente nunca sabe direito explicar. Vem e se instala. Paralisa, encaixota, prende. Alguns se deixam vencer, incapazes de sair da armadilha criada sabe-se lá como. Outros, debatem-se, agitam-se, e escapam. Não é coisa fácil porque, afinal, em cada esquina da vida ali está, a espreitar.
É a primeira espinha que deixa a carta torta, é o primeiro beijo que não se deu, é a nova escola, a cidade outra que não a mesma, outros amigos jamais feitos. É a timidez, é a insegurança, é o terror de abandonar as seguras margens onde sempre se esteve. O temor de dar o passo necessário, a ansiedade por não saber o que fazer.
O medo é essa coisa doida que desaloja, que desconforta, que dói. O medo é prisão da qual a alma se sente incapaz de sair. O medo vai sugando a alegria, o prazer, o sonho, a vida. O medo estanca todas as possibilidades. Ele é como um dragão, maior do que nós mesmos. Mas não é invencível. É só um balão inflado pelas nossas fantasias. Fruto da nossa incerteza. Tem remédio.
Dia desses, num encontro mágico, uma mulher quéchua me ensinou um encanto. Disse que quando ele viesse, voejando sobre mim, era para eu respeitar, porque o medo é só a outra face da coragem... “Há que rezar ao grande deus, Inti, e pedir que ele mande esta outra face. Depois, há que soprar, que o medo se transmuda em bravura. Mas tem que acreditar”. Desde então é assim! Quando o medo chega, eu sopro... E tudo fica como tem de ser.