domingo, 30 de março de 2008

Almas vegetais

Almas vegetais aprisionadas nas velhas igrejas de Olinda; terços de contas de musgo, num desfiar de umidade, oração à frente da pequena santa cruz.

Míriam Santini de Abreu

Doutscha


Fernando Karl


Chuva torrencial lá fora e aquela mulher de nome estranho – Doutscha – acende uma erva.


O vinil rodando na vitrola.


Próximo à janela envidraçada, o guarda-chuva aberto e a repentina sombra que ele tatua nas paredes. Cessa uma chuva, principia a neve. A mulher de longos cabelos negros, que tem a alma compassiva, confidencia:


– Neste momento – ela diz como quem se surpreende – a neve, olha a neve...


Tento conversar:


– Quer que cesse a neve? Quer um cigarro? Trago fósforos.


– Não, a neve, olha a neve...


Pois Doutscha foi sempre uma consoladora para quem, como eu, na vida aprecia a lógica e pretende que existir seja uma raiz quádrupla do espírito. Há chuvas que Deus mesmo envia, e são aguaceiros no vazio, nos telhados das casas e nas vidraças. Recolho-me, não aos esconderijos que os outros têm, mas à sombra da ampla árvore nessa rua de Warmstrasse. Desço os lábios à bica d’água atrás da igreja luterana. Tenho caligrafia regular, sal até nas lágrimas, e os meus livros eu os grafo com mergulhar a pena da melancolia no tinteiro velho, enquanto, ao lado daquela árvore mais escura, alguma deusa com a pele transparente me sorri. Tenho amor a isso de haver a deusa Doutscha e eu acariciá-la, talvez porque, essa noite, eu não tenha mais nada a fazer a não ser enrolar uma erva, escutar Chet Baker.


Ou talvez Doutscha só exista nesta narrativa, da mesma forma que o amor de uma alma só pode respirar à beira do vulcão, e, se temos por sina dar amor, tanto vale se o dou à xícara com chá de artemísia ou ao colosso das constelações.


Tenho, muitas vezes, o hábito de fumar cigarros Gauloises.


Que me é esse disco que flue na vitrola um Chet Baker, salvo o instante ocasional em que a agulha toca a pele do vinil e a música, senhora das minhas horas, consola os dias noturnos da melancolia?


Trata-me bem, Doutscha, escuta-me com doçura, salvo nos momentos bruscos em que, por tédio ou inércia, eu te apunhá-lo a clavícula com a faca enferrujada. Desconhecida, sim, és, Doutscha, mas por que me preocupa um símbolo, uma escada de pedra, um mergulhar o pão no café, e a razão, Doutscha, o que é?


Leio aqui O Livro Negro, de Thamès Carda: “Para mim a morte explica-se como História Natural, como aquilo que tornou possível o pensamento. Se temos uma meta, parece-me que só pode ser a morte. Tudo o que se diz é sempre sobre a morte. O nosso nascimento lança-nos numa amnésia, ávidos de mar grosso e de palavras, ávidos de algumas sombras de amor. Tentamos ressuscitar a xícara e fracassamos, o fôlego e fracassamos, tentamos ressuscitar o que somos nesse instante e fracassamos, porque não se trata de ressuscitar ou não, trata-se de sumir numa Fuga – de Johann Sebastian Bach –, para não se sabe onde, para onde não se sabe mais”.


À sombra de um ventilador, numa casa pequena e repleta com vasos de plantas, lembro-me de tua nudez, Doutscha, lembro-me dela no futuro com a saudade que sei que terei. Nos arredores desse pequeno jardim buscarei a chuva; de meu coração, eu pressinto, uma carpa de fogo escapa em andante lentíssimo e fura a cortina do quarto que a brisa estufa de leve e, pelos buracos que a carpa deixou na cortina, eu não verei o vento que não vejo agora.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Dica do dia

Documentário "Paixão pela Palavra", nesta terça-feira (25), às 23h30min, no Canal Futura (32)

O segundo episódio do documentário biográfico "Paixão pela Palavra" será apresentado nesta terça-feira (25), às 23h30min, com reprises às sextas-feiras, às 16h30min. O programa reúne depoimentos inéditos e exclusivos do poeta Manoel de Barros e revela histórias sobre a sua infância, juventude e carreira. A atriz Cássia Kiss e o jornalista José Hamilton Ribeiro se revezam na narração dos episódios e na leitura das poesias. A série também conta com depoimentos de Luís Melodia, Beatriz Segall, Lúcia Castello Branco, Abílio de Barros e José Mindlin. São, no total, cinco episódios.
Onde: Canal Futura (Net - 32)

sábado, 22 de março de 2008

Figadas de verão

Por Míriam Santini de Abreu, jornalista
Adoro a Serra Gaúcha no verão. Os caminhos para as colônias cheiram a uva, os parreirais amaciam a minha melancolia. É época de figos, também, e torço para que minha mãe e minha tia Nique mais uma vez façam figada.
Lembro do ritual, guardado nas memórias de infância:
Comprar uns 10 quilos de figo, o açúcar.
Moer. Despejar o fruto no tacho.
Mexer, mexer, horas a fio, com uma pá de madeira.
Que canseira, aquilo. A uvada é pior, as bolhas doces pulam, às vezes nas mãos.
Eu mexo uns 10 minutos e canso. A mãe e a tia não cansam.
Depois, despejar a pasta docemente viscosa nos potes de vidro.
O tacho, como dantes, continua a ser acomodado no canteiro. Negro por fora, prateado por dentro. E as minhas duas bruxas ali manejam a pá, naquele caldeirão doce. Eu gosto de olhar. E, depois, deslizar, com indolência, a fruta virada pasta num pão caseiro recém-saído do forno. Mas, nem que por uns minutos, eu também deslizo a grande colher de pau no fundo do tacho, preguiçosamente, só para poder dizer que também fui partícipe daquele ritual da colônia.
Veja Eluci e Nique no ritual da figada
video

sexta-feira, 21 de março de 2008

A casa da vó Antônia


Leia no link abaixo o texto "Almas de Pedra e Madeira", a mais recente crônica de Míriam Santini de Abreu no jornal Observatório, que circula em Taió, Pouso Redondo e Salete, SC.
Trecho:
Minha avó Antônia faleceu há quase 25 anos,
e ainda está no beco da Olavo Bilac a casa onde ela morava, hoje habitada por
dois primos. A tinta se foi; a madeira, de tão apodrecida, em alguns cantos se
solta ao toque dos dedos; as telhas só por milagre ainda não despencaram do
beiral. Nada resta, mas, contraditoriamente, resta tudo, porque ali estão
cristalizadas as minhas mais antigas memórias de infância.


quinta-feira, 20 de março de 2008

A reforma sindical se faz, mansinha...

Elaine Tavares - jornalista

A indigência do movimento sindical brasileiro é coisa de dar dó. Depois de ter sido protagonista de momentos históricos importantes como a participação na derrocada da ditadura militar no final dos anos 70, hoje, sob a batuta do ex-líder sindical Luis Inácio, o que se vê é a completa capitulação dos trabalhadores a uma razão de estado. Por isso não surpreendeu o fato de o Projeto de Lei 1990/2007 ter sido aprovado pelo Congresso Nacional sem que se ouvisse qualquer protesto por parte das principais lideranças sindicais.

O projeto, que é o resultado de uma Medida Provisória apresentada pelo executivo - depois de ter sido discutida com trabalhadores e empresários, todos juntos, sentados na mesma mesa, no consenso habermasiano – define, delimita e estabelece regras para a existência das Centrais Sindicais. Ou seja, décadas depois de Getúlio Vargas ter colocado sua mão paternal sobre os trabalhadores, criando os sindicatos atrelados ao Estado, vivemos um novo momento de atrelamento ao Estado-pai, desta vez proposto por um homem que já foi uma das mais importantes figuras da vida sindical brasileira que sempre se considerou oposta ao modelo getulista.

Isso não seria espantoso a considerar o rumo que Luis Inácio deu ao seu governo desde o primeiro mandato, quando realizou uma contra-reforma da Previdência que tira direitos dos trabalhadores e apresentou aos velhos do Brasil a “incrível” possibilidade da aposentadoria privada através dos Fundos de Pensão, cuidadosamente comandados por outros ex-militantes da luta sindical. O que causa assombramento é ver o movimento sindical, na sua esmagadora maioria, aceitando todo esse processo, e o que é pior, lutando por ele.

O primeiro elemento a considerar é o fato de os trabalhadores terem aceitado discutir suas formas de organização com governo e empresários. Ora, alguém aí já ouviu dizer de entidades empresarias sentando com os trabalhadores para decidir como vão promover arrocho salarial ou as estratégias que adotarão para coibir greves e mobilizações? Pois no Brasil de Luis Inácio isso foi proposto aos trabalhadores. Sentar com os empresários para discutir como os trabalhadores podem se organizar. Isso foi feito no Fórum Nacional do Trabalho, uma verdadeira excrescência do ponto de vista da autonomia e da emancipação dos trabalhadores.

Essa conversa maluca entre patrões, trabalhadores e governo, no melhor estilo da conciliação de classe, foi gestando um monstro que levou o nome de Reforma Sindical. Mas, como sempre acontece, existem pessoas ou pequenos grupos que conseguem, de alguma forma, perceber que o rei está nu. E, estes, abriram a boca. Muitos foram os debates, seminários e protestos que esta minúscula parcela de trabalhadores que acredita na capacidade de eles próprios decidirem sobre suas formas de organização, conseguiram realizar. Essa gritaria, ainda que de uma minoria, fez com que o governo mudasse suas táticas. A tal “reforma” não apareceu na sua inteireza, ela vai se fazendo aos poucos, com pedaços de lei sendo aprovados aqui e ali, mudando totalmente a configuração da organização laboral no Brasil. Essa colcha de retalhos, que vai se conformando devagar, torna muito mais difícil a luta e, por conta disso, os trabalhadores vão perdendo cada dia mais a sua autonomia.

Já em novembro do ano passado a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que legalizava as Centrais Sindicais. E o que significa isso? Que agora, as Centrais terão a prerrogativa de atuar juridicamente contra medidas que julguem desfavoráveis aos trabalhadores. São, portanto, entidades jurídicas, com CGC, registradas etc... Oficiais! A pergunta que fica é a seguinte: e desde quando os trabalhadores organizados precisam de autorização, dentro da ordem, para discordar de qualquer medida que venha contra seus interesses? Isso é surreal. As centrais entenderam que é no marco da justiça burguesa que a as lutas trabalhistas vão se decidir. Patético! Basta ver o processo acelerado de criminalização dos movimentos sociais que vivemos em toda a América Latina e principalmente no Brasil.

Mas, se não bastasse isso, os senadores decidiram apimentar ainda mais a questão e colocaram algumas emendas à lei, que acabaram aprovadas no último dia 11 de março, também sem nenhum protesto dos trabalhadores. Ao contrário. Contaram com o apoio de todas as legalizadas centrais, inclusive a CUT, principal defensora desta idéia.

Pois agora, as Centrais Sindicais, numa decisão tomada em conjunto com empresários, já tem as suas regras para existir. Assim, para serem reconhecidas por patrões e governos devem apresentar os seguintes requisitos: ter mais de 100 sindicatos filiados, com presença nas cinco regiões do país, ter 5% do total de trabalhadores sindicalizados no país, ter a presença de sindicatos em ao menos cinco setores de atividade econômica e filiação em, no mínimo, três regiões do país, com mais de 20 sindicatos em cada uma. Também segue valendo o imposto sindical que descontará 3,3% dos salários de todos os trabalhadores, sindicalizados ou não.

Também ficou decidido como esta verba que as Centrais vão arrecadar vai ser distribuída: 10% vai para a Central na qual o sindicato é filiado, 60% vai para o sindicato, 15% para a Federação, 5% para a Confederação e 10% para a conta salário-desemprego, um programa do Ministério do Trabalho. Ou seja, além de ter que obrigatoriamente contribuir para a Central e tudo o mais, o trabalhador ainda vai ele mesmo financiar o seu seguro desemprego. Nada poderia ser mais perfeito.

Pasmem, a lei ainda garante aos trabalhadores o direito de participar dos fóruns, colegiados de órgãos públicos e demais espaços de diálogo social que possuam composição tripartite, nos quais estejam em discussão os interesses da classe. Isso significa que agora sim. Os trabalhadores vão poder sentar com os empregadores e decidir como serem melhor explorados. É, sem dúvida, a perfeição da ordem. Autorizados, inclusive juridicamente, os trabalhadores, desde que cumpram as determinações do governo e dos patrões poderão, organizadamente, protestar. Tudo no maior diálogo, respeitoso e legal.

As pergunta que me assombram são simples: alguém aí acredita no Papai Noel? Quando, na história de lutas dos trabalhadores foi necessário estar enquadrado na ordem para reivindicar? Quem precisa de legalização para fazer a luta pelos seus interesses? Porque o movimento sindical aceita o anti-político imposto sindical? Como pode aceitar regras impostas por patrões e governo sobre como conduzir sua luta?

Por isso falo em indigência. Nunca estivemos tão mal em termos de lideranças sindicais. Nunca houve tanto vazio, nem quando líderes populares, urbanos e camponeses caiam como moscas sob as botas da ditadura. Nunca houve tanta capitulação, assim, em tempos de “democracia”. O fato é que o governo de Luis Inácio vem conseguindo conquistas para o modo de vida neoliberal, bem maiores do que qualquer outro governante de direita logrou alcançar. Luis Inácio engorda os banqueiros, triplica a dívida interna, apóia o agronegócio, libera os transgênicos, fomenta os Fundos de Pensão, incentiva o uso de empréstimos bancários endividando os trabalhadores e, agora, consegue seu feito mais monumental. Coloca, com pompa e circunstância, o cabresto firme na boca das entidades sindicais. E sob o aplauso da maioria dos trabalhadores. Há que se tirar o chapéu para um governo desses!

Agora é esperar para ver a proliferação das Centrais Sindicais, louquinhas para criar seus fundos, suas máquinas burocráticas e os vampiros da classe trabalhadora. O dinheiro vai entrar tranqüilo pelo imposto sindical, não há que conquistar ninguém pelo debate, pela discussão, pela política. Resta saber se os trabalhadores vão permanecer amarrados às viseiras ou se, num rasgo de claridão, vão perceber o engodo de tudo isso.

A classe trabalhadora não precisa de permissão, regras, autorizações para lutar por seus direitos e para buscar os seus sonhos. A classe trabalhadora, unida, pode construir o mundo novo, inventando novas ordens e novas maneiras de organizar o mundo. A classe trabalhadora não precisa de tutela. Ela é autônoma, soberana e livre. E haverá de chegar o dia em que isso será óbvio demais...

quarta-feira, 19 de março de 2008

RÉQUIEM


Esse Réquiem é dedicado ao Assis, falecido recentemente em Florianópolis/SC.

Fernando José Karl

Para enxugar o sono do enfermo, materializo estrela e vento, lavo louça entre sombras do quintal abandonado. E é pedra gigantesca no peito o sono do enfermo, se o acossa a esfera bravia de inexistir, e ele, mesmo sendo contrário a isso, tem – agora – que cuidar de outras luzes, sob um outro céu, céu sem palavras ou história pessoal, sol na face, peixe perdido, porque o enfermo morreu faz uma hora, sem carícia, café, sem música, sonho, sem uvas, sem Deus, porque para o enfermo bastaria um pano de linho trançado com aquele aroma de infância, bastaria um pano que lhe enxugasse a morte.

terça-feira, 18 de março de 2008

Assis

Partiu o nosso Assis. Um lutador pela Universidade Pública. A nosso pedido, Assis sempre fazia o jantar para o lançamento do número de aniversário da Pobres, para o lançamento de nossos livros. Geralmente um arroz carreteiro. Bastava entrarmos no restaurante dos Volantes da UFSC e ele nos levava até a cozinha para conferirmos a aparência e o sabor da comida na enorme panela. E enquanto todos comiam, ele ficava com os braços cruzados sobre o balcão, sorrindo, sozinho, prazer de ter feito. Era uma luta para que pudéssemos lavar a louça, ajudar a recolher os pratos sujos. Ele queria fazer isso também. E era com gosto que levava a revista para vender em Brasília, nas plenárias da qual participava como coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da UFSC. Vendia quase todas. E quando estávamos com ele e aparecia algum conhecido, nos apresentava com orgulho de pai. - Essa é fulana, faz isso e aquilo e aquele outro. Disposição para a vida, Assis a tinha.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A senhorita Chuva


Fernando Karl

A propósito de algumas caligrafias de Georgia O’Keeffe, tive agora um pressentimento do pó que sou. Eu quis me fazer monja no convento das Carmelitas e tive que aprender muito sobre jarros e hidráulica. Jarros valem o mesmo que nada e a retina onde se molham, menos ainda. Uma sereia, tornando a escutar aquelas ondas de grosso mar sob a embarcação, encontraria nela Ulisses amarrado ao mastro e remadores com cera nos ouvidos. O filósofo naturalista colheria da cena elementos para desvelar a loucura. Um que seja furioso bate a cabeça no muro e descobre que mais vale andar pela varanda do que fincar no peito um arpão, e observa que as linhas da chuva que se espalham contra a vidraça também escreveram, em grego aquático, pelas calhas, a ode que ninguém pode ler.

Nesse ano entrei para o Clube dos Vencidos da Vida. Nos encontros dominicais é costume bater o martelo e vociferar: “Os olhos vão ver o paraíso, sim, mas serão olhos apodrecidos”.

Uma noite, como saísse do conservatório – fui escutar um quinteto de Brahms – encontrei com a senhorita Chuva e fomos tomar chá. Imagine: chá na boca de chuva da senhorita Chuva. Era aquática figura de ninfa: os cabelos, os olhos de água. Já foi possuída nos terrenos baldios: os brutos todos penetraram as ancas da senhorita Chuva, chuparam laranjas em seus flancos, e um pouco daquele ar distante que tinha, perdeu-se. Ninguém mais viu sua inocência exilada.

Ao chá conversamos sobre como assassinar aqueles que a violaram e, pouco depois, de hidráulica aplicada, o que me assombrou bastante; o usual nos encontros era conversarmos sobre louças, abismos.

Depois do encontro com Senhorita Chuva, uma lufada de vento me ergue do chão e sobrevôo os casarios com pomares e um coro de anjos, com mais de cem asas, grita que os imperadores antigos não encontraram o alimento que procuravam e, só por isso, morreram.

Água da chuva nos olhos mortos, senhorita Chuva.

Mostra Internacional de Instrumentos de Tortura


Porão do TAC, em Florianópolis, onde foi instalada a Mostra Internacional de Instrumentos de Tortura da Idade Média. Estão ali objetos encontrados em vários lugares na Europa.
Foto: Samira Moratti

domingo, 16 de março de 2008

O grande reino do valinho

A convite do jornalista Eduardo Schmitz, Míriam Santini de Abreu, uma das editoras de P&N, está escrevendo uma coluna mensal para o jornal Observatório, que circula em Taió, Pouso Redondo e Salete, SC. A primeira crônica, "O grande reino do valinho", está disponível em: http://www.observatorio.jor.br/frame/frames_18_19.htm


video

Crédito: Periodistas Pobres & Nojentas

quarta-feira, 12 de março de 2008

II Seminário de Imprensa Sindical

O Sindprevs/SC é o promotor do "2º Seminário de Imprensa Sindical - Jornalismo sindical e popular: mostrando novos caminhos e democratizando a comunicação", que será realizado no dia 18 de abril, no Plenarinho da Assembléia Legislativa. O objetivo é reunir jornalistas, assessores de comunicação, diretores sindicais e estudantes, num espaço de discussão e troca de idéias. Mais informações pelo e-mail: imprensa@sindprevs-sc.org.br A Pobres & Nojentas vai estar lá!

Impróprios, infantis ou desumanos?

Por Samira Moratti, de Florianópolis
De acordo com informações do site G1, o canal de TV russo 2X2, especializado em animações para adultos, teve que retirar do ar o desenho Happy Tree Friends após reclamação do governo. De acordo com a revista Variety, a animação era imprópria por conter cenas de violência trocadas entre os personagens. No Brasil, a série é transmitida na MTV todas as quartas-feiras, às 23h30.

Apesar do fato, a emissora respondeu que o desenho não era transmitido em um horário no qual crianças pudessem assistir. Além disso, uma mensagem explicitando que o desenho era inapropriado para crianças era divulgada antes de exibi-lo.

A notícia pode – e deve – ser mote para discussões aqui no país. Não, no sentido da atitude do governo, mas sim, do conteúdo dos desenhos animados. Hoje, consideram-se inapropriadas cenas, imagens ou sons que contenham conteúdo apelativo, como pornografia ou palavrões. No entanto, as animações assistidas diariamente por milhares de crianças brasileiras, nos mais variados canais abertos e fechados, utilizam outros artifícios que poderiam ser considerados inapropriados. Muitos deles banalizam a amizade, envolvendo brigas entre amigos. Alguns, considerados inofensivos tais como Tom & Jerry e Coiote e Papa-Léguas, mostram por vezes ambos se agredirem ou se matarem e, logo após o feito, reviverem. De certo modo, uma criança de oito anos sabe que isso é impossível; já uma de dois ou três anos não terá esse mesmo raciocínio.

Mentes críticas e reflexivas
O desenho Itchy & Scratchy (Comichão e Coçadinha), exibido internamente em The Simpsons, também utiliza brigas e agressões variadas para levar Bart, Lisa ou Maggie às gargalhadas. O que parece engraçado é, na verdade, motivo para reflexão sobre até onde é válido usar a banalização excessiva da violência. A mesma análise deve ser feita no jornalismo.

Ora, em meios jornalísticos, se discute há tempos o tabu de divulgar ou não notícias sobre suicídio. Os códigos de ética mencionam evitar a divulgação, exceto nos casos em que o suicida é famoso, além do fato da notícia em questão ter validade para a sociedade, como a morte de um presidente, por exemplo. Porém, é válido divulgar assassinatos, estupros seguidos de morte, ou qualquer outro fato que contenha muito sangue e palavras tanto quanto invasivas. Logo, que critério é esse que valida certas notícias e outras não?

Diz-se que, ao divulgar notícias sobre suicídio, por exemplo, pode-se influenciar esse tipo de comportamento na sociedade. E ao divulgar cenas de violência? Não há influência? E quando o repórter se refere ao corpo da vítima com a expressão "... o que sobrou do corpo", por exemplo? Também não é nocivo, inapropriado?

Assim também o é com desenhos animados. Os mangás, em sua maioria, usam a perspectiva violência = audiência. Mas não é exclusividade deles. Os norte-americanos X-men, Spider Man ou outro qualquer que se valha da narrativa violenta como forma de obter atenção, também devem ser foco de análise. Além de conter violência, muitos deles possuem mensagens subliminares, motivando o consumo entre outras ações, de forma psicológica. É necessária maior atenção ao conteúdo repassado às crianças, assim como no que é recebido através dos noticiários. Dessa forma, serão garantidos subsídios para mentes críticas e reflexivas.

terça-feira, 11 de março de 2008

Elaine Tavares no Educação & Cidadania

Veja em
a entrevista de Elaine Tavares, editora de P&N, a Maria Odete Olsen no Programa Educação & Cidadania. Elaine e Maria Odete conversaram sobre a situação da mulher hoje. Em 2006 Maria Odete abriu espaço em seu programa, nas noites de sábado, para falarmos sobre a proposta da revista.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A cadeira nossa de cada dia

Míriam Santini de Abreu

O depoimento abaixo foi encontrado em um artigo acadêmico sobre as mudanças na organização do trabalho em uma indústria de calçados de São Paulo:

"Tem uma pespontadeira lá que trabalhava do meu lado. Durante todo o tempo do teste [período de experiência] ela trabalhou rezando. Ela me falou que não agüentava de dor nas pernas, mas ela precisava do emprego. Então tinha que se apegar na oração para não lembrar da dor".

Sempre observo um fato cada vez mais comum em vários ambientes de trabalho: a falta de bancos ou cadeiras. Num grande hipermercado de Florianópolis, Santa Catarina, tanto na padaria quanto na lanchonete, os atendentes passam toda a jornada de trabalho em pé. Não há, à vista, lugar para sentar. O mesmo acontece na locadora dentro do hipermercado. Mesmo que não haja clientes locando ou devolvendo filmes, os trabalhadores são obrigados a ficar em pé para exercer suas funções.

Há, também, uma padaria no Centro da capital catarinense onde as mulheres que atendem precisam se acotovelar para se movimentar no reduzido espaço atrás do balcão. Uma corta um pedaço de cuca; outra, com um pegador, pesca, por cima da primeira, meia dúzia de pães; a terceira, expressão cansada no rosto, desliza os braços por baixo das colegas e alcança, com sufoco, um pastel. Sempre em pé. Bastam minutos ali, num calor sem refrigério, na esquina barulhenta de duas ruas movimentadas, para qualquer um sair suplicando por ar. O lugar vive cheio. Eu, cuja família não é das mais resistentes em relação às veias, fico imaginando a dor naquelas pernas ao final do dia, que nem uma salmoura das mais ardidas consegue aliviar.
E para quê isso? Que espécie de ganho há no ato de impedir que uma pessoa se sente, que acalme a pressão sobre ossos, músculos, tendões, que repouse o corpo?

A trabalhadora rezava para tolerar a dor. Quando se fala em "reestruturação produtiva", "otimização", "flexibilização", há, por trás do discurso, essa imensa dor que se abate sobre trabalhadores que exercem as mais diferentes funções. Dor física e emocional.

Lançamento de P&N n.11 será na terça, dia 11


Nesta terça-feira, 11 de março, às 19h15, no bar Botequim, na rua Rio Branco, quase esquina com Osmar Cunha, em Florianópolis, será feito o lançamento do número 11 da revista Pobres & Nojentas. Não perca! Confira os textos da nova edição, à venda na Banca da UFSC e na Banca da Catedral:

Editorial
Eliana do Santa Amélia
A força das palavras
Veroca, meu amor
Vendedora de rosas
Obesidade, epidemia em ebulição
Quem aí joga golfe
"A vaidade é um veneno na luta comunitária"
Isso é coisa que acontece!
A negra Piedad
Ela foi até o fim!
A educação pelo sim
Umas e outras

Assisviajantes VII

Rosangela Bion de Assis

O imenso palácio do rei da Espanha "Palácio de Almodena" era tão grande e tão bonito que foi difícil achar sua fachada principal. Nos fundos, havia um lindo jardim, muito clássico, ao lado de uma ampla praça onde muitas pessoas descansavam deitadas na grama, enquanto outras brincavam numa espécie de patinete motorizado, que também era usada pelos policiais. A praça era cercada por barzinhos que estendiam suas lotadas mesas pela praça. Aproveitamos para tomar sorvete naquela ensolarada e quente tarde em Madri.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Dia Internacional da Mulher

Rosangela Bion de Assis

Vem mulher,
que é hora de cruzar a última fronteira
e levar nossa delicadeza e nossos rompantes
aos confins do poder.

Vem mulher,
deixa para depois a limpeza,
não deixa para amanhã o livro,
não deixa para depois o beijo.

Vem mulher,
que já somos tantas e já sonhamos muito,
vamos caminhar pela floresta secreta
e ocupar os primeiros lugares.

Vem mulher,
que já treinamos o suficiente,
estudamos o necessário
e agora o mundo precisa da nossa doçura
e da nossa força.

Vem mulher,
do escritório e do campo,
levanta a tua voz,
precisamos nos apresentar ao comando.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Coisas que eu fazia quando era criança III

Rosangela Bion de Assis, jornalista

• brincava de missa e fazia hóstias com o miolo do pão e folhetos de músicas para serem cantadas durante a brincadeira.
• fazia sandálias com papel, plástico e cordão, naquele modelo meio grego. Ficavam engraçadinhas, mas duravam pouquinho.
• fazia roupas com os sacos plásticos que se usa para o lixo para eu e minhas irmãs usarmos durante as apresentações das coreografias que ensaiávamos. Nossas vítimas mais freqüentes eram minha tia e seu namorado. Foi uma prova de fogo para a relação. Eles casaram e vivem bem felizes há mais de 20 anos.
• tínhamos um grupo de nove meninas que ensaiava e apresentava peças de teatro no Centro Social Urbano do Saco dos Limões. Claro, eu escrevia as peças. Meu maior sucesso foi “O Dia das Estrelinhas”. Pedíamos pedaços de tecido no comércio para confeccionar os figurinos.
• brincava de escalar no morrinho que tinha no quintal da casa da minha avó, até o dia que minhas irmãs cansaram de segurar a corda que me prendia e eu escorreguei barranco abaixo.
• fiz um furinho com um alfinete na tampa para beber o Martini que estava na geladeira sem abrir a garrafa. Eu e minha irmã ficamos tontas e acabamos dormindo depois de chupar meia garrafa. Minha mãe teve que pedir ajuda de uma vizinha para arrombar uma janela para entrar em casa. Ela não entendeu nada quando viu a gente dormindo pesado no chão da sala e depois entendeu menos ainda quando viu a garrafa fechada pela metade, dias depois. Eu tratei de arranjar uma explicação científica:
– Evaporou... ficou muito tempo parado na geladeira!
• fazia sorvete com as raspas do gelo do congelador e leite condensado.
• fritava batatinha para a galera da vizinhança depois que minha mãe saía para trabalhar
• fazia experiências com formigas. Elas eram divididas em grupos dentro de vidrinhos, separadas pelo número de pernas que tinham sido retiradas. O objetivo da pesquisa era verificar se a formiga sobrevivia sem pernas. Não lembro do resultado.
• todas as tentativas frustradas de fazer nhoque eram jogadas pra trás do muro de casa. Meu tio ficou assustado quando tempos depois encontrou aquelas bolinhas estranhas. Ele e minha mãe ficaram analisando se não seriam ovos de algum animal.
• dizia para os meus coleguinhas da primeira série que tinha sido operada do pé. Isso me deixava mais importante até o dia que uma amiguinha explicou que o pé não pode ser operado. Fiquei sem palavras.

Coisas que eu fazia quando era criança II

Elaine Tavares, jornalista

  • Brincava na chuva e soltava barquinho de papel na enxurrada.
  • Brincava de bandido e mocinho nas cascas de arroz, no engenho que ficava ao lado da minha casa. Era um monte gigantesco e a gente adorava ser atingido porque morria, e caía rolando pelas cascas até embaixo.
  • Jogava bolita com a gurizada e ganhava todas.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Pobres & Nojentas 11 está nas bancas!

A edição número 11 de Pobres & Nojentas estará nesta quinta-feira, 6, à venda na banca da UFSC e na da Catedral, em Florianópolis. Compra a tua! Leia o editorial da edição:

Revistinha difícil? Não, pedagógica!

Elaine Tavares - editora da Pobres e Nojentas

A revista alternativa catarinense Pobres & Nojentas caminha para seu terceiro ano de vida, sempre apresentando uma nova possibilidade de aprendizagem no campo do jornalismo. Nojenta mesmo, querendo falar desde a periferia da periferia, afinal, quem pode inventar algo se não está no eixo Rio/São Paulo? Pois a gente faz isso. Por isso, outro dia, numa das reuniões de discussão das editoras, numa mesa de bar, falávamos sobre a dificuldade de vender a bichinha. Muitos são os comentários e um deles – além do fato de estarmos em Santa Catarina - é bastante recorrente. “O nome não ajuda. As pessoas não entendem bem o ´nojentas` e não gostam de ser identificadas com o `pobres`”. Nessa hora, sempre surge a idéia de mudar o nome para, quem sabe assim, atender aos apelos do “marquetin”. É aí que eu gosto sempre de entrar com os argumentos que, na verdade, são a alma desta revista.


Ocorre que a Pobres & Nojentas não é uma revista qualquer, feita para vender da maneira fácil, como por exemplo a Caras ou a Tititi. Estas são revistas óbvias. Caras é o retrato da superficialidade, já o diz seu nome, é a aparência, o fugaz. Tititi é o reino da fofoca, do boato, do maldizer, e assim por diante. O nome das revistas diz tudo. É óbvio, seguro, ululante. A Pobres & Nojentas não. Ela é uma revista difícil. Ela provoca, de cara, um estranhamento. A pessoa pode até achar que entendeu a proposta pelo nome, mas se olhar a revista vai ver que é outra coisa. E aí é que ela se diferencia de todos esses títulos que aí estão. A P&N é um convite ao pensar. É pedagógica desde o primeiro olhar. Ela requer do leitor um movimento de mergulho, de busca, de deciframentos. Ela não é óbvia. E ela precisa ser conhecida assim, devagar, tateando, como todas as coisas que realmente se conhece e, depois, se ama.


Por isso que o nome Pobres & Nojentas não é “vendável”, não é “comercial”. Porque a própria idéia da revista nasceu de uma outra forma de se relacionar com o mundo. O pequeno feixe de papel que as pessoas compram não é só uma mercadoria, e seu irrisório preço não expressa só seu valor de troca. A P&N está, para nós, dentro do reino da “necessidade” e não do consumo ritual. As vidas que se revelam nas páginas “nojentas” não são narradas para entreter. Elas se mostram ali pedagogicamente. Cada história mostra como as gentes ditas comuns – de uma América Latina e um Brasil reais - vão construindo esse mundo, com suas lutas, dores e alegrias. É como uma grande roda ancestral em volta da fogueira onde contamos histórias para não esquecer de nossas belezas. Mulheres e homens que se reconhecem sujeitos, que enfrentam a vida com garra e seguem rompendo auroras.

Com essa pretensão a Pobres & Nojentas adentra em seu terceiro ano enfrentando as mesmas caras torcidas dos donos de banca, dos leitores preguiçosos, dos pseudo-intelectuais, e segue seu caminho lento na construção de uma proposta que chamo de “jornalismo libertador”. Ou seja, um jornalismo absolutamente comprometido com o outro, mas não um outro qualquer, é o outro oprimido, a comunidade das vítimas do capital. Aqueles que, a despeito do massacre capitalista - que incentiva o egoísmo, a individualidade exacerbada, o hedonismo barato – vivenciam coisas antigas e belas como a solidariedade, a partilha, a cooperação e o amor-compromisso. A Pobres & Nojentas te convida a pensar, sem elucubrações teóricas ou notas de rodapé, mas no corpo-a-corpo com a vida, como diria o mestre João Antônio. Ela é sempre uma aventura, nunca óbvia, sempre um salto no abismo! E está bem ali, nas duas bancas mais corajosas da Ilha: a da UFSC e a da Catedral. Ou então, de mão em mão, por aí, nos caminhos... Atreva-se para além do estranhamento e descubra...




Saudade


Fernando Karl, de Curitiba

Hoje acordei com saudade de tudo o que poderia ter sido e que não foi, das mulheres que amei, das que perdi, dos beijos que dei, do vento que escutei nas longas noites de São Francisco do Sul. Tudo dói em mim. Acordei com a recordação da Casa dos Mortos que me transpassa o coração de lado a lado. Acordei só e espiando as ondas destroçadas e brancas no mar longínquo. Acordei com a sensação de não pertencer a ninguém e a nada, mas sei que isto não é o vazio, talvez seja amor e queima por baixo de minhas vértebras. Acordei em 1933, com a vaga sensação de ser este homem de chapéu aí em cima na foto de Horace Bristol.

Enxoval

Míriam Santini de Abreu
Eu devia ter uns 15 anos quando descobri que minha mãe fazia, às escondidas, o meu enxoval. Delicados conjuntos para enfeite em crochê, toalhas, colchas, lençóis, tudo bordado com ponto cruz colorido e miúdo, lá estavam, na prateleira mais alta do guarda-roupa dela, escondidos. Ah, que berros eu dei naquele dia! Fiz um inflamado discurso contra o que, naquela época, o enxoval significava para mim: casamento formal e filhos. E eu, eu só pensava em ser jornalista.
A mãe, como sempre, fez cara de paisagem, e não deu a mínima para as minhas reclamações. Anos a fio, continuou a comprar conjuntos, toalhas, tecidos de lençóis, e a costurar e pregar, nas barras, peças bordadas naquele caprichado ponto cruz que ela até hoje tem disposição para fazer.
Quando finalmente pude morar num local onde valia a pena colocar adornos tão bonitos, humildemente pedi o enxoval. Olha me olhou com aquela expressão de triunfo e disse que eu deveria, sim, levar o que quisesse, mas aos poucos. E assim é, até hoje.
Toda vez que vou para casa, vasculho o guarda-roupa dela para escolher peças do enxoval. Algumas sequer existem para venda, feitas a mão, com modelos de umas antigas revistas de ponto cruz que a mãe guarda até hoje. Muitas das peças em crochê foram feitas por tias já falecidas ou mulheres conhecidas sobre as quais não se ouviu mais falar.
Se a mãe inventa de dar alguma peça de presente para amigas e parentes, eu faço um berreiro, em atitude quase infantil:
- É meeeeeuuuuuu! É tudo meu!
Pensei nisso a propósito do Dia Internacional da Mulher. Naquela época, o enxoval significava tudo o que eu não desejava para mim, o modelo contra o qual eu me rebelava. Hoje, significa o que é: peças delicadas feitas pela minha mãe. O sentido mudou porque, afinal, eu me tornei o que desejava ser: uma mulher capaz de tomar decisões.

terça-feira, 4 de março de 2008

Assisviajantes VI


Rosangela Bion de Assis

O passeio pelo Estádio do Barcelona, o Camp Nou, é totalmente organizado. Na parte histórica há vídeos, maravilhosas fotos, esculturas, cenários, publicações em ordem cronológica, até móveis da antiga bilheteria, dos vestiários, uniformes e chuteiras nada ergonômicas. Os fundadores do Barça defendiam o ideário Catalão de independência em relação à Espanha. Nunca pensei que um time de futebol pudesse ter sua história ligada a um projeto político. As fotos históricas em imensos murais mesclavam grandes imagens, com algumas minúsculas encaixadas de um jeito que eu nunca tinha visto. Nelas os homens apareciam no estádio de terno, gravata e chapéu, enquanto as senhoras destacavam-se em seus delicados chapeuzinhos.
Leia mais em:

I Festival de Croniportagem de Abya Yala


Arte linda do Festival, feita por Leopoldo Nogueira.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Jardim da Serra

Míriam Santini de Abreu

Quem amar mais?

Essas mulheres que colhem e saboreiam
uvas

Mas o que também amar?

a delicada Santa da Pedra e da Concha, com o
manto branco manchado de azul;
a parreira carregada, frutuosa, e aquele gesto da
mão, vacilante na colheita;
a pastora em sua infindável labutação;
as ripinhas empilhadas, braseiro ardente no fogão a lenha, calor de
inverno;
a concha lascada, ferrugem de umidade;
o anão manhoso, desejoso de
virar um Saci.

Ah, que santo amor tenho eu por esse Jardim!


video

Crédito: Periodistas Pobres & Nojentas

Observatório na rede

A convite do jornalista Eduardo Schmitz, Míriam Santini de Abreu, uma das editoras de P&N, está escrevendo uma coluna mensal para o jornal Observatório, que circula em Taió, Pouso Redondo e Salete, SC. Eduardo, além de produzir o jornal, é um excelente ilustrador. Veja o texto de Míriam e a ilustração feita por Eduardo em:

http://www.observatorio.jor.br/frame/frames_18_19.htm

Coisas que eu fazia quando era criança I

Míriam Santini de Abreu, jornalista

  • Jogava casca de fruta no meio-fio, quando chovia, para acompanhar a trajetória até o bueiro
  • Colecionava "pedra preciosa" - aquelas pedrinhas que vêm junto com areia de construção civil. Guardava todas num pote de vidro cheio de água

O ônibus das cinco e quinze

Elaine Tavares

Chegar em casa é sempre uma viagem. Cada dia diferente, embora o caminho seja o mesmo. Mas é que dentro do ônibus seguidamente acontecem coisas espantosas, visto que os seres humanos são sempre surpreendentes. O trajeto até o Rio Tavares é de puro assombramento. Primeiro com a paisagem. O mar, os montes descortinando o horizonte, os casebres de pescadores, o absurdo do aterro, as gentes, os motociclistas e suas ousadas manobras, os carros em profusão. Quando é final de tarde então, é de enlouquecer. O céu fica de um rosado/dourado, uma coisa única, e a vontade que se tem é de gritar, tamanha a força da beleza.

Depois, no terminal desintegrado, a espera. Meia hora, quarenta minutos, aquela coisa dolorosa de se estar aprisionada num lugar, tão perto de casa. Hora de pensar no quão surreal pode ser uma obra pública, se não tiver um mínimo de humanidade. Quem planejou o transporte, nunca o usou. Não sabe do horror e da exasperação que aquilo tudo pode acometer num vivente.

Então, num dia qualquer, vindo mais cedo para casa, por conta da sorte (essa danada), a gente pega o ônibus das cinco e quinze. É o que sai do Tirio rumo ao Jardim Castanheira, via Eucalipto. Ele segue pela Pequeno Príncipe, tranqüilo e sereno, passando pelas casas sem muro, cheias de ameixas, romãs e limões. Então, lá no final, quase perto da praia chega a parada que fica em frente à Escola Brigadeiro Eduardo Gomes. É quando tudo começa.

Ali, o ônibus fica parado por uns quinze minutos. É hora de entrar toda a profusão de meninos e meninas, libertos do colégio. Dois deles tem deficiência e sobem com as cadeiras de rodas, felizes por partilharem aquela fartura de vozes. O restante parece formar um poderoso furacão. Eles vão passando a catraca, revestidos de uma atmosfera de gritos e risadas. Todos falam muito alto e ninguém consegue entender o que de fato dizem. Desconfio que não digam nada, é só uma algaravia juvenil, atordoante e insana. Um grito de liberdade, de alegria pura, de esplendor.

Alguns deles se dependuram nos ferros que servem para o povo se segurar e sacodem feito macaquinhos felizes. O cobrador, que já os conhece pelo nome, um a um, vai vociferando. “André, sai do buraco da porta”, “Marquinho, não pula no banco”, “Sossega Fabiano”. E aquilo tudo vai se transformando numa balbúrdia digna de Babel. Ninguém ouve ninguém. Os passageiros que nunca pegaram aquele ônibus ficam com os olhos arregalados, sem fôlego, incomodados. Clamam por Herodes e o abençoariam se ali aparecesse para dar um fim naquela confusão.

Mas, quem já se acostumou a pegar o Castanheira das cinco e quinze não consegue disfarçar a incontrolável alegria que vai invadindo a alma. Aquela gritaria toda vai atordoando, atordoando, até o ponto de a pessoa também começar a gritar. Quando o ônibus passa em um quebra-mola então, os decibéis vão ao volume máximo. É a catarse. Êxtase total.

Então, quando o ônibus passa da parada do Raio de Sol., os grupos de pequenos vão saindo em profusão e, pouco a pouco, o barulho arrefece. Os gritos vão amainando e se perdem nos caminhos de areia do Campeche por onde vão sumindo as crianças e suas enormes mochilas de aula.

Na parada do Centro Comercial Castanheira eu desço junto com uma parte desta turba. E com ela ainda vou um bom trecho do caminho, partilhando da gritaria. Meus 47 anos desaparecem e consigo ver a menininha que fui, vestida de vermelho, a bailar, pulando as poças de água que se formam no caminho. Minha alma dança e penso que todo o ser humano deveria ter um ônibus das cinco e quinze na vida. Porque iria perceber que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é se embriagar de meninice. Gritar feito louco, pular pelas ruas, sorrir por nada.

Ah, esse meu Campeche e esses anjos que me ensinam a des-crescer!

Costurear

Florezinhas desbotadas numa máquina de costura esguia. Ontem, ferramenta de trabalho; hoje, adorno.

Morte aos gestos inesperados

Míriam Santini de Abreu

O mundo, o tempo, nos engolfam de diferentes formas, mais ou menos cruéis, muitas vezes, e sorte ainda pior parece destinada às crianças. Em janeiro, num pequeno município da Paraíba, um menino de nove anos foi assassinado com um tiro na nuca quando retirava mangas de uma propriedade. Esse “retirava mangas de uma propriedade” é de um texto jornalístico de um portal de notícias. É uma paráfrase inquietante, porque carrega sentidos que se perdem se o modo de dizer fosse outro, como “pegava manga numa árvore”. “Retirar” tem uma formalidade que não combina com o gesto de um menino que, numa mangueira, se lambuzava de suco de fruta. E propriedade remete à idéia do privado, o que já provoca um efeito de sentido perigoso, como se valessem, para o menino, as mesmas leis que regem o direito à propriedade privada e as punições à sua violação. Neste caso, a morte.

É assim a crueldade desse tempo com as crianças. As pobres padecem de um limitado espaço, porque cada vez mais há menos lugares para o lazer gratuito e seguro, e de ilimitado tempo, mal-preenchido com o acesso a uma educação formal precária e incapaz de fazer o mundo delas se iluminar. As de classe média têm espaço mais amplo, dilatado pelo poder de compra, ainda que rodeado por cimento e segurança, como os condomínios fechados e os shoppings, tudo bem distante da idéia do espaço público da rua, que era para nós, quando pequenos, motivo de fascínio. Dizíamos: - Mãe, vô pra rua! Tanto espaço, porém, não tem, contrapartida no tempo, porque esses meninos e meninas preenchem os dias com as intermináveis aulas de inglês, espanhol, balé, natação, horário para arrumar o aparelho dos dentes, fazer terapia e o que mais o dinheiro puder pagar. E são cuidadosamente vigiados por celular, câmeras e até GPS, como li em recente reportagem.

O menino que chupava manga é mais uma vítima disso, dum mundo e dum tempo cada vez mais incapazes de não ver como transgressão o gesto inesperado, que sai das normas, que foge das regras. No prédio onde moro, as reuniões de condomínio sempre trazem um tema para discussão: o barulho das crianças. Para muitos, é intolerável que elas façam brincadeiras fora do tal pátio de esportes, uma cinzenta área que lhes foi destinada para viver a infância. Ali devem ficar. E em breve será votada a possibilidade de que se multem as que ficarem com suas algazarras fora do espaço onde elas são “condominialmente” aceitas.

Há uma menina que volta e meia caminha de uma ponta a outra do conjunto de prédios, sozinha, e pára quem vê com a mesma pergunta:
- Tu tem gato ou cachorro?
E se lhe pedem o porquê da curiosidade, ela responde que quer alguém para brincar.

O mundo que essas crianças compartilham parece ser cada vez mais intolerável, com seus ruídos e inquietações para as quais não se aplicam nossas respostas. Que se enquadrem rapidamente. Fiquem no pátio de esportes e jamais, em momento algum, se atrevam a desejar mangas.