quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Senadora Piedad Córdoba é destituída na Colômbia

O Ministério Público da Colômbia destituiu e tornou inelegível por 18 anos a senadora Piedad Córdoba. A acusação é de que Piedad promove e colabora com as FARCs e, conforme o procurador Alejandro Ordoñez , já que o que ela pratica é a “parapolítica”, deve ser responsabilizada pelos “crimes” daqueles com os quais se associa. Conforme noticiaram os jornais colombianos, as informações sobre as atividades colaboracionistas de Piedad Córdoba estavam no “famoso” computador de Raúl Reys, encontrado milagrosamente intacto depois do bombardeio que matou o líder guerrilheiro.A senadora tem pautado sua atuação pela ajuda humanitária aos seqüestrados pela guerrilha e em vários momentos ajudou na negociação para a libertação de muitos deles.
Desde as primeiras horas da tarde desta segunda-feira a senadora está reunida com seus advogados conforme divulgou no seu twitter. Segundo ela, a paz não tem reversão e ela vai lutar com apresentando os fatos, mostrando que seu trabalho caminha na incessante busca pela paz. Esta medida da procuradoria colombiana vai colocar ainda mais lenha na conturbada conjuntura do país.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Serenidade e amor no corpo feminino

Fernando Karl, colaborador da P&N, fez mulheres pagãs pensando na serenidade e no amor.
Veja em www.nautikkon.blogspot.com

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Livro na Praça


Míriam Santini de Abreu

Nesta sexta, entre uma atividade e outra no trabalho, parei na banca do Onadir Otacilio Lima, de 72 anos, nascido em Tubarão, há 13 vendendo livros na banca da Praça 15, na Capital. Ele foi o precursor, em Florianópolis, da venda de discos de vinil usados. Ali encontrei e comprei, por 15,00, “Bandidos”, escrito em 1971 pelo historiador Eric Hobsbawm. Mostrei o livro a um colega e ele mencionou um fato ocorrido há pouco tempo no norte de Santa Catarina e que envolve o livro de Hobsbawm. Essa história está em aqui.

EdUFSC lança livro de contos e Guia de Fontes



A Editora da UFSC, a Agecom (Agência de Comunicação da UFSC) e o Sindicato dos Jornalistas promoveram o lançamento de duas importantes obras: o livro de contos do jornalista Rubens Lunge, “A Páscoa dos Descontentes”, e o Guia de Fontes, organizado pela Agecom, que conta com o nome a área de atuação de todos os pesquisadores da Universidade Federal. Numa noite chuvosa, a primavera foi saudada com muito calor humano, poemas, encontros e alegria. As jornalistas Míriam Santini de Abreu e Elaine Tavares abriram o evento declamando poesias de Rubens Lunge, numa forma diferente de apresentar o autor, dizendo-o por suas próprias palavras.

Depois, também o jornalista Moacir Loth, diretor da Agecom, foi homenageado com poesia. Logo em seguida ele falou sobre o esforço de toda a equipe da Agência de Comunicação para oferecer ao público e aos jornalistas o Guia de Fontes. “Foi um trabalho árduo, mas que compensa por se verificar a importância que ele tem para os profissionais na hora de cavar uma boa pauta”. Destacou ainda o trabalho da trabalhadora Lúcia Iasinski, também da Agecom, que foi quem criou a capa do livro de contos de Rubens Lunge.

Tímido, Rubens preferiu não fazer discurso. Leu uma de suas poesias na qual fala da vida sofrida do povo que vive às margens do Rio Uruguai. Segundo ele, esse olhar sobre o mundo fala mais dele do que ele mesmo poderia fazer. Depois, a celebração seguiu seu curso, com uma deliciosa pizza e vinho de qualidade oferecidos pela Pizzaria San Francesco, onde foi realizado o lançamento. O livro “A Páscoa dos Descontentes” já está nas livrarias da capital e o Guia de Fontes pode ser conseguido diretamente na Agecom/UFSC.

A primavera chegou emburrada, fazendo coro com a páscoa dos descontentes. “É bom que a gente se mantenha assim, descontente, porque há ainda muita coisa para mudar na nossa vida de jornalista”, lembrou Míriam Santini de Abreu. Assim, entre contos, poemas e vinhos, a luta deve continuar.

Noite de Primavera e de Cultura









Noite de Primavera e de Cultura 1







quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A chuva das flores

Por Rubens Lopes

Ao Seo Zézinho, construtor de jardins...

23 de setembro de 2010. Primavera

Sempre que chega a primavera sou tomado pela nostalgia. Lá em Minas Gerais eu trabalhava numa floricultura como entregador e era a estação das flores. Então, aconteceu um fato me marcou, acredito que por toda vida. Foi a chuva das flores, bonito nome não? Mas é simples assim: Quando termina o inverno e a grama já está seca e as folhas já voaram no ar como cartas, ela vem. Primeiro, como uma chuva torrencial e as plantas parecem dizer o que o avô do Rubem Alves, outro mineiro, contemplava: "Vejam como estão agradecidas!".

Essa chuva tem um poder sobre mim. Fico a pensar nos dias em que levava flores em uma bicicleta cargueira pelas ruas de Sant`Ana do Alegre. Uma mão com a flor e a outra com a direção, e seguia sem titubear pelos morros e "banguelas". O entregador de flores tem uma sorte grande. Ele é o que apanha o primeiro sorriso no instante da surpresa transfigurada num gesto de amor. Ou talvez isso só passasse pela minha cabeça, daí a nostalgia. Pois acontece que têm pessoas que apenas cumprem com sua obrigação, como os carteiros de hoje em dia, que na maioria das vezes entregam contas (ou "cheque especial", diria minha vó) cartões de crédito, planos de saúde, etc... O milagre é quando vem uma carta no meio de tanta publicidade. As cartas levam palavras como gotas de chuvas para as plantas. Ah, se as pessoas soubessem o quanto precisamos delas: as palavras.

Tempos sombrios, diriam os mais antigos, em que a obrigação do serviço nos priva de descobrirmos as verdadeiras relações humanas no trabalho. No sistema capitalista, que visa o lucro, as coisas funcionam assim. Eu trabalho como entregador. Tenho muitas entregas para fazer, então, quanto mais rápido eu as fizer, mais tempo terei para outras funções, o que para o neoliberalismo, outro comparsa do capitalismo, é uma mão na roda. Como eu sou um guri com muito "sebo nas canelas" vou que é uma bala. E assim cumpro minha obrigação, embora a patroa lembre a toda hora:"se demoras, têm outros tantos na espera para ocupar teu lugar".

Acontece que um dia me deparei com uma situação que me fez pensar. Tinha eu um jardim para fazer. É que eu, além de entregador de flores, aprendi o oficio de jardineiro, do qual me orgulho muito! E lá fui eu na cargueira, com tesoura, podão, enxada, rastelo e outros apetrechos de jardinagem. A dona da floricultura disse que teria uma pessoa a me ajudar no trabalho. Ao chegar a casa vi uma bicicleta preta, marca monark, escorada no meio-fio. E, sentado na calçada estava um senhor bastante curioso. Hoje, ele me lembraria àqueles cubanos que passeiam pelo Malecon com a camisa estampada usando uma boina e fumando um charuto.

Mas, vamos ao acontecido. Ele seria a pessoa a me ajudar no jardim. Ao me apresentar descobri seu nome, Seo Zézinho. Na garupa da bicicleta, trazia uma tesoura já envernizada pelo suor. Contanto sobre seu trabalho disse, com a dignidade que as pessoas simples têm, que era jardineiro há quarenta anos e que já plantara muitas árvores na vida. Entramos na casa para fazer o jardim, uma casa luxuosa, dessas que aparecem em revistas de decoração. O lote continha uma infinidade de tapetinhos de grama, algumas fênix fazendo a decoração, ráfias, e outras plantas de sombra e sol.

Então começamos a aparar a grama e o Seo Zézinho num compasso que lembrava um samba lento ia com sua tesoura. O meio-dia já se aproximava e a barriga começava a roncar. Trabalho braçal deixa o cabra com uma fome de ontem. Perguntei onde morava o Seo Zézinho que respondeu, na calma mineira: na Água Limpa. Este é um dos bairros que fica no morro da cidade, sé que se pode existir morro numa cidade do interior de Minas. Mas, é que por lá moram as pessoas simples e trabalhadoras que vivem às margens da sociedade.

De onde estávamos trabalhando até a casa do Seo Zézinho dava mais ou menos meia hora de ida e vinda, e como tínhamos uma hora de almoço ele tinha que fazer o ?quilo? (o descanso depois do almoço) pedalando. Deve ser por isso que ele era tão magrinho. Uma hora da tarde e estava lá o Seo Zézinho, pontual como esses relógios de igreja. Recomeçávamos a labuta aparando grama na rapidez em que as vacas pastam no campo. Foi assim durante três dias, os que trabalhamos juntos. Na paciência e determinação por cumprir sua profissão de jardineiro Seo Zézinho me ensinou uma lição muito importante: que mesmo nesses tempos sombrios a dignidade do homem brota como os calos nas mãos.

Simón Rodriguez dizia sobra a importância da educação que se aprende trabalhando na terra. O sistema capitalista impera e como o império há de ruir e com ele toda a estrutura que o sustenta, chegará o tempo em que as lanças se transformarão em arados e a terra será trabalhada por mãos que cultivam e zelam pela vida boa e bonita para todos, a Eko Porã dos Guarani, como diz a profecia.

Toda vez que a chuva das flores vem, minha dignidade se renova no solo fértil da esperança de que encontraremos a terra sem males. E sigo lutando e construindo jardins, assim como o Seo Zézinho.


Em defesa das baías de Floripa


É hoje!


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

¿Qué pasa en Cuba?

Por Elaine Tavares - jornalista
Cuba é mesmo uma gigantesca pedra no sapato do sistema capitalista. Tanto que qualquer coisa que por lá acontece, vira logo manchete da CNN, braço propagandístico do governo estadunidense. Agora, a bola da vez são as demissões que foram anunciadas por Raul Castro. Histericamente, as jornalistas bem apessoadas da Venus de Atlanta, falam em derrocada do sistema cubano. É o fim do socialismo, guincham, aliviadas. É, porque o tal do regime cubano é uma excrescência que sobrevive há mais de 50 anos a todos os ataques do sistema capitalista e do governo mais armado do mundo. Não é sem razão que os suspiros aliviados sejam uma constante na mídia mundial, que reproduz acriticamente as histerias “ceeneanas”. Mas, para quem consegue enxergar além da ideologia, a questão cubana pode ser explicada de forma menos simplista.
Em primeiro lugar, como bem lembra o professor Nildo Ouriques, do IELA, em entrevista à CNN, Cuba nunca foi um país congelado. A cada aperto da conjuntura o país se analisa e inventa saídas econômicas e políticas para suas crises. Foi assim quando ruiu o sistema soviético. Todo mundo capitalista apostava na derrocada das conquistas da revolução. Não haveria saída para Cuba. Mas, num esforço descomunal a ilha se refez e seguiu em frente. Naqueles dias, a abertura para o turismo acabou sendo uma resposta eficaz para garantir ingressos ao país. Muitas foram as críticas e boa parte do mundo apostava que esta abertura iria levar o país para a órbita do sistema capitalista. É certo que vieram muitos problemas com esta medida, mas as conquistas básicas da revolução seguiram existindo. Saúde, educação, cultura, moradia, comida e, fundamentalmente, soberania nacional. Depois, com a doença de Fidel, nova gritaria geral. “Agora acabou”, vaticinavam as harpias (aves de rapina das mais ferozes).
Hoje Cuba enfrenta novos problemas conjunturais. Há uma grande parcela da população que não viveu a revolução e que, de certa forma, vive apática diante das conquistas. Isso é um problema e tanto para o governo. Há que imprimir horizontes na rota da juventude. Além disso, há um crescimento e congelamento da burocracia estatal, o que dá mais imobilidade o sistema. Um pouco é isso que Raul Castro quer desfazer com essa proposta de demissão de 12% dos funcionários públicos. Segundo o presidente cubano, essas demissões não afetarão os serviços estratégicos que se configuram as conquistas da revolução. Existem critérios muito claros para as demissões e elas serão feitas em setores onde a máquina está definitivamente inchada e inerte.
A proposta do governo é permitir e incentivar que os trabalhadores cubanos possam investir em outros tipos de negócios que vão desde propostas de trabalho privado a cooperativas. No geral, os cubanos estão gostando desta iniciativa, uma vez que sempre houve reclamações com relação aos salários, considerados baixos, apesar de todos terem garantidos os serviços de educação, saúde e moradia. “Eu estive em Cuba há pouco tempo e pude ver e ouvir das pessoas o apoio a estas medidas. Há uma discussão pesada sobre a questão moral que é central neste momento: há gente roubando do estado e isso não pode acontecer. Porque roubar o estado é roubar toda a gente. E também há um desejo das pessoas por mudanças na economia. A maioria apóia essa proposta de se criar pequenos negócios”, diz Nildo Ouriques, professor e economista.
Agora, o governo quer descongelar a máquina estatal e isso também é saudado por uma parcela do povo que sempre se ressentiu dos burocratas encravados na máquina governamental. Os trabalhadores, há tempos, buscavam abertura no governo para trabalharem fora do Estado e isso aparece agora como uma boa oportunidade. E, na verdade, já se formava em Cuba uma espécie de mundo paralelo, no qual os trabalhadores usavam seu tempo vago para arranjar alguma coisa “por fora”. E esse “por fora”, além de envolver trabalho privado, também funcionava como um mercado igualmente paralelo, formado por coisas roubadas do estado, como já relatou e analisou em seus textos semanais o próprio Fidel Castro. Esse trabalho ilegal agora não mais o será. Assim como tende a desaparecer o mercado paralelo. Pelo menos é o que pretende o governo com essas medidas.
Por outro lado, na camada de trabalhadores que sempre esteve nos quadros do Estado, há um grande medo com relação ao futuro. Muitos deles não saberiam o que fazer longe da máquina estatal. Mas, o próprio governo cubano já deixou claro que vai ajudar aos trabalhadores a encontrarem um caminho nesta nova conjuntura, inclusive garantindo o crédito. A maioria, que segue acreditando no processo revolucionário, sabe que muito do que hoje têm de conquistas devem à revolução e estes seguirão fazendo aquilo que é melhor para Cuba. Raul Castro tem dito que o regime cubano haverá de encontrar os caminhos para resolver seus problemas como sempre fez. Mais de 100 novas atividades, antes só permitidas no âmbito estatal, poderão ser realizadas por pessoas fora da máquina. Será necessário criar toda uma nova infraestrutura para esta gente, mas o grupo governante acredita que, coletivamente, o povo cubano pode encontrar as respostas.
A Central de Trabalhadores Cubanos fez um pronunciamento a todos os cubanos onde conclama para a unidade e para manter em marcha os ideais da revolução: “A unidade dos trabalhadores cubanos e de nosso povo tem sido chave para materializar a gigantesca obra edificada pela Revolução e, nas transformações que agora empreendemos, ela continuará sendo nossa mais importante arma estratégica”. Segundo a CTC, o Estado não pode mais continuar com o mesmo modelo de empresas ineficazes, com quadros inflados. Assim, respalda a proposta governamental de ampliar e diversificar as opções que resultam em novas formas de relação trabalhista. A Central acredita que tudo isso vai ser bom para Cuba e para os cubanos.
Fidel Castro sempre disse e continua afirmando isso: as saídas encontradas por Cuba ao longo destes anos todos são as saídas cubanas. Não adianta a esquerda mundial se escabelar querendo que a ilha permaneça imutável diante das mudanças do mundo. São os cubanos que sabem de seus problemas e são eles os que encontrarão as formas de superá-los. Como lembra Raul, Cuba está frequentemente mudando para tentar seguir sempre a mesma: aquela que garante ao seu povo as conquistas da revolução.
Analistas do mau agouro insistem em dizer que o regime faliu, que está se entregando ao capitalismo, que o povo cubano não quer mais viver à margem do sistema capitalista, que as gentes querem poder comprar coisas bonitas e viverem em liberdade. Mas, para os dirigentes cubanos há uma grande distância entre o sistema privado capitalista (no qual um empresário é dono da força de trabalho e da mais-valia de milhares) e o chamado “trabalho por conta própria”, o que está sendo agora incentivado. Este é o pequeno negócio, em nada parecido ao sistema de exploração capitalista. Nos seus discursos e nas conversas com a população Raul Castro tem dito que o estado cubano precisa melhorar sua produtividade, inclusive, para seguir garantindo os serviços públicos de qualidade ao povo. Nas vozes que se podem escutar em outras fontes que não as da CNN há uma boa expectativa. Os trabalhadores sabem que o número soa alto demais quando se fala em 500 mil despedidos, mas por outro lado, dizem que boa parte destes trabalhadores já tinha trabalhos paralelos. O governo cubano vai amparar quem tiver dificuldade. Assim diz Raul, em diversos comunicados divulgados pela televisão, pelos jornais e pelo rádio.
As mudanças em Cuba apontam para cenários múltiplos, é certo. Pode acabar o socialismo, pode crescer a iniciativa privada, pode mudar a mentalidade do povo, pode crescer a idéia do consumo, podem ruir as conquistas da revolução, pode fortalecer ainda mais o sistema, pode avançar no socialismo. Sim, tudo está aberto. Na verdade, sempre foi assim. O horizonte, desde a heróica conquista em janeiro de 1959, tem se apresentado como um quadro a ser pintado, permanentemente, porque a revolução não é uma coisa cristalizada. Ela é um processo. Para os velhos militantes, a esperança é que estes 50 anos de educação, cultura e luta pela soberania nacional façam valer o que já foi conquistado. Eles fazem questão de lembrar que nestes mais de 50 anos houve um bloqueio feroz e, por vezes, desumano, contra o país e contra o povo cubano. E Cuba sempre conseguiu se reinventar. Agora, a ilha passa por nova onda de mudanças. Haverá de encontrar seus caminhos. A diferença, crêem, é que o governo e o povo fazem isso juntos e de forma soberana.
Enfim, Cuba segue seu caminho, com todas as suas limitações, seus erros, mas também seus acertos. O povo cubano responderá à história.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Editora da UFSC lança o livro “A Páscoa dos Descontentes”, de Rubens Lunge


A Editora da UFSC lança o livro “A Páscoa dos Descontentes”, de Rubens Lunge, às 20h do dia 23, quinta-feira, na pizzaria San Francesco (avenida Hercílio Luz, 1.131, fone 3222-7400), em Florianópolis.

Este é o segundo volume de contos do autor, que preside o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e estreou com “As Costureiras”, obra que lhe rendeu, nos anos 90, o prêmio de Escritor Revelação da Academia Catarinense de Letras. No mesmo local e horário, haverá o coquetel de lançamento para a imprensa do Guia de Fontes da Universidade Federal de Santa Catarina, que traz informações e contatos de todos os pesquisadores da instituição. O evento tem a coordenação da EdUFSC, Sindicato dos Jornalistas (divulgação) e Agência de Comunicação da UFSC (Agecom).

Em seu livro, Rubens Lunge denuncia, com as cores da ficção, as mazelas da vida e de uma sociedade que ele, engajado como sempre foi, gostaria de ver mais solidária e tolerante. Os contos confrontam o leitor com situações-limite, nas quais aqueles que detêm o poder continuam dando as cartas e onde a injustiça – uma constante neste hemisfério de desigualdades – faz parte da rotina nas relações entre os homens e destes com o sistema estabelecido, preso a hierarquias que perpetuam práticas de espoliação e exploração dos destituídos de berço e saber.

A região de Concórdia (SC) está presente em parte dos 13 contos do livro, porque foi ali que Lunge, 51 anos, nasceu e se criou. É uma mescla de impressões da terra e sua gente com o fantástico de quadros que ficaram na memória – o trem que costeava o rio do Peixe, as estações da estrada de ferro, os fantasmas do rio Uruguai, que hoje virou um lago, por causa da hidrelétrica de Itá.

Paralelamente, emerge o ficcionista urbano, testemunha das relações turbulentas de gênero, dos dramas familiares, da dor e da miséria que acompanham a trajetória humana. Na contracapa, Rubens Lunge lança seu grito e promete não mais publicar livros de conto em papel, preferindo a poesia e a margem que ela faculta ao contato com as ruas, com as pessoas, dando sua contribuição “aos que se exaurem todos os dias e passam pela vida como só mais um dente da engrenagem (...)”.

A busca facilitada

O “Guia de Fontes – Onde e Como Achar Informações Científicas”, organizado pela equipe da Agecom, é um valioso instrumento de busca de fontes dentro da Universidade Federal de Santa Catarina. Trata-se de uma ferramenta que auxilia a mídia em geral a entrar em contato com pesquisadores e incrementa a divulgação da produção científica e tecnológica da UFSC.

Na orelha do livro, a pró-reitora de Pesquisa e Extensão, Débora Peres Menezes, diz que “um guia de fontes funciona como um ótimo localizador/buscador de linhas de pesquisa, publicações de ponta, potenciais orientadores, projetos sociais, parceiros em tecnologias duras, sociais e biológicas, entre outros dados, e é natural que seja construído a partir de dados dos pesquisadores da instituição”.

Além da versão impressa, a guia foi disponibilizado on-line, com possibilidade busca por palavra-chave (assuntos) ou pelo nome dos pesquisadores. O suporte é a Plataforma Lattes, base de dados organizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que reúne currículos de pesquisadores e professores das instituições de ensino superior e de ciência e tecnologia de todo o país.

Cada verbete traz o nome do docente, sua lotação (departamento e centro de ensino), onde fez a graduação, mestrado e doutorado, seus contatos e as áreas de conhecimento às quais está associado. Na versão on-line, o Guia passará por revisões constantes, na medida em que se renovar o quadro de pesquisadores da Universidade. A publicação é mais um marco no ano em que a UFSC comemora seu cinquentenário – ela foi criada em dezembro de 1960 pelo presidente Juscelino Kubitcheck.

A coordenação do Guia de Fontes é do jornalista Moacir Loth, diretor da Agecom, e a coleta de dados e organização ficaram a cargo de Margareth Vianna Rossi Clausen, Alita Diana Corrêa Kuchler e Arley Reis, da equipe da Agência de Comunicação da UFSC.

Mais informações com Rubens Lunge pelos fones (48) 8401-2007 e 3228-2500 e com a Agência de Comunicação da UFSC no fone 3721-9233.

Por Paulo Clóvis Schmitz/Agecom

Farrapos

Elaine Tavares - jornalista


No Rio Grande era assim. Todos os dias, na escola, antes de iniciarem as aulas, havia o ritual de hastear a bandeira. Primeiro era a do Brasil, com o hino nacional. Depois, a do Rio Grande, também acompanhada do hino gaúcho, uma espécie de ode aos farrapos (guerreiros da revolução farroupilha iniciada em 1835). E, naquela hora, a gente sempre era tomada de emoção, lembrando dos heróis. A revolução farroupilha é coisa viva em nós. Desde pequenos ouvimos as histórias, sentados na beira do fogo, em noites de inverno. Os feitos das gentes em lutas, do avô do avô e assim por diante. Para quem vive na fronteira com a Argentina e Uruguai, a coisa é ainda mais forte, e a guerra dos farrapos quase que nos determina. Nas pequenas cidades fronteiriças todos sabem quem foi maragato (farrapo), quem foi chimango (monarquista). E as divisões políticas iniciadas lá atrás persistem e ainda cindem famílias e amigos. Lá em casa éramos maragatos, do lenço colorado, farrapos. Por isso esse dia ainda tem poder sobre mim. E, quando ele chega, assomam as almas farrapas, a exigir que a luta continue, sempre e sempre, até que chegue, realmente, a liberdade.

20 de setembro – o começo da saga dos farrapos

“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

O 20 de setembro marca um momento único na história do Brasil. Foi neste dia, em 1835, que um grupo de cavaleiros entrou em Porto Alegre, na então província de São Pedro, dando início a um dos mais longos conflitos já vividos em terras brasileiras: a guerra dos farrapos. Os cavaleiros vinham em busca de mercado para o charque e acabaram por embandeirar uma luta sem trégua por liberdade, fraternidade e justiça. A saga dos farrapos durou 10 anos e transformou a cara do Rio Grande.

Corria o ano de 1835, e a vida no sul do Brasil não era coisa fácil. Dez anos antes as gentes da fronteira haviam vivido a guerra da cisplatina, quando o Brasil enviara seus soldados para anexar as terras da Banda Oriental (hoje Uruguai). A guerra, como sempre, acabou semeando fome, miséria e trouxe grandes dificuldades para as famílias da região. Os fazendeiros, donos das terras também amargavam prejuízos. O governo central, que acabara entregando o Uruguai, exigia tributos demais, incitando a rebelião, e a proximidade daquela parte do país com as recém formadas repúblicas latino-americanas fazia nascerem idéias nas cabeças dos jovens soldados rio-grandenses, recém saídos do conflito contra os castelhanos. Muitos destes soldados eram também estancieiros e com a concorrência da Argentina e o Uruguai no mercado de carnes, queriam que o império garantisse o monopólio do charque para os gaúchos.

Essa conversa com as autoridades imperiais já se estendia por meses. Cartas, encontros, tentativas de negociação, debates da assembléia provincial. Como nada era feito, os fazendeiros começaram a conspirar nas casas de uns e de outros. Bento Gonçalves era o mais atrevido dos liberais. Soldado, havia lutado na guerra da Cisplatina e conhecia muito bem os ideais de Lavalleja e do Padre Caldas, dois gigantes na consolidação da república do Uruguai, que havia sido perdida pelo Brasil. Por conta disso Bento foi acusado pelo presidente da província de querer a separação do Rio Grande para ir se aquerenciar com o bando dos orientais. Todos estes ataques foram sedimentando a revolta.

Assim, por todo o Rio Grande foi-se preparando o início da guerra. A idéia era estourar revoltas em todas as regiões e, no dia 20 de setembro, invadir militarmente Porto Alegre, destituindo o presidente da província. As tropas seriam comandadas por Bento Gonçalves, Gomes Jardim, Onofre Pires e Manoel Viera da Rocha. E assim foi. Na noite de 19 de setembro, alguns guardas imperiais perceberam uma guarnição e houve troca de tiros. O presidente da província, Fernandes Braga, ainda tentou juntar gente para defender Porto Alegre, mas na tarde do dia 20 de setembro, apenas 19 homens haviam se apresentado. Boa parte da tropa se declarara em armas com os revolucionários. Não restou outra saída a não ser a fuga. Assim, quando Bento Gonçalves entrou na capital, não houve qualquer resistência.

Naquele dia, Bento Gonçalves e os demais estancieiros que planejaram a revolta, nada mais queriam que a nomeação de um novo presidente que atendesse aos seus apelos sobre a questão do charque e é esse o conteúdo da mensagem que mandam ao regente Diogo Antônio Feijó. Mas, o império contra ataca enviando o novo presidente acompanhado de um colossal aparato de guerra. E é aí que o conflito começa de verdade. Bento Gonçalves é destituído de seu cargo de comandante da Guarda Nacional e passa a ser perseguido como um criminoso. Meses depois ele protagoniza um novo cerco a Porto Alegre que dura 1.283. Sem conseguir vencer, Bento centraliza o comando na cidade de Piratini. Por todo o Rio Grande também acontecem levantes, e aí já não é mais uma peleia de estancieiros pelo monopólio do charque. Os gaúchos de todas as partes começam a lutar por um país, um espaço autônomo, soberano, tal qual seus irmãos do Uruguai e da Argentina. Sonham com a abolição da escravatura, com a democracia, a república. A revolução farroupilha se reveste de desejos de liberdade.

E são estes sonhos e desejos nascidos das sangrentas batalhas que eram vencidas por gente comum, gaúchos tocados pela idéia de uma mudança radical, que provocam a proclamação da república rio-grandense, feita pelo valente general Antônio de Souza Neto, após a eletrizante vitória da batalha de Seival, em 11 de setembro de 1836. Horas depois do triunfo, chega tremulando a bandeira tricolor, feita às pressas na cidade de Bagé, e que passaria a representar a mais nova república das terras do sul. Este é um momento de viragem na história do Rio Grande. É quando morre o ideal farroupilha (nascido das cabeças dos fazendeiros) e nasce a saga dos Farrapos, idéia forjada nos campos de batalha pelo povo em luta.

Depois disso, muitos são os combates pelo Rio Grande, afinal, o império não estava disposto a ceder. Numa das batalhas, Bento Gonçalves é preso e mandado para o Rio de Janeiro. Mas, nem isso esmorece a luta dos farrapos. Tanto que Bento é, inclusive, eleito presidente da nova república, mesmo estando longe. Os farrapos convocam uma Constituinte e começam a escrever a constituição. Em Porto Alegre eles têm dificuldades, mas pela pampa o lenço maragato impera. A luta avança para Santa Catarina, na cidade de Lages, onde encontram armas e apoio. Também encontram apoio efetivo do Uruguai, que garante a compra do charque.

Em setembro de 37, Bento Gonçalves escapa da prisão – já estava na Bahia - e volta para o Rio Grande, onde assume o seu posto de presidente. Naqueles dias praticamente todo o estado já estava na mão dos revolucionários. No ano seguinte, os farrapos conseguem entrar em Rio Pardo e abrem caminho para Porto Alegre, onde ainda estavam acantonados os imperiais. As batalhas eram constantes, e representavam o espírito de luta da gente do sul que entregava sua vida pela república rio-grandense.

Em 1838 os farrapos decidiram a abrir uma vereda para o mar, pois os imperiais mantinham o porto de Rio Grande. É aí que eles avançam para Laguna, em Santa Catarina, onde Garibaldi iria conhecer a jovem Anita e, com ela protagonizar uma das mais belas páginas da história catarina. A saga de Garibaldi no rumo do mar também é coisa de folhetim. Seu grupo decide construir dois barcos em plena fazenda da irmã de Bento Gonçalves. Depois, os barcos são levados por terra, puxado por mais de 100 bois, até Tramandaí, numa odisséia que não encontra par na história. Dalí eles seguem por mar, também enfrentando tempestades e naufrágios até Laguna, aonde chegam, finalmente, em 22 de julho de 1839. A cidade é tomada pelos farroupilhas com o completo apoio da população, já contaminada pelos ideais de liberdade que emanavam do estado vizinho, agora república. E, ali, os revolucionários proclamam o nascimento da República Juliana, outro estado livre e soberano, irmão do Rio Grande na busca de novos rumos. Mas, a república catarinense não demora a ruir sob a reação das tropas imperiais. E, em novembro, a cidade de Laguna é retomada.

Acossados pelos imperiais, os farrapos seguem no rumo de Lages, que já estava desde março sob o comando revolucionário. Mas, a derrota em Laguna abria um flanco para o avanço do exército imperial que, de combate em combate, foi ganhando terreno. Sem uma saída para o mar, o governo republicano ficava capenga. Além do mais, começaram a surgir desavenças entre as lideranças dos farrapos, enfraquecendo a unidade da luta. Ainda assim, os combates seguiam e sacudiam todo o Rio Grande. Em 1842 finalmente é proclamada a nova Constituição da República, fato que dá novo ânimo às tropas farrapas. Havia agora uma certeza de que nada poderia barrar a liberdade da nova república. Também se aliam à causa rio-grandense líderes revolucionários que vinham de outras regiões, como os da Bahia, que tinham vivido a Sabinada e, os de São Paulo, saídos da revolução liberal.

Mas, a república rio-grandense, apesar de toda a bravura do povo gaúcho, não ficou imune às intrigas e brigas internas pelo poder. Quando veio o ano de 1843, com a constituição já em vigor, as rixas entre Bento Gonçalves e Antônio Vicente da Fontoura selam a derrocada de Bento e da própria república. No ano seguinte, em 1844, instigado por Fontoura – para quem não bastava que Bento Gonçalves já não estivesse mais na presidência - Onofre Pires, um dos grandes generais farroupilha, acusa Bento de ter assassinado um de seus companheiros. Bento o convoca para um duelo e, no confronto, Onofre é ferido, morrendo dias depois. Desde aí, algo se quebrava na jovem república e estava aberto o caminho para o fim.

Naqueles dias, comandava o exército imperial o conhecido general Lima e Silva, mais tarde chamado de Duque de Caxias. Disposto a enfraquecer os farrapos ele foi tomando pequenas cidades na fronteira com o Uruguai, para assim impedir a negociação com o charque, o que estrangulava quase que totalmente a economia gaúcha. Além disso, buscou para suas fileiras, um antigo aliado de Bento Gonçalves, o general Bento Manuel. Circulava pela região com mais de 12 mil homens, enquanto os farrapos dispunham de pouco mais de três mil. Todos esses fatores levaram o governo da república rio-grandense a negociar um acordo de paz. Mas, para o governo imperial havia uma questão da qual não abria mão: os escravos. E, na jovem república, estes já não mais existiam, pois, ao se alistarem no exército farrapo, os negros ganhavam automaticamente a liberdade. Isso retardou em mais de ano o armistício.

Foi só em março de 1845 que o tratado se fez. No acordo estava a garantia da anistia aos revoltosos, a libertação dos escravos e a escolha do novo presidente pelos farroupilhas. Ainda assim, muitos guerreiros farrapos se recusaram a aceitar a rendição. Um deles foi o heróico general Antônio Neto, que preferiu o exílio no Uruguai, junto com muitos de seus comandados.

A guerra que durou 10 anos e custou a vida de mais de 50 mil gaúchos terminou assim, de maneira melancólica, com uma triste rendição. Os estancieiros voltaram para suas terras, prisioneiros foram libertados, e a liderança de Lima e Silva – o Duque de Caxias – acabou por colocá-lo na presidência da novamente Província de São Pedro. Dali ele partiria logo depois para comandar as tropas brasileiras na Guerra do Prata, contra Oribe e Rosas, e, depois, a covarde guerra contra o Paraguai.

Ainda assim, a gente do Rio Grande não esquece seus heróis. As pessoas comuns, das cidades, dos cantões, até hoje relembram em canto e verso os dias de batalha, quando o povo inteiro empunhou a lança em nome da liberdade. A bandeira tricolor segue tremulando em cada cidade e o hino do Rio Grande, cantado em reverência, presentifica a valentia dos homens e mulheres que, com o lenço colorado no pescoço, ousaram viver livres. Foram apenas 10 anos, mas valeram para marcar o espírito de todo um povo. E é por isso que todos os anos, no 20 de setembro, o Rio Grande pára e reverencia os bravos farrapos. Porque eles vivem, nos descampados, nos rios, nas lagoas, nos caminhos. Porque eles sopraram as brasas da liberdade num tempo distante e ainda agora apontam os caminhos para que os de hoje também possam sentar-se à mesa com essa velha e esquiva dama.

sábado, 18 de setembro de 2010

Aí vem ela

AVISO AOS NAVEGANTES!
ESTA É A MILÉSIMA POSTAGEM NO BLOG DA POBRES & NOJENTAS! E ANUNCIA A PRIMAVERA...
Por Elaine Tavares - jornalista

O Campeche me avisou. Já há um sopro de primavera no ar. Nesta sexta-feira cheguei mais cedo em casa, e ainda era dia. Havia tempos que não conseguia esse feito. Tão logo desci do ônibus na parada do Castanheira já senti o cheiro. A primavera “invinha”, como dizem os mineiros. Havia uma tremenda algaravia de passarinhos no caminho repleto de árvores. Coisa de ensurdecer. E, tão logo virei à esquina da minha rua, o pequeno monte que há ao final da estrada apareceu absolutamente claro, num verde vivo. O céu estava sem manchas e tudo parecia reluzir. Meus pés afofaram na areia macia e me senti caminhando na beleza, como os navajos.

A criação de galinhas, do meu vizinho Luis, estava toda ciscando pela rua. O galo cantava, altaneiro e as galinhazinhas corriam para lá e para cá, cercadas pelos pintinhos, numa azáfama sem fim. Estavam serelepes, cantadeiras. Até o cachorro marronzinho que sempre corre a me morder os pés se quedou na porteira da casa, deitado, balançando o rabinho, olhando ao redor com condescendência. Aquilo só podia ser prenúncio de algo.

Nas casas da rua, as folhagens reluziam, verdes. E as flores começavam a florir, em todas as cores, prenunciando um arco-íris que vai se espalhar por todos os 800 metros de estrada de areia que tenho de percorrer todos os dias. O cheiro de dama-da-noite impregnou as narinas e veio aquela vontade doida de dançar, porque afinal, aí está chegando a primavera.

No portão de casa os gatos esperavam, aos pulos. Havia um frisson, uma pressa em saltar, em celebrar a vida. As correcas passavam rasantes, gritando vivas, e algumas corujas já espreitavam no muro em frente. O cachorro corria atrás das borboletas, que chegaram e voejavam por todo o jardim. Bartolina escalava o pé de araçá em busca de um beija-flor. Não o abocanhou. Lá em frente o sol começou sua descida para o Japão, avermelhando o céu. Os eucaliptos se dobravam, dolentes, formando um cenário de sonho. Caia um vento sul, levinho. E eu, me sentei no alpendre a sorver um mate, encantada, esperando que ela chegue, já sentindo seu cheiro.

O equinócio a trará, no 23 de setembro, dia mágico, anunciador de delícias. Primavera... Renascer. Florir. Viver. Vem a noite e eu na rede, balangando...balangando... Lá em cima, as três marias, o cruzeiro do sul. O céu do Campeche, brilhoso demais. Cá embaixo, uma viola caipira, um pito, um chamego. Quem, afinal, precisa de mega-sena?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Palavras na Primavera - Um convite especial para você

A vida não tem sido mole não. Muitas lutas, muitas batalhas. Mas, em meio a esse turbilhão, é necessário encontrar tempo para a palavra que anda. Nesse sentido eu te convido para ouvir poemas, comprar um livro, ganhar outro, comer pizza e tomar vinho. Será no dia 23 de setembro, equinócio da primavera, uma data cheia de energia e mística. O encontro é na Pizzaria San Francesco, que fica ali na rua São Francisco, 190, pertinho do Angeloni, numa travessa da Esteves Junior, a partir das 20h.
Nesta festiva e mágica ocasião será lançado o livro de contos “A Páscoa dos Descontentes”, do jornalista e atual presidente do Sindicato dos Jornalistas, Rubens Lunge. Neste livro, Rubens, que também é poeta, fala sobre as mazelas da vida, com humor, dureza, ternura e dor. Vale a pena conferir.
Nesta mesma noite, o jornalista Moacir Loth, diretor da Agecom/UFSC, presenteia os jornalistas com um Guia de Fontes, instrumento importantíssimo para quem vive o jornalismo. Estas são as coisas boas para a mente. Já para o corpo, o presente é dado pelo Mauri, que oferece pizza da melhor qualidade e vinho bom.
Que melhor presente podemos repartir para celebrar a Eko Porã (vida boa e bonita para todos)?
Então, te esperamos! Chegue junto com a Primavera!!!

Dia 23 de setembro, 20h, Pizzaria San Francesco

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

As mulheres fortaleza

Por Elaine Tavares - jornalista

Milton Santos estava certo. Não há como escapar do nosso espaço geográfico. Por isso que, mesmo sendo uma pessoa do mundo, o lugar onde nascemos segue vivendo em nós, e de uma maneira total. Eu mesma sinto isso todos os dias. Nasci no Rio Grande, na barranca do rio Uruguai, fronteira com a argentina, região da pampa. Da janela de casa – qualquer casa – nossa visão é sempre a planura, o infinito. Por isso, talvez, que nosso instinto seja sempre esse, de ir mais longe, e mais longe, e mais longe. Andar sempre em frente, no rumo daquele horizonte sempre vislumbrado.

Essa sede de infinitos é clara no filme Anahy de las misiones, uma produção do cinema gaúcho, que mostra a fortaleza das mulheres do Rio Grande, sempre às voltas com forças aparentemente maiores do que elas, mas as quais domam com mão segura. A personagem principal, Anahy, vive em plena revolução farroupilha, nos campos de batalha, e tudo lhe acontece. Coisas que vergariam os espíritos mais duros. Ela segura no osso do peito e segue em frente. A cena final é paradigmática. Quando tudo está perdido, todas as dores foram sofridas, ela ergue o peito e anima os que sobraram para seguirem em frente. “Nada vai nos parar”, desafia, “ainda sobrevivo a muitos desavindos”. A câmera vai subindo, subindo, subindo, e o espectador vê que o grupo ao qual ela lidera com sua força abissal está indo na direção de um abismo. Metáfora maravilhosa da geografia de um forte. Sempre em frente, não importa se lá na frente há um abismo. Ela saberá vencer. Ela encontrará um caminho, porque é da sua natureza enfrentar, seja o que for. A gente sai do cinema com aquela ânima, com uma alegria desesperada, uma vontade de gritar, de júbilo, de felicidade.

Diferente mensagem passa o filme Telma e Louise, que também termina num abismo. A película se passa no espaço geográfico e cultural dos Estados Unidos, dentro de um contexto em que as mulheres parecem frágeis demais, oprimidas demais. No filme, a morte acidental de um homem que tentava violentar uma das personagens, as leva – amigas - para uma fuga sem fim. As mulheres seguem um caminho de evasão, sem enfrentar realmente, nem o fato real, da morte do homem, nem suas dores existenciais de abandono, de solidão, de medos. Ao longo da fuga, novos problemas vão surgindo, mas elas não são capazes de olhar de frente para estes monstros. Preferem fugir. No final, quando tudo está perdido, elas se encontram cercadas pela polícia na beira de um precipício. Elas se olham, dão-se as mãos e saltam no abismo, no rumo da morte.

Quanta diferença da gigantesca Anahy, a mulher missioneira da guerra farroupilha, da pampa gaudéria. Cara a cara com os monstros, todos os dias, ela os enfrenta um a um, sem concessões à autopiedade. Uma única vez ela se permite desabar. Mas, ainda assim, é um momento só. Ela berra e se retorce no chão, um grito quase animal. Depois, se recompõe e segue em frente de novo, grávida de horizontes. Nada a detém, nem o abismo que se anuncia. Anahy é meu modelo de vida, Anahy é da mesma carne das minhas avós, das antepassadas charruas, cruzando o descampado, peito aberto, cabelos ao vento, sempre no rumo do infinito. Anahy é o espelho que se apresenta a nós, mulheres gaúchas, no cotidiano desta vida louca.

Hoje, Míriam, uma gaudéria de quem gosto muito, completa 40 giros em torno do sol. Meu presente é essa alma de Anahy. Essa coragem, essa fortaleza. “Nada vai nos parar”. E, assim, de mãos dadas, também nós, seguiremos para os abismos. Não saltaremos para a morte como Telma e Louise, mas para a vida, esgrimindo os monstros e rasgando novos caminhos. Porque é desse barro de que somos feitas!!!

Certos amigos

Míriam Santini de Abreu


Um presente para as pessoas que amo, neste dia em que completo 40 voltas em torno do sol.

http://letras.terra.com.br/expresso-rural/708052/

Composição: Daniel Lucena

Quando esse trem de alegria vara a vida da gente
Sempre que a estação mais perto é o nosso coração
Difícil se saber na hora o que a gente sente
Se certos amigos nos mostram que o mundo ainda é bom
Por saber,
Que tendo você do meu lado me sinto mais forte
Quero beijar o teu rosto e pegar tua mão
Se cada estrela no céu é um amigo na terra
A força do acaso do encontro é uma constelação

Lumiar,
De que planeta você é?
Eu faço o que você quiser em troca do teu amor
Posso te dar o que eu sou, amigo é um cobertor
Bordado de estrelas - de estrelas.
Constelação, nave louca
A vida é pouca e o que vale é se querer

P&N na banca!




A próxima edição da revista Pobres & Nojentas já está quase saindo do forno!
A Banca da Catedral, na frente da igreja-matriz de Florianópolis, na Praça XV, vende a revista. Compra a tua ali! O telefone é 48-3224-5558. O twitter é twitter.com/bancacatedral
A nossa equipe agradece a Adriana, a Bianka e o Sandro.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Para visitar



Visite o site www.soniavill.com.br para ver as fotos do lançamento do livro escrito pela educadora Sandra Crochemore Ribes, colaboradora da P&N, e por Fátima Silva, intitulado MICROcoisas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ato contra o Estaleiro OSX em Sambaqui

A Associação do Bairro de Sambaqui (ABS) convida para uma manifestação contra o Estaleiro OSX a ser implantado em Biguaçu/Baía de Norte de Florianópolis. O ato acontece no sábado (11.9) à partir das 16 horas na praia das Flores, em Sambaqui, com apresentação do Boi de Mamão e a colocação de bandeiras pretas. Estão sendo convidadas as entidades comunitárias da região (Santo Antônio, Barra do Sambaqui, Daniela e Ratones), acadêmcos, e técnicos do Instituto Chico Mendes para a Biodiversidade (ICMBio). A divulgação do evento é feita nas ruas com sistema sonoro, distribuição de "mosquitinhos" e faixas.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Bancários lutam contra assédio moral e metas abusivas

Veja o vídeo em www.youtube.com/pobresynojentas (link no menu à direita).

Povo saharauí luta para derrubar o muro da opressão

Por Elaine Tavares - jornalista

Os muros são coisas doidas, símbolo de separação. Há quem diga que eles servem para proteger. Mas há que perguntar. Proteger a quem? Se a gente parar para pensar vai ver que os muros têm suas origens no poder. Desde muito tempo eles são erguidos para que aqueles que têm muita riqueza se protejam de quem não tem. A lógica da propriedade privada, da acumulação privada da riqueza e da terra. Valeria pensar: mas por que é assim? Por que uns têm muito e outros nada? Ah, essa é a pergunta que ninguém se faz.

Contam que um dos primeiros grandes muros da história foi a muralha da China, idealizada no século VII a.C pelos imperadores da dinastia Zhou, dispostos a dividir a terra em dois pedaços. O deles e o dos outros. O trabalho começou em 221 a.C e terminou dois milênios depois. Mas, é bem possível que antes dele outros já tivessem sido erguidos. Relatos nos Vedas ou na Torá – livros sagrados de povos muito antigos – falam de castelos e muralhas, erguidas para proteger cidades e reinos de possíveis invasores. Os muros são sempre muito usados para separar povos, como, por exemplo, o Muro de Adriano, construído em 122 d.C, para dividir o mundo romano (civilizado) do mundo dos bárbaros. Parece que sempre foi muito difícil aos seres humanos uma vida em comunhão, sem o medo do “outro”.

Mesmo em Abya Yala, onde as comunidades tinham por princípio básico a idéia de vida coletiva, é possível encontrar registro de grandes muralhas protetoras como o forte Pucará de Quitor, no deserto de Atacama, Chile, erguido pelo povo likan-antay para enfrentar o avanço de tribos inimigas.

Nos tempos modernos, o muro mais famoso foi o Muro de Berlin, criado pelos soviéticos em 1961, materializando a cortina de ferro a separar o mundo comunista do capitalista. Durante anos ele foi uma espécie de símbolo da separação, da exclusão, da prisão e do ódio. Não havia quem, no chamado “mundo livre”, não clamasse pela queda daquele muro. Quando ele finalmente foi derrubado em 1989, as gentes em todo planeta saudaram esta vitória da “democracia e da liberdade”. A impressão que se tinha é que ali se encerrava uma triste etapa da vida humana, que nunca mais iria se repetir. E esta é uma coisa estranha de se pensar, se levarmos em conta que anos depois, em 1994, os Estados Unidos iniciavam um programa anti-imigração, chamado de Operação Guardião, que principiava a construção do odioso muro que separa o país ianque do México. Naqueles dias, ninguém se levantou para falar em ódios, exclusão ou falta de liberdade. Desde então, ali, naquela cerca, morrem milhares de pessoas tentando passar para o lado dos EUA, buscando viver a promessa do sonho americano. Raras pessoas no mundo falam desse muro ou se importam com as vidas que se perdem ali.

Depois, em 2002, o artificial estado de Israel, amigo e parceiro dos EUA, deu início ao seu muro, segregando o povo palestino em seu próprio território. Quilômetros e quilômetros de concreto dividem famílias e transformam um povo inteiro em prisioneiro, dando vazão a levas e levas de violência, dor e morte. Também são muito poucos os que se importam com isso. A mídia, como sempre do lado do poder, se encarrega de disseminar pelo mundo o preconceito e a mentira, atribuindo aos palestinos o rótulo de terroristas e bandidos. Raros são os que gritam pela queda deste muro. Ele aparece como algo necessário, para proteger o povo de Israel, embora nunca ninguém tenha cogitado que o Muro de Berlim existisse proteger o povo comunista da sanha do capital.

Pois não bastassem as excrescências dos EUA e Israel há um outro muro do qual muito pouco se fala. É o que separa o povo saharauí de seu território original no norte da África, região que permanece obscura e desconhecida para todos na América Latina.

O massacre do povo Saharauí: um pouco de história

O povo que vive no território reivindicado pelos Saharauí é muito antigo e habita aquela área desde quando os berberes brancos avançaram pelo norte do Sahara, no século VII, premidos pelas invasões árabes. Assim, eles foram jogados para a parte sul de onde hoje é o Marrocos, quando passaram a viver de forma autônoma. Os berberes são originários do norte da África e formam a gênese do povo do Marrocos. Na verdade, esse termo “berbere”, significa “bárbaro” e por isso é repudiado pelos seus descendentes que gostam de ser chamados de “amazigh” (homens livres). Mas, é parte deste povo de “homens livres” que hoje está sendo responsável pela desgraça do povo Saharauí.

O reino do Marrocos foi criado por volta do ano 470 a.C. e sempre esteve com os olhos mais voltados para a Europa que para seu interior. Ocupado pelos árabes no século VII, a região foi porta de entrada dos mouros para a península ibérica, onde reinaram por anos. Bem mais tarde, foi a vez do Império Romano anexar o Marrocos como colônia e foi só no século XI que os berberes reconquistaram seu território. Mas, a briga interna de vários clãs pelo controle do Marrocos o enfraqueceu e deu chance para a invasão de Portugal que, no século XV, no auge da expansão colonial, abocanhou algumas cidades. Foram muitos os anos de lutas para recompor o território. Na metade do século XIX, a Espanha e a França estenderam seus domínios pelo norte da África, ocuparam a área, e o espaço daquelas terras foi dividido. Em 1912 a parte do Marrocos ficou com os franceses, e a Espanha se apropriou da região norte e do Sahara ocidental, onde então viviam os saharauí.

Como em todas as colônias africanas, a ocupação não se deu sem luta. São históricos os massacres de revoltosos em batalhas nas quais Espanha e França se ajudavam contra os povos locais. O advento da segunda guerra mundial abriu caminho para novos movimentos de libertação e seguidos conflitos aconteceram. Em 1956, o Marrocos finalmente conquistou sua independência dos franceses, instituindo uma monarquia, mas a parte que estava nas mãos da Espanha não conseguiu o mesmo feito. Permaneceu colônia e, a exemplo dos marroquinos, as populações continuaram buscando a libertação. Por conta disso, em 1973 foi criada a Frente Popular de Libertação de Saguia-El-Hamra e Rio de Ouro (POLISARIO), que passou a liderar a luta na região ocidental.

Com a independência reconhecida, o Marrocos se organizou e começou a sonhar com novos vôos. Ambicionava anexar a parte espanhola da região, sem reconhecer que ali viviam povos autônomos, com cultura própria e igualmente sedentos de liberdade. Nos anos 60 e 70 vieram as vitoriosas lutas de libertação nacional em todo o mundo e, em particular na África, com várias colônias saindo do jugo de Portugal. Essa conjuntura leva a Espanha franquista a aceitar o princípio da autodeterminação nas regiões ocupadas, mas ainda sem se dispor a “largar o osso”. Então, no ano de 1975 quando o Marrocos, já livre da França, começa uma investida bélica na região ocidental do Sahara, a Espanha, igualmente ignorando as reivindicações do povo saharauí, assina um acordo entregando a região ao Marrocos e à Mauritânia. Com esta atitude vergonhosa, a Espanha cede ao rei Hassan II as riquezas naturais do Sahara ocidental, e com elas, o povo que ali vivia.

Ainda assim, o povo saharaui não se entregou. Tão logo as tropas espanholas saíram do território, em 27 de fevereiro de 1976, a Frente POLISARIO proclamou a República Árabe Saharauí Democrática (RASD). Segundo eles, ali estava um povo real e não seria um invasor que os colocaria na condição de “ninguém”. A própria Mauritânia reconheceu esse direito.

Mas, assim que viu garantida a soberania sobre o território até então espanhol, o governo do Marrocos, sem fazer caso da proclamação de independência saharauí, organizou uma grande marcha, conhecida como a “marcha verde” (na verdade um processo de colonização), na qual mais de 350 mil pessoas migraram para a região do Sahara ocidental, tendo a frente uma unidade de infantaria repleta de blindados, numa clara demonstração de força. Como as terras estavam tradicionalmente ocupadas pelo povo saharauí, as tropas marroquinas não hesitaram em iniciar uma campanha brutal de desalojo. Chegaram ao ponto de utilizar bombas de fósforo e napal, causando terríveis sofrimentos aos povos que ali viviam e obrigando-os a uma retirada em massa. Grande parte buscou abrigo na Argélia e outra parte seguiu lutando.

Desde então, múltiplas resoluções das Nações Unidas, da União Africana e um acórdão do Tribunal Internacional de Justiça de Haia reconhecem o direito à autodeterminação do povo saharauí, entendendo que não há registro jurídico nem histórico de vínculo de soberania por parte do Marrocos naquele local. Mais de 80 países do mundo reconhecem a RASD, mas isso fica só no papel.

A luta do povo saharauí não deu trégua este tempo todo, e no final dos anos 80, com a intermediação da ONU, o governo do Marrocos e a POLISARIO aceitaram um acordo, no qual o Marrocos retiraria suas tropas da região e realizaria um plebiscito com o povo para que este escolhesse entre a independência ou a anexação ao Marrocos. Mas, o certo é que isso nunca se concretizou e o governo marroquino se recusa a aceitar a autodeterminação dos saharauí.

Já são mais de 35 anos de luta, e a Frente Popular de Libertação tem cedido muito mais do que o Marrocos, se dispondo inclusive a depor as armas e libertar prisioneiros, mas não encontra eco no governo marroquino.

A situação hoje

É nesse contexto de intransigência que o Marrocos deu início a construção de um muro, dividindo a região do Sahara ocidental, visando segregar ainda mais as gentes saharauí, impedindo-as de viverem em paz no seu território. Hoje, parte do povo, sem poder ocupar seu território original, vive em terras cedidas pela Argélia, na condição de refugiados, em acampamentos desprovidos de qualquer condição de dignidade.

O muro da vergonha do Sahara Ocidental tem mais de dois mil quilômetros e divide de norte a sul o território. Vigiado por mais de 150 mil soldados marroquinos o percursos ainda apresenta uma infinidade de minas que, vez ou outra, provocam mortes entre os saharauí ou mesmo entre militantes internacionalistas que fazem periódicas marchas e manifestações no muro. Segundo a ONU há um cessar-fogo vigiado por uma missão de cascos-azuis, mas isso não impede que o Marrocos siga acossando a gente saharauí.

O fato é que o regime monárquico, ainda em vigor no Marrocos, se recusa abrir mão das inúmeras riquezas do Sahara ocidental. Entre elas está a magnífica costa Saharauí, que toma parte do Mediterrâneo e parte do Oceano Atlântico. Ali está um dos bancos de pesca mais ricos do mundo, hoje ocupado pelo Marrocos. Também se fala de grandes reservas de petróleo, com algumas áreas já sendo exploradas na parte que está sob o domínio do Marrocos. Igualmente fazem parte do pano de fundo da disputa de território as abundantes minas de fosfato que estão na parte ocidental do Sahara, portanto, devendo pertencer à República Saharaui, mas que seguem sendo exploradas pelo Marrocos.

Numa visita às páginas da Internet ou ao Youtube qualquer pessoa pode ver as terríveis condições de vida da gente saharauí nos acampamentos em meio ao deserto. É por isso que a Frente de Libertação insiste na busca de solidariedade mundial e no reconhecimento da República Árabe Saharauí Democrática como um Estado independente. As gentes do deserto da áfrica ocidental estão aí, a provar que os muros continuam sendo fortes mecanismos de opressão e segregação por parte daqueles que detém poder militar e político. Mas o povo saharauí também mostra, a exemplo dos palestinos e dos milhões de imigrantes, fugitivos do capitalismo, que não há canhão capaz de frear a luta por vida digna, por território e por liberdade. Como bem mostra a história, os muros acabam caindo. Sempre!

Viva a luta do povo saharauí!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Povo hondurenho segue em luta

Por Elaine Tavares – jornalista

Honduras saiu da pauta da mídia. Não há mais golpe militar nem presidente asilado em embaixada brasileira, e, diz a CNN, “voltou a democracia”, com as eleições de 2009. Assim, não existem mais motivos para tornar notícia o país. Mas, a verdade não é bem essa. Primeiro que a democracia não voltou coisa nenhuma. As eleições foram realizadas dentro do golpe, portanto, não tem qualquer legitimidade. Nenhum candidato de esquerda ou progressista participou do processo, que era viciado por natureza. Assim, o presidente eleito representa pouco mais de 15% das gentes. A maioria segue em luta, quer de volta seu país, sua liberdade, sua soberania. Coisas que lhes foram tiradas por um golpe alinhavado pelo embaixador estadunidense no país.

Desta forma, mesmo que os holofotes da mídia tenham se voltado para outros lugares, a luta em Honduras prosseguiu. Depois das eleições seguiram as prisões, as mortes, os desaparecimentos. Lideranças sindicais e jornalistas são escolhidos a dedo. Amanhecem mortos. Mesmo assim o povo não esmorece.

Um exemplo disso é a batalha dos professores hondurenhos, que nos tempos do golpe, foram uma das categorias mais mobilizadas. Desde há sete meses que eles vêm buscando conversar com o governo de Pepe Lobo para que ele atenda suas reivindicações trabalhistas e políticas, como o rechaço à Lei Geral da Educação, que limita o direito à educação pública. Mas, o governo se faz de surdo. Por conta disso os professores iniciaram uma greve, e, como sempre acontece, foram brutalmente reprimidos pela polícia. Na tentativa de escapar do violento ataque, os trabalhadores buscaram abrigo na Universidade Pedagógica Nacional Francisco Morazán. Ainda assim a polícia atacou, com bombas, balas de borracha e balas de verdade. Uma ação desproporcional. Em Honduras, os demais trabalhadores, apoiando a luta dos professores por entender que é também a defesa da educação pública, já estão articulando uma greve geral para este dia 7 de setembro.

Mas, na madrugada do dia 5 de setembro, outra ação repressiva das forças de segurança, tornou a situação ainda mais grave e promete levar mais gente às ruas. Policiais fortemente armados invadiram a Universidade Nacional Autônoma de Honduras, para prender professores – dirigentes sindicais - que estavam em greve de fome, protestando contra a demissão ilegal de 184 professores da universidade. Segundo a reitora, Julieta Castellanos, as demissões teriam ocorrido porque os professores eram “subversivos”.

Esta mesma reitora já havia chamado a polícia no dia 3 de agosto, para desalojar trabalhadores que realizavam protestos contra as demissões. Agora, outra vez, atiça as forças policias sobre os sindicalistas em greve de fome, exigindo a prisão de todos os 28 professores que realizam o protesto. Por todo o país, os trabalhadores se solidarizam e chamam a população a se manifestar nesse sete de setembro. Tudo indica que será um dia de mobilizações massivas em todo o país.

A luta dos professores é só uma entre tantas outras demandas que seguem pedindo passagem na Honduras ainda sufocada pelo autoritarismo. E os mesmos homens, mulheres, adolescentes e crianças que enfrentaram os fuzis do golpe militar seguem enfrentando as forças policias do governo “democrático”. Uma gente valente que não esmorece, ainda que não haja mais câmeras filmando suas dores. Neste sete de setembro, quando aqui no Brasil se ouvirá o grito dos excluídos, em Honduras as gentes encherão as ruas. É a interminável luta do povo pela vida digna.