sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A humana mortalidade

Por Elaine Tavares – jornalista

De repente, no meio do turbilhão da vida cotidiana, o coração dá um salto. É uma coisa sutil, mas igualmente estranha. Não é amor, não é medo, não é irritação. É um defeito na máquina. Aí vem toda aquela coisa de filas, guias e esperas do SUS. Este é, sem dúvida, o melhor plano de saúde do mundo, mas ainda emperra nas burocracias. Tudo bem, a gente vai ultrapassando as barreiras. Tudo vale a pena quando se cai na mão de um adorável chinês que fez de Floripa o seu lugar. Médico sem igual, destes que olha nos olhos, que conversa e ri. Dos que transmite segurança e segura tua mão a dizer: eu estou aqui. “Não sei o que há, mas estou aqui”. Não tem certezas, apenas humanos atos de compaixão. É tudo o que se precisa quando se está frágil.

Então vem aquele sentimento que só nos invade no outono da vida: somos mortais. Toda aquela arrogância juvenil já não há mais e o sentimento de invulnerabilidade se esvai num átimo. A bomba vital está de passo errado. Agora não é mais a vida mesma que caminha na direção contrária, é o motor. Bate a certeza de que este estar no mundo é só um sopro, um fugaz segundo da história da raça. É a hora da humildade, de assumir nossa desimportância. A gente se vai e tudo segue. Nenhuma onda macula a perenidade da grande energia cósmica. Somos só poeira.

É uma coisa boa isso de nos confrontarmos com nossa fragilidade humana. A gente tira o pé do acelerador, diminui a marcha e vai procurar nas gavetas o velho poema de Borges. Hora de viver plenamente, porque, afinal, tudo já vai terminar. Hora de viver pores-do-sol, de ventos gelados a beira mar, de abraçar os bichos, de dizer que ama, de ligar para velhos amigos, rever caminhos da infância. Tempos de lentidão. Menos trabalho, mais encontros felizes. Milton Santos já dizia: o futuro é dos homens lentos. Acatarei. Não tenho saída.

Meu coração bate errado. Cansou talvez de tantos baques e lutas inglórias. Meu coração pediu água, descanso. E eu aprendo com ele que é possível o mundo sem mim. Hora dura essa, mas superável. O que vem depois é uma tremenda paz. “Não sou nada, não posso querer ser nada. A parte isso, tenho todos os sonhos do mundo”, sussurra Pessoa. Hoje eu me olhei e vi que outonei. Mas ainda há tempo para viver. Vou fazê-lo!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O ritual da nudez, após o banho de sais (O Ponto G de uma Senhora recatada)

Fernando Karl

Para iniciar o ritual da nudez, a Senhora retorna ao quarto, após o banho de sais, envolta numa toalha branca. Para entenderes bem o que é o céu na alma, observe primeiro o modo como ela se desnuda. Eu obedeço, dando ao rosto o maior interesse possível, enquanto a senhora deita na cama e acaricia as pernas com óleo de amêndoas. Acaricia, também, o Ponto G, com sabonete de gérbera.
Confesso que foi no verão a primeira vez que vi a Senhora, no Café Graben, que era então o único lugar onde se podia observar, pela imensa janela transparente, as pessoas que andavam na rua. E elas todas iam ao açougue, à Botica da Erva Santa ou ficavam nos bancos no Largo do Paço.
No Café Graben eu tinha fome, muita fome, porque não havia comido nem uma folha de alface nem bebido um copo d’água sequer. A Senhora entrou de longo chapéu azul, como se usava naquela época, e sua nuca muito branca foi o que de imediato me chamou atenção. Ela se sentou próxima de gordas senhoras, nas suas ricas vestimentas que, ao fundo do Café Graben, faziam barulho com o garfo e a faca e davam com a língua nos dentes sobre um assunto ou outro, sempre banal.
No momento em que a Senhora se levantou para ir ao banheiro, eu fui atrás, um pouco encharcado de vodca, confesso, e aconteceu dela se espantar quando o animal que há em mim arrancou cada peça de sua roupa e ali a Senhora ficou, no meio do banheiro, com a nudez branca e um tufo de pêlos negros entre as coxas. Confusão? Tumulto? Nada disso. Ela colou seu corpo no meu e fiquei durante minutos passando a língua nos ombros, nos quadris, no púbis, com a intenção de secar a chuva que nesses lugares havia se acumulado.
Depois que saímos do banheiro do Café Graben, a Senhora foi levada em braços para a Botica da Erva Santa, veio o farmacêutico, era noite; a Senhora tinha a cabeça rachada e, da fenda de sua cabeça tentava sair, com dificuldade, um pássaro azul com garras afiadas que bateu asas, singrou ao telhado de um casarão próximo.
Dali do interior da Botica da Erva Santa pude fazer sinal a um tílburi que por ali passava; e retornamos, eu e a Senhora, ao sobrado onde ela residia.
O tílburi, no meio do caminho, atropelou uma menina de 12 anos. Eu escutava a respiração da menina, com a alma nos olhos, incapaz de desvendar sequer um resquício de sua breve existência. O dono do tílburi fugiu e nunca mais foi visto.
Por muito tarde que chegássemos ao sobrado da Senhora, não estávamos com sede, ela adormeceu e a coloquei na cama.
Enquanto ela afundava a cabeça no travesseiro, meditei sobre esse princípio indestrutível: a uma água de chuveiro nunca se destroça e o sabonete de gérbera da Senhora continua lá, abandonado, no ladrilho do banheiro. Assim chamo de incorruptíveis às águas fortes dessa ducha; e porque os cabelos da senhora esquecem sombras no tapete, eu a chamo de rainha da Babilônia e quando o céu é alto eu digo: eis a respiração da rainha.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Carne e espírito

Fernando Karl
Corôo com minha carne de um lado.
Com o espírito me coroam do outro.
A Danaide assassina me sorve o espírito
ou lava-me em suas conchas remissórias.
Lavo a luz em tua voz antiga.
Sou tão leve.
Ela é a noiva sumidiça.
Sou a embarcação de zéfiros,
cascatas, corvos.
Passo delirante, não fujas,
tez assombrada,
de mim.
Danaide de meu inferno,
eu te amo.
Sacerdotisa almiscarada,
serva do divino oratório,
os pregos de minha cruz são de nuvem.
Eu sou de nuvem.
Ontem,
teus olhos iluminaram o sol.

Portal Desacato e Revista Pobres & Nojentas promovem o 1º Encontro pela Soberania Comunicacional, Popular e Libertária

No marco do 1º Aniversário do Portal Desacato, o coletivo deste veículo de comunicação, em conjunto com a Revista Pobres & Nojentas, promovem um debate central para os meios de comunicação: A SOBERANIA COMUNICACIONAL, POPULAR E LIBERTÁRIA.
Ao cumprir-se um ano da existência do Portal, com colaboradores de mais de 20 países e com uma marcada linha de contracorrente, Desacato oferece, junto a Pobres & Nojentas, um debate pontual, livre e aberto sobre um tema determinante que atinge por igual jornalistas, meios alternativos, trabalhadores, estudantes, educadores, lutadores sociais e público em geral.
Com uma programação intensa, porém ágil, interativa, regada com vídeos, trabalhos especiais, cultura e momentos significantes para o cotidiano de todos/as, Desacato apresentará também outro debate de importância decisiva: A Decadência das Instituições de Dominação e a Criminalização dos Movimentos Sociais.
No Encontro se inaugurará o Prêmio Volodia Teitelboim de Jornalismo Independente e Literatura. Um dos pontos mais altos do Encontro será a Proclamação da Carta de Florianópolis pela Soberania Comunicacional.
Quando?
Dia 5 de setembro, sexta-feira, de 18 h às 21:45h
Dia 6 de setembro, sábado, de 9 às 17:30 h
Onde?
Plenarinho da Assembléia Legislativa de Santa Catarina – Florianópolis, SC
Telefones para imprensa e consultas:
51-48-3269-8158 e 51-48-96195895
Endereço eletrônico para informações:
desacato.brasil@gmail.com

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO:

1º ENCONTRO PELA SOBERANIA COMUNICACIONAL, POPULAR E LIBERTÁRIA

ATIVIDADES

Sexta-feira - 5 de setembro

18:10 Início das atividades com breve recepção aos presentes por parte de Joana di Migueli. Leitura de mensagem da companheira diretora Tali Feld Gleiser por Joana di Migueli

Apresentação cultural: Vídeo – 15 Anos de Ação Cultural do Sinergia e reapresentação do livro de poesias “CEM POEMAS” apresentados pelo autor Dinovaldo Gillioli

18:40 TEMA: Soberania Comunicacional

Apresentação e Coordenação: Míriam Santini de Abreu
Exposições de:
Raul Fitipaldi - Soberania Comunicacional
Marco Arenhart – Software Livre
Elaine Tavares – Comunicação Popular
Jilson de Souza – A experiência comunicacional da Agência do Contestado

19:35 Vídeo: Eu não sei o que fazer comigo – Cuarteto de Nos

19:40 Início do debate aberto a partir do apresentado nas exposições.
Apresenta e coordena o debate Míriam Santini de Abreu e se mantém constituída a Mesa

20:40 Vídeo em P&B Roda Viva com Chico Buarque e MPB4

20:50 Representação cênica: A Pauta que o Pariu! Representando: Joana di Migueli e Vanessa Bortucan. Apresenta: Elisa Rodrigues Veras

21:15 Apresentação da Proposta de Carta Pela Soberania Comunicacional por parte de Glauco Carvalho, Allisson Gabrielle e Douglas Maçaneiro

21: 45 Palavras de encerramento do dia e fechamento do dia com Elaine Tavares e Raul Fitipaldi
e vídeo de boa noite com Dulce Pontes e Simone: A Ilha do Meu Fado


Sábado – 6 de setembro

9:00 Abertura das atividades do dia por Tali Feld Gleiser e Jacky Hinckel

9:10 Vídeo: Trabalho com Discurso do Companheiro Che Guevara feito pela juventude do PC Turco.

9:30 TEMA: Decadência das Instituições de Dominação

Apresentação e Coordenação: Carlos Raulino
Exposições de:
Juan Luis Berterretche – Decadência das Instituições de Dominação
Glauco Carvalho Marques – Assimilação por parte do Estado dos Movimentos Sociais
Marcelo Pomar: Criminalização dos Movimentos Sociais

10:30 Vídeo: "Manual dxs Catraqueirxs" do MPL – DF apresentado por Simara Pereira

10:40 Início do debate aberto a partir do apresentado nas exposições
Apresentação e Coordenação: Carlos Raulino

11:50 Apresentação de “as Ruas de Floripa” de Flora Lorena (apresentação: Jole de Melo)


12:15 Intervalo para almoço

14:00 Vídeo com Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro Ruz e outros

14:10 Apresentação da Exposição sobre Defesa Legal dos Movimentos Sociais por conta de Rosângela de Souza (Lelê)

14:45 Apresentação de produção do Vídeo “TEVELIÇÃO” de Alquimídia /Site Sarcástico. Apresentação de Thiagao Skárnio

15:15 Apresentação Formal da nova logomarca do Portal Desacato mostrando uma camiseta com a criação do artista José Mercader de República Dominicana, por parte de Míriam Santini de Abreu e Vanessa Bortucan

15:30 a) Intervenções através de Vídeo dos companheiros do exterior e b) posterior apresentação de um power point com as fotos de todos os colaboradores
Coordenação: Tali Feld Gleiser

16:30 Apresentação e Coordenação: Marco Arenhart
Palavras dos companheiros que nos visitam de outros estados e cidades do interior de SC. Convidados: Jole de Melo, Luciane Recieri & Godoi, Russ Howel, pelos outros estados e Urda Klueger e companheiros de Agecon

16:50 Apresentação: Douglas Maçaneiro
Carta de Florianópolis pela Soberania Comunicacional Popular e Libertária. Leitura: Glauco Carvalho Marques, Allisson Gabrielle

17:00 Instituição do Prêmio Volodia Teitelboim de Soberania Comunicacional
Apresentação Raul Fitipaldi

Apresentação de Vídeo feito em Homenagem a Volódia Teitelfonim pela Juventude Comunista do Chile no seu 90º Aniversário

17:20 Premiação dos colaboradores do Portal Desacato. Entrega de trabalhos artísticos realizados por Vanessa Bortucan aos companheiros Elaine Tavares, Luciane Recieri &Godói e Koldo Campos Sagaseta. Coordenação: Jole de Melo e Raul Fitipaldi

17:40 Vídeo musical “Venho oferecer meu Coração” com Fito Páez, Mercedes Sosa e Víctor Heredia.

17:45 Palavras de fechamento do 1º Encontro do Portal Desacato pela Soberania Comunicacional

17:55 Fechamento das Atividades com o Vídeo O Povo Unido Jamais Será Vencido com música de Sérgio Ortega

*Toda a atividade será acompanhada com vídeos, música e diversas propostas culturais. Serão instaladas bancas de Revistas, Livros, Fotografias, Vídeos, Músicas e será lançada a camisa com a nova logomarca do Portal

Como é de tradição, serão servidas frutas do Sacolão, com suco e água mineral sem gás

As informações completas sobre os debates, apresentações e o conteúdo geral do 1º Encontro Pela Soberania Comunicacional podem ser encontrados nos sítios:

www.desacato.info e http://pobresenojentas.blogspot.com/

sábado, 23 de agosto de 2008

Todo azul do céu


Praia do Campeche, em Florianópolis. Todo azul do céu e do mar. Ouça Flávio Venturini:

Flaner em Floripa

Míriam Santini de Abreu
São umas quatro quadras do terminal central até o local onde trabalho. Miolo de Florianópolis. Há dias em que me apascento das gentes inquietas, com suas sacolas, o olhar cheio de pensamentos, e me dá gosto flanar sem horário, parar para ouvir o rapaz que toca instrumentos na Felipe Schmidt, a moça que vende CDs na Praça 15, a atendente na banca da Catedral, onde a Pobres & Nojentas espia compradores em uma das prateleiras. E assim, plena de ociosidade, é que paro na Pastelaria do Keko, apóio os cotovelos no balcão e peço um pastel com laranjinha Água da Serra. Bom demais, bom demais.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Revista Pobres & Nojentas arrisca mais um passo

Por Elaine Tavares e Míriam Santini de Abreu – editoras

A equipe que edita a revista independente Pobres e Nojentas, em Florianópolis, Santa Catarina, decidiu dar mais um passo na contramão da história, desta vez discutindo a Teoria do Jornalismo. Desde maio de 2006, quando foi lançada a revista, o grupo vem buscando trabalhar aquilo que se acredita ser a melhor forma de fazer jornalismo, que é aquele comprometido com a comunidade das vítimas do sistema capitalista. Mas estas “vítimas” não são mostradas como coitadinhas, muito pelo contrário. O que se mostra é a força que os oprimidos têm e sua capacidade de transcender aquilo que o sistema tenta impor como verdade única.

Diante da profusão de uma imprensa cada dia mais cortesã, a criação da revista foi a forma encontrada para fazer o contraponto crítico com o jornalismo hegemônico, que é de sustentação do estado de coisas. A proposta da Pobres é fazer diferente, apostar na soberania comunicacional. É mostrar para a sociedade que o jornalismo pode cumprir sua função social, que pode ser crítico, interpretativo e parcial. A equipe que, a duras penas, coloca na rua, a cada dois meses, uma edição da revista, não pauta seu fazer pela farsa do chamado jornalismo imparcial. Nada é imparcial. O que diz a seus leitores é que é parcial, sempre do lado do oprimido, mas sem deixar de discutir os fatos na sua universalidade, tal qual ensinou Adelmo Genro Filho.

Pois agora a equipe da Pobres & Nojentas decidiu abrir mais uma frente de debate. Não apenas a prática renitente do jornalismo libertador, mas também o seu pensar. Para isso já criou um blog onde vai postar textos teóricos sobre o jornalismo, justamente por não encontrar essa reflexão no dia-a-dia do fazer do jornalista. É que a discussão teórica acaba ficando restrita a um campo pouco fértil que é o do mundo acadêmico. Este mundo que abriga os encontros da Intercom, Compós e outros, não permite, aos jornalistas que estão na batalha diária de produzir informação, um contato mais estreito e orgânico com os saberes produzidos na academia. No mais das vezes, estes eventos ficam limitados ao mundo da universidade e os profissionais do cotidiano ficam de fora do refletir sistemático sobre a prática, coisa que é fundamental, como ensinou Paulo Freire.

A proposta da Pobres & Nojentas teórica vai em duas direções. Uma é esta, de tentar colocar mais próximo do jornalista as questões teóricas que estão em debate na profissão, e a segunda – mais importante – é mostrar o pensamento herege que não encontra espaço para se expressar nos encontros acadêmicos, viciados por panelinhas.

A Pobres inicia o debate no espaço digital, onde colocará à disposição textos dos mais variados profissionais que estejam pensando o jornalismo, mas promete para novembro deste ano o lançamento da Pobres Teórica impressa. A idéia, que nasceu das infindáveis discussões entre as editoras do projeto, promete caminhar. Todos os jornalistas estão convidados a contribuir.

Queremos o pensamento próprio, que não imita, que não repete, que pensa seu tempo e seu lugar. Queremos o pensamento herege, que inventa, que cria, que faz o mundo andar. Se tu estás nesta onda, participe. O blog, por conta de seu formato interativo, permitirá ainda um amplo e fértil debate na categoria. As idéias estarão lá, prontas para serem esgrimidas numa luta em que não haverá mortos, apenas vencedores. Acesse a Pobres Teórica e solte o verbo!

domingo, 17 de agosto de 2008

Ouvidoria da Lua



video


Míriam Santini de Abreu

As costas apoiadas na pedra não tão fria; ao lado, uns arbustos espinhosos; à frente, o mar do Sul da Ilha de Santa Catarina, frisante ao choque com as rochas. Estávamos, eu, Marcela e George aguardando a Lua Cheia de Agosto espreguiçar e desprender-se da água. Nada. 17h30, 18h, 18h30. Foi chegando mais gente no chamado morrinho da Armação, e nós desistimos.

- Ah, mas que demônia! Ah, preguiçosa! – Assim tratávamos a não-aparecida. Ameaçamos até ligar para a Ouvidoria da Lua.

Gente de pouca fé. Bastou fazer uma curva na estrada do Morro das Pedras e soubemos: ela havia se enluarizado. Lembrou-se da jornada noturna e foi à fímbria do céu, chamejante como o sol. Esticamo-nos na areia e lá estava um pescador tarrafeando; mais além, um homem contava ao seu cão como Mama Quilla fugira, naquela noite, do apetite do jaguar celeste. Bem acima da linha do horizonte uma aeronave emitia um pálido brilho branco. Ah, sortudos passageiros!

Deixamos Mama Quilla a cuidar de sua mansa trajetória, enquanto, na praia, eu confundia uma tampa da garrafa com um dobrão espanhol. Somos almas antigas sob a Lua.

Acima, O-Homem-e-o-Cão-sob-a-Lua e a Jornada do Aviador

Na conta de P&N no You Tube, O-Homem-que-Tarrafeia:

http://br.youtube.com/watch?v=O7h_977-6NA

sábado, 16 de agosto de 2008



Cerca de 80 pessoas estiveram na Festa pela Unidade Latino-Americana - 80 Anos do Che Guevara, promoção conjunta da revista Pobres & Nojentas e do Portal Desacato realizada no dia 16 de agosto em Florianópolis. O objetivo do evento foi arrecadar recursos para o Encontro nos dias 5 e 6 de setembro, quando será celebrado o primeiro ano de existência do Portal. Em breve iremos divulgar todas as informações sobre a atividade. O endereço do Portal é:
Fotos de Rosangela Bion de Assis

No ventre do mundo


Míriam Santini de Abreu

Pedi ao precioso jornalista Eduardo Schmitz, de Taió, que ilustrasse o texto de Newton Tavares para a mais recente edição de Pobres & Nojentas. A base era uma frase de Nietzsche citada por Newton no texto:

“Corra, meu amigo, para dentro da tua solidão. Sê como a árvore que ama com seus galhos. Silenciosamente, escutando, ela se dependura sobre o mar”.

Pois Eduardo enviou para a Pobres essa preciosidade acima, a beleza da frase do filósofo tornada igualmente plena em uma ilustração: no ventre da árvore um menino lê, como se estivesse no ventre do mundo.

P&N 14 está à venda!


O número 14 da revista Pobres & Nojentas estará à venda a partir desta segunda-feira, 18, na banca da UFSC e na da Catedral, em Florianópolis. Os exemplares dos assinantes também seguem pelo Correio nesta segunda. O texto da capa, assinado por Elaine Tavares, fala de Kihili Kunturpillku, nascida na fronteira entre Colômbia e Venezuela, cujo pai tinha uma máxima filosófica que aplicava o tempo todo: o único objetivo de uma pessoa na vida deve consistir em ser irrepreensível.
Assine P&N! Escreva para revistapobresenojentas@gmail.com

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mahmud: imortal!

Elaine Tavares
“Venham companheiros de correntes e tristezas
Caminhemos para a mais bela margem
Nós não nos submeteremos
Só podemos perder
O ataúde”.

Ele era assim. Essa voz poderosa chamando para a revolução. Queria ver seu povo livre, soberano, feliz. Queria de volta a sua Palestina, não como concessão de algum político bonzinho, mas porque esse é o direito do povo, usurpado em 1948 pela criação do Estado de Israel. Mahmud Darwish, poeta, guerreiro, anjo, criança, renitente, insistente. Encantou no último sábado (dia 9) quando seu coração, pesado de tanta dor, deixou de bater. Mas, enganam-se aqueles que pensam que Mahmud vivia por conta de seu coração. Não. Ele vivia pelas palavras que criava, pelas construções poéticas que erguia e, estas, nunca haverão de morrer.
Ninguém disse nada, mas quando os olhos de Mahmud apagaram para este mundo, abriram-se para a velha aldeia onde nasceu, Al Barwua, de onde sua família foi expulsa pelas armas de Israel. Um lugar que não existe mais, a não ser nos sonhos do menino que nunca a esqueceu. Encravado no coração da Galiléia, o povoado é hoje um acampamento judeu. Mas, para Mahmud sempre foi seu torrão natal, seu ninho. E é possivelmente lá que agora ele passeia, entre as oliveiras.

“Registra-me
Sou árabe
O número de minha identidade é cinqüenta mil
Tenho oito filhos
E o nono... virá logo depois do verão
Vais te irritar por acaso?”

Mahmud foi o poeta palestino que de forma mais radical imortalizou a dor e a luta de seu povo. Até porque nunca se limitou a ser apenas um escrevinhador. Era um animal político, absolutamente conectado com as ações e com a vida real. Seu canto poético brotava das vísceras à mostra, do homem pé-no-chão, do palestino encarcerado, do humano grávido de esperanças. Suas palavras nunca foram criações estéticas. Eram o gume cortante de uma vida real, expressa em sangue e lágrimas. Seu poema nos arranca da apatia e nos convida a lutar, concretamente.

“Ainda verte a fonte do crime.
Obstruam-na!
E permaneçam vigilantes
Prontos para o combate”

Pois agora a mão que rasgava em fogo o papel com o grito da Palestina ocupada já não escreverá mais. Mas precisa? Seu canto de liberdade está cravado na terra fértil dos corações que sonham com o ainda-não, e dali nunca fugirão. Mahmud passeia em Al Barwa. Mahmud passeia nas terras antigas, onde vivia uma gente livre. Mahmud passeia nas cabeças das gentes e grita, com elas. Mahmud imortal, imenso, menino, homem, pura vontade de ser aquilo que sempre foi: palestino, livre, soberano. Porque a liberdade, afinal, vive lá dentro, no profundo do humano. Mahmud! Presente! Sua alma imortal dançará no dia da vitória!

“selvagens... árabes” sim!
Árabes
e estamos orgulhosos
e sabemos como empunhar a foice
como resistir
inclusive sem armas
e sabemos como construir
a fábrica moderna
a casa
o hospital
a escola
a bomba”

domingo, 10 de agosto de 2008

Festa de Pobres e Desacato


Em 16 de agosto será realizada a primeira festa conjunta da revista Pobres & Nojentas e o Portal Desacato. A promoção busca recursos para viabilizar o evento de comemoração de um ano do Portal, nos dias 5 e 6 de setembro. Em breve vamos divulgar a programação! E faça a sua assinatura de Pobres & Nojentas. Meta a mão no bolso para, mediante o pagamento de R$ 23,00, receber em casa cinco edições. Pobres vive!!! Mas não é fácil...! Mande e-mail para misabreu@yahoo.com.br

sábado, 9 de agosto de 2008

“Se é pra cachaça, não dou!”

Elaine Tavares, jornalista
Eu sou uma observadora das ruas. Gosto de ficar parada, olhando como as pessoas se comportam, e existe uma situação que me incomoda demais. É a postura dos motoristas quando pessoas empobrecidas pedem uns trocados nos sinais de trânsito. É batata. Nove em cada dez não dão moedas para o povo pobre. No mais das vezes fecham a cara e acabam de cerrar os vidros para sequer ouvirem a súplica. Outro dia perguntei a um cara porque ele não dava dinheiro e ele respondeu de forma ríspida: “isso é pra tomar cachaça”. E, claro, como um bom pequeno burguês ele tinha de dar lição de moral. Cachaça para gente empobrecida é coisa nefasta. Uísque no final da tarde não, mas cana? Por que afinal, esse povo não vai trabalhar?
Pois no início de semestre aqui na universidade federal eu vejo cenas semelhantes acontecerem. Garotos e garotas idiotas, que se submetem aos trotes - mais idiotas ainda - ficam nos sinais de trânsito pedindo trocados. Todo ano a cena se repete apesar de o trote ser proibido. Pois é incrível como a postura dos motoristas muda. Nove em cada dez abrem o vidro, sorridentes, e buscam rapidamente as moedas nos bolsos ou no porta-luvas. Entregam o dinheiro, felizes, e ainda fazem piadinhas inocentes. “São os universitários, tão bonitinhos”. Perfeito! Para as garotas de rosto corado e garotos criados a toddy não há problema nenhum em dar dinheiro. São estudantes vivenciando o trote. Mas, para os feios, sujos e malvados, ah..não! Esses vão beber cachaça.
Mas, se os motoristas imbecis não sabem, os trocados que eles tão alegremente dão aos idiotas que se submetem ao trote, vão parar todinhos na caixa registradora do Bar da Nina, onde os veteranos ficam enchendo a cara de cerveja às custas do trabalho de pedintes dos calouros. Ah tá, mas tudo bem. São estudantes. Podem encher os cornos à vontade. Os empobrecidos não. Estes têm de enfrentar a miséria, a humilhação, o nojo, de cara!
Não é sem razão que abomino a classe média, essa raça intermediária que sonha em ser burguesa e vive arrotando caviar apesar de comer cardosinhas. É uma gente que não tem compaixão, não tem consciência de classe, não se acha trabalhador e pensa que estará sempre livre da miséria. Mal sabem que no mundo capitalista para que possam viver à larga, outro tem de morrer. E seguem, com os vidros fechados, torcendo o nariz para a pobreza. Até que ela os encontre...

Carinho, nem só de pão vive o ser

Na foto, mãozinha da Mahara, filha da Janice Miranda, da equipe de P&N, acalmando o Xereta, o chihuahua novo integrante da família. Sentindo falta da mãe e dos irmãos ele chorava muito, aí a Maharinha conseguiu acalmá-lo e fazê-lo comer. A foto é do vovô George Willians.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O que é, afinal, a autonomia?

Por Elaine Tavares - jornalista

A Bolívia está de novo a arder. Há dias de um referendo histórico, a direita e a ultra esquerda se unem em uma série de protestos, o que mostra quão difícil é fazer mudanças radicais na vida das gentes. A grande questão que divide os bolivianos hoje é a da autonomia. Com a decisão da nova Constituição de estabelecer a autonomia para as comunidades indígenas, a elite branca das regiões mais ricas do país decidiu que também quer autonomia. Mas, afinal, o que diferencia uma autonomia (a dos povos originários) da que quer a elite branca? Talvez esse seja o nó que precisa ser compreendido e que quase ninguém explica.

Sem qualquer sombra de dúvida, o pano de fundo de toda essa guerra passa pela questão étnica, mas não só no que diz respeito ao aspecto cultural, folclórico. O problema é, fundamentalmente, político e econômico. Pois então vamos trilhar os caminhos da história para chegarmos até os conflitos de hoje.

Desde a invasão espanhola que os povos originários, vencidos, foram relegados a condição de gente de segunda classe. Por terem uma organização da vida completamente diferente da que foi trazida e imposta pelos invasores, sempre foram tachados de preguiçosos, inúteis, sub-raça, etc... Mesmo entre parte daqueles que se dizem seus defensores este mito subsiste e não é à toa que as idéias que hegemonizam as políticas indigenistas ou são integracionistas ou de isolamento tutelado.

O mexicano Hector Diaz-Polanco, num livro bastante revelador chamado “La cuestión étnico-nacional” dá uma visão clara destas correntes que hoje disputam as mentes e os corações das nações. A primeira delas é a da integração. Nesta, a idéia que vigora é a da completa irrelevância do modo de vida dos povos originários. Sua organização política, econômica e produtiva é considerada primitiva, atrasada, sem chance de vingar no mundo capitalista. Então, a melhor saída é a integração. Os originários adentram ao mundo branco, capitalista, e podem disputar um lugar ao sol na senda do progresso. Nada mais que a mesma lógica colonial na qual o que é diferente precisa ser eliminado. Já a outra corrente busca o isolamento dos povos em mundos idealizados e tutelados. O modo de vida dos povos autóctones é visto como algo a ser preservado e a ênfase fica calcada na questão cultural. Garante-se reservas protegidas pelo Estado e ali, os povos originários podem ser o que são, sem se contaminar pelo mundo capitalista.

Na verdade, tanto uma como a outra desconsidera e reduz o mundo originário. Uma como negação e a outra como idealização. As gentes autóctones, por mais segregadas que estejam em reservas protegidas, estão definitivamente mergulhados no mundo real, multi-étnico e multi-cultural do agora. A América Latina é hoje um espaço mestiço, misturado, de brancos, negros, originários, amarelos e azuis, regidos pelo sistema capitalista. Todas estas etnias reivindicam o direito de serem livres e autônomas, de construírem por si mesmas, neste espaço geográfico comum, em comunhão, a vida mesma. Pois é aí que entra o debate sobre autonomia.

A autonomia dos povos autóctones

Desde os anos 70 que a América Latina vem apresentando um movimento profundo das etnias subjugadas ao longo destes 500 anos. Encontros, congresso, debates e rodas de conversas foram se produzindo nas entranhas do continente envolvendo os povos originários e suas demandas. Eles saiam das sombras e passavam a reivindicar autonomia. O grande divisor de águas, foi, sem dúvida, o levante zapatista no México em 1994, fato que impulsionou toda uma retomada das lutas autóctones. Quando alguns autores vaticinavam o fim de todas as utopias, os chiapanecos, armados, tomavam cidades e lançavam seu grito: “Ya basta!”

Mas, então, o que é essa autonomia reivindicada pelos povos originários? Até onde ela ameaça realmente a idéia de Estado-nação? Até que ponto significa a balcanização do continente? Bom, no que diz respeito à maioria destes povos em luta, em nenhum sentido. A proposta dos zapatistas não é de destruir o México, ou separar-se do estado. É garantir ao seu povo, que conspira de uma outra forma de organizar a vida, o direito de fazê-la. É, na verdade, uma proposta que se contrapõe ao modo de produção capitalista e que busca a construção de outras experiências. É, principalmente, a tentativa de destruição desta forma de vida – o capitalismo - em que para que um viva outro precise morrer. A autonomia reivindicada pelos povos originários é a que lhes garanta o direito de organizar a vida do jeito que acreditam ser melhor, o que não significa retomar de forma acrítica o passado, mas de preservar aquilo que do passado pode ser preservado e avançar ainda mais no processo de construção de um mundo bom de viver, no qual possam estar em harmonia e igualdade de direitos com as demais etnias.

Por que então, esta proposta de autonomia é diferente da que quer a elite branca de Santa Cruz? Por que esta não reivindica separação. Esta quer o direito de autodeterminação que está em todos os documentos internacionais, que é o centro da doutrina Truman, que é o que cada nação reivindica para si. Porque os povos originários são aquilo que Lênin chamaria de “nações oprimidas”, ou seja, não têm direito a vida política e econômica dos seus países, são tutelados. E os ricos de Santa Cruz, desde quando não têm direitos? Desde quando são oprimidos? Pois nunca passaram por isso. Sempre foram os que mandaram na Bolívia e agora não querem saber de dividir o poder num espaço pluri-nacional.

É aí que parte da esquerda também se equivoca, ao unir suas forças contra a idéia do estado pluri-nacional, contra a autonomia dos povos originários. É quando mostra sua faceta racista, incapaz de perceber que as gentes autóctones também estão colocadas na condição de classe oprimida, portanto, parceiras na luta contra o capital. Este deveria ser o trabalho da verdadeira esquerda: juntar forças, estabelecer parcerias, unificar as lutas. Ao atuar na direção da garantia da autodeterminação e autonomia dos povos originários os trabalhadores organizados poderiam aumentar suas fileiras com aqueles que hoje estão fazendo as lutas mais esganiçadas na defesa dos recursos naturais e pela soberania dos povos. Exceto alguns grupos absolutamente minoritários, os povos originários de todo o continente não têm entre suas consignas a idéia de separação. O que querem é o direito de atuar politicamente no país e de garantir sua especificidade no jeito de organizar a vida.

É mais do que óbvio que isso constitui um problema para os governantes e para a maioria da população que está incluída no modo de produção capitalista. Mas este é o desafio a vencer. Estas são as batalhas para serem travadas agora. As de construção de um outro tipo de nação, capaz de garantir verdadeiramente direitos iguais a todos e não apenas a alguns, como tem sido. Conviver com a diferença, respeitar o outro e fundamentalmente fundar um novo modo de viver, esta é a proposta. Um modo de viver construído “desde abajo”, por aqueles que sempre estiveram à margem, excluídos da vida digna. Um modo de viver que não seja a inclusão no sistema que aí está, mas que permita o desalojamento de todas estas verdades cristalizadas de que o capitalismo é o melhor dos mundos. Neste mundo novo, anti-capitalista e anti-sistêmicos os autonomistas de Santa Cruz não querem viver. Por isso querem outra nação, por isso querem se separar. Eles não cabem no mundo novo. Mas a Bolívia é mais do que a elite predadora e vai ter de superar seus desafios.

É certo também que o governo de Evo Morales tem lá seus problemas e muitos são seus erros e equívocos, mas o que não dá para negar é que se está tentando revolver a velha forma de vida. E na comunhão com a maioria oprimida. Esse é um bônus que não dá para descartar. Os trabalhadores explorados, os informais, os mineiros, os brancos pobres, os amarelos, os azuis, todos aqueles que conformam a classe trabalhadora da Bolívia deveriam aceitar esse desafio. E fazer história, construindo um jeito novo de viver.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

P&N fazendo história

Pobres & Nojentas fazendo história!

Isopor açucarado




Míriam Santini de Abreu
Tem um mercadinho perto de casa onde, de um mês para cá, passaram a vender umas guloseimas que eu comia quando criança. O dono ficou meio estupefato quando perguntei se podia tirar fotos. Mas tem até maria-mole! Eu adorava esse isopor açucarado!





Pedra Branca e Pico do Cambirela, dois deuses de pedra a recortar a azulice tépida do céu de inverno em Floripa.

domingo, 3 de agosto de 2008

E ir além...

Música para uma noite de domingo que antecede uma segunda de alguém que, às vezes, deseja, ardentemente, ser outro alguém.

Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua

Míriam Santini de Abreu

Recebi o que seria a cópia de uma fatura que um mestre-de-obras teria apresentado em 1853 pela reparação que fez na Capela do Bom Jesus de Braga, em Portugal. Excertos:

Tirar as nódoas ao filho de Tobias, 95 réis
Uns brincos novos para a filha de Abraão, 245 réis
Avivar as chamas do Inferno, pôr um rabo ao Diabo e fazer vários consertos aos condenados, 245 réis
Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas, 355 réis
Meter uma pedra na funda de David, engrossar a cabeleira ao Saul e alargar as pernas ao Tobias, 95 réis


Meti-me a pensar na riqueza do que seriam, em outro contexto, metáforas, mas que, nesse precioso documento, expressam a concretude do trabalho de um operário. No jornalismo atual as metáforas são malditas. Quando aparecem, soam piegas. Raras provocam deleite. Nada tenho contra as metáforas, mas também me compraz uma escrita mais dura. De todo o modo, estou a teorizar sobre o encanto dessa fatura, que expressa apenas um fazer e consegue colar-se na pele da gente como poucos textos jornalísticos hoje, na sua assepsia de narrativa morta.

E segue mais um encanto fabricado por esse mestre-de-obras:

Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua, 130 réis