sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O dia do Saci Pererê

Por Elaine Tavares – jornalista


Em luta neste dia 30, no Trapiche da Beira-Mar, às 10h, em Florianópolis, contra o estaleiro

Não há nada mais servil do que se deixar dominar culturalmente. Quando a força das armas vem, pode-se até entender. Mas quando o domínio se dá de forma sub-reptícia, via cultura, parece mais letal. O Brasil vive isso de forma visceral. A música estadunidense invade as rádios e a juventude canta sem entender a mensagem. No comércio abundam os nomes de lojas em inglês e até as marcas de roupa ou sapato são na língua anglo-saxônica, “porque vende mais” dizem as atendentes. Nas vitrines, cartazes de “sale”, ou “50% off” embandeiram a escravidão cultural. E tudo acontece automaticamente, como se fosse natural. Não é!

Outra prática que vem invadindo as escolas e até os jardins de infância é a comemoração do Halloween, o dia das bruxas dos estadunidenses. Lá, no país de Obama, esta data, o 31 de outubro, é um lindo dia de festividades com as crianças, no qual elas saem fazendo estripulias, exigindo guloseimas. Tudo muito legal dentro da cultura daquele povo, que incorporou esta milenar festa irlandesa lá pelo início do 1800. Nesta festa misturam-se velhas lendas de almas penadas, de gente que enganou o diabo e outras tantas comemorações pagãs. Além disso, hoje, ela nada mais é do que mais uma boa desculpa para frenéticas compras, bem ao estilo do capitalismo selvagem, predador.

Aqui no Brasil esta festa não tem qualquer razão de ser, exceto por conta das mentes colonizadas, que também associam o Halloween ao consumo. Não temos raízes celtas, nem irlandesas ou inglesas. Nossas raízes são outras, Guarani, Caraíba, Tupinambá, Pataxó... Nossos mitos – e são tantos – guardam relação com a floresta, com a vida livre, com a beleza. O mais conhecido deles é ainda mais bonito, fala de alegria e liberdade. É o Saci Pererê. Uma figurinha buliçosa que tem sua origem nas lendas dos povos originários, como guardião das generosas florestas que garantiam a vida plena das gentes. Com a chegada dos povos das mais variadas regiões da África, o menino guardião foi agregando novos contornos. Ficou negro, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho na cabeça, símbolo da liberdade. Leva na boca um cachimbo (o petyngua), muito usado pelos mais velhos nas comunidades indígenas. Sua missão no mundo é brincar, idéia muito próxima do mito fundador de quase todas as etnias de que o mundo é um grande jardim.

Pois é para reviver a cada ano as lendas e mitos do povo brasileiro que vários movimentos culturais e sociais usam o 31 de outubro para comemorar o Dia do Saci. Com atividades nas ruas, as gentes discutem a necessidade da libertação - coisa própria do Saci - das práticas culturais colonizadas. Ao trazer para o conhecimento público figuras como o Saci, o Caipora, o Boitatá, o Curupira, a Mula Sem Cabeça, todos personagens do imaginário popular, busca-se, na brincadeira que é próprias destes personagens mitológicos, incutir um sentimento nacional, de brasilidade, de reverência pela cultura autóctone. Não como sectária diferença, mas como afirmação das nossas raízes.

Em Florianópolis, quem iniciou esta idéia foi o Sindicato dos Trabalhadores da UFSC, que decidiu instituir o 31 de outubro como o Dia do Saci e seus amigos. Assim, neste dia, durante vários anos, os mitos da nossa gente invadiam as ruas, não para pedir guloseimas, mas para celebrar a vida. Tendo como personagem principal o Saci, o sindicato discutia a necessidade de valorizarmos aquilo que é nosso, que tem raiz encravada nas origens do nosso povo.


Mas não tem problema, porque neste 30, prenunciando seu dia, por toda a cidade, se ouvirão os loucos estalos nos pés de bambu. É porque dali saem, às carreiras, todos os Sacis que estavam dormindo, esperando a hora de brincar com as gentes. Redemoinhos, ventanias, correrias e muito riso. Isso é o Saci, moleque danado, guardião da floresta, protetor da natureza. Ele vem, com seus amigos, encantar o povo, fazer com que percebam que é preciso cuidar da nossa grande casa. Não virá pela mão do Sintufsc, mas pelo coração dos homens, mulheres e crianças que estarão no trapiche da Beira-Mar, às 10h, em Florianópolis, em luta contra o estaleiro que Eike Batista quer construir na nossa região. O Saci é protetor da natureza e vai se unir a barqueata que singrará os mares no encontro das gentes em rebelião. Ah Saci, eu vou te esperar... Que venhas com o vento sul...

Olho de repórter fotográfico



O colega jornalista Leonardo Tolomini Miranda teve seu trabalho reconhecido no concurso fotográfico do Sindaspi. Leia em:

http://www.sindaspisc.org.br/sindaspisc/index.php?option=com_content&view=article&id=254:trofeu-de-fotografia-as-12-fotos-selecionadas&catid=93:trofeu&Itemid=50

Compre também uma empresa pública

Por Raquel Moysés – jornalista

“Quer comprar um banco, uma ferrovia, uma rodovia, um porto? O governo vende baratíssimo. Ou pode doar.” O anúncio não saiu em jornal ou revista da chamada grande imprensa nem em redes de televisão do Brasil. Mas poderia ter saído, e quem quiser conferir a barbada que o governo FHC ofereceu para entregar as empresas nacionais a preço de “banana podre” (opa, “moeda podre”), a grandes empresas nacionais e multinacionais, no seu programa de privatizações, não pode deixar de ler o necessário livro O Brasil privatizado - Um balanço do desmonte do Estado, escrito pelo jornalista econômico Aloysio Biondi, que o país perdeu no ano de 2000. Foram quarenta e quatro anos de jornalismo, mais de dois mil textos publicados, num imenso esforço de traduzir a realidade brasileira. A leitura deste livro surpreendente, legado de ética e coerência, é absolutamente necessária para alimentar a memória de fatos históricos que o Brasil não pode jamais esquecer. Deveria ser indicação bibliográfica obrigatória nas escolas, para que a juventude não perca a conta do passado.

Com ilustrações e quadros aterradoramente reveladores, o livro não deixa qualquer dúvida sobre como as privatizações da era FHC foram verdadeiro “negócio da China” para os “compradores”, mas péssimos para o Brasil. “O Brasil privatizado - Um balanço do desmonte do Estado” conta, com riqueza de detalhes, como o patrimônio público dos brasileiros foi entregue aos tubarões do mundo privado, deixando o país muito mais pobre. O livro, campeão de tiragem, com mais de 130 mil cópias, está disponível para download, dividido em capítulos em (http://www.aloysiobiondi.com.br/spip.php?article4).

Durante a década de 1990, Biondi foi uma das poucas vozes a se levantar contra foi a abertura econômica sem freios e a condução das privatizações. Na obra, o jornalista calculou quanto o governo gastou e quanto obteve com a venda das estatais. A conta cuidadosa mostra que o discurso da equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso escondia o fato de que R$ 87,6 bilhões não entraram ou saíram dos cofres públicos nesse processo. Isso precisava ser descontado do saldo. “O balanço geral mostra que o Brasil ‘torrou’ suas estatais, e não houve redução alguma na dívida interna, até o final do ano passado (1998)”.

Biondi mostra como o governo, antes de entregar as empresas públicas (48 no total, entre federais e estaduais), investiu maciçamente nelas, engordando verdadeiras galinhas dos ovos de ouro para especuladores. Antes de vender as empresas telefônicas, o governo injetou 21 bilhões de reais no setor, em dois anos e meio, vendendo tudo por uma “entrada” de 8,8 bilhões de reais, financiando metade da “entrada” para grupos nacionais. Na venda do Banerj, o “comprador” pagou apenas 330 milhões de reais, mas o governo do Rio tinha feito antes um empréstimo de 3,3 bilhões de reais para pagar direitos dos trabalhadores.

Assim ocorreu a privatização brasileira, denuncia o livro: o governo financia a compra no leilão, vende “moedas podres” a longo prazo e ainda financia os investimentos que os “compradores” precisam fazer. Não fica nisso, para engordar os lucros dos futuros “compradores” ainda engole dívidas bilionárias, demite funcionários, investe maciçamente e até aumenta tarifas e preços antes da privatização. Além disso, houve uma intensa campanha contra as estatais nos meios de comunicação, “verdadeira lavagem cerebral da população para facilitar as privatizações.” Entre os principais argumentos, aparecia sempre o falacioso exemplo de que elas trariam preços mais baixos para o consumidor.

Para garantir imensos lucros aos “compradores” e evitar que enfrentassem protestos do consumidor, as contas telefônicas sofreram reajustes de até 500% a partir de novembro de 95 e de 150% ou mais para as fornecedoras de energia elétrica. Os “compradores” também recebem a garantia do direito a aumentar as tarifas todos os anos, no mínimo, de acordo com a inflação. “O governo fez exatamente o contrário do que jornais, revistas e TVs diziam ao povo brasileiro, que acreditou em suas mentiras o tempo todo”. O governo e a mídia também esconderam que as metas estabelecidas para os compradores das telefônicas só valeriam a partir de dezembro de 99. Na prática, os compradores poderiam deixar de atender os consumidores ou não melhorar os serviços durante todo o segundo semestre de 1998 e o ano todo de 1999.

Também, antes de privatizar o governo enxugou as estatais para os “compradores”,fazendo demissões maciças de trabalhadores e gastando bilhões com indenizações e direitos trabalhistas. O governo de São Paulo, por exemplo, demitiu 10.062 funcionários da Fepasa, de 95 a 98 e ficou responsável pelo pagamento de 50 mil aposentados da ferrovia.

Biondi diz que as estatais foram usadas como arma contra a inflação, mas nunca se explicou suficientemente à população que essa decisão arruinava as estatais, dando motivo a falsas acusações de “incompetência” e “saco sem fundo”. Depois, quando veio a onda de privatizações, o governo fez o contrário aumentando preços (300%, no caso do aço) e tarifas (até 500%). O mais espantoso, comenta o autor, é que “engoliu”, passou para o Tesouro, dívidas somadas em muitos bilhões, que eram de estatais e que deveriam ser pagos pegos “compradores”. No caso da Cosipa o governo se responsabilizou por dívidas de 1,5 bilhão de reais e só recebeu pela venda 300 milhões. Engoliu também dívidas de um bilhão da Companhia Siderúrgica Nacional. Assim, fica fácil entender como os compradores puderam alardear grandes lucros rapidamente. Quem não quer empresas “limpinhas”, prontas para lucros, com tarifas e preços aumentados, folha reduzida, livres de dívidas? “É essa política que o governo chama de “saneamento das estatais”, preparatório para a privatização. Quem não quer?”

São poucas páginas de texto ágil para tantas denúncias. A revelação dos engodos e mentiras faz a mente pular para fora delas e ir abrindo outro livro, que tem a dimensão das terras exterminadas desses Brasis vítimas da dilapidação e do malogro. A mente vai folheando e vendo imagens de meninos curvados pelo trabalho escravo, espancados ou morrendo de frio, de mulheres e homens desesperados, de doentes sofrendo na longa espera pelo atendimento humano, de trabalhadores sem- terra, sem-teto, sem-esperança de vida digna... E daí, em segundos os olhos não vêem mais nada, gotejam... Não há como estancar a dor provocada pela visão da miséria, da fome, do desespero, do desamparo, das feridas desses cinco séculos de veias abertas que empapam a terra. Abra o livro de Biondi!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

"Barqueada" é no sábado


Câmara da Capital discute Estaleiro OSX dia 24 de novembro

Data da audiência pública depende de homologação da comissão de Meio Ambiente que se reúne na próxima quarta-feira

Por Celso Martins

A audiência pública da Câmara de Vereadores que discutirá a implantação do Estaleiro OSX em Biguaçu/Baía Norte de Florianópolis deve ser realizada no dia 24 de novembro próximo. A possibilidade foi levantada pelo vereador João Aurélio Valente Júnior no dia 27, durante reunião com representantes do Movimento em Defesa das Baías de Florianópolis e da Federação Catarinense das Entidades Ecologistas. Os detalhes da audiência vão ser definidos na próxima quarta-feira (3.11), às 14 horas, durante reunião da comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal.

O pedido de audiência foi encaminhado pelo vereador Ricardo Camargo Vieira (PC do B) na última segunda-feira (25.10) e aprovado por unanimidade - os 16 vereadores estavam presentes. Na terça-feira (26.10) à noite deveria ter sido realizada uma reunião da comissão de Meio Ambiente do Legislativo, quando a audiência ganharia contornos, mas ela acabou cancelada, o que gerou tensões entre o Movimento em Defesa das Baías e o vereador João Aurélio.

"O requerimento aprovado por unamidade não chegou às mãos da comissão a tempo e como não havia mais nada na pauta, a reunião foi cancelada", justifica o vereador. Os representantes do Movimento tentaram conversar com Valente Júnior, mas não obtiveram êxito. Segundo um dos presentes, João Aurélio usou as seguintes expressões: "não existia assunto na pauta que justificasse audiência"; "não tem nada de importante para se tratar, para convocar os integrante da comissão"; "Não podia fazer audiência por falta de quórum". O vereador explica que passou o dia indisposto, com dores de estômago, cabeça e sentindo o fígado, dificultando o diálogo.

A conversa com o Movimento acabou acontecendo nesta quarta-feira no gabinete do vereador, bastante amistosa, embora João Aurélio tenha reclamado das pressões através de telefonemas, e-mails e postagens na Internet.

Posso chorar como “cabecita negra”?

Por Raul Fitipaldi

Morreu Kirchner. O Povo avança sobre Praça de Maio, as mulheres velhas carregam bandeiras argentinas, os jovens choram, o povo saúda à Cristina, esse povo meu que amo com paixão está na rua sem restrições. Os vejo nesta tela por onde lhe escrevo y choro marés, não pelo presidente, nem pela Cristina, choro porque lá está minha gente chorando e eu sinto necessidade de abraçá-la e chorar com ela.

Nesse Universo de Mitos que é Argentina, brilha um novo mito, o Cidadão K está no céu com Evita, com El Che, com El Negro Olmedo, com Gardel, com Monzón, com o deus dos argentinos que é laico como la puta madre e crente como Juan XXIII.

E me dá na mesma se o cara era populista, se era sério ou um vendedor de garrafas vazias, ele era o Presidente que chegou depois que o Povo Pobre, que o Cabecita Negra deu um chute na bunda da política que vinha da ditadura. Esse Povo que se meteu no Congresso e depois invadiu a Praça das Mâes da Resistência e de Maio também, e deu o sangue, deu a vida por liberar a Pátria do menemismo, como o deram Dario Santillán, Harodo Conti, Roberto Walsh, vidas que eram a vida de todos e todas. El Néstor era o Presidente do Povo que andou quilômetros e segue andando, que entrou por Rivadavia e não parou até limpar a Praça onde a Nação se sonha.

- E... que me cutuca que pense como socialista, hein, se estou sentindo como pobre, como analfabeto, como trabalhador, como desempregado, como mina com 10 filhos sem marido, como prostituta sem clientes para encher a panela em casa, como estudante sem grana para comprar um mísero livro, como peronista também, se quiser, e não sou, nunca fui, não serei, mas se é passaporte para andar na rua com minha gente, po’deixar que assino a ficha!

- Que me rumina que elabore como burguês esquerdoso, como classe média pensante, não posso, sou grilo de favela, cresci com o vapor da chuva molhando o colchão, sem porta nem janela, nasci como esse cara que vejo agora, chorando esfarrapado e gritando Viva Néstor, Viva Cristina, Viva Evita!

- Entende meu! Lhe escrevo para que saiba que aqui tem um Cabecita Negra e que nem morando neste paraíso Desterro, onde vou me reparir cinza, me tiram a natureza de pobre, ferrado, fedido. Sou eu meu amigo quem vai pela Avenida de Maio com a bandeira na mão, de porre pela dor, com a esperança na ponta da língua porque Evita, El Che, Olmedo, Gardel e todos os outros, el Néstor incluído, são imortais, pela simples razão de que quando um Povo quer pode tudo, e os argentinos (os emprestados também) queremos que nossos mortos, que são santos, anjos e guerrilheiros assim sejam. Amém.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Democracia e Jornalismo na era digital

Por Elaine Tavares – jornalista

O tema pomposo me seduziu e lá fui eu assistir a conferência promovida pela pós-graduação em Jornalismo na UFSC. Já na entrada um enorme banner do Diário Catarinense, jornal principal da empresa monopólica da comunicação em Santa Catarina, não me surpreendeu. Faz muito tempo que o curso da UFSC está rendido à razão empresarial, afinal, existe até uma Cátedra RBS. É de se lamentar, mas, enfim, vamos em frente.

A conferência do professor Silvio Waisbord, um argentino com sotaque gringo, era uma promoção da Associação Nacional de Jornais, entidade patronal que, conforme explicou o jornalista responsável pelo jornal da entidade, Carlo Müller, estava realizando um recorrido por várias capitais do país, levando estas informações às escolas porque: “nós entendemos que as escolas são os melhores espaços para a formação de jornalistas e para a reflexão do jornalismo”. A declaração do assessor da ANJ me surpreendeu pelo cinismo, afinal, a ANJ saudou a queda da obrigatoriedade do diploma assegurando, nas palavras de seu diretor Paulo Tonet Camargo, que a exigência feria o direito de livre expressão. Talvez porque falasse a estudantes, Müller preferiu a segunda parte da declaração. A ANJ diz que não é contra o diploma, mas garante que fere a liberdade de expressão. Logo... Confuso, não? Absolutamente não! Muito claro...

A conferência de Silvio Waisbord limitou-se a apresentar aquilo que ele considera como as três transições, nos Estados Unidos, que afetam o jornalismo mundial. Segundo ele, há mudanças na área comercial, na prática jornalística e na comunicação política. “O jornalismo está no centro de uma rede de negócios e a informação é um produto, mas isso não é qualquer negócio, precisa manter a democracia”. E, segundo ele, é nesse paradoxo que o jornalismo vem se equilibrando: ser produto para os empresários ganharem dinheiro, mas ao mesmo tempo ser o responsável pela manutenção da democracia. Em nenhum momento da fala ele explicitou de que democracia estava falando, embora se possa perceber que seja a dos Estados Unidos, a qual muitos consideram o carro chefe do “mundo livre”, mesmo que lá os cidadãos não tenham mais qualquer direito individual depois da doutrina Busch.

Silvio falou aos estudantes, futuros trabalhadores do jornalismo, sobre os grandes problemas vividos pelo empresariado da comunicação. Com as novas tecnologias muita coisa está mudando e as empresas já se ressentem da falta de financiamento para seus negócios. “Há uma crise na propaganda porque os anunciantes estão diversificando os veículos. Não há mais a concentração nos grandes jornais. Há novos espaços para divulgar e as empresas estão com grandes dívidas contraídas. Há ainda uma grande queda na venda dos impressos, o que tem levado as empresas a medidas de contenção”. Conforme o estudo de Sílvio, estas medidas acabam sendo as de cortar edições impressas, cortar pessoal e fazer um jornalismo mais econômico.

Como a conferência foi preparada para as empresas, é óbvio que o professor em nenhum momento problematizou o que deveria ser o mais importante para os futuros profissionais que o assistiam. As medidas das empresas são sempre desfavoráveis para os trabalhadores. E o que seria mesmo fazer um jornalismo mais econômico? Como ele mesmo repetiu várias vezes durante a palestra, fazer jornalismo é coisa cara. Jornalismo de análise, com profundidade e com investigação é caro, mas as empresas não podem gastar, então fazer o quê?

A solução que as empresas têm para o futuro do jornalismo é a tendência do nicho. Fazer publicações cada vez mais dirigidas, para um público específico. É a última fronteira da especialização. Dizer apenas o que as pessoas querem ouvir. É o fim da diversidade, da universalidade. O fim da democracia, portanto. Esta é única forma de as empresas sobreviverem. A tendência é a criação de plataformas comunicacionais com múltiplas funções. Pouca gente trabalhando, muito trabalho para cada um, produção para vários meios ao mesmo tempo. Lucro para os patrões, escravidão para os trabalhadores, mas essa parte aí não foi tocada.

Conforme Waisbord as empresas estadunidenses “estão lutando” contra a crise. E neste processo já se fala em formas de financiamento. Os empresários, com perdas de lucro, pensam em várias alternativas para “sobreviver”. Há várias alternativas tais como buscar fundos filantrópicos (?), criar esquemas de membros fixos, trabalhar na lógica do “micropayments” que seria a pessoa pagando pela matéria que consumir, e até mesmo subvenções estatais. Esta última o professor disse que talvez pudesse ser mais difícil porque significaria uma espécie de estatização. Mas, se for para ampliar os lucros, quem duvida? Nesse caso, elementos do “comunismo” poderiam ser bem-vindos. Já pensaram se essa solução viesse da Venezuela ou do Irã?

As novas tecnologias também apontam para mudanças nas práticas jornalísticas. Como hoje qualquer pessoa é um produtor de conteúdo na internet, o monopólio da produção já não pertence mais ao jornalista. “As habilidades jornalísticas estão democratizadas no jornalismo cidadão”. Mais um equívoco do professor argentino/estadunidense. O que ele chama de jornalismo cidadão é a produção de informações por parte das pessoas e dos movimentos sociais que, para nós, está mais na linha da soberania comunicacional. E isso não tira do jornalismo a capacidade de ser jornalismo, porque as pessoas que escrevem nos blogs ou em páginas pessoais não estão vendendo sua força de trabalho. Não estão, portanto, sob o domínio da empresa. Há uma tremenda incompreensão, ou má fé, nesta reflexão. A soberania comunicacional não inviabiliza o jornalismo como profissão. Assim como o jornalismo não inviabiliza a liberdade de expressão. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Para Waisbord as empresas de comunicação ainda não atentaram para as múltiplas possibilidades das novas tecnologias. “Hoje valem as velhas regras da autoridade do jornalista, há uma distância entre profissional e cidadão. Os jornalistas não têm iniciativa para realizar novas experiências. O jornalismo em profundidade é caro, não é viável. Os jornalistas precisam inventar”. Ou seja, conforme o assessor da ANJ, os jornalistas, além de estarem proporcionando mais mais-valia, aumento de horas de trabalho excedente, por conta das novas tecnologias, ainda precisam ser criativos, inventivos, apontando aos patrões novas formas de eles (patrões) ganharem mais dinheiro. Muito engenhoso isso, e o mais triste foi ver boa parte dos estudantes e professores balançando a cabeça em sinal afirmativo.

Finalizando, Waisbord disse que o futuro do jornalismo é de mais competitividade, não há modelos fechados embora a tendência seja a de fragmentação por grupos fechados, informação feita de iguais para iguais, nada dissonante. Ele concorda que isso pode não facilitar o diálogo, não ser bom para a democracia, mas assegura que é a tendência. Também acredita que o jornalismo deve oferecer mais análise, mais profundidade. E como isso é caro, não conseguiu apontar como fazer isso. Talvez queira dizer que isso fique por conta dos jornalistas “criativos”.

Carlos Müller, da ANJ, acrescentou que há diferenças bem grandes entre os Estados Unidos e o Brasil. “Lá eles tem a primeira emenda, que garante liberdade de imprensa. Aqui já tivemos oito Constituições no mesmo período e seguimos lutando. Lá nos EUA as empresas familiares se abriram para o mercado, aqui ainda não. A vantagem que temos em relação aos EUA é que lá as cadeias de jornais são cada vez mais parecidas e aqui não, temos imprensa regional”. Ora, o assessor da ANJ não deve conhecer seu próprio país. O que ele chama de “imprensa regional” são monopólios regionais, praticamente clones do grande monopólio nacional, reproduzindo a mesma lógica e a mesma proposta de superexploração dos trabalhadores, e aumento dos lucros, tal e qual faz o patrocinador do evento, a RBS.

Enfim, a conversa do jornalista Sílvio Waisbord, trazendo para os estudantes os grandes problemas do empresariado do jornalismo estadunidense só reforça aquilo que já temos muito claro. O jornalismo ensinado na maioria das universidades segue cativo de mentes colonizadas, incapazes de pensar o jornalismo desde os problemas reais daqueles que serão os futuros trabalhadores. A pedagogia do “empreendedorismo” cria no aluno a certeza de que eles são parte desta “família” que são as empresas, que eles precisam ficar solidários com os problemas de rentabilidade dos patrões, que devem encontrar saídas para melhorar os lucros, que precisam ser flexíveis, maleáveis, multifuncionais, capazes de filmar, escrever, postar no blog, fotografar, dirigir, editar, diagramar, e tudo isso nas cinco horas de sua jornadas. Patrocinadas pelas RBS da vida e pela Associação Nacional de Jornais, as atividades acadêmicas oferecem aos estudantes de jornalismo a doce possibilidade do cabresto, da roda de mó do moinho do capital, a escravidão.

Já o pensamento herege, anti-sistêmico, anticapitalista e descolonizado, é rechaçado e ridicularizado. Ou seja, não se dá aos estudantes o direito de sequer conhecer que a moeda do jornalismo tem outros lados que não só o do patrão. Que o diga a comunicação ostensiva subliminar do evento do jornalismo da UFSC, concretizada nos dois imensos banners do Diário Catarinense, a casa grande do jornalismo local.

NANA NENÊ, OU A CENSURA VEM PEGAR...

Li Travassos*

Sem jamais desconsiderar todo o horror da censura na época da ditadura brasileira, devo dizer de minha falta de paciência absoluta com o uso do fantasma da censura para garantir o direito dos donos-da-mídia neste país, de continuar manipulando informações, de maneira nada sutil, na direção que lhes interessa. O fantasma da censura já foi usado para questionar a proibição da participação de crianças pequenas em novelas com cenas violentas e assustadoras, como se em nosso país o trabalho infantil não fosse proibido, e como se esta proibição não fosse burlada, diariamente, às vistas de todos, através do trabalho de crianças na mídia.

O fantasma da censura já foi usado, da forma mais descarada possível, para defender o direito à “liberdade de empresa”, quando da tentativa de criação de um Conselho Federal de Jornalismo (e seus respectivos conselhos regionais). A justificativa? Queriam criar um Conselho para “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício da profissão de jornalista. Vejam que horror! Igualzinho aos conselhos de enfermagem, assistência social, nutrição, psicologia, medicina, engenharia e arquitetura, fisioterapia, direito (OAB) e todos os outros conselhos profissionais que regulamentam a maioria das profissões que exigem curso superior, e que consideram que devem, à sociedade a qual estes profissionais servem, uma garantia de que sua postura será o mais ética e correta possível! E como fica a liberdade da empresa de mandar o jornalista ferir a ética a torto e direito, se existir um conselhinho metido a besta, disposto a dizer o que o jornalista pode ou não pode fazer???

Por este motivo, e por nenhum outro, a profissão de jornalista no Brasil continua praticamente não reconhecida como tal. Afinal, não é preciso um diploma de curso superior para exercer o jornalismo. Logo, não há sentido algum em se criar um Conselho Profissional para esta profissão que não existe. Jornalismo no Brasil, faz quem quer e, neste caso, engole quem não tem juízo.

Agora, o fantasma da censura está sendo usado contra uma deliberação da Conferência Nacional de Comunicação, que aconteceu em 2009. Refere-se à criação de Conselhos de Comunicação (que podem ser municipais, regionais, estaduais...), com participação da sociedade civil, para exercer um controle social sobre as empresas que detêm a mídia neste país. E, em mais uma flagrante manipulação da informação, a notícia vem sendo veiculada como a tentativa de criação de Conselhos de Comunicação, para fiscalizar os jornalistas, impondo a censura à profissão, que foi deliberada na Conferência Nacional de Comunicação, “promovida pelo Governo Federal”. Falta dizer que Conferências devem ser sempre promovidas pelo Governo, pois é o que garante sua legitimidade.

Falta dizer também, que as conferências são uma forma de ouvir toda a população a respeito de suas aspirações sobre o assunto em questão. Mas claro que não iam perder a chance de fazer mais uma crítica ao governo atual, nesta reta final de propaganda eleitoral. A cada dia, a mídia de direita divulga um grave problema nacional, aumentando, gratuita e infinitamente, o tempo de propaganda do candidato José Serra. Assim mesmo, ele não para de cair... “Tenha fé em nosso povo que ele acorda...” (da música Credo, de Milton e Brant).

Há um ótimo texto da FENAJ sobre a questão da criação dos Conselhos, no site do Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação (http://www.fndc.org.br/internas.php?p=noticias&cont_key=608521). Entidades podem assinar este texto do FNDC, como forma de manifestar seu apoio à criação dos conselhos. Acredito ser fundamental a assinatura das entidades que participaram da Conferência, já que esta criação foi uma deliberação da mesma, representando portanto, a vontade soberana do povo brasileiro...

*Li Travassos foi coordenadora do COMITÊ ESTADUAL PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO DE SC, desde sua recriação, em 2003, até 2007, representando o Conselho Regional de Psicologia de SC.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

P&N acompanhou a posse da nova Direção do Sintracarnes



Míriam Santini de Abreu

A P&N acompanhou a posse da nova Direção do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Carnes e Derivados de Chapecó – Sitracarnes - realizada no domingo, dia 24.
A chapa que perdeu o pleito, e que há 22 anos estava à frente do Sindicato, tentou até último momento impedir o processo por via judicial.
Apenas às 9 horas do domingo a chapa vitoriosa soube, com a chegada de oficiais de justiça acompanhados da Polícia Federal, que havia obtido a decisão liminar de antecipação de tutela que garantia a posse. O pleito teve, desde o início, o acompanhamento de perto do Ministério Público do Trabalho. Saiba mais na próxima edição da P&N, que foi a Chapecó de "carona" com sindicalistas do Sindicato dos Bancários de Florianópolis e Região e SindSaúde, aos quais agradecemos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Curtindo Zeca Pires

Elaine Tavares

Peguei uma gripe doida, destas que derruba mesmo, ou caixão ou longa recuperação. Por sorte, fiquei com a segunda opção. Assim, por conta dela me obriguei a descansar, ficar em casa, remexer gavetas e achar coisas que estavam perdidas, sem atenção. Uma delas foi um DVD, emprestado pela Jussara, com os filmes do Zeca Pires, um cineasta catarinense. Então, tarde dessas, depois de alguns quilos de remédio, deitei e fui ver os curtas, já que haveria muito tempo para fruir.

O primeiro deles já foi uma porrada de emoção. “Manhã”, finalizado em 1989, mostrava Ademir Rosa, bem novinho, com aquela cara de guri lindo e levado, e a saudade bateu forte demais. Ela sempre me vem nesses tempos de eleição, pois o Ademir era bicho político. O filme é uma singeleza. Considerado um marco no cinema catarina, universaliza o interior deste estado numa história simples, capaz de tocar qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Belo, forte, único. Drummond, Tabajara Ruas, Zeca. Um trio que arromba qualquer tarrafinha...

Depois fui passando os documentários sobre a festa do divino, desde os Açores e o da farra do boi. Gosto dessa coisa de imortalizar a cultura das gentes e, neste caso, duas tradições fortes e viscerais. Em seguida uma ficção, o pungente “A Ilha”, drama universal de amor, perdão e buscas. Bonito demais. Eu estava feito uma gata de muro, ronronando de prazer.

Mas o que me fez chorar por horas foi o “Perto do Mar” que, por sorte deixei para o final. E não foi pela história, apesar de ela ser sobre uma morte e tratar da dor de uma perda. Não. Foi pelo fato de ser tão ilhéu. Cada cena, cada pequeno fotograma é a representação exata desta ilha inteira. Seja no cenário composto, no natural e até nos detalhes como a roupa do jovem pescador vestida do avesso. O ator Diogo Dutra é uma belezura. A gente vai ouvindo ele falar e vai se enternecendo com tanta pureza, tanta ternura. Um cinema que fala nossa língua, com o jeito ligeirinho do falar deste lugar.

Eu vi uma vez, duas, três, quatro, e em cada mirada descobria mais coisas desse meu lugar. A santeria, o feijão, as redes, o mar, as gaivotas, os bares da Armação ou do Pantanodosuli, os barcos, a casa de pescador, as carpideiras, os bêbados, o arrasto do peixe, os costões, tudo com aquele sotaque adorável, que só se ouve aqui, em mais nenhum lugar. Ah, essa doida sensação de estar em casa. E ainda tem, de lambuja, o veterano Waldir Brazil, divino como sempre. “Perto do Mar” é um poema, uma coisa linda. É cinema daqui, tão original. Então me veio essa vontade de dividir, e de querer que cada um possa ver e se sentir como eu.

É fato, não nasci aqui, mas esse lugar me acolheu e o reconheço como meu. Todos os dias, no meu Campeche, eu acordo com esse cheiro de mar, e caminho pela beira da praia ouvindo essa fala ilhoa, e meu coração se abranda e se sente em casa. Perto do Mar me pegou por isso, porque diz desse espaço geográfico, e com tal delicadeza, que tudo o que se pode fazer enquanto o barquinho vai adentrando mar afora é chorar e chorar... Não de dor, nem de tristeza, mas por ser ternamente golpeada com essa abissal beleza, natural e humana, que só essa ilha tem. Perto do Mar é um presente...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Minha profissão, minha roupa

Míriam Santini de Abreu

Tenho há anos um par de botas de couro, pretas, com cadarço, cujo salto já troquei três vezes. Eles gastam, mas só. O couro é bom. Por isso as mantenho no armário, e as chamo de “botinhas de repórter”. Para mim, elas representam a profissäo que escolhi. Eu visto as botas nos dias em que saio de casa para fazer algo especial, fora da rotina de trabalho. Pensei nas botinhas quando, há uns dias, assisti um programa Justiça em Movimento, do TRT catarinense. Um dos temas tratava dos profissionais do sexo, que estão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) com o número 5198-05.

No programa, a representante da Associação desses profissionais no Vale do Itajaí fala sobre a discriminação que eles enfrentam, entre outras, por causa de seu modo de vestir. É um modo próprio, relacionado com a atividade que exercem. Mas se entram em um mercado, por exemplo, para comprar algo num intervalo de trabalho, são vistos “com outros olhos”, diz a entrevistada, como se fossem portadores de uma doença. E isso porque o modo de se vestir, afeito à atividade que exercem, leva a todo um discurso social, repleto de tabus, sobre a sexualidade.

A forma de vestir “fala” da gente. Basta pensar em um operário da construção civil, uma empresária no saguão do aeroporto, uma médica, um mergulhador de plataforma de petróleo. A imagem será “vestida” com uma determinada roupa. E vestir essa roupa é entrar na atmosfera daquele trabalho. Assim é que me sinto quanto calço as minhas “botas de repórter” e caminho pelas ruas com uma máquina fotográfica, bloco e caneta na bolsa. Fico e me sinto jornalista. Os profissionais do sexo, por sua vez, são hostilizados tanto pelo fazem quanto pelo que vestem. O CBO “legaliza” a profissão, mas a reação social ao modo de vestir de quem a exerce revela as fingidas virtudes de uma sociedade que prefere manter invisível o que não aceita nem compreende.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Rede Popular Catarinense de Comunicação no ar!



Mais uma filha nasce! Já tem blog, twitter e endereço eletrônico a Rede Popular Catarinense de Comunicação (RPCC), que reúne veículos de comunicação catarinenses que atuam com base nos princípios e nas práticas da Soberania Comunicacional. A Rede é o resultado de dois Seminários de Comunicação e Cultura Popular organizados pela Agência Contestado de Notícias Populares (Agecon), uma das integrantes da RPCC. A Rede compartilha textos jornalísticos de todos os gêneros (reportagens, notícias, artigos), áudios, imagens, fotografias, dentro da lógica da soberania comunicacional, que pressupõe o controle dos meios e o controle da produção de conteúdos, buscando a quebra do controle da comunicação exercido pelos grandes meios de comunicação do Estado.

O logotipo e a logomarca foram desenhados pelo jornalista e ilustrador Eduardo Schmitz, que faz também ilustrações para a revista Pobres & Nojentas. Eduardo é diretor de um jornal em Taió, o Observatório Local, que também está na internet. Os acessos à Rede estão abaixo.

BLOG:

http://www.redepopularcatarinensedecomunicacao.blogspot.com

E-MAIL:

redepopularsc@gmail.com

WITTER:

http://twitter.com/redepopularcc

Leia também o texto do jornalista Raul Fitipaldi:

Urge somar as verdades e dizê-lo a todos

Raul Fitipaldi para a Rede Popular Catarinense de Comunicação

Transcorre um ano de intensa luta para os moradores de Santa Catarina. Trava-se no percurso de 2010 um ano com futuro incerto para o Estado. Os investidores próprios e forâneos decidiram apostar pesado nas entranhas do solo catarinense, até exauri-lo de riqueza e beleza. Tudo é pouco para os abutres do lucro inimigos da vida, agentes da morte. Ceifar fauna e vegetação é também ceifar vidas humanas. Isso é determinante para esta gesta de exterminadores que precisamos derrotar. Trata-se de destruir o solo onde se produz comida em troca de cimento para prédios luxuosos privativos e obras faraônicas impopulares, reduzindo a plantação de alimentos de sobrevivência sadios , por métodos sintéticos e desempregantes no tratamento da lavoura. Trata-se de esvaziar de fauna as baias do Estado para construir embarcações petroleiras e de carga pesada esgotando os recursos alimentar e laboral tradicionais dos maricultores. Trata-se de construir esgotos gigantes transportadores da merda e o xixi dos ricos até os bairros onde residem os trabalhadores: coisa de “ladrão” e não de “mensageiro”. Consegue-se inviabilizar e enfermar a relação física com os seres queridos, dificultando a visita familiar, social e o emprego e o estudo, através de um sistema de transporte coletivo emperrado em baldear gente como água suja e proibir o lazer no fim de semana. Trata-se de deturpar a identidade da Capital do Estado com a descaracterização e destruição dos seus lugares históricos de encontro e sociabilidade. Remete-se a relação poder/povo ao feudalismo ordinário superado pela luz do conhecimento básico. Atenta-se contra o povo instruindo às forças militares a combater os movimentos sociais, exercício próprio da ditadura e da enfermidade desta oligarquia obtusa e doentia. Apostar no modelo norteamericano de consumo e de determinismo social é um sinal de asco que têm esses ricaços pelo pobre, pelo trabalhador e pelo progresso verdadeiro, sustentável e justo. A direção política e econômica do Estado e da Capital está deitada no atraso ideológico e na ignorância alienante.

Neste contexto de exclusão presente e futura, de controle social robótico, de imobilidade urbana e tensão rural; neste frenesi dos últimos gritinhos histéricos do neoliberalismo fracassado e inumano há vozes discordantes que crescem a cada dia. Por vontade teimosa das gentes há narradores de outras verdades, das verdades dos majoritários, dos destituídos da graça do garrote e da máquina público-privada. Existe outra forma comunicacional que precisa se estender com a colaboração de leitores, de militantes sociais, de operários da palavra. Essa forma vanguardou e vanguarda nas lutas do Sul da Ilha contra o trem da merda alheia, contra a demonização da história da esquerda representada no Bar do Seu Chico. Essa outra comunicação desde Sambaqui foi somando trincheira contra o brinquedinho assassino de Eike Batista e associados, conhecido como OSX. É com essa comunicação que se enfrenta a agressão dirigida aos agricultores de Imbituba e aos usuários penitentes da procissão fúnebre da COTISA. Essa comunicação precisa chegar a mais e mais pessoas, não por vaidade ou para privilégio dos veículos alternativos desta região, mas, para que outros moradores de SC saibam que há outra realidade e outro direito que lhes assiste além das redes monopólicas com sede em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Que este Estado tem outras vozes que não buscam nem têm lucro, que já não gritam no deserto, que já não abordam o problema comunitário e social como um acontecimento meramente anedótico e sim como central para a definição da vida e sobrevivência dos pobres da sociedade catarinense.

Precisam esses veículos alternativos que você entre em rede com eles. Que você cada vez mais se assuma como sujeito através deles, o os use como ferramenta de defesa e como flecha de ataque contra esses mercadores da vida que assolam esta terra rica e bonita. Busque mais e mais gente que esteja disposta a somar verdades com urgência. Não é suficiente com que leia esta Revista, com que acesse aquele Portal ou escute aquela Rádio, é preciso que os divulgue, que os partilhe, que milite pela Soberania Comunicacional nesta parte do universo. Assuma o direito de clicar no seu futuro, de garantir que sua história seja lida em tempos vindouros, que seja ouvido seu sorriso quando isto tudo lhe pertença em partes semelhantes a todos os demais. Escutar a verdade é um ato tão soberano como comer, ser dono do seu solo e defendê-lo quando se torna necessário. A hora de somar e exercer a sua defesa chegou.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os mineiros e a mineração chilena

Por Elaine Tavares - jornalista

Como todo mundo, acompanhei, emocionada, o resgate dos mineiros da mina São José. Depois de quase 70 dias enterrados, vivendo nas entranhas da Pachamama, eles voltaram à vida, numa operação de resgate inédita, a qual não faltaram a coragem, a ousadia, a solidariedade, a cooperação. As cenas que se sucediam, a cada homem que vinha à luz, eram de profunda mística. As famílias, principais responsáveis por aquele milagre, esperavam, com o rosto transfigurado de alegria, a chegada dos seus. E eles saiam da cápsula, com a aura de quem havia caminhado no escuro do mundo inferior e voltado para contar. Isso não é pouca coisa para o universo cultural das gentes do atacama. Afinal, no mundo dos likan antay, tal como se autodenominam os originários da região do deserto chileno, o mundo inferior é morada dos mortos. Na Bolívia, os aymara respeitam tanto esse mundo subterrâneo que não há uma mina que não tenha a figura do “tio”, espécie de entidade mágica que faz a ligação entre o mundo de baixo e o de cima. Levar oferendas ao “tio” é imprescindível para que as gentes possam transitar no mundo inferior e voltar. Assim, aqueles homens que viveram a angustiosa espera de quase 70 dias no território da morte, certamente haverão de mudar suas vidas para sempre. Isso é altamente perturbador.

Quem via aqueles homens saindo da cápsula, poderia pensar que aquela gente é quase mineral, talhada em cobre, prata e ouro. As caras angulosas, os narizes esculpidos, tornam os mineiros chilenos uma espécie de escultura forjada na riqueza que produzem dia após dia, cavoucando as entranhas da Mãe Terra. Mas, a história daqueles homens, perdidos no deserto mais seco do mundo, não foi sempre assim. Antes da chega dos espanhóis e da invasão de seus mundos, o minério que hoje é responsável pela vida e pela morte, não era usado para gerar riqueza. Ninguém feria a Pachamama para dela arrancar o lucro. Apenas o que brotava do chão era colhido para se transformar em adorno ou objeto de cerimônia. Foram os homens brancos que trouxeram a febre do ouro, e com ela a destruição, que perdura até hoje.

Apesar de ser um dos lugares mais secos do mundo, premido entre os Andes e o mar, o deserto tem seus espaços de vida nas chamadas quebradas, espécie de oásis, com pequenos riachos, onde se concentram as cidades. Ali vivem os atacamenhos desde há milênios. Há registros de que há 11 mil anos já era povoada a quebrada de San Lorenzo, assim como há 1.500 anos já se configuravam verdadeiras comunidades sedentárias, como o povo de Tulor, do qual se pode ver as ruínas das construções e o modo de vida. Essa era uma gente que viva no deserto em harmonia com as forças da natureza. Inscrições nas rochas dão conta de que eles realizavam longas jornadas comerciais, ligando-se inclusive ao povo de Tiahuanaco, na Bolívia e ao povo inca, no Peru. Sob a sombra do sagrado Licancabur (um vulcão) eles faziam cerimônias, davam pago a terra e viviam em paz.

Esta paz só foi quebrada por volta de 1536 quando os espanhóis Diego Dalmagro Valdívia e Francisco Aguirre iniciaram a jornada de conquista pelo interior. Naqueles dias, o povo atacamenho já tinha recebido notícias dos saques e destruição impetrados pelos espanhóis e preparou-se para resistir. Do alto da fortaleza chamada de “Pukará de Quitor” (fortaleza do alto) eles esperaram os brancos e lutaram bravamente por longos 20 anos. Mas, sem armas de fogo ou cavalos, acabaram vencidos pela supremacia bélica das hordas espanholas. E desde aí começou a escalada da mineração naquele lugar de sonhos.

Quem anda pela estrada que vai de São Pedro de Atacama à Calama, não pode deixar de se surpreender com a visão de Chuquicamata, a maior mina a céu aberto do mundo. No meio da paisagem árida e marrom de pedras e areia, aquele gigantesco buraco é como uma ferida aberta, uma espécie de monstro a consumir a vida dos seus 15 mil trabalhadores dia após dia. A lembrança desta cena torna absolutamente perturbadora a cena do grito de guerra dos mineiros chilenos na medida em que cada companheiro saia da mina. Um grito de bravura e de amor a uma profissão que lhes foi imposta pela força e que custou a morte de quase toda a população autóctone dos lugares por onde os espanhóis semearam esta forma estranha de arrancar da terra suas riquezas minerais.

Historiadores da vida chilena estimam que de 1542 a 1560, início do processo de mineração na região do deserto, os espanhóis arrancavam mais de dois mil quilos de ouro por ano, usando para isso a mão de obra escrava do indígena conquistado. A rapinagem foi tão grande que este primeiro ciclo alucinado do ouro durou bem pouco. Ao final do século XVI esta atividade já estava esgotada, não tanto por faltar ouro, mas por não haver mais gente para fazer o trabalho. O genocídio se consolidava.

A nova onda de mineração na região chilena só voltou a crescer no século seguinte quando o capitalismo nascente decidiu alavancar o comércio de matérias primas, dando prioridade aos metais preciosos, dos quais a região era extremamente rica. Naqueles dias a mão-de-obra já se recuperara e o ouro voltou a ser extraído com produção duplicada, assim como o cobre que teve um acréscimo de 20 vezes. No caso da prata o aumento da produção passou para 400 vezes mais, o que custou a dizimação de quase todo povo aymara e quéchua da Bolívia. No Chile, a produção de cobre chegou a duas mil toneladas por ano, quase maior do que a produção de trigo.

Com a revolução Industrial caminhando a todo vapor, o cobre passou a ser um metal muito requisitado, o que aumentou o processo de mineração no Chile. De 60 toneladas em 1826, a exportação para a Inglaterra passou a 12.700 toneladas em 1835. Em 1940 a produção total era de 44 mil toneladas por ano. Aquela era uma riqueza tão essencial que mesmo durante as guerras de independência a mineração se manteve praticamente intocada. E, logo depois da independência, passou a ser vital para o desenvolvimento das forças produtivas no país. Instalada a república e definido o modo capitalista de produção a mineração passa a ser dominada pela elite local assim como por algumas empresas estrangeiras que viam ali uma fonte inesgotável de riquezas. Até porque, se não havia mais a mão-de-obra escrava indígena, agora, a massa de trabalhadores “livre” e empobrecida seria a cereja do bolo. Baixos salários e muita exploração fizeram a riqueza de alguns. Nada muito diferente do que é hoje.

E foi assim que o Chile converteu-se num país de mineradores e mineiros. Quando o século XX chegou, a exploração anual da prata chegava a 150 mil quilos e, embora o cobre tivesse caído bastante, ainda representava importante setor da economia. Naqueles dias outros minerais assomavam para garantir mais lucro aos donos das minas: o salitre e o carvão de pedra. As riquezas brotavam do chão, mas só para alguns. Por isso, acaba sendo tão desolador um passeio pela cidade de Calama, por exemplo, onde a pobreza e falta de estrutura são gritantes. Ali vivem os que adentram ao “mundo inferior” para extrair as riquezas que jamais serão usufruídas por eles, nem mesmo em termos de políticas públicas. O Chile, como se sabe, depois de viver uma longa e feroz ditadura, foi o produto mais acabado das políticas neoliberais, privatizando praticamente tudo.

Salvador Allende, durante o curto período que ficou no poder chegou a nacionalizar algumas minas e delimitar o investimento estrangeiro, mas tudo isso foi pelo ralo com o golpe militar, que voltou a entregar as riquezas minerais do Chile às grandes empresas transnacionais. Nos anos 90 do século XX, o setor mineiro chileno vive outro momento de expansão, também fruto de gigantescos investimentos estrangeiros. Leis específicas são criadas para dar legitimidade ao saque e, segundo dados do próprio governo (http://www.minmineria.cl/574/w3-propertyvalue-1986.html) nas últimas décadas foram registrados ingressos que oscilam de 73 a 245 milhões de dólares anuais. Entre 1990 e 2002 entraram 18 bilhões de dólares. Desde 1990 o Chile triplicou a produção de cobre, chegando a 4,6 milhões de toneladas anuais.

Os fatores que levam os estrangeiros e a elite local a investir tanto dinheiro na atividade mineira são alardeados pelas autoridades, assim como o presidente Piñera alardeou ao mundo no seu discurso, tão logo saiu o último mineiro da mina acidentada: “a fortaleza e a capacidade técnica de nossa gente”. Nos relatórios de empresas especializadas em mineração no Chile, que podem se encontrados na internet, esse fator também é contado como fundamental. O braço forte do homem chileno, e o baixo salário que ele recebe por isso.

Dados divulgados por uma empresa chamada de “Corporação para o desenvolvimento da região do Atacama” mostram friamente a situação dos trabalhadores diante destes exuberantes números de investimentos e exportações: A pobreza extrema toma quase 20% da população, o índice de aproveitamento escolar das crianças é baixíssimo e menos de 2% de quem termina o segundo grau vai para a universidade, os índices de desenvolvimento humano nas cidades da região são ínfimos. Não há saneamento, as moradias são precárias, não há saúde pública, muito menos educação. Por outro lado, 47% da economia gira em torno da mineração, dali saem 90% do ouro, 82% da prata e 100% do ferro e 80% de tudo que é exportado. Até 2015 estima-se que mais de 162 milhões de toneladas de cobre possam ser exploradas. Ou seja, é o lugar perfeito para uma empresa investir. Como bem já definiu Ruy Mauro Marini, a periferia do sistema capitalista se caracteriza justamente pela capacidade de superexplorar o trabalho. Ou seja, não basta ao capitalista sugar a tradicional mais-valia, é preciso ampliar essa marca, estendendo a corda até as últimas conseqüências.

Neste universo de números astronômicos, riquezas polpudas e exploração desenfreada dos trabalhadores ainda há que se discutir os motivos reais que levaram ao acidente da mina São José. Um senador ligado ao setor mineiro, Carlos Cantero, apressou-se em dizer que o acidente não pode servir para demonizar as médias e pequenas empresas mineradoras que, via de regra, são as que investem menos em segurança. E, nesta onda, o presidente Sebastián Piñera, que nadou de braçada no “espetáculo” da retirada, também prometeu aos mineiros que vai pedir um relatório minucioso sobre as condições de segurança das minas e que vai investir muito mais neste setor. “Não só no setor mineiro, mas também na educação e na saúde”, prometeu, eufórico, no discurso final pós-resgate. Nunca é pouco lembrar que o homem afável e sorridente que acompanhou a saída de cada um dos mineiros acidentados é o mesmo que se manteve inflexível diante de uma greve de fome dos prisioneiros políticos da etnia Mapuche, que estão presos acusados de terrorismo, embora tudo o que tenham feito seja lutar pela demarcação de suas terras e por autodeterminação.

No caso da mina São José, o que fica de perplexidade é que seus donos, Marcelo Kemeny y Alejandro Bohn, já são bastante conhecidos no Chile pela falta de cuidado com os trabalhadores. Uma reportagem de Claudia Uriquieta dá conta de que existem muitas demandas judiciais contra eles, justamente por falta de segurança no trabalho, tendo já sido registradas pelo menos três mortes, dezenas de feridos, muitos mutilados, além de vários desabamentos. O sindicato dos trabalhadores vem desde longa data exigindo que as minas tenham sempre duas áreas de escape, para que não aconteça justamente o que aconteceu. Mas, a Suprema Corte chilena negou o pedido dos trabalhadores, protegendo assim os empresários que teriam de investir muito mais para garantir a segurança dos mineiros. E, para coroar este completo desdém pela vida dos trabalhadores, estes empresários ainda são agraciados com prêmios e recebem títulos de patronos dos mineiros (http://www.iela.ufsc.br/?page=noticia&id=1525).

A retirada dos mineiros da mina desabada seguiu todos os rituais do espetáculo midiático. Apenas a cena carregada de emoção da saída, do encontro com familiares, a dedicação dos socorristas. As redes a cabo ainda conseguiram apresentar uma entrevista aqui e ali falando dos problemas recorrentes no campo da mineração chilena. Mas, ao final, o que restou foi a catarse. O povo chileno nas ruas, com bandeiras, as lágrimas, os sorrisos, a alusão à solidariedade de todos, à fortaleza destes trabalhadores que conseguiram sobreviver a uma longa noite no mundo inferior. O presidente ainda foi aclamado como um herói, porque, afinal, gastou 20 milhões de dólares com o resgate. Ora, foi até pouco diante da dívida histórica que tem com esse povo que, no segundo quartel do 1500 foi obrigado, por conta da invasão, a se transformar em uma espécie de tatu, esburacando a terra em busca de riquezas que não consegue verdadeiramente tocar.

E agora, passada a ressaca do “espetáculo”, o que acontecerá naqueles fundões do deserto? Um milionário chileno já adiantou que vai doar uma bolada para cada um dos sobreviventes. E as gentes se emocionam com esse empresário tão bonzinho. É a versão chilena da “síndrome do Gugu”, essa perversa proposta de dar uma casa a um pobre por semana, resolvendo assim a vida de uma família, e evitando que a luta coletiva cresça para dar conta da melhoria da vida de todos. Estes mineiros que ficaram prisioneiros no interior da Pachamama podem até melhorar de vida. Mas e os milhares de outros trabalhadores que seguirão arriscando suas vidas nas minas mal cuidadas e sem proteção? Quem chorará pelos que caírem soterrados nas centenas de acidentes que acontecem recorrentemente?

A resposta a essa pergunta já foi dada, pelo próprio espetáculo midiático, e, como dizia Jesus: quem tem olhos para ver, que veja. Quando o último homem saiu da cápsula, era um dos socorristas que haviam descido para ajudar os mineiros, todas as atenções já estavam no presidente Piñera, que dava seu discurso. Apenas um quadrinho, no lado direito da tela mostrava a chegada daquele ser humano anônimo. O presidente seguia, sorrindo, faceiro, fazendo promessas ao Chile, enquanto os trabalhadores se abraçavam e acolhiam o companheiro. Estavam ali, sozinhos, outra vez. O poder instituído já estava viajando em outra órbita.

Por isso, não há heróis neste drama latino-americano. Há, isto sim, a repetição do eterno mesmo. Aos trabalhadores cabe conhecer a história e aprender a lição que foi dada pelos familiares dos soterrados. Aquela gente atacamenha, aquela gente forjada no cobre e na rocha do deserto, não arredou pé da mina. Fez acampamento, exigiu. E foi essa força que garantiu o resgate. Nada mais que isso, a força do povo unido. Se as gentes em pequeno número conseguem coisas assim, o que não conseguirão os trabalhadores, juntos?

UM BOM DIA PARA VOCÊ TAMBÉM...

Li Travassos

Na virada do dia 13 para o dia 14 de outubro, tive a felicidade de acompanhar a saída do último dos 33 mineiros chilenos de sua reclusão na mina em que trabalhava, em função de um acidente causado pelas péssimas condições de segurança no trabalho. Também tive a alegria de ver os socorristas serem todos resgatados em perfeitas condições de saúde. Nem liguei muito para o fato de que o presidente do Chile aproveitou toda esta tragédia com final feliz para se autopromover. Nem liguei muito para o fato de que quem tem que responder pelo acidente está colhendo os frutos do sucesso do resgate. Fui dormir feliz. Acordei, neste dia 14, contudo, com várias notícias agradabilíssimas:

- A Diferença entre Dilma e Serra diminuiu de novo na última pesquisa. Serra, este sujeito do BEM. Do BEM BOM, claro, que é o que ele quer para si e para seus companheiros de classe social. Recebi também um e-mail dizendo que sua excelentíssima esposa já fez um aborto (http://correiodobrasil.com.br). E viva a hipocrisia, a manipulação, a falta de vergonha na cara... E viva esta turma do BEM BOM...

- Em Fernandópolis, SP, o Conselho Tutelar (cujos funcionários, para quem não sabe, são eleitos de maneira indireta e altamente questionável) praticamente exigiu que uma mulher, mãe de uma adolescente que foge frequentemente da escola para matar aulas, largasse o emprego para poder assistir às aulas junto com a filha! Mas não tem problema: o pai pode sustentar a família sozinho, ele ganha BEM! Que BOM!

- O ex-goleiro Bruno continua passando mal cada vez que vai participar de um inquérito. Verdade que ultimamente TODOS os suspeitos do assassinato de Eliza Samudio estão passando mal nestas situações. Decerto por estarem longe do BEM... BOM! E agora a discussão não é mais se foi esta pequena gangue que deu sumiço em Eliza, mas se o advogado deles é um chantagista do mal, ou um papai substituto do BEM. BEM BOM?

- Recebi também um outro e-mail, contando de um sujeito em Arapiraca, AL, que matou a mulher por ciúmes, e depois comeu seu coração (http://noticiasdeitabuna.blogspot.com/2010/10/psicopata-mata-mulher-e-come-o-coracao.html). Não se arrepende do ato. Talvez tenha até achado BOM.

Um BOM dia para você também. BEM BOM.

Cientistas denunciam riscos do Estaleiro OSX e da mina de fosfato

III Seminário Interuniversitário

Por Celso Martins (texto e fotos)

As conclusões do Seminário Interuniversitário que discutiu a implantação do Estaleiro OSX e da mina de fosfato em Anitápolis, vão ser transformadas em uma "Carta Aberta" à comunidade universitária, como forma de alertar para os danos dos dois empreendimentos. Esta foi uma das decisões tomadas por consenso no final dos trabalhos que tiveram início na quarta-feira (13.10) e terminaram ontem (14.10), realizados no auditório da reitoria da UFSC.

Participaram dos debates do último dia os professores Marcus Polette (Univali), Margarete Pimenta (UFSC), Leopoldo Cavaleri Gerhardinger (UNICAMP), Hoyedo Lins (UFSC) e Raul Burgos (UFSC), sob a coordenação do professor Lino Peres, que apontaram os riscos sociais, econômicos, sociais e ambientais dos dois empreendimentos, sobretudo o Estaleiro OSX.

A "Carta" a ser divulgada na próxima semana terá críticas à posição da reitoria da UFSC, cujo reitor, Álvaro Prata, acompanhou as lideranças políticas de Santa Catarina que foram a Brasília tentar anular o parecer contrário do ICMBio ao Estaleiro da OSX. A presença da fundação Certi, privada, falando em nome da UFSC, também será tema da "Carta". Os integrantes dos poderes Legislativo e Executivo do Estado e dos municípios da região de Florianópolis, receberão oficialmente o documento, assim como o Ministério Público estadual e federal.

Além disso, foram apresentadas três moções. A primeira em solidariedade ao analista ambiental Apoena Figueirôa, do ICMBio em Santa Catarina, exonerado do cargo de chefe da Estação Ecológica de Carijós, por ter sido um dos autores do parecer contrário do órgão ao empreendimento em Biguaçu/Baía Norte de Florianópolis. A segunda é em repúdio à ausência da Fiesc e das empresas responsáveis pelo Estaleiro OSX e a mina de fosfato em Anitápolis, nos debates do Seminário. Por último uma moção de repúdio ao papel desempenhado pela Fundação Certi.

Os representantes dos ministérios públicos estadual e federal não puderam participar do evento por problemas de agenda, mas os dois órgãos vão receber as gravações dos debates e os documentos gerados. Os organizadores do Seminário também pretendem realizar debates em Biguaçu e Governador Celso Ramos.

Publicado no Sambaqui na Rede

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

OSX e Fosfateira fogem do debate


Servidor do ICMBio proibido de participar

III Seminário Interuniversitário

Por Celso Martins (texto e fotos)

O III Seminário Interuniversitário iniciado ontem (13.10) no auditório da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis-SC, foi marcado pela ausência dos dirigentes do Estaleiro OSX e da empresa fosfateira de Anitápolis, temas centrais do evento, além do representante da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Alcantaro Corrêa, e do analista ambiental Apoena Figueirôa, do ICMBio em Santa Catarina.

Os empresários e o dirigente da Fiesc deveriam ter participado da primeira mesa do seminário, aberto às 19 horas com a presença do vice-reitor da UFSC, Carlos Alberto Justo da Silva, e dos representantes da Unisul (Silas M. de Azevedo) e Univali (Alceu de Oliveira Pinto Júnior). O anúncio das ausências foi feito pela professora Vera Lúcia Dias (Udesc), que coordenaria a mesa: os diretores da OSX e da Fosfateira "não quiseram estar presentes", enquanto o presidente da Fiesc cancelou a presença na última hora.

Perante um auditório lotado, o professor Lino Peres, coordenador do seminário, denunciou que o servidor do ICMBio no Estado, Apoena Figueirôa, foi "proibido" pela direção do órgão de participar do evento. "Houve censura", acusou Peres, "pois ele falaria sobre um parecer técnico emitido pelo próprio ICMBio".

A segunda mesa foi composta por representantes de entidades comunitárias, maricultores e ambientalistas de Florianópolis, Biguaçu e Governador Celso Ramos. Todos destacaram os danos que o Estaleiro OSX vai causar à pesca, à maricultura e ao turismo na região. Rosane Cherem Abreu, representando os pescadores de Governador Celso Ramos, denunciou que a área na baía de São Miguel/Baía Norte de Florianópolis onde será dragado o canal, está interditado para a pesca por ser o principal criadouro de camarão da região. "E agora vai ser devastado pelo canal do estaleiro".

Fábio Brognoli, presidente da Federação das Empresas de Aquicultura do Estado, revelou que a partir de 2012 a União Européia poderá iniciar a importação de ostras e mariscos das baías de Florianópolis. "A França está com suas águas comprometidas e a produção de moluscos diminuiu", segundo Brognoli. O anúncio da implantação do Estaleiro OSX lança dúvidas sobre a possibilidade da linha de exportação ser concretizada. "A maricultura gera 3.500 empregos diretos e 13 mil empregos indiretos. Cerca de 60% do movimento de cargas do Aeroporto Hercílio Luz é com o transporte de nossas ostras e mexilhões".

O seminário prossegue nesta quinta-feira, 14, às 19 horas, no mesmo auditório da reitoria da UFSC, com a participação de representantes da comunidade acadêmica catarinense e da procuradora federal Analúcia Hartmann. No encerramento dos trabalhos devem ser propostas moções de solidariedade com os servidores do ICMBio em Santa Catarina (sobretudo Apoena Figueirôa) e contra o Estaleiro OSX e a Fosfateira de Anitápolis.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

12 de outubro – Dia de Resistência e Luta dos Povos Originários

Elaine Tavares - jornalista

O dia 12 de outubro marca um momento importante na vida dos povos desta parte do mundo. Foi neste dia, no longínquo 1492, que Cristóvão Colombo aportou numa pequena ilha do Caribe, achando que havia chegado às Índias. Ele e seus homens não vieram em paz. Tudo o que queriam era o ouro e não respeitaram coisa alguma no caminho. Com eles chegaram também a violência, o genocídio, a destruição, coisas típicas do capitalismo nascente. As terras novas foram invadidas por hordas de europeus em busca de riqueza e aos povos originários foi dada como opção a escravidão ou a morte. Mas, entre os que aqui já viviam desde há milênios, assomou outra proposta: resistir e lutar!

Muitas foram as batalhas contra o branco invasor, até com algumas vitórias, como a famosa “noite triste” (para os espanhóis e não para os originários), em 30 de junho de 1520, quando os guerreiros mexicas imprimiram uma fragorosa derrota a Hernán Cortéz. Ou, para lembrar as lutas dos povos de Pindorama (Brasil), a Confederação dos Tamoios em 1556, chefiada pela valente nação Tupinambá contra os portugueses, que obrigou a libertação de todos os escravos. Mas, ao fim, os povos de Abya Yala não puderam vencer as armas de fogo, tecnologia que não conheciam. Assim, pouco a pouco, todas as terras desta parte do continente foram sendo invadidas e as gentes autóctones que não aceitavam a integração à força, ou eram mortas ou obrigadas a viver em reservas, como bichos exóticos. Por longos tempos Portugal e Espanha saquearam as riquezas do novo continente. Muito do ouro e da madeira nobre que se vê nos castelos e igrejas da Europa foram tirados daqui. Até mesmo a tão aclamada revolução industrial só foi possível por conta do ouro e da prata que os ingleses levavam de Portugal e Espanha, os quais, por sua vez, roubavam de Abya Yala.

E desta forma foi se formando a riqueza européia enquanto os povos da agora chamada América Latina seguiram na periferia, praticamente a margem das benesses do desenvolvimento, que só se fazia possível por conta das riquezas saqueadas. Os tempos passaram e as gentes originárias foram elaborando sua resistência na quietude das planuras, na solidão das montanhas. Por isso, quando todos imaginavam que o extermínio já estava consumado e nada mais restava além dos “reservados exóticos”, os povos originários reaparecem com força total, lutando com unhas e dentes para preservar aquilo que consideram sagrado: a terra, a água, as floresta, enfim, o ambiente, como um espaço bendito de tudo aquilo que vive.

Para os povos autóctones o chamado “desenvolvimento”, para além das bugigangas modernizantes que podem ter melhorado a vida de todos no cotidiano da vida urbana, trouxe principalmente a destruição. Observando como o capitalismo organizava a vida das gentes ao longo de todos estes anos de dominação, os originários compreenderam que isso era ruim e não lhes servia. Nesse sentido eles propõem outro conceito, nascido de suas próprias entranhas, do conhecimento e do contato que eles sempre mantiveram com as forças da natureza: o bom viver. Esta é uma forma de organizar a vida que pressupõe elementos esquecidos e abandonados pelos homens e mulheres “modernos”, mergulhados no modo de produção capitalista. As propostas do bom viver são a de um desenvolvimento capaz de servir às gentes e a natureza, em harmonia, o que por si só já descarta o modo de produção capitalista, no qual para que um viva, outro tenha de morrer. O bem viver não comporta o acúmulo de riquezas, pois tudo o que há sobre a terra e que os seres humanos produzem juntos deve ser repartido. No bem viver o centro de tudo é a vida comunitária, esta é a que deve ser preservada e conservada.

Talvez para as pessoas acostumadas ao modo de viver ocidental, capitalista, seja praticamente impossível compreender o significado real do sumak kawsai (o bom viver), porque suas mentes e corpos já estão acostumados a acreditar que a melhor vida possível é essa que está aí, com a competição, o desenvolvimento predador, o egoísmo, o individualismo. Mas, nunca é tarde para se debruçar sobre essa proposta que emerge das profundezas da vida originária. E, que fique bem claro. Não se trata de voltar ao passado, renegando todos os avanços da humanidade. Não. Até porque cada avanço diz respeito a toda a comunidade humana. Nenhum invento, nenhum conhecimento dito “moderno” foi criado a partir do nada. Tudo é fruto da comunidade, seja na herança do saber, seja no financiamento, seja no alto preço que pagam os da periferia para que o centro cresça e produza riqueza. Tudo está interligado. Tudo é conquista comunitária, embora o sistema insista em fazer crer que são pessoas isoladas, ou países específicos, os que logram fazer caminhar o conhecimento.

O que as gentes originárias colocam na grande mesa do saber humano é uma proposta de vida que está ao alcance de todos, autóctones ou não. Equilíbrio, solidariedade, cooperação, respeito, justiça comunitária, alteridade, interação com a Pachamama, sacralidade da vida mesma, como ressalta Dussel. É uma proposta radical, revolucionária, que exige a “desconexão”, tal qual já propôs Samir Amin. Adentrar ao modo de vida do bem viver significa uma ruptura completa com o modelo capitalista. É um desafio abissal, que exige compromisso e desapego. Exige a destruição de todos os valores do mundo moderno e a aceitação de um jeito de viver comunitário absolutamente desconhecido para a maioria das gentes.

É por isso que neste 12 de outubro, em todas as parte de Abya Yala, os povos originários estarão celebrando e apontando caminhos. Celebram, não a conquista de Colombo, porque, afinal, nunca se deixaram vencer. Celebram a resistência. É certo que por algum tempo, premidos pela força bruta, aquietaram seus corpos, mas, lá dentro, vibrava, acesa, a chama do que chamam de bom viver. No escuro de suas choças, eles chamavam seu nome e esse desejo seguiu andando pelas cordilheiras, pelos caminhos. Na escuridão da noite destes 500 anos, eles acendiam fogueiras, davam pago à Pachamama, reverenciavam seus deuses. Agora, estão aí, à luz, cada dia mais fortes, reivindicando seu comunitário jeito de viver, autonomia e autodeterminação.

É tempo de aprendermos com eles.

Assim, o 12 de outubro, que é visto pelo colonizado como o Dia do Descobrimento ou, pelos bem intencionados como o Dia da Raça, é, na visão do originários o Dia da Resistência, o Dia da Luta, a hora de fazer ecoar por todos os cantos da terra essa boa nova: as gentes autóctones estão vivas, estão crescendo, dizem a sua palavra e propõem mudanças. É chegada a hora do bom viver!