sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pede e receberás

Míriam Santini de Abreu


Às vezes coisas extraordinárias acontecem. A mim também. Há 15 anos eu desejo ressuscitar uma história, trazer à vida, pleno, inteiro, o que eu só conhecia através de um pequeno fragmento. E eis que nesta abençoada última semana de abril do cristão ano de 2010 aquela história tão buscada veio à luz. Conto isso na próxima edição da Pobres & Nojentas, que circula no final da próxima semana. A vida é extraordinária.

Luta dos índios, nossa luta

Vejam o vídeo:
Povos do Xingu contra a construção de Belo Monte

http://www.youtube. com/watch? v=ZmOozYXozb8

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ler, delícia de todas as épocas

Míriam Santini de Abreu


Iniciei o maravilhoso “A Cidade na História - suas origens, transformações e perspectivas”, de Lewis Mumford, para fazer um artigo sobre o assunto. Por isso amei o vídeo disponível no link abaixo. Vale a pena ver:


http://eteia.blogspot.com/2010/04/uma-experiencia-revolucionaria.html


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Alma, acolha o pássaro

Por Míriam Santini de Abreu


Há poucos dias recordei de um filme que vi na adolescência, um filme de Natal. Contava a história de uma mulher que vivia em uma pequena cidade e era proprietária de um banco modesto. O negócio era cobiçado pelo senhor Potter, dono mesquinho de praticamente toda a cidade. No dia de Natal, o tio e sócio da mulher perde uma soma expressiva de dinheiro. Desesperada, confrontada com a possibilidade de prisão, desonra e perdas financeiras por parte de seus clientes, ela pensa em se suicidar e deseja jamais ter nascido.

Eu não me lembro do nome do filme ou dos atores, mas gravei o nome do senhor Potter, e desejei ver a história outra vez. Eis que, neste final de semana, procurei filmes clássicos na locadora e um chamou a minha atenção por causa do nome, “A felicidade não se compra”, de Frank Capra, um diretor de filmes adoráveis. E não é que descubro ter sido o filme que vi há muito tempo uma refilmagem deste? A diferença é que o protagonista é um homem, George Bailey, interpretado por James Stewart.

Bailey é um jovem de grandes projetos, mas por uma série de motivos sempre tem que adiá-los. E os motivos invariavelmente envolvem um aspecto da personalidade dele: ter princípios. O banco era a única porta aberta para os empobrecidos da cidade, e Bailey, para manter essa porta aberta, abre mão de oportunidades e vê a juventude passar enquanto o irmão e os amigos concretizam seus projetos. Há uma cena em que ele está na estação de trem para recepcionar o irmão e na qual pergunta ao tio: “Sabe quais são os três sons mais excitantes do mundo? O barulho de âncora, o motor de avião e o apito de trem”. Às vésperas de uma viagem cheia de aventuras, ele descobre que o irmão se casou e não vai assumir o negócio da família e então os planos de Bailey mais uma vez são adiados.

Quando o tio perde o dinheiro (surrupiado pelo senhor Potter), Bailey se desespera e, no momento em que está para decidir dar fim à vida, tem que salvar um homem que se afoga no rio. O homem é um anjo um tanto incompetente que, tendo mais uma chance para mostrar serviço, deve evitar o ato de Bailey. Se tiver sucesso, ganhará asas. O anjo dá ao homem o que ele pediu, e assim Bailey tem a possibilidade de ver como é o mundo (a pequena cidade) sem ele, porque ele não nasceu.

Fiquei a pensar sobre a imensidão de mundos para os quais cada um de nós também não nasceu, mundos que jamais serão tocados pela nossa existência. E também sobre os tantos mundos que a gente abandona porque atende ao chamado da âncora, do motor do avião, do apito de trem. E assim deixa para trás um vazio de presença, uma ausência, que vai se fazer presença em outro lugar. E esse vazio de presença, esse não-mais-ser nos mundos abandonados, é sentido claramente no corpo que passa-a-ser em outro lugar, mas ainda mais furiosamente na alma. O corpo bebe na reflexão e aos poucos se acomoda. Mas a alma às vezes insiste em ficar para trás; demora-se à espreita dos quereres perdidos, dos quereres sequer percebidos, sequer vividos; recorda-se do dia em que viu pólen dourado nos olhos do pássaro, e se esquece da noite em que naqueles olhos havia somente lágrimas; adormece cálida e frutuosa sob os terebintos, e amanhece estéril, caverna negra onde nada pousa nem procura abrigo. Não é confiável, a alma. É preciso convencê-la, ameaçá-la, suplicar até: - Avia-te! Um corpo te espera! Um outro mundo te requer!

Bailey, imerso na sensação de fracasso por tantas possibilidades de ser perdidas, conhece o não-ser radical, o não ter nascido. E percebe que sem sua vida, sua presença, o mundo é outro. O anjo ganha asas e ao final do filme deixa a ele um livro de presente com uma dedicatória: “Ninguém é um fracasso se tem amigos”. E a gente percebe que tantas vezes, nos tantos mundos pelos quais a nossa experiência de ser circula, é também pelo terno canto dos amigos que a alma se rende aos apelos do corpo. Volta. Mansa. Quieta. Mas então é na caverna iluminada pelo pólen dourado que o pássaro se aninha e refulge.

Por isso, uma frase que amo, de autoria que desconheço, é essa: “E sempre ouço às minhas costas a marcha do tempo que passa adiante”.

Muito pouco...

Por Jussara Godoi


Estivemos, eu e meu companheiro, em Cacique Doble, um lugarzinho lá no norte do Rio Grande do Sul, com pouco mais de 3.000 habitantes. Paramos em um armazém para comprar alguns mantimentos, enquanto aguardávamos um amigo que viria ao nosso encontro e nos levaria até o sítio onde passaríamos o natal. Paramos do lado de fora do armazém para olhar a cidade, que já estava enfeitada com motivos natalinos. Então um senhor muito simpático, devia ter seus 70 anos, começou a conversar conosco. Perguntou de onde éramos, o que estávamos fazendo ali etc. E pela forma tranqüila com que falava, podia-se perceber que era um "costume" daquele lugar as pessoas pararem para conversar, mesmo que fosse com um desconhecido. Diferentemente dos grandes centros urbanos, em que ninguém tem tempo para olhar para o lado, tempo ali não era problema.

Eu imediatamente simpatizei com o morador, mas confesso que se perguntei o seu nome (meio estilo Umberto Eco, o nome da Rosa!?), não me lembro! Lévis Strauss também não precisa se mexer no túmulo, pois jamais serei uma etnóloga. Pois bem, a minha primeira curiosidade foi em relação ao nome do lugar, já que não é comum os índios receberem homenagem, dando nome às cidades, em nossa cultura. Perguntei-lhe se a maioria da população do lugar era indígena, e ele me respondeu calmamente, olhando para a rua: “`Muito pouco´, os índios quase não vem pra cidade..." Então tornei a perguntar: E eles vivem onde?

- Eles têm terra aqui... mas "muito pouco", alguns trabalham aqui... mas "muito pouco". Eles fazem artesanato pra vender, mas "muito pouco".

E a cada pergunta que eu fazia, ele respondia sempre pausadamente com o "muito pouco...". Mas foi possível ver a população indígena circulando pelo lugar enquanto estávamos ali.

Nosso amigo chegou, nos despedimos do morador e fomos para o sítio do seu Onélsimo. Quando chegamos ao nosso destino, novamente fiquei maravilhada. Não só pela emoção de voltar às minhas origens, mas por saber que em algum lugar deste mundo maluco existem pessoas reais, com idéias maravilhosas! Na entrada do sítio, havia uma placa que advertia: “Se você está precisando descansar, precisa de cuidados com a sua saúde, venha prá cá, aqui vc poderá descansar, pescar e não precisa PAGAR NADA”.

Eu mal conseguia acreditar no que estava lendo. Que lugar do mundo e, em especial, do CAPITALISTA, um ser humano poderia encontrar um lugar para descansar e cuidar da sua saúde sem precisar pagar nada?! Meu companheiro também nunca havia estado ali, foi a convite do amigo, cujos parentes eram os proprietários do lugar. Achamos tão simpática aquela placa que já nos sentimos bem recebidos.

Passamos uma semana junto com aquelas pessoas, que nunca tínhamos visto na vida, e parecia que já nos conhecíamos há anos! Nesses momentos é que a gente percebe que se quiséssemos TODOS, uma outra forma de organização social seria viável. E não é preciso abdicar de tudo, como pensam os defensores ferrenhos do capitalismo, já mumificados pelo tempo ou pela falta dele! A tecnologia, por exemplo, poderia trabalhar a nosso favor e não contra, como hoje acontece. Todos vivem a correr contra o tempo. Lá no sítio, o que menos importava a todos eram as horas. O dono do sítio tem hoje 89 anos e conta que nunca tomou remédio na vida. Obviamente que agora vive sob os cuidados do filho e da nora, mas por causa da fragilidade inerente ao ser humano. E eu fiquei me perguntando: Por que, nas grandes cidades, o tempo é nosso inimigo?

Em Florianópolis, apesar de estar longe de ser uma grande metrópole, as pessoas nunca têm tempo pra nada. Eu que adoro tomar café e andar pelo centro da cidade sem nada pra fazer, e encontro poucas amigas dispostas a fazer isto. A maioria diz não ter tempo! Se perguntássemos ao morador da pequena cidade de Cacique Doble o porquê disso, ele responderia: Eles vivem "muito pouco".

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Curtindo o Mazzaropi

Elaine Tavares

Diante de todas as perplexidades que me vieram à cabeça depois de quatro dias discutindo sobre se havia ou não socialismo na América Latina, fui descansar a cabeça vendo filmes antigos. Então me caiu às mãos um clássico do Mazzaropi, chamado “Jeca Tatu”, realizado em 1959. Nesta película, o cinema nacional se mostra na sua plena beleza. Primeiro pela temática. Mazzaropi traz para a tela grande a vida do caipira, do homem rural, premido pelos fazendeiros que roubam terras, que enganam, que se aproveitam do homem simples do campo. Questões como a reforma agrária e a exploração dos trabalhadores rurais aparecem de forma clara, ainda que não fosse essa a intenção do cineasta. A fotografia do filme é uma belezura. A dramaticidade do preto e branco, os enquadramentos estonteantes, a plástica memorável. Coisa muito boa de se ver.

O Jeca Tatu é um pequeno agricultor que precisa comprar comida no armazém e, sem dinheiro, vai vendendo pedaços da terra, até ficar sem nada, tendo de migrar para a cidade. No filme, o dono do armazém é o safado que revende as terras ao latifundiário local. E o fazendeiro é o casca grossa que chega a incendiar a casa do Jeca para tirá-lo da terra. O inusitado é a solução que o povo local encontra para salvar o Jeca Tatu da desdita de ter de ir para a cidade. Eles se reúnem e vendem o voto a um deputado safado. Com essa composição de classe e saída ladina, o Jeca ganha uma casa nova e torna-se um bem sucedido agricultor. 1959 e parece que é hoje. Os mesmos safados de sempre e as técnicas de sobrevivência do povo oprimido.

Pouco sei sobre o Mazzaropi e suas filiações partidárias ou ideológicas, mas que seus filmes nos levam a profundas reflexões sobre a vida real do campo e da cidade, disso não tenho dúvidas. Mesmos as saídas enviesadas que os personagens tomam para resolver seus conflitos permitem longas meditações sobre o povo e o trabalhador brasileiro. Mazzaropi mesmo era um destes brasileiros reais, de vida cheia de percalços, pobreza, dureza. Fez-se sozinho, à facão, trabalhando no circo, que era sua paixão. Atuou no picadeiro até morrer e conta-se que nas lonas pobres ele não cobrava por apresentação. Produziu com dinheiro próprio todos os seus filmes, era um sonhador. Eternizou em película a pureza do caipira, os dramas do seu tempo, era um genial conhecedor da alma brasileira.

Hoje já não se vê mais os filmes do Mazzaropi na televisão, invadida pelo lixo estadunidense. É que os filmes do “Jeca” falam do Brasil profundo, expõe as feridas ainda abertas. Na sua pureza é pura rebelião, perigoso, portanto. Os personagens do Mazzaropi são aquelas criaturas que gostaríamos de ser: alegres, bondosas, generosas, cheias de pureza. É por isso que nos domingos de vadiagem é bom poder fruir desta beleza do cinema nacional. Porque de alguma forma nos encontramos com esse ser profundo que insiste em querer viver nesta selva capitalista que se tornou o mundo. Faça isso. Veja os filmes do Mazzaropi e descubra que houve um tempo neste país em que o cinema falava de nós. Hoje se fala, é fato, mas este que diz da nossa gente não encontra espaço nas salas de cinema, igualmente entupidas de lixo estadunidense.

É por isso que a cultura também tem de se rebelar. Oxalá encontrássemos saídas generosas, criativas e divertidas como as do “ Jeca Tatu”.

Família! Família! Vive junto todo dia, nunca perde esta mania... *

*Da música Família – de Arnaldo Antunes e Toni Bellotto (Titãs)

Li Travassos, de Florianópolis

Dia 14 de abril deste ano da Graça de 2010, o Senado brasileiro aprovou o PL de Lei de Jarbas Vasconcelos (PMDB), que prevê a possibilidade do trabalhador usar o FGTS para a compra da casa própria de filhos maiores de 21 anos, casados ou em união estável, que ainda não tenham imóvel. Sem entrar na discussão de que a Lei está escrita (e acima de tudo, está sendo divulgada) de uma tal maneira que chega a gerar dúvidas se uma mulher pode usar seu fundo de garantia desta maneira, e também se uma filha mulher pode aproveitar o benefício (de tanto que são machistas os termos usados), quero destacar, aqui, o fato de que o receptor da verba precisa ser, necessariamente, casado ou em união estável. Posto que em nosso país as uniões homossexuais não são reconhecidas, e posto que há um número imenso de pessoas que vivem sozinhas, quero crer que temos, embutidos nesta Lei, mais de um tipo de preconceito.

Preconceitos estes ligados a questões de gênero. Acima de tudo, preconceitos sobre a função exclusivamente reprodutiva das uniões. Já não bastasse o "Bolsa família", que apesar de ser uma ótima forma de diminuir a desigualdade social, deixa de fora os mais miseráveis, justamente os que já perderam casa, família, e se encontram literalmente na rua; ou o Programa "Agricultura familiar", que eu não canso de alertar que é um incentivo enorme ao trabalho infantil na roça, já tão difícil de combater neste país, além de dificultar a posse de terra pela mulher casada; agora temos esta história do FGTS.

Vejam bem que não pretendo fazer propaganda contra o Governo Federal atual, até porque a nova lei é do PMDB, e o "Bolsa família" é uma adaptação do "Bolsa escola", que também previa, mais obviamente ainda, a existência de crianças em idade escolar na família, é que é do tempo do governo FHC, PSDB, portanto. Não, minhas senhoras e meus senhores, não se iludam: esta questão de priorizar a família, a reprodução, a existência constante de crianças em idade escolar em cada lar, é uma mania nacional e suprapartidária. Mania esta que me causa estranhamento, posto que temos crianças em excesso em nosso país, especialmente nas famílias de baixa renda. Crianças que não têm escolas para ir, que não têm comida suficiente para comer, que muitas vezes não têm perspectiva nenhuma de um futuro com um mínimo de dignidade. Então porque todo este incentivo à procriação?

Casais heterossexuais que não desejam ter filhos sofrem pressões terríveis de toda a sociedade, e em especial de suas próprias famílias de origem. Casais homossexuais que querem adotar, não podem. Mesmo casais hetero têm dificuldades diversas a enfrentar quando querem adotar, posto ser prioridade máxima que as crianças fiquem junto a seus pais biológicos. Tem gente que casa e tem filhos porque é normal, é o esperado, todo mundo faz isso. Nem se pergunta se é isso que quer, se vai lhe fazer feliz, se está preparado para isso. Especialmente, se está preparado para ser pai ou mãe, ou ambas as coisas ao mesmo tempo (o que é cada dia mais comum).

Tem gente que casa para não ter que ficar só, pois não se suporta. Ou vai dividir o aluguel com alguém, alugar um quarto para alguém em seu imóvel próprio, qualquer coisa para ter gente por perto, para não ter que ficar sozinho quando chegar em casa. Outros, que inevitavelmente acabaram sozinhos, arranjam cachorros, gatos, periquitos ou papagaios, de preferência assim, no plural. Bichinhos de estimação que serão tratados como filhos, alimentados, acariciados, educados e punidos, conforme a necessidade (do animal, ou do dono?). Mulheres viúvas ou divorciadas cujos filhos crescem e vão cuidar da vida são as que mais costumam "adotar" bichinhos de estimação. Outros, ainda, trabalham o dia todo, arrumam cursos sem fim para fazer de noite, e tratam de marcar diversos compromissos para o final de semana, tudo para não ter que ficar dentro de sua "casa vazia".

Algumas pessoas, quando se fala de segurança alimentar, ainda pensam exclusivamente na distribuição de alimentos crus, como acontece na distribuição de "cestas básicas". Mas quem iria prepará-los? Por que se pressupõe que cada pessoa faminta sabe preparar uma refeição de forma adequada, ou que há alguém por perto capaz de fazer isso por ela? Família é sinônimo de uma casa com fogão, geladeira, louças, talheres, panelas, e mãe. E mãe tem que saber cozinhar, tem que ter tempo para isso e, de preferência, deve adorar alimentar os filhos, o marido, e os pais ou os sogros que acabam indo morar ali... Pessoas solteiras não dispõem sequer de alimentos em quantidades adequadas, que consigam consumir até o fim, sem ter que jogar fora a metade. Tudo é produzido para atender a uma grande família!

Casa em que mora uma pessoa sozinha não pode ser chamada de lar. Lar é onde mora ao menos um casal, de preferência com filhos. Quer um exemplo? Na música "Notícia de jornal", de Haroldo Barbosa e Luiz Rei, temos que: "Tentou contra a existência num humilde barracão, Joana de tal por causa de um tal João. Depois de medicada, retirou-se pro seu lar. Aí, a notícia carece de exatidão. O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou"... Quer dizer que João, ao ir embora, levou consigo o lar? Que eu saiba, quem perde o lar é quem é "posto na rua", "posto para fora". Não quem fica só...

Quem sempre morou só não pode chamar a casa de lar, nem pode se dar ao luxo de querer tudo limpo e no lugar o tempo todo. Afinal, para quê? Quem vai ver? Exemplo? Em uma semana muito ocupada reclamei, em momentos diferentes, com duas pessoas que nem se conhecem (uma mulher e um homem que, por sinal, moram sozinhos) que, apesar de levantar cedo, acabava tendo dificuldades em ser pontual, pois não conseguia sair de casa sem deixar a cama arrumada, passar uma vassoura no chão... Os dois me responderam alguma coisa do tipo: "Mas por quê? Você mora sozinha, não tem que dar satisfações a ninguém..."

Este tipo de comentário me choca por dois motivos. Primeiro, porque demonstra a crença de que uma mulher só pode querer ter a casa limpa e arrumada se for para agradar outras pessoas. Se for apenas para ela ficar feliz, ter saúde (sujeira traz doença), ficar em um lugar bonito, não há a menor necessidade... Depois, por estas pessoas que me conhecem muito bem acreditarem que, caso eu tivesse um marido, eu faria coisas na casa por sentir que lhe devia "satisfações"...

Da mesma forma, me incomoda sobremaneira quando comento com alguém que não gosto de cozinhar, e deduzem: "É claro que você não gosta. Cozinhar apenas para si mesmo é muito chato!" É? Conheço mais de uma pessoa que adora cozinhar, e mora só, e continua adorando... E para quem não gosta de fazer comida, seria melhor cozinhar só para si, o quê e quando quisesse, ou para um bando de gente mal agradecida, cada um querendo comer coisas diferentes em horas diferentes, que o que costuma acontecer em uma família?

Família dificilmente é legal. Sejamos sinceros. As propagandas de margarina são feitas por extraterrestres... Quem se dá bem com todos os irmãos? Quem acha que recebeu do pai e da mãe amor suficiente? Quem realmente tem mais de um filho e ama a todos de forma exatamente igual? Quem não brigou com os irmãos por conta do amor dos pais? Quem não sabe que esta briga continua na hora da divisão da herança? Quem não gostaria de mudar totalmente algum membro de sua família? Quem, depois de muitos anos de casamento, pode dizer que não diminuiu o amor ou o respeito por seu cônjuge (fora a paixão, que saiu voando pela janela já nos primeiros meses ou anos)?

Família é o local de produção de violência doméstica, de grande parte do abuso sexual infantil, é onde principia o trabalho infantil... Família gera dependência econômica, emocional... Família exclui, traumatiza, marca. Família enlouquece. Mas parte do movimento antipsiquiátrico, que acredita que a loucura de um sujeito é sintoma da loucura de toda a família, quer acabar com todos os espaços de moradia alternativa do psicótico, e quer que ele more com a família. Não estou questionando acabar com os horríveis hospitais psiquiátricos onde a pessoa "em sofrimento psíquico" é tratada muito pior que um animal, mas devolver esta criatura justamente para a família que o enlouqueceu não é quase uma maldade maior ainda???

Falar em maldade, malvada sou eu, devem estar pensando alguns. Especialmente aqueles que foram abençoados com famílias relativamente legais. Malvada ou não, falo da realidade que vejo todos os dias. Falo de histórias que ouvi no meu consultório, da boca de meus amigos, no ônibus, nos banheiros públicos, em grupos de apoio, no movimento de mulheres... É verdade. Do jeito que a família está instaurada, com uma tentativa de predominância do homem, com uma divisão de tarefas injusta, com uma série de trabalhos domésticos sendo feitos por cada família separadamente, quando poderiam ser "terceirizados", com os filhos sendo considerados responsabilidade unicamente dos pais, e principalmente das mães, e tantos outros erros óbvios que não conseguimos mudar nestes zilhões de anos em que somos humanos, família não é, decididamente, o espaço de amor e segurança que tantos insistem em afirmar que é... Eu não perco a esperança de que podemos mudar. Mas, para isso, teríamos que querer mudar, todos nós. Teríamos que dar um basta. E, infelizmente, não acho que isso seja para logo.

Enquanto isso, vamos continuar aceitando (vamos?) estas leis e projetos ligeiramente anticonstitucionais, que parecem querer garantir a sobrevivência da raça humana, como se o mundo precisasse ser repovoado... Na verdade, acredito que, ingenuamente ou não, nossos governantes pretendem manter o status quo: muita mão de obra barata para o serviço braçal, a mulher muito ocupada com o serviço doméstico e os filhos para poder competir com os homens por conhecimento e mercado de trabalho em pé de igualdade, os filhos totalmente subordinados aos pais, inclusive através da culpa, o que vai levá-los a cuidar dos pais idosos, sem que o Estado tenha que se responsabilizar por isso... Mas este último item é assunto para uma outra conversa, um texto que estou evitando escrever, mas está me rondando há muito tempo, feito um fantasma. Uma hora sai... Por hoje fico por aqui, esperando que você não esteja me odiando muito...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Eu quero acreditar

Míriam Santini de Abreu


Eu e um grupo de amigas amamos a série estadunidense Arquivo X. São histórias que envolvem conspiração, alienígenas, fatos aparentemente inexplicáveis. Nela está expresso, explícito, o que de mais abominável há no modo de ser e de viver daquela sociedade. Mas também o que há de mais belo e arrebatador no ser humano.

E por isso tantas vezes falamos de nosso amor por Fox Mulder, que é protagonista da série com a personagem Dana Scully. Elaine Tavares prometeu fazer um texto sobre os motivos de nosso amor. Mas eu adianto que, para mim, um deles é a absoluta generosidade que move aquele personagem.

Há um comercial de televisão que menciona a generosidade, com o recado final de que é preciso “passá-la adiante”. Generosidade, no mundo capitalista, é como filantropia ou trabalho voluntário, algo que faz bem para quem a coloca em prática e que, para as empresas, rende bons ganhos no balanço da “responsabilidade social”. Não é essa generosidade que move Mulder. É a generosidade absoluta.

O fazer generoso dele é de qualidade diferente porque não se expressa como desejo de ser generoso, e sim como algo primordial, que nasce com cada gesto, que está nele como está a pulsão vital. Ele não precisa se lembrar de ser generoso.

Um dos episódios mais lindos de Arquivo X é sobre uma “gênia” que concede três pedidos a quem a liberta, mas o resultado nunca é o esperado pelo desejante – é desastroso! - e também a “gênia” jamais se liberta. Pois chega a vez de Mulder fazer os pedidos. O primeiro é a paz mundial, e ele se vê completamente sozinho no mundo. O segundo é para que o primeiro pedido seja revertido. Então Mulder pede à “gênia” que diga qual é o maior desejo dela própria. Ela responde que é a liberdade, a possibilidade de sair da prisão de eternamente atender desejos. E Mulder então usa o seu terceiro pedido para conceder isso a ela! O episódio termina com os dois bebendo café em uma lanchonete.

Lembrei-me disso porque eu procurava uma certa resposta, e não a encontrava. Então, por modos estranhos e sinuosos, a encontrei, e na mesma noite liguei para uma amiga para contar. E ela me disse que, naquele mesmo dia, estando numa igualmente estranha possibilidade de formular um pedido, desejou que eu encontrasse a minha resposta.

Li na Scientific American uma reportagem sobre cosmologia segundo a qual o Universo pode fazer parte de um multiverso muito maior que, como um todo, é simétrico no tempo. Em outros universos, o tempo pode fluir ao contrário, para trás.

Essas possibilidades fantásticas investigadas pela ciência me fazem pensar no quanto tudo o que aí está, visível ou não, é também sagrado, divino. E gosto de assim pensar porque a minha amiga, com seu gesto generoso, simbólico, abriu um portal por onde a minha “gênia” começa a se libertar.

Mulder, ao final deste episódio, certamente daria a Scully um adorável meio sorriso cheio de cumplicidade, nos olhos aquela expressão inefável: - Eu quero acreditar...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sindicato dos Jornalistas discute a palavra/crônica com Flávio Cardozo

Será no dia 28 de abril, 19h, Plenarinho da Assembléia Legislativa


Este ano completam-se 40 anos da edição do livro Singradura, a primeira das tantas obras de Flávio José Cardozo, jornalista e escritor catarinense. São 20 contos que se unificam na temática homem-mar e no cotidiano da gente simples desta ilha de Santa Catarina. Figuras como o músico Mané Flor, Ti´Orquídea, uma negra lavadeira, Marinês, Marcelina e Marília, que protagoniza o conto que dá nome ao livro, passeiam pelas páginas e nos oferecem o drama e a alegria de viver aqui. Mas, ao mesmo tempo, são histórias tão universais que poderiam acontecer em qualquer lugar do mundo.

A pena certeira de Flávio ao narrar estas vidas catarinas tem simplicidade e profundidade em equilíbrio. E nesse olhar sobre o dia-a-dia das gentes, concretizado em contos e crônicas, se revela o olho do jornalista. Aquele que vê a vida em movimento e que percebe a história humana em cada fato aparentemente comum da vida que escorre pelos dias.

O Sindicato dos Jornalistas, no projeto Círculo da Palavra, presta uma homenagem a este importante cronista catarinense e ao mesmo tempo busca um diálogo com estudantes e jornalistas, na discussão da crônica, gênero literário, mas também jornalístico, que tão bem Flávio usa para narrar a vida.

Para isso, realiza no próximo dia 28 de abril uma conversa com Flávio José Cardozo, às 19h, no Plenarinho da Assembléia Legislativa. A intenção é celebrar estes 40 anos da sua primeira obra e debater sobre a importância da palavra e da literatura no processo do fazer jornalístico.

O autor - Flávio Cardozo nasceu dentro do círculo do carvão, na pequena Lauro Müller, em 1938. Cursou Jornalismo na PUC/RS. Durante vários anos ocupou o espaço da crônica no jornal Diário Catarinense. Em 1965 venceu o Concurso Universitário de Contos em Porto Alegre; em 1967 o Concurso Nacional de Contos em Florianópolis; em 1968 o I Concurso Nacional de Contos em Curitiba; e em 1977 o Concurso Remington de Literatura no Rio. Seu primeiro livro de contos publicado foi "Singradura" (1970). Em 1978 lançou "Zélica e Outros". Ambos são ambientados na ilha de Santa Catarina, num tempo "mais ingênuo", em que a ilha ainda não era um pólo turístico agitado. O autor retrata com profundidade a condição humana e suas paixões mais elementares. Seus outros livros publicados são "Água do pote" (1982 - crônicas), "Sobre sete viventes" (1985 - crônicas), "Longínquas baleias" (1986 – contos), "Beco da lamparina" (1985 – crônicas), "Sofá na rua" (1988 – crônicas), "Tiroteio depois do filme" (1989 – crônicas) e "Senhora do meu desterro" (1991 – crônicas). Publicou também um romance, “Guatá”, que abre-se para o mundo mineiro, de onde saiu. Flávio José Cardozo é membro da Academia Catarinense de Letras.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Seminário sobre o Dia Internacional de Luta Camponesa

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Convidamos a todos e todas para o seminário sobre o Dia Internacional de Luta Camponesa. Sexta-feira, dia 16 de abril, às 18h30, no auditório do CED, haverá sessão de cinema com o documentário “Eldorado dos Carajás, 10 anos depois da chacina”, produzido pelo setor de comunicação do MST. E na segunda-feira, dia 19 de abril, às 18h30, no auditório do CED, haverá debate com representantes de diferentes movimentos sociais campesinos atuantes no estado de Santa Catarina.

Também confira abaixo a PROGRAMAÇÃO DA MARCHA do MST/SC

Em SC, haverá Marcha que terá inicio no dia 17/04, com grande Assembléia Popular a partir das 14:00 em Itajaí, na Marejada. A pauta em debate terá pelo menos três temas: A Reforma Agrária; A Criminalização dos Movimentos Sociais; a Campanha “O Petróleo tem que ser nosso”.

A Marcha inicia no dia 18/04, às 7:00 h, saindo da Marejada até a Santur – BR 101, e daí até a Comunidade Indígena M’Biguaçú, em Biguaçú,

Nos dias 19 e 20, em Florianópolis, mobilização nos órgãos responsáveis pela Reforma Agrária e atividade de solidariedade e compromisso com a soberania alimentar, demonstrando o resultado da distribuição da terra e a valorização do ser humano. Serão entregues ao Projeto CEDEP, na Comunidade Chico Mendes, mais de dez toneladas de produtos vindos dos Assentamentos.

A Marcha contará com a participação de pelo menos 700 militantes, que virão de todas as regiões do Estado, dos Assentamentos e Acampamentos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Socialismo do Século XXI abre as Jornadas Bolivarianas

Elaine Tavares

Começou na segunda-feira a sexta edição das Jornadas Bolivarianas, evento principal do Instituto de Estudos Latino-Americanos, que reúne pensadores de vários países da América Latina, e também da China, para um debate sobre o socialismo. A palestra de abertura foi com o teórico alemão, radicado no México, Heinz Dieterich.

A mesa de abertura foi composta pelo reitor em exercício Carlos Alberto Justo da Silva, que ressaltou a importância dos IELA no contexto dos estudos latino-americanos. Disse ainda que a América Latina tem desafios históricos e que cabe a universidade fazer uma reflexão crítica sobre eles. Representando a classe trabalhadora esteve Rinaldo Irineu de Souza, diretor do Sinergia, que falou sobre a luta dos trabalhadores, ressaltando que o Sinergia tem pautado sua ação no caminho de uma alternativa de esquerda. Ricardo Oliveira, diretor do Centro Sócio-Econômico, disse que estava duplamente feliz. Primeiro por estar mais uma vez num evento do IELA e segundo porque, agora, o Instituto está formalmente ligado ao CSE. Já o presidente do IELA, Waldir Rampinelli fez um breve retrospecto sobre o tema socialismo e sobre como outros modos de organizar a vida foram se extinguindo ao logo da história, deixando claro que o capitalismo também pode ter um fim. Participou da abertura também o chefe do departamento de Economia, Helton Ouriques.

O socialismo do seculo XXI

Logo em seguida o professor Heinz Dieterich iniciou sua conferência falando sobre o programa de transição econômica que apresentou em fevereiro na União Européia. Heinz lembrou que esta conversa sobre socialismo do século XXI começou na Venezuela. “Foi grande o debate, mas não redundou em profundidade, o que significa que, lá, não há grandes avanços na consciência anti-capitalista”. No Brasil o debate tem sido pífio por conta da ideologia do PT e, na mídia, quando aparece tem caráter pejorativo. “Eles falam de socialismo do século XXI ligando-o à Chávez e ao comunismo no que há de mais atrasado”. Na verdade, diz Heinz, este é um combate contra um fantasma porque na Venezuela não foram criados quaisquer mecanismos ou instituições que tenham saído do sistema capitalista. ‘É fato que aquele é um governo mais democrático, tem referendo quando o povo quer, tem eleições limpas. Mas a economia é a de mercado. Não há socialismo, a empresa privada segue sendo fundamental, os meios de comunicação são privados. Então falar de socialismo na Venezuela de Chávez é confundir as gentes”.

Segundo Hienz, para entender o caráter econômico da Venezuela haveria que se voltar a Vargas, Perón, Cárdenas, Allende ou Simón Bilívar, porque o modelo econômico de todos eles é o da Grã Bretanha, de um nacional desenvolvimentismo. Lá na Inglaterra, eles precisaram de relações de produção e de distribuição, então criaram o capitalismo protegido pelo Estado. Foi assim que os ingleses conseguiram tanto poder. Eles tinham o discurso de livre comércio para os outros, para distrair os competidores, mas, na prática, faziam o contrario, conquistando a Índia, a África. Criaram o capitalismo desenvolvimentista. “E isso é que está fazendo Lula , por exemplo, então o capitalismo de estado que FHC critica em Lula está ancorado neste modelo que foi uma coisa extraordinária. Os libertadores da América também pensavam nesta saída, enquanto os conservadores queiram o livre comércio. E, na disputa, venceu a o livre comércio, eram os neoliberais daquela época”. Mas, os governos mais à esquerda que se expressaram na América Latina eram nacionalistas desenvolvimentistas e avançaram porque estavam mais próximos do povo. Por isso vieram os golpes de estado contra eles, as ditaduras.

Segundo Heinz, depois de 1994 começou uma nova fase de desenvolvimento aqui na América Latina. Chávez a inaugura na Venezuela, depois vieram Evo, Correa e em alguma medida Lula e Kirchner. É quando começa a crescer a economia. Chávez começa a falar em socialismo e a oligarquia usa isso para combatê-lo. Porque já não podiam mais combater estes governos por populistas ou ditadores, então passaram a golpear com o tema socialismo. “Mas não existe socialismo na América Latina. E eles não podiam acusar estes presidentes de estarem sendo desenvolvimentistas, então usam o tema socialismo para assustar os conservadores”.

Heinz comentou então as diferenças que existem entre a idéia de socialismo do passado e a do socialismo do século XXI e em primeiro lugar observou que com Marx aparece o socialismo científico, baseado no materialismo dialético, que em última instância significa que tudo está em movimento. “Materialismo significa que tu reconheces um mundo fora de ti, objetivo, independente do observador, e dialético se refere ao movimento. O único que existe no universo é a matéria, ela tem extensão física e aí nasce o espaço, tem corporalidade e está em constante movimento, o que significa mudança. Por isso é ridícula a idéia de Francis Fukuyama, porque contraria o axioma do cosmos. Conhecer esse movimento pressupõe que podemos prever os desastres econômicos, assim como prevemos os furacões. Isso é ciência”.

O teórico alemão recordou que Lenin tentou implementar o socialismo, experimentar na prática, mas as condições não o permitiram, surgindo então o bolchevismo, a economia planificada. Isso colapsou e hoje aí está outra concepção do socialismo, que chama do século XXI. “É uma democracia participativa, com economia planejada no valor do trabalho e não no valor de mercado. São diferenças abissais. Por exemplo, em nenhuma constituição do mundo é o povo que decide se o país vai para a guerra. A decisão está na mão de uma pequena elite. Nesta democracia burguesa o dinheiro tem uma influência tremenda. Exemplo: a taxa de milionários nos Estados Unidos é de 1% da população, mas no Congresso Nacional é de 60% a 90%, ou seja, é uma plutocracia. Mandam os ricos, que são minoria”. Por conta disso, um sistema de voto secreto e universal por si só não significa democracia.
Pois o socialismo do século XXI propõe outra forma de organizar a vida, democratizando não apenas a política – com outras formas de eleição – mas também a economia, a cultura e o poder militar. “O orçamento deveria ser decidido pela população, outras questões da economia também. Com a televisão e a internet se poderia informar e formar os cidadãos”.

Essa minoria pretende continuar apostando na economia do mercado, acreditando que o mercado tem mais eficiência para coordenar o processo, que essa é uma área complexa e não pode ficar nas mãos de um partido ou das gentes. Isso não é mais crível. “Há que clarear essa mentira. Na União Soviética o socialismo não naufragou por conta da planificação. Toda a economia é planificada, inclusive a de mercado. Até no neolítico 10 pessoas tinham que planejar como caçar um veado. No capitalismo também há planejamento. Mas tanto no socialismo soviético como no capitalismo era uma minoria que fazia isso. Não havia a consulta ao povo. No socialismo do século XXI tem de haver essa participação, essa planificação precisa ser democrática”.

Heinz também avança na proposição de outra medição do trabalho. Hoje , o preço de mercado é uma expressão de poder, o aumento de salário só vem se houver sindicato forte, lutas descomunais, competições. Os empresários tem o poder, dirigem e controlam a economia. No socialismo pode-se ter outra medida de valor, a quantidade de energia, a quantidade de informação ou valor do trabalho. “No socialismo do passado a propriedade privada era considerada o grande mal, havia que acabar com ela. Os social-democratas encontraram um jeito de mantê-la. Elas seguem privadas, mas pagam impostos que serão distribuídos. Não deu certo. No socialismo de hoje, não importa quem tem os meios se for tirada do empresário a faculdade de explorar o trabalhador. Cada trabalhador tem direito ao valor total do seu trabalho. Se trabalha por 40 horas recebo produtos e serviços igual aos de 40 horas. O que não há é a permissão de enriquecer”.

No socialismo do século XXI, diz Heinz, também não cabe haver partido único, porque se trata de trazer ao povo mais democracia. Hoje a conformação de classes é diferente da do tempo de Marx. “Nesta fase de transição é preciso organizar as forcas em um centro comum, um centro de gravitação comum, mas não única, como a Frente Amplia, no Uruguai. Não é partido único. Não queremos monopólios nem na economia nem na política.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

De boa, no socialismo

Por Elaine Tavares - jornalista

Outro dia alguém reclamou da vida em Cuba. Gente que nunca foi lá, inclusive. “O povo não tem liberdade. Não pode comprar as coisas boas da vida. Não tem transporte de qualidade, não tem carros bons e nem acesso a internet. Eu tô fora dessa história de socialismo!” Aquilo me deixou a pensar. Tem gente que nunca poderia viver no socialismo mesmo. Isso é fato.

Mas, eu, penso que poderia ser muito feliz no socialismo. A mim, encanta a idéia de que qualquer pessoa possa estudar, fazer uma faculdade, sem pensar no sacrifício para pagá-la. Enche-me de profundo prazer saber que eu teria bibliotecas de qualidade a minha disposição. Que haveria atendimento de saúde gratuito e que um médico viria na minha casa quando eu precisasse, sem cobrar nada. Agrada-me saber que eu viveria numa sociedade que primasse pelo equilíbrio entre os seres humanos e a natureza, e onde eu pudesse participar de tudo, não apenas de eleições quadrianuais.

Também não teria problema nenhum em não ter acesso a roupas de marca. Hoje não tenho. Meu salário não alcança e eu tampouco me importo com isso. Também não me faria falta um carro zero, ou DVD, ou qualquer outra bugiganga tecnológica. A gente pode viver sem isso se houver espaços públicos de lazer, como penso deve haver no socialismo. Acesso a internet o socialismo pode ter, por que não? Em Cuba não há porque as empresas de provedores impedem. Não é o governo socialista que impede isso. As novidades tecnológicas são construções coletivas da humanidade, portanto todos tem o direito de ter acesso.

Igualmente poderia viver feliz num lugar onde eu ganhasse segundo minha necessidade, e pudesse ter acesso ao teatro, cinema, música. Onde a gente recordasse com alegria os nossos heróis. E que nas noites de sábado pudesse tomar um bom rum ou uma cerveja. Claro, não poderiam faltar pulseiras e colares, mas tudo poderia ser produzido com coisas da natureza, feitos à mão. Eu gosto de tudo o que é simples. E o cabelo? Bom, se não houvesse xampu ( e em Cuba só não tem por conta do embargo criminoso) eu poderia lavar a cabeça com sabão de coco e se o cabelo ficassem meio pastoso eu o transformaria em dread. Ficariam igualmente lindos.

Assim, sem qualquer dúvida, o socialismo me encanta e eu caminho nessa direção. Por isso luto e vivo. Eu viveria de boa num regime assim. Sei que tem gente que não conseguiria. Tudo bem, respeito. Mas eu quero tanto isso. Viver feliz, de boa, em harmonia, em paz. Cuidar dos meus e saber que eles estariam bem. Não precisar ouvir, como ouvi ontem na televisão, que os pobres que morrem nas tragédias de inundações e terremotos são os culpados por isso. “Eles não deveriam estar nas encostas”, disseram Lula e Sérgio Cabral. Ah, tá, e onde estariam? Em Copacabana?

No socialismo, penso eu, não haveria miseráveis e as gentes se apoiariam nas tragédias e dançariam nas festas, como iguais. A riqueza seria repartida, não haveria abismos. Eu viveria feliz com meus gatos e cães. As gentes viveriam felizes, “compartindo”. Ah, eu quero esse socialismo, e quero muito... Idealismo? Tá bom, pode ser... Mas enquanto idealizo, construo. Profeta, vivendo hoje o amanhã esperado!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Bahia de Euclides da Cunha

O documentarista Carlos Pronzato não para. No dia 14 de abril , em Salvador, ele lança o documentário A Bahia de Euclides da Cunha (55 minutos). A partir de depoimentos de estudiosos da obra de Euclides da Cunha e conduzidos pelo escritor Oleone Coelho Fontes (autor do livro Euclides da Cunha e a Bahia (ensaio biobligráfico, editora Ponto e Vírgula, 2009) o documentário oferece um panorama dos passos de Euclides da Cunha na Bahia, quando esteve no estado em 1897 durante a Guerra de Canudos, imortalizada no seu livro “Os Sertões”.

Roteiro, Câmera e Direção: Carlos Pronzato

Edição: Rogério Araújo

Produção Executiva e Entrevistas: Oleone Coelho Fontes

Música: Gereba

Realização: La Mestiza audiovisual

Apoio: Centro de Estudo Euclides da Cunha da Universidade Estadual da Bahia (UNEB).

Contatos para aquisição do documentário:

cpronza8@yahoo.com.br

pronzato@bol.com.br

71 3345 1268

71 9214 4402

catálogo:

http://www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com/

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As brumas

Míriam Santini de Abreu

Há um tempo a minha amiga Elaine Tavares escreveu um texto no qual fala sobre amizade e solidão. Ela o conclui assim:
“Iniciada nas coisas dos deuses, eu sempre optei pelo caminho de Morgana. Sem vazios na alma, sem autocomiseração. Mas, sozinha, domo minhas próprias ondas e navego, apesar da névoa, por que sei que, nas brumas, me espera a inefável deusa, a mãe. Então, não há motivos para ter medo de solidão ou tristeza. No sagrado, tenho a melhor companhia.”
Depois de ler o que ela escrevera, eu perguntei, rindo:
- Sim, Elaine, mas... será que em meio às brumas eu posso emparelhar o meu barco com o teu?
Pessoas como eu, que moram longe da família de sangue, compreendem o valor da família de afeto, aquela que a gente forma ao longo da vida. Tanto com uma quanto com outra às vezes a gente briga, se desentende, se interpreta mal. Sobre ambas a gente às vezes despeja fraqueza demais, cobrança demais. Mas quem tem família de sangue longe e conta tremendamente com a família de afeto sabe: sem ela a dor da vida seria como um buraco negro numa galáxia desconhecida, consumindo até a Luz.
Eu me imagino no meio da bruma, na mais negra das noites, no mais ameaçador dos mares, berrando:
- Ahhhhh, perdi os remos, caiu a vela, nada vejo! Por deus, o que faço?
E as mulheres e homens da minha família de afeto gritam:
- Míriam, estás no barco?
- Siiim – balbucio, cheia de medo.
E ouço deles a resposta:
- É o que basta. Espera, minha querida, porque em breve soprará o vento. E nós vamos te esperar no cais...