sábado, 30 de abril de 2011

VIVA o 1o. de MAIO

EDITORIAL do Portal DESACATO

Compromisso com os Trabalhadores, compromisso com a transformação.

O Portal Desacato envia uma mensagem de esperança, solidariedade e fraternidade a todos os trabalhadores, empregados ou desempregados, bolsistas, estagiários, terceirizados, contratados, diaristas, homens e mulheres, jovens e veteranos, explorados todos neste momento brutal da ofensiva neoliberal do imperialismo, que derrotado cada dia mais nas urnas, reinicia a tenebrosa campanha dos anos 70 e 80 do século passado. As direitas endógenas dos governos de alguns países democráticos progressistas servem à agenda de Washington e a União Européia. Trabalhadores exemplares da nossa profissão de jornalistas e da nossa vocação de comunicadores sociais têm sofrido atentados como Arnulfo Aguilar de Rádio 1 em Honduras, ou uma injusta deportação como o companheiro Joaquín Pérez Becerra da agência Anncol. De novo as razões de Estado, desse Estado burguês, burocrata e inumano, estão enfrentadas ao povo trabalhador, às lutas dos pobres. Os governos progressistas patinam depois de avanços incontestáveis na esteira da moralidade da igreja e da oligarquia: a paz dos cemitérios, a conciliação do irreconciliável, a longa vida da ordem do mercado e das posses hereditárias. Há que ampliar o debate, há que instigar, provocar, questionar, criticar e auto-criticar, propor e fazer. Há que mudar a correlação de forças, também na comunicação. Há que conquistar a Soberania Comunicacional, sem esquecimentos nem perdões.

Este espaço, já no seu quinto ano editorial quer afirmar neste dia seu compromisso com A Classe Trabalhadora, com sua cultura, com sua esperança e com sua trajetória de Luta. Reafirma a necessidade de repor as conquistas sociais perdidas para o neoliberalismo. As reivindicações da classe e a Resistência Popular na batalha diária contra os oligarcas, os ricos, a classe média indecisa, as seitas intolerantes, os exércitos de repressão, são a semente que nutre os conteúdos deste Portal. Até na mais doce e romântica linha de poema, crônica, até na notícia cultural, passando pela linha de cada trabalho de Kalvellido e Lloyd Dangle (em breve, também o maravilhoso Zardoyas estará à sua disposição em Desacato), e nas entrevistas e análises de toda natureza, há inspiração na aliança indivisível com os excluídos, os segregados, os explorados, os oprimidos.

Estendemos e consolidamos nosso compromisso de servir à Rede Popular Catarinense de Comunicação – RPCC, e cumprir com suas necessidades e com a formação e integração de novos e novas companheiras para melhor expressar e descrever as demandas de transformação que Outro Mundo Imprescindível exige.

Conselho Editorial

Viva o 1º de Maio

Viva os Trabalhadores

Liberdade para Joaquín Pérez Becerra

Por Um Outro Mundo Imprescindível

Pela Soberania Comunicacional

www.desacato.info

terça-feira, 26 de abril de 2011

Abismada

Míriam Santini de Abreu

Este 26 de abril marcou o final de um ciclo para mim, completo no absurdo de suas circunstâncias e coincidências. Como uma pedra jogada na água, formando tantos deles, fechou-se um dos longos, daqueles que ficam mais distantes do ponto onde a pedra furou o líquido. Estou em débito com os amigos, mas que me compreendem, porque são amigos, e sabem o que essas semanas significaram para mim. Eu conversava nesta terça com um conhecido sobre isso: coisas boas podem durar 5 segundos ou 50 anos. Quando terminam, nunca foi o suficiente. Humanos, demasiado humanos...
Mas, como diz Leila Pinheiro nesta música que me sopra minuanos, "só pra quem fica os dias são todos iguais". Eu vou me atrevendo a seguir, como Anahy de las Misiones, sabedora de que, para frente ou para trás, há abismos. Mas "adelante", porque se abismo há lá na frente, também há a vida a nos abismar. Dos abismos de trás já sei, nem sempre os compreendo, mas aprendo a amá-los porque me trazem aqui, agora, nessas madrugadas quietas de outono em que agradeço, aos meus ancestrais, pela minha vida, tão antiga, tão jovem.

http://letras.terra.com.br/leila-pinheiro/66086/

segunda-feira, 25 de abril de 2011

P&N na Travessa Ratcliff



A edição 26 da Revista Pobres & Nojentas já está circulando com reportagens sobre Florianópolis e o especial "P&N na América Latina", com reportagens feitas no México e na Argentina, além de crônicas, artigos e poesias. A partir desta edição contamos com um novo companheiro, o poeta Uby Oliveira, que divulgará seu trabalho na contracapa da revista como parte do projeto "A poesia nos bares da Ilha". O lançamento foi no dia 15 de abril, na Travessa Boêmia Bar e Petiscaria, localizada na Travessa Ratcliff , Centro de Florianópolis. As fotos são do colega jornalista Gilberto Motta, que também assina texto na contracapa desta edição.

DESACATO transmitirá Ao vivo o Seminário "Para além do nosso umbigo: os desafios da imprensa sindical"

O evento, organizado pelo SINDPREVS/SC, será nesta quinta-feira, 28

A cobertura estará a cargo de Wilmar Frantz Jr. que se encarregará desta primeira experiência de transmissão audivisual do Portal, e a cobertura escrita será da colega Lidiane Ramos Leal.

Assim como aprendemos a retransmitir e transmitir juntos com Rádio Globo Honduras e Globo TV Honduras, realizamos agora nossa primeira experiência de emissão ao vivo, com material tecnológico disponível para qualquer pessoa leiga no assunto.

Anunciamos também que nesta semana inaugura seu trabalho de charges em Desacato o compa estadunidense Lloyd Dangle, em português e espanhol, com tradução e versão da colega Tali Feld Gleiser. Esta presença soma qualitativamente ao trabalho notável que sem pausa realiza nosso querido Kalvellido desde Málaga, Espanha.

Também lançaremos, em 1o. de Maio, em homenagem aos Trabalhadores, a Biblioteca Virtual do Portal Desacato, que visa publicar periodicamente livros, pesquisas, ensaios e coleções de artigos dos companheiros colaboradores de Descacato no mundo. O livro inicial é do companheiro Juan Luis Berterretche, e inclui uma entrevista nossa e a produção e apresentação de Wilmar Frantz Jr.

Lembramos que neste mês temos publicado com muito sucesso e com a réplica na RPCC os trabalhos iniciais de Lívia Monte e Ana Luiza Lucena, assim com em março tinha sido com a estréia de Lidiane R. L. Desacato evolui aos poucos, aqui e fora do Brasil, em conjunto com a Rede Popular Catarinense de Comunicação, e temos recuperado o estilo que trazíamos até 2008, com sucesso, a tradução de alguns colegas (Carola Chávez e Julio Rudman, por agora) ao português, além do novo espaço: Crimes Imperialistas da Semana, em português e espanhol.

Para pensar o esporte em Santa Catarina

Neste dia 26 de abril, terça, às 19h, na galeria de arte da Assembléia Legislativa, acontece o lançamento do livro “A Miséria do Esporte”, do professor Nilso Ouriques, da UNOESC. No livro ele explicita como o esporte catarinense, via lógica dos Jogos Abertos, tornou-se um negócio. O que vale é o evento e não o esporte em si. No trabalho, pode-se saber de boa parte das artimanhas que se movem nos bastidores, a política que rege a escolha dos dirigentes e a falta de compromisso com a alegria e a saúde que o esporte proporciona.

O professor de Joaçaba, ligado à Rede de Estudos Latino-Americanos (REBELA), coordenada pelo IELA, apresenta uma pesquisa bem fundamentada e mostra, com dados concretos, os problemas do setor, chamando a atenção para o fato de que em Santa Catarina, como em todo o país, os sindicatos e movimentos sociais deveriam dar mais valor ao esporte e prestar mais atenção na política que move o setor.

Este é bom momento para conversar com o autor e alavancar medidas de luta.

Dia 26.04.2011

19h

Galeria de Arte da Assembléia Legislativa

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A pequena marca da loucura

Míriam Santini de Abreu

Não sei se é coisa do ofício ou se é do humano. Eu, galé no mar, onde navegam tantas outras, sinto com freqüência o pulsar dos remadores. Se estão famintos, saciados, cansados, bem dispostos. Sinto quando alguém ergue um muro invisível em volta de si, tensa a musculatura, embaçados os olhos. E se muro há, respeito e me mantenho longe. Mas os que amo são aqueles que, remando na galé do corpo, roçam em mim a alma. Duas galés que se tocam, e os remadores dentro de cada uma farejam águas, temperos, suores em comum. E mais: farejam no outro "a pequena marca da loucura". E quando estão em terra, galés e remadores, os vejo sorrir, lavar peixes na madrugada, lançando um ou outro aos telhados, onde aves os levarão de volta às águas. Não sei o que instiga o farejar, não sei porque galés passam, tantas, e mal as diviso no horizonte. Não sei porque, num vespertino ou num matutino, uma certa galé um dia sai do nevoeiro leve e choca-se com a minha. Mas não adernam. Se enlaçam, duas galés no mesmo tempo, no mesmo espaço, a balançar nas mesmas águas, com remadores a farejar, um no outro, suas pequenas marcas de loucura. Na verdade, sei. Mas não compreendo, e nem quero compreender. Se a gente compreende demais, fica com pudor de farejar. Com pudor de viver.

http://www.youtube.com/watch?v=OlnJL4Mv1vM&feature=player_embedded

Mudanças de trânsito na UFSC

Elaine Tavares

Uma equipe de professores da UFSC apresentou há poucas semanas o seu plano para o trânsito no entorno da universidade. Isso tudo porque é cada dia mais difícil chegar ou sair da UFSC. Os caminhos que vem da região da Costeira, tanto a subida pela Capitão Romualdo como pela Edu Vieira são totalmente trancados. O motivo não é outro senão o número de carros. Carros demais. De manhã é assim. Na ida para a UFSC as duas vias estão engarrafadas. No final da tarde igualmente.


Pois a proposta de solução para o problema é tornar a Edu Vieira uma via de duas pistas, só de ida, e a Capitão Romualdo com as duas pistas só de vinda. Mão única. Sinceramente, não vejo como isso pode melhorar o trânsito. O fluxo que hoje se move devagar em direção a UFSC vai seguir igualzinho em duas vias. Não há diferença nenhum, a não ser que a fila ficará lado a lado e não em vias diferentes. Mas que idéia de jerico é essa?


Como se não bastasse isso, ainda tem mais. A idéia é fechar totalmente o campus da UFSC para os ônibus. Nenhum mais entraria. Segundo o professor que explicou a proposta: “não há sentido nenhum em os ônibus entrarem na UFSC”. Ora, é claro que o senhor em questão não deve usar o ônibus. Hoje, já é um parto pegar ônibus na UFSC, principalmente a noite, porque, dependendo a rota, a pessoa precisa atravessar o campus. Imagine que a criatura esteja no CFH e queira pegar o Direto. Tem de atravessar pela escuridão da região do Básico até a parada em frente ao CSE. Aquilo ali é um perigo diário. Há anos que se reivindica a administração da UFSC uma melhor iluminação. Mas nada é feito.. . Até que venha uma tragédia.


Se a mesma criatura que está no CFH precisa pegar o ônibus para Canasvieiras, tem de atravessar a escuridão do Básico, passar pelo escuro do caminho da Biblioteca, até a parada em frente ao Banco do Brasil. E assim por diante. É um verdadeiro suplício, além de perigoso.



Pois a proposta dos “técnicos” é jogar as paradas para fora da UFSC, para além das rótulas, o que significa que as pessoas precisarão andar muito mais para chegar à parada. Ou seja, já temos o pior transporte público do país, o mais caro, o mais demorado, o mais cheio e se assim for, na UFSC, o mais distante.


Sinceramente, rogo aos técnicos, professores, engenheiros, enfim, estes todos que se arvoram em saber o que é melhor para as gentes, que ouçam os que sofrem o transporte. Já basta de pensar a cidade para os carros. Há que facilitar a vida das pobres criaturas que precisam enfrentar as desgraças do busão. Basta de complicação. Já é dureza demais ter de enfrentar o transporte desintegrado que nos obriga a levar de duas a duas horas e meia para chegar ao trabalho e à casa.


A única possibilidade de aceitação das duplicações da Capitão Romualdo e da Edu Vieira é se elas forem abrigar um corredor exclusivo de ônibus. Uma via fica para os carros, que seguirão na mesma de hoje. Mas a segunda seria para os ônibus, que cruzariam rápido e chegariam à UFSC em 10 minutos. Seria uma medida que privilegiaria o transporte de massa, enfim. E ônibus seguiriam passando por dentro da UFSC para que a gente pudesse entrar neles sem precisar atravessar os escuros, para que a vida ficasse mais fácil e a gente pudesse chegar as nossas casas mais cedo. Pensem nas gentes, senhores, nas gentes... Ao diabo com os carros. A cidade é das pessoas!

terça-feira, 19 de abril de 2011

“Essa saudade que eu sinto de tudo o que eu ainda não vi”

Míriam Santini de Abreu

Foi estranho e intenso, para mim, este 19 de abril. A cada segundo testemunhamos o tempo atravessar o nosso corpo e ali imprimir dor e prazer. Mas, quando a vida não nos distrai em demasia, nos é dado um saber raro: testemunhar a dor e o prazer na vida de outros seres e com eles compartilhar beleza. E eu não ando distraída.

Esse compartilhar – partilhar junto – é experiência poderosa no amor, nos afazeres diários, no trabalho. Eu a estava vivendo no trabalho, e, como experiência poderosa que é, acaba se enredando em tudo o mais. O meu partilhar junto me fazia sorrir de manhã, porque o dia iniciava, e até chegar a noite havia um mundo sobre o qual se debruçar, estudar, olhar e, especialmente, mudar.

Neste 19 de abril, o partilhar junto se quebrou. Passava da meia-noite quando cheguei em casa, e uma fissura havia se aberto, fissura que virou cratera. Mas já sei que um fim é sempre um começo. E começa, sim, a gente estando distraída ou não. Chorei sozinha, mas sabendo que o sentimento que me encharcava era compartilhado pelos que, assim como eu, partilharam juntos.

Por isso, oferto dois presentes aos colegas do Gabinete do Vereador Lino Peres e a ele: um trecho de Nietzsche e uma música do Legião Urbana, porque deste dia não vou esquecer:

“O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento. Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado (...)

Amo aquele cuja alma é profunda, mesmo na ferida (...)”.

http://www.youtube.com/watch?v=ErCDzyr2qc8

Campeche se mobiliza contra a destruição

Elaine Tavares

De repente, desde há dois anos, a praia do Campeche se encheu de gente sarada, adepta do frescobol. Mas não aquele jogo delicioso, que se joga relaxado, brincando. Não! É um frescobol de força, vitrine de bíceps, bundas duras, corpos bronzeados. Gente muito “bem nascida”, criada a Toddy. Nada contra que eles estejam no Campeche, afinal, a praia é pública. Mas, o tal do “point”, chamado de “riozinho” foi uma invenção, destas que se cria a cada verão. A mídia encontrou ali um filão, um lugar privado que se dispunha a ganhar dinheiro dos graúdos da cidade, e decidiu apostar na ideia. Então, de velhas e conhecidas bocas alugadas começaram as loas ao lugar. “Melhor pico do verão”, “espaço de natureza exuberante”, “lugar propício para as crianças”. E assim foi, dia após dia, na RBS TV, e nos demais veículos do mesmo grupo, praticamente monopólico na cidade.

Estava em andamento uma agressiva campanha de ocupação dos espaços do Campeche. Este era um bairro que ainda resistia aos ataques dos grandes empreendimentos, porque ancorado num forte movimento popular e comunitário. Mas as terras do sul estavam sob o olhar guloso de empreiteiras e grandes especuladores. A campanha midiática deu resultados. Os granfinos vieram para o “paraíso”, a praia, e, pouco a pouco começaram a pipocar os empreendimentos de luxo, com toda a sorte de irregularidades e desrespeito ao modo de vida escolhido pela comunidade.

Com a ascensão do moderno espaço do “riozinho”, veio também a guerra contra o tradicional, apontado como velho, ultrapassado, e até ilegal. As “autoridades ambientais” passaram a questionar a presença do Bar do Chico na praia, e usavam como argumento o fato de ele estar em cima das dunas, portanto, “destruindo a natureza”. Mas, enquanto se travava na Justiça a batalha para destruir o bar que era espaço comunitário, patrimônio cultural, as grandes construções começaram a ser erguidas, muitas delas também sobre as dunas, como é o caso da casa do tenista Guga. Só que estas não eram questionadas.

Assim, a comunidade passou a se mobilizar para defender o bar, e muitas manifestações foram feitas. Aconteciam reuniões, encontros, mobilizações. O bairro fervia na tentativa de barrar o absurdo. Afinal, o bar praticamente estava incorporado à natureza desde os anos 80 e era parte da vida das gentes, nas festas populares como o carnaval e nas religiosas, como a Páscoa e o Natal. Pois, o Bar do Chico foi o bode na sala. Enquanto as forças vivas do bairro andavam as voltas com documentos e reuniões, a mídia incensava as belezas do lugar e os empreiteiros erguiam seus condomínios de massa.

Numa triste manhã chuvosa as máquinas derrubaram o Bar do Chico e, aturdida, a comunidade viu que, bem ali, em frente ao bar, estava um condomínio gigante pronto para privatizar as dunas com um “belo” deck, onde antes estava o tradicional espaço comunitário. E mais, por toda a parte surgiam novos outros condomínios, bate-estacas, rebaixamento de lençol freático, ilegalidades. Tudo sob o beneplácito da lei. Ou seja, a questão do bar do Chico não era sua ilegalidade, já que tem dezenas de construções ilegais na praia. Era uma derrubada política, uma rasteira na história da comunidade.

O bairro cresceu vertiginosamente sem que crescesse com ele a estrutura para manter a qualidade da vida, tão típica do lugar. Sem mobilidade, sem rede de esgoto, a vida começou a deteriorar. Pessoas inescrupulosas e sem qualquer compromisso com a natureza passaram a também cometer sua fatia de ilegalidade e, com as obras da Casan para a implantação do esgoto, ligaram seus esgotos a rede pluvial, fazendo com que os dejetos começassem a correr para o mar e para os rios que ainda vivem no Campeche.

Mas todas estas coisas não aconteceram sem luta. Desde os anos 80 que a comunidade se organiza e mantém uma série de movimentos na defesa do seu modo de vida. O lixo, o esgoto, a cultura, o Plano Diretor, em todas as áreas tem gente se mexendo. A Associação dos Moradores do Campeche, com a ação vigilante de seu presidente, Ataíde Silva, tem feito um trabalho gigantesco de levantamento de dados, de fotografia, de fiscalização. Cada denúncia de esgoto sendo lançado na rede pluvial é investigada e canos são lacrados quase que diariamente. Há um batalhão de pessoas atentas, discutindo, propondo, e lutando. Este é um trabalho cotidiano. Há mais de cinco anos, os representantes destas entidades se reúnem, religiosamente, todas as segundas-feiras, no Clube Catalina. Ninguém nunca esmoreceu na batalha pela vida digna, por um lugar preservado e de qualidade.

Este ano, de novo, promovido pelo mesmo jornalista que criou o “point” do riozinho, o lugar foi palco de um show internacional, dentro da lógica dos mega-shows. A comunidade reagiu, como sempre fez quando a vida por ali é ameaçada. Ainda assim coisas “mágicas” aconteceram como, por exemplo, a empresa conseguir licenças ambientais em tempo recorde. Na verdade a magia foi feita pelo vice-prefeito que liberou o show e assumiu todos os riscos. Ou seja, seguindo o padrão de “para os ricos, tudo”, a prefeitura afrontou os movimentos populares e abriu as dunas para a destruição. Tripudiando não fez um, mas dois shows.

O Rio do Noca tem história

Pois agora, como se a comunidade do Campeche fosse formada por um bando de imbecis e incapazes, a mesma criatura midiática inventou de comandar um projeto de “salvamento do riozinho” que, segundo ele, estaria correndo o risco de estar poluído. Um evento, apenas, sem qualquer compromisso com a luta de décadas. Em primeiro lugar, aquele não é um “riozinho” sem identidade. É o Rio do Noca, que tem uma história de ligação visceral com a gente deste lugar como bem define o morador do bairro, Adir Plácido Vigânigo: “... O Rio do Noca como foi denominado pelos moradores nativos do Campeche há quase um século, precisa ser cuidado com muito respeito. Pois nele, muitos pescadores aprenderam a remar nas canoas de remo de voga, muitos aprenderam a nadar (entre elas eu), muitas mulheres lavaram roupa, muitos campistas banharam seus filhos, beberam sua água, muitos agricultores deram de beber a seus animais. Nosso Rio do Noca tem história. Não essa história que estão tentando contar, a da faixa de areia que é atravessada pelo Rio e chega ao Mar. O Rio do Noca na praia do Campeche define o limite da pesca da Tainha entre a rede do Seu Chico (Francisco Daniel) e a rede do seu Aparício e Getúlio (antes rede do seu Deca). Ele sempre serviu de referência de localização para os moradores. Quem conhece nossa História não esquece das frases: "acima ou abaixo do Rio", "na boca do rio", "até o rio, etc..”.

Este depoimento repleto de paixão e conhecimento é decisivo para mostrar que nesta comunidade ninguém vai se arvorar em dono do rio, muito menos o nomeará como querem os empreiteiros, assim, de forma impessoal, como se fosse um adorno, um produto, pronto para ser comprado ou vendido. O rio que corre para o mar ali na praia do Campeche sempre foi defendido e cuidado pelo povo do bairro, pelo menos o povo que realmente se importa com a vida, com a história e que sabe que tudo aquilo que se faz a terra, faz-se ao filho da terra. Não há como separar a natureza do homem.

Janice Tirelli, do Núcleo Distrital do Campeche, acerta no ponto quando diz: “Vale lembrar que quem estragou o Rio do Noca foi quem fez dele o seu instrumento de ganância sem pensar nas consequências. Para o capital imobiliário é importante um movimento de revalorização da área do rio, porque ele carrega todos os negócios sustentados na sua propaganda que podem cair ante a concorrência com a nova imagem de poluição e fedor na praia”.

Contam os surfistas locais que, entre eles, desde há anos chamam o rio do Noca de “riozinho”, mas segundo eles, não tem o caráter depreciativo ou diminutivo. É apenas carinho. Coisa que não se pode dizer dos que promovem o pico na mídia local.

A comunidade está atenta. As pessoas que estão em luta há décadas pela qualidade de vida no Campeche nunca deixaram um dia sequer de denunciar, fiscalizar e propor saídas para o processo de destruição que o progresso capitalista traz. Por isso, essa campanha que figuras estranhas ao bairro querem fazer de “SOS Riozinho” não encontra qualquer sentido. No Campeche não há nenhum “riozinho”. Há cursos de água com nome e sobrenome, ligados a história deste lugar e que são defendidos com unhas e dentes por aqueles que ali vivem e amam. No Campeche trava-se uma feroz batalha contra os que insistem em destruir e transformar o lugar em espaços desumanos e impessoais.

E justamente porque a batalha é renhida que ninguém despreza novos integrantes que queiram fazer luta conjunta, como explica Janice Tirelli: “Os que querem uma boa causa, que se integrem a essa que tem sua raiz na comunidade, que tem o argumento forte de quem conhece o lugar porque é parte de sua historia – não apenas os nativos, mas todos os que apostaram no espaço coletivo aqui no Campeche. Não nos peçam apoio. Ao contrário, entrem com o seu apoio na defesa do Plano Diretor Comunitário que, se aprovado, evitará que o estrago seja maior”.

É isso. Não passarão!

domingo, 17 de abril de 2011

De Humanos a Monstros

Por Lívia Monte

Monstro, animal, fundamentalista, louco, estes foram os adjetivos empregados para falar sobre Welligton de Oliveira que no dia 7 de abril de 2011, entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, deixando 12 crianças mortas.

Antes que me crucifiquem aqui, dizendo que o objetivo deste texto é defender o Monstro, gostaria de dizer que fiquei muito abalada com a tragédia e que não, não é minha intenção defender ninguém e sim provar que nós somos tão monstros quanto ele.

Talvez por isso o odiemos tanto, pois ele é a personificação de tudo que há de ruim em nós e isso é tão doloroso que foi preciso segregá-lo, diminuí-lo, para que assim possamos nos desviar, fingir e não assumir nossa parcela de culpa neste episódio.

Agora um questionamento para os que ainda não se convenceram de que são monstros:

-Qual a diferença entre a chacina da Candelária e a chacina de Realengo?

Permitam-me responder parafrasenado as idéias da filósofa Judith Butler: há corpos que importam e outros que simplesmente não importam. Monstruoso, não é mesmo?

Claro que esse jovem de Realengo não foi nada original, quantas vezes vimos esses casos no país do Tio Sam? Um dos mais famosos aconteceu no dia 20 de abril de 1999 em que dois garotos abriram fogo contra professores e alunos na escola Columbine, localizada no estado do Colorado.

Assim como no caso brasileiro, no qual os culpados foram apontados como a loucura de Welligton e a falta de segurança nas escolas, os Estados Unidos também tinham os seus culpados para Columbine. Eram eles: os desenhos animados violentos e astro de rock Marilyn Manson.

No longa metragem Tiros em Columbine, documentário produzido pelo polêmico Michael Moore e inspirado nesse episódio de 1999, o réu Marilyn Manson ao ser perguntado sobre o que diria para os garotos de Columbine e a comunidade, respondeu:

-“Eu não diria uma única palavra para eles, eu ouviria o que eles têm a dizer, pois foi isso o que ninguém fez.”

Finalmente a personificação do medo, Marilyn Manson, abriu os olhos dos outros monstros para a verdadeira situação de Columbine e Realengo, que representam nada mais que a decorrência de uma sociedade monstruosa marcada pela segregação e a não escuta, onde os tiros são a única forma de se fazer ouvir.

Rubem Alves certa vez escreveu: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Então o que faremos? Eliminaremos os desenhos animados infantis? Prenderemos os roqueiros de aspecto diferente? Segregaremos a loucura decorrente de uma sociedade louca? Colocaremos detectores de metais na portas de nossas escolas?

Eu não sei quanto a vocês, quanto a mim Rubem Alves acabou de ganhar sua primeira aluna para o curso de escutatória.

http://desacato.info/2011/04/de-humanos-a-monstros


sábado, 16 de abril de 2011

Uma voz no vento

Míriam Santini de Abreu

Procuro em vão uma imagem de Maria Madalena, um vaso de alabastro e bálsamo de espicanardo. Em todos os lugares possíveis, não a encontro, e ninguém sabe do que é feito o alabastro, e desconhece se há bálsamo como quero em algum frasco salvo do tempo. Terei que buscar o que desejo nos Lugares Impossíveis, onde, em cantos profundos, estão os Algos de que preciso para ungir as Impossibilidades. Se lágrimas fogem de mim, não há vaso para guardá-las nem bálsamo para ungir o Escolhido. Se o tempo encolhe, estou agora no Oriente, milênios atrás, num mercado cheio de aromas, e neles encontro o meu.
Lugar Impossível, onde "uma voz no tempo resiste na noite", e eu tento me distrair para não ouvi-la...

http://www.youtube.com/watch?v=wilwYraG6A0&feature=related

Hoje é dia de Bob...

http://www.youtube.com/watch?v=NjZCwuXxQOs

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Histórias do Transporte Coletivo II

Elaine Tavares

Vinha com todo o mau humor que se acumula na viagem do Centro até o Rio Tavares. Mais de 50 minutos, dois engarrafamentos monstros. Um no elevado e outro mais adiante, na SC-402. Merda de vida. Ruminava. Desci no Rio Tavares e corri para pegar o Castanheira. Pelo menos era via Gramal. Ufff! Em dez minutos estaria em casa. Então, uma moça entrou esbaforida, com o ônibus quase arrancando. Vinha cheia de sacolas. Entrou e sorriu. Um homem que estava encostado no lado direito, sorriu também. Ela vermelhou. Ele seguiu olhando pra ela, com o sorriso na cara.

-Lindo óculos!
- Obrigada...
- Fica bem em ti...
Ela sorriu, vermelha de novo.
- Me dá as sacolas...
- Não precisa.
- Precisa sim, moça bonita tem de descansar...
Ela riu, maneando a cabeça.
- Vou descer agora.
- Eu também
- Então tá...
E ficaram ali, em silêncio, até que o ônibus parou.
Saíram os dois, sorriso aberto, olhos nos olhos...

E eu fiquei pensando que a vida é mesmo surpreendente. De repente, num ônibus, o amor!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ação em Rede pelo Farol de Santa Marta

"Sou eu que não posso me substituir"

Míriam Santini de Abreu

Os dias andam corridos, e eu, às vezes, no almoço, tenho tempo apenas de comer pão com manteiga, queijo e presunto, e entro no trabalho atabalhoada, com a roupa cheia de farelo e os dedos lambuzados. São duas da manhã agora, e uma lua crescente, escandalosa, exibida, está a Oeste, amarela, linda. E enquanto trabalho escuto Sting, presente de e-mail de Fernando Karl, colaborador da P&N. Nessas horas, ao ouvir Every Breath You Take, penso em parte da letra:

Em cada suspiro que você der
Em cada movimento que você fizer
Em cada elo que você quebrar
Em cada passo que você der
Estarei te observando

Em cada dia
Em cada palavra que você disser
Em cada brincadeira que você jogar
Em cada noite que você ficar
Estarei te observando

Em cada movimento que você fizer
Em cada promessa que você quebrar
Em cada sorriso que você fingir
Em cada direito que você reivindicar
Estarei te observando

Sim, é uma canção de amor. Mas me enlaço toda nessa lua amarela e sei que quem, em cada dia, me observa nos sorrisos, promessas, movimentos, sou agora eu mesma. E amo este trecho:
"Olho em volta, mas é você que não posso substituir". Leva tempo, mas a gente descobre: tudo em volta pode desmoronar, tudo em volta a gente pode amar, tudo em volta. Então olho em volta, mas sou eu que não posso me substituir. E assim me observo, em cada suspiro que dou, nas noites, como diz Sting, em que vou ficar...

http://www.youtube.com/watch?v=OMOGaugKpzs

Caminhos para a descolonização da América Latina

Por Elaine Tavares - jornalista

A sétima edição das Jornadas Bolivarianas discutiu este ano um tema árduo e muito pouco palatável: a presença imperialista na cultura latino-americana. A idéia foi dar um panorama de como o império vai consolidando sua forma de ser na capilaridade da vida cotidiana através da escola, dos meios de comunicação, da vestimenta, da comida, da indústria do entretenimento, da moda etc... Como um conta-gotas, misturando-se aos diversos aspectos da vida cultural, grande parte das vezes sem usar a força bruta, o modo de vida do império toma conta das gentes, até parecer ser natural esquecer os mitos locais, os pratos típicos, a maneira de viver, as brincadeiras, e até a língua. A cultura, expressão material da realidade humana, na América Latina, segue cativa do colonialismo e a tarefa de descolonização mostra-se, às vezes, grande demais, para os países que continuam sem uma alternativa política nacional/popular. Nestas Jornadas, discutiu-se a situação dramática da América Central, as tentativas de mudança na América do Sul e a proposta ainda solitária de Cuba, que desde há 50 anos busca a criação de um pensamento próprio, baseado na cultura nacional. O totalmente novo ficou por conta da perspectiva indígena, que desde os anos 90, assoma na América Latina, recuperando elementos chave de sua cultura ancestral.
Poucas pessoas desconhecem a força da cultura estadunidense na vida da América Latina. Desde que proclamaram sua independência da Inglaterra, em 1776, os Estados Unidos da América do Norte decidiram trilhar o caminho da rapina e da dominação. Como foi o primeiro país a realizar o feito de se libertar da colônia em todo o território do “mundo novo”, nada poderia ser mais natural que os demais povos o vissem como um exemplo a ser seguido. Mas, o que veio logo depois já deveria ter servido como um sinal de que as famosas “13 colônias”, agora livres e unificadas, também iriam arvorar-se a disputar o cargo de donas do mundo. A doutrina do “destino manifesto” - que tinha por princípio defender a idéia de que os colonos norte-americanos de origem calvinista teriam sido eleitos por Deus para comandar todos os povos da terra, com a missão civilizatória de ocupar os territórios situados entre os oceanos Atlântico e Pacífico – levou à trágica conquista do Oeste, com a destruição de nações indígenas inteiras. O massacre dos povos locais expandiu o território e aguçou a pretensão de fazer daquele país um império. Naqueles dias, os governantes já faziam uso de armas químicas como bem mostra essa célebre frase do presidente Benjamin Franklin "Se faz parte dos desígnios da Providência extirpar esses selvagens para abrir espaço aos cultivadores da terra, parece-me oportuno que o rum seja o instrumento apropriado. Ele já aniquilou todas as tribos que antes habitavam a costa". E assim foi.
Poucos anos depois da independência, já no século XIX, outra doutrina expansionista iria ganhar corpo, a doutrina Monroe, que pregava a idéia de a “América para os americanos”. No discurso, os governantes estadunidenses afirmavam a necessidade da independência das terras latino-americanas, mas, na verdade, tudo o que queriam era anexá-las aos seu círculo de poder, já configurado como imperialismo.
Assim, em 1820, quando a América Latina dava consequência ao sonho de libertação, o governo estadunidense invadia o que hoje é o Texas, ocupando também a Califórnia, o Novo México, Nevada, Arizona e Utah. Com esta segunda incursão expansionista (a primeira foi a que anexou os territórios indígenas do centro do país) roubava grande parte das terras mexicanas, conformando pela força das armas e da destruição o seu atual território. Nesse sentido, em 1850 os EUA já eram um império, no modo de operar e na política de disseminação da cultura de dominação.
Terminada a operação de ocupação das terras mexicanas, os dirigentes do país se voltaram para a América Latina recém liberada. As guerras de independência já tinham sido travadas e os estados-nação começavam a formar-se. Era necessário, na visão dos estadunidenses, que alguém ficasse no comando e esse alguém eram eles, coisa já definida por deus no destino manifesto. É a Nicarágua, em 1855, o primeiro país a ser ocupado pelas tropas do já formado império, pelas mãos do mercenário William Walker que desembarca e se faz presidente, distribuindo terras aos fazendeiros do sul dos EUA. Depois, em 1898, é a vez de Cuba, tirada da Espanha e transformada em quintal estadunidense, um protetorado que durou até 1933. No mesmo ano de 98, o Havaí também é ocupado, sendo colônia até hoje.
Quando o século XX nasceu, trouxe com ele a sede de expansão do império estadunidense, que nunca mais parou. Intrigas muito bem urdidas lograram a separação do Panamá da Colômbia e lá ficou o pequeno país, com a riqueza de um canal ligando os dois oceanos, nas mãos do império. Como bem lembrou Rafael Cuevas Molina, da Universidade Central da Costa Rica, presente nas Jornadas Bolivarianas, a América Central passou a ser um espaço estratégico para os Estados Unidos e desde então, nunca mais conseguiu caminhar com as próprias pernas. A cada tentativa de garantir soberania, os países eram invadidos e submetidos aos desejos dos governantes estadunidenses.
Pouco depois da Primeira Guerra Mundial, num mundo devastado pelo conflito, os Estados Unidos iniciaram outra estratégia de dominação na América Latina. A proposta era conquistar corações e mentes pela via da cultura. Enriquecido pela indústria da guerra, os EUA deram linha para a indústria cultural. Inicia-se um período de ouro no cinema, no qual os filmes eram produzidos para propagandear o “modo americano de ser”. O mito do mundo livre, das oportunidades para todos, da democracia, vai se construindo e invadindo a América Latina. O círculo do far west (corrida para o oeste) demoniza os índios, transformando-os em assassinos sanguinários, enquanto os cowboys (vaqueiros) era pintados como heróis. A completa inversão de valores. Em toda América Latina esses produtos culturais se popularizaram e em pouco tempo as crianças sabiam mais de John Wayne do que de seus vizinhos. Estava aberta a veia da dominação “limpa”. Igualmente, os açucarados filmes românticos mostravam o jeito de ser da sociedade estadunidense, gravando nas cabeças latino-americanas o desejo de ser como aqueles heróis que infestavam os cinemas de todos os países. No campo da comunicação de massa, o rádio também reproduzia a propaganda do “mundo livre” e com ela, introduzia nos países as megaempresas que iriam dominar economicamente cada pedaço desse chão. No Brasil, o repórter Esso, noticiário diário, era um fenômeno de audiência. Só o que se noticiava ali, sob a chancela da Esso, era considerado verdade.
E é essa forma de dominação - que ocorre num terreno aparentemente invisível - que as Jornadas Bolivarianas se propuseram discutir. Compreender qual o alcance desta política ainda hoje nos países latino-americanos e encontrar as brechas para sair do atoleiro da dominação cultural.
A América Central
Na franja de terra que separa as Américas do Sul e do Norte, a vida nunca foi fácil, desde a dominação espanhola. Depois, com a influência estadunidense, as condições de vida das gentes só pioraram. Sem os “patrões” europeus, os países da América Central e do Caribe passaram a ser dominados pelas grandes empresas estadunidenses, principalmente as chamadas bananeiras. No controle da economia, elas ainda tinham pleno domínio da política e elegiam e derrubavam governos ao seu bel prazer. Eram um estado dentro do estado. Assim, as regiões que antes eram espaços das culturas Caribe, Chicha, Maya, Kuna e outras, passam a receber mão de obra escrava vinda da Jamaica, já inoculada com a cultura britânica, a qual tinha absorvido com a colonização. Com o enclave bananeiro, o modo de vida que passou a ser hegemônico foi o estadunidense. “O planejamento urbano, a religião, a cultura, a arquitetura, a língua, tudo estava ligado com a vida nos Estados Unidos”, diz o professor da Universidade Nacional da Costa Rica, Rafael Cuevas Molina.
Segundo ele foi Augusto César Sandino o primeiro a se insurgir contra essa dominação que já extrapolava o campo do território e se espraiava pela via da cultura. Quando no início do século XX os EUA invadem outra vez a Nicarágua para tomar conta do canal e desde ali frear a revolução mexicana, Sandino aparece com seu “pequeno exército louco”, dando vida a um nacionalismo latino-americanista e antiimperialista, capaz de mostrar que seria possível a vida sem as megaempresas e sem o domínio do mal nominado “Tio Sam” (já que irmão de nossa pátria ele não, como dizia Alí Primera). E é essa idéia que vai incendiar as lutas populares nos anos 60 por toda a América Central com o surgimento dos movimentos armados de libertação nacional.
O resultado de décadas de lutas insurgentes, praticamente todas derrotadas, é o que se vê na realidade atual. A constituição de um Estado terrorista, que torna naturalizada a cultura da violência e da discriminação. Os anos 80, que marcaram o derrocamento das propostas revolucionárias, ainda trouxeram consigo as reformas neoliberais, esgarçando um pouco mais o frágil tecido social. O resultado disso é uma identidade cultural esfacelada, o que torna ainda mais fácil a dominação. E, se a bananeiras já não tem mais poder na América Central, o espaço foi tomado pelas empresas maquiladoras, que seguem trabalhando no mesmo velho ritmo: trabalho precário, produção de coisas que as gentes jamais usarão e esgotamento total das pessoas. O que sobra é a violência, a pobreza, o crime organizado e as gangues juvenis. Sem horizontes de futuro, os jovens ou se matam ou migram. E, de um jeito ou de outro vão se transformando em uma cópia mal feita dos jovens empobrecidos do centro do poder. “Na América Central, hoje, os ricos sonham com Nova Iorque, os de classe média sonham com Miami e os pobres com o que vêem na TV. Isso é uma mostra segura de que há um mal estar cultural. Todos, de alguma forma, imitam a vida dos EUA”.
A comunicação é a via de transmissão do imperialismo
Se nos anos 30 os EUA iniciaram sua corrida às mentes do povo latino-americano pode-se dizer que isso segue sendo feito num ritmo frenético. Usando a velha tática da repetição, a indústria cultural estadunidense continua hegemônica em praticamente todos os países. O cinema exporta o modo estadunidense de ser, os programas de televisão, as séries, os desenhos animados, as teorias culturais, os movimentos artísticos, a estética, a filosofia. Tudo é colonizado. E, os meios de comunicação bombardeiam o cérebro das pessoas diuturnamente. Romper essa dominação colonial requer mudanças drásticas na vida dos países, ensina o jornalista uriguaio/venezuelano Aram Aharonian, um dos formuladores da proposta da Telesur – um canal de televisão latino-americano.
Para Aram é impossível mudar qualquer coisa nos países que vivem dominados culturalmente, se não houver primeiro uma mudança radical de paradigma. “Há mais de 40 anos que não temos uma teoria nova na comunicação. Tudo copiamos dos gringos”. Essa formulação teórica tem de ser própria, fruto da realidade local. Já basta de pensar com a cabeça mergulhada num mundo que não é nosso.
Mas, fazer isso tampouco é fácil, uma vez que o império, ao ser confrontado com novas teorias e paradigmas usa de todas as armas para absorver o impacto, usando-as para contra-atacar. “Nós pudemos ver isso quando na Telesur colocamos nossos apresentadores de maneira bem informal, como são os latino-americanos. Não passaram dois meses e lá estava a CNN em espanhol copiando nossa forma de fazer, e usando isso contra nós”. Assim, nossa tarefa parece ser cada dia mais desafiadora.
Aharonian adverte que se no mundo da arte, da cultura e da comunicação estamos cada dia mais enfeitiçados pelo sistema hegemônico, a única saída parece ser liberar os 1.400 cm cúbicos de cérebro que cada um tem. É a capacidade de pensar com a própria cabeça que definirá o futuro. Aram mostrou que mesmo a comunicação dita alternativa, que fez sucesso em determinado momento, acabou se domesticando. “As rádios comunitárias se profissionalizaram e não são mais o espaço popular, os sindicatos se conformem em ter apenas um boletim, a palavra está sequestrada pelas empresas. Estamos cegos de nós mesmos. Não sabemos quem somos e não cremos em nós mesmos. É isso que precisa mudar”.
Uma comunicação libertadora precisa ter o compromisso de manejar ela mesma a agenda informativa. Os espaços alternativos não podem ser marginais, precisam almejar ao universal. O grande desafio é deixar de copiar conteúdos e formas. Criar o próprio estilo e a partir daí criar redes de comunicação que possam chegar ao maior número de pessoas. “Nós vivemos a síndrome da praça sitiada. Ocorre que ela não está mais sitiada, nós podemos romper o sítio. Mas, para isso, temos de criar nosso próprio paradigma. Já basta de choramingar e de gritar palavras de ordem. Vamos produzir conteúdo de qualidade e formar redes. Assim, superaremos a dominação cultural”.
No campo do cinema a ordem parece ser a mesma. Sérgio Santeiro, cineasta brasileiro que bebe na proposta estética e filosófica de Glauber Rocha - como se pode ver no seu deslumbrante curta metragem “Paixão” (http://youtu.be/AS3Oep2cCsw ) - desafia a se constituir uma estética própria, fora dos padrões “roliudianos”, que dêem conta da realidade latino-americana e que provoquem o desconforto gerador da mudança. Glauber, de alguma forma, conseguiu isso no seu tempo, mas a nova geração precisa encontrar outro caminho, original. Outra estética para vencer a lógica da violência e do medo imposta pela arte cinematográfica estadunidense. Igualmente a proposta do pensamento crítico e próprio, na senda do ensinamento de Simón Rodriguez, que pregava como um louco a máxima: “Basta de imitar. Há que criar”.
A proposta cubana
Faz mais de 50 anos que a pequena ilha caribenha, Cuba, busca um caminho original. Até o triunfo da revolução, a mídia, comandada pelos EUA, confundia o mundo e os cubanos sobre o que passava no país. Na ilha se podia viver em inglês, como lembrou o vice-ministro da Cultura, Fernando Rojas. Depois não. A revolução, pela proposta de liberdade que carregava, foi definindo uma identidade que até então só aparecia nos escritos de José Martí. Hoje, depois de acertos e erros, a cultura cubana segue rechaçando o neocolonialismo que se expressa na invasão do ar via televisão desde Miami, mas busca estabelecer uma relação dialógica com a cultura dos EUA. “Nós acreditamos que é preciso conhecer muito bem essa cultura para podermos conformar um anti-imperialismo. Mas, a proposta é enfrentar a colonização cultural com o melhor do pensamento socialista, fazendo assomar a rumba, o guagancon e o balé nacional de Cuba”.
Segundo Fernando, a ilha de Cuba já superou os tempos em que se buscava importar a experiência socialista do leste. Atualmente, incorporados os elementos da afro descendência, dos indígenas, dos descendentes dos colonizadores, as forças políticas do campo e a cultura popular urbana, tem-se a cultura cubana, tomada por uma liderança coletiva anticolonialista e anti-imperialista. “Em Cuba há uma questão que nos parece vital. Todas as pessoas têm acesso à cultura. Nós não dizemos: crê. Dizemos: lê. E, com isso, os cubanos recebem gratuitamente o melhor da cultura, inclusive a dos EUA. Fundamos escolas de arte em todo o país, na montanha e na capital. E esse acaba sendo nosso desafio. Afinal, temos de pensar em como sustentar isso economicamente”.
Em Cuba as políticas culturais significam esforços estatais e públicos. Vem daí a Casa das Américas, a escola de Cinema e outras milhares de instituições de cultura de base. “Como tudo isso custa, agora andamos pensando em cobrar do público para ver um teatro, por exemplo. Mas é coisa simbólica, nada comparada ao mundo capitalista no qual é praticamente impossível aos trabalhadores freqüentarem o teatro”.
A polêmica em Cuba agora passa pela discussão do direito de autor. Segundo Fernando, existem manifestações da cultura popular que precisam de proteção e que não podem ser apropriadas por este ou aquele. São construções coletivas. “Mas esse ainda é um debate ainda inicial”. Para o vice-ministro, a originalidade cubana está no fato de o governo ter uma política cultural que possibilita a liberdade criativa e a garantia do acesso ilimitado à cultura. É uma aposta na qualidade da vida das pessoas, pois, com isso, elas se tornam pessoas melhores. Ele ressaltou que Cuba vive sob bloqueio econômico, mas não cultural. Todo o lixo produzido no império chega às casas cubanas e, por isso, esse campo de batalha é tão importante. Vencer aí é fazer meio caminho no rumo da sustentação da nova sociedade.
O paradigma andino
Se a questão do enfrentamento do império passa pelo desafio de sermos originais, o mundo indígena tem muito a contribuir para esse debate. Foi o que mostrou a socióloga aymara Silvia Rivera Cusicanqui na sua exposição. Segundo ela os índios há muito que deixaram de ser estudo de caso e sua cosmovisão assoma como uma proposta de vida absolutamente diferente da que foi pregada pelo mundo ocidental, europeu. Muito antes da invasão já havia muitas culturas aqui nestas terras, com histórias milenares, que, mesmo sob a dominação, mantiveram-se vivas e hoje saem da obscuridade, oferecendo novas formas de viver no mundo. Sua originalidade consiste justamente na diferença radical. Enquanto a filosofia ocidental busca o uno, o mundo andino, por exemplo, trabalha com a idéia do terceiro incluído: ou seja, os contrários podem sim conviver e se encontrar.
Silvia defende a idéia de que a cultura é um sistema de significados que não tem como passar pelo mercado. É o imaginário, o desejo das comunidades, mas ao mesmo tempo é o que se torna real pela força da arte humana. Segundo ela, na Bolívia, a esquerda não tem falado em imperialismo ao discutir as mazelas do tempo presente. “Falam em pós-colonialismo, mais encobrindo do que revelando o que está por trás de tudo isso”. Ela conta que os povos indígenas da Bolívia sabem muito bem que a identidade naquele país é uma questão política de primeira grandeza. E tanto que conforme são os dirigentes mudam as cifras sobre a porcentagem de indígenas no país. Já houve momentos em que a porcentagem foi de 19%, pulando no ano seguinte para 68%. O trágico é que o racismo contra o índio é algo internalizado também na esquerda, até porque suas fileiras são formadas por gente que tem o pensamento colonizado também.
Nos Andes, as comunidades vivem sob outro paradigma, fora da dualidade maniqueísta ocidental. “Para nós é fundamental o conflito das dualidades, porque isso é a energia que nos move”. Entre os indígenas das comunidades andinas a cultura é parte da forma de organizar a vida. Nos tempos mais remotos, mesmo as obras públicas sempre eram precedidas de grandes festas, de encontros com dança, música, imagens e gestos, tudo recheado do simbólico e do sagrado. Mesmo a religião é múltipla, com deuses de muitas faces, que são anjos e demônios ao mesmo tempo, porque é esse conflito que move a vida. Coisas bastante difíceis de serem assimiladas pelos cérebros formatados na mentalidade ocidental. Palavras desconcertantes para os 1.400 cm cúbicos de racionalidade instrumental. “Para nós o futuro é algo que está atrás, porque não sabemos dele, o passado é algo que está à frente, pois dele temos conhecimento. E o presente é o que de fato importa”. Para Silvia a tarefa de descolonização dos estados na América Latina é árdua e difícil, mas esta é uma batalha que precisa ser travada. Derrubar o colonialismo, o racismo, o preconceito. No território que serpenteia junto à cordilheira dos Andes, as comunidades estão descobrindo suas potencialidades, estão recuperando suas formas de organizar a vida. “É bobagem pensar que não podemos ser modernos. Podemos sim. Comunitários e modernos. Temos nossos paradigmas e nossa cultura. Mas, o fato é que nós vimos o mundo ao contrário. Nossa lógica é “al revés”. Isso precisa ser entendido e respeitado”.
Desafios do presente
A experiência indígena pode parecer desconcertante num primeiro momento, já que coloca o mundo de pernas para o ar. Mas a idéia de convivência dos contrários parece ser a única possível num mundo onde as diferenças se afirmam cada vez mais. Transitar neste território conflituoso e desde aí criar o novo é também desafiador. A nova sociedade sonhada pela racionalidade marxista precisa levar em conta esse paradigma indígena, precisa incorporar as demandas destas comunidades que assomam cada dia com mais força. Desconhecer esse mundo é apostar no fracasso. Assim já foi com Simón Bolívar, quando subestimou a força dos lañeros venezuelanos e foi derrotado por eles. Só depois de voltar do Haiti, com os ensinamentos dos revolucionários negros sobre a necessidade de incorporar a cultura local é que Bolívar logrou a confiança dos indígenas e, com eles, abriu caminhos para a libertação. Foi assim com Artigas, na Banda Oriental, que, conhecendo e respeitando a cosmovisão Charrua, trouxe os indígenas para fazer real o sonho da liberdade. Tanto Bolívar quanto Artigas respeitaram de verdade a forma de viver dos indígenas, não fizeram mero uso instrumental, como se vê por aí. Esse pode ser o segredo.
Em toda a América Latina vive e pulsa uma Abya Yala, um espaço de propostas que exigem mudanças radicais na forma de raciocinar sobre a realidade. Outra episteme, outra forma de conhecer. Não necessariamente precisa-se aceitar toda a cosmovisão que vem destes povos milenares aqui nestas terras, mas fundamentalmente há que se incorporar essas formas de ver a realidade. Os indígenas querem estar no mundo, fazer parte da planetização da vida boa e bonita. Mas eles precisam ser compreendidos na sua cultura. Assim, no conflito destes contrários, mundo indígena X mundo colonizado, talvez se possa chegar ao novo tão esperado. Uma América Latina descolonizada, livre do imperialismo, aberta para o presente.

Audiência Pública debate discriminação e o direito às manifestações religiosas de origem africana

No Centro do Plenário da Câmara de Vereadores de Florianópolis há uma cruz dourada com cerca de um metro de altura. É um dos símbolos mais significativos das igrejas cristãs. A cruz está no centro da parede de um órgão que representa um dos três poderes – o Legislativo - de um Estado laico, sem religião oficial, no qual a Constituição Federal, em seu artigo 5º, diz que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias. Portanto, garante a liberdade de culto religioso.

É significativo, portanto, que no Plenarinho da Casa Legislativa seja realizada, no dia 19 de abril, às 14h30, Audiência Pública para discutir a discriminação e o direito às manifestações religiosas de origem africana.

A iniciativa visa dar visibilidade à Semana das Religiões de Matrizes Africanas, sempre na semana de 23 de abril, conforme a Lei Municipal 7.558/2008, bem como discutir formas de proteção aos cultos, entidades e adeptos que sofrem os mais variados tipos de discriminação e agressão, inclusive com ameaças de morte.

A Militante do Movimento Negro Unificado (MNU) Vanda Pinedo diz que essa discriminação é histórica, desde que populações ligadas a diferentes etnias foram seqüestradas do continente africano para o Brasil como escravos. Esse processo de seqüestro e de conversão ao catolicismo implicou perda de identidade negra e na subversão da religião de matriz africana, que passou a se manifestar na clandestinidade.
Passados 500 anos, o racismo só mudou de foco, pois a sociedade brasileira ainda não consegue conviver respeitosamente com os cultos religioso, conforme estabelece a Constituição.

As agressões e o desrespeito são verbais e até físicos. No primeiro caso, se relaciona a religião de matriz africana ao “culto ao demônio”, ao mau, a “atos de maldade”. Dependendo de onde ou de quem faz esse tipo de discurso, é possível levar outras pessoas a incorporar o mesmo ponto de vista ou atitude. As agressões se tornam explícitas quando há invasão a centros, terreiros ou barracões, como são chamados os espaços das práticas da religião de matriz africana. Nas denúncias para que a polícia intervenha, a mesma age de forma agressiva, proibindo de imediato o uso dos atabaques e demais instrumentos fundamentais à prática nestes espaços públicos. Com esta perseguição, o medo leva a maioria dos seguidores a evitar denúncias, temendo retaliação.

Para Vanda, muitas pessoas criticam uma expressão religiosa que praticamente desconhecem, e ainda assim a associam ao mal, reforçando o estigma. “Uso como exemplo festas e manifestações de outras religiões que, com seus rituais, canções, toques de sinos, ocupam espaços públicos e fecham ruas com o aval do poder público”. O racismo se expressa quando, para a religião de matriz africana, não há este mesmo tratamento, inclusive para utilização de espaços naturais, constata Vanda. Na avaliação dela, programas religiosos ou não, veiculados em muitos casos nos meios de comunicação, reproduzem e até estimulam a intolerância religiosa.

Ela cita como exemplo a forma como são tratadas, nesses discursos, as oferendas. Nos terreiros afro-brasileiros há a prática de sacrifício de animais, mas para cumprir um ritual de oferenda aos deuses, que são vistos como elementos da natureza, e alimentar as pessoas que participam do ritual. Mas a prática de abater cruelmente animais em muitos frigoríficos, que cada vez mais só visam lucro e depois são comprados e vendidos pelas redes de supermercados, não sofre a mesma crítica, ainda que altere cada vez mais o crescimento e a reprodução deste animais em prejuízo da saúde humana, destaca Vanda. Ela acrescenta que essa discriminação racionaliza e animaliza a prática dos seguidores da religião africana, tirando-a do âmbito da expressão religiosa.

Segundo Vanda, a expectativa, com a Audiência Pública, é dar visibilidade aos problemas apontados, debater o direito dos adeptos à livre expressão religiosa e garantir que os encaminhamentos tenham os efeitos esperados, e que o Poder Público se responsabilize pela defesa do cidadão em todos os aspectos de sua convivência na sociedade.

Liberdade de crença

O dirigente do Sinergia (Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis) Wilson Martins Lalau observa que as matrizes afro-brasileiras sofrem ataques por vários segmentos da sociedade e são condenadas secularmente, reproduzindo, no ideário nacional, o discurso do ódio, rasgando assim os princípios da Carta Magna, que defende a liberdade do exercício e crença religiosa no país.

“A mesma atitude que condena a pessoa pela cor de sua pele também atribui, nessa contextualização, a criminalização por sua fé religiosa”, constata Lalau. “Como dirigente do Sinergia e cidadão brasileiro, um país multirracial e multicultural, tenho ideais voltados à liberdade de expressão, cultural e religiosa, pois entendo que o exercício da tolerância, respeitando as diferenças, é o pilar de um mundo, civilizado, justo e harmonioso”.

Para que isso se concretize, diz ele, é preciso repensar valores e preconceitos, desconstruindo atitudes motivadas pelo ódio, que estimula a violência, vitimiza pessoas e resulta em atos de barbárie.

Saiba mais:

Orixás são entidades cultuadas no candomblé, que foi trazido ao Brasil no período colonial pelos africanos de origem iorubá (onde hoje é a Nigéria e o Benin). Quando o deus Olodumaré decidiu criar o mundo, cada orixá ficou responsável por alguns aspectos da natureza e da vida em sociedade. Cada humano surgiu de um desses deuses e herda dele algumas características. Essas mesmas entidades são reverenciadas, de forma diferente, na umbanda.

Pesquise:

www.uniafro.xpg.com.br

http://templodeyemanja.blogspot.com


domingo, 10 de abril de 2011

Anitápolis: a próxima vítima

O velho Marx já dizia que o capitalismo destrói tudo por onde passa. Destrói as pessoas e a natureza. O povo da cidade de Anitápolis, SC, está em luta contra a criação de uma fosfateira na cidade que vai derrubar mata nativa e acelerar o processo de destruição da fauna e da flora da região. Veja o que pode morrer e faça algo. Defender a Pachamama (mãe terra) é tarefa de cada um. Um planeta é um corpo vivo. É de nossa responsabilidade.
Vídeo em:
http://www.youtube.com/watch?v=aZLcdpN5WMU&feature=player_embedded


Histórias do Transporte Coletivo I

Elaine Tavares

Era uma vez um tempo em que se fazia o trajeto da UFSC para o Campeche (25 km) em uns 45 minutos. Dez minutos até o armazém Vieira, mais uns 35 até o Campeche em linha direta. Então, a dona Angela criou o transporte desintegrado. Agora, pegam-se três ônibus. É preciso ir da UFSC até o Centro (20min), depois esperar uma meia hora para pegar um ônibus em que se possa ir sentado (já se vão 50 min). Então pega-se o engarrafamento na área do elevado (mais uns 15 minutos parados), fora os 40 que se leva para fazer todo o transcurso, recheado de trechos engarrafados. Chega-se então ao Terminal do Rio Tavares, onde se espera mais uns 25 minutos para pegar o Castanheira. Se der sorte de pegar o Gramal, chega-se em casa em mais uns 10 minutos, mas se for o Eucalipto lá se vão mais uns 45 minutos.

Logo, a odisséia de se ir do trabalho até em casa dura mais de duas horas. E vice-versa. O que significam quatro horas do dia perdidas nas incompetências do sistema desintegrado. Tá bom assim, ou tá difícil? Eu já estou reivindicando isso em hora extra. E penso que todo trabalhador deveria fazer o mesmo!