segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O povo resiste, luta e vencerá em Honduras!

Nas primeiras décadas século XVI, quando no imenso território que hoje é o Brasil os colonizadores começavam e explorar o pau brasil para ocupar o território, na América Central a colonização espanhola seguia acelerada, dizimando povos nativos, “empunhando uma espada e uma cruz na outra mão”. Numa das regiões que hoje é o território hondurenho, os desde então chamados indígenas resistiram com mais força, liderados por Lempira. Este foi traído e morto em combate, mas deixou rastros na cultura e na ideologia do povo mestiçado nos quase cinco séculos seguintes. A moeda de Honduras chama-se Lempira, uma cínica homenagem burguesa ao herói indígena.
Mas na alma profunda do povo mestiço, ficou a mensagem: o povo não se renderá, embora continue sendo traído, agora por modernos gestores dos monopólios, a maioria dos quais de origem estadunidense.
Desde o dia 28 de junho tem manifestações todos os dias nas principais cidades de Honduras, especialmente na capital, Tegucigalpa. É assim mesmo, todos os dias, sem que ninguém faça um panfleto sequer de convocação, reúnem-se e protestam aos milhares. Nos dias de convocação, são trinta ou cinqüenta mil pessoas na capital e em San Pedro Sula, a cidade industrial.
Os gorilas (e nenhum outro nome lhes cabe tão bem) realizaram um golpe preventivo, seqüestrando o presidente, no dia 28 de junho, justamente para que os trabalhadores e o povo pobre não começassem a tomar gosto pela soberania popular e pelos direitos elementares. Manuel Zelaya tinha aumentado os salários, distribuído terras, rurais e urbanas, entrou na ALBA, e, gota d´água, convocara um referendum com o objetivo de eleger uma assembléia constituinte.
Erraram nos cálculos os golpistas, pois o povo já começara a gostar de transformações, e não saíram mais das ruas. Não deram um único dia de trégua aos usurpadores.
Com o retorno de Zelaya, no dia 21 de setembro, indo pedir proteção justamente na embaixada brasileira, a euforia popular se multiplicou por cem. Esse plano foi inteligentíssimo, pois o Brasil é um país respeitado por lá, e força o governo brasileiro a girar à esquerda na sua política internacional. Se Zelaya fosse para a embaixada da Venezuela, não haveria tanta repercussão internacional, e os gorilas poderiam com mais facilidade invadi-la. Se fosse para a embaixada dos Estados Unidos, ela não seria invadida, mas a saída diplomática seria pela direita. Desde que se espalhou a notícia da presença de presidente legítimo, Honduras deixou de ser um país em “transe” e agora é um país em ebulição. Não tem mais jeito, a menos que liquidem multidões pela força. Os golpistas perderão!
Reprimem violentamente, e isso enfurece mais os manifestantes, radicalizando os ânimos. Decretam toque de recolher, e, pelo tempo de duração, acabam indignando também a parte da população que está indecisa, pois começa a haver uma crise de abastecimento. Suspendem o toque de recolher, e centenas de milhares aparecem em marcha, no centro da capital. Reprimem com mais violência, e instigam revoltas sempre mais fortes. Agora, às 17:00h locais (20:00h de Brasília) lançam o estado de sítio, para reprimir mais…
Não se despreze o fato de que estão matando gente, neste momento. Se o governo golpista reconhece uma morte entre os manifestantes, é porque já devem ser dezenas. Realizam prisões em massa, e precisam usar estádios como prisões, lembrando o Chile de 1973. Como ainda podem falar em democracia?!? Rádios e canais de televisão independentes fora do ar, aeroportos fechados, inclusive para impedir a presença de organismos internacionais. Uma ditadura no sentido mais exato da palavra.
E os filhos de Lempira não param de ir às ruas, e já perderam o medo até mesmo de morrer. “Nos tienen miedo porque no tenemos miedo” cantam diante dos repressores, e é verdade, porque já não temem nada. E os gorilas atacam porque todo gorila tem medo de povo na rua. Senhoras idosas, senhores de cabelo brancos, meninos, muitos jovens, todos vão às ruas. Regressando quinhentos anos na ideologia, a espada e a cruz estão juntas no combate ao povo mestiço do século XXI, assim como estavam juntas no século XVI massacrando e “reduzindo” os descendentes do povo maya. O bispo chefe da igreja católica também é gorila, desde o primeiro dia do golpe, muito embora padres católicos estejam com a resistência, assim como os evangélicos, os umbandistas e os antigos credos indígenas remanescentes.
O povo vencerá em Honduras, e isso é questão apenas de tempo e de forma. Se ainda nesta data as forças de repressão estão massacrando o povo, esse jogo vira, e em pouco tempo os organismos internacionais terão que ir garantir a vida dos gorilas. A menos que algum país abasteça de armas e munições as forças da repressão (e Israel já mandou tecnologia e instrutores de massacre) em algum momento o exército e a polícia terão que recuar, como já esboçam fazer nas escaramuças dos bairros.
A luta do povo hondurenho é nossa luta! Honduras de 2009 não pode ser a Guatemala de 1953, ou seja, o limiar de uma onda de golpes militares por todo o continente. A vitória do povo hondurenho será a nossa vitória, pois avançarão lá em soberania popular, espalhando exemplo, e os gorilas de todo o continente, inclusive os daqui, terão que pensar muito mais antes de cometer desatinos.
O governo brasileiro precisa jogar duro na ONU, e exigir uma decisão de fechamento do cerco sobre os golpistas, forçando-os a fugir enquanto têm tempo, e levando-os aos tribunais internacionais para que paguem por seus crimes. Ou o mundo vai esperar a continuidade do massacre, que pode se intensificar muito quando acabarem as munições não letais e usarem apenas as outras. Já que o povo hondurenho venceu, é preciso que os governos e os organismos multilaterais parem de fazer cena e ocupem espaço para evitar que em poucas horas os golpistas matem milhares de pessoas. Em Honduras reside parte significativa da direita mais reacionária e dos algozes mais sanguinários de todo o continente, e o mundo não pode desprezar esse elemento. Eles podem matar muita gente em poucas horas, num derradeiro suspiro de vilania.
Avante filhos de Lempira, ao pescoço dos gorilas!

Florianópolis, Santa Catarina – Brasil, 23 de setembro de 2009.
Amauri Soares
Deputado Estadual

Bravos jornalistas

Míriam Santini de Abreu

O companheiro jornalista Raul Fitipaldi me ligou cedo nesta segunda-feira, 28. É que nas primeiras horas da manhã a Rádio Globo de Honduras fora invadida pelo exército golpista de Roberto Micheletti, e a emissora estava fora do ar. Uma onda de gelo me percorreu, aguçada pela chuva incessante lá fora, ameaçando mais uma vez deixar Santa Catarina sob a água.
Passei a tarde em busca de informações, temendo o pior, porque os companheiros jornalistas da Rádio Globo de Honduras não são desses de linha de montagem de pseudo-notícias.
Pois às 16h30 em Honduras se soube que eles fugiram dos militares por uma corda desde uma janela. Relata Raul, a partir de informações vindas de lá: “Agora a rádio está transmitindo de forma precária desde a periferia de Tegucigalpa, em lugar oculto. As pessoas a localizam pelos telefones celulares dos jornalistas e pelo chat da rádio. Esses jornalistas heróis agora se dedicam através da rádio clandestinizada a proteger a comunidade das agressões nos morros, nos bairros e colônias. ISSO É JORNALISMO. Honduras está de festa pela coragem do jovem jornalista Rony Martínez Chávez e do licenciado David Romero Ellner. Heróis de Honduras junto aos desaparecidos e mortos, e à última martir hondurenha, a trabalhadora e estudante Wendy Ávila, sepultada hoje em Tegucigalpa e assassinada com gases tóxicos jogados fora e dentro da embaixada do Brasil.”
Na grande mídia do Brasil, que alardeia isenção e imparcialidade, continuam chamando Micheletti de “presidente interino”.
Raul e o jornalista Celso Martins, aqui de Floripa, estão em contato direto com os colegas de Honduras. Cumprimentos cheios de orgulho aos dois e aos jornalistas hondurenhos!

Veja vídeo com depoimentos sobre a situação de Honduras em
http://www.youtube.com/watch?v=6KjVNZ5j1BI

Visite o blog
http://honduraselogoali.blogspot.com

Rádio Globo de Honduras é invadida

Nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira a Rádio Globo de Honduras foi invadida pelo exército golpista, todos os jornalistas foram presos e a rádio fechada.

domingo, 27 de setembro de 2009

Governo golpista decide fechar Rádio Globo e Canal 36

Em Honduras, recrudesce a violência do governo golpista contra os partidários da resistência. No sábado foi assassinado o sobrinho de Alejandro Villatoro, o dono da Rádio Globo, que tem sido incansável na divulgação de todas as manifestações do povo hondurenho. E neste domingo o governo liberou um decreto no qual determina o fechamento da Radio Globo, assim como do Canal 36, veículo que também tem se pautado por um jornalismo independente.
Não bastasse isso o governo golpista decidiu dar um ultimato ao presidente Luiz Inácio para que retire Zelaya e também os brasileiros de dentro da embaixada. Segundo o chanceler golpista, como o Brasil não reconhece o governo de Micheletti, não há porque reconhecer a embaixada como um lugar neutro. “Estamos considerando um escritório privado”, ameaçou. Fonte: Iela

Situação em Honduras

Com várias emissoras de rádio fora do ar, apenas algumas ainda logram transmitir desde Honduras. Aqui se pode ouvir a Radio Uno, de San Pedro Sula, que anuncia o uso de armas químicas diante da Embaixada do Brasil, nesta tarde de 25 de setembro. Ouvir.
http://www.radiouno830.es.tl/

sábado, 26 de setembro de 2009

Sindicato dos Jornalistas organiza ato de solidariedade ao povo de Honduras

A Esquina Democrática, no centro de Florianópolis, transformou- se, por pouco mais de duas horas, em lugar de resistência e de combate pela liberdade. Sexta de luta em mais uma Primavera Quente, nome da série de atividades que o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina realiza em setembro. Entre 11h30 e 14h, o SJSC organizou um ato com abaixo-assinado em solidariedade ao povo hondurenho, que está em luta para restabelecer o governo constitucional de Manuel Zelaya. Foram recolhidas mais de 200 assinaturas, que serão enviadas à Radio Globo de Honduras, à embaixada brasileira em Honduras e ao gabinete do governo golpista.
Quem passou pelo local leu os cartazes que explicavam o que está acontecendo em Honduras e conseguiu sair mais informado, uma vez que os grandes meios de comunicação mais deturpam a notícia do que repassam informes confiáveis. As pessoas que assinaram o manifesto ainda receberam um panfleto com uma breve história sobre Honduras e a luta pela liberdade.
O ato recebeu o apoio de várias entidades do movimento sindical e popular da Capital. Vieram o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a Associação dos Docentes de Ensino Superior de SC, o pessoal do Sindicato do Judiciário Federal, dos Previdenciários, da Associação José Martí, do Portal Desacato, da Revista Pobres e Nojentas, jornalistas e estudantes de jornalismo, além de dirigentes do Sindicato dos Jornalistas. Todos se envolveram na distribuição de folhetos, na coleta de assinaturas e na conversa com a população.
A iniciativa do SJSC se deu diante dos fatos que se agravam em Honduras, com bloqueio de informações, retirada de sinal de rádios combativas, violência policial, assassinatos e desaparições, convoca todos os sindicatos e lutadores sociais para um ato em defesa do povo de Honduras, contra o cerceamento de informações, contra a violência e pelo retorno de Manuel Zelaya ao poder.
O ato mais uma vez teve o apoio estrutural do Sintrajusc, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina, que forneceu o equipamento de som, mesa e cavaletes.
Leia abaixo o texto do abaixo-assinado:
Nosostros, periodistas y moradores de la ciudad de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, firmamos esta petición en solidariedad al pueblo hondureño por su lucha para restablecer el gobierno constitucional de Manuela Zelaya. Repudiamos el golpe de Estado que tiene impuesto la violência, la censura a los medios, que asesina la gente en las calles, que apresa y desaparece militantes sociales. Exijimos que sean garantizados los derechos de la gente a libre manifestação, a la libre expresión, a la libre circulación. Hondura es una amada parte de nuestra Pátria Grande, y la vitória de la gente hondureña es la vitória de Nuestra América. Adelante pueblo. Fuera golpistas! Pátria o Muerte!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Juro que vi e ouvi

Celso Vicenzi

“Meninos, eu vi!” Menos do que o índio timbira no épico I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, mas eu vi. Juro que vi. Vi e ouvi. E não vou esquecer mais esta pérola da mídia televisiva. E não foi em uma emissora de quinta categoria, não. Era a principal do país. Data: 18 de setembro de 2009, pela manhã. A apresentadora entra ao vivo, durante a programação, para anunciar que o vice-presidente da República, José Alencar, fora internado às pressas na noite anterior, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Como se sabe, aos 77 anos, José Alencar trava uma batalha incansável contra um câncer de abdômen há mais de uma década (procurei no Google e alguns jornalistas falam em 12 outros em 15 anos; pelo menos não havia discordância sobre o número de cirurgias: 15 no total). Nessa não menos épica resistência às frequentes internações para tratamento, Alencar tem demonstrado uma obstinação admirável e um bom humor incomum para quem padece dessa enfermidade. Pois bem, na noite de 17 de setembro, o vice-presidente, mais uma vez, sente mal-estar e é prontamente transferido de Brasília para São Paulo. O repórter da Globo, já o aguardava na entrada do hospital e tão logo Alencar desembarcou, partiu em sua direção com a seguinte pergunta: “O senhor está se sentindo bem?”

Sim, juro, foi isso que ele perguntou depois de uma década de luta contra um câncer, 15 cirurgias e sabe-se lá quantas internações. Estou pasmo até agora. O repórter teve tempo suficiente para escolher a pergunta. E eis que ele não titubeia: “O senhor está se sentindo bem?” Alencar foi novamente um gentleman e alinhavou algumas considerações triviais, tentando esboçar otimismo e, claro, desvencilhando-se o mais rápido daquele repórter. Mas poderia ter sido mais irônico: “Estou ótimo! Estava em Brasília até há pouco, sem fazer nada e pensei: por que não fazer uma visita aos médicos do Sírio-Libanês?”

Corta para Santa Catarina. Escolha o menu: pode ser uma daquelas enchentes arrasadoras, soterramento de casas ou vendavais e ciclones que devastam tudo por onde passam. Perda total e mortes. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi repórteres, microfone em punho, invadindo espaços privados – sem pedir licença – e nestes cenários onde o silêncio fala mais alto, encaixarem a pergunta: “A senhora está triste?” Ou então: “Como o senhor está se sentindo?”. Perguntas endereçadas, não raro, a cidadãos e cidadãs que perderam casa, móveis, tudo – e choram a morte de familiares.

Recentemente, uma das perguntas foi: “E a senhora não está triste com tudo isso?” Para sorte do repórter, que merecia ouvir impropérios, sabiamente respondeu: “Não, estou feliz porque estou viva".

Saber perguntar é o que há de mais importante na atividade jornalística. Sem boas perguntas não se extrai boas histórias, não se constroem bons textos, bons títulos. Não se chega à apuração dos fatos, não se compreende o que está acontecendo, não se desmascara o mentiroso e, sobretudo, permite vida fácil a quem se especializou em enganar a opinião pública. Perguntas precisam incomodar os poderosos, encurralar os falsários, revelar aquilo que se esconde e que é de interesse público. Não por um simples exercício de contestação, mas porque a essência dos fatos não costuma vir à tona com facilidade. Há muitas técnicas para se obter boas respostas. Mas todas dependerão de boas perguntas. E se o jornalista não sabe o que busca, dificilmente encontrará. Se só pergunta por perguntar, despretensiosamente, superficialmente, estará a quilômetros de distância da competência que se exige para exercer a função. Porque com ou sem diploma, jornalistas são o oxigênio das sociedades democráticas.

Há diferentes tipos e técnicas de entrevista. O bom entrevistador saberá escolher a abordagem mais adequada para cada tipo de entrevista e de entrevistado. Por isso, é fundamental a preparação, que começa com uma boa formação profissional e leituras, muitas leituras sobre todos os principais campos do conhecimento humano. Não saberá perguntar quem não se interroga sobre o que acontece no mundo. Se não investiga as razões de algo ser como é, ou aparenta ser. Teoria, técnica, intuição, delicadeza, conhecimento do assunto, sensibilidade, argumentação, clareza, improviso, criatividade. Tudo pode ser usado para obter boas respostas.

Jornalista é alguém que precisa fazer perguntas para tentar compreender os fatos, desvendar a realidade, decifrar o ser humano, entender os mecanismos que desencadeiam tragédias que poderiam ter sido evitadas e, principalmente, saber quais interesses estão em disputa e quem são ou serão os beneficiados. Ou não é um jornalista, mas um segurador de microfone. Um anotador de recados.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

P&N 19 já está circulando!

A edição 19 da revista Pobres & Nojentas já está circulando!
Compre a sua na banca na frente da Catedral, em Florianópolis, ou faça de uma vez essa assinatura!

ATO EM DEFESA DE HONDURAS E DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO PAIS IRMÃO


O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, diante dos fatos que se agravam em Honduras, com bloqueio de informações, retirada de sinal de rádios combativas, violência policial, assassinatos e desaparições, convoca todos os sindicatos e lutadores sociais para um ato em defesa do povo de Honduras, contra o cerceamento de informações, contra a violência e pelo retorno de Manuel Zelaya ao poder. Honduras é parte da grande pátria Latino-Americana e a vitória de sua gente é a vitória da gente brasileira. Será nesta sexta-feira, dia 25 de setembro, na Esquina Democrática em Florianópolis, das 11h30min às 14h. Venha participar! O povo de Honduras em luta precisa de cada um!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jornalismo de resistência

Por Elaine Tavares - jornalista

Nada é mais animador do que acompanhar a cobertura jornalística da Rádio Globo de Honduras nestes dias de golpe de estado. Primeiro porque a equipe chefiada por Don David Romero imediatamente tomou posição: contrária ao golpe. Claramente, sem vacilação. E depois, pela postura jornalística que esta mesma equipe tomou ao longo destes meses. Os jornalistas noticiam dia e noite tudo o que acontece no país. As mobilizações populares, as reuniões, os debates. Eles abrem o microfone para todas as vozes, mesmo as golpistas.
A rádio Globo e toda sua equipe está sendo nestes dias um ponto de apoio para toda a população. As pessoas confiam nos repórteres, ligam dos cantos mais remotos do país, passam informações, chamam seus companheiros para mobilizações. Usam a rádio como um espaço democrático e participativo de união e mobilização. E os jornalistas não se furtam a passar sua opinião sobre os atos dos golpistas.
Hoje, dia 22 de setembro, eram cinco horas da manhã quando o exército hondurenho chegou diante da embaixada brasileira e ali estavam os repórteres da Rádio Globo, relatando tudo. E mais, chamando o povo a sair de casa, a vir para a rua e se manifestar em apoio da legalidade constitucional, que é o retorno de Zelaya ao governo. Para quem vive num país onde a maioria dos jornalistas é cortesã do poder, este é um momento de pura emoção. Os jornalistas hondurenhos, pelo menos os da rádio Globo, estão do lado da maioria das gentes. Eles não ficam protegidos pelo exército golpista. Eles ficam no meio do povo, correndo os mesmos riscos.
Naquelas primeiras horas da manhã, as gentes que vivem longe da capital congestionavam as linhas da rádio para passar informação. O país inteiro se expressa pelas ondas livres desta emissora que, apesar de privada e pertencer a um liberal, encontrou no seu corpo jornalístico o esteio onde amparar a realidade vista pelos olhos do povo.
Para nós, que somos informados pelo jornalismo entreguista e amorfo das grandes redes do Brasil, ouvir a Rádio Globo de Honduras é quase como sorver o néctar daquilo que devia ser o jornalismo em todos os lugares. Um fazer absolutamente encarnado na vida real, das maiorias, do povo. Um espaço de expressão de todas as vozes e não só de algumas. A equipe de jornalistas da Rádio Globo me enche de orgulho de ser o que sou: jornalista. Alguém comprometido e parcial. Porque não dá para ser neutro diante de um golpe ou diante da destruição da vida das gentes. Que vivam os jornalistas de Honduras, uma categoria que tem o amor e a confiança do povo. Coisa rara e por isso digna de nota.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Paraguai inventado

Elaine Tavares
O professor Mauro César Silveira, do Curso de Jornalismo da UFSC, foi o conferencista na primeira atividade do Núcleo de Estudos da História da América Latina, coordenado por Waldir Rampinelli. Ele trouxe as informações sobre o estudo que fez das charges publicadas em jornais brasileiros durante o episódio da Guerra contra o Paraguai, de 1864 a 1870. Este trabalho acabou virando livro, esgotou, e agora deve ser reeditado pela editora da UFSC em 2010.
Mauro tem formação em jornalismo, mas fez mestrado e doutorado em História, porque entende que o jornalismo só pode expressar seu compromisso social se tiver perspectiva histórica. E a opção pela busca do desvelamento da idéia-imagem do Paraguai durante o período da guerra contra aquele país surgiu justamente para observar como o jornalismo considerado mais crítico da época desenhou o conflito. “Eu sempre acreditei que o jornalismo tem como papel central quebrar estereótipos, eliminar os preconceitos e esperava encontrar isso nas charges, porque sempre foi do humor, da caricatura, essa coisa de questionar o poder”.
Mas, ao pesquisar nas folhas satíricas mais importantes da corte Mauro ficou surpreso ao perceber que todas elas, mesmo as mais críticas, tinham a mesma idéia preconceituosa do Paraguai. E mais, ao logo da pesquisa, ele constatou que a maior tragédia do continente latino-americano, que massacrou um povo inteiro, tinha sido apresentada como a saga de um “sanguinário e cruel” dirigente: Francisco Solano Lopes. Isso sem contar no desrespeitoso e preconceituoso tratamento dado ao fato de que a maioria dos paraguaios era indígena.
Mauro levantou 591 imagens que se referiam ao Paraguai, 202 delas especificamente relacionadas com a questão do conflito. E, em todas estas, a referência a Solano Lopes era a de um inimigo sádico e sanguinário. “Solano aparecia sempre associado ao demônio ou a uma ave de rapina, e os desenhos ainda apresentavam o castigo que ele devia merecer: a morte. Ou seja, o jornalismo estava totalmente submetido à visão oficial de que a guerra era uma cruzada civilizatória para libertar os paraguaios de um louco”. O professor destaca a importância deste tipo de trabalho para compreender como o jornalismo ainda hoje faz esse jogo de servidão ao poder instituído. Lembrou da invasão do Iraque, evento tão contemporâneo, que foi referendado pela mídia com a mesma lógica de mentiras.
O fato é que esta imagem construída durante a guerra contra o Paraguai - que é conhecida como um tremendo genocídio uma vez que dos um milhão e trezentos mil habitantes do Paraguai, restaram pouco mais de 200 mil no final do conflito – até hoje povoa o imaginário social, fazendo do país de Solano Lopes sempre um “lugar ruim”. Mauro lembra que até no esporte, um espaço do jornalismo que aparece como neutro politicamente, esta imagem do Paraguai é bastante reforçada. “Agora pouco se falava que os times pequenos que disputam o campeonato brasileiro são como cavalos paraguaios, ou seja, pensam grande e morrem no meio do caminho. Isso é uma alusão à Solano Lopes que, segundo a mídia da época, foi quem declarou guerra ao Brasil, sem se dar conta que lutava contra um gigante e por isso foi derrotado. Ora, nada mais mentiroso. A guerra começou porque o Brasil invadiu o Uruguai e servia aos interesses dos latifundiários gaúchos e do império inglês. Solano Lopes apenas se defendeu.
Mauro também mostrou uma reportagem bem atual da revista Veja em que ela mostra os dez países que mais fazem falsificações. Nesta lista não estava o Paraguai, mas o título da matéria era: Made in Paraguai. Isso só reafirma a idéia-imagem de um lugar onde reina a pobreza, a feiúra, a corrupção e a falsificação. Tudo herança daqueles dias da guerra. “Até o Almanaque Abril, na sua edição deste ano, divulga informações incorretas sobre o conflito. Diz que Solano declarou guerra contra o Brasil porque queria chegar ao mar. Não fala da invasão do Uruguai, não fala que o Brasil nem exército tinha, montou um com escravos e pobres. Ou seja, a guerra contra o Paraguai segue criando preconceitos e mentiras”.
O trabalho de Mauro Silveira é uma instigante reflexão sobre o caráter cortesão do jornalismo atual que, tal qual nos dias da guerra contra o Paraguai, nada mais é do que um modelo de propaganda como bem já apontou o teórico estadunidense Noam Chomski. Basta que se observe como trata a Venezuela, Hugo Chávez ou o aymara Evo Morales. Exceções há que só confirmam a regra.

Editora Expressão Popular celebra 10 anos com lançamento de livros na UFSC

A Editora Expressão Popular está celebrando 10 anos. Uma proposta dos Movimentos Sociais, que sentiram a necessidade de formação política para a Classe Trabalhadora, que é o motor transformador, para construir uma sociedade com justiça social.
Propõe dar condição de acessar livros de Pensadores Clássicos e Modernos de alto gabarito, que trabalham temas políticos para a libertação do pensamento coletivo, livros estes que são impossíveis de serem acessados em outras editoras que os comercializam simplesmente como mercadorias e de alto custo.
A Editora Expressão Popular entende que o acesso ao saber é um direito de todos, e não só dos economicamente privilegiados.
O Ato contará com o Lançamento de quatro Livros de Leandro Konder: A derrota da dialética; Introdução ao fascismo; Marxismo e alienação; O marxismo na batalha das idéias e será apresentado um vídeo do autor que contextualizará um pouco os temas. Teremos a presença de um representante da Expressão Popular que fará uma análise sobre a Editora e a conjuntura política atual.
E é com muita alegria que convidamos você para participar dessa comemoração, aqui em Florianópolis no dia 28 de setembro de 2009 no Auditório do CED - UFSC às 18:00 horas. Ao final, um pequeno coquetel com produtos da Reforma Agrária, e o “coquetel dos livros”. Estaremos também no dia 29/09 em Criciúma – UNESC; 30/09 em Blumenau – FURB; 01/10 em Lages e 08/10 em Chapecó.
Convidamos você que compartilhar desta convicção ideológica.
Ajude-nos a divulgar esta mensagem, repassando para seus amigos.
PÁTRIA LIVRE Editora Expressão Popular Brigada Mitico – MST DCE da UFSC

Convite a quem ama a Primavera e os livros


domingo, 20 de setembro de 2009

Pobres & Nojentas 19 chega com a Primavera

A revista Pobres & Nojentas n. 19 chega nesta semana, junto com a Primavera! Nela há reportagens sobre a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos trabalhadores da Previdência Social, e também um perfil do maestro Newton Kramer dos Santos, que semeia música num rancho de canoa na praia do Campeche, em Florianópolis, além dos artigos e colunas que já são a marca da P&N. Há ainda um ensaio de imagens que são puro fogo. Registre-se que parcela significativa das fotografias desta edição, inclusive o ensaio de imagens, contou com o trabalho dos repórteres fotográficos Claudio Silva e Luís Prates, dois profissionais de "mão mandona" que sabem domar as manhas da luz.
A gente avisa quando a nossa filhota chegar!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Reforma agrária em Santa Catarina

Em Taió, no Alto Vale do Itajaí (SC), o MST planta mais uma semente da reforma agrária. Veja o vídeo na conta de P&N no You Tube:
http://www.youtube.com/PobresyNojentas?gl=BR&hl=pt

O medo

Elaine Tavares
É uma coisa assim, que chega no meio da madrugada, ou numa tarde de sol. A gente nunca sabe direito explicar. Vem e se instala. Paralisa, encaixota, prende. Alguns se deixam vencer, incapazes de sair da armadilha criada sabe-se lá como. Outros, debatem-se, agitam-se, e escapam. Não é coisa fácil porque, afinal, em cada esquina da vida ali está, a espreitar.
É a primeira espinha que deixa a carta torta, é o primeiro beijo que não se deu, é a nova escola, a cidade outra que não a mesma, outros amigos jamais feitos. É a timidez, é a insegurança, é o terror de abandonar as seguras margens onde sempre se esteve. O temor de dar o passo necessário, a ansiedade por não saber o que fazer.
O medo é essa coisa doida que desaloja, que desconforta, que dói. O medo é prisão da qual a alma se sente incapaz de sair. O medo vai sugando a alegria, o prazer, o sonho, a vida. O medo estanca todas as possibilidades. Ele é como um dragão, maior do que nós mesmos. Mas não é invencível. É só um balão inflado pelas nossas fantasias. Fruto da nossa incerteza. Tem remédio.
Dia desses, num encontro mágico, uma mulher quéchua me ensinou um encanto. Disse que quando ele viesse, voejando sobre mim, era para eu respeitar, porque o medo é só a outra face da coragem... “Há que rezar ao grande deus, Inti, e pedir que ele mande esta outra face. Depois, há que soprar, que o medo se transmuda em bravura. Mas tem que acreditar”. Desde então é assim! Quando o medo chega, eu sopro... E tudo fica como tem de ser.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Não à fosfateira!

Prezados Cidadãos Catarineses,
O Comitê das Nascentes, uma organização ambientalista criada na região de Rancho Queimado, está organizando um movimento de protesto contra a implantação da IFC (Indústria de Fosfatos Catarinense), a qual pretende se instalar no município de Anitápolis, gerando diversos impactos negativos, sociais, ecológicos e econômicos a toda região (especialmente ao turismo e a agricultura familiar). Tendo em vista o desejo da maioria da população dos municípios no entorno de Anitápolis pela NÃO implantação da IFC, no dia 20 de setembro, às 11 horas da manhã, convidamos você para estar presente no movimento "GRITO DE FORA FOSFATEIRA". O evento acontecerá no Trevo da BR 282, entrada de Anitápolis, conforme informado no convite.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Aos jornalistas

Míriam Santini de Abreu
Palavras podem encantar e brutalizar. Podem tornar banal o sentimento mais arrebatador; podem cobrir de enlevo o fato mais casual. Li “Passeio ao farol”, de Virginia Woolf, e me lembro ainda agora daquela escrita correndo como fogo líquido nas minhas veias. As mil e tantas páginas de “José e seus irmãos”, de Thomas Mann, atravessei sedenta, devoradora. Eu sorria ao observar o livro fechado e pensar nos capítulos finais, aos quais eu não me rendia, antevendo o prazer dolorido do parágrafo final, da frase derradeira. História tão antiga, bíblica, sabida, mas contada por Mann como se, naquela narrativa, se escondesse o mais indevassado dos mistérios humanos. E por ter estendido as mãos a Mann, a quantas outras leituras ele me levou!

E os jornalistas, ah, o que são esses jornalistas que sabem deixar a letra rolar, enroscar-se com outra, deslizar o sentido, confundir... como disse mesmo Elaine Tavares... desalojar! Ai, um jornalismo que desaloja... que faz um ponderado sentir-se sem chão, um insolente tremer, um sábio perder a compreensão.

Oriana Fallaci, que neste dia 15 faz três anos que partiu, também me desalojava. Era à procura dela que eu me estendia sobre as mesas da hemeroteca da Unisinos, em São Leopoldo, deslizando os dedos sobre os velhos exemplares da revista Realidade, que publicava textos da atrevida italiana. Na época da faculdade não havia a “Estante Virtual”, e andei meses atrás de um livro dela, “Um homem”. Encontrei-o sem querer numa banca na Feira do Livro em Porto Alegre. Puro Serendipity. Como jornalista e escritora, Fallaci é deleite de fera.

Marcos Faerman também me desaloja. Revivem indefinidamente as pessoas que ele entrevistou para reportagens que não canso de ler. Os trindadeiros de Paraty que perderam as terras. Os homens e as águas envenenadas de Alagados. Kosak, o europeu enfeitiçado pelas sombras mortas dos índios xetás.

Eni Orlandi, em seus livros, costuma dizer que somos condenados, desde que nascemos, a interpretar. Precisamos dar um sentido ao mundo, dar um sentido às coisas que acontecem nele.

Assim, pode-se dizer que o jornalista é uma espécie de interpretador profissional, porque seu trabalho é produzir discursos sobre o mundo e fazê-los circular em diferentes meios.

Todos os dias, lemos textos e ouvimos jornalistas que nos trazem notícias de fatos próximos e distantes, e essas notícias são interpretações. Por isso é impossível falar em jornalismo isento.

Ficar isento é renunciar à interpretação. Isso é uma impossibilidade para o ser humano, porque parar de interpretar significa deixar de perceber o mundo, significa morrer.

Quando falamos de um jornalismo feito a partir do Brasil, da América Latina, renunciar à interpretação, ser isento, significa não só a morte individual, mas também a morte coletiva. E por quê?

Porque há, disponíveis, milhões de discursos sobre o mundo, mas poucos são capazes de ajudar a maioria das pessoas a compreendê-lo. E como mudar algo se não o compreendermos?

A questão é que abandonar a idéia da isenção também nos faz sair de uma certa zona de conforto, porque somos obrigados, diante dos fatos, diante da realidade, a fazer escolhas, como seres humanos e como jornalistas. “Ouça sempre o outro lado”, nos dizem. Mas há vários outros lados, há múltiplas versões. Qual levar em conta? A partir da qual, das quais, interpretar?

Essa pergunta transpira em cada pauta, em cada reportagem. E a resposta define o caminho jornalístico de cada um, e por isso a importância da leitura, da análise, da observação das coisas e das pessoas.

Nada disso impede as dúvidas, as inquietações terríveis, a sensação de desamparo. Também, para esses momentos, é preciso buscar respostas.

A minha é a certeza de saber que escolhemos uma profissão privilegiada. Todos os dias, saímos de casa para interpretar o mundo, por força de ser humano e de ser jornalista. E todos os dias eu saio de casa sabendo disso, mas sabendo de um pouco mais:

Como dizia Paulo Freire, tudo na História é possibilidade, nada está determinado. Então, ser jornalista é sair de casa sabendo que o nosso trabalho tem um propósito: é mostrar essas possibilidades que nascem, que se constroem dia a dia em todos os lugares nesse tempo que nos é dado viver.

E do que nos serviria falar sobre essas possibilidades de construção da História? Bem, mais uma vez só posso dar a minha resposta, e para ela uso uma frase de Dom Hélder Câmara, que costumava dizer: “Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e com a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça. Esta é a tarefa de todos nós”.

Um teto todo seu










Míriam Santini de Abreu
Gosto quando estou no blog da Pobres e verifico que, comigo, estão visitantes na página, o que é revelado pelo contador de acessos. Gosto mais ainda quando isso acontece na madrugada. Ah, que sensação de cumplicidade! Sim, a técnica domina também o espírito do homem... Aí penso nos e nas jornalistas dos meus quereres, com suas mandonas mãos deslizando no teclado, exigindo que ali se materialize o pensamento. Com esses companheiros compartilho o gosto pelo que Virginia Woolf chamou de “um teto todo seu” – os seus ensaios sobre mulheres e literatura. Um lugar com os livros, revistas, amontoados de papéis, bugigangas, e – onde antes estava a máquina de escrever – o computador.
Dia desses liguei para a Elaine Tavares e disse o Pedro:
- Hi, está lá em cima martelando aquele computador!
No alto da escada da casa dela no Campeche, a imagem de um Che arrebatador.
O Karl, em São Francisco do Sul tem um quarto cheio de pós mágicos. Com eles viaja até os atóis de Bizâncio.
Eu, em algum lugar da alma bagunçada, tenho 15 anos, e cultivo indolência para arrumações.

Ah, sob o lugar onde a gente escreve há uma raiz gigantesca que atravessa a crosta terrestre, os oceanos, as florestas, até se enlaçar com uma antiga árvore em Wadi Feran, no deserto de Sinai...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Insensatez


Míriam Santini de Abreu

Já passa da meia-noite, é 15 de setembro! Eu deveria, queria, ser um pássaro neste dia, que espero de sol, porque - disse Karl - o Deus precisa de nosso pobre coração para existir.

Reverenciar o Deus que há em nós

George Seeley, a moça lendo, 1910


Minha querida filha Shânkara,

eu acredito muito no poder onírico: eu penso que devemos acordar do estado de vigília (onde o mundo externo vigora). No estado onírico podemos voar com uma árvore perfumada nas mãos; quando acordamos vemos a árvore, e não estamos mais voando nem a árvore é perfumada: e isto torna as coisas, de certa maneira, chatas ou desesperadamente enfadonhas. Por isto devemos despertar, não do sonho, mas do estado de vigília (onde o mundo externo vigora). Aprender a retomar a potência do onírico, disto já falava o Nietzsche em sua teoria filosófica do Eterno Retorno.
Contudo, há um outro estado, anterior à vigília, que se chama o Deus ou Algo: eu creio firmemente que o Deus ou Algo é quando a luz que temos (ou consciência) ilumina, alumbra, aclara a escuridão. A luz não apodrece. A luz não pensa. A luz, em latim dies: daí vem a palavra dia e a palavra Deus; Deus que é luz, não deste mundo, nem do outro.
Freud foi um divisor de águas no século 20, porque ele descobriu que, no tal do Inconsciente ou Deus ou Amor, só há sim.
O não vem do ego, do que há de mais podre em nós, do ditador que há em nós, que diz que a potência da vigília (o mundo externo) é mais eficaz que a potência onírica. O ego é aquele que diz, todos os dias, que um poema não vale nada; que um passo de dança não vale nada; que uma escultura do Aleijadinho não vale nada; que uma linha de Paul Klee não vale nada; que uma suíte para violoncelo de Bach não vale nada.
Por isto devemos esvaziar o ego. O único poder do ego é reconhecer que não tem poder algum: e isto é reverência, humildade, ou deixar que as coisas fluam. Paul Valèry sugeriu: "Devemos ajudar a Hidra a esvaziar seu nevoeiro".
Numa sala, se alguém disser que há um cavalo azul esvoaçando, sabemos que só as crianças o verão (quiçá alguns velhos). Ninguém entra no Reino se não se tornar criança (não no sentido de tamanho ou idade), mas criança no sentido de se abismar no lúdico, no abismo livre das águas e ver as coisas com olhos novos e retinas enxaguadas pela chuva.
E se, no estado de vigília, praticamos o estado onírico, aí somos artistas e, quanto mais artistas, mais conscientes. Outro dia eu imaginei que um leão de fogo passava próximo de minha xícara de chá e, nela, esquecia sua sombra vacilante. Eu não via o leão de fogo, apenas sua sombra na xícara de porcelana branca. Claro: nem o leão de fogo nem a xícara de chá nem a sombra existiam no estado de vigília; eles existiam, somente, no estado onírico. Quando me refiro ao estado onírico, falo também da glândula pineal, cuja função em nosso cérebro é ver; a glândula pineal é o nosso terceiro olho --- nosso olho védico --- o Olho do Deus ou do Algo: Aquele que tudo sabe e de quem nada sabemos, porque conhecer o Deus ou Algo é conhecer-nos. Através da glândula pineal podemos ver com os olhos fechados tudo o que há no mundo vasto mundo; e, assim de olhos fechados, recordar do mar, do vento, das barcas; rememorar a nossa origem primordial e nossas outras origens que tais.
O amor é um sim primordial; o Deus é sim, nunca não; a não ser que este não seja para o ressentimento; a tristeza, a mentira; a violência: o desamor.
Devemos despertar do estado de vigília, não do estado onírico. No estado onírico podemos ser tudo, a cada milésimo de segundo. No estado de vigília vivemos sob o tacão da ignorante selvageria; humilhados pelo grilhão da mesmice; imersos em baboseiras e cotidianos aviltantes. No estado onírico eu posso fazer comigo e com quem amo o que a primavera faz com as cerejeiras; posso, igualmente, lamber o sal de todo o corpo daquele Ser que adoro e ciciar em seu tímpano a ondulação dos capinzais do Ceilão. Ver as coisas externas com a potência do estado onírico, eis a arte e a condição humana. No estado onírico curamos chagas com apenas passar a nossa língua de bálsamo nelas. Precisamos cuidar das coisas do Espírito (as coisas do estado onírico) e o resto nos será dado de acréscimo. No estado de vigília ficamos na cama dos hospitais. No estado onírico somos pássaros; no estado de vigília somos deputados, gerentes de banco, burocratas da pior espécie. No estado onírico somos jazz do coração: um improviso só; algo novo; inédito, não combinado.
Por isto viemos à Vida: para reverenciar o Deus que há em nós; o Deus paradisíaco enamorado pelas obras do tempo: um cabelo, um sorriso, um cálice de vinho; um barco que singra em torno da ilha.
Eu creio em poucas coisas, minha amiga; eu apenas creio que o Deus precisa de nosso pobre coração para existir. Devemos ser reverentes à potência do estado onírico e despertar as forças oníricas latentes. Por outro lado, devemos despertar do estado de vigília, enriquecendo a vigília com leões de fogo, deixando-a fluir musical.
Somos deuses quando nos abandonamos ao mistério.


Fernando José Karl

Meditação profunda


Quantas palavras, quantas nomenclaturas para um mesmo desconcerto: o que um dia vou saber, não sabendo já sabia: as rachaduras da parede emergem do escuro, enquanto escuto os estremeços das canoas naufragadas: aqui e ali, a única verdade é a dúvida: na casa de minha vó Ana aparecem trepadeiras florescidas, cactos, bambus: lá uma palmeira brota de um pátio, abrindo-se sobre o telhado: e agora, eu, Fernando, num relance insólito, sou esta pura cinza que tenta, ainda, ver o sujo mar: ignoro se a música sabe desesperar da música: se souber, pode que a cinza desespere da cinza e eu possa acordar de novo nessa praia Brava: tomo consciência da manhã no primeiro âmbar dos espelhos vazios, lavrados pelas lágrimas da noite.

Fernando José Karl

Venha conhecer a luta do Povo Palestino!

61 anos de resistência em defesa da Palestina livre!

Dia: 16 de setembro de 2009 - quarta-feira

Debate: Palestina hoje - relato da viagem de Khader Othman a Palestina
com exposição de fotos!!

Hora: 19 horas
Local: Auditório do Sindicato dos Bancários - Rua Visconde de Ouro Preto, 308, Centro - Flrorianópolis.

O Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino convida você e seus amigos para o debate sobre a Causa Palestina!

HAVERÁ HATAHS E CAMISETAS PARA AQUISIÇÃO !!!

Informações:
comitepalestinasc@yahoo.com.br

Sua presença é fundamental! ajude a divulgar esse evento!!


VISITE NOSSO BLOG

domingo, 13 de setembro de 2009

A dor de se estar só....

Jussara Godoi
Sou uma péssima "escritora", pois nunca tive interesse em me aperfeiçoar no ofício. Também não sou educadora, apesar do curso de licenciatura em Ciências Sociais me autorizar. Não sei se é por não ter a necessidade imediata de me manter como ser vivo, ou se é mesmo por não acreditar mais na causa dos educadores, digo educadores, pois esses são raros. Professores está saindo pelas tampas. Mas uma coisa gosto em mim. Eu gosto de pessoas! Principalmente, das pessoas humanas. Fico profundamente comovida quando vejo ou ouço algo de bom, vindo de um ser humano. Eu consigo me sentir feliz, mesmo que seja por poucos segundos. Um dia destes, começei a fazer uma brincadeira comigo mesma. Pensei... e se eu tivesse o dom de tornar as pessoas felizes? Então, cada pessoa que passava por mim, eu desejava em pensamento que ela fosse bem feliz, que tudo de bom se realizasse pra ela....Foi só uma brincadeira que fiz por alguns dias, pois sei que não tenho tais poderes em mim. Mas adoro quando alguém também me deseja algo de bom, tenho vontade de sair lhe beijando os pés. Bem, o que eu quis foi expressar aqui também a minha tristeza por saber que somos tão frágéis, tão carentes, tão solitários ao mesmo tempo em que somos fortes. E que às vezes somos capazes de ferir a nós mesmos, para fugir desta solidão existencial!!

sábado, 12 de setembro de 2009

O final de Caminho das Índias

Acompanhou a novela Caminho das Índias? Então leia a crítica de Li Travassos em

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Serendipity


Dizem que é muito raro encontrar um trevo de quatro folhas: você, que acessou este blog Nautikkon (http://www.nautikkon.blogspot.com) , acaba de encontrá-lo: boa sorte e Serendipity.
Experimentos científicos nos mostram que se conectarmos o cérebro de uma pessoa a computadores e scanners e pedirmos para ela olhar determinado objeto: o trevo de quatro folhas aí em cima, por exemplo: podemos ver que certas partes do cérebro estão sendo ativadas.
Se pedirmos para esta pessoa fechar os olhos e imaginar o mesmo objeto: o trevo de quatro folhas aí em cima, por exemplo: as mesmas áreas neurais do cérebro se ativarão, como se estivessem vendo o objeto trevo de quatro folhas.
Então os cientistas se perguntam: quem vê os objetos, o cérebro ou os olhos? O que é a realidade? É o que vemos com nosso cérebro ou é o que vemos com nossos olhos? Claro que é o que vislumbramos com o terceiro olho ou glândula pineal: situados em nosso cérebro.
Assim, podemos concluir, após breve reflexão que, se imaginarmos de olhos fechados esse trevo de quatro folhas aí em cima, é óbvio que o cérebro, através de seus 100 bilhões de neurônios, o fará circular por todo nosso corpo. Já pensou ter um trevo de quatro folhas raríssimo circulando por entre ossos, nervos, músculos?
Por causa dessa verdade científica e espiritual, desejo a você que está me lendo, nesse milésimo de segundo, o dom de atrair o acontecimento de acasos felizes, que é o que significa o mantra Serendipity: desejo a você o mais puro Serendipity.

Fernando José Karl

Para lembrar


Às vésperas do nascimento da P&N 19, aí está a capa da primeira edição, inaugurada pela querida Filósofa da Pedra, Jussara Godoi.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Jorge Risquet – A África é uma dívida histórica

Por Elaine Tavares – jornalista no IELA

Fazia um calor sufocante no solar onde viviam Jorge, os pais e quatro irmãos - outros três já tinham morrido de doenças infantis hoje já desaparecidas em Cuba e perfeitamente curáveis - em Havana. A grande casa tinha 24 quartos e em cada um deles, sem banheiro, vivia uma família. Era gente demais, todos muito pobres, a maioria trabalhadores de diversos ofícios, alguns informais. O pai de Jorge trabalhava numa “tabaquera”, empresa de fabricação do charuto cubano. Mas foi essa babel que possibilitou ao menino de 11 anos começar a vida de professor, ganhando, inclusive, o suficiente para pagar o quarto onde morava a família toda. “Nós estávamos sempre nos mudando porque meus pais não conseguiam pagar os aluguéis”. Então, para ajudar nas despesas Jorge e a irmã improvisaram uma lousa no pequeno quarto onde viviam e ensinavam os demais garotos do solar que não podiam ir à escola, porque era longe e eles não tinha sequer um sapato para usar. Cobravam alguns trocados, mas com isso garantiam o aluguel.
O menino era Jorge Risquet Valdés, que mais tarde veio a ser um dos organizadores da educação na guerrilha cubana e um dos comandantes da campanha de Cuba na África, nos anos 60. Naqueles dias, ele, que era um dos melhores alunos da escola fundamental, já estava apto para passar ao ensino médio. Mas, para estudar na Cuba pré-revolucionária, era preciso ter dinheiro. Sem chance, ele, então com 13 anos, foi buscar os cursos oferecidos gratuitamente pela Juventude Revolucionária Cubana.
Apesar da pouca idade Jorge não era um analfabeto político. Os pais, trabalhadores do tabaco, tinham profunda consciência de classe. É que em Cuba, na produção de charuto era assim: as pessoas ficavam ali, enrolando as folhas, no mais completo silêncio. Por conta disso, os trabalhadores inventaram um bom jeito de se instruir e ficar por dentro da literatura revolucionária. Faziam uma “vaquinha” e contratavam um leitor, alguém que ficava ali, lendo, enquanto todos trabalhavam. “O leitor trazia uma lista de títulos e os trabalhadores escolhiam. Liam Gorki, Vitor Hugo, Cervantes Martí, Tolstoi e muitos outros”.
Pois foi por conta destas leituras que a família Risquet sempre esteve em dia com os temas do mundo. O irmão mais velho de Jorge, inclusive, alistou-se para ir à Espanha lutar contra a ditadura de Franco. Cerca de mil cubanos foram. Então, durante a segunda guerra e o horror nazista, Jorge já estava envolvido até os dentes na organização da juventude revolucionária. Quando em 1944 funda-se em Cuba a Juventude Socialista, Jorge está lá e toma para si a tarefa de organizar os jovens num grande bairro de Havana. No ano seguinte, durante o Congresso Nacional Constituinte da Juventude, ele, com 15 anos, é eleito membro do Comitê Central.
Aos 16 anos de idade Jorge comanda o jornal quinzenal “Mella”, que levava o nome de um grande comunista cubano, e ali ficou até os 20 anos. “Os trabalhadores cubanos sempre foram muito politizados. Para se ter uma idéia, quando Lênin morreu, as tabaqueiras pararam em sua homenagem, e nas guerras de independência do século XIX entregavam dinheiro – um dia de salário por semana – para comprar armas, tarefa que realizava o partido Revolucionário Cubano, fundado por José Martí, para preparar a terceira e última guerra de independência de Cuba. Em 1951, quando acontece o golpe de estado que eleva Batista ao poder, Jorge é um dos que se manifesta contra pelo rádio, na região de Matanzas onde encabeçava a Juventude Socialista e a polícia o persegue. Meses mais tarde vai para o exterior como representante da Juventude Socialista cubana na Federação Mundial da Juventude Democrática. Nesta função ele circula pela América Latina, Europa central e Leste europeu.
É em 1952, em Viena, na Conferência Mundial pelos Direitos da Juventude que Jorge conhece o jovem Raul Castro, então com 21 anos e representando a delegação cubana no evento. Dali eles atravessam a cortina de ferro e seguem para Bucareste, onde iriam organizar o Comitê Preparatório do Festival Mundial da Juventude. Lá ficam de dezembro de 52 a abril de 53. Raul segue para Paris de onde embarca para Cuba com dois guatemaltecos. Mas, o fato de os dois companheiros terem desembarcado cheios de livros “subversivos” fez com todos acabassem presos. Os guatemaltecos logo saíram por intervenção da embaixada do seu país, ainda sob o comando de Jacob Arbenz. Mas Raul ficou. Foi um brilhante jovem advogado quem entrou com um habeas corpus que tirou Raul da cadeia pouco menos de um mês do ataque ao quartel Moncada, que desataria a revolução cubana. O advogado bom de conversa era Fidel Castro. “Por pouco Raul não perde a ação de Moncada”.
Quando acontece Moncada Risquet está Bucareste, justamente nos dias do IV Festival Mundial e já começa a articular uma campanha internacional pela libertação dos prisioneiros, afinal Raul era um membro da juventude e organizador do festival. Foi por aqueles dias de organização de campanhas e festivais que Jorge conhece, em Bucareste, o jovem estudante de medicina Agostinho Neto que mais tarde viria a ser uma das mais importantes lideranças de libertação da África negra. Junto com ele, freqüentando os alojamentos latino-americanos – embora representassem Portugal – iam também a Marcelino dos Santos.
Em 1954 Jorge embarca para Guatemala, onde ia organizar um festival regional de apoio ao processo revolucionário, mas o golpe e a queda de Jacob Arbenz, impede que o mesmo aconteça. É naqueles dias que Risquet conhece Che Guevara, então vivendo no país. “A ditadura na Guatemala foi uma das mais ferozes. Foram 30 anos matando gente, mais de duzentos mil mortos”. Risquet logo sai da Guatemala em setembro de volta para Europa e Che segue para o México, onde encontraria Fidel.
Nos primeiros meses de 1955 Jorge veio para o Brasil, onde tentou organizar um encontro de estudantes no Rio de Janeiro, mas foi espinafrado por Carlos Lacerda. Foi Jânio Quadro, então governador de São Paulo, quem permitiu o festival, que acabou sendo bem pequeno, mas cumprindo com os objetivos.

A guerrilha em Cuba
Todo este trabalho organizativo na juventude comunista desde os 13 anos de idade acabou sendo a porta de entrada de Jorge Risquet para a atuação na luta que se forjava em Cuba. No ano de 1955 ele volta para a ilha clandestinamente e passa a comandar a Juventude de Havana. Por conta de sua atuação acaba preso em dezembro de 56 e chega a ser dado como desaparecido. Nestes dias é brutalmente torturado, tendo as unhas arrancadas, mas não lhe arrancam qualquer informação. Quando consegue sair, volta a atuar clandestinamente organizando a juventude. Depois sai de Cuba, disfarçado, para organizar reuniões com os partidos comunistas no México, Caribe e Venezuela. “A idéia era dar a conhecer sobre Fidel, quem ele era, o que pretendia, e buscar apoio para a luta em Cuba”.
Quando a guerrilha é instalada na Sierra Maestra, logo começa a expandir-se para outras regiões do país. Raul funda então a “segunda frente” e manda buscar Risquet para coordenar a criação de uma Escola de formação. A proposta era tornar os rebeldes sujeitos conscientes sobre contra o quê estavam lutando. “A gente trabalhava no sentido de fazer compreender que o combate era contra o imperialismo. E, naqueles dias, sob o comando da “segunda frente” tínhamos mais de 11 mil quilômetros quadrados de território liberado. As escolas proliferaram”..
Jorge Risquet fez-se então o primeiro formador político do exército rebelde no Oriente e quando a revolução triunfou ocupou o cargo de chefe do Departamento de Cultura do Exército do Oriente publicando revistas e preparando quadros para o governo revolucionário. E assim foi até 1965, organizando, na região oriental, o novo Partido Unido da Revolução, hoje chamado Partido Comunista. Mas, no mês de junho, ele recebe um chamado de Fidel. Diz o comandante que Che Guevara está no Congo, ajudando na luta por libertação, e que precisa de mais uma coluna de combatentes por lá. É quando começa a se formar o batalhão Patrício Lumumba, que seria comandado por Risquet.
A gesta africana
Enquanto Cuba encerrava a luta heróica contra a ditadura de Batista, lá do outro lado do mundo outro povo vivia a tarefa de se libertar das colônias européias. Em 1960, o Congo belga logrou sua independência sob o comando de um jovem negro, Patrice Lumumba. Mas, pouco depois de ser eleito primeiro-ministro e iniciar uma mudança radical no país em busca de melhorias para o povo, Lumumba foi preso, torturado e assassinado depois de um golpe de estado promovido com a ajuda da CIA, dos Estados Unidos. Também em 60 a França concede a independência ao outro lado do Congo, chamado de Congo francês. Mas quem fica na presidência é um vassalo, Folbert Youlou, que governa com mão de ferro até 1963, quando com revolta popular, o governo cai e acontecem eleições. Massemba Debat é eleito presidente. No lado belga, os partidários de Lumumba seguiam lutando contra a ditadura e os acontecimentos na parte francesa acendem esperanças de verdadeira libertação, até então não acontecida.
Em 1964, a região era um caldeirão explosivo. Mercenários brancos chegavam ao Congo belga com o apoio dos Estados Unidos e regressa ao poder Moises Tshombe, um conhecido anticomunista que ajudara na captura e no assassinato de Patrice Lumumba. É quando o governo do Congo francês pede ajuda a Cuba para que mande alguém capaz de treinar o exército local, uma vez que se aproximava a possibilidade de uma guerra entre os dois Congos.
Quem vai à África, em janeiro de 1965 é o próprio Che Guevara, que se encontra com Debat e com o então presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola, Agostinho Neto, para ouvir dos dois comandantes como estava a situação. Assim, em abril do mesmo ano, Che retorna com um pelotão de 14 soldados cubanos – que semanas depois seriam 120 - chamado de Coluna Um, e entra na África pela Tanzânia. A proposta é treinar os lumumbistas e também os combatentes da Frente de Libertação de Moçambique. Meses depois, era a vez de embarcar para África a Coluna Dois, esta dirigida por Jorge Risquet, com mais 250 homens. “Nós fomos ajudar militarmente na integridade territorial, na luta contra o colonialismo, contra o racismo, contra o apartheid. Era uma obrigação histórica visto que daquele continente saíram mais de um milhão e 300 mil homens e mulheres, levados para Cuba como escravos. Em Cuba, estávamos começando a organizar nossa própria casa, mas não podíamos deixar de ajudar”.
Poucos anos depois da vitória cubana, o internacionalismo já aparecia como uma marca do novo governo. E foi muito em função desta participação de Cuba nas lutas de libertação africana que o processo revolucionário naquele continente cresceu.. Desde aqueles dias dos anos 60, 380 mil soldados cubanos passaram pela África, além de 100 mil outros colaboradores nas áreas da saúde e educação e outras. Dois mil e setenta e sete cubanos caíram em combate no solo africano e são considerados heróis nacionais. “Nós, em Cuba, não damos o que nos sobra. Compartilhamos o que temos, e assim foi com a África.” Também neste período, mais de 35 mil jovens africanos foram a Cuba estudar, sem qualquer custo. “Nossa contribuição também se dá na formação e assim vamos caminhando junto com a África que está a 10 mil quilômetros de Cuba, mas também está no nosso sangue”.
Jorge Risquet lembra que o internacionalismo é algo que faz parte da consciência do cubano, e não é coisa que ocorre só depois da revolução dos anos 50. Martí já ensinara que “pátria es humanidad”. Por conta disso vão-se encontrar cubanos lutando com Lincoln, pela libertação dos Estados Unidos, com Benito Juarez, pela libertação do México, com Simón Bolívar. “Na guerra do Vietnã mais de 400 mil cubanos se inscreveram, por livre vontade, para lutar junto ao povo daquele país. Só não foram porque os vietnamitas não quiseram. O internacionalismo é uma razão ética e política. Se nós em Cuba logramos ter assistência médica perfeita e educação de altíssima qualidade, por exemplo, é nosso dever levar isso aos irmãos que ainda não têm”.
A participação cubana na África se estendeu do Congo para Angola, onde também foram treinar jovens soldados e ajudar Agostinho Neto na luta contra o domínio português e os mercenários. Depois, nos anos 70, lá estavam outra vez os cubanos, sob o comando de Risquet, com instrutores militares, médicos e professores. “Passado meio século, a gente vê que Cuba esteve esse tempo todo na solidariedade com a África, desde o golpe contra Argélia em 1963, quando mandamos para lá todas as armas apreendida dos estadunidenses durante a fracassada invasão de Playa Girón, e retornamos com 100 crianças órfãs de guerra. Estivemos peleando com o fuzil na mão, mas também com a presença civil de médicos, professores e engenheiros”.

A Cuba de hoje
O povo cubano segue fielmente a lição de Martí, e considera toda humanidade como pátria. Por isso se desdobra em levar seus avanços na ciência e na educação para aqueles que ainda não lograram as vitórias que Cuba já conquistou. Atualmente existem 27 mil cubanos na Venezuela, e outros milhares espalhados por vários países, principalmente no campo da saúde. Seguem três mil em Angola, sendo que 900 são médicos, fazendo a diferença. Não foi à toa que Jorge Risquet recebeu a grata surpresa de ouvir, no auditório da Universidade Federal em Santa Catarina, o depoimento de dois angolanos sobre como haviam sido operados por médicos cubanos e alfabetizados por professores, também de Cuba.
Desde a revolução de 59, mais de 100 mil estudantes de vários países de África, América Latina e Ásia fizeram sua graduação em Cuba, todos com bolsa integral. “Quando tivemos um tempo bem ruim (a partir de 1991 com o desaparecimento da União Soviética e do campo socialista da Europa) nós perguntamos a eles se queriam ficar e dividir a pobreza conosco. Nunca os abandonamos”. Risquet conta que dos 55 países africanos, 54 têm relações com Cuba. Em Havana existem 20 embaixadas de países africanos e Cuba está em 30 deles. Todos estes países sempre votaram contra o bloqueio criminoso que os Estados Unidos tem contra Cuba e há comitês de apoio a Cuba em quase todos os países africanos. A Namíbia, recentemente, enviou dois milhões de dólares em ajuda a Cuba e até o Timor Leste ajudou, depois da passagem de um furacão. “A África sabe o tanto que Cuba lutou pela sua libertação e reconhece isso. Na Etiópia existe um monumento ao soldado cubano e na África do Sul, num outro monumento que recorda os mortos das lutas libertadoras, estão gravados os nomes dos 2.077 cubanos que deram seu sangue pela pátria africana. Outro dia, na Namíbia, o presidente Raul Castro foi recebido pelo povo, que cantava Guantamera (em espanhol). Isso mostra o quanto África ama Cuba”.
Jorge Risquet, que foi o homem de Cuba em toda a campanha militar africana tem agora 79 anos de idade. Desde aqueles dias em que dava aula para os meninos pobres do solar, onde vivia em um quarto apertado, já se vão 68 anos. É tempo demais. Mas, o garoto que correu o mundo a organizar a juventude comunista, que comandou batalhões na grande África, que fundou escolas e jornais, que foi Ministro do Trabalho, Deputado e Membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, (desde sua criação há 44 anos) segue tão animado quanto naqueles dias gloriosos dos anos 60. Diariamente ele sai cedinho de casa e vai para o trabalho, no gabinete do presidente Raul Castro. É que há tantas coisas ainda para conquistar. Ele olha para a América Latina e vê tantas mudanças, a Venezuela, o Equador, a Bolívia, os povos em luta. E se emociona. “Cuba esteve um tempo sozinha por aqui, mas resistiu. Cuba resistiu a Bush. E vamos seguir acreditando na capacidade do povo de se organizar e conquistar sua liberdade. Veja a América Latina agora, nunca se viu um movimento como este. Mas, sabemos que o inimigo atua, o imperialismo tem planos e pode haver retrocesso. Aí está Honduras, a IV Frota, as sete bases militares ianques na Colômbia. Há que ver o perigo, mas há também que ser otimistas. Cada país, com seu povo, há de encontrar o rumo seguro para uma vida soberana”.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nascem as flores e as palavras


Míriam Santini de Abreu
Sábado passado estive no Campeche, e lá, num jardinzinho, flagrei o primeiro bosque de olhos-de-boneca. Ai, que vontade de ser beija-flor e passar o dia a sugar néctar!
A cada noite durmo com menos cobertas. O calor já não é tão tépido. Chega o equinócio. Até as letras, tão manhosas ultimamente, recusando-se a se abraçarem, agora voltam a formar palavras. A Pobres & Nojentas está quase indo para a gráfica, e também os jornais que fazemos e que contam a luta dos trabalhadores.
Ah, esse nosso desejo de sol-chuva, verão-inverno, primavera-outono, dia-noite, esses desejos tão contraditórios, nos fazem humanos, tão demasiado humanos...

Beleza!

Por Rubens Lopes
Esta noite "Tupã" fez ouvir sua voz de trovão. E o céu noturno, emocionado, derramou a "chuva das flores", como a gente chama lá em Minas. É a chuva que antecede a estação que recebe o mesmo nome dessa chuva, pré-anunciadora da beleza que tornar-se-á.
Como Guimarães Rosa notou, no caminho, as sementes encubadas pela poeira esperavam silenciosamente, até o momento em que a "chuva das flores" trouxesse a primavera que não tem fim... Assim acontece o milagre, e o que parecia sem vida apenas germinava.
Nesta manhã, extasiado, pude compreender o que o pai do Rubem Alves dizia ao contemplar a natureza depois da chuva: " Veja como estão agradecidas!". Com a natureza algo de nós também fica agradecido, e sentimos que melhoramos. Talvez seja esta a beleza das pequenas coisas que desfrutamos, ali onde se encontram as grandezas de Deus.

Pânico na TV

Celso Vicenzi - Jornalista

Não, caro leitor, cara leitora, não estou falando daquele programa televisivo de qualidade duvidosa, tão ao gosto de muitos brasileiros. Nada contra quem assiste, mas diz muito sobre a indigência educacional do povo brasileiro e a qualidade da programação televisiva em nosso país. Quero falar aqui sobre o que desencadeou este clima de pânico nos meios de comunicação do Brasil, a partir do surgimento dos primeiros casos da gripe A H1N1 ou gripe “suína”. Tudo leva a crer que o chamado “efeito de manada”, tão presente nas Bolsas de Valores de todo o mundo, tem seu equivalente nas redações de TV, rádio e jornais. E que faltam jornalistas dispostos a pensar e com coragem para remar na contracorrente. Afinal, o que levou e ainda leva a mídia a fazer uma contabilidade mórbida diária sobre o número de pessoas infectadas e levadas à óbito se este vírus é responsável – até aqui – por apenas 0,16 mortes por 100 mil habitantes? O índice pode variar um pouco, com o surgimento de novos casos, mas continua sendo “muito baixo”, nas palavras de gente idônea, como o infectologista David Uip, uma das principais autoridades médicas no assunto.
Claro, temeu-se pelo pior. Em 1918, foram 598 mortes a cada 100 mil infectados, já com o mesmo vírus H1N1. No total, 40 milhões de mortos. Em 1957 houve 40,6 mortes por 100 mil (4 milhões de óbitos), com o vírus H2N2. E em 1968, 16,9 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes (1 milhão de mortos), com a versão H3N2. O atual vírus A H1N1 é a quarta geração descendente do vírus de 1918. Para nossa sorte, até aqui – porque eles sempre estão em constante mutação – muito mais brando.
Desconfio que a maioria dos jornalistas nunca pesquisou quantas pessoas morrem, todos os anos, no Brasil, com as gripes “normais”. Cerca de 4 mil a 8 mil pessoas, geralmente idosos – é o que dizem as nossas nem sempre confiáveis estatísticas. Só descobriram agora que gripe mata?
Doenças como a Aids, tuberculose, malária e doença de Chagas, entre outras, matam mais de 12 milhões de pessoas todos os anos no planeta. São 32 mil mortes por dia!
Por que a mídia não adota o mesmo comportamento em relação a outras doenças muito mais mortais e que atingem milhões de brasileiros, provocando milhares de mortes?
No Brasil, doenças já erradicadas em boa parte do mundo como malária, tuberculose, hanseníase, dengue, diarreia e leishmaniose infectam e matam muito. São milhares de mortes, todos os anos, sem merecer não mais que algumas linhas na imprensa. Doenças que, mesmo quando não matam, provocam sequelas e incapacitam boa parte da população.
O Brasil registra, em média, 85 mil casos de tuberculose a cada ano, segundo o Ministério da Saúde. Isto representa 35% do total de casos nas Américas. Morrem de tuberculose cerca de 5 mil brasileiros por ano. Cadê a mídia? Por que silencia? (Estou sempre comparando com a “onipresença midiática” com a gripe A).
A malária, presente em mais de 100 países, ameaça 40% da população mundial. A cada ano, 500 milhões de pessoas são infectadas. No mundo, a malária mata uma criança a cada 30 segundos. Por que a omissão da mídia diante dessas doenças e suas mortes silenciosas?
Há várias razões, mas uma boa pista é que são doenças que acometem, principalmente, os mais pobres. Enquanto o vírus da gripe A se propaga “democraticamente”, causando – insisto – 0,16 mortes por 100 mil habitantes no Brasil, somente as doenças infecciosas e parasitárias mataram 44,3 mil brasileiros em 2008, segundo a Sociedade Brasileira de Infectologia. Desse total, 2.757 eram crianças menores de um ano. Onde está a mídia que não aponta suas câmeras, seus “flashes” e seus textos para estes pobres moribundos?
Nos países mais pobres, a diarreia é a terceira causa mais comum de morte em crianças menores de cinco anos. No Brasil, foram responsáveis por 500 mil casos de internações hospitalares em 2008.
Mas para não fazer a apologia do catastrofismo, tão ao gosto do jornalismo brasileiro atual, é importante dizer que houve uma notável queda das taxas de mortalidade infantil por diarreia, que caíram de 11,9 para 0,2 óbitos por 1.000 nascidos vivos, uma redução de 98,6% entre 1980 e 2000. Graças às campanhas de reidratação oral que envolveram o Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Pastoral da Criança, a Unicef e a Organização Pan-Americana de Saúde. O Programa de Saúde da Família, implantado pelo SUS, em 1994, também tem contribuído para a prevenção e tratamento. Ou seja, com políticas públicas é possível impedir que muitos brasileiros morram de doenças perfeitamente evitáveis. E, neste caso, os meios de comunicação também ajudaram muito.
Mas então, por que este clima de pânico na TV com a gripe A, depois que ela se revelou menos mortal? A irresponsabilidade da mídia, sob o pretexto de bem informar, provocou uma corrida desnecessária aos hospitais, transformando as emergências num caos. Seria pedir demais aos jornalistas um mínimo de reflexão? Que tal indagar-se, para começar, por que estamos tão preocupados com a gripe A se outras doenças matam muito mais? Bem, talvez seja melhor nem fornecer essa pista aos repórteres, ou darão plantão permanente nas UTIs.
Doenças matam e continuarão a matar milhões de pessoas em todo o planeta. Às vezes, de forma avassaladora, até que se encontre a cura. Não há o que fazer, além de tentar prevenir e exigir das autoridades uma política de saúde pública que garanta o máximo de qualidade de vida à população.
À mídia, aos jornalistas, só para, quem sabe, mudar um pouco de assunto, sugiro uma boa pauta: investigar por que as doenças que atingem apenas 10% da população mundial recebem 90% dos investimentos – públicos e privados – para estudos e pesquisas científicas?
Jornalismo de qualidade, sobre saúde, começa por aí. De olho em muitos interesses que sempre estão em jogo. Sem negligência para com os fatos, mas também sem pânico.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A pedra que virou pássaro

Míriam Santini de Abreu

A equipe da revista está às voltas com os últimos detalhes do fechamento da edição 19 da revista Pobres & Nojentas. Tão linda está a nossa menina!
Suporte tão generoso, o papel, mas também que delícia é usar as novas tecnologias para experimentar, entregar-se à sedução desses Megas, PDFs, AVIs, Gigas, PHPs. E quando o cruzamento entre eles dá certo, quando o resultado que desejo é o resultado que aparece, saio a pular feito criança, porque o Sistema – ah, esse Sistema – me obedeceu.
Acabo de experimentar mais uma forma transgênica – transgênica do bem – de dizer, de construir um discurso, utilizando essas ferramentas cuja forma de funcionar eu desconheço, mas que, de tanto clicar e arrastar o mouse, eu uso. Trata-se de uma Foto-Crônica intitulada A Pedra que virou Pássaro, para quem tomei a voz de Elaine Tavares, a querida passarinha do Campeche. Vá lá na nossa conta no You Tube e confira!

http://www.youtube.com/watch?v=7cy-HBu9QjY&eurl=http%3A%2F%2Fwww%2Eyoutube%2Ecom%2Fuser%2FPobresyNojentas&feature=player_profilepage

domingo, 6 de setembro de 2009

A Fonte da Juventude


Míriam Santini de Abreu
Ponce de León morreu flechado na baía de Havana. Era um homem que andava à procura da Fonte da Juventude. Mas ela sempre esteve nas terras do Sul, onde Ana lava os cabelos negros à beira de um poço. A água do poço é a água da Fonte.


Rotina de gueisha

Fernando Karl

Ao bater do meio-dia, a gueixa Yuki entrava na tina de Ofurô, a nudez dentro da tina, onde os perfumes derramados davam à água um tom cristalino de nada: depois uma carpa a penetrava, gozoza, de escamas macias, a carpa ia e vinha e friccionava as fendas da gueixa com o cerimonial de quem celebra um culto noturno; e embrulhada num céu que não tinha fim, a alma de Yuki --- céu de seda --- e, num dos recantos de seu mistério, a gueixa ondulava suavemente os quadris, dando aqui e além certo olhar ao jardim lá fora, entre árvores silenciosas – o jardim de pedra.
O resto da tarde, se havia luz que salpicasse as profundezas do horto, a gueixa Yuki passava lendo na Sala de Chá, e ali a mobília era de vime e os pequenos vasos de flores de cerejeira calavam cada mágoa, cada ira.
Um jardim de pedra; aí, quando nele estava, Yuki saboreava os escritos de O Livro do Vento, do poeta Syn Li. Enquanto iam sendo lidas as pequenas odes – a música na vitrola refrescava o ar –, e a gueixa agitava o leque e pensava na carpa, no céu, na seda.

sábado, 5 de setembro de 2009

A novela eleitoral reinicia sua encenação

“Marina, Marina morena, você se pintou...” e seu rosto também não é o meu.

Por Raul Fitipaldi

Entanto aguardamos o retorno de Manuel Zelaya a Honduras, que muito além dos acordos pontuais das elites políticas, representa a vontade soberana do povo hondurenho que tem resistido heróica e pacificamente mais de 70 dias, em jornada só comparável à resistência contra a indústria bananeira ianque em 1954;
Entanto assistimos, em mais de cinqüenta países a marchas em reivindicação do Comandante Chávez, atacado ferozmente pela oligarquia colombiana e o Império através das redes “sociais” Facebook e Twitter;
Enquanto a Procuradoria da Bolívia ordena a captura do fascista e terrorista dirigente de Santa Cruz de origem croata, Branco Marinkovic, por financiar grupos terroristas que atuam contra o governo de Evo Morales, e, sobretudo, assassinam indígenas de todas as idades; entanto as mobilizações começam a se multiplicar e a decadência do império norte-americano e da União Européia aumenta, junto com o desemprego e o descontentamento social; enquanto milhares e milhares de fatos importantes indicam que uma mudança de rumo se torna necessária à preservação da humanidade e do planeta, aqui no Brasil... O ESPETÁCULO ELEITORAL RECOMEÇA. O GRANDE CIRCO DOS 30 SEGUNDOS DE DEMOCRACIA REINICIA SUA MARCHA PELA TERRA BRASILIS.
Contextualizando essa lógica idiotizante: falta pouco mais de um ano para ter a glória de exercer a democracia representativa durante 30 segundos. De costas ao que acontece de forma multiplicativa na América Latina, e custou o golpe de estado na Honduras, para só se dar um exemplo, ninguém discute um novo modelo de participação política e democrática concreta que pare de vez com a danada ladainha de que a Constituição de 88, é a carta magna mais perfeita e revolucionária do mundo. MENTIRA, NÃO É! Nenhuma carta magna que durante mais de duas décadas não conseguiu garantir um avanço mínimo sequer da soberania popular, e com ela todas as outras; nenhuma carta magna que mantém a iniqüidade social, aumenta o desemprego e a dependência entreguista; nenhuma carta magna que NÃO SE CUMPRE é boa, que dizer perfeita. E se não há uma constituição que garanta a justiça social, a soberania nacional, a liberdade das classes oprimidas, há que construir outra que tenha mecanismos que garantam o cumprimento destes preceitos. É a elite política, associada aos interesses do passado, com idéias do passado, e com métodos já fracassados no século XX que vai garantir essa nova constituição? NÃO DE NOVO, NÃO!
Assim então, que dá pra fazer para enfrentar este rodízio interminável de políticos profissionais que garantem o status quo dos grandes interesses oligárquicos e supra-nacionais? Enfrentar o problema, tá na hora, pois! Primeiro, dando a esse circo eleitoral o valor que tem para a transformação da nossa sociedade: NENHUM. Que muda se a nova musa da esquerda é a Marina Silva, ou o segue sendo a Heloísa Helena? NADA. Porque nenhuma das duas pré-candidatas, da incipiente esquerda brasileira, representam uma proposta fora do sistema constitucional e do modelo estrutural político imposto para o povo no Brasil. De modo que o problema de reconstituir o Brasil de cara às necessidades das maiorias exploradas, da proteção do meio ambiente, das Soberanias Territorial, Alimentar, Energética, Comunicacional, etc., e a necessidade de somar seriamente ao Brasil às novas alternativas que para o século XXI se propõe a América Latina, torna necessário:
Negar a importância deste processo eleitoral, porquanto ele só homologa o atual estado burguês e antipopular;
Em função disso, chamar a não participar deste circo eleitoral sem ter medo das sanções que não podem ser levadas a cabo se, por exemplo, um dez por cento do eleitorado se negar a participar desse imbróglio dos políticos profissionais, porquanto não existe um estado capaz de sancionar a mais de dez milhões de pessoas por exercer seu legitimo direito de não fazer parte da trama;
Discutir e mobilizar-se para construir uma ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE liderada pelo povo junto aos seus Movimentos Sociais, na procura de mudar de vez o rumo do país e descobrir o modelo de nação que as maiorias almejam.
Trabalho do povo em fim. A hora não é pra ficar sentado na telinha olhando os milagres que não serão cumpridos pelas novas musas da esquerda, e muito menos pela direita dominante em todas as instituições de poder do Brasil.
Marina, tuas ondas são tardias, teu chamego não me engana, já dormiste nas doces águas do poder.

Vendo, finalmente, a cegueira

Li Travassos, de Florianópolis

De janeiro a junho de 2008, tive duas colunas quinzenais publicadas no infelizmente falecido site
www.sarcastico.com.br. Uma chamava-se "Uma pitada de Li", e ali eu escrevia de tudo um pouco. A outra chamava-se "Era uma vez", e era sobre literatura. Em 22 de maio de 2008, na coluna "Era uma vez", foi publicado um texto meu sobre o maravilhoso escritor José Saramago, mais especificamente sobre o livro "Ensaio sobre a cegueira", que acabara de virar filme. O texto chamava-se "Para ver a cegueira", e começava assim:
"Entre várias obras de gênio, José Saramago escreveu, em 1995, aquele que, em minha opinião, é seu melhor livro: 'Ensaio sobre a cegueira'. O livro fala de uma estranha doença, altamente contagiosa, que vai cegando as pessoas, uma a uma, até transformar o local em que moram num caos. Saramago, com seus indefectíveis porém discretos toques de feminismo, mostra o pior lado dos seres humanos, o que há de mais vil em todos nós, tudo isso na sua peculiar linguagem. Digno de pausas para vomitar vez ou outra."*
O filme não havia recebido uma boa crítica, e eu fiquei com muito medo de assistir e testemunhar um assassinato do livro, como tantas vezes acontece. Me enrolei até agora, quando finalmente peguei o filme na locadora, e descobri, muito feliz (ou tão feliz quanto alguém pode ficar depois de ter acesso a esta história, seja da forma que for), que o filme é ótimo. Resume, é claro, o livro. Nem a trilogia "O Senhor dos anéis", com suas longas horas de filme, consegue contar o livro tim-tim por tim-tim. Não é possível. Mas é possível ser fiel ao princípio motivador do livro, é possível não desrespeitar a visão do autor, é possível recontar uma história valorizando a fotografia em detrimento do detalhe, sem contudo perder o foco.
Nenhum pecado neste filme, portanto? Só um. Saramago joga sua história no vazio, não fala de uma cidade específica, de um país, de nada. É uma história que se dá no mundo. Ponto. Para intensificar esta sensação, seus personagens não tem nome. São "chamados" por sua situação, profissão, etc. E, como já disse antes, Saramago é um homem feminista. Talvez o homem (ou ao menos o homem heterossexual) mais feminista que já "conheci", pois tem uma capacidade incrível de colocar-se no lugar da mulher. E, no filme, o homem mais machista – do pequeno grupo de personagens mais importantes – é representado por um ator asiático. Fica parecendo que o machismo é condição exclusiva dos orientais. Bom se fosse. Triste escolha, possivelmente de Fernando Meirelles, que dirigiu o filme. Mas, tirando isso, o filme é muito bom. No papel principal, a genial Julianne Moore. O ótimo Danny Glover tem uma participação pequena, mas interessante. Se ainda não assistiu, assista, mas aconselho (sempre) ler o livro primeiro. Pero, para qualquer dos dois, é preciso ter um tanto de estômago...
Saramago, J. (1995). Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras.

*Quer ler o texto todo? Vá lá. Aproveite que o site está morto, mas não enterrado. Chegando no site
www.sarcastico.com.br clique em colunas - era uma vez - maio de 2008, para ver a cegueira.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A pedagogia da beleza

Elaine Tavares
Nunca é demais falar sobre o papel da classe média no Brasil. Equilibrando-se entre o sonho de virar elite e a realidade que a aproxima sempre mais dos empobrecidos, ela é cada dia mais vítima de uma coisa que é muito poderosa. Falo da pedagogia da beleza, empregada pelo sistema capitalista para ganhar as almas claudicantes. Pedagogia é uma palavra que tem sua origem na Grécia, paidós (criança) e agogé (condução), ou seja, aquilo que conduz a criança. E é esta condução de beleza que faz com que milhares de pessoas se deixem seduzir pelas promessas do capital. Como assim? Simples...
Basta a gente ligar a televisão, onde o sistema suga a mais-valia ideológica das pessoas. Ali, nos intervalos dos programas, se expressa, vitoriosa, essa pedagogia, essa condução das gentes pelos caminhos da beleza, coisa tão sedutora. Entre tantas, há uma propaganda da Monsanto - maior produtora de sementes trangênicas do mundo - que é um exemplo claro disso que estou falando. http://www.youtube.com/watch?v=7y4EnsSW814
O vídeo abre com a música “mundo maravilhoso” de Louis Armstrog. E as imagens vão mostrando a vida nos seus instantes mais belos. E uma voz absolutamente sedutora diz: ‘imagine um mundo que preserve a natureza, o ar, os rios. Onde se possa produzir mais, com menos agrotóxico, sem desmatar as florestas.. e os trangênicos podem ajudar a gente nisso...Você já pensou num mundo melhor? Você pensa como a Monsanto!” O comercial dura um minuto, é é uma das coisas mais lindas do mundo. A gente fica emocionado. Impossível alguém ser contra o que o comercial diz. Isso é a pedagogia da beleza! O sistema oferece um discurso tão belo, imagens tão fabulosas, que as pessoas vão acreditando que é assim mesmo. Como ser contra quem quer um mundo melhor?
No meio desta pedagogia da beleza, o que fazem os sindicatos, os movimentos, os lutadores sociais? Eles aparecem sempre como os arautos da desgraça. Estão sempre prevendo catástrofes, anunciando maldições. As pessoas odeiam isso. Outro dia um amigo me disse, num ato pela Palestina. “Ninguém quer ver gente morta!” É, a verdade desconforta, desaloja. E a verdade não é coisa bonita de se ver às vezes. Mas às vezes é! Então, para mostrar essa verdade a gente também tem de usar a pedagogia da beleza.
Por isso creio que temos de anunciar também a boa nova. Mostrar para as gentes que o mundo com o qual sonhamos pode ser belo. Desvelar a verdade escondida na farsa dos donos do mundo que querem fazer crer que aquilo que é bom para eles - um minoria – pode ser aceito como verdade universal. Colocar isso a nu, mas também anunciar a beleza que pode ser o mundo pelo qual ansiamos, com justiça, vida digna e riquezas repartidas.
E como se faz isso? Ah.. O mundo está cheio de exemplos. Cooperação, solidariedade, partilha. Nos acampamentos do MST, em comunidades organizadas, nos bairros palestinos, nas lutas de libertação. Existem lindas histórias para serem contadas. A verdade da beleza que o modo de viver socialista inspira naqueles que acreditam que o mundo pode ser diferente, e caminham para isso. O sistema capitalista só usa a beleza como engano. Mas, aqueles que são profetas, vivendo hoje o que sonham para todos amanhã, estes não tem como enganar, porque expõe ao outro o exemplo.
Historicamente a classe média, na hora de escolher, quase sempre escolhe o lado dos poderosos. São vítimas dessa pedagogia enganosa da beleza, que brota na TV, nos jornais, na escola, em todos os lugares. Acreditam nisso. Mas, se a gente mostrar a beleza do nosso mundo, pode acontecer como no poema de Quintana, quando o menino espicha o pescoço para ver se vê a calcinha da equilibrista dizendo: Quem sabe, titio? Quem sabe?... Assim, nós...