terça-feira, 31 de março de 2009

BOLETIM ELETRÔNICO DA POBRES


A P&N começará a enviar um BOLETIM ELETRÔNICO para interessados que cadastrarem e-mail. Cadastre-se em revistapobresenojentas@gmail.com

Mudanças à vista


Míriam Santini de Abreu

Do meu apartamento dá para ver o quadrante sul de um cemitério, uma pracinha arenosa, casas e, algo de que gosto muito, um filete distante de montanhas azuis. Na semana passada cortaram tudo o que havia de verde ao lado da praça; agora descubro que ali irá ser construído um prédio. Os tapumes já foram fincados na terra seca. Mais uns meses e minha vizinhança irá virar concreto.

Assembléia aprova Código Ambiental

A Assembleia Legislativa aprovou no dia 31 o Projeto de Lei nº 238/2008, que institui o Código Ambiental de Santa Catarina. O Projeto de Lei recebeu 31 votos a favor e sete abstenções, sem nenhum voto contrário. P&N em breve irá falar mais sobre isso.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A cidade invisível

Elaine Tavares - jornalista

Enquanto milhares de pessoas se esbarram no terminal urbano e empilham-se nos coletivos urbanos, no ritmo louco entre a casa e o trabalho, sem tempo para pensar sobre os motivos de terem de viver assim, os governantes seguem decidindo coisas que tem ligação direta com a vida das gentes. E aí está o paradoxo. Eles decidem pelas gentes, e as gentes sequer sabem o que acontece. O que lhes cabe é sofrer as políticas, e assim mesmo, sem tempo para que possam pensar.
É o que acontece com o plano diretor. E o que é isso? É a lei que define como vai se organizar a cidade, nosso espaço de viver. O prefeito Dário Berger no seu primeiro mandato propôs o plano diretor participativo levando a discussão para os bairros e proporcionando que as pessoas pudessem opinar e decidir. E assim foi. Por meses as comunidades se reuniram, debateram, planejaram, decidiram, fizeram oficinas, informaram. Uma coisa linda de ver. Pois agora, depois de três anos de trabalho a prefeitura manda uma carta para os representantes das comunidades no Núcleo Distrital agradecendo o apoio e pedindo toda a estrutura de volta. Ou seja. A participação acabou. Segundo a prefeitura, agora serão os técnicos os que vão finalizar o processo e, com isso, ninguém sabe se o que foi exaustivamente discutido nas comunidades será levado em conta.
Coisa típica isso. Usa-se a comunidade, faz-se a propaganda da “participação”, mas a decisão mesmo será dos tecnocratas. Não é nem dos técnicos porque como a gente sabe, a decisão é política. O plano diretor atenderá os interesses dos grandes e poderosos. Grandes prédios, empreendimento gigantescos, tudo para dar mais beleza e conforto aos graúdos. Que importa se não há planejamento viário, que importa se não há água suficiente. Toca a encher de gente os bairros, verticalizar, asfaltar.
Bom, lá no Campeche a comunidade disse não. Primeiro diz que não vai entregar a sala onde estava instalada a representação distrital. Segundo, vai continuar acompanhando bem de perto os trabalhos. Terceiro, vai fazer valer aquilo que, de forma democrática e participativa, a comunidade decidiu. Daí que é muito importante as demais comunidades fazerem o mesmo porque plano diretor é coisa séria. Ele diz respeito a nossa vida mais cotidiana. Ele pode dar respostas para as filas no trânsito, para a falta de praças, para a melhoria da qualidade de vida de todos. Eu disse de todos e não só dos ricos. Plano diretor é coisa para ser acompanhada por todos nós.
A gente sabe que não é fácil viver nesta moenda do capital. Sempre cansado, trabalhando demais, e ainda ter de bancar as peleias com o poder público. Mas é necessário. Sem isso a cidade segue sendo espaço para poucos. São muitas as lutas para travar, eu sei. Mas, esta, é fundamental. Então, no seu bairro, procure a associação de moradores e diga que não aceita entregar a decisão do plano diretor para quem não vive os problemas reais da cidade. O prefeito Dário iniciou um processo participativo e não tem o direito de parar agora. A cidade também é nossa.

Assembléia pode aprovar Código Ambiental no dia 31

No dia 31 (terça-feira), a proposta do Código Ambiental de SC será deliberada em reunião conjunta das comissões na Assembléia Legislativa, seguindo, depois, para votação em Plenário. Se aprovado o projeto oportunista, o Estado estará na contramão de todas as discussões sobre a questão ambiental. Para entender o assunto, acesse
http://www.apremavi.org.br/mobilizacao/santa-e-fragil-catarina/
Para saber como está a tramitação na Assembléia, acesse:
http://www.alesc.sc.gov.br/noticias/mostraintegranoticia.php?codigo=19988

sábado, 28 de março de 2009

Estio

Míriam Santini de Abreu
Um anoitar alaranjado era como calda ardente sobre a Babitonga. Na margem lavrada, a palmeirinha encolhida de umidades sonhava que era plumagem de pavão.

O que é isso?


Tás curioso para saber o que é isso??? Leia a Pobres & Nojentas número 17, que circula em meados de abril!

Rádio Campeche na internet

A Rádio Comunitária Campeche também pode ser ouvida via internet. É só entrar no sítio www.radiocampeche.com.br e clicar em "Escute a rádio aqui". A programação musical é feita por 10 pessoas, com ampla variedade de estilos, gêneros e ritmos, sendo que no mínimo toca 80% de música produzida no Brasil. Tem também os programas ao vivo. Alguns deles: Campo de Peixe (sábado, 11 horas); Pra Desterro Falar (segunda às 20 horas), Comunidade no ar (quarta às 11 horas); Quarta Instrumental (quarta, 20 horas); Chão de Terra (todo dia das 6 às 7); Coisarada (sabado às 19 horas); Músicas do Mundo (domingo, 21 horas); Agenda Sul (quinta às 21 horas).

sexta-feira, 27 de março de 2009

Novidade na equipe de P&N!

Será no dia 16 de abril, no Auditório do Centro Sócio-Econômico da UFSC, às 19h, o lançamento do livro da jornalista Elaine Tavares: “Porque é preciso romper as cercas: Do MST ao Jornalismo de Libertação”. Neste trabalho, Elaine narra uma histórica ocupação do MST, a da Fazenda Anonni, no interior do Rio Grande do Sul, ocorrida em 1985/86. E, nesse contar das lutas das gentes, ela desvela a sua própria trajetória na busca de um jornalismo que se compromete e toma posição, sem perder o foco na realidade objetiva.
São os primeiros passos da discussão do que mais tarde Elaine veio a cunhar como Jornalismo Libertador, conceito no qual se ampara o jornalismo que não é servil, nem porta-voz dos poderosos, mas que narra a vida desde o olhar da comunidade das vítimas, como ensina o filósofo da libertação, Enrique Dussel.
Hoje, falar deste acampamento que existiu no interior de Sarandi, com mais de seis mil pessoas acampadas, é recuperar o caminho histórico do MST, atualmente acossado por agressões de toda sorte, como a que obriga o fechamento de suas escolas no Rio Grande do Sul. Então, o lançamento do livro acaba sendo também um momento de justo apoio a este movimento que tem sido um sendero de luta e transformação.
Assim, o encontro terá o poema de Cesinha, a música de Rafael Galcer e José Amorim, a fala de Vilson Santin, produtos da reforma agrária para serem degustados (vinho, queijo e salame) e o livro da Elaine. Uma noite para homenagear o MST e conhecer suas origens.


Sobre a autora: Elaine Tavares, jornalista e pesquisadora no IELA/UFSC, é gaúcha nascida em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Viveu sua infância em São Borja, na barranca do rio Uruguai e, depois, foi virar mulher às margens do "Velho Chico", em Pirapora, Minas Gerais. Das heranças ribeirinhas que amealhou, estão a paixão pela vida dos que andam nas estradas secundárias e o amor pela narração das histórias. Contar das gentes tem sido sua sina. Vivendo em Florianópolis desde 1987, também aprendeu com o mar que, às vezes, é preciso se jogar barulhento nos penhascos para capturar a beleza de se ser quem se é.


Dia 16. 19h
Auditório do CSE/UFSC

quinta-feira, 26 de março de 2009

Anel de lua

Shânkara, filha de Fernando Karl, colaborador da Pobres & Nojentas, com os dedos enluarados na noite marinha.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O castelo das sete palavras


Míriam Santini de Abreu

Sete palavras nunca escritas, nunca ditas. Sete palavras que desvendam o mundo. Sete donzelas as vigiam, os olhos-marinhos desbotados atrás das barbacãs da muralha. Nas madrugadas de lua cheia, o vento rumoreja a primeira sílaba de cada palavra. Mas ninguém ouve.

domingo, 22 de março de 2009

E louvemos agora as grandes máquinas...

Míriam Santini de Abreu
Ouvi o ronco da motosserra numa manhã. Imaginei que a prefeitura estaria limpando o terreno baldio atrás do prédio onde moro. Mas o resultado eu só vi na noite do dia seguinte, quando cheguei em casa e fui recolher a roupa. Tudo, absolutamente tudo, havia sido arrancado, inclusive a árvore querida na qual pousavam pássaros e que eu gostava de contemplar da janela da sala. De dia fui conferir o estrago. Dela só restou um toco com algumas farpas, em meio a um solo nu e poeirento.
Quando estive em Cambará do Sul (RS), ouvi uma piada freqüente. A região gaúcha não é mais chamada de Campus de Cima da Serra, e sim de Pinus de Cima da Serra. O pinus tomou a terra onde pastava o gado porque dá mais dinheiro. Os produtores, sempre às voltas com as migalhas da pífia política agrícola do governo, agora se dedicam às enfileiradas plantações, que crescem rápido nestas terras do Brasil.
Gosto de “viajar” no Google Earth, que permite observar qualquer parte da Terra, especialmente com o recurso pelo qual se vê o mundo em três dimensões. É com fascínio amedrontado que observo a Mata Atlântica pontilhada de cidades, a Serra do Mar cheias de estrias-estradas, a cratera cinzenta da mina de cobre de Chuquicamata no coração do Deserto de Atacama, o fulgor de Manhattan, tal como no filme AI - Inteligência Artificial. Ali está o resultado do trabalho social no que ele tem de poético, estupendo, perverso. E principalmente o resultado deste trabalho sobre a superfície terrestre. A motosserra que despedaçou a minha arvoreta é filha dessa história, gene de uma linhagem cujo apetite é cada vez mais voraz. Veja o tamanho desta fome em:
www.youtube.com/watch?v=-pLsjqPAIdE
http://www.youtube.com/watch?v=TLhGVOZL8JU&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=RLumXbRP3Fc&feature=related

terça-feira, 17 de março de 2009

Alguém que saiba fazer sabão!

Elaine Tavares
Houve um tempo, há muito tempo, em que se podia falar, no Brasil, de uma pobreza digna. Não se tinha muito conforto, nem eletrodomésticos, nem celular.Os móveis eram velhos, mas a comida farta. A mesa, simples, sempre tinha umbom café, um almoço de encher o bucho e até frutas, visto que boa parte das casas tinha um pátio onde vicejava uma ou outra daquelas delícias da infância. Talvez tenha sido daí que surgiu aquele preconceituoso dito popular tão usado até hoje. “Sou pobre, mas sou limpinho”.
Pois eu, que não sou dada a visitas a supermercado, me vi diante até dessa possibilidade. De, em sendo pobre, não poder mais nem ser limpinha. É que, numa das minhas incursões esporádicas, trazia na lista de compras o tal do sabão em pó. Diante da prateleira, pasmei. Fiquei sem voz. Não podia ser possível! Procurei entre as várias marcas e nada. A mais barata custava 6,50 reais.
Chamei o garoto-trabalhador e perguntei se não havia um engano. A marca mais famosa passava dos sete reais. “Não, é isso mesmo”, respondeu o menino, me olhando como se eu tivesse caído de Marte naquela manhã. Fui ao bom e velho sabão de côco, afinal, minha vó já usava. Não podia pagar sete reais por uma caixa de sabão em pó que nem um quilo tem.
Na prateleira do sabão em barra, outro pasmo. O sabão de côco é artigo de luxo. Uma barra custa quase quatro reais. E aí? O que fazer? Como lavar a minha roupa sem ficar com aquela cara de otária, de quem está sendo dilapidada do pouco que consegue ganhar vendendo a força de trabalho num mundo capitalista selvagem?
Uma barra de sabão não seria suficiente para lavar minhas roupinhas, isso ainda considerando meu metro e meio. E comprar várias barras, daria elas por elas. Bom, só me restava procurar alguém nessa cidade que soubesse como fazer sabão de cinza, como nos tempos de antes da minha vó. Tô procurando. Ainda não achei. Esse artigo é um apelo. Quem souber, por favor, me ligue, me mande um correio, me ajude. Alguma coisa precisa ser feita para que eu siga...Desgraçada sim, sem esperanças, perdida de minha humanidade, mas, pelo menos, limpinha....Quem sabe, um dia, a gente, juntos, possa vencer esse sistema tão medonho!!!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Seguem abertas as inscrições para quinta edição das Jornadas Bolivarianas

Seguem abertas as inscrições para quinta edição das Jornadas Bolivarianas, de 06 a 09 de abril na UFSC. A programação é a seguinte:

Programação das Jornadas Bolivarianas – Quinta edição
Auditório da Reitoria/ UFSC
06.04.2009

Manhã
. 8h30min – Abertura
Coordenação: Nildo Ouriques
Era Obama: Estratégias dos Estados Unidos para a América Latina
. 9h - John Saxe-Fernandez – México
. 10h30min - Debate

Tarde
Apresentação de Trabalhos
14h30min
. A concepção de educação escolar bolivariana da Venezuela: Proyecto Simoncito, Escuela Bolivariana e Liceo Bolivariano e os avanços nos 10 anos de governo bolivariano – Débora Villeti Zuck e Francis Mary Guimarães Nogueira
. A reconfiguração do Estado Venezuelano inscrito na Constituição de 1999 e o processo de universalização escolar: As missões Robinson, Ribas e Sucre – Francis Mary Guimarães Nogueira e Maria Lucia Frizon Rizzotto
. Educación popular contra analfabetismo econômico - Mario A. Solano S. (Costa Rica)
. Povos indígenas Latino-Americanos e protagonismo político no Brasil - Liliam Faria Porto Borges e Paulo Humberto Porto

Noite
. 18h30 - vídeo
A crise econômica e política nos EUA
Coordenação: Beatriz Paiva
. 19h - Nildo Ouriques – Brasil
. 20h - Debate

07.04.2009
Manhã
. 8h30min – Vídeo
Direitos Humanos e Democracia na América Latina
Coordenação:
. 9h - Martin Almada – Paraguai
. 10h - Debate

Tarde
Livre
Noite
. 18h30min – vídeo
Resposta da América Latina à política dos Estados Unidos
Coordenação: Fernando Prado
. 19h - Jorge Hernández Martínez - Cuba
. 20h - Debates

08.04.2009
Manhã
. 8h30min – vídeo
Estados Unidos, Imperialismo e Soberania Nacional
Coordenação: Luis Felipe Magalhães Ayres
. 9h - Marco Gandásegui – Panamá
. 10h – Waldir Rampinelli - Brasil
. 11h – Debate

Tarde
Apresentação de Trabalhos - 14h30min
. A política externa brasileira do governo Lula e a atuação da Petrobrás na Bolívia – Márcio Roberto Voigt e Daniel da Cunda Corrêa da Silva
. O outro lado da crise: a vez e a hora da integração – Rafael Moraes e Róber Iturriet Avila
. Dominación versus liberación, la necesidad de construir el socialismo bolivariano aqui y ahora - Coletivo Zamora (Venezuela)
. Tipologia das Revoluções Antiimperialistas na América Latina - Luiz Fernando Sanná Pinto

Noite
Mesa
Terrorismo de Estado e democracia na América Latina
Coordenação: Edgar Matiello
. 18h30min - vídeo
. 19h -Hernando Calvo Ospina - Colômbia

09.04.2009
. 9h – Mesa redonda: América Latina insurgente
Coordenação: Elaine Tavares
. John Saxe-Fernandez – México
. Martin Almada – Paraguai
. Marco Gandásegui – Panamá
. Hernando Calvo Ospina - Colômbia
. Jorge Hernández Martínez - Cuba
. Nildo Ouriques - Brasil

quinta-feira, 12 de março de 2009

P&N na luta contra a criminalização dos movimentos sociais

video

A equipe da Pobres & Nojentas participou na quinta-feira, dia 12, do Ato Nacional contra a Criminalização dos Movimentos Sociais e em Solidariedade aos Praças de Santa Catarina. Foi um ato em defesa da liberdade de organização das forças populares e pelo direito de cada setor da sociedade e do conjunto da classe trabalhadora de lutar por suas justas reivindicações.

A criminalização dos militantes populares e dos que vivem na pobreza é um sórdido mecanismo de poder utilizado pelas elites dominantes para manter seu “status quo” às custas da exploração da maioria do povo.

Em Santa Catarina, a aliança entre os oficiais da Policia Militar e o governador Luiz Henrique (PMDB) - governo esse que representa a oligarquia catarinense - se tornou uma afronta a todos os princípios democráticos, com perseguição às lideranças estudantis, sindicais e populares, como aos Praças da PM, que lutam por melhores condições salariais.

A tentativa de expulsar e de prender lideranças da corporação; o fechamento do sítio na internet da entidade que representa a categoria, a APRASC; o pedido na justiça de extinção da entidade, bem como, a qualificação do movimento como terrorista e guerrilheiro, tem requintes de um trágico período repressor da nossa recente história, iniciada em 1964. Em Florianópolis, é constante a tentativa de criminalizar os movimentos sociais. O prefeito Dário Berger (PMDB) se utiliza de parte do Comando da PM para prender e agredir dirigentes sindicais, inclusive com ameaças de morte e perseguições a estes diretores.

É preciso unirmos forças contra a repressão e a criminalização. É preciso honrarmos a luta de todos aqueles que dedicaram e dedicam suas vidas por uma País melhor, mais justo e democrático. Não podemos aceitar que o conservadorismo se institucionalize novamente em nossa pátria. Seja no campo ou na cidade, na luta dos sem-terra pela Reforma Agrária, na luta dos sem-teto por moradia, na luta dos trabalhadores por emprego e melhores condições salariais e na luta de todos por uma sociedade mais justa e solidária.

A primeira vez da palavra

Uma palavra
há de ser poética desde que você a coloque em lugar imprevisto, desde que ela dê
alarme, desde que ela quebre o muro da velha ordem. É preciso sempre escrever a
primeira vez de uma frase. E é preciso fazer o serviço com paciência para que o
gozo dê frutos.
Manoel de Barros

Convite da Pobres & Nojentas

Dia 16 de abril, às 19h, no auditório do CSE da UFSC, em Florianópolis, haverá o lançamento do novo livro de Elaine Tavares, editora da P&N, com o título "Porque é preciso romper as cercas - Do MST ao jornalismo de libertação". Também será um ATO DE APOIO E SOLIDARIEDADE ao MST. Mais informações em breve!

segunda-feira, 9 de março de 2009

O benzedor de pedras

Míriam Santini de Abreu

Houve uma tarde em que o calor era como benzedura do Reino de Baixo. Estava eu, como sói acontecer aos açoitados por miragens, coberta com linho, nos pés sandálias ornadas com lápis-lazúli extraído das minas de Badakshan. Karl vinha ao meu lado. E por olhá-lo com olhos de Ishtar, alcei os braços e ordenei aos elementos: - Agora chove.
E então a canícula se rendeu a mim. Os primeiros pingos grossos nos flagraram à beira dos jardins no Mar da Babitonga.
Karl é assim: benze pedras e elas se apaixonam por peixes.

Jornalismo, tranças e raízes


Míriam Santini de Abreu

Penso no texto jornalístico à moda das tranças ou das raízes. Se há seres que falam, lugar e tempo de onde falam, há que trançar com cuidado, arrematando as pontas com a bela fita da linguagem. Os fatos existem porque existimos e damos a eles significados. Mais espaço e história, e o significado aponta para uma direção ou outra.
História tal como pedras e troncos cobertos de musgos sobre os quais as raízes se agarram, se asfixiam às vezes, se interpenetram. Diz Thomas Mann: “É muito fundo o poço do passado. Não deveríamos antes dizer que é sem fundo esse poço?”

Nas ruas rebeldes, presente!...

Elaine Tavares, jornalista
Eu tenho outros pensares sobre a morte. Acredito firmemente que há mortos que nunca morrem. Estes são aqueles, imprescindíveis, que estão sempre na ponta de lança das lutas. Por isso não perco meu tempo com lágrimas. Gosto de celebrar meus mortos seguindo seus exemplos.
Por isso que estes dias, nas passeatas das gentes em luta pelo transporte coletivo, eu os vi, vivos, carregando bandeiras vermelhas, tal qual faziam em vida. Dois queridos companheiros desta UFSC, cujos corpos já não estão. Mas que eu jamais considerarei mortos, porque vivem em mim e em tantos outros que os amam.
Nas tardes quentes em que os jovens estudantes, junto com os militantes sociais, enfrentavam a polícia e o nojo dos passantes, pude vislumbrar o meu querido amigo Eduardo Dalri, militante comunista, implacável diante da injustiça, sempre presente nos protestos e nas lutas. Caminhava colado na pele daquela gurizada que iniciava agora o caminho tantas vezes por ele percorrido. Eduardo nunca morrerá enquanto houver um menino clamando justiça.
E o outro, que vi, riso largo, olhar azul, correndo por entre o povo, foi o Assis, guerreiro da gente, amigo fiel, eterno militantes de todas as causas. Assis sempre puxou a orelha dos estudantes da UFSC, no seu jeito meigo/bruto. “Não sejam burros, tem que lutar”. Ver ali, carregando o carrinho de som, o Diógenes, da Economia, foi ver o Assis. Era o sonho do Assis, um DCE de luta.
E assim são as coisas. Os nossos mortos seguem aí, vivos em nós. Eles não precisam de bustos, de placas, de nada que não seja nossa boa e velha luta. Mas, sempre é bom lembrá-los. E nem precisa ser em datas específicas. Falo isso porque me lembro das mulheres que foram ao sepulcro chorar por Jesus, quando ele se foi. Foram duramente repreendidas por um anjo que guardava a tumba. “Por que procurais entre os mortos aquele que vive?”. Faço minhas estas palavras, e conclamo aos que amam estes dois companheiros que foram para outro plano há tão pouco tempo a não procurá-los entre os mortos. Porque não estão. Eles vivem, nas ruas rebeldes... É lá que o reverenciamos!

domingo, 8 de março de 2009

Berro D'Água

Miriam Santini de Abreu

A propósito de uma postagem no blog
www.filosofadapedra.blogspot.com, em que é citado o livro “A morte e a morte de Quincas Berro D'Água”, de Jorge Amado, fiquei a pensar em como seria o berro da água. Por que a água berraria? E não de trata do sussurro de um fio d´água em meio à floresta, do gorgolejar da água em um velho encanamento, do trovejar de uma cachoeira numa queda de 50 metros. Trata-se de um berro, que também é diferente de um grito. O segundo implica susto; o primeiro, pavor. Quincas Berro D'Água berrou quando tomou água em vez de pinga. Mas o berro era dele, não da água. Teria a água berrado ao perceber que, sendo água, inundaria a garganta acostumada com pinga? A Filósofa da Pedra despertou uma inquietação que irá dar assunto para crônica.

Sobre o Dia Internacional da Mulher

hoje


hoje há uma nova luz no horizonte
e é uma dádiva do dia
hoje
momento a momento
muda o mundo,
a vida acontece
germina o futuro
hoje é o chão da existência

helena kolody

quarta-feira, 4 de março de 2009

Americanas mesquinha

Míriam Santini de Abreu
Não gosto de loja de departamentos. São impessoais, estão sempre lotadas. Mas precisava de um certo produto, que encontrei em uma loja no centro de Florianópolis. Caro, mas comprei. "Vai na Americanas!" - ouvi, dias depois. Lá estaria mais barato. E estava. Fiquei uns 15 minutos escolhendo mais algumas peças do produto. Ninguém à vista para pedir informação. Na fila esperei uns 10 minutos. A moça que me atendeu no caixa, simpática, reclamava de dor nas costas. A cadeira na qual sentava estava longe de ser confortável.
Na saída, chuva assustadora. Eu, assim como outros clientes, espero na frente da loja o aguaceiro passar. Mas decido pedir uma sacola plástica, daquelas grandes, para colocar uns livros, porque a sacola em que haviam embalado minhas compras era muito pequena, sem condições de abrigar algo além das mercadorias. Pois o segurança responde que não. Nada de bolsas. Nao podia dar. Óbvio que a iniciativa não partira dele. Certamente eram ordens do gerente, obedecendo algum coordenador, preocupado com as planilhas de algum diretor cuja cara o vigilante nunca deve ter visto.
Eu já detestava loja de departamentos. Agora detesto mais. E pago o que o comércio de rua cobrar, mas nas Americanas não entro mais. De império mesquinho, que nega sacolas de plástico e não garante cadeiras decentes para os seus trabalhadores, quero distância.

O tempo e o medo



Tem sido assim. Calor e umidade durante o dia, chuva tremenda no final da tarde ou noite. De dar medo.

domingo, 1 de março de 2009

Olhar de viajante


Míriam Santini de Abreu

Um homem com os olhos sombreados pelo chapéu, sentado na beira do rio, conta histórias sobre o saci. Lugar: o sertão paulista. Outro homem, rosto fino marcado por rugas, bate na terra com um sarrafo e revela que assim encontra objetos enterrados na mata, arte batizada de rabdomancia. Lugar: o litoral fluminense. São pessoas assim que os viajantes encontram Brasil afora, memória plena de causos, vidas enlaçadas com todos os que se dispõem a sentar e ouvir.
Há boa literatura sobre viajar, deslocar-se no tempo e no espaço, deixar para trás o que é familiar. Mas os significados disso são sempre muito pessoais. Viajar, penso eu, também é um ato de profunda fé. É preciso acreditar que o tempo passado longe dos amores, dos amigos, do que nos é sagrado, será generoso. Que a sorte será boa. Viajar é se desprender momentaneamente do-que-é para apostar no que-virá-a-ser.
Viagens também revelam o sem-fim de experiências de vida. Muitas vezes fica-se um dia, dois em uma cidade, um pequeno lugarejo, e no terceiro alguém nos cumprimenta, porque nos viu no dia anterior. Ou então basta entrar na padaria de uma ruazinha para receber o sorriso de uma atendente para quem somos ligeiramente familiares. Aí se tem a sensação de já pertencer àquela terra, àquelas rotinas, como se não houvesse lugar para voltar. Ali nascemos, ali ficamos. Por isso o retorno ao lar às vezes deixa a alma cheia de penumbras. A gente percebe que é de todos os lugares, e também de nenhum.
Nas últimas décadas o ato de viajar passou a fazer parte do lazer administrado, com uma imensa rede de negócios voltada para a prestação do turismo. Esse é mais um serviço do capitalismo. Mas conhecer aqueles homens – um na beira do rio, outro na trilha no meio da mata – é algo que não está em nenhum pacote turístico.

Jardim interno


Míriam Santini de Abreu
Às vezes, a alma é lama, mas às vezes é um jardim interno. E às vezes o jardim interno que é a alma espia descaminhos e, como quem não quer nada, entrelaça as sebes delgadas com um outro jardim. E exulta.