domingo, 1 de março de 2009

Olhar de viajante


Míriam Santini de Abreu

Um homem com os olhos sombreados pelo chapéu, sentado na beira do rio, conta histórias sobre o saci. Lugar: o sertão paulista. Outro homem, rosto fino marcado por rugas, bate na terra com um sarrafo e revela que assim encontra objetos enterrados na mata, arte batizada de rabdomancia. Lugar: o litoral fluminense. São pessoas assim que os viajantes encontram Brasil afora, memória plena de causos, vidas enlaçadas com todos os que se dispõem a sentar e ouvir.
Há boa literatura sobre viajar, deslocar-se no tempo e no espaço, deixar para trás o que é familiar. Mas os significados disso são sempre muito pessoais. Viajar, penso eu, também é um ato de profunda fé. É preciso acreditar que o tempo passado longe dos amores, dos amigos, do que nos é sagrado, será generoso. Que a sorte será boa. Viajar é se desprender momentaneamente do-que-é para apostar no que-virá-a-ser.
Viagens também revelam o sem-fim de experiências de vida. Muitas vezes fica-se um dia, dois em uma cidade, um pequeno lugarejo, e no terceiro alguém nos cumprimenta, porque nos viu no dia anterior. Ou então basta entrar na padaria de uma ruazinha para receber o sorriso de uma atendente para quem somos ligeiramente familiares. Aí se tem a sensação de já pertencer àquela terra, àquelas rotinas, como se não houvesse lugar para voltar. Ali nascemos, ali ficamos. Por isso o retorno ao lar às vezes deixa a alma cheia de penumbras. A gente percebe que é de todos os lugares, e também de nenhum.
Nas últimas décadas o ato de viajar passou a fazer parte do lazer administrado, com uma imensa rede de negócios voltada para a prestação do turismo. Esse é mais um serviço do capitalismo. Mas conhecer aqueles homens – um na beira do rio, outro na trilha no meio da mata – é algo que não está em nenhum pacote turístico.

2 comentários:

Mimi Kiddo disse...

Míriam, que texto gostoso de ler! O blog é muito legal, textos muito bem escritos e com conteúdo.

Isso de viajar e não ter apegos materiais que te prendam em determinado lugar, é bom demais!

Assim, não nos acomodamos e, de quebra, conhecemos personagens factuais realmente especiais.

stella disse...

Uma imensa satisfação encontrar, na semana da mulher, um grupo de mulheres tão deliciosamente lutadoras e femininas feministas!
Felicidade imensa!