sábado, 6 de outubro de 2007

A liturgia profana e a pureza de Bento Nascimento

Por Fernando Karl, poeta e jornalista

Quando visitei a casa de Bento Nascimento (1962-1993), em Itajaí, ele já havia morrido; observei que, na penumbra da velha sala, a Bíblia estava marcada no capítulo 69 dos Salmos: “Salva-me, ó Deus, porque as águas me sobem até a alma. Estou atolado em profundo lamaçal, que não dá pé; estou nas profundezas das águas, e a corrente me submerge”.
No dia em que Bento Nascimento nasceu, um coro de oceânides, com certeza, soprou da praia de Cabeçudas acordes gentis sobre a voz dele –, uma voz cristalina sempre atenta à pedra da elegia que respira em todas as coisas.
De novo o capítulo 69 dos Salmos: “Estou cansado de clamar, secou a minha garganta; os meus olhos desfalecem de tanto esperar por meu Deus”.
Dentre as infinitas possibilidades de acesso à obra desse bardo itajaiense, uma é saborear os verdadeiros achados poéticos que ele trouxe à tona e os tatuou, a ferro e flor, na retina nossa. A poesia de Bento reza a partitura de uma liturgia profana. A poesia dele é punk, podre, sarcástica e a lâmina de seus versos nos fere fundo com esse antiqüíssimo amor que nunca se realiza, que espera, e contempla a tudo platonicamente. A história do pensamento humano é, talvez, a coleção das feridas que esse pensamento acumulou ao precipitar-se contra as fronteiras da língua. Na linguagem de Bento Nascimento tudo é um bréviare d’amour (breviário de amor), tudo é uma febre da imagem e da palavra, tudo é anticlassicismo, tudo é adeus e ira contra esses que, mesmo tendo muito, são mal-agradecidos, nada celebram e ainda odeiam, com todas as forças, a Poesia.
Bento Nascimento nunca saiu de Itajaí, embora tenha sido, por breve período, professor de literatura na cidade de Luís Alves. Sua poesia é, ainda hoje, referência marcante na cidade de Itajaí. E como não seria?

Leiam, por exemplo, este poema:

Não adianta, baby,
pôr escorpiões no meu sapato

amo

e só ando descalço



E este outro:

Quando soube que ele partiu
a primeira coisa ela desmanchou o penteado

desalinhou a mente jogou os brincos fora

nua correu lânguida desvairada pela rua
empalou-se num hidrante


Mais este:

Estou em Zimbros
cumprindo os dias que me deram nesta vida.

Que me deram
e que eu não sei
porque aceitei.


E agora este:

Exercito a minha sina adiando os compromissos.

Dou sumiço em certas responsabilidades,
engaveto problemas e fico horas sem tempo para nada.

A vida é um anzol, vivo com água na boca.


E por último:

Estou criando um crocodilo
embaixo da cama
e uma garça bem esbelta
que fez seu ninho sobre o guarda-roupa.

Um dia quero
colocar o pantanal mato-grossense
dentro do meu quarto
para não precisar mais dormir
e ter a sensação
de uma vitória-régia
mergulhando e escutando os chios
brotarem da noite.

É ou não é, esse Bento, um poeta à deriva pelas inumeráveis marés do sentir humano? Bento criou uma poética singular que continua espalhando aos quatro ventos o soturno e o possível ouro do sol. Por todos os seus escritos perpassa uma agonia e um desejo de estar sempre à sombra das moças em flor, fossem elas quem fossem: concha, camisa, os olhos da namorada.
O leitor que travar o primeiro contato com qualquer fração de um texto do Bento, talvez ache insólito o modo como ele destrói a gramática lusitana, ferindo-a de leve com sua própria voz, selvagem e jazzística. A voz de Bento, coloquialmente sentimental, nunca perde o ritmo e parece dizer, de forma incisiva que, nesse mar cheio de ondas perigosas, o melhor seria praticarmos um pouco mais a poesia ou praticarmos a pureza com mais ferocidade; contudo, para que isso aconteça, deveríamos também prestar cálida atenção às menores coisas deste mundo. Para Bento, as menores coisas do mundo são:

quando vou ao supermercado
em sua companhia
a cidade aprende alegria

arroz, fósforo
café


Acabo, por conta disto, de recordar um aforismo de Machado de Assis: “O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima do invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro”.
Bento Nascimento, em seus escritos, nos cumula de prodígios e conjuros. O que ele grafa em cada página deserta são uns minutos de sua respiração. Aqui, neste novo livro do poeta de Itajaí: Bento Nascimento – Aos vivos, poderemos ler, sem dúvida, a potencialidade do nada que parece existir em todo objeto externo ou interno. Ele nos apresenta, quase sempre, o simples, sem perder a elegância de desvelar o que, sob as palavras, possui as tintas da melancolia e o látego da sátira.
Bento Nascimento, com apenas 31 anos, morreu de forma estúpida: caiu de uma pickup a 500 m de sua casa; casa esta onde nasceu e viveu a sua vida inteira.
Morreu?
As linhas em brasa de seus versos desmentem a sua morte. Que a pickup morra, que sóis feneçam, que a cabeça de Bento rache e o martelo bata sem piedade em sua pele de açucena delicada, e que cesse a hora, que tudo se perca, que os mundos findem, mesmo assim lá estarão, guardados num relicário humano demasiado humano, os versos desse Bento Nascimento que se apagou muito cedo, mas deixou por aí os rastros de seu vulcão.

Ou por acaso não é um vulcão este poema?

Quando você sorriu
eu descobri que você já foi piranha
e eu me lembrei
dos áureos tempos de tubarão
quando eu comia os surfistas
e mastigava os turistas
e engolia os banhistas
seus óculos e seus maiôs

pecado é uma coisa marinha
e os mariscos
não me deixam mentir

Um coro de oceânides continua soprando da praia de Cabeçudas, continua soprando através dos poemas que Bento Nascimento nos deixou – poemas marcados com uma pureza difícil de apagar.
Nota da editora: na foto, Mercado Público de Itajaí, a terra de Bento Nascimento - acervo da prefeitura municipal

5 comentários:

Enzo Potel disse...

grande Bento
grande Fernando

um texto assim é fundamental pra Vida!

Elis disse...

celacanto

ninelisa disse...

Um texto assim é fundamental pra vida! [2]

Te ler enche de orgulho de ser conterrãneo de Bento, é como ser reconhecido, afagado, entendido...

Graziela disse...

Bento, uma pessoa maravilhosa, um tio, irmão incrível...

pfugazza disse...

Tive o prazer de estudar alguns anos com o Bento Nascimento na escola Henrique da Silva Fontes. Até hoje tenho comigo algumas sarcásticas frases suas desta época. "Compreí um quilô de batatá (o que seria das palavras sem a acentuação correta)", "Para economizar fósforo, deixou o gás ligado" que ouso passar a frente sem seu aval. Até mesmo ele fez uma viagem de um dia (comigo e minha companheira, na época) para a minha terra natal, Presidente Nereu - SC.
Saudades, grande amigo. Fico muito grato por você representar tão bem a cultura e a poesia não só de Itajaí, mas nossa Santa "e bela" Catarina.