quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Movimento dos Atingidos pelo Desastre se levanta em Blumenau

Míriam Santini de Abreu

Mais uma luta se faz sob a figueira que inunda de sombras a entrada da prefeitura de Blumenau (SC). A maioria dos homens, mulheres e crianças que ali se encontraram na tarde de 22 de janeiro não havia saído de suas casas. Para eles, o que antes era um endereço virou amontoado de terra, pedra e escombros. Identificavam-se pelo abrigo onde foram deixados pelo poder público. Mas já faz dois meses. Agora, formaram o Movimento dos Atingidos pelo Desastre e apenas ontem, organizados, arrancaram uma data na agenda do prefeito João Paulo Kleinübing. Serão recebidos na terça-feira, 27, às 14 horas.

“Houve uma catástrofe, mas não podemos ser esquecidos, não podem tratar isso como coisa normal”, dizia Nelson de Almeida Rodrigues, 53 anos, que está em um abrigo com a família. Ele perdeu a casa onde morava, no bairro Asilo, e quer ver cumprida a promessa que os governantes fizeram de reconstruir as moradias. Há três anos ele também espera a decisão judicial para responsabilizar quem o atropelou quando pilotava uma motocicleta. A cirurgia no fêmur direito lhe custou a plena capacidade para o trabalho. “Tem hora que dá vontade do cara gritar”, desababa Nelson.

O Movimento exige a imediata reconstrução gratuita das casas e definição de prazo para que todos os desabrigados tenham as suas moradias. Também esperam mais agilidade da Defesa Civil, que dá o parecer sobre a situação das áreas que ainda não foram vistoriadas. A luta tem o apoio do Fórum dos Movimentos Sociais e Fórum dos Trabalhadores de Blumenau. Tulio Vidor, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Ensino Superior de Blumenau (Sinsepes), conta que, logo depois do desastre, pessoas ligadas às entidades que compõem os Fóruns começaram a visitar os abrigos para verificar a situação de seus trabalhadores. Formaram-se grupos para fiscalizar, levantar os problemas, esclarecer a população e cobrar providências. Os desabrigados e desalojados organizaram reuniões e duas plenárias e criaram o Movimento dos Atingidos pelo Desastre, que ontem obteve a primeira vitória.

Nelci Klaus de Morais e Luciana Ribeiro não se conheciam, mas agora sabem que há muito em comum a uni-las. Ambas tem três filhos e estão no abrigo da escola Júlia Lopes de Almeida. Antes das chuvas que arrasaram a cidade, elas moravam de aluguel. “Perdi todos os meus móveis, que ainda estou pagando, mas salvamos nossas vidas”, diz Nelci. Agora, recebendo 500,00 por mês e endividada, ela não tem como alugar outro imóvel. Luciana deixou na casa de parentes o que conseguiu salvar. A preocupação de ambas é serem forçadas a sair da sala de aula onde se abrigam para voltar ao ginásio da escola. “O ginásio é quente, tem goteiras, não dá para ficar lá.”

A situação pode ter data marcada para ficar pior. Com a volta às aulas no final do mês, a prefeitura de Blumenau começou a discutir o projeto de “moradias provisórias”. Na verdade, são obras para levar as famílias a galpões. Planeja-se concluir o primeiro no Bairro Badenfurt, onde deverão morar em torno de 40 famílias. Além do Badenfurt, estão mapeadas as regiões do Garcia, Progresso, Velha, Itoupava Seca, Itoupava Norte e Salto. Os prédios seriam locados e adaptados pela Prefeitura para as construções de moradias em parceria com o Governo do Estado. Só que, nas condições definidas pelo município – e sem ouvir as pessoas - os desabrigados não aceitam deixar os atuais abrigos.
Até agora, a prefeitura não deu informações elementares como localização exata, capacidade de pessoas, segurança, respeito à privacidade familiar, tempo de permanência. Também não há garantia de que o tal “provisório” não vire “definitivo”. “Os recursos das doações, que deveriam ser destinados a resolver nosso problema de moradia, estão servindo para aumentar a especulação imobiliária. Isso porque o dinheiro é usado para pagar aluguel de casas e não para a construção das moradias destruídas pelas chuvas”, diz a Carta Aberta à população. Nicacio Antonio Mariano, da coordenação do Movimento, diz que faltam esclarecimentos por parte da prefeitura, e por isso a luta também é por acesso e discussão pública sobre os projetos e propostas em tramitação.

Instalada em um abrigo no bairro Progresso com a filha de 2 anos, Josiane Butci, 25 anos, divide o lugar com cerca de 40 pessoas, e a maioria se conhece porque eram vizinhos. “A falta de informação é o problema maior, porque não sabemos quando e para onde vamos, e quanto tempo teremos que ficar nos galpões”, diz ela.

Os abrigos têm um regulamento que define a hora das refeições. Quem chega atrasado não come. Há denúncias de que crianças são impedidas de se alimentar porque os pais precisam sair para trabalhar e as deixam na companhia de outros desabrigados. O horário de visitas também é controlado, assim como a hora de apagar as luzes. Muitos desabrigados, em suas falas, comparam a experiência a uma prisão. Há outras situações humilhantes, como a proibição de reuniões do Movimento. Qualquer atividade depende de autorização da SEMASCRI (Secretaria Municipal da Assistência Social). Os desabrigados, já fragilizados pela falta de privacidade e de conforto adequado, ouvem ameaças de expulsão do abrigo e de demissão do emprego. Em muitos casos a presença de militares serve para aumentar a intimidação.

Mas dois meses depois do desastre, e agora que na mídia se fala mais do verão e dos turistas, os desabrigados de Blumenau mostram que, para além dos gestos solidários, o que se faz fundamental é a luta.

Outras reivindicações do Movimento


- Os Abrigos Provisórios devem ser construídos em localização adequada, com segurança,
- Participação dos desabrigados nas decisões e definição do tempo de permanência nos abrigos provisórios.
- Direito de reunião, de ir e vir e fim imediato das perseguições e ameaças nos abrigos
- Respeito às famílias nos abrigos e direito de privacidade
- Acesso às informações de recursos das doações e sua destinação final.
- Não-demissão e repressão no ambiente de trabalho
- Reconhecimento do Movimento dos Atingidos pelo Desastre como legítimo representante de todos os desabrigados e atingidos

LEIA MAIS NA PRÓXIMA EDIÇÃO DA REVISTA POBRES & NOJENTAS, QUE CIRCULA EM FEVEREIRO

2 comentários:

Anônimo disse...

a cobertura da pobres (Miriam) ficou show.. valeu mirinha... e assim seguimos nós, as mariazinhas do passo errado!!!
elaine

Josemar disse...

Belo texto Miriam, belos depoimentos. Já está replicado. grande abraço.