quinta-feira, 19 de março de 2026

Ladra de Memórias


Texto: Miriam Santini de Abreu

Uma das minhas mais significativas recordações de infância é a ida ao supermercado, no dia do pagamento do pai, para fazer o rancho mensal. Era no antigo Super Cesa da Rua Alfredo Chaves. Pequena, uns sete anos, na primeira série, eu adorava a seção de material escolar, e desejava ardentemente uma cola. Para fazer os trabalhos de aula, precisava recorrer a uma mistura de farinha e água, com resultado detestável. E, por tanto querer a cola, tirei uma da prateleira e não a coloquei no carrinho de supermercado. Quis ficar com o objeto de desejo na mão, e nem me lembrei de entregá-lo à mãe para fazer o pagamento.

Ao chegar em casa, mostrei a cola a todos com incontida alegria. O pai, sem pestanejar, arrancou o tubinho das minhas mãos e o jogou janela afora, no meio de uma área de mata que havia atrás de casa. Olhou-me e disse: 

– Nunca mais pegue algo sem pagar!

Ai, que dor! Não pela lição, mas pelo fato de ter perdido algo tão desejado. Não me esqueci do episódio. 

Há algum tempo, recebi a visita de meu irmão do meio e, quando conversávamos sobre a infância, relatei, entre risos, a história. E ele:

– Míriam! Isso aconteceu comigo!

– Ah, sim! Era o que faltava! Pois é uma das lembranças mais significativas que tenho!

E o César insistia na afirmação de que ele, e não eu, havia levado a cola para casa sem pagar.

Não satisfeita, tão tenaz quanto a cola, conferi na época o fato com o pai e com a mãe, e assim era: o autor da estrepulia havia sido o meu irmão!

Só o que pude concluir foi que testemunhei a atitude do pai, fiquei impressionada e, com o passar do tempo, “costurei” remendos de possibilidades imaginadas para o que teriam sido os gestos de meu irmão antes do pito!

O mais impressionante é que, se eu fosse entrevistada sobre minha infância e os momentos mais lembrados, um dos que citaria seria esse.

Desde então, o Cesoca, um gozador, me chama de “ladra de memórias”.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Croniquintas/ Naquele dia

Imagens: Leo/Pixabay


Por Dinovaldo Gilioli

O cachorro late na vizinha anunciando um intruso. O homem de calça azul atravessa a rua vendendo algodão-doce. A criança implora pro pai que manda mensagens no celular. No poste os pássaros fazem algazarra. A moça assobia pro cão que escapa da guia. O homem corre feito louco. O algodão-doce derrete no asfalto. O sol estava terrível naquele dia.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A Pobres Número 1







Em maio do ano de 2006 saiu às ruas o primeiro número da Revista Pobres e Nojentas. Uma revista de classe e de gênero que buscava retratar, em reportagem, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras. Neste primeiro exemplar, distribuído gratuitamente, reportagens falando da vida da cidade e também da grande Abya Yala. Lutas travadas pelo bem-viver. Hoje, relendo, percebe-se que as histórias vivas e atuais. Um bom texto não morre. A revista pode ser vista neste endereço:

Pobres e Nojentas Nº 1

Para comemorar os 20 anos estamos, em parceria com o Instituto Cidade e Território (ITCidades), iniciando uma Vaquinha Virtual para a produção de um novo projeto, uma série de reportagens intitulada “Mulhercidade”. Para colaborar, deposite qualquer valor no Pix 48982602000118 (é o CNPJ do Instituto Cidade e Território). A campanha vai até dia 31 de março. Contribua e ajude a mídia dos trabalhadores. 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Olsen Jr. , escritor


Ele nasceu em Chapecó, oeste de Santa Catarina, e até os nove anos teve uma infância igual a de todo menino do interior. Ainda assim, era comum vê-lo entre os livros que o pai comprava dos viajantes que passavam pela cidade. Com nove ano foi para um colégio interno e lá, a leitura acabou sendo seu refúgio. Desde aí nunca mais se desapegou dos livros. 

A escrita apareceu naturalmente por conta da leitura e quando estava na faculdade tratou de usar suas habilidades no jornal acadêmico. Artigos, entrevistas, notas, tudo foi produzido com paixão. Daí para os contos, novelas e romances foi uma caminhada natural.

Autor fartamente premiado, chegou inclusive a uma final do Prêmio Jabuti. Entre suas obras mais importantes estão “Os esquecidos do Brasil” (1993), “Desterro, SC” (1998), “Estranhos no Paraíso” (2000), “Discípulos de Ninguém – um convite à insubmissão” (2014). Em 2011 foi eleito membro da Academia Catarinense de Letras e hoje comanda uma revista produzida pela entidade. 

Olsen Jr. é o primeiro entrevistado do ano de 2026 no projeto “Conversas na Tiradentes” e sua prosa rica e bem-humorada conta de sua história e dos livros que permeiam sua vida. As imagens são de Tasso Cláudio Scherer. Entrevista de Elaine Tavares.