segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O desfiar do cotidiano


Portas do guarda-roupa
revelam, em gotas, história da família

Míriam Santini de Abreu, jornalista

Não sei exatamente quando começou, mas se tornou tradição. Sempre que acontecia algo fora do comum da vida envolvendo alguém da família, minha mãe, Eluci, escrevia o fato nas divisórias do guarda-roupa do quarto do casal. Formaturas, casamentos, viagens, compras, fenômenos da natureza, cirurgias, noivados eram eventos que mereciam registro em tinta preta, vermelha ou azul. O diário de madeira às vezes era até motivo de ciúme – geralmente meu – quando os escritos não mencionavam o que eu considerava minhas façanhas.

A minha anotação favorita é sobre o eclipse total do Sol em 3 de novembro de 1994. A mãe anotou de uma forma que parece “echipse”, e sempre que fala nele, ela lembra de uma misteriosa ave que alçou vôo de uns eucaliptos e cuja sombra pareceu desenhar uma renda na calçada. O mais engraçado é quando ela imita o vôo da ave!

A mãe separou-se do pai, João Flávio, e agora mora na parte de baixo de nossa casa, um sobrado de madeira pintada de cor mostarda. O "guarda-roupa-diário" ficou com o pai, que não se interessa em anotar o que se passa na família. Ele gosta de narrar suas histórias de Vacaria [RS] - cidade onde nasceu - geralmente as mesmas, e conta como se nunca as tivéssemos ouvido. Nelas, volta e meia aparece alguma espécie de assombração, e é comum que a assombração se manifeste dentro ou próximo de uma tapera.

Já a mãe agora usa cadernos para fazer seus diários. Quando as folhas terminam, a maioria usadas para outros fins, ela passa as anotações para um caderno novo e, mês a mês, vai desfiando o nosso cotidiano.

Texto dedicado ao amigo Loris Baena, que faz do mundo um lugar melhor
Confira uma das histórias de João Flávio

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Crédito: Periodistas Pobres & Nojentas

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