terça-feira, 26 de maio de 2009

O submundo das cidades


Míriam Santini de Abreu
Saio de casa de manhã, mas antes levo as sacolas de lixo até a lixeira do condomínio. De repente, salta de lá um rato. Eu berro, ele se assusta e depois de muito esforço consegue fugir por um buraco no piso da garagem.

Início da noite, chuvarada em Floripa, e eu, na Rua Deodoro, vejo um homem cair num bueiro bem na frente da Casa Coelho. Provavelmente o bueiro entupiu e alguém teve a brilhante idéia de tirar a tampa sem lembrar de também sinalizar o buraco.

Corri para acudir o homem, que ficou submerso da cintura para baixo na água suja. Devia ter uns 55 anos. Estava com um moça, tão pasma quanto eu e ele com o fato. Seguiram os dois, e eu e outra mulher colocamos a tampa de volta, coberta por alguns sacos de lixo.

Eu tenho uns pavores relacionados a bueiros e bocas-de-lobo em geral. Deve ter um pouco a ver com "Alligator", um filme dos anos 80, onde um filhote de jacaré crescia na tubulação abaixo da cidade e comia o que encontrava pela frente.

O rato fugido através dos subterrâneos do meu condomínio e o bueiro aberto em uma movimentada rua da Capital me fizeram lembrar do submundo tão próximo de nós, onde se escondem criaturas que tememos e onde se acumulam as sobras do nosso perdulário modo de vida. As chuvaradas trazem tudo à tona.

Dias desses acompanhei a limpeza da rede do condomínio. O trabalhador que fez o serviço sumiu no buraco, de onde tirou coisas que os moradores descartam sem cuidado, como fraldas, absorventes, preservativos, entupindo assim o encanamento.

Em muitos lugares o submundo já é o mundo. E quando todo o mundo for o submundo?

Um comentário:

Anônimo disse...

Legal. O final, além de apocalíptico, rimou... Essa minha irmã....