segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Jornalismo, história e memória


Enriquecer o texto jornalístico com a relação entre história e memória é o objetivo do projeto de extensão “Jornalismo e História do Presente: narrativas de Rio do Sul”, do curso de Jornalismo da Universidade para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (Unidavi), coordenado por uma das editoras de P&N, Míriam Santini de Abreu. O resultado está na edição especial Mãos que fundem o ouro azul, que circula na semana de 17 de setembro em Rio do Sul, Santa Catarina, e é resultado de aprendizado individual e trabalho de equipe.
Estudante da sexta fase de Jornalismo, servidor na Escola Agrotécnica Federal de Rio do Sul e fã de futebol, Edemir José de Oliveira resolveu escrever sobre a vida de um sapateiro que viu a cidade crescer e mudar. Adilson Schmitz, dono do jornal e da capacidade de concretizar idéias, procurou o sindicato dos metalúrgicos e a patronal no município para falar desse setor, e ainda encontrou um torneiro mecânico que virou empresário e inventa máquinas.
Aos dois bolsistas juntou-se, como voluntário, Tiago Amado, que trabalha na Assessoria de Comunicação da Unidavi e já prepara o Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo. Tiago conversou com um homem que pescava dos rios a madeira que impulsionou o crescimento de Rio do Sul. Já a coordenadora do projeto, Míriam Santini de Abreu, fez uma reportagem sobre o setor de confecções, cujo dinamismo se expressa no título “Rio do Sul Capital do Jeans”.
A pergunta que deu o “sul” do trabalho foi: qual é a relação entre jornalismo e história? Um viés da discussão concentra-se nas particularidades da chamada “história do presente”, “história próxima” ou “história imediata”. Historiadores debatem as diferenças entre uma expressão e outra, mas as três, de modo geral, designam o campo do “muito contemporâneo”, depois do primeiro terço do século 20.
Essa discussão tem uma relação estreita com assuntos presentes tanto na academia quanto no mercado no que se refere ao atual “estado de arte” do jornalismo. Um deles, a qualidade do texto, seja ele uma notícia ou uma reportagem, fica certamente mais enriquecido se forem levadas em conta as contribuições de áreas de conhecimento como história, geografia, sociologia, literatura. Afinal, o fluir do tempo num espaço geográfico, onde homens e mulheres “experenciam” o cotidiano e tecem narrativas, é a matéria-prima do jornalismo.
O trabalho de reportagem mais estreitamente vinculado à história permite vários graus de aprendizagem: leitura crítica de livros e textos em geral, pesquisa em arquivos, debates, formulação de pauta, entrevistas, redação de texto. Um aspecto importante é esse ato de “sair” da universidade e ir à “rua”, encontrar as pessoas, ouvir suas histórias, ficar face-a-face com o outro, como assinala a jornalista Elaine Tavares. Esse é um elemento essencial da prática jornalística que não pode ser suprido por arquivos e banco de dados. O que “o outro” conta ao jornalista é justamente o singular, o irrepetível. E unir esses relatos singulares ao fluxo histórico é o que motivou o projeto.
Inspira o projeto, também, Paulo Freire, que fala da importância de um trabalho de levantamento da história, num determinado lugar, em que “[...] as mais velhas e os mais velhos habitantes da área, como testemunho presente, fossem fixando os momentos fundamentais de sua história comum. Dentro de algum tempo se teria um acervo de estórias que, no fundo, fariam parte viva da História da área”.
Para os jornalistas preocupados com a dimensão de seu trabalho na relação com a história, o medievalista francês Jacques Le Goff tem uma afirmação alentadora. Para ele, o jornalista é “historiador do imediato” quando faz intervir, em seus textos, uma certa “espessura” histórica. E espera quatro atitudes desses “historiadores do imediato”: ler o presente com profundidade histórica; ter espírito crítico; esforçar-se para explicar os fatos e tentar estabelecer, entre esses fatos, uma hierarquia. Diz também Le Goff que “o historiador não pode ser um sedentário, um burocrata da história, deve ser um andarilho fiel a seu dever de exploração e de aventura”. O mesmo se pode dizer do jornalista.
O símbolo do projeto, o galinho-narrador, foi desenhado por Eduardo Schmitz, formado em 2007 pela Unidavi e proprietário do jornal Observatório Local, de Taió, Santa Catarina.

Um comentário:

Adilson disse...

A Paixão pelo jornalismo é contagiante. A professora Miriam é dessas jornalistas que procura contagiar pela prática, pela técnica, pela habilidade de organizar as palavrar. Sou feliz por participar deste trabalho intitulado " Jornalismo, história do presente", e assim fazer parte do resgate da história do presente de Rio do Sul.