sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gestos raros – II - O relógio do meu tempo

Míriam Santini de Abreu


Eu precisava consertar a minha gargantilha e parei em uma loja na rua Jerônimo Coelho, no centro de Florianópolis, a cujos serviços recorro pela segunda vez. Tudo porque, quando o tempo nubla a minha alma, eu tenho a mania de circular os dedos em volta do pequeno crucifixo dourado na ponta da corrente. E o pobre Cristo deve ficar tonto de dar tantas voltas e se solta do restante da peça. Contei o fato ao proprietário da loja e ele, espirituoso, sugeriu que eu passasse a usar um rosário, o que não me pareceu má idéia.

E foi então que aconteceu algo mágico: relógios pendurados na parede, alguns bem antigos, começaram a soar ao mesmo tempo, todos marcando diferentes horários. Fascinada com aquilo, lembrei-me de uma reportagem que li na revista Scientific American Brasil sobre o tempo. Ela dizia que numa época remota anterior ao Big Bang, o nosso universo pode fazer parte de um multiverso muito maior que, como um todo, é simétrico no tempo. Em outros universos, diz a revista, o tempo pode fluir ao contrário, para trás.

Vendo e ouvindo aqueles relógios, fiquei a refletir sobre o tempo da minha vida, da existência de cada ser. Um relógio na parede marcava 2, 3, 7, 9 horas a mais ou a menos do que outro. E se, em outros lugares do espaço, naqueles diferentes tempos, eu mesma – mas outra! – estivesse não a esperar o relojoeiro levar o Cristo de volta à gargantilha, mas sim a amamentar um bebê, colher laranjas sob o sol, cimentar tijolos para construir uma casa, caminhar, com uns poucos bens às costas, numa poeirenta estrada depois de passar a noite em uma velha estalagem? Eu em outros tempos, outros espaços, correndo paralelos àquele da realidade na qual eu estava, fluindo em direção ao futuro ou ao passado?

Quantas vezes o Cristo gira entre meus dedos quando fico a cismar sobre um certo dito qualquer, um certo feito, que dito ou feito em um, dois minutos, alterou talvez uma certa hora, um certo dia, ou toda a minha vida! Cinco minutos calada, dois minutos e uma frase certa, 30 segundos e a resposta vital, a resposta, o gesto, que podem conduzir à dor ou ao prazer. Assim, gosto de pensar nessa possibilidade de que Mírians outras estejam em multiversos, enquanto uma, numa tarde ensolarada nesta ilha do Atlântico Sul, tenta deixar o Cristo quieto ou seguir o conselho do relojoeiro e comprar um rosário bem resistente. Penso se essa outra – ou outras! - Míriam é possuidora de palavras que eu não conheço, que ninguém conhece. E se dela nascem palavras, dela também nasce o mundo, as coisas e seus nomes.

Meu amigo K, de cujos cabelos se desprende um odor de limões, contou-me que as letras dormiam no fundo de um cântaro de lápis-lazúli. Encontrou-o uma mulher que se abrigara em uma caverna, surpreendida pela neve que soterrava de brancura o solo onde hoje está Badakshan, lá nas terras do Oriente. Quase morta por uma fome sem nome, por uma sede incapaz de adjetivos, ela aninhou-se no manto de pêlos úmidos daquele jovem animal que ferira e matara, e que agora esquentava seu corpo. E assim, esfaimada, apoiou a cabeça sobre uma pedra, e ali, a centímetros, entreviu o cântaro azulado. Deslizou sobre a terra, e logo seus dedos frios alcançaram o gargalo azulado e nele mergulharam. Apanhou sete pedras que aprisionavam minúsculos caracteres, e apertou os olhos para desvendar-lhes o segredo. E assim, na noite do tempo, alinhando um a um os caracteres, formou a primeira palavra e deu a si mesma um nome. Que mundos, governados por outros tempos, devorados por outros relógios, essa mulher seria capaz de construir?

3 comentários:

Filosomídia disse...

Que lindo.... Beijo

elaine tavares disse...

minha amada amiga voltando a ser quem é... belíssimo...

Anônimo disse...

aiiiii,por onde andam as Jussaras felizes,que outrora já fui!!!???Ou sou??!!! Mi,que lindooo!!!