quarta-feira, 22 de abril de 2009
Um pouco sobre tudo e tudo sobre o mesmo
Sindicato dos Jornalistas discute atuação do Grupo RBS em Santa Catarina

No dia 27, no auditório da FECESC, na Capital, haverá a mesa-redonda Grupo RBS: Domínio Econômico e Discursivo, da qual participam Celso Tres, Procurador da República em Tubarão, e Danilo Carneiro, membro do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ. No dia 30 será feita panfletagem, das 10 às 13 horas, no Largo da Alfândega em Florianópolis, com esclarecimentos sobre a profissão de jornalista e as implicações da atuação do Grupo RBS no Estado, que é alvo de uma Ação Civil Pública pelo Ministério Público Federal em Santa Catarina.
A Ação, de número 2008.72.00.014043-5, busca tutelar o direito de informação e expressão da população catarinense. O principal objetivo é anular a aquisição do jornal A Notícia, agora do Grupo RBS. Além disso, o MPF quer reduzir o número de emissoras de televisão do Grupo ao máximo permitido por lei, que são duas.
Para o MPF, a situação de oligopólio é clara, em que um único grupo econômico possui quase a total hegemonia das comunicações no estado. Por isso, a Ação discute questões como a necessidade de pluralidade dos meios de comunicação social para garantir o direito de informação e expressão; e a manutenção da livre concorrência e da liberdade econômica, ameaçadas por práticas oligopolistas. O Grupo é a maior rede regional de TV do país. São 18 emissoras de TV, 26 emissoras de rádio AM e FM, oito jornais e 4 portais na internet.
Outro problema é bastante conhecido pelos jornalistas. Vários profissionais foram demitidos quando o Grupo comprou o jornal joinvilense, e em 2009 ocorreu novo “enxugamento” nas redações. Além de questão do desemprego de profissionais com experiência, outro fato preocupante é que a RBS consolida uma posição discursiva privilegiada: dona de emissoras de rádio, de tevê e de jornais, ela é a grande fonte de interpretação da realidade social, espacial, política, econômica, do Estado. Santa Catarina se vê pelos “olhos” da RBS, que consolida a memória das coisas a dizer, filmar e escrever sobre SC.
O Procurador Celso Tres é um dos autores da Ação e irá conversar com os jornalistas sobre a iniciativa do MPF/SC. Já Danilo Carneiro falará sobre as limitações da forma jurídica no que se refere ao acesso da população aos meios de comunicação.
No dia 30 de abril, quinta-feira, das 10h às 13h, no Largo da Alfândega, na Capital, esse debate será levado à população como parte da iniciativa do Sindicato de refletir sobre o fazer dos jornalista no Dia do Trabalhador.
Programação:
SEMANA DO TRABALHADOR JORNALISTA
Segunda, dia 27, às 19 horas, no auditório da FECESC, na Av. Mauro Ramos, 1624, na Capital:
Mesa-redonda - Grupo RBS: Domínio Econômico e Discursivo em SC
* Fundamentos da Ação Civil Pública 2008.72.00.014043-5 – Celso Tres, procurador do Ministério Público Federal em Santa Catarina
*Comunicação, Estado e Capital: as limitações da forma jurídica – Danilo Carneiro, membro do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, inválido pela tortura
Quinta, dia 30, das 10h às 13h, no Largo da Alfândega, na Capital:
Panfletagem com esclarecimentos sobre a profissão de jornalista e as implicações da atuação do Grupo RBS no Estado
Sinergia incentiva leitura

terça-feira, 21 de abril de 2009
Três segundos...

Imagem: Liv Krecke Kaada
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Palavras não bastam
O discurso do presidente Barak Obama na V Cúpula das Américas foi absolutamente claro no que diz respeito à relação que seu governo pretende ter com a América Latina: ou os países da América Latina fazem o que ele manda ou a mão do império se abaterá sobre eles. Os otimistas dirão que isso é uma loucura, que nada disso foi pronunciado e, em parte, estarão certos. A fala, assim, não foi pronunciada. Mas, como dizia Jesus, quem tem ouvidos para ouvir, ouviu.
Barak Obama é um homem cheio de bossa. É bonito, é simpático, carismático. Chegou com sorrisos, apertos de mão, disposto a ouvir inclusive aqueles que eram considerados “terroristas” pelo governo Bush, tal como Chávez e Morales. Falou depois do discursos de outros presidentes e não moveu qualquer músculo quando ouviu as críticas ao governo dos Estados Unidos e seu criminoso bloqueio a Cuba. Mas, quando falou, foi claríssimo. Disse que ele era diferente dos presidentes anteriores e que iria promover mudanças. Pediu que o passado fosse esquecido e que agora os demais presidentes olhassem para frente. Depois, seguiu num simpático discurso de união, respeito e cooperação. Salientou quatro pontos em relação aos quais gostaria de ter a parceria amiga dos países da América Latina: a segurança, a energia, o combate ao narcotráfico e os Direitos Humanos.
Sobre Cuba a fala do “adorável” presidente não foi diferente da de qualquer outro que já passou pelo cargo. Poderia sim rever o bloqueio ou estabelecer novas relações, mas Cuba deverá “ter antes eleições livres e respeitar os direitos humanos”. Ora, qual é a diferença dos Bush pai e filho, de Reagan, de Clinton? O mesmo velho e rançoso papo da liberdade e da democracia que serve de “desculpa” para as centenas de invasões e mortes provocadas pelo país no passado que Obama pede para todos esquecerem.
Obama diz que já estendeu uma mão a Cuba liberando a remessa de dinheiro e as viagens, e que agora Cuba precisa soltar os presos políticos e entrar no rumo da democracia garantindo a liberdade de expressão. Ora, de qual democracia Obama fala? Desta em que os cidadãos só votam uma vez a cada quatro anos e quase nada sabem do que se passa no mundo? Ou a democracia cubana na qual as gentes participam dos processos decisórios desde os comitês de rua? E como falar em “soltar presos políticos” quando tem uma base de Guantánamo repleta de gente que não teve sequer direito a um julgamento, além de sofrer torturas inimagináveis? E a liberdade de expressão, o que isso quer dizer? Liberdade de empresa, como a que existe nos EUA? Se esquecermos o passado podemos até pensar que a fala de Obama pode ter alguma novidade. Mas, é possível esquecer?
As quatro metas
Outros elementos do discurso de Obama devem servir para colocar a América Latina com as barbas de molho, mesmo aqueles que decidirem “esquecer o passado” de invasões, mortes, golpes de estado e intervenções clandestinas via CIA. O presidente dos Estados Unidos quer definir uma política de segurança para o Continente. Vamos então observar as letras pequenas. Quando o império fala em segurança o que está querendo dizer? Que deverá, com certeza, reforçar sua ocupação nos chamados “países falidos”, aqueles que estão em tal estado de caos e de descontrole (muitas vezes provocados pelos EUA) e que já não conseguem governar sem ajuda.
Hoje os Estados Unidos já cercam militarmente todas as riquezas da América Latina. Há uma base militar em Manta no Equador, outras duas na Colômbia, em Três Esquinas e Letícia e uma em Iquitos, no Peru. Estas quatro controlam toda a regiaõ Amazônica. Existem ainda as bases de Rainha Beatrix, em Aruba e a de Hato, em Curaçao. Estas duas estão praticamente na frente da Venezuela e podem ser de grande valia num momento de ocupação da região do petróleo. E, na América Central tem a base de Comalapa, em El Salvador , a de Vieques, em Porto Rico , a de Soto do Cano, em Honduras e a de Guantánamo, em Cuba. Agora , para fechar a completa dominação os Estados Unidos desejam estabelecer uma base na Terra do Fogo, na Argentina, e outra no Brasil. Será que Lula vai permitir? Isso sem falar nas andanças da Quarta Frota pelo litoral da América Latina numa mostra aviltante do seu poderio militar. Quando fala em cooperação na segurança é disso que fala Obama: a segurança do seu país na dominação das riquezas desta que é a maior reserva energética do planeta: a América Latina.
Aí chegamos ao segundo ponto: a energia. Os Estados Unidos são quase completamente dependentes do petróleo. O consumo alucinado do império não sobrevive muito tempo sem o óleo negro do oriente médio e da Venezuela. Daí que encontrar caminhos para uma energia alternativa tem muito mais a ver com a sustentação do país do que com salvar o planeta. E aí, a “cooperação” da América Latina também é muito interessante. Aqui, nas terras que ficam abaixo do rio Bravo estão as maiores riquezas do mundo. Há petróleo em abundância, há florestas, biomassa, biodiversidade, biocombustíveis, gás, minerais, enfim, um inesgotável mundo de opulência que torna este espaço geográfico muito cobiçado. Não é sem razão que o continente está cercado. Porque afinal, se faltar cooperação, sempre há a possibilidade de uma ação armada..
O combate ao narcotráfico é outra desculpa do império para interferir na vida política e econômica dos países da América Latina. Segundo estudiosos da política dos Estados Unidos, tais como John Saxe-Fernández e Marco Gandásegui, a disseminação das drogas pelos países da periferia capitalista nada mais é do que uma bem pensada forma de torná-los ingovernáveis. Com as drogas e todo o esquema de poder paralelo que se estabelece vai se criando o que os fazedores de caos chamam de “estados falidos”. Sem controle sobre o crescente narcotráfico, os países acabam precisando da providencial “ajuda” dos Estados Unidos. Este tipo de coisa é bem comum na história recente como, por exemplo, no Afeganistão, onde a produção de drogas triplicou depois da ocupação dos Estados Unidos. A mesma coisa se verifica na Colômbia, conforme conta o jornalista Hernando Calvo Ospina. Ali, com todo o aparato militar estadunidense a produção de cocaína cresceu vertiginosamente. “Na verdade, os militares estão ali para combater os grupos de libertação e para garantir o controle das riquezas”.
O terceiro ponto do discurso de Barak Obama foi a necessidade dos países da américa baixa respeitarem os direitos humanos. Isso soa muito familiar. Quem não se lembra das falas messiânicas de Bush pouco antes de invadir o Iraque? Para lá mandava seus soldados na tentativa de “salvar” o povo iraquiano que vivia torturado pelo ditador Sadan Hussein. Seguindo a máxima de “esquecer o passado”, em nenhum momento o presidente Bush lembrou aos seus conterrâneos que o “sanguinário ditador” tinha aprendido a ser assim com os militares dos EUA, afinal, durante muito tempo Sadan tinha sido pupilo da CIA. E, assim como ele, o famoso Bin Laden a quem se atribui a destruição das torres que deu origem ao banho de sangue de Bush no Oriente Médio. Podemos ainda lembrar da Escola das Américas que desde 1946 vem ensinando como assassinar, torturar, destruir e desmontar a mente de um prisioneiro. Hoje ela aparece, instalada no Forte Benning, estado da Geórgia, com um nome mais inocente – Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança – mas seus objetivos seguem os mesmos. Esta é a política do presidente Obama para segurança e direitos humanos?
O futuro
A Cúpula das Américas terminou com abraços, sorrisos e destensionamento de relações humanas. Obama falou com Chávez, Chávez deu um livro para Obama. Os chefes de estado se comportam amigavelmente porque assim pede o protocolo. Mas, isso não significa que as relações entre os países sejam exatamente iguais. Tanto que, há poucos dias da cúpula, na Bolívia, as garras da velha águia tentaram o assassinato do presidente Evo Morales usando as figuras de sempre, mercenários a soldo. Nada mudou. Para aqueles que não estão dispostos a esquecer o passado, este tipo de ação, normalmente controlada pela CIA, já foi responsável pela deposição de presidentes, golpes de estado etc... Tudo como manda o manual de desestabilização dos países que caminham numa outra direção que não a que ordena o império.
A alienada cobertura da mídia brasileira aos fatos que envolvem o novo presidente dos Estados Unidos também não é novidadeira. Desde sempre a elite do Brasil olhou com bons olhos a “paternal” ajuda do país do norte na política e na economia. Para essa gente, acostumada a drenar o sangue da maioria da população, não há problema nenhum em ser fiel gerente do império. As migalhas que dele sobram são suficientes para alimentar-lhes a vida boa. Então, não é sem razão que os telejornais e os jornalões saúdem a V Cúpula como um momento de glória para Obama, o simpático.
Já para aqueles que sabem que o passado não pode ser esquecido sob pena de trágica repetição, o encontro não trouxe muitas novidades. Estas só poderão serão percebidas na prática cotidiana. Os dias passarão e o governo dos Estados Unidos, agora sob a batuta de Obama terá de provar, com ações reais e concretas, que mudou. Antes disso, são só palavras e estas, bem o sabemos, o vento leva.
domingo, 19 de abril de 2009
A Serra em mim V– Vento, calor e neve
Em post anterior falei sobre a toiça de taquaruçu existente atrás do casarão onde morava a família de Oswaldo Cruz, em São Luiz do Paraitinga (SP). Esse bambu é o lar do saci. No dia em que visitei o Casarão, o céu escuro se preparava. Chuva certa. Eu falava com a atendente sobre os móveis e objetos ali guardados quando vi, atrás de um janelão, o bosque cultivado nos fundos do terreno.
- Dá para ir até lá?
Ela concordou. Durante a conversa, uma ventania forte começou a fazer as janelas rangerem. Ajudei a mulher a fechar todas e saí para alcançar os fundos do terreno. Mal conseguia caminhar. As paineiras balançavam enfurecidas. Com custo cheguei ao bosque, mas o portão fora fechado depois do término do expediente dos funcionários. Na volta passei ao lado da toiça de taquaruçu, em volta da qual se formara uma redemoinho. Na foto, os olhinhos dos moleques parecem brilhar na escuridão. Em poucos minutos a ventania esmoreceu. Sim... Era coisa do saci!
Essas surpresas climáticas já me acompanharam em outras circunstâncias. Quando eu, Elaine e Marcela fomos para o Deserto de Atacama, no Chile, passamos por Resistencia, capital da Província do Chaco argentino. Ao desembarcar na Rodoviária, quase corri de volta ao ônibus. Nunca, antes, experimentei tal sensação de calor quanto naquele dia. Eram 11 horas. Fomos ao centro da cidade, comércio fechado, hora da sesta. As três nos arrastávamos de uma rua para outra, um ar tão pesado que eu me sentia narcotizada.
Umas 48 horas depois, já em Susques, no alto dos Andes, dormíamos em uma pousada quando acordei com o rosto e o cabelo úmidos. Uma goteira exatamente sobre a cabeceira da minha cama! De manhã descobrimos que fazia coisa de três anos que não chovia tanto em Susques.
Naquela mesma tarde, quando já atravessámos a fronteira Argentina-Chile, no meio do deserto, começou a nevar! Uma neve fina, um frio de fazer os olhos arderem!
Concluímos que, assim como um episódio de Arquivo X, não me lembro de qual temporada, atraímos estranhos fenômenos atmosféricos...
sábado, 18 de abril de 2009
A Serra em mim IV– Os olhos do saci
Toiça de taquaruçu: a casa do saci
Míriam Santini de Abreu
Nas dezenas de voltas que dei no centro de São Luiz do Paraitinga, região do Alto Paraíba, alto da Serra do Mar, em São Paulo, descobri que ali nasceram Aziz Nacib Ab'Sáber, Elpídio dos Santos e Oswaldo Cruz. Onde há tema relevante na questão ambiental também está Ab'Sáber, reverenciado por suas contribuições nas áreas da ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia, arqueologia e geografia. Ele esteve várias vezes na Universidade Federal de Santa Catarina. É o tipo de pesquisador que não fica entocado dentro da Academia. Em São Luiz, uma placa indica a casa da família.
O cientista, médico e sanitarista Oswaldo Cruz também nasceu em São Luiz, num casarão pintado de branco e azul construído em 1834, em taipa-de-pilão, com paredes internas de pau-a-pique. Hoje a construção abriga um Centro Cultural e Museu, e, para minha surpresa, não cobra entrada, coisa rara. Ao lado há uma paineira linda. De lá, altos da rua, se vê parte do Centro Histórico da cidade. Atrás do casarão também há um bosque onde são produzidas mudas de espécies nativas.
Amei especialmente uma toiça de taquaruçu, que, sabem os que conhecem a estória, é o lar dos sacis. Em uma das fotos, é possível ver os olhinhos dos moleques brilhando na quase escuridão. Há que se registar ainda que em São Luiz nasceu Elpídio dos Santos, responsável pelas trilhas sonoras dos filmes de Mazzaropi.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Elaine Tavares lançou livro sobre o MST
quarta-feira, 15 de abril de 2009
A matéria tem que dormir
A Rô, diagramadora da Pobres & Nojentas, sempre recomenda: - Meninas, tem que deixar a matéria dormir.
Ela tem razão. A gente escreve a notícia, a reportagem ou o artigo, vai fazendo trança, dando nós, arrematando pontas, deixando a pele da linguagem mais sedosa. Aí termina, mas texto é que nem massa de pão. Precisa crescer.
Então o melhor é, no dia seguinte, reler tudo e aí sim lançar a filha ao mundo. Repórteres de jornal diário não têm esse privilégio. Eles fazem dois, três, até quatro textos por dia, de tamanhos variáveis. Não é fácil.
Mas a idéia é deixar a matéria dormir. Porque às vezes a matéria sonha, tem pesadelos, e no dia seguinte ela nos conta como, na longa trajetória da madrugada, é possível amanhecer mais disposta, com um verbo mais bem-apanhado, um substantivo um tanto mais denso, uma figura de linguagem ousada.
A gente sangra do mesmo jeito para escrever, a matéria dormindo ou não. Mas quando ela dorme e no dia seguinte revela seus segredos, a gente sangra com mais gosto.
Porque é preciso romper as cercas: do MST ao jornalismo de libertação

Neste trabalho, Elaine narra uma histórica ocupação do MST, a da Fazenda Anonni, no interior do Rio Grande do Sul, ocorrida em 1985/86. E, nesse contar das lutas das gentes, ela desvela a sua própria trajetória na busca de um jornalismo que se compromete e toma posição, sem perder o foco na realidade objetiva.São os primeiros passos da discussão do que mais tarde Elaine veio a cunhar como Jornalismo Libertador, conceito no qual se ampara o jornalismo que não é servil, nem porta-voz dos poderosos, mas que narra a vida desde o olhar da comunidade das vítimas, como ensina o filósofo da libertação, Enrique Dussel.Hoje, falar deste acampamento que existiu no interior de Sarandi, com mais de seis mil pessoas acampadas, é recuperar o caminho histórico do MST, atualmente acossado por agressões de toda sorte, como a que obriga o fechamento de suas escolas no Rio Grande do Sul. Então, o lançamento do livro acaba sendo também um momento de justo apoio a este movimento que tem sido um sendero de luta e transformação.Assim, o encontro terá poemas, música, a fala do MST, produtos da reforma agrária para serem degustados (vinho, queijo e salame) e o livro da Elaine. Uma noite para homenagear o MST e conhecer suas origens.
Sobre a autora: Elaine Tavares, jornalista e pesquisadora no IELA/UFSC, é gaúcha nascida em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Viveu sua infância em São Borja, na barranca do rio Uruguai e, depois, foi virar mulher às margens do "Velho Chico", em Pirapora, Minas Gerais. Das heranças ribeirinhas que amealhou, estão a paixão pela vida dos que andam nas estradas secundárias e o amor pela narração das histórias. Contar das gentes tem sido sua sina. Vivendo em Florianópolis desde 1987, também aprendeu com o mar que, às vezes, é preciso se jogar barulhento nos penhascos para capturar a beleza de se ser quem se é.
Dia 16. 19h . Auditório do CSE/UFSC
terça-feira, 14 de abril de 2009
Terra sã para os frutos que virão
Um saco cheio de granizo ocupa parte do freezer na casa de Marlene Cardoso, 46 anos. É a prova da trovoada que arruinou a plantação de fumo de família, uma das 34 que moram no assentamento Santa Cruz dos Pinhais, em Vitor Meireles, no Alto Vale do Itajaí. As pedras escurecidas pela terra seriam mostradas ao técnico da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) para permitir acesso ao seguro que cobriria o prejuízo, em torno de 700 reais.
A perda da safra aconteceu no dia 14 de novembro, uma semana antes de parte do litoral catarinense ser arrasado pelas enchentes. Os elementos do início dessa história – pequenos agricultores, fumo, perda de safra, seguro – sustentam 11 ações civis públicas propostas há um ano pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) em Santa Catarina contra empresas fumageiras, o sindicato que as representa e a Afubra.
A iniciativa do MPT toca em um setor bilionário. O faturamento em 2007, segundo a Afubra, foi de R$ 15,288 bilhões somando mercado doméstico e exportações. Metade do valor ficou com o governo sob a forma de tributos. Atualmente o Brasil está na 1ª posição no ranking mundial na exportação do produto.
Sistema integrado
A cadeia produtiva que gera esses números depende de um bem-amarrado processo que, em Santa Catarina, também é usado na produção de suínos e aves: o sistema integrado. Para colocá-lo em prática, as empresas fumageiras exigem que o agricultor assine o contrato de integração, cujas cláusulas são o alvo das ações do MPT.
Entre os 150 itens listados pelos Procuradores exige-se o fim do trabalho degradante, a formalização do registro dos trabalhadores com base na CLT e o não-uso de mão-de-obra infantil. Também é cobrado o atendimento às normas de saúde e segurança no trabalho, principalmente em relação ao uso de agrotóxicos. As multas pleiteadas deverão ser destinadas à substituição da cultura do fumo e auxílio às famílias que trabalham nessa lavoura. Até agora, porém, os processos pouco andaram por causa da divergência com relação ao juízo competente para processar e julgar as ações.
Busca de alternativas
Em meados de dezembro inicia-se, em Santa Cruz do Sul (RS), a negociação do preço do tabaco para a safra 2008/2009. O resultado interessa aos cerca de 54 mil agricultores familiares catarinenses que produzem fumo. A produção total, noticiada pela Afubra, estava estimada em 756 mil toneladas, mas, por causa das fortes chuvas e do granizo, a previsão baixou em 20%. O estado produz cerca de 193,5 mil toneladas.
Em 2008, quando as ações do MPT começaram o galgar o Judiciário, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetaesc) conseguiu algo que não obtinha desde 2003: preço mínimo para o fumo. Agora, a proposta levada às empresas é de reajuste de 27,9% sobre a tabela praticada na safra passada. Isso para quem tiver mercadoria para vender. A Federação calcula que o prejuízo com a perda de fumo, por causa das adversidades climáticas, seja de R$ 89,576 milhões.
Assim como Marlene Cardozo, muitos produtores, apesar do seguro da Afubra para pagamento das dívidas, não serão remunerados pelo esforço de plantar. Mas a agricultora de Vitor Meireles já decidiu: vai buscar outras alternativas para viver da terra no lugar que escolheu para morar.
Sistema integrado joga prejuízos para os agricultores
Os pêssegos apodreciam nas árvores e na terra encharcada. “Olha, o que vamos colher aqui! Nada! Acabou”, lamentava Marlene Cardozo, que também perdeu boa parte do fumo plantado em 2 dos 15 hectares da propriedade em Vitor Meireles. Tudo por causa de uma – como ela diz – “cossa de pedra”. Mas ela tem planos: assim que terminarem de pagar as prestações da estufa onde secam as folhas de tabaco, os Cardozo pretendem largar esse cultivo. Eles querem se dedicar ao turismo rural e diversificar a produção.
O solo onde agora está o fumo fará florescer mais feijão, milho, aipim e batata-doce, que já são cultivados pela família. Pesquisa feita pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetaesc) em julho de 2008 revela que, em média, os agricultores integrados usam 16% da propriedade para plantar fumo. As próprias empresas fumageiras estimulam, nos contratos, o cultivo de outros produtos agrícolas.
Mas a família cansou do fumo. “É muito ruim porque se trabalha mais para a firma do que para a gente... A coluna também já não agüenta. E não queremos que os netos passem o que a gente passa”, diz Marlene. A transição – depois de 23 anos dependendo do dinheiro pago pelas fumageiras - é planejada. A agricultora já fez cursos sobre produção de leite e de frutas. A família tem criação de animais e um açude na propriedade. A horta – no formato de mandala, um sistema que aproveita ao máximo a água da chuva – fornece temperos e chás. E há os pés de figo, laranja e pêssego, que ficarão maduros para as conservas que Marlene sabe preparar. Largar o fumo, porém, não é um passo pequeno.
A dependência que o cigarro provoca no consumidor é a outra face da que a planta do tabaco gera no agricultor. A explicação para isso está no sistema integrado, adotado e aperfeiçoado pelas fumageiras desde 1918. Esse sistema articula empresas agroindustriais e pequenos produtores rurais. Teoricamente, a base de seu funcionamento é a seguinte: os integrados recebem insumos e orientação técnica e produzem a matéria-prima exclusivamente para a empresa, com garantia de compra do produto. Mas na prática não é tão simples assim.
Os agricultores são procurados por representantes das empresas, que fazem a propaganda do “pacote tecnológico”. Ele inclui concessão de crédito para aquisição de equipamentos e insumos, acompanhamento técnico e compra de todo o fumo colhido. Há também oferta de seguro firmado através da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), que igualmente vende os agrotóxicos que serão aplicados nas plantas. O Ministério Público do Trabalho (MPT) apurou que muitos agricultores não ficam com cópias dos contratos assinados e desconhecem as implicações do que as empresas exigem. Mais dia, menos dia, os prejuízos aparecem.
Além disso, os Procuradores também constataram que, nos contratos, as fumageiras jogam para os agricultores, parte mais fraca do sistema integrado, três responsabilidades: não explorar mão-de-obra infantil e evitar degradação ambiental e danos à saúde pública. Lidar com isso representa um peso e tanto. A pesquisa feita pela Fetaesc revelou que uma das principais dificuldades apontadas pelos pequenos produtores - além do preço dos insumos e dos valores pagos pelo fumo - é a contratação de mão-de-obra.
Discurso da moda
A Constituição Federal proíbe o trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de 18 anos e qualquer trabalho a menores de 16, salvo na condição de aprendizes, a partir de 14 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente também estabelece que “nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”.
Contornar essas restrições representou um desafio para as empresas fumageiras. Elas, como é moda nas grandes corporações, começaram a adotar ações de “responsabilidade social empresarial”. Esse processo é analisado na dissertação de mestrado intitulada “Trabalho infanto-juvenil na fumicultura e responsabilidade social empresarial: o discurso da Souza Cruz”, apresentado em 2005, na UFSC, por Ângela Cristina Pincelli. A Souza Cruz investe pesado nessa área, especialmente nas escolas, com programas como o Clube da Árvore e o Hortas Escolares. Na página do Instituto Souza Cruz está a chamada missão institucional: “Contribuir para educar e formar jovens empreendedores no meio rural brasileiro, através de iniciativas que potencializem seu protagonismo nos processos de desenvolvimento sustentável”.
Na pesquisa, a autora revela como as empresas se beneficiam da forma como se estrutura a agricultura familiar, característica de Santa Catarina e baseada nos elementos família, terra e trabalho. Diz ela: “Embora a empresa atribua o trabalho precoce dos filhos dos produtores de fumo tão somente à tradição de suas práticas sociais, esta mão-de-obra é indispensável para a viabilidade do contrato de integração e, por ser necessária, é naturalizada pelas famílias. O trabalho dos filhos dos produtores na fumicultura tem, portanto, o sentido de dar sustentabilidade ao sistema de integração com a agroindústria. Para a empresa, esta modalidade de trabalho fica sob a única responsabilidade dos pais agricultores, e se constitui em mão-de-obra não-computada na fixação do preço do fumo”.
O técnico agrícola Jaciel Folmer confirma que, principalmente na época da colheita, crianças ajudam os pais na plantação de fumo, chegando até a faltar aulas. O problema é que a planta é exigente. Quando as folhas de fumo começam a amarelecer, é hora de arrancá-las do solo. Chova ou faça sol, seja feriado ou dia santo, é preciso trabalhar. “Ou é isso ou o agricultor vê o dinheiro se perdendo”, diz Jaciel, que atua no Alto Vale do Itajaí através da Rede Ecovida. Aí a família toda vai para a lavoura.
A pesquisa da Fetaesc mostrou que 85,2% dos produtores usam mão-de-obra própria; apenas 14,8% conseguem contratar trabalhadores. O fumo, depois de colhido e vendido, não deixa vestígios para aproveitamento pela família, os animais ou a terra. O mesmo se dá com o trabalho das crianças: esforço físico que não aparece nos custos da produção.
Mercado vai do plantio à venda e exibe lucros bilionários
Um sonho movia as cinco famílias naquele ano de 1948: ter um pedaço de chão para plantar. E aquelas terras ricas no Alto Vale do Itajaí eram do governo. Assim se deu a ocupação, baseada no trabalho coletivo. Mas não havia sossego, porque pistoleiros contratados por madeireiros da região insistiam em amedrontar os moradores. A partir de 1980 as famílias, agora 67, resolveram subir a serra, formando a comunidade de Santa Cruz dos Pinhais, hoje um assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Contada por Osmarildo Cardozo, 42 anos, a história tem um sabor especial. Seu avó, José Valentim Cardozo, estava entre aqueles pioneiros. As famílias plantavam milho, feijão, aipim, mas a terra oficialmente não lhes pertencia, e faltavam crédito, equipamentos, estruturas para armazenar as safras. Aí chegaram as fumageiras com o “pacote tecnológico”: crédito, insumos, garantia de compra. É inegável, afirma Osmarildo, que a vida deu um salto. As casas ficaram melhores, as estradas ganharam calcário. Plantar fumo foi uma alternativa para os pequenos agricultores que, historicamente, precisam chorar migalhas nos balcões do governo. No país, crédito agrícola fácil é coisa para latifundiário. A pesquisa da Fetaesc também mostrou que, entre os 934 produtores consultados, a maioria - 36,41% - planta fumo porque a venda é garantida.
Mas o fumo tem algemas. A cadeia produtiva pela qual a folha se transforma em cigarro relaciona interesses locais a decisões globais. São máquinas, implementos agrícolas e agrotóxicos; transportadores, postos de distribuição e usinas de processamento; mercado varejista nacional e exportação. Os fumicultores são apenas um dos elos desse mercado gigantesco. Basta dizer que, no final de julho, os cadernos de economia dos jornais noticiaram que a BAT (British American Tobacco), da qual a Souza Cruz é subsidiária, teve lucro líquido de 1,34 bilhão de libras (2,7 bilhões de dólares) no primeiro semestre de 2008, 15% a mais que no ano anterior.
Em agosto os jornais catarinenses também noticiaram um novo movimento nessa roda. Indústrias de beneficiamento de fumo estão saindo do Rio Grande do Sul para se instalar em Santa Catarina. Um dos municípios escolhidos é Araranguá, Sul do estado. O objetivo é gastar menos com impostos. Como essas empresas são exportadoras, vendendo 85% da produção ao mercado externo, não precisariam pagar ICMS. É um benefício da Lei Kandir, que dispõe sobre o imposto nas operações relativas à circulação de mercadorias e prestações de serviços. Mas, ao comprarem as folhas de fumo plantadas pelos produtores catarinenses, as empresas são obrigadas a pagar alíquota de 12% de ICMS ao governo de SC ao cruzar a divisa com as cargas. Solução: mudar-se para cá.
Muita classe, pouco dinheiro
Tanto cifra gorda na contabilidade das empresas não evita que, na hora de vender a safra, os produtores tenham que suar para não perder dinheiro. O problema é a classificação do fumo, outro nó que o Ministério Público do Trabalho quer desatar. A Instrução Normativa Nº 10, de 13 de abril de 2007, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, é que define a classificação do tabaco em folha curado. Ele é classificado em grupos, subgrupos, classes, subclasses, tipos e subtipos. Isso varia segundo o preparo, apresentação, arrumação, posição nas plantas, cor das folhas e qualidade. Há 48 classes do fumo Virgínia, 29 do Burley e 18 do Comum. É um mistério essa classificação. “A gente classifica em casa, pode ser sempre fumo bom, mas na hora de vender fica sempre na média... se o cara teima, dizem: - Pega o teu fumo e leva de volta”, conta Osmarildo.
O depoimento do agricultor revela o quão penoso é o cultivo do tabaco (veja na página 6). Na época da colheita, as famílias trabalham das 6 às 22 horas para arrancar as folhas do solo, e das 22 horas às 6 para secar a planta na estufa. O sono é “picado”, porque de hora em hora é preciso verificar a temperatura e não deixar o processo de cura estragar as folhas. Na lavoura os produtores já sabem: os nervos, nessa época, ficam à flor da pele. É um período de apuro, e traz à tona o que pesquisas já demonstraram. Para ter o dinheiro do fumo, o único garantido se der tudo certo na colheita, o agricultor abandona temporariamente as demais lavouras. E nessa hora toda a família trabalha.
Tudo envenenado
Hoje Osmarildo joga outras sementes na terra. Parou de plantar fumo há seis anos. Motivos não faltaram. O assentamento está dentro de uma Unidade de Conservação da natureza, a Área de Relevante Interesse Ecológico Serra da Abelha e Rio da Prata. Os órgãos ambientais não permitem o corte de madeira nativa, e o agricultor não tinha árvores exóticas, como o eucalipto, para cortar e alimentar as estufas. “O cara tinha que trabalhar como se fosse ladrão”, compara. Ele também se incomodava porque, com família pequena, precisava contratar mão-de-obra. E houve um momento em que Osmarildo, pai de três filhos, voltou os olhos para a roça: “Era tudo agrotóxico, tudo envenenado... Pensei: como essas crianças vão viver?”. A decisão foi desmanchar a estufa e aproveitar o material para melhorar a casa.
Ele teve que trabalhar para os vizinhos para sustentar a família, mas depois buscou alternativas. Há três anos assumiu os cuidados com o viveiro de mudas nativas da associação de moradores, que leva o nome de seu avô. As mudas são usadas para recuperar a mata ciliar, que fica às margens dos rios e evita problemas como o assoreamento. Enquanto caminha entre os canteiros, pronunciando o nome de cada planta, Osmarildo ensina o que aprendeu observando a natureza. As espécies amigas estão misturadas porque quanto maior a diversidade delas, melhor o equilíbrio ambiental.
Trabalho não-remunerado
Christianne Belinzoni de Carvalho apresentou dissertação de mestrado na UFSC, em 2006, intitulada “Relação socioeconômica dos fumicultores-fumageiras da Região de Sombrio, SC, e uma proposta de transição agroecológica”. Ela entrevistou 42 fumicultores de Sombrio, no Sul do estado, onde, entre 1994 e 2003, houve acréscimo de 140% na área de fumo plantada.
Foi demonstrado que 79% dos agricultores não mais produziam culturas de subsistência como mandioca, milho e feijão. Os alimentos passaram a ser comprados no mercado com o dinheiro do fumo. Christianne mostra que, entre as razões apontadas pelos produtores para não largar a atividade, está a dependência econômica em relação às fumageiras, por causa do financiamento, a longo prazo, do capital fixo.
A remuneração, porém, não é compatível com o esforço: o custo de produção foi, em média, 47% maior, por quilo de fumo, que o valor pago pela melhor classificação. 41% dos agricultores não conseguiram pagar suas dívidas com a empresa, e 33% pagaram, mas não tiveram lucro. Em certas fases do processo produtivo os agricultores chegaram a trabalhar 16 horas diárias.
Agrotóxicos afetam a saúde dos fumicultores e da terra
Evitar a degradação ambiental e danos à saúde pública são duas obrigações que as empresas fumageiras também colocam nos ombros dos agricultores através dos contratos. O plantio do tabaco exige diferentes tipos de agrotóxicos que afetam a saúde da terra, da água e do corpo dos fumicultores.
Os problemas se acentuam na época da colheita. As folhas liberam um resina, o melaço, que gruda nas mãos e forma uma camada espessa, com cheiro insuportável. “Fica ainda pior sob sol forte e quando chove, porque a nicotina da planta é dissolvida pela umidade”, diz o técnico agrícola Jaciel Folmer, que atua no Alto Vale do Itajaí.
Segundo dados do Ministério da Saúde e do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz, em 2006 foram registrados 1.754 casos de intoxicação humana por agrotóxicos de uso agrícola na região Sul do país. Em agosto, o assunto foi tratado na Assembléia Legislativa, que discutiu o uso de agrotóxicos nos alimentos, o excesso de resíduos e a sua relação com a saúde.
Em contrapartida, em Santa Catarina há um movimento que reúne agricultores familiares, técnicos e consumidores empenhados no trabalho associativo para produção e consumo de produtos ecológicos. Jaciel faz parte de um deles, a Rede Ecovida. Jaciel também integra a equipe que está envolvida no plano de recuperação do assentamento Santa Cruz dos Pinhais, onde a meta é revitalizar as áreas degradadas e preservar a natureza. São caminhos a serem abertos para buscar alternativas ao fumo.
Além da contaminação por agrotóxicos, outro problema é que o cultivo do tabaco exige, além da área plantada, muito consumo de madeira para a secagem nas estufas. A pesquisa da Fetaesc com os agricultores revelou que a lenha é um dos principais custos na produção. 55% precisam comprar madeira, o que indica a não-renovação dessa fonte de energia nas propriedades.
Em maio, a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgaram a conclusão dos levantamentos do “Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica”. Os estudos feitos a partir de imagens de satélite mostram que essa floresta está reduzida a 7,26% de sua área original. Santa Catarina foi o estado que mais desmatou, com 45,5 mil hectares de Mata Atlântica perdidos entre 2000 e 2005. Um hectare tem 10 mil metros quadrados. É mais um custo ambiental que o preço do cigarro não cobre.
Da muda à secagem, labuta de quase um ano
O cultivo do fumo é penoso. Todo o ciclo produtivo pode chegar a 12 meses:
1 - As mudas são semeadas em bandejas de isopor ou plástico que flutuam na água, sistema batizado de float. Isso dura de 60 a 90 dias, com duas a três podas.
2 – As mudas são plantadas no solo preparado e começam os tratos: adubar, aplicar agrotóxicos, capinar, retirar brotos e flores. As empresas indicam e vendem os agrotóxicos e fertilizantes que devem ser usados tanto no sistema float quanto no trato direto no solo. Há, entre outros, bactericidas, fungicidas, fumigantes, herbicidas, inseticidas e reguladores de crescimento.
3 – O agricultor inicia a colheita quando as folham começam a ficar amarelas, e não pode adiar o trabalho. O risco é a perda da safra. No fumo de estufa a colheita é feita em etapas, das folhas de baixo até as folhas de cima. É a parte do processo que mais exige mão-de-obra. Na colheita aparecem os sintomas do que a Organização Mundial de Saúde chama de “doença do tabaco verde”. A intoxicação pela nicotina provoca sintomas como tonturas, dores de cabeça, enjôos e até desmaios, alucinações e convulsões.
4 – As folhas são penduradas em varas ou grampos e ficam na estufa por cerca de sete dias para completar o processo de secagem. Elas perdem água e mudam de cor, transformações bioquímicas que dão a característica das diferentes marcas de cigarro. A secagem deve obedecer indicações precisas de temperatura para que curar bem as quatro partes da folhas. Disso depende o preço na hora da venda.
5 – Com base na classificação inicial feita pelo produtor, as folhas são agrupadas em maços, também chamados de manocas ou bonecas, e armazenadas em paióis. Os fardos são depois transportados para os depósitos das empresas para nova classificação, desta vez pela própria empresa, e venda.
A Instrução Normativa Nº 10, de 13 de abril de 2007, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, é que define a classificação do tabaco em folha curado. Ele é classificado em grupos, subgrupos, classes, subclasses, tipos e subtipos, segundo o preparo, apresentação, arrumação, posição nas plantas, cor das folhas e qualidade. Há 48 classes do fumo Virgínia, 29 do Burley e 18 do Comum.
Quadro montado a partir da pesquisa de Christianne Belinzoni de Carvalho e de informações dadas por agricultores de Vitor Meireles.
Produtores entram na Justiça em Papanduva
A advogada Anilse Slongo Seibel representa 18 pequenos agricultores de Papanduva e 3 de Rio do Campo, no Norte do estado. O motivo das ações declaratórias de rescisão contratual, com indenização por danos morais e materiais, é o mesmo.
Os produtores acumulam prejuízos com o fumo porque a estimativa de safra calculada pelas fumageiras nunca foi atingida. “As empresas chegam dizendo que vai ser o melhor negócio da vida deles, mas depois a produção não dá para pagar as contas”, conta a advogada. Ela observa que são pessoas simples, às quais não são informados os riscos da atividade.
Até agora a vitória na Justiça foi conseguir as cópias dos contratos assinados pelos agricultores. Um deles, que só conseguiu o extrato de sua dívida através de medida judicial, descobriu que devia quase 14 mil reais. A ação desvenda o motivo: “Ano após ano, o autor tentou inexitosamente sanar o seu débito plantando mais e mais fumo, mas, ao contrário do que pretendia, só viu a sua dívida aumentar, diante dos altos preços que pagava pelos insumos e sementes fornecidas pela fumageira ré”.
Como muitos produtores assinaram notas promissórias em branco, o receio é que sejam levadas a protesto ou até execução.
Faltam crédito e seguro para a agricultura familiar
A atuação do MPT, com ações jurídicas de fundamento e base legal, se constituem na defesa da saúde coletiva e do meio ambiente quando intervém no bilionário mercado do fumo, e trazem à tona interesses complexos. Nas defesas que apresentaram nas ações, as empresas enfatizam o papel do setor na geração de empregos e impostos. O sistema integrado, respaldado nos contratos, é visto como modelo exemplar de produção. As fumageiras listam as suas vantagens: planejamento de safra, assistência técnica e financeira, garantia de compra da produção, levantamento de custos, preservação ambiental e responsabilidade social. Numa realidade de forte empobrecimento no campo e de êxodo rural, a renda gerada pelo plantio do fumo é um dos pilares que sustentam a defesa do setor nas ações civis públicas.
Para Altair Lavratti, da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o que fica esquecido nesse debate é o aspecto político: “Quem planta milho, feijão, mandioca, não tem seguro. Se perde a produção, acumula dívidas. O fumo dá essa possibilidade de seguro, mas é uma possibilidade ´fantasma`, porque é preciso comprovar a perda”. Lavratti diz que o governo não protege a pequena agricultura, ao contrário do que faz com os latifundiários, que têm crédito e seguro agrícola e podem prorrogar o pagamento das dívidas. “Os pequenos agricultores correm todos os riscos sem direito de reclamar.”
Com relação ao trabalho infantil, ele faz uma diferença fundamental. Os filhos de agricultores desde pequenos querem ver os animais nascerem, alimentá-los, ordenhar as vacas, cuidar da horta. “Mas colocar a criança e o jovem para trabalhar num produto danoso à saúde e ao meio ambiente, que destrói, tem outro viés, porque também há um vínculo de trabalho que não é pago.” Isso porque, na época da safra, se não pude contratar mão-de-obra, toda a família terá que trabalhar. Lavatti constata que Santa Catarina está cada vez mais voltada para a monocultura, como é o caso das extensas plantações de pinus e eucalipto para a fabricação de celulose. Em lugar disso, o estado deveria valorizar o potencial da agricultura familiar para a produção de alimentos.
Informe
O Setor de Comunicação do SINTRAJUSC, Sindicato para o qual esta reportagem foi feita, ligou para a direção da Afubra em Santa Cruz do Sul (RS) para ouvir a associação sobre as ações do MPT. As perguntas foram enviadas por correio eletrônico, mas a assessoria da entidade comunicou que, em função da agenda lotada por causa da negociação da próxima safra, não foi possível dar as respostas.
“Ser uma herança cultural não legitima o trabalho de menores na lavoura”
A Procuradora do MPT em Santa Catarina Cristiane Kraemer Gehlen Caravieri concedeu entrevista sobre as ações. Confira:
Desde o ajuizamento das 11 ações até agora, quais foram os resultados obtidos com relação aos pedidos do MPT?
Quando do ajuizamento das ações, algumas liminares foram concedidas tanto em Santa Catarina como no Paraná. Atualmente, em decorrência da declaração de incompetência dos Juízes de Santa Catarina para o julgamento das demandas, remetendo parte delas para o Distrito Federal, as liminares foram cassadas e assim o resultado é nenhum.
A divergência se refere ao juízo competente para processar e julgar essas ações civis públicas, por se discutir a ocorrência de danos em abrangência supra-regional. Qual é a decisão mais recente em relação a isso?
Os Juízes do primeiro grau em Santa Catarina entenderam ser o Distrito Federal o Juízo competente; as Turmas do TRT da 12ª Região estão confirmando essas decisões, à exceção de um julgamento que manteve a competência da vara de Florianópolis; já no Paraná, o Juízo se julgou competente para as 6 ações ajuizadas lá e mais as 11 daqui e as que eventualmente pudessem ser ajuizadas no Rio Grande do Sul. A decisão mais recente é a de um Juiz de vara do Distrito Federal suscitando conflito positivo em relação à decisão do Paraná e determinando a remessa de ação que foi ajuizada aqui em Santa Catarina para o TST decidir o conflito.
Que medida a ser tomada pelas empresas é considerada pelo MPT a mais urgente para manter a produção de fumo dentro de tudo o que é pedido pelo MPT nas ações?
Não existe apenas uma medida, porque são vários os fatos e fatores que levam as famílias dos agricultores a viverem em estado de quase escravidão: crianças e adolescentes teriam que ser imediatamente afastados das atividades do campo; as dívidas por financiamentos de insumos, agrotóxicos e sementes teriam que ser canceladas pelas fumageiras, pois os agricultores não conseguem saldá-las. Sabe-se que a situação piorou em decorrência das intensas chuvas, que destruíram várias plantações de fumo no Estado.
Do ponto de vista prático, que diferença há entre o pedido de “nulidade” e de “anulação” dos contratos firmados com os agricultores?
Acaso julgado procedente o pedido de nulidade dos contratos de compra e venda de fumo, deve o Poder Judiciário reconhecer que a natureza da relação jurídica existente entre as fumageiras e os produtores rurais por elas contratados, aí incluídos os seus familiares com idade superior a 18 anos de idade, é empregatícia, e determinar que sejam anotadas suas CTPS, condenando as empresas nos diversos pedidos das ações. Acaso anulados os contratos, deve o Poder Judiciário declarar a inexistência de débitos dos produtores rurais perante as empresas requeridas, bem como que as rés se abstenham de firmar com os produtores rurais do Estado de Santa Catarina contratos de integração com o mesmo conteúdo e teor dos atualmente pactuados, devendo os contratos futuros serem redigidos de forma a refletir direitos que garantem a igualdade das partes pactuantes, excluindo-se todas as cláusulas lesivas mencionadas no texto das ações, bem como condená-las em outros pedidos expostos ao longo das iniciais.
Com relação ao trabalho infantil, há um discurso das empresas de que se trata de “tradição cultural” na fumicultura. Como o MPT avalia esse discurso?
Ser uma herança cultural não legitima o trabalho de menores na lavoura. A proibição é até que os menores completem 18 anos de idade. A legislação em vigor proíbe o trabalho de menores em atividades insalubres e perigosas. Tal legislação decorre de estudos médicos que comprovaram que enquanto em desenvolvimento, o ser humano sofre lesões graves e até irreversíveis se em contato com agentes insalubres (agrotóxicos, no caso das lavouras) ou perigosos. Em muitos aspectos, heranças culturais não passam de mais uma faceta do regime de escravidão a que vem se submetendo o nosso País.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
A Serra em mim III – Lugar de rugosidades
Igreja Matriz dedicada a São Luiz de Tolosa
Ruas com pedras pé-de-moleque
Mercado Municipal de São Luiz
"Rugosidades" cheias de colorido
Vista geral
Chafariz com monumento em homenagem ao TeatroSão Luiz do Paraitinga tem 90 edificações do século 19 tombadas pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado de São Paulo). São as “rugosidades” do ciclo do café, lá no século 19. Rugosidade, explica o geógrafo Milton Santos em um dos seus livros, é o que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem. É o que resta do processo de eliminar, acumular, sobrepor, “com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares”.
É assim com a Igreja Matriz dedicada a São Luiz de Tolosa e a Igreja Nossa Senhora do Rosário, construídas no século 19. A segunda foi feita em taipa sobre alicerce de pedras da região. Na lateral direita a Igreja é cercada por um muro de pedras construído por escravos. Hoje compõem o Largo do Rosário uma Praça e um Chafariz, com monumento em homenagem ao Teatro, daí o nome Largo do Teatro. Duas ruas ainda mantêm as pedras em pé-de-moleque, também construídas por escravos.
Eu dei tantas voltas naquelas ruas estreitas que, no final do segundo dia, as pessoas já me cumprimentavam. Despedimo-nos, eu e Rogério, de um casal de São Paulo, com quem entabulei conversa na frente de uma lanchonete. Meia hora depois, cruzamos novamente com eles na outra ponta do centro de São Luiz. Já éramos dali.
A Serra em mim II - Bolicho de São Luiz
O Casarão das Frutas, em São Luiz do Paraitinga, região do Alto Paraíba, alto da Serra do Mar, em São Paulo, lembra um bolicho, aquelas pequenas casas de comércio onde há de tudo à venda. Lugar para conversar, encontrar vizinho, marcar reunião, comprar presente de última hora. São Luiz do Paraitinga, com 11 mil habitantes, é a terra onde foi criada a Sociedade dos Observadores de Saci, a Sosaci, que também nasceu em conversa de boteco. Episódio contado pelo jornalista Robson Moreira no livro Palavras, escrito com o também jornalista Jô Amado:
A filosofia da boa reunião
A reunião do CA (Conselhos de Anciãos) instância fundadora da Sociedade dos Observadores do Saci – Sosaci, começou por volta das sete da noite e entrou pela madrugada. Num boteco, claro. Dia seguinte, na primeira hora, uma mensagem do Saci Jô:
- Sacizada! Que tal uma outra reunião pra gente se lembrar do que foi discutido ontem?
domingo, 12 de abril de 2009
A Serra em mim I


Míriam Santini de Abreu
O sertão paulista sempre foi lugar dos meus mais secretos desejos. Onde a Serra do Mar se joga no atlântico. Estar lá me fez lembrar de um diálogo da minisséria A Muralha, baseada no romance homônimo de Dinah Silveira de Queiróz:
- Como esperei vosmecê... Dias e noites a imaginar como seria a minha prometida. E ela veio-me como eu esperava. Como sonhava.
O sertão paulista era o meu prometido.
Naquele fevereiro, eu era um fantasma de mim sobre o cavalo, cavalo e cavaleira vindos de terras rasgadas por um antigo caminho de pedras.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Delicadezas...

quarta-feira, 8 de abril de 2009
Porque é preciso romper as cercas: do MST ao jornalismo de libertação

Será no dia 16 de abril, no Auditório do Centro Sócio-Econômico da UFSC, às 19h, o lançamento do livro da jornalista Elaine Tavares: “Porque é preciso romper as cercas: do MST ao Jornalismo de Libertação”.
Neste trabalho, Elaine narra uma histórica ocupação do MST, a da Fazenda Anonni, no interior do Rio Grande do Sul, ocorrida em 1985/86. E, nesse contar das lutas das gentes, ela desvela a sua própria trajetória na busca de um jornalismo que se compromete e toma posição, sem perder o foco na realidade objetiva.
São os primeiros passos da discussão do que mais tarde Elaine veio a cunhar como Jornalismo Libertador, conceito no qual se ampara o jornalismo que não é servil, nem porta-voz dos poderosos, mas que narra a vida desde o olhar da comunidade das vítimas, como ensina o filósofo da libertação, Enrique Dussel.
Hoje, falar deste acampamento que existiu no interior de Sarandi, com mais de seis mil pessoas acampadas, é recuperar o caminho histórico do MST, atualmente acossado por agressões de toda sorte, como a que obriga o fechamento de suas escolas no Rio Grande do Sul. Então, o lançamento do livro acaba sendo também um momento de justo apoio a este movimento que tem sido um sendero de luta e transformação.
Assim, o encontro terá poemas, música, a fala do MST, produtos da reforma agrária para serem degustados (vinho, queijo e salame) e o livro da Elaine. Uma noite para homenagear o MST e conhecer suas origens.
Sobre a autora: Elaine Tavares, jornalista e pesquisadora no IELA/UFSC, é gaúcha nascida em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Viveu sua infância em São Borja, na barranca do rio Uruguai e, depois, foi virar mulher às margens do "Velho Chico", em Pirapora, Minas Gerais. Das heranças ribeirinhas que amealhou, estão a paixão pela vida dos que andam nas estradas secundárias e o amor pela narração das histórias. Contar das gentes tem sido sua sina. Vivendo em Florianópolis desde 1987, também aprendeu com o mar que, às vezes, é preciso se jogar barulhento nos penhascos para capturar a beleza de se ser quem se é.
Dia 16. 19h . Auditório do CSE/UFSC
terça-feira, 7 de abril de 2009
Seriam estas as fases sucessivas da imagem
sobre um haicai
de Fernando José Karl
www.nautikkon.blogspot.com
domingo, 5 de abril de 2009
sábado, 4 de abril de 2009
Minha folhagem se libertou de mim
sexta-feira, 3 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
STF retira da pauta recurso contra o diploma





















