quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
O aumento da tarifa é abuso do direito
Por Elaine Tavares – jornalista
Já vai longe a Revolta da Catraca, quando, em 2004, na cidade de Florianópolis, as gentes decidiram se rebelar contra o aumento das tarifas de ônibus. Naqueles dias, quem não lembra, a polícia baixou valendo no povo sob o seguinte argumento: aquela massa de desvalidos, os que são obrigados a usar o transporte coletivo, estava atentando contra a ordem pública. E assim foi como os meios de comunicação se referiram aos lutadores. Eram os baderneiros, os desordeiros, atentando contra o direito de ir-e-vir. Muitos foram presos e respondem processos até hoje.
Pois nestes dias de sol forte, de um janeiro doido, fomos surpreendidos com mais um aumento de tarifas. Agora, para irmos trabalhar e fazer mover a roda do capital, precisamos pagar 2,10, isso quem tem cartão. Quem não tem terá de desembolsar absurdos 2,70. Agora vejam: uma família que seja formada por um casal e dois filhos vai gastar mais de 500 reais em passagem. Isso se resumir sua vida a ir e voltar do trabalho. Nada destas coisas “anti-produtivas” como ir almoçar em casa, ou passear, ou ir à praia, ao cinema, por exemplo. Não, só para trabalhar, vai entregar aos empresários do transporte 500 reais. Parece uma coisa surreal. A gente paga para trabalhar. E mais, paga adiantado. Essa gente nunca perde.
Procurei indignação nas gentes, mas não encontrei. Nas filas, o povo segue com sua cara triste, amansado pela máquina de moer ideológica que diz: aceitem, aceitem, aceitem, é assim mesmo. Agora começou mais uma novela da Globo, melhor ficar em casa e acreditar que a pobreza da gente é digna, afinal, ali na novela, pobre toma suco de laranja no café da manhã.
Então, depois de ouvir o Dário Berger dizer na TV que o aumento da tarifa é um direito dos empresários, fui buscar algumas coisa na área do direito para ver se ele estava certo. Então, num trabalho do historiador argentino Alejandro Olmos, encontrei uma doutrina que fala do abuso do direito. Diz essa doutrina que os direitos nunca são absolutos e que o exercício das faculdades que surgem da lei devem efetuar-se em função do espírito que anima a própria lei. Um dos elementos que caracteriza o abuso do direito é a intencionalidade de prejudicar; ou seja, quando existe um fazer doloso ou culposo no sujeito, mas também quando sua ação excede os limites impostos pela boa fé, a moral e os bons costumes.
Diz Alejandro que um dos antecedentes é uma lei prussiana de 1794, na qual se impunha a obrigação de ressarcir o dano “quando das circunstâncias resultar de modo inequívoco que entre as várias formas de usar o direito se optou pela mais prejudicial” estabelecendo ainda que “ninguém pode abusar de sua propriedade para ofender ou prejudicar a outro”. Ó, isso é importante.
Também o Código Civil alemão estabelece em seu parágrafo 226 que “não se permitirá exercer um direito quando seu exercício somente tenha por objetivo prejudicar o outro”. Bueno, e por aí vai.
Fiquei pensando, será que esse aumento da tarifa do ônibus não é um abuso do direito? Não está nesse aumento a intenção clara de prejudicar os trabalhadores, visto que eles já não têm salário digno e ainda terão de desembolsar mais para ir gerar lucro ao patrão?
Diz ainda o Código Civil da Grécia de 1941 no artigo 281: “o exercício de um direito está proibido se sobre passa manifestamente os limites impostos pela boa fé ou os bons costumes, ou pelo fim social e econômico deste direito”. Na Tchecoslováquia diz o direito: "Nenhuma pessoa pode abusar de seus direitos em prejuízo dos interesses da sociedade ou de seus concidadãos; não pode enriquecer-se em detrimento deles".
Pronto: esse último é supimpa. Então, se a doutrina do direito internacional estabelece que ninguém pode enriquecer em detrimento dos interesses da sociedade, vamos usar isso aí a nosso favor. Que tal, não é incrível?
Ah, tá... Esqueci. A justiça brasileira tem os olhos vendados para nós. Bueno, então resta a luta! Vamos a ela!
Já vai longe a Revolta da Catraca, quando, em 2004, na cidade de Florianópolis, as gentes decidiram se rebelar contra o aumento das tarifas de ônibus. Naqueles dias, quem não lembra, a polícia baixou valendo no povo sob o seguinte argumento: aquela massa de desvalidos, os que são obrigados a usar o transporte coletivo, estava atentando contra a ordem pública. E assim foi como os meios de comunicação se referiram aos lutadores. Eram os baderneiros, os desordeiros, atentando contra o direito de ir-e-vir. Muitos foram presos e respondem processos até hoje.
Pois nestes dias de sol forte, de um janeiro doido, fomos surpreendidos com mais um aumento de tarifas. Agora, para irmos trabalhar e fazer mover a roda do capital, precisamos pagar 2,10, isso quem tem cartão. Quem não tem terá de desembolsar absurdos 2,70. Agora vejam: uma família que seja formada por um casal e dois filhos vai gastar mais de 500 reais em passagem. Isso se resumir sua vida a ir e voltar do trabalho. Nada destas coisas “anti-produtivas” como ir almoçar em casa, ou passear, ou ir à praia, ao cinema, por exemplo. Não, só para trabalhar, vai entregar aos empresários do transporte 500 reais. Parece uma coisa surreal. A gente paga para trabalhar. E mais, paga adiantado. Essa gente nunca perde.
Procurei indignação nas gentes, mas não encontrei. Nas filas, o povo segue com sua cara triste, amansado pela máquina de moer ideológica que diz: aceitem, aceitem, aceitem, é assim mesmo. Agora começou mais uma novela da Globo, melhor ficar em casa e acreditar que a pobreza da gente é digna, afinal, ali na novela, pobre toma suco de laranja no café da manhã.
Então, depois de ouvir o Dário Berger dizer na TV que o aumento da tarifa é um direito dos empresários, fui buscar algumas coisa na área do direito para ver se ele estava certo. Então, num trabalho do historiador argentino Alejandro Olmos, encontrei uma doutrina que fala do abuso do direito. Diz essa doutrina que os direitos nunca são absolutos e que o exercício das faculdades que surgem da lei devem efetuar-se em função do espírito que anima a própria lei. Um dos elementos que caracteriza o abuso do direito é a intencionalidade de prejudicar; ou seja, quando existe um fazer doloso ou culposo no sujeito, mas também quando sua ação excede os limites impostos pela boa fé, a moral e os bons costumes.
Diz Alejandro que um dos antecedentes é uma lei prussiana de 1794, na qual se impunha a obrigação de ressarcir o dano “quando das circunstâncias resultar de modo inequívoco que entre as várias formas de usar o direito se optou pela mais prejudicial” estabelecendo ainda que “ninguém pode abusar de sua propriedade para ofender ou prejudicar a outro”. Ó, isso é importante.
Também o Código Civil alemão estabelece em seu parágrafo 226 que “não se permitirá exercer um direito quando seu exercício somente tenha por objetivo prejudicar o outro”. Bueno, e por aí vai.
Fiquei pensando, será que esse aumento da tarifa do ônibus não é um abuso do direito? Não está nesse aumento a intenção clara de prejudicar os trabalhadores, visto que eles já não têm salário digno e ainda terão de desembolsar mais para ir gerar lucro ao patrão?
Diz ainda o Código Civil da Grécia de 1941 no artigo 281: “o exercício de um direito está proibido se sobre passa manifestamente os limites impostos pela boa fé ou os bons costumes, ou pelo fim social e econômico deste direito”. Na Tchecoslováquia diz o direito: "Nenhuma pessoa pode abusar de seus direitos em prejuízo dos interesses da sociedade ou de seus concidadãos; não pode enriquecer-se em detrimento deles".
Pronto: esse último é supimpa. Então, se a doutrina do direito internacional estabelece que ninguém pode enriquecer em detrimento dos interesses da sociedade, vamos usar isso aí a nosso favor. Que tal, não é incrível?
Ah, tá... Esqueci. A justiça brasileira tem os olhos vendados para nós. Bueno, então resta a luta! Vamos a ela!
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Karl: 25 anos de poesia
A editora Letradágua está lançando Casa de água, uma edição comemorativa dos 25 anos de produção poética do escritor catarinense Fernando José Karl, autor do blog Nautikkon e colaborador da revista Pobres & Nojentas. Casa de água é uma antologia que reúne 200 poemas, selecionados pelo poeta catarinense Dennis Radünz, dos livros de Karl. Nessa antologia também foram incluídos 30 desenhos de sua autoria. Eis os títulos que compõem o Casa de água:
1. Tema para romance
2. No verão amadurecem os chapéus
3. Desenhos mínimos de rios
4. Diário estrangeiro
5. Travesseiro de pedra
6. Brisa em Bizâncio
7. Se eu mesmo fosse o inverno sombrio.
Quem deseja adquirir o livro pode entrar em contato com o Antonio, dono do sofisticado Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do contato@sebodomquixote.com.br ou do telefone: (47)3633-5365. Detalhe: o livro só pode ser encontrado no Sebo Dom Quixote. O preço do exemplar é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00). Isso significa que, por apenas R$ 35,00, você pode levar para casa 25 anos de dedicação ininterrupta à arte de escrever.
www.sebodomquixote.com.br
1. Tema para romance
2. No verão amadurecem os chapéus
3. Desenhos mínimos de rios
4. Diário estrangeiro
5. Travesseiro de pedra
6. Brisa em Bizâncio
7. Se eu mesmo fosse o inverno sombrio.
Quem deseja adquirir o livro pode entrar em contato com o Antonio, dono do sofisticado Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do contato@sebodomquixote.com.br ou do telefone: (47)3633-5365. Detalhe: o livro só pode ser encontrado no Sebo Dom Quixote. O preço do exemplar é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00). Isso significa que, por apenas R$ 35,00, você pode levar para casa 25 anos de dedicação ininterrupta à arte de escrever.
www.sebodomquixote.com.br
Blog do Karl: http://www.nautikkon.blogspot.com
Filosofia e noite escura
Jussara Godoi
Numa noite dessas, ouvindo o barulho do vento, resolvi abrir uma das janelas do apartamento, que fica próxima a uma pedra monumental, obra da arquiteta natureza. Bem no alto, estão as plantas que cresceram sem a ajuda humana. Por alguns instantes senti pena de um pequeno coqueiro, que lutava para conseguir ficar em pé, parecendo me pedir socorro. Fiquei olhando e pensei: será que ele sabe o que se passa ao seu redor? Atrás de mim, estava a TV ligada. Ao levantar para ouvir o vento, deixei em canal qualquer. Era um debate filosófico, cujo público era formado por educadores e o tema “Família, Educação e Cidadania”. Fiquei entre ouvir o vento e o debate. O palestrante se esforçava para passar a sua idéia sobre a atual situação da sociedade. Em alguns momentos, com citações bíblicas, comparava a maioria da sociedade aos fariseus. Percebendo que daquele debate pouca coisa era relevante, revolvi mudar de canal. Desta vez, era um psicanalista que falava sobre "Ética na contemporaneidade", baseado em Spinoza e Nietzsche. Voltei os olhos novamente para o coqueiro se debatendo e, desta vez, desejei estar no seu lugar, pois sua luta contra o vento me pareceu mais leve do que aquela que eu nem sei direito qual é... Fiquei por mais alguns instantes a olhar a noite escura. Depois pensei em algumas amigas, que de vez em quando se sentem assim e ficam a desejar que venha a grande onda... E quem sabe ela nos dê uma resposta.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Pinus de Cima da Serra

Míriam Santini de Abreu
Na frente da casa de minha avó Antônia havia uma araucária. Na época das pinhas, era uma festa fazê-las despencar árvore abaixo, os pinhões espalhados sobre a terra. Nos chamados Campos de Cima da Serra, no Nordeste gaúcho, elas reinavam. Hoje se brinca: a região virou a dos Pinus de Cima da Serra. No Rio Grande do Sul, assim como em Santa Catarina, alastram-se os monocultivos de espécies exóticas.
Na frente da casa de minha avó Antônia havia uma araucária. Na época das pinhas, era uma festa fazê-las despencar árvore abaixo, os pinhões espalhados sobre a terra. Nos chamados Campos de Cima da Serra, no Nordeste gaúcho, elas reinavam. Hoje se brinca: a região virou a dos Pinus de Cima da Serra. No Rio Grande do Sul, assim como em Santa Catarina, alastram-se os monocultivos de espécies exóticas.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
P&N apóia luta dos praças de SC
Página na internet fora do ar, pedido de dissolução de entidade representativa de cerca de 10 mil trabalhadores, lutadores a ponto de serem punidos em Conselhos de Disciplina, nos quais o procedimento é sumário para excluir, da instituição militar, profissional considerado incapaz do ponto de vista ético, moral e profissional. Assim o governo de Luiz Henrique da Silveira está tratando a Associação de Praças do Estado de Santa Catarina, a Aprasc. Na quarta-feira, 14, representantes de cerca de 20 entidades do movimento sindical, popular e de partidos políticos participaram da reunião do COMITÊ DE SOLIDARIEDADE À APRASC E CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS. A P&N foi representada por Míriam Santini de Abreu e Elaine Tavares.
Um dos assuntos discutidos foi a afronta, por parte do governo, ao princípio da liberdade de expressão e informação, consagrado na Constituição Federal. A página da Aprasc informa: Por determinação da Justiça, a pedido do governador Luiz Henrique da Silveira, o site da APRASC (www.aprasc.org.br) vai ficar fora do ar durante 90 dias. Além disso, já são 10 os soldados submetidos a Conselho de Disciplina.
Mas a Aprasc, com apoio de movimentos, entidades, grupos políticos e personalidades, segue firme na luta. Está recolhendo assinaturas em abaixo-assinado – são quase duas mil por dia apenas em Florianópolis – e organiza vigília na praça em frente à Assembléia Legislativa, em Chapecó e em Lages. Na reunião desta quarta-feira foram encaminhadas outras atividades. Uma delas será o Ato Popular Nacional Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais e em Solidariedade à Luta dos Praças e seus Familiares, programado para fevereiro.
O governo estadual tenta impedir e punir a luta dos praças desde que, para exigir o cumprimento de lei, os trabalhadores e trabalhadoras ocuparam os quartéis, de 22 a 27 de dezembro. A principal reivindicação do movimento é o cumprimento integral da Lei Complementar n° 254, aprovada na Assembléia Legislativa e sancionada por LHS em 15 de dezembro de 2003. A lei reorganiza a estrutura administrativa e a remuneração dos profissionais do Sistema de Segurança Pública: incorpora abonos e gratificações aos salários, prevê reajustes salariais e cria adicional de atividade progressivo. Também avança na construção de um plano de carreira, estabelecendo a proporcionalidade remuneratória (o maior salário não pode ser superior a quatro vezes o menor salário, eliminando as graves distorções vigentes até hoje, quando a diferença ultrapassa sete vezes). Embora no caso dos oficiais os abonos de dois soldos e meio já tenham sido incorporados aos salários, os praças sofrem há três anos com os salários congelados.
A Aprasc está divulgando junto à população que já são cinco anos de promessas não- cumpridas por parte do governo estadual e inúmeras mesas de negociação, nas quais o governo sequer apresentou uma proposta de cronograma para o cumprimento prático da Lei. A luta está se fazendo com o apoio fundamental do nascente Movimento de Esposas e Familiares dos Praças. Trata-se de uma luta em defesa da segurança pública para todo o povo catarinense e em defesa da dignidade e dos direitos dos servidores públicos.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Esperando um menino
Por Elaine Tavares - jornalista
Eu confesso. Gosto de ler a bíblia. Acho um livro fantástico, quase que uma grande reportagem sobre a história de um povo. É fascinante. Uma das histórias das que gosto muito é do menino Davi vencendo o gigante Golias. Aterrado diante de um homem grande, o exército de Israel se acovarda na guerra contra os filisteus. Seus homens tremem e paralisam. Até que um guri, com uma prosaica funda, se adianta e diz: vou pegar esse gajo! E assim faz. Com a força de sua mão, joga a pedra no meio da cabeça do gigante e ele tomba. Mais tarde, Davi torna-se rei daquele povo, que conheceremos como judeu.
Hoje, vendo a TV julguei ver Golias. Não era mais filisteu. Havia assumido a face daquele que lhe vencera há milênios. Ali estava diante das portas de Gaza, com todo o seu poder. O gigante acossando um povo indefeso. Tal como um daqueles monstros de filme japonês, este Golias avança sobre os palestinos com um dos mais poderosos exércitos da terra. Pasma, ouço os locutores falarem dos ataques do Hamas. Para William Bonner e os demais títeres da mídia cortesã, quem está agredindo é a Palestina. “Mais um ataque contra Israel”. É assim. Seria para rir se não estivéssemos num palco de horror. O governo de Israel é o Golias redivivo. Sabe de seu poder e avança, roubando terras, roubando vidas. Estoura as cabeças das mulheres, que carregam crianças. Arrebenta crianças, que buscam as mães. Aniquila a juventude palestina, esperando que esta gente se acabe. Destrói casas, deixa almas em escombros.
Espero a ação dos governantes da terra. Espero o embargo, o bloqueio, e nada. Penso em Cuba, embargada desde há 50 anos por querer ser livre. Contra a ilha socialista a coisa funciona. E este Golias que baba sangue, por que não é parado? Por que se calam as gentes? Por que gritam apenas os que não têm poder? Por que se omitem os grandes da terra? Como podem permitir que isso prossiga?
Na tela de luz encontro os olhos de um menino. Está impávido. Não tem medo. Nesta história enviesada ele é Davi. Tem uma funda e uma pedra. Só ele pode parar o gigante opressor.. A sua volta jazem os mortos, o vermelho do sangue encharca a terra. Crianças mutiladas, homens destroçados. E ele segue de olhos vidrados. Já não espero governantes, poderosos, grandes da terra. Eu sinto vontade de um desses guris palestinos que parecem “imorríveis”. Porque ao que parece, quanto mais deles tombam, outros tantos se levantam.
Um dia, naquelas terras, um guri judeu venceu o filisteu, que nada mais era do que a raiz da Palestina. Falastin. Mas, hoje, os guris estão do lado filisteu. A história e suas voltas. A samsara. Nós aqui gritamos, do alto de nossa impotência. Os grandes dormem. Deles nada virá. São vocês, pequenos filhos da palestina que, sozinhos, com suas pedras, hão de vencer essa criminosa ocupação que vem desde 1947. Você estão aí morrendo, lutando. E eu, tão longe, ainda que abomine a guerra, só posso esperar que vocês, tal qual aquele Davi, tenham boa pontaria.
Eu confesso. Gosto de ler a bíblia. Acho um livro fantástico, quase que uma grande reportagem sobre a história de um povo. É fascinante. Uma das histórias das que gosto muito é do menino Davi vencendo o gigante Golias. Aterrado diante de um homem grande, o exército de Israel se acovarda na guerra contra os filisteus. Seus homens tremem e paralisam. Até que um guri, com uma prosaica funda, se adianta e diz: vou pegar esse gajo! E assim faz. Com a força de sua mão, joga a pedra no meio da cabeça do gigante e ele tomba. Mais tarde, Davi torna-se rei daquele povo, que conheceremos como judeu.
Hoje, vendo a TV julguei ver Golias. Não era mais filisteu. Havia assumido a face daquele que lhe vencera há milênios. Ali estava diante das portas de Gaza, com todo o seu poder. O gigante acossando um povo indefeso. Tal como um daqueles monstros de filme japonês, este Golias avança sobre os palestinos com um dos mais poderosos exércitos da terra. Pasma, ouço os locutores falarem dos ataques do Hamas. Para William Bonner e os demais títeres da mídia cortesã, quem está agredindo é a Palestina. “Mais um ataque contra Israel”. É assim. Seria para rir se não estivéssemos num palco de horror. O governo de Israel é o Golias redivivo. Sabe de seu poder e avança, roubando terras, roubando vidas. Estoura as cabeças das mulheres, que carregam crianças. Arrebenta crianças, que buscam as mães. Aniquila a juventude palestina, esperando que esta gente se acabe. Destrói casas, deixa almas em escombros.
Espero a ação dos governantes da terra. Espero o embargo, o bloqueio, e nada. Penso em Cuba, embargada desde há 50 anos por querer ser livre. Contra a ilha socialista a coisa funciona. E este Golias que baba sangue, por que não é parado? Por que se calam as gentes? Por que gritam apenas os que não têm poder? Por que se omitem os grandes da terra? Como podem permitir que isso prossiga?
Na tela de luz encontro os olhos de um menino. Está impávido. Não tem medo. Nesta história enviesada ele é Davi. Tem uma funda e uma pedra. Só ele pode parar o gigante opressor.. A sua volta jazem os mortos, o vermelho do sangue encharca a terra. Crianças mutiladas, homens destroçados. E ele segue de olhos vidrados. Já não espero governantes, poderosos, grandes da terra. Eu sinto vontade de um desses guris palestinos que parecem “imorríveis”. Porque ao que parece, quanto mais deles tombam, outros tantos se levantam.
Um dia, naquelas terras, um guri judeu venceu o filisteu, que nada mais era do que a raiz da Palestina. Falastin. Mas, hoje, os guris estão do lado filisteu. A história e suas voltas. A samsara. Nós aqui gritamos, do alto de nossa impotência. Os grandes dormem. Deles nada virá. São vocês, pequenos filhos da palestina que, sozinhos, com suas pedras, hão de vencer essa criminosa ocupação que vem desde 1947. Você estão aí morrendo, lutando. E eu, tão longe, ainda que abomine a guerra, só posso esperar que vocês, tal qual aquele Davi, tenham boa pontaria.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Nosso balanço
O ano de 2008 foi pleno para a equipe da Pobres & Nojentas. Conseguimos chegar ao número 15 da revista, que completou três anos com novo projeto gráfico. Também lançamos, além do blog em www.pobresenojentas.blogspot.com e da conta no You Tube, br.youtube.com/PobresyNojentas, um novo blog, http://revistapobresenojentas.wordpress.com, para postagem exclusiva de artigos jornalísticos e científicos sobre comunicação e jornalismo. No final do ano também vendemos a camiseta da Pobres, com ilustração assinada pelo jornalista Eduardo Schmitz.
Outra novidade foi a estréia da Pobres & Nojentas Teórica, que fala sobre o jornalismo que se faz nos sindicatos. Os três artigos mostram que este é um espaço privilegiado para se fazer jornalismo contextualizado e que aprofunde a interpretação dos fatos. O livreto (36 págs., Cia. dos Loucos, Florianópolis) foi lançado no encontro anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, em novembro, no Rio de Janeiro.
No dia 1° de dezembro também lançamos o livro Mulheres da Chico, escrito por Catarina Francisca de Souza, Daniele Braga Silveira, Janete Osvaldina Marques, Lídia Almeida, Maria do Carmo Apolinário e Jussara Fátima dos Santos, a Sara, moradoras na Chico Mendes, bairro Monte Cristo, na capital catarinense, que enfrentaram o desafio de fazer um livro sobre suas experiências de vida.
O livro, editado pela Companhia dos Loucos, que também edita a revista bimestral Pobres & Nojentas, conta histórias de lutas, desafios, de momentos tristes e de alegria, de fantasias e desejos. A organização do livro foi feita pela educadora Sandra C. Ribes, com fotografias de Sônia Vill e projeto gráfico e diagramação de Sandra Werle e Marcela Cornelli.
O segundo lançamento foi na Casa Chico Mendes no dia 16 de dezembro. As autoras falaram sobre o significado de ter o livro impresso, e sobre a forma como as famílias acolheram a iniciativa. As cinco que estiveram no lançamento expressaram o desejo de, futuramente, escrever outro livro. “Eu deveria ter falado mais, contado mais. Mas dá para fazer outro, né? – perguntou Janete. Daniele, que mora em Laguna, concedeu entrevistas e foi convidada a deixar exemplares para venda em uma livraria da cidade.
Mais uma vez, em 2008, contamos com o apoio fundamental do SINDPREVS-SC, o Sindicato dos Previdenciários em Santa Catarina, para viabilizar a publicação da revista, da P&N Teórica e do livro Mulheres da Chico. Em 2009 queremos fazer a Pobres chegar ao número 20, terminando o ano com a publicação de mais uma P&N Teórica. E sabe mais o quê!
Outra novidade foi a estréia da Pobres & Nojentas Teórica, que fala sobre o jornalismo que se faz nos sindicatos. Os três artigos mostram que este é um espaço privilegiado para se fazer jornalismo contextualizado e que aprofunde a interpretação dos fatos. O livreto (36 págs., Cia. dos Loucos, Florianópolis) foi lançado no encontro anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, em novembro, no Rio de Janeiro.
No dia 1° de dezembro também lançamos o livro Mulheres da Chico, escrito por Catarina Francisca de Souza, Daniele Braga Silveira, Janete Osvaldina Marques, Lídia Almeida, Maria do Carmo Apolinário e Jussara Fátima dos Santos, a Sara, moradoras na Chico Mendes, bairro Monte Cristo, na capital catarinense, que enfrentaram o desafio de fazer um livro sobre suas experiências de vida.
O livro, editado pela Companhia dos Loucos, que também edita a revista bimestral Pobres & Nojentas, conta histórias de lutas, desafios, de momentos tristes e de alegria, de fantasias e desejos. A organização do livro foi feita pela educadora Sandra C. Ribes, com fotografias de Sônia Vill e projeto gráfico e diagramação de Sandra Werle e Marcela Cornelli.
O segundo lançamento foi na Casa Chico Mendes no dia 16 de dezembro. As autoras falaram sobre o significado de ter o livro impresso, e sobre a forma como as famílias acolheram a iniciativa. As cinco que estiveram no lançamento expressaram o desejo de, futuramente, escrever outro livro. “Eu deveria ter falado mais, contado mais. Mas dá para fazer outro, né? – perguntou Janete. Daniele, que mora em Laguna, concedeu entrevistas e foi convidada a deixar exemplares para venda em uma livraria da cidade.
Mais uma vez, em 2008, contamos com o apoio fundamental do SINDPREVS-SC, o Sindicato dos Previdenciários em Santa Catarina, para viabilizar a publicação da revista, da P&N Teórica e do livro Mulheres da Chico. Em 2009 queremos fazer a Pobres chegar ao número 20, terminando o ano com a publicação de mais uma P&N Teórica. E sabe mais o quê!
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Ato em solidariedade aos palestinos

O Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino realizou ato público na terça-feira, dia 6, em protesto contra os bombardeios em Gaza, na Palestina ocupada. O ato ocorreu em frente ao Pró-Cidadão, em Florianópolis. Participaram representantes do movimento sindical e popular na Capital. A Pobres estava lá. As fotos são da jornalista Vera Flesch, que já fez matéria para a revista, na qual entrevistou Khader Othman, que nasceu em uma cidade a oeste de Ramallah e hoje vive em Florianópolis. Ele é membro do Comitê.domingo, 4 de janeiro de 2009
Panos de beleza
Míriam Santini de Abreu
Gosto de toalhinhas de crochê, de tricô, bordadas, espalhadas sobre os móveis da casa. Minha mãe agora me presenteou com duas colchas e uma almofada feitas por ela, que dessas artes tudo entende. A renda da colcha rosa tem uns 60 anos, recente apenas o tecido. A colcha branca tem quase a mesma idade; ganhou apenas uma reforma. Panos belos, trabalho de décadas atrás, que me ligam com as mulheres da família.
Anoitecer
Li uma vez sobre o anoitecer, hora da volta ao lar, da esperança, da renovação. Nasci às 6 horas, mas encantam-me mais as 18 horas, ou mais tarde, para ver o sol sumir atrás das montanhas, como nas do interior de Caxias do Sul.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Iara na cascata do Matias
Dá vontade de ser abelha
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Que venha o jornalismo
Por Elaine Tavares – jornalista
O Jornalismo no Brasil é uma vergonha. Quase tudo o que se vê na TV ou se lê nos jornais e revistas semanais pouco tem a ver com a vida das gentes. As fontes são as oficiais e raros são os que se aventuram pelas estradas vicinais, poeirentas, da vida real. Melhor é ficar no gabinete, nas salas acarpetadas, com ar condicionado, a sorver cafezinho e ouvir, reverente, a voz do poder. Isso dá muito mais lucro. Pode colocar um jornalista nas graças dos que mandam. Isso significa verbas adicionais e fama.. Quem não quer?
O ser humano normal sonha com isso. Trabalhar na Globo, aparecer em rede nacional, ser reconhecido no supermercado. E, de quebra, ainda ter uma boa poupança para os tempos difíceis. Para isso, só vale uma regra: não brigar com o poder. Servilismo, servidão. Dar murro em ponta de faca pra quê? Bobagens de quem não tem família para sustentar.
Pois o jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi fez o improvável. Ele não escreveu qualquer matéria, não ficou perdido entre anotações, não usou câmera escondida, não foi para frente de batalha, não mergulhou em documentos, sequer narrou a vida desgraçada dos seus compatriotas, acossados pela ganância estadunidense. Ele apenas arremessou um sapato contra o rei. Numa situação absolutamente normótica, quando os jornalistas se aglomeram para fazer perguntas idiotas a um energúmeno completo como é o presidente estadunidense, sem que absolutamente seja aventada qualquer possibilidade de um questionamento embaraçoso paro o poder, o homem, jornalista, explodiu.
Não era terrorista, nem homem-bomba, nem nada. Só uma pessoa, cansada de servir àquele que nada mais era do que um gangster de terceira classe. Mas que, por tanto tempo nos píncaros da gloria, comandando o exército mais poderoso da terra, havia de ser temido. E assim, não bastando ter destruído toda a cultura do Iraque, matado sua gente, destruído sua auto-estima, massacrado sua honra, ainda se deu ao luxo de ir dizer “goodbay” . Tripudiava , pisoteava, humilhava um pouco mais aquele povo que até hoje, passados cinco anos, ainda morre pelo simples fato de ser o que é.
O jornalista não ouviu os dois lados, não contou histórias, não checou informações. Ainda assim merece ganhar todos os prêmios do mundo. E por quê? Porque num tempo em que o normal é servir ao poder ele disse: Não! Sem armas, mas sem medo, ele usou o que mais prosaico se poderia usar, o sapato. E, num ato de digna raiva o arremessou contra o boneco estadunidense, que tal e qual um estúpido, ria sem entender a grandeza do gesto. O jovem iraquiano que aos gritos de “cachorro”, tentou atingir o presidente do país mais armado da terra, ficará eterno ao protagonizar uma hora histórica. No lugar improvável, entre os serviçais, ele se levantou e arremessou o sapato. Um gesto pueril, inglório, tolo, mas que redimiu parte da humanidade.
Não é sem razão que pelo mundo todo seu gesto ingênuo esteja sendo saudado como a maravilha das maravilhas. Porque no planeta dos escravos de Jó teve um que decidiu sair da casinha do jornalismo cortesão e dizer ao mundo a palavra aprisionada: “cachorro!”, que, pensando bem, é uma ofensa contra esses lindos animais. Vai-te para o inferno George Bush, porque, como já dizia Ali Primera “hermano de mi pátria usted no es”.
Foi bonito, foi redentor, mas, e agora? Será diferente com Obama? É diferente dos demais carrascos? Trará paz ao mundo? Acabará com Guantánamo? Findará a tortura? Deixará de ingerir sobre a vida das gentes nos países que têm riquezas para eles roubarem? Duvido muitíssimo!
O bravo jornalista do Iraque enfrentou a ira dos deuses e está a receber aplausos de todos os cantos do mundo. Legal, isso é bom. Mas, quisera eu que os coleguinhas do mundo todo principiassem a realizar o insólito, tal qual o iraquiano, não atirando sapatos, mas narrando a vida, a vida mesma, essa que escorre pelos dedos da história real e que não encontra espaço para se expressar.
Sim, foi orgástico ver o sapato voando. Talvez fosse tudo o que aquele homem pudesse fazer. Mas nós, aqui na terrinha, podemos mais do que um sapato no ar. Nós podemos contar da vida, dos podres do poder, da dominação. Nós podemos narrar o horror do cotidiano e mais, nós podemos anunciar a boa nova. Outras formas há de se viver no mundo. Boas e bonitas. Os atiradores de sapatos são bem vindos, sim, mas é chegada a hora dos Jeremias a insistir contra todo o bom senso: “ainda hão de nascer flores neste lugar”. Viva o jornalista iraquiano que arremessou os sapatos, mas vivam também os loucos que, a despeito de tudo, jogam a merda do capital no ventilador. Eles não aparecem em rede nacional, mas estão aí, insistindo e lutando. Há mais sapatos voando por aí do que pode sonhar nossa vã filosofia!
O Jornalismo no Brasil é uma vergonha. Quase tudo o que se vê na TV ou se lê nos jornais e revistas semanais pouco tem a ver com a vida das gentes. As fontes são as oficiais e raros são os que se aventuram pelas estradas vicinais, poeirentas, da vida real. Melhor é ficar no gabinete, nas salas acarpetadas, com ar condicionado, a sorver cafezinho e ouvir, reverente, a voz do poder. Isso dá muito mais lucro. Pode colocar um jornalista nas graças dos que mandam. Isso significa verbas adicionais e fama.. Quem não quer?
O ser humano normal sonha com isso. Trabalhar na Globo, aparecer em rede nacional, ser reconhecido no supermercado. E, de quebra, ainda ter uma boa poupança para os tempos difíceis. Para isso, só vale uma regra: não brigar com o poder. Servilismo, servidão. Dar murro em ponta de faca pra quê? Bobagens de quem não tem família para sustentar.
Pois o jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi fez o improvável. Ele não escreveu qualquer matéria, não ficou perdido entre anotações, não usou câmera escondida, não foi para frente de batalha, não mergulhou em documentos, sequer narrou a vida desgraçada dos seus compatriotas, acossados pela ganância estadunidense. Ele apenas arremessou um sapato contra o rei. Numa situação absolutamente normótica, quando os jornalistas se aglomeram para fazer perguntas idiotas a um energúmeno completo como é o presidente estadunidense, sem que absolutamente seja aventada qualquer possibilidade de um questionamento embaraçoso paro o poder, o homem, jornalista, explodiu.
Não era terrorista, nem homem-bomba, nem nada. Só uma pessoa, cansada de servir àquele que nada mais era do que um gangster de terceira classe. Mas que, por tanto tempo nos píncaros da gloria, comandando o exército mais poderoso da terra, havia de ser temido. E assim, não bastando ter destruído toda a cultura do Iraque, matado sua gente, destruído sua auto-estima, massacrado sua honra, ainda se deu ao luxo de ir dizer “goodbay” . Tripudiava , pisoteava, humilhava um pouco mais aquele povo que até hoje, passados cinco anos, ainda morre pelo simples fato de ser o que é.
O jornalista não ouviu os dois lados, não contou histórias, não checou informações. Ainda assim merece ganhar todos os prêmios do mundo. E por quê? Porque num tempo em que o normal é servir ao poder ele disse: Não! Sem armas, mas sem medo, ele usou o que mais prosaico se poderia usar, o sapato. E, num ato de digna raiva o arremessou contra o boneco estadunidense, que tal e qual um estúpido, ria sem entender a grandeza do gesto. O jovem iraquiano que aos gritos de “cachorro”, tentou atingir o presidente do país mais armado da terra, ficará eterno ao protagonizar uma hora histórica. No lugar improvável, entre os serviçais, ele se levantou e arremessou o sapato. Um gesto pueril, inglório, tolo, mas que redimiu parte da humanidade.
Não é sem razão que pelo mundo todo seu gesto ingênuo esteja sendo saudado como a maravilha das maravilhas. Porque no planeta dos escravos de Jó teve um que decidiu sair da casinha do jornalismo cortesão e dizer ao mundo a palavra aprisionada: “cachorro!”, que, pensando bem, é uma ofensa contra esses lindos animais. Vai-te para o inferno George Bush, porque, como já dizia Ali Primera “hermano de mi pátria usted no es”.
Foi bonito, foi redentor, mas, e agora? Será diferente com Obama? É diferente dos demais carrascos? Trará paz ao mundo? Acabará com Guantánamo? Findará a tortura? Deixará de ingerir sobre a vida das gentes nos países que têm riquezas para eles roubarem? Duvido muitíssimo!
O bravo jornalista do Iraque enfrentou a ira dos deuses e está a receber aplausos de todos os cantos do mundo. Legal, isso é bom. Mas, quisera eu que os coleguinhas do mundo todo principiassem a realizar o insólito, tal qual o iraquiano, não atirando sapatos, mas narrando a vida, a vida mesma, essa que escorre pelos dedos da história real e que não encontra espaço para se expressar.
Sim, foi orgástico ver o sapato voando. Talvez fosse tudo o que aquele homem pudesse fazer. Mas nós, aqui na terrinha, podemos mais do que um sapato no ar. Nós podemos contar da vida, dos podres do poder, da dominação. Nós podemos narrar o horror do cotidiano e mais, nós podemos anunciar a boa nova. Outras formas há de se viver no mundo. Boas e bonitas. Os atiradores de sapatos são bem vindos, sim, mas é chegada a hora dos Jeremias a insistir contra todo o bom senso: “ainda hão de nascer flores neste lugar”. Viva o jornalista iraquiano que arremessou os sapatos, mas vivam também os loucos que, a despeito de tudo, jogam a merda do capital no ventilador. Eles não aparecem em rede nacional, mas estão aí, insistindo e lutando. Há mais sapatos voando por aí do que pode sonhar nossa vã filosofia!
sábado, 13 de dezembro de 2008
Pobres em Salvador
A bibliotecária documentalista Maria Guilhermina Cunha Salasário, que trabalha no Sindicato dos Previdenciários em Santa Catarina, Sindprevs-SC – apoiador cultural da revista Pobres & Nojentas, participou do evento “14 dias de ativismo na WEB pelo fim da violência contra a mulher”. Gui, como a chamamos, levou a Salvador kits com um exemplar da Pobres e Nojentas, um exemplar da Pobres Teórica sobre jornalismo em sindicato, um exemplar do livro Mulheres da Chico, um exemplar da Revista sobre os 20 anos do Sindprevs e outro do jornal Previsão, do sindicato, com textos sobre gênero, violência contra a mulher e orientação e diversidade sexual. As fotos foram feitas pela Gui, pela bibliotecária e ativista do MARIA MULHER Maria Noelci e por Maria de Fátima, também ativista. Gui está de camiseta verde.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Des-conhecendo
Elaine Tavares
Ontem encontrei uma mulher que jamais vira. Não sei se por conta destas correrias da vida, quando a gente não pára mais para olhar. Então, na tarde de sol quente, naquela hora morta em que parece que o mundo inteiro dorme, ela veio, mansinho. Seu rosto, estranho, em princípio me assustou. Depois, fui absorvendo cada detalhe. A cara, vincada de pequenas rugas não tinha ansiedade. Era como se cada um daqueles riscos fosse uma dessas cicatrizes que gostamos de lembrar, por uma traquinagem de infância ou por conta de evocar boas memórias.
A mulher que me olhava, serena, já não tinha mais pressa, mas seguia encarando o mundo com olhos de fogo. Os braços estavam flácidos, as pernas já não tinham a firmeza de antes, mas os pés continuavam a seguir na mesma velha direção traçada anos-luz antes. Os olhos míopes não viam distâncias, mas não precisava, contou. As realidades que sonhara ainda não tinham se feito fatos, e ela continuava abrindo caminhos. A amargura da juventude tinha se dissipado e toda aquela tristeza que acumulara por esperanças mal havidas se esvaíra por entre os anos. A mulher estava mais madura.
Não era bonita, não tinha glamour, subsumia entre as gentes. Pessoa comum, ínfima, vazia de segredos. Ainda assim me tomava a atenção. Alguma coisa no jeito de rir, de manear a cabeça, de apertar os olhos, era quase familiar. O cabelo, comprido e mal cuidado, branqueava, mas ela não se importava. Bom demais se sentir madurar, como fruta, sem cair do pé. “É hora da doçura”.
Na modorra da tarde, ali estávamos, ela e eu, frente-a-frente. “Já não há medo de findar”, disse, espreguiçando, lânguida como gata. “Nenhuma conta a prestar, só o viver, lento, devagar”. Corpo gasto, coração fraco, cabeça cheia de vontades. Ânima! Espírito livre, navio sem âncora. Ah, deliciosa sensação de não ser premente. “Somos nada” – disse –“o sonho de uma vaca”. E gargalhou, faunica!
Eu fui embora, mas ela ficou no espelho...
A mulher que me olhava, serena, já não tinha mais pressa, mas seguia encarando o mundo com olhos de fogo. Os braços estavam flácidos, as pernas já não tinham a firmeza de antes, mas os pés continuavam a seguir na mesma velha direção traçada anos-luz antes. Os olhos míopes não viam distâncias, mas não precisava, contou. As realidades que sonhara ainda não tinham se feito fatos, e ela continuava abrindo caminhos. A amargura da juventude tinha se dissipado e toda aquela tristeza que acumulara por esperanças mal havidas se esvaíra por entre os anos. A mulher estava mais madura.
Não era bonita, não tinha glamour, subsumia entre as gentes. Pessoa comum, ínfima, vazia de segredos. Ainda assim me tomava a atenção. Alguma coisa no jeito de rir, de manear a cabeça, de apertar os olhos, era quase familiar. O cabelo, comprido e mal cuidado, branqueava, mas ela não se importava. Bom demais se sentir madurar, como fruta, sem cair do pé. “É hora da doçura”.
Na modorra da tarde, ali estávamos, ela e eu, frente-a-frente. “Já não há medo de findar”, disse, espreguiçando, lânguida como gata. “Nenhuma conta a prestar, só o viver, lento, devagar”. Corpo gasto, coração fraco, cabeça cheia de vontades. Ânima! Espírito livre, navio sem âncora. Ah, deliciosa sensação de não ser premente. “Somos nada” – disse –“o sonho de uma vaca”. E gargalhou, faunica!
Eu fui embora, mas ela ficou no espelho...
Mulheres de 38
Míriam Santini de Abreu
Há umas três semanas fui a um show do Queen cover. Estávamos eu, Pepe, Ju, Má e George. Ju há uns oito anos não saía de casa para uma noitada dessas. Sábado passado eu, Pepe, Má e George fomos ao Bar Drakkar, na Lagoa da Conceição, ouvir a Immigrant tocar clássicos do rock. Lugarzinho surreal. Não dou detalhes porque não enxergo direito, e estava tudo meio penumbroso. Fila para entrar, o ar-condicionado no teto virado numa cachoeira, sem lugar para sentar, mas então estava eu com 18 anos de novo, cabelo pintado de cor cenoura, camiseta do Desacato, botas impermeáveis e jeans justo, justo. O Pepe catou dois drinques, um o Pirata Espacial. Estávamos ali, como disse o George, para provar bebidas estranhas. Saímos lá por duas da madrugada, a aragem fresca envolvendo o corpo. Eu não via a Lagoa desde que as bruxas andavam soltas por ali. Muito tempo. Pedimos xis num bar, espio o cardápio, um deles com carne de soja. Tenho calafrios só de olhar bife de xis feito com guisado. Mas Pepe se espanta: - Carne de soja? Ah, ah, ah!!! – Vê lá dois de carne de verdade!
Há umas três semanas fui a um show do Queen cover. Estávamos eu, Pepe, Ju, Má e George. Ju há uns oito anos não saía de casa para uma noitada dessas. Sábado passado eu, Pepe, Má e George fomos ao Bar Drakkar, na Lagoa da Conceição, ouvir a Immigrant tocar clássicos do rock. Lugarzinho surreal. Não dou detalhes porque não enxergo direito, e estava tudo meio penumbroso. Fila para entrar, o ar-condicionado no teto virado numa cachoeira, sem lugar para sentar, mas então estava eu com 18 anos de novo, cabelo pintado de cor cenoura, camiseta do Desacato, botas impermeáveis e jeans justo, justo. O Pepe catou dois drinques, um o Pirata Espacial. Estávamos ali, como disse o George, para provar bebidas estranhas. Saímos lá por duas da madrugada, a aragem fresca envolvendo o corpo. Eu não via a Lagoa desde que as bruxas andavam soltas por ali. Muito tempo. Pedimos xis num bar, espio o cardápio, um deles com carne de soja. Tenho calafrios só de olhar bife de xis feito com guisado. Mas Pepe se espanta: - Carne de soja? Ah, ah, ah!!! – Vê lá dois de carne de verdade!
Agora, enquanto a nossa programação roqueira não oferece novos atrativos, nos preparamos, com caminhada e corrida, para subir o monte Cambirela, ponto culminante da Grande Florianópolis.
Bueno... Que há para se dizer? Prendam as mulheres de 38! Elas enlouqueceram!
Bueno... Que há para se dizer? Prendam as mulheres de 38! Elas enlouqueceram!
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Que discutirão essas pombas?
O Centro de Floripa é delas. Dia desses, mal entrei na pastelaria do Kekos e uma quase me atropelou. O meu grito foi motivo de risadas de quem presenciou a cena. Numa tarde meio brumosa as flagrei em assembléia no semáforo em frente à Catedral. Que discutirão essas pombas?
Nós no Rio!



Rosangela Bion de Assis, da equipe de P&N, foi uma das convidadas a participar do 14º Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, NPC, realizado no Rio de Janeiro. Rô fez parte da Mesa "Experiência da Comunicação", no dia 22 de novembro, que discutiu o papel dos jornais e jornalistas sindicais na disputa da hegemonia. Participaram também: Ana Cristina, jornalista do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Adelmo Andrade, Diretor de Imprensa do Sindicato dos Bancários de Salvador, Cláudia Santiago, Jornalista do NPC e Feterj, Rosane Vargas, jornalista do Sintrajufe RS e Silvio Berengani, jornalista dos metalúrgicos do ABC. Rô levou ao NPC a Pobres Teórica sobre jornalismo em sindicato, a P&N número 15 e o livro de poesias Transparente Demais, escrito por ela.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
“Antes eco-chato que eco-burro”
Por Elaine Tavares – jornalista
“Tudo o que acontece à Terra – acontece aos filhos da Terra. O homem não teceu a teia da vida – ele é meramente um fio dela. O que quer que ele faça à teia, ele faz a si mesmo”.
Chefe Seatlle
Por todo o estado o clima é de desolação. No vale do Itajaí as famílias contabilizam mortos e estragos. Nunca se viu tanta destruição. Mas, ao contrário do que a televisão tem dito, toda a tragédia não se deve exclusivamente às chuvas que caíram muito mais do que o normal nesta época do ano. Há que buscar as causas humanas, as omissões e ações indevidas. Nos espaços do saber as vozes se levantam indignadas: tudo isso já havia sido anunciado no início da década de 80, quando Blumenau ficou sob as águas. Muitos estudos foram feitos, precauções forma anunciadas e nada se cumpriu. Além disso, a destruição sistemática da floresta amazônica acaba tendo implicações viscerais com o que aconteceu em Santa Catarina e o que ainda pode ocorrer em outros lugares do país.
Segundo estudos divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, a floresta que toma conta do norte do Brasil é a responsável pela precipitação de chuvas no país e em toda América Latina, assim, o que acontece com ela afeta a todos, indiscriminadamente. Por isso é que os gritos de movimentos ambientalistas contra a destruição - que segue a passos largos via madeireiros, plantadores de soja, criadores de gado, etc... - não devem ser considerados como “histerias” de eco-chatos. As chuvas em Santa Catarina e a seca no Rio Grande e Argentina são exemplos do que a devastação da floresta pode causar. Documento divulgado por professores de várias universidades do Estado de Santa Catarina alerta para esta questão e insiste: não foi apenas o fenômeno atmosférico de precipitações que acontece nos meses do final do ano. É certo que este foi atípico. Em todo o mês de novembro caiu 1.001,7 milímetros, o equivalente a seis meses de precipitação e no final de semana fatídico teve-se a metade disso. Mas há mais coisas a se dizer.
Uma fala de Blumenau
Passado o pior momento, começam agora as tentativas de explicação. Em Blumenau, entre os estudiosos do meio ambiente, ferve uma grande indignação. É que já se fala na contratação de técnicos de São Paulo e até da Alemanha para realizar levantamentos sobre as áreas atingidas. É como isso já não existisse há 30 anos e como se ali, na boa e velha FURB, não houvesse gente capacitada para dar respostas. Tanto tem que os professores ligados ao Centro de Operações do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí Açu, o CEOPS, já haviam alertado as autoridades sobre a enchente. “Receberam como resposta que não estava chovendo em Rio do Sul, daí não haver perigo. Talvez porque ninguém esperasse que fosse chover tanto”, diz Rudi Ricardo Laps, professor da FURB na área da ecologia e também integrante da Acaprena – Associação Catarinense de Preservação da Natureza, uma das mais antigas do país.
É Rudi quem lembra o trabalho realizado por um professor da FURB e outro do Paraná há 30 anos, bem antes da última grande enchente. No levantamento feito estão muito bem demarcadas as áreas que deviam ser reservadas para a preservação e que jamais poderiam ser parceladas. Dentre estas áreas, muitas são as que ficaram sob as águas e tiveram deslizamentos, como a rua José Reuter, por exemplo, na qual morreram sete pessoas. O trabalho também mapeia o sul da cidade como uma região de córregos, importante manancial de água, que deveria ter sido protegido. Também orienta a prefeitura sobre a instabilidade geológica da região, apontando como inadequado o crescimento da cidade para aquela direção. O estudo feito acabou gerando um decreto municipal, o 1567, de 05 de julho de 1980, que normatizava a ocupação.
Mas, apesar de ser lei, este decreto acabou sendo reiteradas vezes maculado. Rudi conta de um loteamento feito numa região de morro, com declividade acima de 30 graus, portanto fora das normas de segurança, de propriedade de Adelino Batista. Na época, a Acaprena se manifestou contra o parcelamento da terra, entrou com ação, mas não conseguiu vencer. Adelino vendeu o morro a um vereador da cidade, Arlindo de Franceschi (PSDB) e ele deu seguimento ao loteamento. “Essa região foi agora devastada, assim como também o jardim Marabá, que igualmente deveria continuar sendo uma Área de Preservação Permanente. Na época todos foram coniventes, juízes, vereadores, autoridades e todos tinham ciência de que a região sul tinha que ter sido preservada. E não se trata de só salvar os bichos e plantas, como dizem os que nos criticam, mas de salvar as pessoas, como ficou provado agora.”
Os ricos subiram o morro
Outro problema candente no espaço de Blumenau foi a ocupação desenfreada dos morros pela classe média. Ocorre que a enchente de 1983 deixou uma marca profunda nos moradores do centro da cidade. Naqueles dias a água subiu 16 metros e a cidade ficou praticamente submersa. O medo de que isso fosse se repetir levou as pessoas que tinham condição a comprar terra nos morros. A lógica era simples. Se a água tinha invadido a baixada, nos morros não subiria. Então, esta região da cidade passou a ser ocupada. O solo que já era geologicamente frágil ficou mexido e não resistiu às condições anômalas de chuva do mês de novembro e do fatídico fim de semana de 8/9. “Foi incrível, mas a gente podia ver as piscinas caindo dos morros junto com as casas. Uma cena terrível”, diz Rudi.
O morro do Baú, tremendamente atingido pelos deslizamentos também é um exemplo concreto do que pode fazer uma ação anti-preservacionista. Apesar de ser uma Área de Preservação Permanente, o morro do Baú foi, nos últimos anos, seguidamente violentado sem que nada fosse feito para impedir. Durante esse processo de invasão, de retirada ilegal de madeira, de surrupio do palmito (importante cobertura natural da região), as entidades de luta ambiental fizeram denúncias, gritaram, espernearam. Mas, eram ridicularizados como os “eco-chatos”, os que queriam travar o progresso. Não foram ouvidos. Agora, os mesmos políticos que fizeram vistas grossas a estas denúncias aparecem como “os comovidos”, oferecendo cestas básicas aos desabrigados. No mínimo, fariseus.
O código
Não bastasse todo o descaso com os estudos e denúncias feitas por ambientalistas e pesquisadores agora o governo de Luis Henrique da Silveira pretende aprovar, em caráter emergencial, um novo Código Ambiental, que foi totalmente alterado sem levar em conta as sugestões dadas pelas entidades durante o processo participativo de construção do documento. “Não é à toa que Luis Henrique recebeu o Prêmio Porco da Federação das Entidades Ambientalistas Catarinenses e é chamado de o exterminador do futuro, porque ele está destruindo a educação, a cultura e o ambiente”, dispara Rudi Laps. Segundo ele, o documento que tramita na Assembléia tem problemas seríssimos como a diminuição das Áreas de Preservação Permanentes nas margens de rios e nos topos dos morros. “Existe uma lei federal que estabelece os 30 graus de declive, a metragem das margens dos rios que não podem ser tocadas. O Itajaí Açu, por exemplo, teria que ter intocados até 100 metros das margens. Mas quem fiscaliza? Quem aceita isso? Só que esta é uma lei federal e o Código em debate pretende burlar essa lei”.
Outro problema apontado no código é o fato de ele condicionar a implementação de novas unidades de conservação estaduais à Assembléia Legislativa. Conforme Rudi, sendo assim, novas áreas não deverão criadas, pois todos sabem muito bem os interesses que são defendidos pelos deputados e como tudo isso pode virar uma batalha de barganhas e corrupção. “Eles também poderão revisar a lei de proteção à Serra do Tabuleiro o que pode trazer a tragédia para Florianópolis. Afinal, se aquela área for degradas, a capital pode ficar sem água”.
O professor da FURB conta que um dia antes da chuva torrencial que detonou a tragédia ele estava na estrada em uma viagem de estudos com os alunos e puderam notar, no caminho entre a cidade de Torres e Blumenau qual era a situação dos rios diante da chuva que caia. “Nós fomos observando os rios e todos eles estavam açoriados, lodosos, barrentos. Já o rio Massiambu, que descia do alto da Serra do Tabuleiro estava limpo. Foi impressionante porque a aula prática acabou perfeita. Os alunos puderam ver o que pode significar um lugar preservado”. A mesma relação Rudi faz com o Parque Nacional da Serra do Itajaí, outro espaço de preservação que, diante de toda a tragédia que se abateu sobre a região, permaneceu intacto. A lição está aí, estourando na cara. Só não vê quem não quer ou é mal intencionado.
O futuro
Para os ambientalistas e pesquisadores de Blumenau o amanhã segue sendo muito conhecido. Não há necessidade de o prefeito trazer gente de fora da cidade para fazer estudos.. O poder público sabe muito bem quais são as áreas de solo instável e, conforme o professor, nenhum solo instável torna-se estável em 30 anos. Aqueles espaços onde aconteceram os deslizamentos seguem sendo de risco. “O que se pode fazer é, isto sim, um estudo para ver se surgiram novas áreas de instabilidade geológica”.
O fato é que ninguém pode dizer que não foi avisado da tragédia. Na semana anterior às grandes chuvas, o conhecido ambientalista blumenauense Lauro Eduardo Bacca, um dos fundadores da Acaprena, escreveu um artigo no jornal comentando o primeiro deslizamento de terra que havia ocorrido no morro Coripós. “A desgraça está anunciada”, disse ele, profético. E foi o que aconteceu. Na semana seguinte, as regiões já apontadas no plano diretor da cidade como não parceláveis, vieram abaixo. Portanto, avisos não faltaram.
Mas, o fato é que toda esta discussão acaba não chegando ao povo, às gentes simples que compram terras em loteamentos ilegais ou em espaços degradados, passíveis da desgraça. Até porque a mídia, cortesão do poder, raramente dá espaço para as denúncias dos ambientalistas. E, as pessoas, na verdade, não têm muita escolha. Diante da transformação da terra em mercadoria, só podem fincar suas casas onde o bolso alcança. Então, tampouco se pode reputar a culpa aos pobres que se metem em lugares de risco. Para eles não há alternativas. Os que devem ser cobrados e punidos são os que se apropriam das terras e as loteiam, sabendo de todos os riscos. No geral, estes, não são pobres. São os mesmos especuladores de sempre, basta seguir o rastro nos cartórios da cidade. Muitos deles têm sobrenomes chiques, são políticos, autoridades, enfim...
Agora, as cidades iniciam seu processo de reconstrução. Doações chegam de todos os lugares deste Brasil solidário e, no mais das vezes, escapam do controle. Muito do dinheiro doado pode não chegar e o que chegar sabe-se lá para o quê será usado. Além disso, no caso de Blumenau, o poder público terá de tomar medidas drásticas como a retirada gradual de todas as famílias que vivem nestas áreas impróprias - o que significa praticamente todo o sul da cidade - cerca de quatro mil pessoas. Isso requer uma mudança radical e cara. Mas, segundo os estudiosos é absolutamente necessária. “Os solos da parte sul precisam ser preservados, são frágeis. A cidade só pode crescer para o norte onde os solos são um pouco melhores”, insiste Rudi Laps.
Além disso, a cidade precisa investir em fiscalização. Não basta ter leis que regulamentem a ocupação do solo. Há que estar atento, ter controle. A Fatma, que é um órgão ambiental do Estado, está sucateada, faltam trabalhadores. Na cidade de Blumenau o efetivo da Polícia Ambiental é de apenas oito homens. Isso tem de mudar. Ou as pessoas entendem de uma vez por todas que suas vidas têm ligações viscerais com a vida do planeta, ou momentos trágicos como estes que viveu o Estado se repetirão. E esta não é uma receita apenas dos chamados eco-chatos - que de chatos não têm nada – é também preocupação de profissionais como os engenheiros, arquitetos, biólogos, enfim, todos os que, de uma maneira ou de outra, estudam estas questões. “Antes ser um eco-chato do que um eco-burro”, diz o ambientalista Lauro Bacca. Mais do que nunca, ele tem razão.
E, no brutal mundo capitalista, enquanto as famílias que perderam gentes e bens - por conta da vileza dos especuladores de plantão que burlaram todas as leis - tentam encontrar um caminho para seguir vivendo, as municipalidades iniciam a chamada “reconstrução”, muitas vezes se valendo de empresas já especialmente preparadas para os “desastres”. Em casos assim, de tragédias anunciadas e guerras sem razão, também já se tem muito claro que são os que sairão ganhando. Neste sistema do capital tem um tipo de gente que nunca perde.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Mulheres da Chico I
Na primeira foto, Janice, Marcela, Rosângela, Míriam e Elaine, da equipe da P&N, com as autoras
Na segunda foto, sentadas, todas as autoras: Daniele, Maria, Sara, Catarina, Lídia e Janete. Em pé, as irmãs catequistas franciscanas e a equipe da Casa Chico Mendes
Noite quente, suavizada por uvas, morangos, fatias de melancia, pêssegos e ameixas espalhados sobre as mesas. Às 19 horas começaram a chegar os amigos queridos. Foi o lançamento do livro "Mulheres da Chico", no hall da reitoria da UFSC, em Florianópolis, na primeira segunda-feira de dezembro. As autoras deram entrevistas, autógrafos, relataram o processo que deu origem ao livro.
Inspiradas na obra “Mulheres de Cabul”, da premiada fotógrafa inglesa Harriet Logan, Catarina Francisca de Souza, Daniele Braga Silveira, Janete Osvaldina Marques, Lídia Almeida, Maria do Carmo Apolinário e Jussara Fátima dos Santos, a Sara, moradoras na Chico Mendes, bairro Monte Cristo, na capital catarinense, enfrentaram o desafio de fazer um livro sobre suas experiências.
O livro, editado pela Companhia dos Loucos, que também edita a revista bimestral Pobres & Nojentas, conta histórias de lutas, desafios, de momentos tristes e de alegria, de fantasias e desejos. A organização do livro foi feita pela educadora Sandra C. Ribes, com fotografias de Sônia Vill e projeto gráfico e diagramação de Sandra Werle e Marcela Cornelli.
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