quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Enfim, sou uma mulher de cabelos brancos!


Por Janice Miranda, de Santo Amaro da Imperatriz


O que era para ser apenas mais uma ida ao cabeleireiro, apenas mais um corte de cabelo (coisa comuníssima em minha vida, pois vivo mudando o visual, como dizem os amigos), acabou se transformando na descoberta da década - pelo menos para mim. Com as madeixas já curtas, decidi que o verão pedia ainda mais frescor e menos frescura. Sentada na cadeira do meu cabeleireiro, sentenciei: "Corta 'tudo', Serginho, deixa bem curtinho!". Relutante, porque é adepto dos cabelões, ele foi se empolgando e num bailado magistral com a tesoura deixou meu cabelo virgem, sem nenhum vestígio de tintura (coisa incomum, no meu caso). O resultado ficou perfeito! Feliz, fui para casa.

Minha filha Mahara elogiou a nova cor e perguntou qual era. Expliquei que não havia tintura nenhuma, que era a cor natural do meu cabelo, mas que já havia marcado uma "pintura" para a semana seguinte. Do alto de sua doçura e curiosidade muito próprias, a minha pequena veio de perto conferir. Recebi um ultimato: a cor estava ótima e eu não deveria "pintar" coisa nenhuma. Fiquei mais feliz ainda e decidi deixar que o couro cabeludo respirasse e eu, curtisse meu tom. De frente para o espelho e com aquela imperdoável (quase maldita) luz especial para maquiagem em meu rosto, veio a notícia. "Mamãe, achei um cabelo branco em você. Ih, achei outros aqui atrás. Mãe, tá cheio!".

Fiquei paralisada, em choque. Perguntei várias vezes se minha filha tinha certeza. Para alguns pode parecer bobagem, faniquito feminino, sei lá. Afinal, uma mulher de 43 anos, como eu, ia querer o quê? Um dia, o cabelo branco ia "pintar". Mas o fato é que até agora, a maioria das pessoas tem me dado (naqueles chutes chatos e fora de hora, em que algum engraçadinho tenta adivinhar a idade da gente), pelo menos, de sete a dez anos menos do que o que está lá, bonitinho, na carteira de identidade. Com o cabelo branco, não vai ter jogo. A média de apostas vai baixar, tenho certeza. Ai, ai.

Uma das primeiras coisas que vislumbrei foi minha irmã, tirando sarro, dizendo que agora eu a entenderia. Mais velha, ela vive tentando me explicar que não pode deixar os cabelos crescerem, sem as pinceladas mágicas das tinturas, porque... tem muitos cabelos brancos, fica horrível receber os pais na escola daquele jeito e coisa e tal. E que eu não a entendo, porque não tenho cabelos brancos. Bem, talvez, agora, eu a entenda.

Fiquei um tempão na frente do espelho, tentando encontrar os até então desconhecidos fios brancos. Sim, porque eles são muitos e estavam bem escondidinhos, só esperando para me dar o bote. Comecei a matutar no significado daquilo, quem sabe na mensagem que a vida quisesse, gentilmente, me mostrar. Certamente, um momento de transição.

Afastada do meu trabalho profissional, por questões de saúde, vejo com alegria, que o faro e a curiosidade de jornalista não me abandonaram. Mesmo que a atual situação não me permita ficar um tempão teclando no computador (o que afinal, vamos falar a verdade, não é saudável para ninguém), as informações não têm se perdido. Tenho alimentado minha mente e meu espírito com sede de aprendiz, de estudante.

As constantes visitas à biblioteca pública municipal foram gratificantes. Resgatei um tempo precioso. Devorei Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Shakespeare, Mário de Andrade até Shirley Maclaine. Livros sobre como organizar sua casa e ser feliz (foi bom ver que não preciso disso para sorrir), como se adaptar bem a diversos ambientes de trabalho (parei na metade, porque o que importa no final é vivenciar), nada escapou, nem aquelas receitas esdrúxulas, com ingredientes caríssimos, que a gente nunca faz porque acha (e é) um absurdo o que se tem que pagar.

Nesse período consegui acompanhar minha sensível e amada filha Mahara também num momento de transição. Ir para uma nova escola, passar da quarta para a quinta série, ver que a querida "tia" ficou para trás e perceber que os dez novos professores não estão tão preocupados com o joelho machucado no recreio ou se têm duas, três provas no mesmo dia. Vi surgir uma poetisa, uma bailarina em flor, uma menina moça adorável.

Reconheci, por todos os poros da minha casa, nas coisas que parecem mínimas (mínimas o quê!) o quanto há de felicidade em minha vida. Deito todas as noites na minha cama e vejo, agora com mais clareza ainda, a meu lado, um companheiro ímpar de jornada. Amigo na medida certa, professor firme e ao mesmo tempo zeloso, amante sem medida, sempre à busca do sorriso mais escondido, do desejo impublicável. Estive por perto para ver seu crescimento profissional, merecido, pelo respeito e humanidade com que conduz sua vida. Sou plena, hoje eu sei, pelos vinte anos de total cumplicidade e amor que sempre permearam minha relação, com meu parceiro de vida, meu Príncipe George Willians.

Olha só quantas coisas boas, uns simples e até há pouco, escondidos fios de cabelos brancos fizeram eu enxergar. Sou amada, mãe, jornalista, tenho família e queridos amigos, uma casa linda (porque cheia de felicidade!), leio feito doida, não deixo maltratar bicho, quero ser ouvida e respeitada, busco um mundo melhor, quero vida. Que legal, sou uma mulher de cabelos brancos!

4 comentários:

Anônimo disse...

jan
que lindo!!
mas, aposto que tu logo vais pintar novamente as madeixas ...rssss
saudades muitas
fica bem
beijossss
marcela

elaine tavares disse...

Que bonito Janice. Gostei.. é bom a gente ir se enfronhando nesta madurez.. que tem lá as suas belezas...
beijocas
elaine

Azarias disse...

Achamos que continuamos os mesmos,
só os outros percebem.

ana carla correa de Lima disse...

Olá! Gostaria de encontrar a Janice!!!!!!!!! É minha amiga de infância!!!!! Saudades de ti, sua fofa!
Ana Carla, filha do Seu "Corrêa", da Vila Militar.
accdelima@gmail.com