sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mundo dos Repórteres

Míriam Santini de Abreu

O jornalismo que desaloja é o jornalismo da reportagem. Tenho lido textos sobre a prática do jornalismo desde que foi publicado o acórdão que selou o fim da exigência do diploma nessa área para o exercício da profissão. Na quarta, dia 18, falou-se sobre o assunto em um seminário do qual participei como palestrante promovido pelo Instituto do Meio Ambiente da Bahia. Houve quem defendesse e quem reprovasse a decisão, com argumentos mais ou menos consistentes.
Mas acabo de ler uma reportagem no Le Monde Diplomatique de novembro e mais uma vez percebo que a reportagem, que cada vez mais perde espaço para noticiazinhas nos jornais e revistas, é o que distingue o trabalho jornalístico de qualquer outra atividade de escrita que se proponha a interpretar o mundo.
No acórdão do STF está escrito que “o jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensadas e tratadas de forma separada”. Ora, liberdade de expressão é direito humano fundamental, e não atividade. E o jornalismo tanto é uma profissão quanto uma forma de interpretação da realidade.
Essa forma de interpretação pressupõe teoria e prática, e a prática que expressa com mais riqueza interpretativa, narrativa, a realidade, do ponto de vista jornalístico, é a reportagem. E o repórter, de todas as funções que um jornalista pode exercer, por sua vez é o que mais traz em si o caldo fumegante da prática jornalística.
Estão a se crer jornalistas todos os que agora talvez possam verter seus textos nas páginas dos jornais e revistas. Antes já podiam... Estão a escrever cartas, crônicas, artigos, resenhas, talvez até pequenas notícias. Mas, diabos, quero ver se escrevem reportagens! Porque basta o domínio da língua portuguesa e um pensar raso, mediano ou profundo sobre o mundo para se sentar na frente do computador e dar pitacos sobre o governo, a crise, o mais recente lançamento literário, quem deu para quem no mundo dos ricos e famosos, o apagão, a Copa. Mas reportagem é outra coisa!
A que li no Le Monde Diplomatique fala sobre as “maquiladoras” no México, nome das fábricas que recebem peças, montam os produtos e os reenviam aos Estados Unidos. Fosse o texto escrito por alguém da Universidade, do Mundo dos Negócios, do Mundo dos Profissionais Liberais, do Mundo dos Consultores, teriam escrito algo mais ou menos denso, mais ou menos crítico, alinhavando estatísticas, percentuais, algumas frases feitas, um histórico sobre como as “maquiladoras” se instalaram no país. Se o escrevente fosse um cabeça-de-planilha, como diz o Nassif, certamente elogiaria a vitalidade do setor para aquele país e em como emprega milhares de pessoas. Um escrevente com olhar menos viciado pela balela neoliberal falaria sobre a forma como os trabalhadores são tratados, a miséria que recebem, o impacto ambiental e a falta de compromisso com condições dignas de trabalho. Mas tudo com base em um discurso universal, válido, respeitadas as diferenças, para situações mais ou menos semelhantes no sórdido mundo das corporações. E para escrever de um modo ou de outro, bastaria dar uma boa varredura na internet ou, no caso de escrevente mais sério, ter ido in loco verificar o que lá se passa. Escrever sobre isso seria emitir uma opinião sobre o assunto, consolidando a liberdade de expressão, e sem precisar levantar da cadeira!
Mas, caralho!, a jornalista Anne Vigna, a repórter Anne Vigna, foi até lá fazer reportagem. E como é isso, perguntam? A-ha! A repórter leu sobre o assunto, foi até o México, esteve em “maquiladoras”, ouviu trabalhadores, sindicalistas, representantes dos empresários e do governo, especialistas da Universidade. Apresentou estatísticas. Descreveu ambientes, situações e pessoas.
Sabemos, por ela, que uma operária foi suspensa por dois dias porque fez uma peça ruim entre as 700 que produz em um dia. Ela recebe o equivalente a 98 reais por semana. Também sabemos que a fila de trabalhadores na frente das “maquiladoras” começa a se formar perto das cinco da manhã, e as pessoas temem reclamar do que quer que seja por medo de não conseguir uma das vagas . A repórter conversou com operários sobre as graves doenças que desenvolvem os que trabalham com chumbo, elemento que vai nas baterias de equipamentos eletrônicos. Trabalhadores que não podem falar ou ir ao banheiro durante o expediente, e que passam até 10 horas seguidas em pé. As 8 mil toneladas de chumbo enterradas sob uma capa de concreto para não continuar a poluir a natureza. Ah, a pujante economia proporcionada pelo acordo que o México fez com os Estados Unidos...
Anne Vigna em nenhum momento expressa sua opinião sobre o que vê e ouve. Mas toda a forma de construir a reportagem – como fazem os grandes repórteres – deixa escorrer do texto uma lava. Uma lava que desce por canais formados por domínio das técnicas narrativas, por capacidade descritiva, inúmeras informações precisas e – sim, isso é evidente no texto – um amor profundo pelo ser humano que sofre. E o que Anne faz ao final do texto é perfeito, porque ela cede a uma das operárias que entrevistou a frase que conclui a reportagem. E essa frase aponta o que diz o geógrafo Milton Santos, para quem os portadores do futuro são os “homens lentos”, os empobrecidos. O sumo do pensamento de Milton está naquela frase final, dita por uma operária demitida depois de ter sido sugada por 25 anos e não ter recebido seus direitos trabalhistas.
Essa lava que Anne deixa jorrar de sua reportagem é o jornalismo que desaloja.
Deixemos que esse povo da Universidade, do Mundo dos Negócios, do Mundo dos Profissionais Liberais, do Mundo dos Consultores, fale sua verdade nos jornais e revistas. Mas Reportagem, a forma por excelência de o Jornalismo interpretar o mundo, é coisa para o Mundo dos Repórteres.

3 comentários:

Li t disse...

Genial amiga. Isso acho eu, que não sou jornalista, nem quero me passar por, apenas quero dar minha opinião sobre algumas coisas, e a Pobres tem me ajudado a fazer isso sempre que peço...
Estou na luta contra o pl do ato médico, através do qual os médicos teriam um poder de decisão sobre o trabalho dos outros profissionais de saúde que é inadmissível, então entendo perfeitamente o que é a luta pelo espaço de sua profissão, que vem antes da sua luta pessoal por espaço. Torço pela reversão deste quadro no jornalismo...
Um abraço, Li Travassos

Rodrigo disse...

Muito bom o seu texto, Míriam, parabéns. Quero investir e acreditar mais em reportagens no ano que vem (além do famigerado mestrado, hehe) e seu texto me deixou mais animado. Abs, Rodrigo Schmitt

Revista Pobres & Nojentas disse...

Valeu, colegas! Espero que a situação se reverta mesmo em relação ao nosso diploma e à situação da reportagem no jornalismo hoje!
Míriam