segunda-feira, 1 de abril de 2013

IX Jornadas Bolivarianas discutem os megaeventos esportivos

Por Elaine Tavares - jornalista

01.04.2013 - As Jornadas Bolivarianas de 2013 terão como tema os megaeventos esportivos, vistos nos seus variados aspectos: econômico, político, de mobilização popular, cultural, saúde, organização urbana. A proposta deste seminário internacional, que acontece na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) há nove edições,   é de fazer um debate crítico, saindo do lugar comum que se vê na mídia comercial, de ufanismos e maravilhas. Eventos desta natureza, muito mais do que propiciar lazer e divertimento tornaram-se espaços de acumulação do capital. Com eles, muito poucos têm grandes lucros e a maioria das populações dos lugares onde acontecem acabam tendo apenas ganhos periféricos, quando não vivem processos violentos de remoção.  
Para compreender de forma crítica este atualíssimo modo de acumulação capitalista, o Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA/UFSC) traz a Florianópolis, de 9 a 12 de abril, renomados estudiosos e líderes populares de vários países. A abertura, no dia 9 de abril, contará com a presença do equatoriano Jaime Breilh, da Universidad Andina Simón Bolívar. Jaime é médico e um dos fundadores do movimento latino-americano da nova saúde pública, sendo o foco do seu trabalho a discussão da saúde esportiva como negócio e prática destrutiva. Segundo ele, a lógica dos megaeventos desfaz de maneira cabal a ideia do esporte como sinônimo de saúde. 
Outra presença significativa é a do cubano Antonio Becali Garrido, reitor da Universidad de Ciencias de la Cultura Física y el Deporte, que trará para o debate a concepção cubana de esporte e sua posição diante dos megaeventos. Participa também o professor  Fernando Mascarenhas,  da Universidade de Brasília, com larga trajetória na discussão do esporte brasileiro, tendo sido membro do Conselho Nacional do Esporte e presidente do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte.
Raumar Rodrigues Gimenez, professor da Universidad Nacional de Uruguai, traz a reflexão do esporte como espaço de cultura e analisa os efeitos dos megaeventos nesta perspectiva. Marcelo Weishaupt Proni, professor da Unicamp, atua na área da economia do esporte, tendo forte atuação na crítica do futebol-empresa e dos impactos que megaeventos esportivos geram nas economias locais. Nilso Ouriques, professor da Unoesc, que recentemente lançou um retrato do esporte catarinense com o livro "A miséria do esporte", faz a discussão da acumulação do capital gerada por  megaeventos esportivos. 
No campo da mídia, as jornadas contarão com a presença de dois jornalistas de visão crítica. Um deles é o brasileiro Juca Kfouri, da ESPN, conhecido por sua seriedade, coragem e profissionalismo. Um ícone do pensamento crítico no mundo esportivo. O outro é o jornalista mexicano Maurício Mejía, também bastante conhecido no México por sua visão diferenciada no debate esportivo, saindo do senso comum, típico da mídia comercial.
Outro estudioso que fará sua conferência nas Jornadas  é o sul-africano Eddie Cottle, que lançou há pouco tempo um denso trabalho sobre  a Copa do Mundo realizada no seu país. Olhando o evento desde o campo popular e na perspectiva dos trabalhadores, Eddie poderá mostrar como a África do Sul foi afetada e quais os impactos deixados na população.
Já o representante do debate popular no Brasil será Renato Cosentino Vianna Guimarães , do Comitê Popular Rio Copa Olimpíadas, entidade que vem travando batalhas importantes pelo direito ao esporte e à vida, principalmente no que diz respeito aos despejos e à privatização do Maracanã. Paulo Ricardo do Canto Capela, presidente do Iela e professor do Centro de Esportes da UFSC, encerra o evento, discutindo a necessidade de o esporte sair da órbita do negócio e se encarnar no mundo da vida.
As atividades das Jornadas Bolivarianas – 9ª. edição -  começam numa terça-feira, 9 de abril de 2013, a partir das 18h30min. Veja a programação completa:

IX Jornadas Bolivarianas
MEGAEVENTOS ESPORTIVOS - SEUS IMPACTOS, CONSEQUÊNCIAS E LEGADOS PARA O CONTINENTE LATINO-AMERICANO

9 de abril de 2013
- Noite – Auditório  da Reitoria – UFSC
18h30 – Abertura oficial das IX Jornadas Bolivarianas
19h – Conferência de abertura: Os Megaeventos Esportivos: Impactos, Consequências e Legados para o Continente Latino-Americano
Conferencista: Jaime Breilh/ Equador - Doutor e Diretor da Área de Saúde da Universidad Andina Simón Bolivar. Coordenador do Global Health para a América

10 de abril de 2013
- Manhã – Auditório da Reitoria - UFSC
9h – Conferência:  O Estado, os Movimentos Sociais, as Políticas Públicas de Esporte e Lazer e os Direitos Sociais frente aos Megaeventos Esportivos
Antonio Becali Garrido, Reitor da Universidad de Ciencias de la Cultura Física y el Deporte - Cuba
Fernando Mascarenhas UNB, Brasília, Brasil

- Tarde – UFSC e Hall da Reitoria
14h30 – 18h – Apresentação de Trabalhos
 - Noite - Auditório da Reitoria
18h30 - Conferência: A Mídia, o Jornalismo Esportivo e a Cobertura dos Megaeventos Esportivos
Juca Kfouri - São Paulo
Maurício Mejía - México

11 de abril de 2013
- Manhã – Auditório da Reitoria
9h – Conferência: Acumulação do capital e megaeventos esportivos
Nilso Ouriques - Unoesc/ Brasil
Marcelo Proni – Unicamp/Brasil
Nildo Ouriques - UFSC - Brasil

- Tarde – UFSC e Hall da Reitoria
14h30 – 18h – Apresentação de Trabalhos

- Noite – Auditório da Reitoria
19h – Conferência: Tema: Cidades, Participação Popular, Economia e os legados dos megaeventos esportivos
Eddie Cottle - África do Sul - Autor do livro “South África`s Wold Cup: A Legacy For Whom?” (Copa do Mundo da África do Sul: um legado para quem?)
Raumar Rodrigues Gimenez – Universidade Republica do Uruguai
 12 de abril de 2013
- Manhã – Auditório da Reitoria
9h - Conferência: O impacto dos megaeventos nas comunidades
Renato Cosentino Vianna Guimarães - Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas
Paulo Ricardo do Canto Capela - UFSC/Brasil

Informações:
www.iela.ufsc.br
iela@iela.ufsc.br
48. 37216483 – 3721-4938 - 99078877
www.jornadasbolivarianas.blogspot.com

segunda-feira, 25 de março de 2013

Quando um amigo chamar, vá!


Elaine Tavares

Ela tinha muitos amigos no facebook e inumeráveis seguidores no twitter. Por ali sempre rolavam conversas, risadas, compartilhamentos de textos e sentimentos. Mas havia a frieza de um espaço sem olhares quentes, sem abraços apertados, sem beijos, sem toques de mãos. E ela precisava disso. Talvez porque fosse de uma outra geração, de um outro mundo, desses nos quais as pessoas se olham e se afagam e se beijam e se encantam uma com a outra. Ela, então, tinha sede e fome de presenças, era o seu alimento e, sem isso, definhava. Achava até que se não tivesse, vez em quando, o contato real com aqueles a quem amava, morreria.
Então inventou um encontro. Precisava dele para não sucumbir de vazios humanos. Comprou frutas, sucos, vinhos, pãezinhos e patês. Tal qual Babette planejando a festa, preparou delícias para dividir com aqueles os quais chama de amigos. Comer junto é comunhão, coisa sagrada, desperta o que há de melhor em cada ser. Também, feito a raposa, desde a manhã seu coração batia ligeiro esperando a hora do abraço que lhe devolveria a vida. Era o primeiro dia do outono, a mais bonita das estações, e chovia uma chuva forte, lavando a cidade e preparando a terra para a colheita. O universo conspirava para que a noite fosse de profundas alegrias.
Quando a hora chegou, tudo estava pronto. A mesa posta, a música escolhida, o vinho aberto. Ela sentou-se na varanda, a esperar. A chuva seguia, renitente, mas, pensou: “ninguém é de açúcar”. E quem ousaria não dar ouvidos ao chamado de um amigo? Sorriu e ficou a imaginar cada um dos rostinhos amados que chegariam, afogueados, guarda-chuvas abertos, fugindo do aguaceiro, também ansiosos pelo encontro, o abraço, o toque.
O tempo foi fugindo do relógio, a chuva seguindo seu curso, as frutas murchando e ninguém apareceu. A mulher deixou-se ficar à varanda, com todos os copos de vinho no chão. Na cidade molhada nenhum amigo atendeu ao chamado. Não haveria abraços, nem beijos, nem toques de mãos. Então, dos olhos, começaram a escorrer pequenas gotas de lágrimas, que foram crescendo, crescendo, crescendo, até formarem uma imensa poça de água. No dia seguinte, quando a procuraram, tudo o que puderam encontrar foi aquela estranha poça ao lado da cadeira que balançava sozinha no alpendre. A mulher nunca mais foi vista. Seu último post no facebook foi um insistente chamado para a festa.
Sua caixa de emails, aberta no dia seguinte, estava cheia de mensagens dos amigos, dizendo que tinham coisas importantes a fazer. Não seria possível o encontro. E a vida seguiu no facebook, com milhares de pessoas “compartilhando” coisas.  

sexta-feira, 22 de março de 2013

O racismo contra os indígenas está vivo e passa bem

Elaine Tavares

Uma entrevista em vídeo realizada com a cacique Eunice Antunes, da comunidade Guarani, do Morro dos Cavalos, mostrou o quanto a questão indígena em Santa Catarina também é revestida de profunda violência. O "sul maravilha", de certa forma, passa a imagem de um espaço civilizado, longe da truculência de regiões conflagradas como a Amazônia ou o Mato Grosso do Sul, nas quais é comum o assassinato descarado de índios. Só que isso é pura ilusão. Ou pior. Mostra que quando os índios estão quietos, confinados na sua miséria, é sempre muito fácil parecer "bonzinho" e "respeitar" os direitos, no geral expressos em distribuição de cestas básicas. Mas, se eles se levantam em luta e exigem que as terras sejam demarcadas, que a lei seja cumprida, aí a violência assoma, com sua cara feia, e todo o racismo que subjaz no cotidiano igualmente aflora.
A comunidade Guarani do Morro dos Cavalos é um espaço de quatro hectares onde se apertam 28 famílias, 200 almas. Elas reivindicam desde há anos suas terras ancestrais e, finalmente, em 2008, os 1.997 hectares aos quais têm direito foram demarcados. Só que nesse território também estavam mais de 60 famílias de "juruás" (os brancos), que, ou grilaram ou compraram as terras e agora precisam sair. O trabalho da Funai tem sido sistemático no sentido de indenizar e retirar as famílias. A maioria tem aceitado, mas uma parcela insiste em ficar. Sentimento justo, afinal, algumas estão ali há gerações. E é por aí que se espraia o conflito. O governo do estado deveria também indenizar as famílias, no valor da terra, já que a Funai só paga as benfeitorias, por conta de que o espaço é uma reserva natural e não poderia ter ninguém morando.
Pois a fala da cacique (http://youtu.be/bKUKCXHDCKU), contanto essa história e, inclusive, se colocando a favor da indenização dessas famílias, fez brotar um onda de violências verbais nos comentários do You Tube, que bem mostram a intolerância, o ódio e o preconceito que cerca a questão indígena. "diz que os jovens só ficam brincando, vendo TV depois da aula, pois recebem bolsa família, bolsa escola. A cacique ainda não os ensinou a pescar, caçar, afinal ela não tem tempo, pois fica só recebendo informação da FUNAI. Que cultura é essa de índio recebendo bolsa do governo?", diz um dos comentários. E outro: "A cacique é bem viajada, faz turismo com nosso dinheiro. Quase não fica na aldeia,  está explicada a vinda dos índios à vila pedir (esmolar). Essa é boa vida deles. Não é preciso ser índio, basta seguir a religião para se dizer índio". 
Outras barbaridades como chamar a cacique de boliviana, paraguaia, estrangeira e fazer piada com o fato de ela estar usando batom foram depois retiradas dos comentários quando alguém sugeriu que ia entrar na justiça por racismo. O debate mostra, com riqueza de detalhes, o ranço que existe, indelével, não só nas comunidades próximas à aldeia, mas também em todo o estado. Para boa parte das pessoas, índio só é bonitinho nas páginas dos livros ou quietinho nas aldeias. Bastou gritar, exigir direitos, para virar inimigo, "coisa ruim".
Ser índio
O movimento de recuperação das culturas originárias que assomou na América Latina desde o final dos anos 90 demorou a chegar no Brasil. E não poderia ser diferente. Ao contrário de países como a Bolívia, Equador, Guatemala e outros que contabilizam a maioria da população como indígena, aqui no Brasil os povos autóctones foram sendo dizimados desde a chegada dos portugueses em 1500. Com a leva dos imigrantes logo após a abolição da escravatura, mais uma onda de destruição dos povos indígenas se fez. No início do século XX, com a necessidade de abertura de novas fronteiras agrícolas, também a região norte, ainda bastante isolada, foi sendo tomada. Restou aos indígenas o confinamento em reservas ou a integração forçada na vida dos brancos.  Tudo isso foi provocando a desaparição de povos inteiros e a falta de uma política clara de demarcação dos territórios também fomentou uma espécie de "guerra" permanente com os interesses dos fazendeiros, mineradores e madeireiros que foram invadindo as terras indígenas. 
Hoje, depois de mais de uma década de lutas importantes pela América Latina e a profunda mudança na posição dos indígenas diante de sua realidade, também os povos do Brasil começaram a se integrar no processo de retomada da cultura e da identidade. Tanto que , segundo o IBGE, a população indígena cresceu 205% desde 1991. Isso porque muitas pessoas que já estavam no mundo urbano, "integradas", também resolveram assumir sua identidade e lutar pela sua cultura. Hoje, o Brasil já contabiliza 896,9 mil índios de 305 etnias, e em quase todos os municípios (80%) tem alguma pessoa autodeclarada indígena. Até mesmo alguns grupos já considerados extintos, como os Charrua, se levantam, se juntam, retomam suas raízes, formam associações e lutam por território. A maioria dos indígenas, 63%, ainda vive em área rural e o IBGE também constatou que aqueles que já estão com suas terras demarcadas conseguem viver com mais tranquilidade, vivenciando suas culturas. Esses, conformam também uma maioria, com mais  de 500 mil pessoas.  
A única exceção é a terra dos Yanomami, a mais populosa, com 25 mil e 700 habitantes, entre os estados do Amazonas e Roraima, que tem sofrido a invasão sistemática de garimpeiros em busca de ouro e outros minerais. Vários conflitos são registrados sistematicamente na região desde o ano de 1996, quando o então deputado Romero Jucá entrou com um projeto de lei para regulamentar a mineração em terras indígenas, principalmente na dos Yanomami. Naquele mesmo período, segundo denúncia dos indígenas, ele e José Sarney derramaram mais de 40 mil garimpeiros na área, exacerbando os conflitos. Esse projeto tramitou e em 2012 o deputado Édio Lopes (PMBB), de Roraima, apresentou um substitutivo global, o qual sugere a cessão de quase 80% do território Yanomami para grandes empresas mineradoras. Existem, hoje, mais de 650 requerimentos de empresas querendo minerar nas terras indígenas. Assim, sob a alegação de que as riquezas nacionais precisam ser exploradas, mais uma vez os indígenas correm risco de perderem sua vida. “Queremos que a floresta permaneça silenciosa, que o céu continue claro, que a escuridão da noite cai realmente e que se possa ver as estrelas", insiste Davi Yanomami, mas esse seu desejo não é levado em consideração quando o que está em jogo é a expansão do capital e a exploração desenfreada de minerais.
Não bastasse isso, outras comunidades do norte estão hoje completamente ameaçadas pelas famosas obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Essa região concentra 38,2 % dos projetos, que envolvem abertura de estradas e construções de usinas. Dos 61 projetos em andamento no norte, 37 deles estão da região amazônica e devem atingir 30 áreas indígenas . O mais emblemático e que já provocou dezenas de conflitos é o de Belo Monte, uma obra gigante que coloca em risco todos os povos do Xingu. 
Outro drama que se desenrola longe das câmaras de TV e da consciência nacional é o do povo Pankararu, uma comunidade de oito mil pessoas que sempre viveu às margens do Rio São Francisco, em Petrolândia, Pernambuco, e que agora está sem acesso à água e ao rio por conta das obras de transposição.  Desalojados, perdidos da relação com o rio, eles são abastecidos com carro-pipa, nas piores condições, enquanto o governo fala nas maravilhas da transposição, que nada mais é do que a proposta de levar água ao agronegócio. Já, com os índios, quem se importa?
Também os povos que vivem no Mato Grosso do Sul amargam violência e desamparo. São mais de 30 acampamentos de indígenas no estado, que é o que lidera o triste pódio de assassinatos de índios (62% ) , assim como o de mortes de crianças indígenas por falta de assistência médica. Recentemente uma comunidade de Guarani Kaiowá, com 170 pessoas, que estava acampada em dois hectares na beira de uma estrada, ameaçou resistir até o último homem caso fosse despejada. O drama provocou comoção nacional quando a mídia falou em suicídio. Na verdade, o estado de Mato Grosso do Sul também é campeão em número de suicídio de índios, com mais de 1.500 casos registrado nos últimos dez anos, sendo a maioria de jovens de 13 a 15 anos, completamente destituídos da vontade de viver sem condições de serem plenos na sua cultura. 
A voracidade do capital
E assim é a situação dos povos indígenas nesse país. Sempre tendo de superar dezenas de barreira para simplesmente ser. No Amazonas meninas índias trocam a virgindade por 20 reais, madeireiros assassinam índios no Pará, fazendeiros escravizam índios em Vacaria, Rio Grande do Sul , índios morrem nos cantões tentando defender suas terras. Tudo isso aparece como pequenos "drops" informativos, como se fossem casos esdrúxulos, fora do normal.  Não são. Essa é a realidade cotidiana de milhares de indígenas, todos os dias colocados sob o foco do racismo, tal como agora acontece em Santa Catarina. São chamados de feios, sujos, vagabundos, bêbados, paraguaios, escória do mal. Basta de saiam de suas aldeias e reivindiquem. Agora, com a política de cotas, eles estão entrando nas universidades. Mais um espaço no qual o racismo aflora com força. 
É uma tarefa dura para as gentes autóctones viver num mundo que os hostiliza sempre que saem da sua condição de "coitadinhos". Mas eles estão aí, crescendo, se multiplicando. Com outros tantos de autodeclarando, assomando na cultura, na língua, no território. Nunca será fácil. A consciência de que todo o território foi roubado custa a se formar , daí a violência que se vê no dia-a-dia. Mas, muito mais do que isso, o que provoca a maior parte dos conflitos é insaciável expansão do capital. Terras indígenas como as do Mato Grosso do Sul são pura fertilidade, os fazendeiros as querem. Também são ricas em minério as terras amazônicas, e os interesses multinacionais são gigantes. Daí que fomentar o racismo, provocar o ódio, também faz parte da estratégia do capital. Fica mais fácil destruir, derrotar, extinguir aquilo que as pessoas consideram "lixo". Assim, não há culpas. 
Por isso que no sul do Brasil, na "europa" brasileira, Santa Catarina, famílias de gente boa, pia, se engalfinham em discórdia com os índios, os sujos, os paraguaios, os estrangeiros. Parece até coisa do realismo fantástico. Chamam de estrangeiros aqueles que são os verdadeiros donos da terra. Na terra Guarani, nesses dias de outono, as gentes espiam pelos barracos mal havidos, com medo. Porque ousaram lutar e garantir seu território. Agora amargam a violência e a discriminação. E, ao largo, a vida passa.

Seve e Eduardo em vídeo sobre o livro "Contos da Seve"

Veja vídeo para conhecer Severiana Rossi Correa e Eduardo Schmitz. Seve contou a Eduardo as histórias que compõem o livro "Contos da Seve", lançado no dia 20 de março em Florianópolis.

“Sonhos Interrompidos” teve lançamento na Capital

Sem a pretensão de entrar em detalhes sobre a anorexia, suas causas, consequências e tratamentos, o livro “Sonhos Interrompidos” é um simples e emotivo relato escrito por duas irmãs, Carla e Mariana Marcondes Ferreira de Souza, que vivenciaram de perto a devastação que essa doença pode causar em uma pessoa, e em todos ao seu redor. O lançamento foi no dia 21 de março no hall do Centro de Convenções do Hotel Oceania, Praia dos Ingleses, Florianópolis. 
Como afirma a jornalista Marcela Cornelli, na apresentação do livro, “a história de Carla é a história de muitas meninas, jovens e adolescentes que buscam o padrão de uma beleza criada pela sociedade e pela mídia burguesa. Uma sociedade doente onde o culto excessivo à aparência influencia milhões de pessoas.
A impressão do livro foi viabilizada graças ao apoio de um conjunto de entidades sindicais (SINDPREVS/SC, SEEB, SINTRAJUSC, SINDES, SINTRAFESC, SINERGIA e SINTRATURB), CPCC (Cooperativa de Produção em Comunicação e Cultura), Revista Pobres & Nojentas e Editora Letra.


Assessoria de Comunicação do Sindprevs/SC

Mulheres


Veja vídeo do lançamento do livro "Contos da Seve"

Veja abaixo o vídeo sobre o lançamento do livro "Contos da Seve", no dia 20 de março na Fundação Franklin Cascaes.

terça-feira, 12 de março de 2013

Livro Contos da Seve será lançado em 20 de março, Dia do Contador de Histórias


 
O livro Contos da Seve será lançado no dia 20 de março (quarta-feira), às 19 horas, na Fundação Franklin Cascaes (Forte Santa Bárbara, rua Antônio Luz, 260, no antigo terminal central, quase esquina com a avenida Hercílio Luz). O livro, com histórias narradas por Severiana Rossi Correa, foi organizado pelo jornalista Eduardo Schmitz, e tem o apoio da Revista Pobres & Nojentas e da Fundação Franklin Cascaes.
Prefaciado pelo também jornalista Moacir Loth, Contos da Seve tem 118 páginas. São 57 histórias que levam o leitor para paragens desta Santa Catarina onde pessoas, objetos, casas, morros, são feitos de uma substância mágica, às vezes terna, às vezes cruel e espantosa. Como escreve Moacir Loth no Prefácio, Seve “tirou de sua memória bruxólica causos e contos que pouco devem ao mitólogo Franklin Cascaes, o bruxo da Ilha da Magia. Ambos, bruxo e bruxa, contam histórias com tanta intensidade que transmitem ao leitor a certeza absoluta de que suas histórias são fatos; suas lendas, notícias; seus causos, reportagens. Se Cascaes narrou o fantástico da Ilha e a saga dos açorianos, agarrado a bois e bruxas, Seve dá conta do folclore, do imaginário, do espírito e dos costumes do interior”.
Seve foi capa da edição 9 da Revista Pobres & Nojentas, que vai para a trigésima edição. A beleza da história dela e das que ela contou disparou a vontade de colocar as narrativas todas em papel. E foi o que o Eduardo fez, com uma primorosa capa também desenhada por ele.
A autora nasceu em Lages e em 2012 completou 89 anos. Ela viveu a colonização do Alto Vale do Itajaí. Teve 16 filhos, e vieram 56 netos, 66 bisnetos e 4 tataranetos. Já Eduardo Schmitz é um taioense de 38 anos que desde cedo mostrou ter habilidade com desenhos. Criado num sítio, no interior de Salete, só foi ter contato com a área editorial por volta dos 16 anos, quando começou a trabalhar num pequeno jornal semanal na cidade de Taió. Foi assim que aprendeu o oficio de diagramador em “past up”, sendo que, vez por outra, também eram publicadas algumas de suas charges.
Mais tarde, com o advento dos primeiros softwares de editoração eletrônica, Eduardo foi trabalhar na indústria gráfica, onde participou, por mais de 10 anos, na execução de vários projetos de cunho comercial. Buscando algo mais autoral e menos técnico, resolveu estudar jornalismo, formando-se em 2007 pela Universidade do Alto Vale do Itajaí (Unidavi). Quando ainda cursava o segundo semestre da faculdade, Eduardo deu início à criação de um jornal de bairro em Taió, sendo que anos depois o projeto acabou incentivando-o à criação de um mensário gratuito e de maior circulação, chamado Observatório Local, onde eram publicados contos da Seve. Atualmente Eduardo trabalha como freelancer em projetos de editoração, ilustração e webdesign.
A data escolhida para o lançamento do livro não é por acaso. Em 20 de março é comemorado o Dia do Contador de Histórias. A data foi criada em 1991, na Suécia, e tem como principal objetivo reunir os contadores e promover a prática em todo mundo. No lançamento, Aline Maciel, da Cia. Mafagafos – contadores de histórias, irá ler contos da autora. A ideia é marcar a data e compartilhar a beleza das lendas, causos e  contos da Seve.
 
Serviço:
Lançamento do livro Contos da Seve, organizado por Eduardo Schmitz
Quando: 20 de março (quarta-feira), às 19 horas
Onde: Fundação Franklin Cascaes (Forte Santa Bárbara , rua Antônio Luz, 260, no antigo terminal central, quase esquina com a avenida Hercílio Luz)
Apoio: Revista Pobres & Nojentas e Fundação Franklin Cascaes

quarta-feira, 6 de março de 2013

Globo, ¿por qué no te callas?


Míriam Santini de Abreu

Não li nem vi a maior parte do que foi publicado sobre a morte de Hugo Chávez nos principais meios de comunicação do país. Mas ontem, passei pelo Jornal da Globo e comprovei que não há limites para a vileza supostamente informativa da Rede Globo, porque não se pode classificar o dito conteúdo como jornalístico. Refiro-me especificamente ao "resumo" da trajetória de Chávez narrado pelo apresentador William Waack, indicado abaixo, onde também está uma avaliação mais detalhada sobre a cobertura da mídia a respeito da morte do presidente venezuelano.

É odioso o fato de os sucessivos governos do Brasil não abrirem o debate sobre a regulamentação da atividade de comunicação (terceiro link abaixo), como fizeram a Venezuela, a Argentina, a Bolívia, o Equador e o Uruguai. A presidenta Dilma também não dá indícios de que vá avançar um milímetro nesse tema. Quisera ver, no Brasil inteiro, um clamor: Globo, ¿por qué no te callas?






terça-feira, 5 de março de 2013

Seu Antônio, um lutador

Elaine Tavares
 
É nesse dia 8 de março, às 18h, na Escola América Dutra Machado,  o lançamento do livro "Seu Antônio, a história de um líder", fruto do trabalho generoso da educadora Sandra Ribes junto à vida das comunidades Chico Mendes e Monte Cristo. Ué, mas no dia da mulher, a história de um homem?  É que nós, da Pobres e Nojentas, já conseguimos superar essa divisão. Mulheres e homens - se estão na luta por um mundo melhor - ocupam o mesmo patamar e suas histórias merecem o mesmo destaque.

Seu Antônio é mais um personagem que poderia passar invisível na história de uma cidade pródiga em homenagear carrascos e predadores. Ele é um homem simples, que vive numa comunidade empobrecida, não frequenta altas rodas, nem salões acarpetados. Sua trajetória se fez na estrada de chão, nas vielas da comunidade, sempre na batalha por direitos, por dignidade e vida plena.
 
São essas pessoas que a equipe da Pobres e Nojentas  faz questão de iluminar com focos de luz intensa. Porque é gente assim, como o Antônio, que verdadeiramente constrói a cidade e muda a vida de centenas de outras pessoas com sua força, garra e luta renhida.

Então, nesse dia da mulher, as mulheres da Pobres convidam homem e mulheres, gente que luta, para prestigiar esse lançamento. Não acontece em uma galeria chique, nem numa livraria "da hora". É na comunidade mesmo, espaço de Antônio e dos seus. O livro é a memória viva da luta das comunidades do continente. O livro é história real, façanha comunitária. Pode chegar no Monte Cristo e compartilhar, com amor e com ternura.

Escola América Dutra Machado - Bairro Monte Cristo - 18h - 08/03/2013  

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Lei de Greve tramita no Congresso

Elaine Tavares

Tramita desde o ano passado, na Câmara de Deputados, o famigerado projeto de lei que regulamenta as greves de trabalhadores. Isso por si só já seria uma grande bobagem pois só os trabalhadores, auto-organizados, são os que decidem sobre suas formas de luta. Não há qualquer cabimento em o Estado ou o Legislativo tentar regular aquilo que não é da sua competência. No mundo capitalista, a luta dos trabalhadores é sempre uma luta contra o capital e, a menos que se entre numa armadilha de conciliação de classe, uma lei para regular as greves fica fora de questão.

Mas, apesar disso, um deputado do Partido dos Trabalhadores, chamado Roberto Policarpo Fagundes, eleito pelo DF, entrou com um projeto de lei, em 2012, visando justamente regular as greves. No corpo do projeto ele chama de "democratização das relações de trabalho e tratamento de conflitos". Um projeto dessa natureza deveria ser imediatamente rechaçado pelas entidades sindicais, mas, segundo a justificativa que está no corpo da proposta "o projeto resulta de três anos de negociação com entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Serviço Público Federal (Condsef) e a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal (Confetam), além de representantes do Ministério do Planejamento, durante o segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva". Ora, isso significa que entidades de trabalhadores, junto com o governo constituíram essa peça que é uma grave interferência na auto-organização dos trabalhadores uma vez que se faz em parceria com o patrão, no caso, o Estado.

Alguém pode dizer que o estado não é o capital, mas se pensar bem vai ver que sim, é. No estado capitalista, o estado é representação do capital e é com o capital que os trabalhadores disputam as verbas que vão prover a sua existência. Um exemplo claro disso pode ser visto nas negociações por salário. O governo nega recursos aos trabalhadores, mas nunca se nega a pagar os juros da dívida. Nesse embate, é a luta contra o capital.

Diz a lei, no seu artigo primeiro, que o seu objetivo é regulamentar o tratamento dos conflitos entre os servidores público e o estado e definir diretrizes para a negociação. Afirma que a livre associação é garantida assim como o direito de greve, mas estabelece que a negociação entre trabalhadores e governo deverá se dar dentro dos parâmetros da negociação permanente. Ou seja, apenas busca regulamentar o que já existe. Desde o primeiro governo Lula que esse expediente é usado. E ele significa exatamente o que quer dizer: negociação permanente, que permanece, que não avança.

Pois no artigo 5, do primeiro capítulo, já aparece a primeira pérola: "o direito de greve do servidor público submeter-se-á a juízo de proporcionalidade e razoabilidade". Ora, o que é isso? razoabilidade? Quem define o que é razoável? O governo? E se o que for razoável para os trabalhadores  - como um arrocho salarial - não o for para o governo?

Depois, o segundo capítulo, vem uma série de questões que definem como será a vida dos trabalhadores: direito a livre associação, proteção enquanto estiver em mandato sindical,  direito de afastamento para mandato sindical ( o que hoje não ocorre), dispensa de ponto para os que participam das mesas de negociação, direito a divulgação do movimento grevista (sic) e direito a arrecadação de fundo de greve.

O capítulo terceiro trata das regras para a negociação. Estabelece que ela se dará pelas Mesas de Negociação Permanente, uma prática que já existe e que só beneficia o governo. na verdade, nessas mesas, não há negociação e sim a imposição daquilo que o governo quer. A prática tem sido a da "enrolação permanente", só terminando quando o governo chega onde quer.

O capítulo quarto regulamenta o direito de greve. Caracteriza o que é a greve, como suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, dos serviços. Define, no parágrafo 2 do artigo 18, que são assegurados aos grevista o emprego de meios pacíficos para persuadir os colegas a aderir a greve. No artigo 18 fica bem claro que o direito á greve deverá ser submetido a juízo de "proporcionalidade e razoabilidade", mas não explicita o que isso significa. Joga para uma possível autorregulamentação a ser feita pelas entidades sindicais, mas que deverá passar pelo crivo do Observatório das Relações de Trabalho no Serviço Público, uma nova entidade que será criada, com representação de 50% do governo e 50% das entidades sindicais. Ou seja, mais uma estrutura, mais cargos, mais cooptação.

Agora, em 2013, esse projeto já poderá ser votado e se constituirá numa ferramenta importante para a administração no sentido do controle total dos movimentos trabalhistas. Como conta com o aceite e o apoio das maiores centrais sindicais brasileiras a sua aprovação pode acontecer sem maiores conflitos.

Daí a importância da divulgação desse tipo de projeto para que os trabalhadores conheçam seu teor e não permitam que uma burocracia sindical, muitas vezes cooptada pelos longos braços do poder, decida por todos. Esse projeto deve ser conhecido e debatido, com todas as suas nuances desveladas, para que os trabalhadores decidam autonomamente sobre se é isso mesmo que querem. Se não é uma tremenda contradição regulamentar, na lei burguesa, como devem se organizar para travar a luta contra os interesses do capital. É obvio que quando há um conflito aberto com o capital, como é o caso de uma greve, sempre é necessário abrir um canal de negociação. Mas isso deveria ser feito caso a caso, conforme o andar do próprio movimento. Não tem cabimento haver uma lei que determine como devem ser feitas as negociações, como se todo conflito fosse igual.

A luta de classe é a base do sistema capitalista, o conflito é permanente porque a riqueza está sempre acumulada nas mãos da classe dominante. Não cabe aos que dominam dizer aos trabalhadores como lutar contra eles. essa é uma decisão autônoma daqueles que vendem sua força de trabalho. Aceitar essa lei é ficar atrelado aos desejos do estado. E, esse estado que aí está - não importa quem seja o governante - é o estado capitalista/dependente. Isso significa que estará sempre defendendo os interesses do capital. Logo, é um contrassenso aceitar um projeto dessa natureza.

Aos sindicatos cabe chamar discussões e debater profundamente. Não é possível que as Centrais estejam negociando sem que a maioria dos trabalhadores saiba o que, de fato, está em jogo.

Conheça a lei, na íntegra:

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Caos no Ticen em Florianópolis

Elaine Tavares

A vida do trabalhador é uma desgraceira. Não bastasse ser explorado pelos patrões dia, noite e até quando pensa descansar vendo televisão, ainda tem de pagar por todas as merdas que os que governam fazem. É o que acontece hoje na capital dos catarinenses. O fim de tarde foi de completo terror no terminal do centro. Por conta dos ataques que o crime organizado vem realizando desde há dias, os trabalhadores do transporte coletivo decidiram encerrar as atividades às oito horas da noite. Quem sai do trabalho as seis já vem para o terminal na maior correia. As filas que se formam são imensas e os empresários, com medo que queimem os ônibus novos, colocam só as carroças para rodar.

Seis e cinco e a confusão era geral no terminal. Ninguém mais sabia onde começavam e onde terminavam as filas. Rostos tensos, coração aos saltos. Poucas horas antes um ônibus tinha sido incendiado no Saco dos Limões, diziam os fiscais. E nada de horários especiais. Os ônibus estavam saindo nos horários normais como se tudo estivesse em ordem. 

A confusão cresceu quando por volta das seis e meia os próprios fiscais começaram a gritar, dizendo para as pessoas entrarem nos ônibus porque aquele poderia ser o ùltimo. “O sindicato vai fechar o terminal do Rio Tavares”, diziam, e as pessoas, apavoradas, com medo de ficar no centro, corriam para dentro do ônibus, se empurrando e se acotovelando. Os carros saiam com gente saltando pelo ladrão. 

Eu estava na fila esperando chegar na ponta, para ir sentada, e já tinham passado seis ônibus. Os caras sempre com a mesma conversa de que era o último. Eu  fique doida com aquele papo de que era o sindicato que estava fechando o terminal, porque já tinha gente na fila xingando os trabalhadores. Comecei a gritar com os fiscais, dizendo que aquilo que eles estavam fazendo era criminoso. Em vez de agilizar a coisa e acalmar a população, eles estava tocando o terror e ainda colocando a culpa no sindicato. Porra, a culpa é do governador do estado que parece que não estar nem aí para o que acontece. “Ah é.. então tu quer morrer queimada”, retrucou o fiscal, continuando com a algaravia de que era o último ônibus. Eu continuei gritando que se a gente estava vivendo aquele horror era por culpa do governo que promovia a violência nos presídios e agora deixava o povo a ver navios. Nada, olhares de ódio. 

Quando finalmente entrei no ônibus, alucinada com tudo aquilo, ainda tive de vir escutando aqueles comentários grotescos de exigência de mais violência contra a violência. De matar.  A chuva caindo, o ônibus lotado, as pessoas em confusão. Tudo porque o fiscal anunciara que o terminal do Rio Tavares fecharia às sete e meia.  

Como quem tem carro foi trabalhar com ele, o trânsito estava um caos, agravado pela chuva. Demoramos mais de uma hora para chegar ao Rio Tavares. Lá, a balbúrdia estava formada porque os ônibus, de fato, já tinham parado. Única saída era seguir “na bota”, andando. Para quem mora mais perto a coisa não é tão ruim, mas e o povo da Caiera, do Ribeirão, da Tapera¿ Absurdo total. A cidade de Florianópolis está há dias refém do crime organizado. A polícia está tonta. O governador diz que na quarta-feira vai chegar reforço federal. Reforço do quê¿ Ninguém sabe.

As pessoas, andando pela estrada afora, cabeças baixas, corpo curvado, levarão horas para chegar à casa. Molhadas, cansadas, humilhadas. Amanhã, levantarão cedo e irão para o trabalho. Santa desgraça, Batman... Por que será que a gente não se revolta contra quem realmente merece¿¿¿¿¿

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Tragédia no RS: O que a morte não cessa de nos dizer

- A dor provocada por tragédias como a ocorrida neste final de semana na cidade de Santa Maria sacode a sociedade como um terremoto, despertando alguns de nossos melhores e piores sentimentos. Um acontecimento brutal e estúpido que tira a vida de 233 pessoas joga a todos em um espaço estranho, onde a dor indescritível dos familiares e amigos das vítimas se mistura com a perplexidade de todos os demais. Como pode acontecer uma tragédia dessas? A boate estava preparada para receber tanta gente? Tinha equipamentos de segurança e saídas de emergência? Quem são os responsáveis?
Essas são algumas das inevitáveis perguntas que começaram a ser feitas logo após a consumação da tragédia? E, durante todo o domingo, jornalistas e especialistas de diversas áreas ocuparam os meios de comunicação tentando respondê-las. As redes sociais também foram tomadas pelo evento trágico. Os indícios de negligência e falhas básicas de segurança já foram apontados e serão objeto de investigação nos próximos dias. Mas há outra dimensão desse tipo de tragédia que merece atenção.
É uma dimensão marcada, ao mesmo tempo, por silêncio, presença e exaltação da vida. O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, disse na tarde deste domingo que o momento não era de buscar culpados, mas sim de prestar apoio e solidariedade às milhares de pessoas mergulhadas em uma profunda dor. Não é uma frase fácil de ser dita por uma autoridade uma vez que a busca por culpados já estava em curso na chamada opinião pública. E tampouco é uma frase óbvia. Ela guarda um sentido mais profundo que aponta para algo que, se não representa uma cura imediata para a dor, talvez expresse o melhor que se pode oferecer para alguém massacrado pela perda, pela ausência, pela brutalidade de um acontecimento trágico: presença, cuidado, atenção, uma palavra.
Quem já perdeu alguém em um acontecimento trágico e brutal sabe bem que o caminho da consolação é longo, tortuoso e, não raro, desesperador. E é justamente aí que emerge uma das melhores qualidades e possibilidades humanas: a solidariedade, o apoio imediato e desinteressado e, principalmente, a celebração do valor da vida e do amor sobre todas as demais coisas. A vida é mais valiosa que a propriedade, o lucro, os negócios e todas nossas ambições e mesquinharias. Na prática, não é essa escala de valores que predomina no nosso cotidiano. Vivemos em um mundo onde o direito à vida é, constantemente, sobrepujado por outros direitos. Tragédias como a de Santa Maria nos arrancam desse mundo e nos jogam em uma dimensão onde as melhores possibilidades humanas parecem se manifestar: o Estado e a sociedade, as pessoas, isolada e coletivamente, se congregam numa comunhão terrena para tentar consolar os que estão sofrendo. Não é nenhuma religião, apenas a ideia de humanidade se manifestando.
Uma tragédia como a de Santa Maria não é nenhuma fatalidade: é obra do homem, resultado de escolhas infelizes, decisões criminosas. Nossa espécie, somo se sabe, parece ter algumas dificuldades de aprendizado. Nietzsche escreveu que muito sangue foi derramado até que as primeiras promessas e compromissos fossem cumpridos. É impossível dizer por quantas tragédias dessas ainda teremos que passar. Elas se repetem, com variações mais ou menos macabras, praticamente todos os dias em alguma parte do mundo e contra o próprio planeta.
Talvez nunca aprendamos com elas e sigamos convivendo com uma sucessão patética de eventos desta natureza, aguardando a nossa vez de sermos atingidos. Mas talvez tenhamos uma chance de aprendizado. Uma pequena, mas luminosa, chance. E ela aparece, paradoxalmente, em meio a uma sucessão de más escolhas, sob a forma de uma imensa onda de compaixão e solidariedade que mostra que podemos ser bem melhores do que somos, que temos valores e sentimentos que podem construir um mundo onde a vida seja definida não pela busca de lucro, de ambições mesquinhas e bens materiais tolos, mas sim pela caminhada na estrada do bom, do verdadeiro e do belo. A morte nos deixa sem palavras. Mas ela nos diz, insistentemente: é preciso, sempre, cuidar dos vivos e da vida.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O mensalão e a política- reflexões desde a esquerda

Elaine Tavares
 
A lembrança é vívida. Quando aconteceu a Reforma da Previdência, em 2003, nos primeiros meses do governo Lula, eu dirigia o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc). E, naqueles dias, fomos implacáveis na crítica. Era a primeira grande ação do chamado “governo popular”, e era um golpe mortal na aposentadoria dos trabalhadores públicos, além de introduzir o malfadado fundo de pensão, uma espécie de “roleta russa” com a velhice das gentes . Em Florianópolis, o Sintufsc foi linha de frente na discussão e na luta contra a tal reforma. Fazíamos debates, reuniões, atos públicos, passeatas, tudo em parceria com outros sindicatos de trabalhadores públicos, alguns ainda tímidos, sem querer bater no governo que iniciava sua trajetória.

Como parte da estratégia de luta, fazíamos o cerco aos deputados federais do PT que eram da bancada catarinense. Foi um momento triste e tenso, porque eram nossos companheiros de muitas lutas, alguns, amigos. Daqueles atos assomaram muitas dores. Amizades perdidas, mágoas, tristezas, desilusões. Mas, o que estava em questão não eram as dores pessoais e sim o destino de quase 200 mil trabalhadores. Assim, não havia como não criticar a reforma e lutar contra ela. Os velhos companheiros, naquele então deputados federais, se recusavam ao debate e nos apontavam o dedo com o argumento de que estávamos tentando desestabilizar o governo, que fazíamos o “jogo da direita” ao criticar Lula. Não foi fácil enfrentar e seguir denunciando aqueles que até pouco tempo eram nossos aliados nas lutas.

Pois no processo de votação da reforma já tinha surgido a acusação de que o governo estava “comprando” votos para formar a maioria e passar a reforma. E tudo isso era denunciado, a despeito das caras amarradas dos que confiavam no governo como um governo de trabalhadores. Para nós, que estávamos à frente do sindicato, nosso papel era claro: defender os trabalhadores, ainda que para isso tivéssemos que enfrentar velhos amigos e mostrar que o “rei estava nu”. Era a prática real daquilo que sempre tivemos como princípio: independência de qualquer governo.

Nunca tive problema em ser “governista”, afinal, se um governo que ajudamos a eleger está no caminho certo, há que se apoiar e defender. Mas, no caso em questão não era o que acontecia. A Reforma da Previdência proposta por Lula era ruim e só traria prejuízos aos trabalhadores. Não havia qualquer avanço naquela proposta, pelo contrário: era uma exigência do ideário neoliberal. Ou seja, a reforma colocava a aposentadoria dos trabalhadores lá em baixo e ainda obrigava àqueles que ganhavam um salário melhor a entrarem no fundo de pensão. Ou isso, o rebaixamento dos salários em 40, 50 e até 70%. Assim, os trabalhadores públicos que futuramente se aposentassem deveriam colocar sua vida nas mãos da especulação financeira.

Aqueles dias de luta foram duros e intensos. Como a Central Única dos Trabalhadores apoiava a reforma, os sindicatos de trabalhadores públicos ficaram sozinhos. Foi assim que nasceu a Coordenação Nacional de Lutas, a Conlutas. Havia que se constituir uma organização nacional que articulasse a luta das mais diversas categorias. Começava, por parte do governo, um longo processo de cooptação de lideranças, desmantelamento dos movimentos, dos sindicatos e da mais importante central de trabalhadores, a CUT. Os trabalhadores públicos ficaram isolados, acusados de atrapalhar o processo de mudança que o governo de Lula queria impulsionar.

O tempo passou, a reforma foi aprovada, o fundo de pensão foi criado e tudo aquilo que os sindicatos de trabalhadores públicos haviam anunciado se fez. A história nos faz justiça. Ninguém queria desestabilizar governo, muito menos atuar na linha da crítica praticada pela velha direita. O que queríamos era mostrar que aquela reforma, assim como as outras que vieram depois, não era boa para os trabalhadores e, por isso, tínhamos de apontar seus defeitos e criticar suas proposições. Havia, como ainda hoje há, muitos sindicalistas que se sentiam constrangidos em fazer a crítica, em se colocar contra, pois não queriam ser colocados no mesmo balaio que velhos inimigos. Mas, outros sabiam que não havia jeito: ou se defendia os trabalhadores ou prestariam contas à história.

O mensalão

É essa história que se descortina sob nossos olhos nos dias em que o Supremo Tribunal Federal começou o julgamento dos envolvidos no chamado mensalão, que surge da reforma da previdência. O dinheiro das sobras de campanha do PT que foram parar nas contas de aliados e outros nem tanto, servira para “sensibilizar” os deputados na votação da dita (ou mal-dita) reforma da previdência. Isso já fora denunciado e era sabido que essa era uma prática corrente no Congresso Nacional durante os governos anteriores. O que não se esperava era que o PT também a colocasse na ordem do dia, afinal, essa prática é o que conhecemos como corrupção. E aí, nesse universo, todos são corruptos. Os que distribuíram o dinheiro e os que o aceitaram, afinal, um deputado é eleito – como representante do povo – para atuar em consequência com os interesses da população. Não deveriam ter de receber um “incentivo” a mais para fazer sua obrigação já tão suntuosamente remunerada. Mas, é assim que é.

A história do mensalão é toda recheada de absurdos, como se fora um desses alucinantes folhetins da tarde nos canais de TV. O detonador da denúncia foi nada mais, nada menos do que um dos corruptos: o deputado Roberto Jeferson que, não satisfeito com seu quinhão, decidiu melar a vida de todo mundo. Para a elite brasileira – que nunca realmente engoliu Lula, apesar de o mesmo ter atuado, no mais das vezes, em consonância com seus desejos - aquilo foi a cereja do bolo. Era o seu momento de colocar no chão aquele que se alçava como o mais popular dos presidentes brasileiros contemporâneos. Ainda que sem mexer com absolutamente nada da estrutura de poder da classe dominante, Lula sempre foi uma pedra no sapato, por atuar, inclusive, na lógica do assistencialismo visando permanecer - ou o seu grupo – no comando da política brasileira. Aquilo aparecia como inaceitável aos poderosos. O escândalo do mensalão foi o orgasmo tardio da elite brasileira. Agora, o PT já não poderia mais se colocar como a vestal da moral e da ética. Estava conspurcado, colocava-se no mesmo saco da farinha política nacional.

Por conta disso, a cruzada moral conduzida pelo STF no caso mensalão não poderia ter sido diferente. Haveria que se condenar um a um dos envolvidos, com absoluto destaque aos petistas. Qualquer pessoa que viva na política sabia que assim seria. Todos haveriam de ser condenados por formação de quadrilha, por terem movimentado milhões de reais na compra de consciências. Não estaria em questão o fato de que isso sempre fora assim, que outros governos também tivessem usado do mesmo expediente, ano após ano no Brasil. Também não estariam em foco outros escândalos de corrupção graúda, como por exemplo as privatizações de FHC, que expropriaram a nação brasileira em milhares de milhões. Ou ainda a agiotagem oficial praticada cotidianamente pelo sistema financeiro junto aos cidadãos e cidadãs comuns, os mesmos que se esganiçam gritando: “crucifiquem, crucifiquem” aos réus petistas.  O grupo de poder que sempre dominou o país tinha nas mãos a chance de derrotar, não o PT, ou os inimigos pessoais, ou o próprio presidente Lula. Com isso, essa gente poderia derrotar uma linda ideia que foi cultivada durante anos e anos no processo conhecido como abertura democrática: a ética da esquerda nacional. Era uma oportunidade de ouro e não seria desperdiçada.

Nesse importante processo de descrédito da “esquerda” (onde colocavam o PT) também não haveria de faltar a ação sempre oportunista da chamada “grande mídia”, outra fatia da sociedade brasileira que nunca conseguiu suportar a ideia de conviver com, ou festejar, figuras que até bem pouco tempo abominavam . Assim, a cruzada moral do STF encontrou a aliada perfeita e o mensalão foi se tornando notícia frequente, tanto mais frequente quando mais se aproximavam as eleições de 2012. Com a derrocada do “santo do pau oco” que era o PT e sua turma, os conservadores poderiam assomar novamente como os guardiões da moral e da ética.

Mas, apesar de toda exposição e o espetáculo diário das sessões do STF demonizando principalmente as lideranças petistas, os resultados eleitorais foram pífios aos conservadores. O governo de Dilma Roussef segue popular e com elevadíssima aprovação nacional. Lula recebe prêmios pelo mundo afora e mesmo os condenados como José Dirceu, Genuíno e outros seguem com suas vidas, apoiados pelos correligionários e militantes petistas.

O rescaldo da pataquada

De tudo o que houve, desde 2003 até agora, o que significa dizer desde a reforma da previdência e todo o processo de conformação de uma maioria disposta a sustentar os projetos governistas no Congresso Nacional, o que fica, então, de resultado? É inegável que a exposição de figuras importante do Partido dos Trabalhadores como corruptos de grande monta consolida a proposta central da elite brasileira que era a de desmoralizar a esquerda. E que fique claro que o PT desde há muito tempo não representa mais uma força verdadeiramente de esquerda. Principalmente quando se fez governo e atuou em consonância com o ideário neoliberal. Mas, para a maioria da população, principalmente aquela que é informada basicamente pela televisão, o PT é sim sinônimo de esquerda. É como esquerda que gente como Miriam Leitão, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, entre outros, tratam o PT. Então, a mácula está consolidada. A esquerda também é corrupta. Nada se salva. Essa é a mensagem do espetáculo do mensalão.

De nada adiante a defesa dos militantes petistas a clamar pelas corrupções passadas de FHC, de Collor, de Sarney que, em volume de dinheiro, são muito mais escabrosas que a do mensalão. Ao que parece, corrupção é sinônimo dessa gente. Mas, não o era no caso do PT que sempre denunciou as maracutaias desses velhos adversários. E aí, ao assumir o governo esse partido teria de valer da máxima do comandante Che Guevara: “no governo, na escola, em casa, com a namorada, em tudo, temos de ser perfeitos”. Não foi o que aconteceu. Independentemente de muitos dos envolvidos terem um lindo passado de luta, o fato é que participaram do esquema, ou fizeram vistas grossas, o que dá na mesma. Isso é inegável. Por isso foram julgados e condenados. Assim como seriam condenados FHC, Sarney e Collor caso a oposição, na época, tivesse tido chance de levá-los a julgamento. Os fatos são os fatos e, se postos num tribunal, não têm como ser contestados. O que passa é que a oposição nunca teve poder e a corrupção dessa gente passou e passará incólume.

Igual destino não foi possível ao PT, os adversários tinham e têm o poder. Fato importante da conjuntura que deveria ser melhor analisado pelas forças petistas. Ainda que o partido governe o país desde 2003, o poder ainda está firme nas mãos da mesma velha oligarquia/burguesia industrial que sempre comandou os destinos da nação.

As lições do mensalão estão aí, às claras, para serem digeridas. O PT embarcou na canoa furada da busca de uma “governabilidade à força” e por cima. Não buscou se valer da governabilidade real, que se conquista com as forças sociais organizadas, com os trabalhadores. E tinha tudo para isso. Quando Lula chega ao poder tem uma força popular gigantesca ao seu lado. Mas, em vez de forçar a mão para a esquerda, buscando amparo nas gentes, o governo foi se rendendo às reformas neoliberais e políticas assistenciais. Em vez de focar nas demandas populares, preferiu uma aliança com a classe dominante. Perdeu. E os lobos, tão logo tiveram chance, abocanharam o cordeiro. Outra lição para ser digerida. Pode até ser que a figura de Lula não tenha sido abalada no processo, mas, no frigir dos ovos, o resultado do mensalão acabou sendo bem ruim para uma força que nada tem a ver com ele: a esquerda brasileira. Não bastasse vir sendo fragmentada e diminuída com a política de cooptação implementada pelo petismo, ainda acabou sendo colocada no mesmo patamar que os velhos e históricos corruptos nacionais. “É o fim dos partidos”, “são todos iguais”, “vamos votar em pessoas não em projetos”... Esses são os novos mantras da despolitização que já se fortaleceram nas últimas eleições.

Mas, se num primeiro momento isso pode parecer um grande estrago, também pode vir a ser uma mola de subida. Se efetivamente a esquerda brasileira quiser, pode tirar boas lições desses processos e avançar. Para isso, haveria que se dar um bom espaço ao estudo sistemático desse período, para a autocrítica e para construção de novas liras e novas canções. Há um longo caminho a percorrer para constituir outro tecido político que venha disputar a vida nacional, uma coisa nova, bonita, capaz de tornar real a “moral guevariana” de “ser perfeito”, verdadeiramente ético e voltado aos interesses reais da nação brasileira. Tarefa árdua e difícil, mas não impossível. E, nesse processo, os petistas históricos, os que participaram do início daquele projeto, quando ainda havia proposta de socialismo, de caminho pela esquerda, também deveriam ser capazes de olhar para toda essa história com seriedade, autocrítica, realidade e optar por novos rumos. Afinal, na política concreta, na vida real, a história avança e exige mudanças.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

“Contos da Seve” terá lançamento em fevereiro

 
Míriam Santini de Abreu

Foi com grande alegria que recebi, do amigo e jornalista taioense Eduardo Schmitz, a notícia de que já está impresso o livro “Contos da Seve”, organizado pelo Eduardo a partir das histórias narradas por Severiana Rossi Correa.
O livro, prefaciado pelo também jornalista Moacir Loth, tem 120 páginas. São 57 histórias que levam o leitor para paragens desta Santa Catarina onde pessoas, objetos, casas, morros, são feitos de uma substância mágica, às vezes terna, às vezes cruel e espantosa, às vezes...
Seve foi capa da revista Pobres & Nojentas ( veja em http://desacato.info/pn/revista%2010.pdf ). A beleza da história dela e das que ela conta disparou a vontade de colocar as narrativas todas em papel. E foi o que o Eduardo fez, com uma primorosa capa desenhada por ele. Difícil mesmo foi buscar parceiros para imprimir o livro. Depois de tentar vários caminhos, ao longo de dois anos, Eduardo conseguiu imprimir 200 exemplares.
O livro será lançado em fevereiro em Florianópolis pela equipe da P&N. E abaixo, estão fotos da Seve, dela com o Eduardo e também do livro. Nós, da P&N, sabemos o quão difícil é manter a edição de uma revista que buscar seguir a trilha do jornalismo crítico. E esse é mais um motivo para festejar a vinda dos “Contos da Seve”, trazido à luz depois de uma longa peregrinação para buscar apoio numa realidade em que muito se discursa sobre a valorização da literatura catarinense, mas pouco se faz, de concreto, para colocar esse discurso em prática. Fotos: Eduardo Schmitz







Viver é caminhar na beleza!

Elaine Tavares

Ali estava eu, enfrentando meus medos. Sozinha, sentada bem no meio do avião. Havia pedido um lugar no corredor, por conta do temor. Uma coisa meio estúpida já que dento do avião, não faz diferença. Ainda assim, me sinto mais segura. Mas, ao entrar, uma mulher, mais nervosa do que eu, insistiu para trocar o lugar. Ela estava na janela, e suava. Cedendo à opressão da bondade deixei a mulher ocupar meu lugar e lá fui para o assento da janela. Foi a minha vez de começar a suar. O voo era de La Paz à Santa Cruz de la Sierra, e seria a primeira vez que eu cruzaria a cordilheira dos Andes num avião. Daí o medo. Sempre vêm à mente aquelas cenas de acidentes nas montanhas e coisas assim.

Sem saída, enterrei a cara num livro do Enrique Dussel que havia comprado em Sucre. As 20 teses sobre política. Julguei que me distrairia com o debate, sempre original, do filósofo argentino/mexicano e o tempo de voo passaria num átimo. E ali fiquei, entretida na ideia de que o poder, se for obedencial, não é ruim nem corruptor. Genial esse homem! Minha cabeça fervilhava em orgasmo intelectual. 

Foi então que senti, do lado de fora do avião, uma presença. Pelo canto do olho percebi que havia algo ali, naquelas alturas. Meu corpo se retesou, os cabelos arrepiaram, todos. Uma espécie de gelo me tomou inteira. Como poderia haver algo lá fora, naquela altura? Então, lentamente, despreguei os olhos do livro de Dussel e enfrentei o pavor. Virei a cabeça e me deparei com a visão mais incrível que já pude presenciar.

Bem ao lado, quase sendo possível tocá-la, se descortinava a espinha dorsal de Abya Yala: os Andes. Nunca pensei que pudesse ser tão belo. Eu, que já havia caminhado por suas entranhas, nas longas viagens de ônibus, não tinha noção do que seriam, vistos assim, do alto. O avião passava tão perto, meio em paralelo. Da janela, podiam-se ver as neves eternas e quase sentir sua textura. Aguçando a vista, dava para ver as trilhas feitas pelos animais andinos - ou pelos homens - nos pontos mais baixos. Foi um momento sagrado. Sem que eu pudesse conter, as lágrimas me foram caindo, numa volúpia de emoção. Eu, guria nascida na planura missioneira do Rio Grande do Sul, lugar de onde só se pode vislumbrar o infinito, agora provava daquela visão andina, concreta, numa hora mágica.

Observei que o lugar onde eu estava sentada era o centro do avião e percebi que aquela posição conformava também o centro da “chacana”, a sagrada cruz andina dos povos originários. E que, agora, dentro de mim, também se desenhava essa figura mítica das gentes do meu continente. Nascida na planura, criada no cerrado mineiro, vivendo em frente ao mar, agora provava da beleza dos Andes. O grande círculo dos quatro cantos estava fechado. Ninguém mais pode ser o mesmo depois desta experiência. Ali se conformava minha alma abyayálica. Ali se definia, agora com mais vigor, essa decisão de assumir uma identidade autóctone, charrua que sou.

Os Andes, o mar do Brasil, as planuras das “misiones”, o cerrado, tudo isso é a expressão da Pachamama, a grande mãe. A visão majestosa das montanhas andinas tornou mais forte a certeza de que nesta terra grande, nesta “nuestra” América, nesta Abya Yala, podemos ser algo mais do que imitadores baratos de uma cultura imposta. Por todo o continente se levantam as gentes originárias recuperando seus deuses, seus credos, suas formas organizativas. Ensinam eles que, antes da conquista, aqui viviam homens e mulheres que tinham outros modos de se relacionar com a terra, com a água, com as matas, com as pessoas e os animais. Um outro jeito, nunca respeitado. E que foi solapado, subsumido na dominação.

Mas, agora, aí estão, vivos, se expressando, crescendo. Porque nunca morreram. Porque estavam latentes, ou disfarçados, esperando a hora histórica, que chegou. E, assim como os Andes, gigantes, magníficos, belos, os povos originários irrompem na vida social dos países de toda Abya Yala dizendo, bem alto, a sua palavra, exigindo respeito às suas culturas, línguas e modos de vida. Quéchuas, aymaras, guaranis, mapuches, mocovís, charruas, kollas, kunas, caraíbas, pataxós, navajos, tantos...

O grande sol, Inti, se derramando sobre os Andes, bateu na brancura das neves eternas, Pachamama espreguiçou. O condor bateu, forte, as asas, as llamas correram, brincalhonas, os cuys saltitaram alegres. No céu, a pura paz. Nos caminhos, lá embaixo, os aymaras da Bolívia - mais antigos que os incas - seguiam suas vidas, mais fortes que nunca. E eu, hipnotizada, agora entendia o segredo já sussurrado pelos povo navajo: “Beleza em cima, beleza em baixo, beleza pelos lados. A vida é um caminhar na beleza”. E assim será, melhor, quando vencermos e superarmos o capitalismo predador. Esse dia vai chegar, pela força das gentes!