segunda-feira, 22 de junho de 2009

A tecnociência é política

Míriam Santini de Abreu

Leio que o presidente Lula defendeu hoje que a discussão sobre a preservação ambiental não seja tratada de forma “ideológica”. Isso foi durante discurso no lançamento do Plano Agrícola e Pecuário 2009/10. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, por sua vez, avaliou que sua pasta adota uma postura “técnica” sobre a discussão ambiental, e disse ele que o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, ainda tem um viés “ideológico”. "Eu acho que temos divergências. Seria importante que a gente harmonizasse essas divergências, mas acho que ele (Minc) continua um pouco no viés ideológico e eu procuro discutir a questão no viés técnico e científico", disse Stephanes.
Ora pois... A tecnociência, ao contrário do faz-de-conta da afirmação de Stephanes, não é neutra, porque é política. O pensamento do geógrafo Milton Santos é perfeito para explicar isso, e pode ser conferido em
http://blog.controversia.com.br/2008/08/02/entrevista-milton-santos/

Em certo trecho diz Milton:

A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Para entender esse processo, como qualquer momento da história, há dois elementos fundamentais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política.
Há uma tendência em separar uma coisa da outra. Daí muitas interpretações da história a partir das técnicas. E, por outro lado, interpretações da história a partir da política. Na realidade, nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. As técnicas são oferecidas como um sistema, utilizado através do trabalho e das formas de escolha dos momentos e dos lugares de uso das técnicas, das combinações entre elas. É isso que fez a história.
Chegamos ao fim do século XX e o homem, por intermédio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação. Elas passam a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo sistema técnico.
Só que a globalização não é apenas a existência desse novo sistema de técnicas. Ela é também o resultado dos processos políticos que conhecemos. Com freqüência ouvimos a pergunta: “mas não tem alguma coisa de bom na globalização?” ou “será que é tudo ruim?”. A discussão não é essa. A discussão é: há um conjunto, um sistema de técnicas baseado na ciência, e há uma forma de utilizar esse sistema presidida por essa mula-sem-cabeça chamada mercado global. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas, repito, presididas pelas técnicas da informação, resulta nessa globalização perversa. Isso poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. E quando digo uso político, digo uso econômico e cultural, porque neste fim de século tudo se tornou político; a economia é feita a partir da política, a cultura é base para a política e resulta da política. Esse é o debate central, o único que nos permite ter a esperança de utilizar o sistema técnico contemporâneo a partir de outro paradigma.

Pena não ter sido, o ministro Stephanes, interrogado pelos jornalistas sobre as implicações de sua afirmação. Fazem-se de tolos, os ministros...

No site que indico acima, há outro trecho da entrevista de Milton Santos que também coloca em evidência alguns aspectos do discurso do ministro do STF Gilmar Mendes ao considerar desnecessário o diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista:

Pergunta a Milton: O senhor tem falado em globalitarismo. Poderia nos explicar esse conceito?
Resposta: Eu chamo a globalização de globalitarismo, porque estamos vivendo uma nova fase de totalitarismo. O sistema político utiliza os sistemas técnicos contemporâneos para produzir a atual globalização, conduzindo-nos para formas de relações econômicas implacáveis, que não aceitam discussão, que exigem obediência imediata, sem a qual os atores são expulsos da cena ou permanecem dependentes, como se fossem escravos de novo. Escravos de uma lógica sem a qual o sistema econômico não funciona. Que outra vez, por isso mesmo, acaba sendo um sistema político.
Esse globalitarismo também se manifesta nas próprias idéias que estão atrás de tudo. E, o que é mais grave, atrás da própria produção e difusão das idéias, do ensino e da pesquisa. Todos obedecem, de alguma maneira, aos parâmetros estabelecidos. Se estes não são respeitados, os transgressores são marginalizados, considerados residuais, desnecessários ou não-relevantes. É o chamado pensamento único. Algumas vozes críticas podem se manifestar, uma ou duas pessoas têm permissão para falar o que quiserem, para legitimar o discurso da democracia. Só que a estrutura do processo de produção das idéias se opõe e hostiliza essa produção de idéias autônoma e, por conseguinte, de alternativas.
É uma forma de totalitarismo muito forte, insidiosa, porque se baseia em idéias que aparecem como centrais à própria idéia da democracia – liberdade de opinião, de imprensa, tolerância – utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mundo, do que são os países, os lugares. Eu chamo isso de tirania da informação, que, associada à tirania do dinheiro, resulta no globalitarismo.

Pergunta a Milton: Essa tirania da informação se opõe, portanto, à produção de um conhecimento que poderia gerar uma alternativa distinta do mercado à organização desse meio técnico-político?
Resposta: Creio que sim. Na medida em que o mundo se globaliza, eu apenas posso entendê-lo como um todo. E cada coisa a partir do mundo. Se me retiram a possibilidade de compreender o mundo como ele é, se me bombardeiam todos os dias com informações que não são corretas, estão me tirando a possibilidade de entender não só o mundo como a mim mesmo.
Isso é terrível, porque mata a possibilidade de desenvolvimento de alternativas. Esse mundo globalizado produz uma racionalidade determinante, mas que vai, pouco a pouco, deixando de ser dominante. É uma racionalidade que comanda os grandes negócios, que são cada vez menos numerosos mas cada vez mais abrangentes. Esses grandes negócios são de interesse direto de um número cada vez menor de pessoas, embora a maior parte da humanidade seja concernida por eles. Mas não pode se interessar por eles já que, embora sofra suas conseqüências, não tem condições de interferir.
Mas pouco a pouco essa realidade é desvendada pelas pessoas e pelos países mais pobres. Essa é uma contradição maior. Nós abandonamos as teorias de desenvolvimento, o terceiro-mundismo, que era a nossa bandeira dos anos 50 e 60. A noção política de Terceiro Mundo foi produzida em grande medida graças à existência da União Soviética; se ela não existisse, não haveria essa idéia política.
Todavia, graças à globalização está surgindo uma coisa muito mais forte: hoje é a história da maioria da humanidade que conduz à consciência da existência dessa tercermundização (que de alguma forma inclui também uma parte da população dos países ricos). Há uma formidável contradição em busca dos seus intérpretes, em busca de um discurso mais planetário e também nacional e local. Esse discurso é dificultado por esse pensamento único, mas ele pode se fazer.
Há algo de extraordinário nesse momento da história, que é essa produção limitada da racionalidade capitalista extrema e uma produção ilimitada do que seria a “irracionalidade”. A racionalidade é resultado de um controle férreo, mas esse controle joga fora do trabalho que admite controle um grande número de pessoas. Se o trabalho é o lugar da descoberta da situação de cada um, o trabalho no fim do século revela uma possibilidade de fugir ao controle.
A exclusão e as formas de trabalho relativas à exclusão, que chamo de “circuito inferior” – num livro que nunca conseguiu ter voga no Brasil, mas que é muito usado na África e na Ásia, O espaço dividido –, é exatamente uma discussão dessa contradição dentro do sistema capitalista, entre uma visão do trabalho por cima e uma visão do trabalho por baixo. Essa obra tem vinte anos, mas já indicava essa tendência.
O trabalho que é feito pelos pobres, pelos “marginalizados”, é portador da liberdade. Diferente do nosso trabalho, que é portador de uma necessidade de enquadramento de cima para baixo, do qual vem nosso sucesso. Esta produção limitada de racionalidade é a mesma produção de menor número de empregos e de atividades ligadas a essa racionalidade. Enquanto que eles chamam de “irracionalidade” outras formas de racionalidade, que criam outras formas de trabalho, essas sim portadoras do novo.

domingo, 21 de junho de 2009

Fenajufe - Construindo a 1ª Conferência Nacional de Comunicação

Veja em http://br.video.yahoo.com/watch/5334915/14063631 o vídeo "Conferência Nacional de Comunicação, uma questão de classe", que esclarece o que está em jogo na I Confecom.

A mulher no chafariz

Elaine Tavares
Nem eram oito horas da manhã. Fazia frio na capital. Na Praça da Alfândega uma mulher magrinha, com o rosto vincado pelo sol de tanta rua, lavava roupa no chafariz. As poucas pessoas que passavam pelo local olhavam escandalizadas. Uma mulher de meia idade indignou-se: “mas que barbaridade”. E se foi atrás de um guarda municipal. Não resisti. “Mas o que ela está fazendo de mal? Não vê que é uma andarilha?” E a mulher, tão desprovida de generosidade, me olhando como se visse um ET: “aqui não é lugar de lavar roupa”. E seguiu na busca do guarda.
Mais na frente, no portal do mercado estava o guardião da ordem. A mulher falou, gesticulou e apontou a andarilha que seguia com seu ritual, absorta no prosaico ato de lavar umas poucas roupinhas que carrega numa pequena valise. Eu decidi estacar, esperando o desenrolar da cena. O guardo veio vindo, mansinho, carregado de autoridade. De novo me meti. “Não está fazendo mal a ninguém, nem peixinho tem ali”. E ele, firme: “Mas não pode”. Então pedi que olhasse bem pra ela. “Tu não acha que uma mulher dessas, com essa idade, não deveria estar sendo cuidada por alguém em vez de estar aí, sem eira nem beira? Ela poderia ser mãe da gente”. Uma garota de pouco mais de vinte anos passou e vomitou um: “que absurdo”. O guarda empertigou e olhou pra mim. “Que mundo é esse, né?”. E saiu de fininho, deixando em paz a mulher.
Saímos os dois, lado a lado, no silêncio. Um peso no coração. Como é possível que a gente como povo permita que ainda existam velhos abandonados pelas ruas, perdidos de sua alegria, na batalha diária por um resto de comida? Como é possível que com tanta riqueza no mundo, não haja um teto para que uma mulher que já viveu tanto possa descansar a cabeça? Um guri vestido de punk que acompanhou a cena toda sorriu pra mim e disparou: “Só a revolução!” E eu assenti. Pois é. Enquanto houver um sistema como esse, em que para que para que um viva, outro tenha de morrer, só a revolução.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sem lenço e sem diploma

Por Elaine Tavares - jornalista

Paulo Freire, o grande educador brasileiro que é praticamente desconhecido no Brasil, sempre foi enfático com relação à alfabetização. “Não basta saber ler, é preciso saber ler o mundo”. Queria dizer com isso que aprender era coisa que ia muito além da compreensão sobre como se juntavam as letras. Era necessário estar capacitado também para uma leitura crítica do mundo. E como é que se consegue isso? Não basta unicamente estudar, ler, ter acesso a múltiplas fontes de informação, múltiplos pontos de vista. É preciso fundamentalmente saber de onde se é. E o que isso quer dizer? Que a pessoa precisa ter bem claro o lugar que ocupa no mundo, o que, no mundo capitalista, nos leva a uma compreensão da nossa posição de classe.

A votação sobre a não exigência do diploma para a profissão de jornalista, que aconteceu no STF brasileiro, diz bem desta questão. Ali estavam os senhores togados, representantes da classe dominante. São homens nomeados pelos presidentes de plantão para defender os interesses dos que mandam. Nada mais que isso. Vez ou outra acontece uma decisão com base na lei, mas sempre é coisa pequena, que não mexe nas estruturas, porque como bem diz o professor Nildo Ouriques, da UFSC, a democracia liberal é um regime sem lei. Neste modo de governo, as leis são mudadas ao bel prazer da minoria que tem o comando.

Vejamos os argumentos do ministro Gilmar Mendes para que a profissão prescinda de uma formação universitária: “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até a saúde e à vida dos consumidores. Logo, um jornalista não precisa de formação para fazer bom jornalismo.” Alguém entendeu?

Pois claro. Vamos supor que o que tivesse em questão fosse a necessidade de uma faculdade de Direito para que o juiz pudesse julgar a vida de outras pessoas. Poderíamos, qualquer um, argumentar o seguinte: “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores. Logo um juiz não precisa de formação para ser um bom juiz. Basta que ele tenha um bom senso de justiça e estude muito. ” Simples não?

Num país onde a maioria da população, desprovida do acesso à cultura e a educação, que se informa pela Globo, este simplório argumento representa uma vergonha. E nos causa profundo pesar ouvir isso de alguém que está acima de praticamente todos os habitantes da nação, o presidente do STF. É um argumento anti-intelectual, anti-cultural, anti-vida.

Minha mãe era uma grande cozinheira, mas sua comida divina nos era servida em casa, para a família. Não estava ela inserida no sistema de super-exploração capitalista, atuando numa empresa transnacional, na qual imperam os conceitos de competição, baixos salários e disputas intestinas. Não estava ela submetida a patrões, organogramas e metas de produtividade. Não estava também integrada num regime de divisão do trabalho aos moldes de garantir maiores lucros aos patrões. Logo, a decisão tomada nesta quarta-feira pelo STF foi uma decisão de classe. A defesa intransigente dos donos de jornais e empresários da comunicação que querem apenas gente minimamente capacitada para ler, não para ler o mundo. Porque o ser crítico, desejado por Paulo Freire, é um indivíduo perigoso demais. Ele reclama, ele reivindica, ele luta e ele ensina. A elite brasileira não quer isso para o seu povo. Há que mantê-lo sempre atado ao cabresto da ignorância, ao entretenimento, a mais-valia ideológica promovida pelos meios de comunicação de massa. Dá-lhe Big Brother, a Fazenda e outros quetais.

Voltando aos tempos do início do capitalismo

Quando a Idade Média terminou, foi-se chegando um jeito de organizar a vida que mais tarde viria a ser chamado de capitalismo. É o supra-sumo da liberdade, dizem os seus defensores. Nele, o trabalhador tem escolhas. Como era naqueles dias em que as fábricas passaram a dominar a vida. O povo empobrecido dos burgos tinha como escolher: ou se submetia a trabalhar vinte horas em condições insalubres e de quase escravidão, ou estava morto. Grande escolha.

Agora, no mundo capitalista da mídia selvagem e cortesã estamos no mesmo patamar. Os profissionais não precisam de formação específica, só vocação. Depois, uma vez dentro da empresa terão escolhas. Ou se submetem a salários mais baixos, condições precárias, opressão, assédio moral e tudo o que vem de lambuja no processo de super-exploração, ou não entram nesta profissão tão simples quanto fritar um bife.

Bueno, e não é por acaso que o futuro esteja praticamente na mão da empresas de mídia, visto que hoje em dia a produção de informação é o xodó do planeta. Logo, aquilo que é a coisa mais importante para um povo, o conhecimento das coisas da vida, ficará entregue a sanha do capital. Aos trabalhadores restará a opção democrática: aceitar ou cair fora. Não precisa ser vidente para prever o futuro: profissionais capacitados serão substituídos por quem aceitar submeter-se a salários menores. Será o “lindo” mundo habermasiano do consenso. A livre negociação entre empresários e trabalhadores. O tubarão dialogando com a sardinha.

Alternativas

Quem acompanha a vida cotidiana dos jornalistas nos locais de trabalho sabe que as coisas vão piorar muito. Até agora ainda havia um mínimo de regulação, uma pequena fatia de direitos com a qual o sindicato podia mover-se. Era possível fazer a luta através da Justiça ou da delegacia do trabalho. Havia um amparo mínimo. Agora não há mais. Os trabalhadores estão entregues a sua sorte, porque até que se crie uma nova lei com algum tipo de regulamentação a vida seguirá seu curso inexorável.

Mas, como dizem os cubanos – acostumados a bloqueios e vicissitudes – às vezes o horror pode servir para o passo adiante. Nos últimos tempos estávamos entregues a um trabalho sindical burocratizado, limitado às ações na Justiça. Havia uma apatia dos trabalhadores frente às lutas, uma espécie de “deixa que o sindicato resolva”. E os sindicatos, esvaziados de vida, iam arrastando-se, ganhando uma coisinha aqui e outra ali, amansando o monstro.

Agora estamos no chão. Os empresários ganharam esta batalha. Desregulamentados totalmente, estamos entregues aos desejos dos patrões. Sem medidas compensatórias via Justiça só cabe uma ação: a luta mesma, renhida e dura. Voltarmos aos tempos em que os trabalhadores se reuniam nos sindicatos para conspirar e organizar batalhas contra o capital. Então, é chegada a hora. De volta às ruas, de volta à organização, de volta a vida! Foi só uma batalha...Outras virão.

Por isso, agora, estamos num momento de viragem. Ou inventamos ou morremos, como dizia Simón Rodrigues. Para novas liras, novas canções. Nada de soluções atrasadas como a do Conselho Federal de Jornalismo que só engessa e institucionaliza a luta. Nada temos a perder, apenas nossos corpos nus, como dizia Marcos Faermann. Só os trabalhadores unidos e organizados podem mudar o seu destino. Por isso, vamos à luta. Refazer os mapas, reorientar rumos, mas organizados no sindicato.

Os patrões talvez não tenham se dado conta, mas ao nos tirarem tudo podem estar criando “cuervos”. Nada mais perigoso que um homem sem esperança!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Luta pelo direito de morar





Nesta praia, em plena ditadura militar nos anos 1970, ocorreu um dos mais emblemáticos episódios de resistência das chamadas comunidades tradicionais. Saiba mais na revista Pobres & Nojentas 18, que circula daqui a duas semanas.

STF derruba exigência de diploma para jornalista

O Supremo Tribunal Federal derrubou nesta quarta-feira, 17, o diploma obrigatório para o exercício de jornalismo. Foram 8 votos contra 1. Os ministros seguiram o entendimento do relator do processo, Gilmar Mendes, de que a exigência do diploma se choca com a garantia dada pela Constituição à liberdade de expressão. A manutenção do diploma como pré-requisito para trabalhar como jornalista teve apenas o voto do ministro Marco Aurélio Mello. Leia em
http://revistapobresenojentas.wordpress.com/2008/09/25/por-que-regulamentar-a-profissao-de-jornalista o artigo escrito por Elaine Tavares sobre o assunto em setembro do ano passado.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Haiti: mais mortes e violências pela mão da Minustah

Elaine Tavares
Já se vão cinco anos de ocupação do Haiti por tropas das Nações Unidas, no melhor estilo estadunidense de “defender a democracia”. E, para piorar esta situação, é o exército brasileiro quem está à frente, no comando da operação. Nas propagandas oficiais do governo Lula, a idéia que aparece é a de que os soldados estão lá para ajudar o povo, mas para quem sofre diuturnamente a ação da repressão armada, a palavra ajudar não cai muito bem. Sindicalistas e militantes sociais haitianos são pródigos em denúncias sobre barbaridades que são cometidas contra o povo sob o manto da “ajuda humanitária”.
A mais recente ação contra as gentes haitianas foi na última semana quando as tropas da Minustah dispararam contra uma manifestação de estudantes e trabalhadores em luta pelo cumprimento de uma lei. Segundo informes das entidades sociais do Haiti, mais de 40 pessoas foram presas, uma criança morreu sufocada pelo gás lacrimogêneo e um jovem teve a cabeça dilacerada por um balaço. Os protestos aconteceram dentro da cidade universitária e indignaram toda a população.
No dia seguinte os militantes sociais insistiram pela soltura dos prisioneiros, já que todas as manifestações estavam sendo pacíficas e legítimas. Apenas cinco pessoas foram liberadas. Os estudantes que insistiam em protestar foram encerrados no próprio bairro onde fica a universidade e ninguém pode sair. Os secundaristas decidiram então sair em passeata para apoiar a luta dos universitários e trabalhadores e as tropas protagonizaram novas ações de violência. Chegaram a aspergir gás lacrimogêneo na região do Hospital da Universidade Estadual, onde até os médicos fugiram, deixando os doentes sem qualquer proteção. Um senhor idoso morreu sufocado pelo gás. Mais gente foi presa.
No outro dia, mais dois espaços universitários foram invadidos pelas tropas da Minustah, a Faculdade de Etnologia e a Faculdade de Ciências Humanas (FASCH). Mais confusão e prisões. O estudante Emmanuel Jean-François recebeu uma bala na cabeça e acabou morrendo. Também corre a boca pequena que a Minustah tem uma lista de professores marxistas para matar, acusados de incentivar idéias de rebelião nos estudantes e de acompanhá-los nas manifestações. A Minustah também é acusada de agir com violência durante a greve que aconteceu em maio na Faculdade de Medicina e Farmácia, o que mostra que as forças da ONU estão sendo usadas como polícia nos casos mais prosaicos da política haitiana.
Os motivos das lutas
Os recentes conflitos no Haiti dizem respeito ao fato de que o presidente ainda não sancionou a lei aprovada pela Câmara dos Deputados e o Senado que reajusta o salário mínimo de 70 para 200 gourdas (42 gourdas = 1 dólar). Segundo informações que chegam dos movimentos sociais do Haiti, a Associação dos Industriais Haitianos (ADIH), no dia 13 de maio, promoveu uma conferência colocando claramente que pretende impedir a publicação da lei no jornal oficial do Estado e insiste para que os parlamentares voltem atrás no voto. E é esta queda de braço entre os trabalhadores e empresários que está mobilizando as gentes. Os trabalhadores querem que o governo cumpra com a obrigação legal de publicar a lei já aprovada. Mas, em vez de fazer o que tem de ser feito, o governo de Preval prefere usar as tropas da ONU para matar, prender e reprimir a luta popular.
O pano de fundo

O Haiti tem uma longa tradição de luta popular. Foi o primeiro país de Abya Yala a garantir, na luta, a sua independência. O único no mundo onde os escravos foram os protagonistas, e não os criollos, como no restante dos países latino-americanos. Foi no Haiti que Francisco de Miranda e Simon Bolívar buscaram abrigo e conhecimento, que os levou à luta pela libertação da Pátria Grande. Mas, a ousadia deste pequeno país em fazer valer sua libertação teve um preço alto: 150 milhões de francos/ouro, a primeira dívida externa – com a França - que saqueou o país e impediu a construção de uma alternativa econômica. Desde aqueles dias de independência colonial, mas não financeira, o Haiti se manteve na linha da pobreza, com uma classe dominante bastante débil.
Por conta deste permanente estado de tensão, o Haiti ficou vulnerável a lutas internas também consideráveis entre negros e mestiços. Viveu ainda décadas de ditadura do pai e do filho Duvallier, governos ferozes, predadores, mortais. E, quando conseguiu sair da longa estrada da opressão elegendo um presidente, Bertrand Aristide, se deparou com a corrupção, o roubo de suas riquezas e a companhia nefasta do império, os Estados Unidos.
Desde os anos 80, no governo Regan, foi organizado um plano para os países do Caribe, entre eles o Haiti. Criaram-se fábricas, parques industriais e zonas francas. Tudo isso com a promessa do desenvolvimento. Mas, como sempre, o plano só é bom para os EUA. Assim, o Haiti começou de fato a produzir coisas, mas nada do que faziam era ou é vendido no país. O povo não tem dinheiro para comprar. No acordo firmado, a grande vantagem que o governo haitiano oferecia às empresas era a mão de obra barata de sua gente. A jogada é manter o salário miserável para que as empresas fiquem no país. Assim, ganhando 1,65 dólar ao dia, um haitiano ainda tem sob sua cabeça a ameaça constante: se brigar contra isso, as empresas vão embora. Então, entre nada e o dólar miserável, ele tem de preferir o dólar.
A política de zona franca no Caribe torna a região um espaço surreal. Hoje já são 56 zonas livres de impostos. Coisa para turista. A burguesia existente é a que mexe com esse setor. A lógica da ALCA é a que manda. Aos trabalhadores resta a fome e a opressão. Os trabalhadores das zonas francas passam o dia todo sem comer, porque não têm condições de ir para casa e muito menos comida para levar. Quando muito, fazem uma refeição por dia, e rala. A repressão aos sindicatos é coisa normal. Estar vinculado a uma organização de classe é quase como pedir demissão. E agora, nem o aumento salarial aprovado pelos legisladores está sendo aplicado.
Não bastasse isso, o povo tem de aturar a ocupação do país por tropas estrangeiras que, como se vê, fazem o papel de polícia, defendendo os interesses dos empresários e do governo. E para piorar - para nós - estas tropas estão sob o comando do Brasil.
Para os trabalhadores e militantes sociais haitianos, se o Brasil quisesse mesmo ajudar, mandaria médicos, engenheiros, professores, gente para erguer o país e não se prestaria a ser capacho do império, fazendo o serviço sujo. E o que pedem ao povo brasileiro é que seja solidário e pressione o governo e Lula para que retire as tropas do Haiti. Saindo o Brasil a Minustah perde muito de sua legitimidade.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Desmatamento na Amazônia


Míriam Santini de Abreu
Estou lendo livros sobre a devastação da Amazônia para uma reportagem a circular na Pobres & Nojentas. A caminho de Manaus atravessei o estado do Mato Grosso, que é campeão em matéria de desmatamento. O avanço do gado na Amazônia, o plantio de soja e a derrubada de árvores para as siderúrgicas de ferro-gusa são os principais motivos. As fotos acima foram tiradas no estado.

domingo, 14 de junho de 2009

As chaves da calçada


Míriam Santini de Abreu
Florianópolis é a terra dos causos raros. Dia desses eu caminhava com menos pressa do que o habitual e parei surpresa diante desta calçada na rua Marechal Guilherme, centro da Capital. Um trecho quadrado está repleto de chaves! Eu, que tantas vezes passei ali, nunca havia reparado no fato. Busquei informações e me disseram que naquele local, tempos atrás, havia um chaveiro. Eu penso que, na verdade, em vez da calçada da fama dos ricos & famosos, temos a calçada da fama dos que abriram a porta do paraíso e decidiram nos legar a chave para não voltar...

O jornalismo e a comunicação em Cuba

Leia no blog da Pobres Teórica, www.revistapobresenojentas.wordpress.com, o artigo "O jornalismo e a comunicação em Cuba", da jornalista Elaine Tavares, que entrevista o presidente da União de Periodistas de Cuba, Tubal Paez. Ele esteve em Florianópolis para a XVII Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, promovida pela Associação Cultural José Martí de Santa Catarina.

sábado, 13 de junho de 2009

Beleza ilustrada


A P&N fica cada vez mais bonita com o trabalho gráfico de Rosangela Bion de Assis e Sandra Werle e com as ilustrações de Eduardo Schmitz. Eduardo é jornalista e em Taió edita o Observatório Local, http://observatoriolocal.zip.net
As ilustrações acima foram publicadas em três diferentes edições da revista para ilustrar textos.

Coleção Pingos de Poesia – 9 - Espelhos Esparsos*

Quem se olha? Quem te olha? Alguém nos olha?

Um olho vaga pelo centro da Ilha

Se incrusta nas paredes

Reaviva histórias e congela o paralelepípedo,

Cristaliza-me-mória na matéria-pedra, santa de catacumbas

Reflete meu eu pensando, olhos oblíquos

Através d’esse olho miro

Me dimensiono, procuro meu ângulo

Me estico, me entorto, me silencio, me espreito

Alguém nos olha?

Me–te-se-nos espelhos espairados da urbe arquipélaga

Miúdo Centro de um Narciso Apaixonado.

*Por Raul Fitipaldi - Poema inspirado em instalação pública de Vanessa Bortucan - http://portfolhobortucan.blogspot.com/

12 de Junho – Dia Mundial contra o Trabalho Infantil

Leia, na Pobres Teórica, o artigo de Li Travassos sobre o assunto.

Acesse http://revistapobresenojentas.wordpress.com/

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Jornalista cubano fala sobre a profissão em seu país no canal do SJSC no You Tube

O jornalista Tubal Paéz, presidente da União de Jornalistas de Cuba, fala sobre a comunicação em Cuba e os desafios do jornalismo num outro sistema de organização da vida. Ele afirma, em entrevista realizada na Assembléia Legislativa, que não existe democracia na comunicação sem democracia econômica. O canal do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina está em http://www.youtube.com/user/SindiJornalistasSC

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Geremias

Sarony, 1895


O rumor das castanholas acorda o louco Geremias, que dorme nos degraus de pedra da mansão dos Wassman.
Só dando no louco Geremias com o gato morto, até o gato miar.
O gato morto não mia nunca, e o pobre-diabo Geremias chuta os vasos de terracota que ladeiam os degraus de pedra; observa que o patriarca dos Wassman o espia de uma das vidraças com medo de que ele arrombe a porta maciça de carvalho da mansão.
Wilhelm Worth Wassman vê o que é o Geremias, logo após torna a deitar-se – obeso que é – mas acordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no teto da mansão. Sorve do samovar de prata um pouco de chá.
O céu cai sobre os dois – Wilhelm e Geremias –, o céu, impassível, sem as rugas do mendigo Geremias, sem as manias do aristocrata Wilhelm, um dia claro assim, ensolarado, já estava lá sobre os convivas das bodas de Canaã, o céu lá estava e viu, com seus olhos claros, o suicídio de Lucrécia, o sacrifício de uma virgem à beira do rio.
Percorreu várias vidraças este céu antiquíssimo, sem acertar com a verdadeira, afinal estacou na enorme vidraça da vasta janela da mansão dos Wasmann, e, se atentarmos bem, nos degraus de pedra, Geremias acaba de morrer ao lado do gato morto.

Fernando José Karl

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A biotecnologia cubana

Por Elaine Tavares - jornalista

Um elegante terno de linho, um riso largo e muito bom humor. “Sou neto do Albertinho Limonta, da novela O Direito de Nascer”, diz entre risos. Pois bem poderia ser. Manoel Limonta é um “santiaguero” de Cuba, nascido na bela Santiago, ao sul da ilha insurgente. De sua baía exuberante pode-se divisar a mítica Sierra Maestra, palco das lutas de libertação, e é conhecida mundialmente por sua rebeldia, já que foi berço das batalhas contra a colonização espanhola e, foi ali, na sua serra, que se definiu revolução libertadora. Também foi ali, em Santiago, que ficou preso Fidel antes de iniciar a caminhada que terminou na vitória em 1958.
Foi neste cenário de calorosas lutas que Manoel se fez menino e, nas brincadeiras de infância, já se via médico. Era tudo o que queria ser. Cuidar das gentes tal qual um tio que lhe servia de exemplo. Jovem, não participou diretamente da luta armada, mas seus familiares incursionavam por dentro da revolução que iria trazer nova vida à ilha. E foi graças ao fim da ditadura de Batista que ele conseguiu entrar para a faculdade de medicina e fazer real o seu sonho.

Quando chegou a hora de seguir os estudos, o novo governo revolucionário já estava consolidado. Era o ano de 1962. Manoel Limonta se foi para a capital, Havana. “Em muito pouco tempo o governo promoveu uma revolução também na educação. Já era uma meta a educação gratuita para todos. Por isso, eu tive bolsa de estudo. Em Havana tive alojamento, comida, livros e até dinheiro para os pequenos gastos. Da escola de Medicina saí em 1968 formado como médico social”. Dalí, Manoel foi para o campo, clinicar, pois era no interior que a necessidade se fazia maior. Mas, seu desejo era pesquisar, fazer a diferença para o seu povo. Gostava de hematologia e decidiu fazer especialização. Neste meio tempo decidiu participar de uma missão na África, seguindo a tradição solidária de Cuba, e lá se foi para a Tanzânia, onde viveu experiências marcantes do ponto de vista humano. Por isso, sempre assoma uma lágrima quando fala deste momento da vida.

Chamado por Fidel
Na volta para Cuba, seguiu atuando na clínica, trabalhando em hospital, mas nunca se descuidou dos estudos. Andava por toda a ilha falando sobre o interferon, um medicamento que estava sendo usado para combater o câncer e que tinha a vantagem de ser natural, produzido a partir dos glóbulos brancos. “Este medicamento tem a vantagem de não produzir os efeitos colaterais comuns dos citostáticos – químicos - como a queda de cabelos, enjôos, etc... e também funciona contra os vírus em geral”. Pois um belo dia do ano de 1981 Manoel recebeu um chamado especial. O presidente Fidel Castro queria falar com ele.
- Quero que Cuba produza o interferon. Acha possível?
-Sim, podemos.

“Fidel havia falado com o diretor de um hospital em Houston, no Texas, e este havia falado das maravilhas do interferon. Interessado em produzir o medicamento Fidel perguntou se podia mandar dois médicos para o hospital, aprender com ele. Ele disse que sim. Então o próprio Fidel selecionou as pessoas. Fomos eu e a pesquisadora Vitória Ramirez”. Segundo Limonta, aquele foi um período importante de aprendizado. Depois, descobriram que na Finlândia havia um pesquisador que já lograra produzir o medicamento. Fidel decidiu enviar mais seis médicos para o norte da Europa. “Todo o processo era dirigido pelo próprio Fidel. Ele estava obcecado por garantir a saúde de todos os cubanos, e aquele medicamento era de uma importância vital”.

Por dez dias, uma equipe de seis médicos, incluindo Limonta, Ramirez e mais quatro do Centro Nacional de Investigações Científicas de Cuba, ficou na Finlândia aprendendo o método de produção do interferon. Na volta para Cuba, Fidel já havia arranjado uma casa que serviria de laboratório para a empreitada. Outros pesquisadores foram chamados para somarem-se nesta aventura e, em 48 dias, num trabalho ininterrupto, sem descanso, sem sábado ou domingo, a equipe conseguiu seu intento. “Fidel ia todos os dias ao laboratório, acompanhava de perto. Ele dizia que um método de trabalho precisa ser avaliado a cada final de dia, para que não haja qualquer furo. E foi assim, que no dia 28 de maio de 1981, nós entregamos ao comandante o produto envasado e com as provas que definiam a sua qualidade”.

Inventando a ciência cubana
Pois como se só esperasse que aquela odisséia tivesse sua vitória, no mês seguinte a ilha foi assolada com uma epidemia de dengue hemorrágica. O interferon foi usado, sempre acompanhado de um protocolo de estudo, comprovando que o medicamento, aplicado nas primeiras fases da doença, tinha uma boa resposta. Depois, mais tarde, usaram o interferon para combater uma espécie de conjuntivite hemorrágica, também com sucesso, assim como no tratamento da hepatite B e no câncer de mama.

Por conta disso Fidel entendeu que era preciso construir um novo centro de pesquisas para incrementar a produção do interferon e, aproveitando o método de trabalho que resultou na produção daquele medicamento, desenvolver também a biologia molecular e a engenharia genética. “Este é o que chamamos de modelo de ciclo fechado porque os mesmos investigadores que desenharam o projeto, participaram da produção e da aplicação clínica”. Limonta conta que este método acabou servindo de modelo para o trabalho em biotecnologia que não existia ainda em Cuba. E o desejo de Fidel de garantir a saúde para todos gerou em poucos meses um novo centro com mais de quatro mil metros quadrados, com equipamentos novos e mais pesquisadores. Foi o nascimento da engenharia genética que, por sua vez, produziu o interferon recombinante, que não necessita mais dos glóbulos brancos. Ele se faz a partir da introdução num hospedeiro que cria um novo gen mais limpo e mais produtivo. “Foi um salto impressionante na pesquisa”.

Todo o processo do nascimento da ciência própria em Cuba teve a participação de Manoel Limonta. Ele foi o responsável pelo primeiro grupo, depois respondeu pelo Centro e coordenou o trabalho com o interferon, biotecnologia, imunologia moderna e microbiologia avançada. Em 1986 foi inaugurado o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia, com 74 mil metros quadrados de construção em 15 hectares de terra, que agrupava todas as áreas da biotecnologia. Limonta foi o diretor geral. “Foram cinco anos de revolução na ciência cubana. Introduzimos uma tecnologia que não existia e realizamos uma mudança radical”.

A terceira etapa da estruturação da ciência cubana se deu de 1986 a 1991. Nestes outros cinco anos os profissionais desenvolveram novos produtos recombinantes que foram decisivos para consolidar a posição de Cuba na ciência mundial. A partir daí a ilha não só passou a ser autossuficiente na área de medicamentos, mas, fundamentalmente, começou a ser uma exportadora de remédios, ampliando assim as divisas.

Enfrentando o bloqueio
Toda essa aventura da ciência cubana não aconteceu por mágica. Foram 10 anos de estafante trabalho num período de grandes turbulências em nível mundial. Enquanto os pesquisadores trabalhavam como loucos nos laboratórios, o mundo lá fora se transformava, inclusive com a queda do bloco soviético que, por muito tempo, fora o principal parceiro de Cuba. “Nós estávamos mergulhados no trabalho, baseados num princípio de Fidel que dizia que não podíamos desperdiçar horas de esforço quando a saúde do povo cubano dependia do trabalho que estávamos fazendo. Ali, o único que nos interessava era avançar nas pesquisas e na produção de remédios para abastecer nossa gente”. O resultado é que, hoje, Cuba tem dezenas de produtos à disposição do mundo todo, centenas de patentes e contratos com mais de 50 países.

A educação e a ciência sempre foram prioridade em Cuba. Cuidar da mente e do corpo do povo era e é o grande compromisso da revolução. Por isso, já no final dos anos 80 criaram-se novas instituições como o Centro de Imuno-Ensaio, preparado para a elaboração de diagnósticos, o Instituto Finley, para a produção da vacina contra a meningite meningocócica tipo B, outros centros de Engenharia Genética no interior do país, o Centro Nacional de Bio-preparados, o Centro de Imunologia Molecular, que produz vacinas terapêuticas contra o câncer. “Isso tudo fez com que tivéssemos um desenvolvimento incrível. O método e uma agrupação de profissionais que não compete, que coopera, que se fortalece e que oferece medicamentos gratuitos a toda população”.

Essa obsessão pela ciência e pela saúde popular seguiu firme pela década de 90 e hoje a biotecnologia cubana é um dos elementos mais importante do Produto Interno Bruto, ocupando o terceiro lugar. Para quem está envolvido até a medula no processo como Manoel Limonta o que assoma é a satisfação. “Naqueles dias em que iniciamos a produção do interferon cheguamos a passar 18 dias inteiros no laboratório, sem ir pra casa. Mas aquilo era uma sensação maravilhosa. Tínhamos a atenção e a exigência de Fidel. Sabíamos que aquilo era importante para a gente cubana. Fidel é uma pessoa que irradia patriotismo, segurança no futuro, altruísmo. Ele fazia a gente se sentir especial. Foi um tempo muito lindo”.

A ilha sem Fidel
Agora, nesta primeira década do século XXI, a ilha de Cuba se deparou com um fato de difícil assimilação: ficar sem Fidel. O velho comandante está doente e afastou-se da direção do país. Quem compartilhou estes anos todos do sonho revolucionário que tornou Cuba uma referência no mundo sabe que Fidel faz e fará muita falta. “Ele é um ser humano incomparável. Tem um altíssimo nível cultural, político, ético. Mas ele também soube preparar muito bem o país para seguir o caminho sem ele. Isso faz um líder”. Limonta acredita que Cuba está capacitada para enfrentar novos desafios, novas circunstâncias, que vai se desenvolver sem perder o princípio do social, as conquistas e a pureza moral das coisas que a revolução alcançou.

No campo da ciência, estes pesquisadores que entregaram sua vida para a melhoria da saúde em Cuba, não se arrependem um segundo de todos os sacrifícios que tiveram de fazer. “Trabalhamos como animais, mas valeu a pena. O bloqueio imposto pelos Estados Unidos nos colocou desafios grandiosos e nós soubemos ultrapassar tudo isso. O inimigo nos tornou mais fortes e determinados. Por isso, não há como parar Cuba. Porque somos um povo criativo, capaz e nunca deixamos de enfrentar os desafios. Isso não vai mudar”.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ligue agora e diga não à MP 458!

Na quarta-feira, dia 02/06, o senado brasileiro aprovou a MP 458. Esta medida presenteia todos aqueles que fizeram grilagem na Amazônia com a regularização de terras ocupadas ilegalmente.
Se o presidente assinar a MP 458, 67 milhões de hectares de terras públicas da Amazônia serão privatizados. Um patrimônio estimado em 70 bilhões de reais irá parar nas mãos dos grileiros.
Amanhã, dia 10/06, é o último dia para reverberar nossa voz. O Gabinete de Lula está recebendo milhares de ligações pedindo para que a MP 458 não seja aprovada. Faça sua parte, ligue e espalhe os números e o e-mail do presidente Lula para seus amigos. Peça para que eles digam NÃO A MP 458.
Telefone do Gabinete do Lula:
(61) 3411.1200 ou (61) 3411.1201
Ou envie um e-mail através do link:
https://sistema.planalto.gov.br/falepr2/index.php
Se quiser saber mais sobre o assunto, recomendamos os links:
http://www.greenpeace.org/brasil/amazonia/noticias/ruralistas-privatizam-a-amaz-nhttp://www.avaaz.org/po/nao_privatize_a_amazonia/

Curral do Boi Garantido em Manaus

Festa no dia 6 de junho

Festival de Parintins: cultura popular

Grupo Cantos Tribais se apresenta em Manaus

Míriam Santini de Abreu

A gente nunca sabe em que curral vai parar. Eu, no sábado, dia 6, fui parar no Curral do Boi Garantido, em Manaus, no Amazonas. Conhecia apenas de televisão o show-disputa entre o Boi Caprichoso e o Boi Garantido no festival folclórico de Parintins, que acontece no final de junho. Parintins fica a 420 km de Manaus por rio, e lá só dá para chegar de avião ou de barco. Neste caso é uma viagem que pode durar de 20 a 30 horas. Perguntei a um morador de Manaus:
- E de carro?
- Não tem estrada, não!
Imagino o que seja a beleza do festival pelo que pude ver em Manaus. Fiquei tão encantada que quase me esqueci de fotografar.
Há muita informação sobre o festival no Google.

Beleza do Garantido







O Grupo Cantos Tribais em apresentação num bar localizado perto do anfiteatro na praia da Ponta Negra, às margens do rio Negro, em Manaus, no Amazonas. Na última foto, o Curral do Boi Garantido em Manaus, em festa promovida pelo Movimento Amigos do Garantido.