terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

É hora de um canal nacional e público para a comunicação comunitária e popular


Foto: RedRadioVe - Comunicadores populares na Venezuela

Já faz muito tempo que as entidades ligadas ao jornalismo e à comunicação no Brasil lutam pelo que chamam de “democratizar a comunicação”. Na época da ditadura militar isto até tinha certo sentido, visto que o Estado estava na mão dos milicos. Mas, com a democratização, em 1984, esse tema foi perdendo força e acabou tornando-se uma demanda algo abstrata. O que seria democratizar a comunicação? Dar mais espaço para os movimentos sociais nas mídias comerciais? Colocar mais negros nas novelas? Garantir programas que falem das mulheres, dos indígenas, do movimento LGBTQIA+? Se observarmos bem, esta é uma pauta bem ao gosto do liberalismo. E, hoje, dando uma olhada nos canais de televisão, podemos ver que tudo isso está dado. Há mais negros, mais mulheres, mais gays, mais tudo, mas a lógica segue sendo a do consumo e do capital. Não muda nada na estrutura da sociedade. A faca e o queijo estão na mão das empresas. A ideologia se esparrama bem ao gosto burguês. Tudo mudou para ficar igual.

Nós, da Revista Pobres e Nojentas, há muito reivindicamos a soberania comunicacional. Ou seja, os trabalhadores definindo suas demandas e produzindo sua comunicação. Mas, para que isso seja possível, há que existir um governo que assuma essa demanda, assim como na Venezuela bolivariana, onde o então presidente Hugo Chávez fez acontecer. Num país onde poucas famílias controlam a televisão privada, Chávez criou um canal público, exclusivo para o desague das produções comunitárias, populares e independentes. Um canal aberto, de alcance nacional. 

Esta deveria ser hoje a proposta dos movimentos ligados à comunicação. Só o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, o FNDC, tem em suas fileiras 87 entidades nacionais e 591 regionais. É praticamente um exército, e dos mais representativos do setor de comunicação dos trabalhadores. Além disso, há o Intervozes, coletivo de ativistas da comunicação com representação em quase todos os estados brasileiros. Fora outros tantos coletivos que se articulam nos estados lutando para produzir comunicação de qualidade voltada aos reais interesses públicos.

Nosso chamado se dirige a estas entidades e coletivos: que se forme uma grande teia juntando todo mundo para a apresentação desta demanda ao Presidente da República, ao Ministro das Comunicações e ao Secretário de Comunicação: que o Estado brasileiro crie uma televisão pública, de sinal aberto para todo país, e que o material ali veiculado seja prioritariamente material produzido pelos movimentos sociais,  coletivos comunitários, populares e independentes. Uma mídia de massa, feita e dirigida pelos trabalhadores. Este sim seria um salto de qualidade e um primeiro passo para a soberania comunicacional.

Até quando vamos mendigar “mais democracia”? Por que não exigirmos um espaço realmente alternativo, com alcance de massa? Um canal de televisão dirigido por gente da comunicação, capacitada a fazer um trabalho bonito, educativo, divertido e de luta, com um sinal que chegasse a qualquer lugar do país. O estado brasileiro pode, o governo tem as condições, então, por que não fazermos acontecer? Há gente qualificada e já existe um farto material produzido ao longo de décadas pronto para ser exibido e estimular ainda mais as novas produções Brasil afora. 

As chamadas mídias alternativas, comunitárias, populares, independentes, são importantes e cumprem um valioso papel. Mas, sem alcance de massa, não passam de resistências regionais e locais. A comunicação dos trabalhadores precisa ter alcance de massa, chegar aos ouvidos de milhões. Ou investimos nessa batalha ou seguiremos sem eficácia.



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