quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Croniquintas/ Das voltas e dobras do tempo

 




Gilberto Motta - Texto e Foto

“Tudo é precioso para aquele que foi, por algum tempo, privado de tudo ” (Friedrich Nietzsche)

A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro.
O tempo do amor se marca com o corpo.
Um calendário é coisa precisa: anos, meses, dias, horas, que são marcados com números. Esses números sinalizam e dão a noção que temos do tempo.
Mas os pedaços de tempo são bolsos vazios; nada há dentro deles.
O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo quando o enchemos com vida.

Então o tempo deixa de ser apenas números frios e sem humanidade.
O tempo aparece como um fruto que vai sendo comido:
é belo, é colorido, é carnudo e perfumado.
E – à medida que vai sendo devorado -, transmuta, transparece e flui.

O tempo da vida é marcado por alegrias e tristezas.
Há indícios, inícios e há fins.
*Tempus fugit; o tempo foge.

Portanto, Carpe diem: colha o dia como um fruto que amanhã estará podre.
Viver ao ritmo de alegrias e tristezas é ser sábio.
*”Sapio”, no latim, quer dizer, “eu saboreio”.
O sábio é um degustador da vida.
A vida não é para ser medida.

É um portentoso banquete.

Ela é para ser saboreada.
Um texto bíblico diz:
“Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos um coração sábio”. Claro, só pode ser palavra do mestre da Palavra.
Acho que Jesus entenderia se eu acrescentasse ao “Pai-Nosso” uns pitacos tipo…”A fruta nossa de cada dia dá-nos hoje…”.
Caqui, pitanga, morango à beira do abismo, melancia, banana,
manga verde com sal em cima do pé no quintal do vizinho…

*Heráclito foi um filósofo grego fascinado pelo tempo.
Contemplava o rio e via que tudo é rio.
Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio já não existirá.
Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo…
Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar.
Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos.

Dentre eles, um me encanta:
*”Tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado”.

Tempo é criança?
O que o filósofo queria dizer exatamente eu não sei.
Desconfio que para nós, o tempo é um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de quem a vida foge.

Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novo começos.
Ficam os buracos do tempo, os sulcos de lembranças.
*A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo.(Mário Quintana)

Percebo também que as crianças odeiam Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos. Da suposta exatidão inexorável do tempo dos homens.
O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado.
Portanto,
“Haja hoje para tanto ontem” (Paulo Leminski)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Croniquintas/ O Exame


Texto: Dino Gilioli 

A neta alertou: Vó é muito alto, tem certeza que consegue subir?

A vó não titubeou e respondeu de imediato: claro que consigo subir, quando tinha a sua idade subia num pulo só.

Mas, vó, você não tem mais a minha idade...

Por isso mesmo que não vou subir num pulo só. Vou usar os dois pés e subir devagarinho.

Pra quê isso, vó? Não precisa catar pra mim, nem estou com vontade, insistiu a neta, demonstrando preocupação. 

Buscando tranquilizar a neta, a vó disse que tinha muita experiência em subir em árvores, além disso ia pra academia três vezes por semana e ainda corria 3 km em dias alternados.

Então tá vó, se a senhora insiste, pega aquela mais bonita, bem amarelinha. Eu aaaammmmmo manga, reforçou a neta.

Pé por pé e cuidadosamente a vó catou a manga e jogou lá de cima pra neta, que pegou feliz da vida. Parecia ter ganho um baita presente!

Já embaixo, a vó recebeu mil beijos da neta, que agradeceu demais pela manga deliciosa.

No outro dia, a vó sentiu uma dor insuportável no joelho. O médico pediu uma ressonância magnética urgente. 

Na hora do exame, a atendente pediu que a vó ficasse só de calcinha, tirasse o sutiã e vestisse uma camisola de algodão. A vó estranhou e disse: Meu sutiã não tem metal e o exame é do joelho. A  atendente afirmou que era por causa do tecido. Mas é o mesmo tecido da calcinha, pensou a vó. E, sem que ela percebesse, a moça foi chamar a pessoa responsável por fazer o exame. 

A vó, vendo-se sozinha na sala, ficou indignada com a falta de resposta da atendente e abriu a porta. Viu um rapaz que parecia estar usando uniforme e perguntou: Afinal, tiro ou não tiro a calcinha?

Sem saber o que fazer, o moço, vermelho e constrangido, não disse uma só palavra! Era um paciente que também aguardava por um exame.