sábado, 13 de fevereiro de 2010

Trilogia Ser ou Não Ser (1) – Parte I – Eu Sou Ninguém?

1 - Palavras iniciais do conhecido monólogo do personagem Hamlet, de Shakespeare, na peça de mesmo nome.

Li Travassos, de Florianópolis

Uma campanha do MEC na TV veicula pessoas falando que acompanham os estudos dos filhos o máximo possível, o quanto isso é importante, etc. A campanha, intitulada "Eu, Você, Todos Pela Educação", mostra, além de apresentadores e atores famosos, também uma mulher que se diz diarista. Esta dita diarista conta que costuma dizer aos filhos que eles precisam estudar, porque QUEM NÃO ESTUDA NÃO É NINGUÉM. Isso, dito com lágrimas nos olhos, me faz deduzir que ela, diarista, não pôde estudar, e só por isso é diarista. E se é diarista, não é ninguém!?
Este blá-blá-blá do desvalor, do desrespeito, e da invisibilização do trabalhador e, mais ainda, da trabalhadora braçal, me dá náuseas. Tal postura, desenvolvida pela burguesia, e enfiada goela abaixo dos que realizam o trabalho braçal, que a repetem freqüentemente, é responsável por um número enorme de mazelas que atormentam a humanidade, que vão desde uma absurda desigualdade social, a resignação ou a infelicidade causadas por esta desigualdade, o trabalho escravo ou semi-escravo, o trabalho infantil, passando pelo excesso de pessoas em algumas profissões, pela maldição do tele marketing, por um número sem fim de histórias "futuristas" bizarras sobre máquinas e outros seres esquisitos fazendo o trabalho humano, e indo até a violência doméstica. Quer ver algumas destas ligações?
Então, vamos por partes e comecemos pelo começo: muitos antropólogos afirmam que o trabalho surgiu concomitantemente ao ser humano. Ou seja, o trabalho organizado, bem como a linguagem, que permitiu ensinar aos descendentes como fazê-lo, foi o que nos definiu como humanos. Ainda, com base no que nos dizem Simone de Beauvoir, Elizabeth Badinter e outras/os, acredito que a fêmea, ao propor ao macho a divisão de tarefas, permitiu a preservação da espécie humana, que de outra maneira não se daria. Por quê? Porque os filhotes estavam nascendo com cérebros menores, em função do estreitamento vaginal decorrente da posição bípede, e exigindo assim, maiores cuidados por um maior período de tempo.
Vale ressaltar que OS FILHOTES JÁ ERAM RESPONSABILIDADE DAS FÊMEAS, COMO É COMUM ENTRE OS MAMÍFEROS. Mas elas continuavam caçando e colhendo vegetais para alimentar a si mesmas (e aos filhotes quando desmamavam). Para cuidar melhor dos filhotes que nasciam com o cérebro pequeno, foi necessário que as fêmeas parassem de caçar, passando a "apenas" cuidar dos filhotes por mais tempo (há quem discorde desta hipótese, por considerá-la uma naturalização da divisão de tarefas que seria prejudicial às mulheres. Mas é justamente isso que ela é: natural. Ou como se explicaria o fato de que os homens mantiveram uma quantidade muito maior de pêlos no rosto e no corpo? Para que serviriam estes pêlos (especialmente a barba) senão para proteger o homem do sol (e/ou do frio)? A mulher não manteve tantos pêlos em função justamente de seu recolhimento, na maior parte do tempo, para áreas fechadas. O que importa não é como a divisão de tarefas começou, mas sim que esteja sendo mantida até hoje, apesar de todas as outras mudanças sociais) e colher os vegetais que eram consumidos pela tribo – e que ficavam mais perto dos abrigos.
Claro que, depois que organizou sua vida em sociedade, o ser humano não parou de criar, de pensar, de buscar e de desenvolver conhecimento, e surgiram várias formas de trabalho muito mais ligadas ao pensamento que à força e/ou à destreza físicas. De qualquer forma, foi o trabalho braçal, e a possibilidade dele ser ensinado, que nos diferenciou dos outros animais. O que mostra que o trabalho braçal já é uma atividade eminentemente humana, que exige reflexão e conhecimento.
Além disso, quase todas as formas de trabalho braçal são absolutamente indispensáveis para a manutenção da vida humana. Agricultores/as, pedreiro/as, marceneiros/as, lixeiros/as, faxineiros/as cozinheiros/as, costureiros/as, sapateiros/as, operários (de fábricas de tecidos, de calçados, de utensílios de cozinha, de eletrodomésticos), os/as que lavam nossas roupas, auxiliares de enfermagem, responsáveis pela manutenção da eletricidade, da água, do esgoto... Todas estas pessoas, e decerto mais umas tantas que eu devo ter esquecido, são simplesmente INDISPENSÁVEIS PARA O MANTENIMENTO DA VIDA HUMANA EM SOCIEDADE, especialmente se pensarmos em um mínimo de qualidade de vida. De quantas profissões que exigem "nível superior" podemos afirmar o mesmo?
Então, por que anjos nós não valorizamos o trabalho braçal? Por que as mulheres, em especial, se for para realizar serviço braçal, preferem fazê-lo apenas na sua casa? Pois tem este detalhe, né? Em muitas famílias, o homem vai trabalhar em busca de dinheiro, mas ele não caça, não planta, não constrói sua própria casa. Contudo, INDEPENDENTEMENTE DE SE A MULHER TRABALHA FORA DE CASA E RECEBE DINHEIRO OU NÃO, ainda se espera, em muitas famílias, que ela cozinhe para todos, que mantenha a casa limpa, que lave e passe as roupas, que cuide dos filhos pequenos... Se for capaz de pregar botões, fazer pequenos reparos nas roupas, decorar a casa com bom gosto, então, que mulher adorável...
Se um casal compra um terreno e contrata pedreiros para construir uma casa, no caso do pedreiro faltar, irá o marido substituí-lo? Colocar um tijolo por cima do outro? Não! Mas todos sabemos o que acontece quando numa casa há empregada, cozinheira ou babá: se ela faltar, a mulher irá, quase que automaticamente, fazer o trabalho desta funcionária. No caso de haver filhos pequenos, ela poderá inclusive faltar a seu próprio trabalho porque a babá faltou. E o homem irá cruzar os braços, como se não fosse com ele. E que valor se dá para o trabalho da dona de casa? Nenhum. Alguns homens ainda ousam dizer que a mulher "não faz nada".
Apesar do trabalho doméstico ser tão desvalorizado, não podemos viver sem que alguém o faça. Em casas onde todo mundo trabalha, é comum ser contratada ao menos uma diarista. Fazendo este serviço fundamental, se fizê-lo bem feito e não tiver atravessadores, uma diarista pode receber uns R$:80,00 por dia. Se trabalhar de segunda a sexta irá receber R$:1600,00 por mês. Serão R$:1920,00 se trabalhar de segunda a sábado (considerando 4 semanas completas em um mês). Quantas pessoas "com nível superior completo" ganham isso?
Mas, graças à falta de valor social (vejam que, neste caso, não é nem financeiro) que recai sobre a profissão de faxineira, muitas mulheres preferem trabalhar com tele marketing, profissão em que agüentam desaforos do patrão e do cliente, recebem um pouco mais do que um salário mínimo, e colaboram para tornar a vida dos outros um inferno! Poucos homens suportam esta profissão, que surgiu há tão pouco tempo, e já se tornou eminentemente feminina. Os homens que estão lá, mormente se encontram em postos de chefia, ganhando bem mais (só para variar...).
Mas na verdade, na verdade mesmo, o sonho de muita mulher de baixa renda é não precisar trabalhar. É seguir (ainda!) o modelo da mulher burguesa, que depende totalmente do homem (verdade que também tem muita mulher de classe média, com diploma de curso superior, que prefere ser "apenas" dona de casa. Mas daí a motivação é outra, o assunto é outro, e não cabe aqui). Por isso, ela vai se ressentir do fato do homem não "conseguir" sustentar a família sozinho. E pode vir a demonstrar a falta de valor que dá ao marido. E há uma tendência de que esta novela acabe em tapas (antes de alguém me acusar de estar sugerindo que a mulher é responsável pela violência doméstica de que é vítima, sugiro a leitura do livro Cenas e queixas (Gregori, Mª. F. São Paulo: Paz e Terra), onde há diversas descrições de casos familiares assim. A idéia do livro – e a minha também – é de que a violência doméstica é resultado de uma relação, não apenas de uma pessoa malvada (que seria o homem). Relação esta que está inserida dentro de uma sociedade, e precisa ser vista através desta lente, sob o risco de buscarmos apenas punir os culpados, mas ficarmos impotentes para alterar verdadeiramente a realidade).
Um dos motivos para que as mulheres não vejam o trabalho de empregada doméstica como sendo uma fonte de renda como outra qualquer é o fato de terem tido que iniciá-lo muito cedo. Quer "trabalhe fora" ou não, a maioria das mulheres de baixa renda, que tem muitos filhos, irá atochar uma criança no colo da filha mais velha assim que ela conseguir segurá-la. Irá esperar que ela cozinhe, que limpe a casa, enfim, que faça todas as tarefas domésticas que deveriam ser executadas exclusivamente por pessoas adultas.
No programa Fantástico (se eu não estou enganada do dia 17/01/10), em um quadro chamado 4 por 4 (sem nenhuma utilidade pública, diga-se de passagem) que mostra casais que tiveram 4 filhos de uma só vez, foi mostrada uma família com 9 filhos (os últimos 4, claro, nasceram ao mesmo tempo). Trata-se de uma família de agricultores abaixo da linha da pobreza, onde uma menina de uns 10 ou 11 anos ajuda a cuidar dos gêmeos, a cuidar da casa, a cuidar dos outros irmãos menores, porque a mãe também trabalha na roça... O pai solicita a ajuda de filhos tão absurdamente pequenos para poderem fazer alguma coisa na agricultura, que eu fiquei assustada. Diante das câmeras, os menininhos não vão ajudar o pai. Penso se longe delas eles têm esta opção.
À menina nenhuma opção é dada: ela é filmada o tempo todo com um dos irmãos nos braços e a mesma cara de ódio e tristeza profunda que eu vejo em toda criança que é mostrada na mídia realizando algum tipo de serviço braçal. Mídia esta que, caso não esteja falando (com ou sem hipocrisia) diretamente sobre o trabalho infantil, não faz um bendito comentário, não questiona nada em relação a isso. Neste quadro do Fantástico, estes pais chegam a defender o trabalho infantil "porque mostra para os filhos que nada vem de graça na vida, blá-blá-blá..." Vou ali me cidar e já volto, e quando volto espero em vão que os apresentadores do programa façam algum comentário sobre isso, mas NADA! Acredito que as mulheres prefiram trabalhar como faxineiras de empresas, respondendo a firmas de terceirização onde recebem muito menos do que como diaristas em residências, só para não ter na patroa uma figura materna lhes dizendo como fazer o serviço!
Mas vamos voltar para a questão geral da baixa remuneração dos trabalhadores braçais, destes milhões de "ninguéns" que, no Brasil e no mundo, fazem todas estas coisas que são indispensáveis à vida e não recebem sequer a nossa gratidão, quanto mais um salário justo. Uma vez, me perguntaram se eu, que estudei um monte, gostaria de ganhar o mesmo que uma faxineira. Respondi que se ela ganhasse uns R$:4000,00 por mês, eu acharia ótimo. Acredito que todas as pessoas devem ser remuneradas com salários capazes de permitir um padrão de vida confortável, independentemente de quanto estudaram para isso. E acredito que isso é possível, especialmente em nosso país, tão grande e tão rico. Mas acaba que algumas profissões pagam salários astronômicos enquanto a grande maioria da população tem que viver com um salário mínimo que não possibilita sequer morar e comer com dignidade...
"Ah, mas se todo mundo recebesse o mesmo salário, ninguém mais iria estudar!" Não? Eu, se tivesse feito graduação e mestrado apenas em busca de uma melhor remuneração, já teria me enforcado em um pé de couve! Há pessoas que buscam determinadas profissões ou campos de saber por necessidade interna, por curiosidade apaixonada, porque sem isso a vida não vale a pena! Há quem insista que a solução da miséria e da pobreza está na educação. Se todos estudarem, vão ter um "emprego melhor", e vão ganhar mais. Mas então, quem ficaria com os "empregos piores"? Quem vai fazer o trabalho braçal? Vamos "fabricar" seres diferentes para cumprirem com estas tarefas, como no Admirável mundo novo de Huxley e outras fantasias futuristas estapafúrdias?
Pois eu penso exatamente ao contrário: o extermínio da miséria e da pobreza é que seria a solução para a educação. Ou seja, para resolver o problema, seria necessário que:
1. Todas as pessoas adultas recebessem um salário verdadeiramente digno por seu trabalho.
2. As pessoas trabalhassem um menor número de horas semanais, para garantir que todo adulto que deseja trabalhar pudesse fazê-lo.
3. Mesmo aqueles que não quisessem trabalhar pudessem ter uma vida digna.
Então, com certeza, o trabalho infantil seria extinto, e todas as crianças poderiam frequentar as escolas. Não gosto de criticar o programa "Bolsa Família", porque sei o quanto ele aplaca a fome e a miséria Brasil afora. Mas tenho certeza que o fato de ele ser voltado para a família e não para o cidadão, e ter a condicionalidade de, na família, haver crianças em idade escolar efetivamente estudando, só faz conduzir a um aumento da procriação nas famílias de baixíssima renda (que são aquelas beneficiadas pelo programa). O "Bolsa Família", assim como o programa de "Agricultura Familiar", mantido o respeito por sua ajuda efetiva no combate à miséria, são estimuladores do "proletariado", ou seja: estimulam pessoas a terem nos filhos (leia-se mão de obra extra) seu único bem.
Para além de tudo isso somos prisioneiros de um consumismo absurdo, que injeta na cabeça dos muito jovens ou dos muito sem juízo e sem auto-estima que "Se você não tiver o tênis-celular-carro-vestido-sapato do momento você não é ninguém!" De novo esta idéia! "Pobre menina, não [é] ninguém..." (corruptela descarada da – já triste – música de Leno e Lilian, que diz: pobre menina, não tem ninguém.... (peço desculpas a você que ficou chocado com minha brincadeirinha besta bem no meio do assunto, mas é para a gente poder rir um pouco, que também ninguém é de ferro, né?), tchu-ru-tchu, tchu-ru-tchu... Daí, aumenta o número de jovens roubando, usando drogas, traficando. E ser pobre vira sinônimo de ser bandido... Todos falam, ad nauseam, em maneiras de acabar com o tráfico de drogas. Mas ninguém pensa em maneiras de acabar com a NECESSIDADE que o ser humano tem das drogas. Eu, cá comigo, penso que a miséria e a falta de perspectiva são os principais estopins desta necessidade.
Está difícil de engolir e você quer mais um pouco de utopia? Então, em relação a esta supervalorização da educação, vamos pensar que bom seria também se todos tivéssemos, para começar, as mesmas oportunidades de estudo. Se só existissem escolas públicas, e se todas fossem de boa qualidade, e se todas funcionassem em período integral para todas as crianças, e se a locomoção até elas fosse gratuita, digna e segura!
Que bom se pudéssemos, todos, começar a trabalhar REALMENTE apenas depois dos dezesseis anos! Que bom se voltasse o ensino profissionalizante obrigatório no segundo grau. Não acredito que isso só serviria para "impedir que as pessoas oriundas de famílias de baixa renda fizessem faculdade e também para facilitar a contratação de menores de dezesseis anos", como querem alguns. Ora, até parece que curso superior é tudo isso de bom! Têm muito curso profissionalizante que leva a uma inserção no mercado de trabalho muito mais rápida, e com salários inclusive maiores do que muita gente com curso superior consegue – e isso agora, nesta realidade triste em que vivemos... Mas os cursos profissionalizantes são tão raros que só muito poucos conseguem fazê-los...
Continuando nossa "plantação de ses": se as Universidades fossem públicas, e o acesso a elas fosse igualmente fácil ou difícil para todos, e se os salários de todos fossem os mesmos por hora trabalhada, então só continuaria estudando para além do ensino fundamental quem quisesse realmente continuar estudando, não quem estivesse interessado em apenas ter um salário decente. Daí, todas as profissões continuariam sendo procuradas. E todos viveriam felizes para sempre? Pode ser que não, mas que chegaríamos mais perto disso, lá chegaríamos...
Gostou deste texto? Então, não perca, em breve, neste mesmo "canal" (no que depender de mim, ao menos), a segunda parte da trilogia SER OU NÃO SER...