terça-feira, 11 de março de 2014

Uma mulher dá à luz letras e pequeninos




















Por Raquel Moysés - jornalista
             
Manhã muito fria, chá fumegante nas canecas, três mulheres se encontram numa sala da Universidade Federal de Santa Catarina. Uma delas quer se contar. A outra, sua filha, espera que ela possa finalmente se contar. A terceira, repórter, tem a tarefa de narrar essa vida feminina feita de palavras, olhares, mãos que se movem, um rosto que expressa em linhas as tantas encruzilhadas desse “já tão longo andar”.

Mas, como falar de uma vida que amadureceu sem que tenha sido possível testemunhar a sua travessia?  A pergunta paira no ar quando a entrevista começa e, como sempre acontece quando alguém se confessa, o primeiro momento é de constrangimento.   Logo, porém, o chá aquece o peito e olhares sinceros se cruzam.  Nasce uma confiança, e a história se faz viva. Aos fragmentos, aos borbotões, talvez com lacunas e imprecisões, pois, a distância de anos, nem sempre é possível dizer tudo como exatamente aconteceu. Só não se perde a certeza de ter vivido, e é este sentimento que dá força às palavras desta mulher que se conta ao narrar a vida de um tempo.

Então, eis a história de dona Ada. Lembrada aos poucos, com algumas reticências, mas plena de sua verdade.

Primeiro é preciso que se diga que esta senhora de 85 anos deseja mais do que apenas contar-se. Ao falar de si mesma, Odair Carvalho Cruz, dona Ada, espera descrever um momento histórico, um país, o DNA de uma região, uma história de pioneiros desbravadores. A história dos seus, a sua própria história.

Nascida em Cambará, no Paraná, em 1928, Ada se transferiu para Paranavaí com 16 anos, em agosto de 1944, nos dias tristes da segunda grande guerra. Filha mais velha da família Gomes Carvalho, mudara-se com os pais, mais três irmãos, de Arapongas para o pequeno povoado que originou Paranavaí. À época com o nome de Fazenda Brasileira, o lugarejo pertencia à comarca de Apucarana, distrito de Mandaguari.

Naquele mesmo ano, em dezembro, o padre João Guerra rezou a primeira missa na casa dos pais de Ada, pois nem mesmo capela havia no povoado. Waldomiro e sua mulher Paulina haviam rumado para o novo destino em busca das glebas ofertadas para famílias de desbravadores por Manoel Ribas, então governador do Paraná. “Era uma área de mata e nossa primeira casa foi um rancho de madeira, chão de terra e teto de zinco.” A fila para adquirir as tábuas com que levantar as primeiras moradias era longa, e o trabalho certo para seu José Ebiner, dono da primeira serraria. “As casas naquela época eram cobertas de tabuinhas. Antes de amanhecer o dia e até altas horas da noite se ouviam marteladas nas construções”.

A família plantava para a subsistência, mas aos poucos foi melhorando de situação, mudando-se para casa nova. O rancho acabou cedido para o sargento Marcelino, transferido de Curitiba, e primeiro delegado do lugar. Ada lembra que, como não havia delegacia, o primeiro homem que Marcelino prendeu teve que ficar amarrado a uma árvore, com uma corrente. “Era minha mãe que levava água e comida para ele...”

Para diminuir a penúria dos que chegavam o Estado mandou construir uma casa grande, chamada de Migração. Ali havia um alojamento provisório para as famílias, e o sargento também foi morar lá. Com entrada separada, uma sala foi destinada ao primeiro presídio.

Naqueles primórdios de Paranavaí não existia escola, igreja, farmácia ou qualquer serviço de saúde no povoado. Sequer havia onde comprar alimentos. Antes de Leodegário Patriota abrir o primeiro armazém, as mercadorias vinham de Londrina, em um caminhão do Estado, e era nessa venda móvel que as pessoas compravam arroz, feijão, charque, banha, açúcar, sal, café. Os meios de comunicação também eram escassos, pois só havia um rádio amador, pertencente ao Estado.      

Ada foi catequista na Fazenda Brasileira e também sua primeira professora estadual. Para dar aulas, dividia a única sala com a única professora municipal, Ruth Doubek, que mais tarde se tornaria sua cunhada. “Era para eu ir trabalhar em Arapongas, mas preferi ficar ali, onde não tinha escola. A minha posse em Londrina foi assinada pelo então delegado de ensino, Newton Guimarães.”

A jovem educadora havia estudado em Cambará até o ensino complementar, que era a escola primária, com duração de quatro anos, acrescida de mais um ano de estudos. O ginásio era para poucos, e nem havia um na sua cidade natal, mas o que Ada sabia já era muito, naqueles anos em que o índice de analfabetismo chegava a 70%.

As duas professorinhas recebiam o salário em Apucarana, e às vezes iam buscar o dinheiro de caminhão, pois o ônibus passava pela Fazenda Brasileira só a cada 15 dias. “Os moradores, que sabiam o dia e a hora da chegada da jardineira ‘Catita’, corriam para receber os que chegavam e também para pegar as correspondências trazidas pelo motorista e cobrador”.

Para ajudar na preparação das aulas, quando ia para a cidade, Ada comprava livros e jornais. “Eu ganhava 140 mil réis, e com isso dava para a gente viver. Queria ter algo mais para me basear, além da ‘Cartilha do Povo’, que a gente usava naqueles tempos. Eu gostava de ensinar as crianças e também dava aulas de religião, de trabalhos manuais. Elas aprendiam a cantar os hinos, o nacional, o da independência, o hino à bandeira...”

No começo, eram poucos alunos, com idades entre oito e 15 anos. Mas como os pais, que não sabiam ler e escrever,  queriam que os filhos estudassem, logo havia uns 30 na sala  de aula. “A primeira escolinha funcionava num cômodo da casa do Sr. Doubeck, o inspetor de terras. Arrumamos um quadro-negro e com caixotes fizemos a mesa. Os bancos foram feitos com tijolos e tábuas velhas. As aulas eram de segunda a sábado, e os alunos traziam de casa um caldeirãozinho com comida. Era bóia fria mesmo,  o que eles comiam.” Foi só mais tarde que a escolinha ganhou um nome: Escola Isolada Colônia Brasileira. E uma sede, no prédio em que estava em construção o Hospital Santa Casa, na Praça Silvio Vida.

A coordenação motora dos estudantes às vezes era precária, e Ada tinha que segurar a mão deles para ensiná-los a escrever. “Enquanto uns faziam alguma tarefa, eu ajudava os outros. Era tudo feito em um só ambiente, mas tudo corria bem, os alunos respeitavam muito as professoras, queriam imitar o que elas faziam. Não é como hoje, que professor corre até o risco de apanhar de aluno...”
A saúde das famílias era precária. Havia gente que sofria com anemia, amarelão, ferida brava, vermes. “As crianças andavam descalças e como a areia da região era quente demais, queimavam a solinha dos pés, se contaminavam...”

Só mais tarde, quando construíram o primeiro posto de saúde, o povoado passou a contar com um médico, o Dr. Aguilar Arantes. Com o tempo também abriu a primeira farmácia, que era de João Machado, um senhor de Minas Gerais. “O primeiro caso de câncer de que me lembro foi de uma moça chamada Catarina, que acabou morrendo. Ela não tinha nem cama em casa, ficava deitada sobre um colchão de palha, no chão...”

Mas o trabalho de Ada jovenzinha não se limitava à escola. “Ajudava a mãe nas tarefas de casa, cuidava dos animaizinhos. A água a gente pegava em um ribeirão,  o local  enchia de gente com trouxas de roupa para lavar. Para beber e para cozinhar, a água era buscada em uma mina, localizada no atual Jardim Ouro Branco”.

Entre os acontecimentos que marcaram a comunidade, Ada se lembra de um fato inusitado. Foi em 1949, quando um avião de quatro motores, que vinha da China para o Paraguai, com fugitivos da Segunda Guerra, aterrissou na Fazenda Brasileira.   “Como estava escurecendo, o Dr. Otávio Marques Siqueira reuniu as pessoas que tinham carro e foram iluminar um local que poderia servir de pista para o pouso. O Dr. Siqueira escreveu num papelão a palavra ‘Brasil’, pois eles não sabiam onde estavam e o combustível estava acabando.”

Mas os dias da professorinha em Paranavaí, também terminaram. Em 1948 ela se casou com o alfaiate Gentil Cruz e logo foi viver com o marido em Mandaguaçu, tendo que pedir transferência. “Na nova escola o salário demorou sete meses para sair, mas quando veio, deu para a gente comprar um terreno, no centro, e construir uma casa, com cinco cômodos grandes. Naqueles dias, com salário de professor, dava para viver melhor do que hoje. A profissão foi muito desvalorizada com o passar dos tempos”.

Com os anos, vieram os filhos, sete no todo. Só que a nova família não ficava muito tempo em um lugar. Uma das mudanças foi para Curitiba, porque Ada adoecera, e como não havia saúde pública, nada parecido com o SUS, foram em busca de tratamento médico.  Foi na capital paranaense que nasceu Clayr, a filha que agora testemunha esta viagem da mãe pelo tempo vivido. “Minha mãe é, antes de tudo, uma mulher de fibra, de valor imenso frente às necessidades básicas das comunidades em que viveu”.

Clayr lembra que Ada, além de dar aulas na escola, também abria as portas de casa para ensinar. Na varanda, com a ajuda de um quadro-negro, oferecia a luz das letras e da leitura para analfabetos, muitos deles trabalhadores em fazendas de café e estivadores.  “Especialmente no seu voluntarismo, como alfabetizadora e como parteira, minha mãe é um exemplo de gente útil. O mais incrível e que ela além de trabalhar, cuidar da casa e filhos, bordava, costurava, tricotava, fazia cortinas e almofadas para casa de gente rica, confeitava bolo da quermesse... Essas mulheres lutadoras tinham mesmo muita disposição.”

Disposição e coragem para tantas andanças por cidades diferentes, sempre em busca condições dignas de vida para a família. Mas foi em Curitiba que Ada deu novo rumo para sua vida de trabalhadora. Ali, fez o curso de enfermagem obstétrica e passou a trabalhar em hospitais, ajudando a trazer pequeninos ao mundo.
Antes de estudar, ela já havia feito partos no interior, e ainda se lembra quanto foi difícil o primeiro deles. “Não tinha ninguém para ajudar aquela parturiente, e eu fiz o que podia,  sozinha, apenas com a ajuda do marido da moça. Ela tinha em casa o livro ‘Médico do Lar’, e o marido ia lendo para mim, aos   poucos,  como eu devia fazer o parto da mulher dele.”

Depois dessa prova de fogo, Ada foi parteira voluntária nos vários lugares em que viveu. “Vinha gente de longe, de carroça, de madrugada, me pedir ajuda”. De alfabetizadora a parteira, trouxe à luz, ao longo da vida, mais de 20 mil criancinhas. “Em São Paulo, houve um período em que fiz mil partos em 11 meses. Teve uma vez que, depois do plantão noturno, tive que dobrar o turno. Naquele dia, das 6 às 13 horas, foram 16 partos”.

A ida para a capital paulista acontecera por um motivo doloroso, a perda de um filho de 19 anos, morto em um acidente em Curitiba, no dia do aniversário de Clayr. “Para não perpetuar o sofrimento, saímos dali, fomos para São Paulo. Meu marido voltou a ser alfaiate e eu trabalhei nos melhores hospitais daqueles tempos. Até no Samaritano, fundado por ingleses, que servia café e chá em serviços de prata. Trabalhava muito, mas fazia tudo com amor. Chegava a fazer turnos de 36 horas seguidas, com 12 de descanso.”

Naqueles dias, não existia o Sistema Único de Saúde, o SUS, e o atendimento público de saúde era através do INPS. “Por uma questão de lucro, havia hospitais privados que  forçavam a dizer que o parto tinha que ser cesáreo. Lembro uma vez que o médico chegou atrasado para atender uma parturiente,  na hora  que o bebê já estava com o cabelinho de fora. Ele empurrou o nenê de novo para dentro, só para fazer a cesariana, que custava mais, e era feita só por médicos. Fez o corte no ventre da mãe assim mesmo, e ainda ficou xingando, jogou a placenta na parede,   bravo comigo, pois quando ele chegou eu já estava fazendo o parto natural. Mas não fiquei quieta, falei com o diretor do hospital, e esse médico foi afastado.”

Nem todos, porém, eram como esse médico e, no seu trabalho, Ada em geral era muito respeitada. “Quando os médicos novinhos faziam residência, pediam para eu dar aula para eles, com a experiência que eu tinha. Diziam que eu sabia de parto mais do que muito médico.”

Depois de conhecer uma saúde toda privada, Ada acha que mesmo com todos os entraves no SUS, hoje a situação é muito melhor. Ela mesma só deixou de trabalhar como enfermeira porque, nos últimos cinco anos de trabalho,  esteve afastada por motivo de saúde. “Na época me aposentei com 20 salários, mas agora ficaram reduzidos a três, coisa triste depois de tantos anos de trabalho, pois hoje não posso nem ter convênio médico”.

A vida de aposentada, no entanto, não fez Ada parar em um só lugar. Por vários motivos, às vezes para ajudar um filho, às vezes para cuidar de um neto, girou mundo Brasil. Viveu  de novo em Curitiba, depois no Rio de Janeiro,  em Dourados, (no Mato Grosso),  Porto Seguro (na Bahia), até fincar os pés em Florianópolis, há 14 anos.

Olhando para o caminho trilhado, Ada pensa que sua vida foi quase sempre só trabalhar. “Minha juventude passou quase sem nenhuma distração. Os poucos momentos de lazer eram  quando  a gente se reunia e o  pai da Ruth, minha colega professora, tocava violino... Ou quando,  nos dias festivos, na Fazenda Brasileira, as pessoas acordavam com a Alvorada, para ouvir a banda de música criada pelo seu Acácio de Oliveira Andrade.”

Saudade? “Sim, sinto saudade de tudo que vivi, com erros e acertos, pois foi uma vida plena. Tanto na educação como na maternidade, trabalhei onde está começando a vida, e isso sempre alimentou minha esperança de que tudo pode ser diferente, melhor do que hoje. Por isso é que sou otimista. Até porque, pensando bem, quando olho para trás, vejo que com muita dificuldade e sem material de trabalho, eu e minha colega Ruth, hoje minha cunhada, construímos o alicerce do ensino público de Paranavaí”.

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