segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Cotas sim! Por quê?

Por Marcela Cornelli

Moro em uma comunidade pobre do Maciço do Morro da Cruz, trabalhava em uma rede de supermercados e, quando meu filho mais velho tinha 9 anos, voltei a estudar. Com as cotas pude entrar na universidade. Ao pedir as contas do meu emprego fui questionada: ‘mas você já não tinha um emprego?’, ‘o que está fazendo agora?’ Agora não carrego mais caixas. Vivo de bolsa. Sou estudante. Até para meu marido não foi fácil explicar que eu não iria mais trabalhar, iria estudar. Esta é a difícil condição da mulher, negra e pobre na nossa sociedade”, conta Luciana de Freitas Silveira estudante cotista de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e do 4P - Poder para o Povo Preto/UFSC. A história de Luciana se repete Brasil afora. Com a instituição das cotas nas universidades em 2003, um passo importante para grandes mudanças foi dado.

“As cotas estão dentro de um projeto maior: as políticas de ações afirmativas. Quem precisa se afirmar? Os grupos sociais e/ou étnicos que foram historicamente excluídos, em virtude do processo de modernização da sociedade que é excludente, como apontam estudos. No caso brasileiro, os africanos escravizados e as sociedades indígenas foram as ‘vítimas preferenciais’, pois durante muito tempo foram vistos pelos colonizadores e seus descendentes como seres inferiores intelectual e fisicamente”, aponta o professor da Universidade Federal de Pernambuco, José Bento Rosa da Silva.

“As cotas étnicas nas universidades são reivindicações que remontam a década de 40 e 50. É bom lembrar que outros países já estabeleceram cotas, como os EUA, a partir da luta pelos direitos civis dos negros nos anos 60. E o que foi a criação do Estado de Israel em 1948? Uma espécie de reparação pelo que os judeus sofreram no decorrer da segunda guerra mundial. Portanto, temos precedentes de ações afirmativas, de ações reparadoras. As cotas são isso também na história contemporânea”, resume o professor José Bento.

“Os negros foram expropriados e sequestrados para trabalhar em outras nações. A população negra ficou excluída de todas as políticas que pudesse levá-la a um processo de igualdade. Por isso, se exige a reparação e direitos fundamentais como saúde, educação e habitação, que lhes foram negados nestes anos de história. As cotas são parte desta reparação”, diz Maria de Lourdes Mina, Lurdinha, militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

Lurdinha lembra que 52,8% da população brasileira é negra e que as cotas vão atender cerca de 12% desta população. “Uma parcela ínfima. As cotas vêm para minimizar a desigualdade e promover parte da equidade. Vamos ter um país que promove a igualdade e discute com a sociedade as desigualdades existentes”.

“Um amigo me disse outro dia que antes, ao andar pela UFSC, não avistava negros. Estamos nos vendo mais dentro da universidade. É o negro se empoderando na universidade e isso assusta porque não se tem um debate mais profundo, ou por desconhecimento ou por medo. Quando me apresento como cotista, há um silêncio na sala. Ninguém quer debater a importância disso, nem o professor, nem os demais alunos. Ainda há muito preconceito racial que é estrutural no meio acadêmico”, opina Luciana.

“Os estudantes cotistas sofrem com o preconceito, principalmente em algumas regiões mais conservadoras do Estado”, diz Ticiane Caldas de Abreu, estudante cotista do curso de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Ticiane trabalha em um projeto em várias regiões de Santa Catarina que tem o objetivo de ajudar os alunos cotistas pedagógica e psicologicamente. Ela também acredita nas cotas como forma de reparação dos anos de desigualdade racial e social. “Na sociedade brasileira, a desigualdade social também tem cor, por isso, não podemos abandonar o discurso de raça no conceito de desigualdade social”.

Como manter o sistema de meritocracia, se não fomos tratados de forma igual? Quando o negro foi liberto, não lhe foi dado qualquer condição de trabalho. Como os negros eram considerados mercadorias, a lei os tratou como mercadorias. Mesmo libertos, trabalhavam em troco de comida e não tinham acesso à educação, reforça Wilson Martins Lalau, representante do Sinergia.

Historicamente, o Movimento Negro Unificado defende a reparação. África foi espoliada. Os europeus usurparam do povo africano peças de arte e diamantes que dariam para matar a fome do Continente. Os reflexos desta usurpação e do racismo pelos povos ocidentais europeus na África deixaram marcas até hoje. O que se vê nas grandes cidades é que a maior vítima de crimes, violência e das ações da polícia é a população negra, bem como a que tem menos acesso à saúde, educação de qualidade e, consequentemente, aos melhores empregos, diz Lalau.

Até então qual era o papel do negro na sociedade? O lugar do negro era no chão de fábrica, na cozinha. Sempre fomos vistos na condição de empregados e agora estamos nas universidades, reforça Lurdinha.

No entanto, para Lalau, apesar do sistema de cotas aprovados, o Brasil não tem uma política de fato de combate ao racismo. Exemplo disso é a Lei 10.639 que institui o ensino sobre a história da África nas escolas e até então não foi implementada. Enquanto não houver um ensino que comece a trabalhar estas questões na educação do país, não vamos avançar mais. Na sua opinião, quando os movimentos tentam se organizar para lutar, a exemplo também do movimento indígena, há uma forte criminalização dos mesmos por parte dos governos, o que impede também que a lute avance.

Cotas no serviço público também são formas de reparação
Além das cotas nas universidades, foi aprovada neste ano a lei que institui cotas nos serviços públicos. Para Lurdinha, as cotas nos serviços públicos são um avanço apesar de serem restritas ao executivo, deixando o legislativo e o judiciário de fora. Ainda há muito pelo que lutar. Já o professor José Bento, lembra que estes grupos não entrarão sem concurso público, mas será um concurso dentro da sua especificidade, dentro do pressuposto de tratar diferentemente os diferentes, até porque, os diferentes geralmente são tratados como desiguais, socialmente falando. Então as cotas visam suprimir as desigualdades, não as diferenças humanas.

No Estado de Santa Catarina andamos a passos lentos
Em Santa Catarina, não há uma política para a população negra.  Há poucas oportunidades para as crianças pobres e negras. Em Florianópolis, cinco colégios que atendiam a esta parcela da população foram fechados, a exemplo do Celso Ramos e do Antonieta. Foram fechados de forma intencional, impossibilitando estas crianças que ali estudavam de acessar a educação pública, diz Lurdinha. Ela lembra que os movimentos sociais e sindicais defendem outras bandeiras além das cotas, como o fim da violência policial e o genocídio da população negra e indígena no país e a titulação das terras das comunidades quilombolas. É um enfrentamento direto com os latifundiários, com o agronegócio, com grandes empreiteiras que querem as terras para construir grandes empreendimentos.

Só vamos mudar esta realidade através da educação. Quem hoje no país tem uma educação mais crítica, que compreenda as relações de poder, que debata outro modelo de sociedade? Sem uma educação com senso crítico da sociedade em que vivemos, não se pode fazer mudanças profundas, reflete Lurdinha.

O professor José Bento também avalia que solução está na educação. É preciso educar para outras maneiras de conceber e ver o mundo. O modelo ocidental, capitalista não dá conta das nossas diversidades. É preciso elaborar outras epistemologias, outras maneiras de conhecer e conceber a sociedade e a vida do ser humano. Isso pode se fazer com políticas macro e micro, ou seja, nos sindicatos, associações, entidades de classe, movimentos sociais, etc., finaliza.

Fonte: Revista Previsão nº 7  agosto 2014

sábado, 10 de maio de 2014

A memória perdida dos rios desaparecidos

Rio da Bulha engolido sob a boca-de-lobo

Rio do Carreirão no único trecho visível em local público

Míriam Santini de Abreu, jornalista

Eu tenho 21 graus de miopia e, mesmo com lente de contato - de um tipo que não corrige os outros 3 graus de astigmatismo – enxergo mal. Lembrando do belo dito de Eduardo Galeano, preciso que as pessoas me ajudem a enxergar. É impressionante a quantidade de coisas que passam batido pelo meu registro visual. E neste sábado, 10 de maio, muita gente me ajudou a enxergar coisas que eu nunca tinha visto. Participei da 5◦ Caminhada Jane Jacobs Floripa, unindo-me a umas 30 pessoas que não ficaram com medo da chuva. Jacobs, a jornalista, escritora e ativista política, autora do belo livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”, deve ter sorrido.
Começou já na Avenida Hercílio Luz, onde pela primeira vez vi o mural “A Festa”, do artista plástico Rodrigo de Haro, na fachada do Clube 12. Nunca havia enxergado aquela obra! E depois, ao longo da caminhada, foi a vez de enxergar os rios que diferentes administrações enterraram sob lajes porque deles não quiseram cuidar. Fomos descobrir os rios da Bulha e do Carreirão, aquele o primeiro a abastecer a antiga Desterro, e em 1922 canalizado para a abertura da Avenida do Saneamento, hoje a avenida Hercílio Luz. Ah, a memória perdida dos rios... Do Rio da Bulha ouvi o murmúrio, as águas engolidas passando sob uma boca-de-lobo.
Depois me ajudaram a enxergar o Rio do Carreirão, na Presidente Coutinho, no trecho entre a Esteves Júnior e a Gama d’Eça. Passei algumas vezes por aquele local e nunca havia notado o único trecho desse rio ainda visível em local público. Fora esse, o rio só pode ser visto atrás da Casa Rosa, e agora é mais uma vez vítima da gula imobiliária do... Ministério Público de Santa Catarina! Essa história é muito bem contada em artigo do arquiteto Gustavo Pires de Andrade Neto (veja abaixo) e virou alvo de uma CPI na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (http://www.deputadojailson.com.br/noticias/1605/cpi--para-o-bem-do-ministerio-publico).
Em outro trecho, dentro da área do Exército na Bocaiúva, sobrou visível, do antigo traçado, apenas uma antiga ponte metálica. E por fim enxerguei o ponto exato das águas da Baía Norte onde esse rio tão importante para a antiga Desterro encontra o mar, depois de ter o trajeto e as águas violadas pelo descaso.
Bela iniciativa, a Caminhada Jane Jacobs Floripa, para nos ajudar a enxergar a cidade pela qual passamos e da qual às vezes tão pouco percebemos, e as obras, como o enterro dos rios, que ainda vão afetar a vida de todos nós.

VEJA O VÍDEO DA CAMINHADA EM:


O “riacho da Malária”, o Ministério Público e os 123 milhões de reais

Gustavo Pires de Andrade Neto, arquiteto

“Riacho da Malária”, rio do Carreirão, ou canal da Rio Branco, são diferentes nomes de um antigo curso d’água que por décadas passou tranquilo pelo centro de Florianópolis. Sua existência já era reconhecida no Plano da Vila de Desterro de 1777 e o seu percurso ganhou mais precisão na Planta Topográfica de 1876: nascia em algum lugar próximo ao atual Ceisa Center e era o coletor natural das águas que seguem pela Gama d’Eça até a Casa do Barão, onde se desviavam até passar pela Travessa Carreirão e desembocar no mar.

A cidade foi sendo urbanizada e o riacho, canalizado. Os curiosos que queiram conhecer o Rio do Carreirão ainda podem vê-lo passar a céu aberto espremido entre edifícios da rua Presidente Coutinho, entre a rua Esteves Júnior e Avenida Gama d’Eça, ou talvez nos fundos de um imóvel na travessa de mesmo nome, próxima à avenida Beira Mar.

Hoje, este mesmo riacho que cruzava as chácaras da elite local de outrora, está no centro de uma polêmica que relaciona questões ambientais e urbanísticas, a defesa do interesse coletivo e suspeitas de corrupção por parte da Prefeitura de Florianópolis e do Ministério Público de Santa Catarina. Tal riacho cruzava o quintal arborizado da “Casa Rosa”, na Avenida Bocaiúva, onde um edifício comercial, ainda a ser construído, foi comprado pelo MP pelo valor de 123 milhões de reais.

A polêmica se deve basicamente a irregularidades no licenciamento da obra e ao escandaloso valor de compra, envolvendo questões técnicas e políticas: suspeita de superfaturamento; alto custo do imóvel; compra sem licitação; licença de construção expedida no “apagar das luzes” do governo Dário, em desacordo com estudo ambiental da Floram (que nem chegou a ser concluído); corte de dezenas de árvores; desvio de curso d’água; falta de aprovação dos departamentos de patrimônio histórico antes do início das obras; etc.

Uma CPI acaba de ser criada na Assembleia Legislativa e deve investigar a compra do imóvel pelo Ministério Público. A investigação sobre o MP, inédita no Brasil, tenta pôr luz sobre pontos obscuros da negociação: valores de referência do m2 superestimados; potencial construtivo sobredimensionado; dúvidas sobre a data da formalização da compra (oficialmente do final de 2012, mas há indícios de que negociações ocorriam pelo menos desde 2010). Segundo notícia veiculada pelo Jornal Diário Catarinense de 7 de maio, o próprio Conselho Nacional do MP suspendeu o contrato com a construtora e os pagamentos, o que supõe que o processo de compra do imóvel poderá ser revisto. No entanto, a obra não foi paralisada.

Algumas questões urbanístico-ambientais do projeto aprovado, por outro lado, permanecem obscuras e não se extinguirão até que a Prefeitura suspenda (de novo) a licença de construção. Vamos nos concentrar em algumas destas questões e contrastá-las com o projeto aprovado no final de 2012. O resultado é impressionante. O projeto não apenas subverte pareceres ambientais e de proteção ao patrimônio contrários à obra, como transcende as próprias solicitações da construtora manifestadas à Prefeitura, indo além do analisado tecnicamente e do discutido juridicamente. Vejamos alguns casos.

A polêmica “rio x esgoto” – Uma guerra de nomenclaturas esteve presente em todas as fases do licenciamento. Enquanto a Floram adotava o nome “Canal da Rio Branco” nos seus estudos e sempre exigiu o afastamento de no mínimo 15m em cada margem do curso d’água (com apoio do próprio Ministério Público, à época), a construtora em todos os documentos técnicos se referia ao canal como “esgoto” ou fazia alusão à alcunha “Riacho da Malária”. Assumindo que um rio deve ser protegido e ter as suas margens não-edificáveis (o que fatalmente reduziria o potencial construtivo e os lucros esperados com o empreendimento), o primeiro argumento da construtora foi negar o reconhecimento de que aquele fosse um rio. Após o embargo judicial que suspendeu a obra, a defesa da construtora misturaria este argumento com outro, o de que o rio em questão se encontraria antropizado. Tanto se fosse um esgoto ou um rio vítima da urbanização voraz da cidade, a construtora defendia que o canal da Rio Branco não merecia ser protegido.

Da simples cobertura do canal ao desvio do curso d’água – Mesmo aceitando o (ambíguo) argumento da construtora, o seu pedido inicialmente manifestado à Prefeitura não corresponde ao que se vê no projeto aprovado. O solicitado e analisado (objeto tanto de parecer técnico privado quanto do inconcluso estudo da Floram), era a simples “cobertura do canal”, mantendo a sua seção de 2m de largura e também solicitava a dispensa do afastamento de 15m. O projeto, no entanto, vai muito além. O projeto desvia o canal (que continua pelo terreno vizinho, atual quartel do exército, onde se vê nos jardins da frente as lajes de concreto que cobrem o canal, os antigos pontilhões de alvenaria que o cruzavam e até mesmo uma antiga ponte de ferro) e encaminha as suas águas diretamente para a rede de esgotos na avenida Bocaiúva, passando em seção fechada (reduzida a 1,5m), pela lateral do primeiro subsolo, como se pode ver no corte do projeto do edifício. Tal medida deve-se a necessidades do layout do projeto arquitetônico. Para viabilizar a construção de três subsolos de garagem, as águas enclausuradas não poderiam passar perpendiculares ao edifício, mas ao seu lado. Ou seja, não satisfeita com poder desconsiderar afastamentos, a construtora pretende desviar as suas águas e conectá-lo ao esgoto (enquanto a conexão não fica pronta, a obra utiliza uma bomba para retirar água que continua chegando pelo córrego e a armazena em três grandes reservatórios). Juridicamente, a questão fundamental é que os pareceres técnicos usados pela construtora (de 2010 e 2011), se referiam a questões específicas solicitadas previamente (cobertura do rio e dispensa de afastamento) e não ao desvio do riacho e conexão à rede de esgoto, algo novo que surgiu no projeto aprovado e que não foi objeto de análise dos estudos de impacto ambiental.

De curso d’água a esgoto: os riscos – Além da irregularidade jurídica, a licença concedida sem base em estudo técnico apropriado traz riscos ao esgotamento hidro-sanitário da região. O Canal da Rio Branco faz a drenagem de uma área de cerca de 370 mil m2 do centro de Florianópolis, o que supõe um enorme volume de água nos dias de chuva. A conexão de águas pluviais ao esgoto pode provocar um colapso da rede. Se há suporte para tal, deve ser feito um estudo neste sentido que o comprove. Mas, como vimos, este tema não foi previsto pelos estudos feitos em 2010 e 2011. Curiosamente, a solução é inversa à típica ilegalidade cometida em Florianópolis de se conectar esgotos ao coletor de águas pluviais. Neste caso, consentida pelo município, que aprovando o projeto, acabou por decretar a extinção do riacho.

O direito de construir x a função social da propriedade: a questão de fundo – Caso fosse respeitado o afastamento de 15m em cada margem do rio, como determinado na Lei nº 6.766 /79, o potencial construtivo do terreno seria bastante limitado, o que teria como efeito direto a redução dos lucros esperados pela construtora com o negócio, como já foi dito. Cabe lembrar um outro tipo de afastamento que incide e limitaria o projeto: o afastamento de 20m desde a fachada dos fundos da Casa Rosa, um bem tombado. É esse o afastamento mínimo exigido, de acordo com os pareceres dos órgãos de patrimônio histórico consultados. Tal afastamento, não é seguido no Termo de Compromisso assinado entre o município e a construtora. O termo alega questões de volumetria para estabelecer que o novo edifício esteja no mesmo alinhamento dos edifícios da Casa do Barão, o que resultaria em um afastamento de apenas 10m entre os fundos da Casa Rosa e a fachada do novo edifício. É absurdo que o município tenha proposto que um critério menos restritivo tenha se sobreposto ao mais restritivo (de patrimônio histórico). Se fosse respeitado o afastamento de 20m e mantido o gabarito, isso implicaria em uma redução da área de todas as lajes do empreendimento, com grande impacto sobre o valor geral de venda do imóvel. O potencial construtivo do imóvel poderia estar sobredimensionado também de acordo com outros critérios. Cabe lembrar que os estudos de viabilidade realizados em 2005 permitiam um potencial construtivo de 12 mil m2 para o terreno e que o projeto aprovado em 2012 prevê uma área construída de 20 mil m2. O que se vê é que o direito de construir do proprietário prevaleceu em todos os casos, em detrimento do meio ambiente e da proteção ao patrimônio histórico. Não deveria ser assim. A função social da propriedade, regulamentada pelo Estatuto da Cidade, implica ônus ao proprietário, como restrições de exercício do direito de construir. Foi garantida na Constituição justamente para promover o aproveitamento racional e eficiente, com a adequada utilização dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente. A função social é inerente ao exercício da propriedade.

Tanta polêmica deveria servir a uma reflexão mais ampla sobre urbanismo e meio ambiente, que não se limite a “permitir” ou “proibir” a construção do edifício, ou à “compra” ou “não compra” pelo MP. É lícito que a construtora recorra ao caráter antropizado do rio como argumento para flexibilizar as restrições ambientais. O papel dos rios urbanos, muitos deles “invisíveis”, debaixo de ruas e edifícios, é uma discussão pendente que, no entanto, deve ser coletiva e liderada pelo poder público, e não manipulada para auferir ganhos imobiliários privados. Sem uma política de macrodrenagem em Florianópolis e um Plano Diretor para os cursos d’água, os critérios para as decisões e os parâmetros para ocupação serão sempre arbitrários, pontuais e sujeitos a variações, de acordo com a persuasão do poder econômico e a complacência do município.


Quem deveria mediar o debate entre a sociedade, o município e a legislação ambiental? Quem defende o interesse coletivo difuso em um caso como este? Como é sabido, o papel cabe em grande parte ao Ministério Público. Advogado e réu, neste caso, colocando-nos diante de uma equação atípica. No entanto, já sabemos que sem atender ao interesse público, o desenvolvimento imobiliário privado segue a sua própria lógica. Busca a todo custo maximizar o potencial construtivo dos seus empreendimentos, ainda que o resultado empobreça as cidades... e transforme os rios em esgotos.

domingo, 27 de abril de 2014

Terra aprisionada: quilombolas proibidos de plantar fazem Ato em São Roque, no Sul de SC


Míriam Santini de Abreu, jornalista
Fotos: Marcela Cornelli 


A Comunidade Quilombola São Roque realizou neste sábado, dia 26 de abril, um ato simbólico de ocupação de uma terra que era para ser dela, mas na qual ela não pode trabalhar. Os moradores, que vivem na localidade de Pedra Branca, em Praia Grande, sul do estado, roçaram o terreno e neste domingo semeiam hortaliças nele. Os dois gestos são uma resposta à pressão do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), que assinou Termo de Compromisso com a comunidade, mas voltou atrás no ano passado. Com o impasse, os moradores não podem plantar ali para se alimentar, sob pena de cometer crime ambiental.

Cerca de 36% do território quilombola, já delimitado pelo Incra, está sobreposto ao dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral. Por isso é preciso regulamentar o uso e o manejo da terra e dos recursos naturais. É isso que as famílias tentam fazer desde a década passada. Já são 18 Termos de Compromisso, um interminável vai-e-vem, e nenhuma resposta concreta para garantir a subsistência das famílias. É um processo de dar esperança para depois tirá-la. Essa dificuldade levou ao outro gesto feito neste sábado, o de devolução de sementes ao governo.

Há três anos a comunidade, através de um edital do governo federal, recebeu 200 sacas de sementes de milho e feijão. Mas a validade venceu, porque as famílias foram proibidas de plantar. Os grãos sem aproveitamento, deixados ontem na frente do Posto de Informações e Controle do ICMBio, também simbolizam a resistência às tentativas de expulsar as famílias do lugar.

A situação parecia se resolver no início de 2013, quando a presidência do ICMBio assinou mais um Termo de Compromisso com a comunidade. Mas, em 20 de maio, o presidente do órgão suspendeu o processo e alegou não reconhecer a sua própria assinatura no documento. O fato levou o Ministério Público Federal a abrir uma Ação de Execução (nº 5009890-88.2013.404.7204) contra o ICMBio para fazer valer o documento. Mas o Instituto mantém sua posição e continua a criminalizar os moradores. A expectativa agora é pelo julgamento do caso, que está na subseção da Justiça Federal em Criciúma.



Área mínima

Representantes de quatro comunidades remanescentes de quilombos e lideranças do movimento popular e sindical apoiaram ontem a luta das cerca de 30 famílias que vivem na Pedra Branca, em São Roque. Depois de um almoço comunitário, todos foram até a área pleiteada no Termo de Compromisso descumprido pelo ICMBio, de 41,5 hectares. Isso representa 0,0001% da área total dos dois parques e permitiria o plantio e a garantia de subsistência. Mesmo assim, não podem usá-la.

No Ato feito depois da roça do terreno, os moradores esclareceram que ali, muitos anos atrás, já se plantava para subsistência. A mata com o tempo se regenerou até o chamado estágio médio, e a lei diz que, sendo até esse estágio, as comunidades tradicionais assim reconhecidas podem fazer o manejo. Era isso que o Termo, aceito e agora negado pelo ICMBio, garantia.

Maria de Lourdes Mina, da coordenação estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), que desde os anos 2000 atua pelos direitos da comunidade, lembrou que há mais de um século, por sua forma de lidar com a natureza, a comunidade de São Roque é que preserva aquele lugar. Os dois parques só foram criados depois, a partir dos anos 1970. “Essa área que foi definida para uso dos quilombolas no Termo de Compromisso só se regenerou porque a comunidade respeitou a lei, e agora os seus direitos não são reconhecidos”, disse Mina.



Sem direito de plantar

A comunidade está fazendo um Abaixo-Assinado contra a posição intransigente do ICMBio, por entender que o rigor usado contra os quilombolas não se aplica aos grandes e médios proprietários da região e nem, de forma generalizada, aos de Santa Catarina e do país, caracterizando racismo ambiental. Já foi sugerido que as famílias saiam dos parques, e elas são constantemente acusadas de prejudicar a conservação da Mata Atlântica. Os estudos antropológicos feitos na área e os relatos dos moradores revelam que os quilombolas são alvos de constrangimentos morais, físicos e econômicos. A avaliação de Maria de Lourdes Mina é que nunca houve tantos ataques aos quilombolas como agora, mas também é certo: nunca eles haviam se organizado tanto para defender seus direitos.

No caso de São Roque, a ocupação tem cerca de 180 anos, ligada à economia escravagista na região entre os Campos de Cima da Serra e a planície costeira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No interior, onde estão as escarpas, vales e cânions da Serra Geral, praticava-se a pecuária extensiva, e na planície irrigada pelos rios que descem a serra se faziam, como hoje, os cultivos.

O relatório antropológico feito em 2006 por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com o Incra, é que caracterizou a identidade, historicidade e territorialidade dos quilombolas com a terra onde vivem. E ela é linda. Uma grande pedra branca se destaca entre os rochões vizinhos, com grandes porções de floresta e paisagens que atraem visitantes o ano todo. Mas os quilombolas enfrentam interesses econômicos e setores do movimento ambientalista, dentro e fora do governo, que querem gerir os parques nacionais e defendem a preservação da natureza sem qualquer presença humana, mesmo que o próprio governo federal tenha garantido a titulação das terras aos remanescentes das comunidades dos quilombos.

Apesar de estarem ali desde antes da criação dos parques e de terem uma relação ancestral com a terra, eles precisam de auxílio para garantir a subsistência. As cerca de 30 famílias que vivem hoje na localidade têm moradias precárias, algumas sem energia elétrica e com dificuldade de acesso. Recebem multas se plantarem, e até mesmo se deixarem cachorros entrarem no parque. Um morador foi multado em 2 mil reais por esse motivo. Para sobreviver, uma das alternativas é ser diarista em terras alheias.

Marcio da Silva Oliveira, 25 anos, cuja família mora na comunidade, teve que parar de estudar na sétima série e hoje trabalha no plantio de fumo e bananeiras em São João do Sul. “Eu quero plantar feijão, milho, verdura, esse tipo de coisa, mas se tivesse terra só da gente seria bem melhor”, diz o jovem.

Genito da Silva, 63 anos, que mora na Praia Grande, para onde se mudou depois que uma enchente na região arrasou a casa de seu falecido pai, atesta: “Aqui é o seguinte: se planta um quilo de feijão, colhe um saco de feijão, 60 quilos. Aipim e batata, nem se fala. A terra é boa. Aqui, trabalhou, tem o que comer, não passa mais fome”.

Enquanto aguarda a decisão da Justiça Federal em Criciúma, o povo de São Roque vai lutar, porque não pode mais viver da doação de cestas de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), se tem onde plantar. Vilson Omar da Silva, de 56 anos, em um discurso emocionado, disse que os quilombolas estão impedidos de manter sua forma de vida e sua cultura naquelas terras, mas o território é deles, de muitos anos. E não poder plantar é como estar exilado da terra sob os próprios pés. O Ato deste final de semana mostra que resistir significa nunca mais ter que destruir sementes porque a terra foi aprisionada.



Veja vídeos sobre o Ato de sábado na página da Pobres & Nojentas no YouTube:

A liberdade da terra: Ato no Quilombo de São Roque (SC) em 26 de abril de 2014

Ato denunciou racismo ambiental do ICMBio e a difícil situação da comunidade.



A liberdade da terra:




A liberdade dos homens:




A história da luta:




Com sementes, sem terra:



















segunda-feira, 14 de abril de 2014

Encontrando Johnny Depp

Durante a décima edição das Jornadas Bolivarianas, encontramos o ator Douglas May, que é sósia de Johnny Depp. Na entrevista ele conta como se encontrou com esse personagem e fala de seu interesse pela política.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Caminhada por memória, verdade e justiça

Veja como foi, em Florianópolis, a caminhada que lembrou o golpe civil-militar de 1964. Dia 01 de abril de 2014.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Para que jamais se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

Nesta terça-feira, 1º de abril, haverá Caminhada para lembrar os 50 anos do golpe civil-militar no Brasil e para repudiar todas as atrocidades cometidas na ditadura militar.
A concentração será na sede da União Catarinense dos Estudantes, na Rua Álvaro de Carvalho, nº 246, no Centro de Florianópolis, onde, às 16h, haverá mostra de cinema e exposição fotográfica. Às 17 horas a caminhada seguirá seu percurso e fará paradas em frente ao prédio da Farmácia Catarinense, onde era a livraria Anita Garibaldi, do PCB, e onde a repressão, em 1964, retirou os livros e os queimou na calçada; no Prédio da antiga FAED, onde funcionava o Centro de Informações da Marinha, base da repressão em Santa Catarina (CENIMAR); no Museu Cruz e Sousa, antigo palácio do Governo do Estado; encerrando as atividades na Esquina Democrática, no Centro da Capital, que tem sido um marco das manifestações desde os anos 1980. 

Para que jamais se esqueça. Para que nunca mais aconteça.
http://issuu.com/camilarodrigues86/docs/jornal-50_anos_do_golpe

terça-feira, 18 de março de 2014

Profeta para além do mundo



Texto e fotos: Míriam Santini de Abreu


O Seu Claico aparece no local onde trabalho quase todos os dias. Magro, olhos azuis intensos, calça e camiseta impregnadas de cheiro de suor, ele acumula uma quantidade imensa de papéis em diferentes pastas. Nós o chamamos de Senador, porque ele se auto-nomeou líder político nacional de um ou de vários partidos no Senado. O que sei de Seu Claico, além do sobrenome, Xavier Fernandes, é o nome dos pais e da rua e bairro onde ele mora na Capital, além do fato de ter um irmão. Ah, e a cidade onde ele nasceu, em SC.
Isso porque, sempre que chega, Seu Claico pede que carimbemos um ou mais textos seus e que façamos uma ou duas cópias desses exemplares, nos quais ele anexa sua carteira de identidade. Nota-se que o Senador, que está sempre a caminhar no Centro de Florianópolis e no campus da Universidade Federal, passa por vários órgãos públicos, e sempre há alguém que digita os escritos feitos à caneta, em letra espinhenta que se alastra nas linhas.  
Num deles, Seu Claico se auto-denomina técnico de futebol da Seleção Brasileira e lista suas contribuições ao futebol brasileiro e mundial, como: a bola leve profissional, as joelheiras acolchoadas, o apito profissional e as luvas para jogadores.
Em outro ofício, o Senador se auto-intitula chefe de segurança da UFSC e criador da Otasa (Organização dos Tratados do Atlântico Sul-Americano). Num parágrafo, ele acrescenta: “Eu, Claico [...] sou o criador das luzes a laser, do adubo orgânico, do macro-computador, do telefone com tela das cintas plásticas, as armas a laser, do aero-brazer, do carro do futuro, da linguagem comum para computação mundial, da imagem e som para computação mundial, dos telões, dos vidros planos, dos vidros impermeáveis, dos aços impermeáveis, do freezer, das agulhas a laser, da enceradeira que encera e lustra, enfim, ALELUIA, outras coisas”. Em outra carta, a Otasa vira uma organização dos trabalhadores do Atlântico Sul.
Dia desses, quando ele esteve aqui para fazer umas cópias e carimbar vários ofícios, pedi um cargo (uma carta revela que em 2012 ele me indicou, em ofício, vereadora, com mais umas três dezenas de nomes, incluindo o de Lygia Fagundes Telles e de um certo Beto Leão do Beco):
- Mas eu já te nomeei!
- Para quê?
- Para o STF!
- Mas Seu Claico... Eu vou ficar entediada no STF!
- Entediada?
- É... O dia inteiro trancada lá naqueles gabinetes! Que horror!
- Ah, tu não quer ficar entediada? Então pega a tua pasta ali e vai lá para fora, para a rua, porque tem um monte de problemas pra resolver!

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Muitos dos escritos do Senador são de sua lavra. Ele chega, cumprimenta (outro dia o cumprimento foi: “a bruxa tá solta!”. Houve uma tarde em que abriu a porta e anunciou: - Tem gente morando em cavernas aqui na cidade!), pede um cafezinho, senta e começa a escrever, sem parar de murmurar para si mesmo. Outros textos, que ele pede para reproduzir, já vêm digitados. Também seriam dele, e apenas digitados por seus colaboradores em órgãos públicos e entidades municipais, estaduais e federais, como revelam os carimbos nas folhas?
Carta dele de 2012, como diretor da UNICEF, mostra ser oportuno discutir, em nível mundial, a situação da criançada no mundo, nesses termos.
Outra de 2012, uma Nota Oficial, anuncia o casamento do Senador com uma certa senhora, cujo nome omito porque é conhecida na cidade. Ela decidiu, diz a nota, assumir um compromisso social com o cantor e compositor Clássico Fernandes, ou Claico Fernandes. Enlace matrimonial na Catedral da Sé e recepção no Clube Paulistano e no Iate Clube do Rio de Janeiro.
Há uma carta escrita por ele, à caneta, curiosa. O assunto é a denúncia do ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, que reclama de ofensas e calúnias propagadas pelo Senador e exige da Justiça Internacional dez trilhões de libras esterlinas.
- Eu acho ser um direito do Ressuscitado! – escreve o Senador.
Na carta ele se defende junto à Suprema Corte Internacional, especificamente ao Juiz Federal Paul Gallotti, se auto-intitula um vagabundo por morar onde mora (cita rua e bairro) e conclui:
“Até parece uma piada, morador de Barraco no Brasil é obrigado a pagar 10 trilhões de libras esterlinas a morador do bairro de Boston em New York em USA”.
Não localizei a segunda página desta carta no monte que guardo, de quase uns dez centímetros de altura, de ofícios entregues a mim pelo Senador. Mas encontrei uma carta já digitada, como o mesmo conteúdo, que assim termina:
“Sua Excelência, se observa o absurdo do assunto, uma vez que se o citado vagabundo tivesse dinheiro iria morar numa mansão, isso até parece piada”.

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O Senador, que se proclama O Dominador das Mídias, já oficiou no interesse da comunicação, como em uma carta de dezembro de 2010: “A liminar jurídica trata-se de agradecer Sua Excelência, a Senhora Presidenta da República, Dra. Dilma Roussef, pelo fato de confirmar aquilo que é de direito com relação à minha solicitação de concessão nos meios de comunicação de rádio e televisão convencional e em TV a cabo via satélite para o mundo bem como o direito de evitar o jornal do Claico e a revista do Claico em edição nacional e mundial, uma vez que eu me preocupo com o verdadeiro jornalismo e que, inclusive, por causa disso, já fiz algumas denúncias na Justiça Federal de Santa Catarina (cita o endereço), uma vez que meu conceito com relação à verdade contraria os interesses de terceiros”.

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Mais um diálogo com o Senador em dia de visita onde trabalho:
- Como vai a senhora?
- Bem, Senador, e o senhor?
- Bem, sempre me reinventando.
- Reinventando?
- Claro, todos os dias a gente tem que tem emoções e pensamentos novos.

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Quem digitar “Carta do Claico” na internet irá encontrar um blog que lançou a campanha “Em Busca das Cartas Perdidas” para fazer um compêndio sobre a vida e trajetória do Senador. Ele volta e meia pede que a gente consulte novidades sobre seus ofícios na internet, e recentemente passou a carregar consigo um pendrive com arquivos das cartas.
Foi nesse blog que encontrei um fato surreal sobre o resultado das andanças do Senador na cidade. Está no Diário da Justiça de Santa Catarina, Ano XLVI, Número 11.283, de 24 de setembro de 2003. Há um Despacho do Tribunal Pleno em Mandado de Segurança da Capital, no qual o impetrante é Claico Xavier Fernandes e impetrados o Governador do Estado e prefeito e vice de Florianópolis, São José e Palhoça.
O Juiz Relator inicia o Despacho indeferindo a “peça”, assim mesmo, citada entre aspas, “eis que se trata de um mero manuscrito disforme, ininteligível e sem qualquer sentido, nominado apenas como mandado de segurança”. O Juiz Relator menciona ainda o fato de a petição inicial não ter sido subscrita por advogado, mas pelo próprio impetrante, que já teria, conforme consulta no SAJ – Sistema de Automação do Judiciário, impetrado “outros mandados de segurança com pedidos teratológicos e desarrazoados”.
O Juiz Relator cita a decisão proferida em outro Mandado de Segurança, que por sua vez menciona um terceiro (!) no qual o impetrante é o mesmo, o Senador. A decisão é no sentido de o Poder Judiciário não perder mais tempo “com essas heresias, tanto doutrinárias como religiosas”, citando ainda que o impetrante não tem registro na Ordem dos Advogados do Brasil. Abaixo transcrevemos um trecho usado pelo Juiz Relator, citando um colega, para indeferir a petição inicial do Senador contra o governador e os prefeitos:
“Ora, do relato acima realizado, vê-se claramente a heresia do pedido formulado por Claico Xavier Fernandes, que em franco desrespeito para com o Poder Judiciário, tirando lugar de outros feitos que em seu lugar poderiam ser deslindados. É inadmissível que resida em juízo piada transvestida em processo que da simples tentativa de leitura ofenderia qualquer leigo, quiçá um julgador (?), que tem como função primordial a pacificação social, e não a apreciação da galhofa posta em juízo”.

***

No Mandado de Segurança impetrado no Judiciário estadual, o Senador se apresenta como “Senhor do Brasil Profeta Claico Fernandes do Universo Entidade Animal e Espiritual, Maior e Forte do Reino Unido Profeta Claico Fernandes do Brasil por ordem do Criador da Espiritualidade e do Cosmos e do Olimpo”.
Lembrei de um trecho do Evangelho de Tomé, no qual Jesus diz:

“Vim pôr Fogo ao mundo
e eis que hei de preservá-lo,
até que arda.”

O Nosso Profeta não veio buscar a pacificação social.



P.s: só um repórter-fotográfico de fato para retratar o Senador! Ele fez questão de posar para a foto que fiz, showman das mídias que é, como afirmam algumas de suas cartas. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Uma mulher dá à luz letras e pequeninos




















Por Raquel Moysés - jornalista
             
Manhã muito fria, chá fumegante nas canecas, três mulheres se encontram numa sala da Universidade Federal de Santa Catarina. Uma delas quer se contar. A outra, sua filha, espera que ela possa finalmente se contar. A terceira, repórter, tem a tarefa de narrar essa vida feminina feita de palavras, olhares, mãos que se movem, um rosto que expressa em linhas as tantas encruzilhadas desse “já tão longo andar”.

Mas, como falar de uma vida que amadureceu sem que tenha sido possível testemunhar a sua travessia?  A pergunta paira no ar quando a entrevista começa e, como sempre acontece quando alguém se confessa, o primeiro momento é de constrangimento.   Logo, porém, o chá aquece o peito e olhares sinceros se cruzam.  Nasce uma confiança, e a história se faz viva. Aos fragmentos, aos borbotões, talvez com lacunas e imprecisões, pois, a distância de anos, nem sempre é possível dizer tudo como exatamente aconteceu. Só não se perde a certeza de ter vivido, e é este sentimento que dá força às palavras desta mulher que se conta ao narrar a vida de um tempo.

Então, eis a história de dona Ada. Lembrada aos poucos, com algumas reticências, mas plena de sua verdade.

Primeiro é preciso que se diga que esta senhora de 85 anos deseja mais do que apenas contar-se. Ao falar de si mesma, Odair Carvalho Cruz, dona Ada, espera descrever um momento histórico, um país, o DNA de uma região, uma história de pioneiros desbravadores. A história dos seus, a sua própria história.

Nascida em Cambará, no Paraná, em 1928, Ada se transferiu para Paranavaí com 16 anos, em agosto de 1944, nos dias tristes da segunda grande guerra. Filha mais velha da família Gomes Carvalho, mudara-se com os pais, mais três irmãos, de Arapongas para o pequeno povoado que originou Paranavaí. À época com o nome de Fazenda Brasileira, o lugarejo pertencia à comarca de Apucarana, distrito de Mandaguari.

Naquele mesmo ano, em dezembro, o padre João Guerra rezou a primeira missa na casa dos pais de Ada, pois nem mesmo capela havia no povoado. Waldomiro e sua mulher Paulina haviam rumado para o novo destino em busca das glebas ofertadas para famílias de desbravadores por Manoel Ribas, então governador do Paraná. “Era uma área de mata e nossa primeira casa foi um rancho de madeira, chão de terra e teto de zinco.” A fila para adquirir as tábuas com que levantar as primeiras moradias era longa, e o trabalho certo para seu José Ebiner, dono da primeira serraria. “As casas naquela época eram cobertas de tabuinhas. Antes de amanhecer o dia e até altas horas da noite se ouviam marteladas nas construções”.

A família plantava para a subsistência, mas aos poucos foi melhorando de situação, mudando-se para casa nova. O rancho acabou cedido para o sargento Marcelino, transferido de Curitiba, e primeiro delegado do lugar. Ada lembra que, como não havia delegacia, o primeiro homem que Marcelino prendeu teve que ficar amarrado a uma árvore, com uma corrente. “Era minha mãe que levava água e comida para ele...”

Para diminuir a penúria dos que chegavam o Estado mandou construir uma casa grande, chamada de Migração. Ali havia um alojamento provisório para as famílias, e o sargento também foi morar lá. Com entrada separada, uma sala foi destinada ao primeiro presídio.

Naqueles primórdios de Paranavaí não existia escola, igreja, farmácia ou qualquer serviço de saúde no povoado. Sequer havia onde comprar alimentos. Antes de Leodegário Patriota abrir o primeiro armazém, as mercadorias vinham de Londrina, em um caminhão do Estado, e era nessa venda móvel que as pessoas compravam arroz, feijão, charque, banha, açúcar, sal, café. Os meios de comunicação também eram escassos, pois só havia um rádio amador, pertencente ao Estado.      

Ada foi catequista na Fazenda Brasileira e também sua primeira professora estadual. Para dar aulas, dividia a única sala com a única professora municipal, Ruth Doubek, que mais tarde se tornaria sua cunhada. “Era para eu ir trabalhar em Arapongas, mas preferi ficar ali, onde não tinha escola. A minha posse em Londrina foi assinada pelo então delegado de ensino, Newton Guimarães.”

A jovem educadora havia estudado em Cambará até o ensino complementar, que era a escola primária, com duração de quatro anos, acrescida de mais um ano de estudos. O ginásio era para poucos, e nem havia um na sua cidade natal, mas o que Ada sabia já era muito, naqueles anos em que o índice de analfabetismo chegava a 70%.

As duas professorinhas recebiam o salário em Apucarana, e às vezes iam buscar o dinheiro de caminhão, pois o ônibus passava pela Fazenda Brasileira só a cada 15 dias. “Os moradores, que sabiam o dia e a hora da chegada da jardineira ‘Catita’, corriam para receber os que chegavam e também para pegar as correspondências trazidas pelo motorista e cobrador”.

Para ajudar na preparação das aulas, quando ia para a cidade, Ada comprava livros e jornais. “Eu ganhava 140 mil réis, e com isso dava para a gente viver. Queria ter algo mais para me basear, além da ‘Cartilha do Povo’, que a gente usava naqueles tempos. Eu gostava de ensinar as crianças e também dava aulas de religião, de trabalhos manuais. Elas aprendiam a cantar os hinos, o nacional, o da independência, o hino à bandeira...”

No começo, eram poucos alunos, com idades entre oito e 15 anos. Mas como os pais, que não sabiam ler e escrever,  queriam que os filhos estudassem, logo havia uns 30 na sala  de aula. “A primeira escolinha funcionava num cômodo da casa do Sr. Doubeck, o inspetor de terras. Arrumamos um quadro-negro e com caixotes fizemos a mesa. Os bancos foram feitos com tijolos e tábuas velhas. As aulas eram de segunda a sábado, e os alunos traziam de casa um caldeirãozinho com comida. Era bóia fria mesmo,  o que eles comiam.” Foi só mais tarde que a escolinha ganhou um nome: Escola Isolada Colônia Brasileira. E uma sede, no prédio em que estava em construção o Hospital Santa Casa, na Praça Silvio Vida.

A coordenação motora dos estudantes às vezes era precária, e Ada tinha que segurar a mão deles para ensiná-los a escrever. “Enquanto uns faziam alguma tarefa, eu ajudava os outros. Era tudo feito em um só ambiente, mas tudo corria bem, os alunos respeitavam muito as professoras, queriam imitar o que elas faziam. Não é como hoje, que professor corre até o risco de apanhar de aluno...”
A saúde das famílias era precária. Havia gente que sofria com anemia, amarelão, ferida brava, vermes. “As crianças andavam descalças e como a areia da região era quente demais, queimavam a solinha dos pés, se contaminavam...”

Só mais tarde, quando construíram o primeiro posto de saúde, o povoado passou a contar com um médico, o Dr. Aguilar Arantes. Com o tempo também abriu a primeira farmácia, que era de João Machado, um senhor de Minas Gerais. “O primeiro caso de câncer de que me lembro foi de uma moça chamada Catarina, que acabou morrendo. Ela não tinha nem cama em casa, ficava deitada sobre um colchão de palha, no chão...”

Mas o trabalho de Ada jovenzinha não se limitava à escola. “Ajudava a mãe nas tarefas de casa, cuidava dos animaizinhos. A água a gente pegava em um ribeirão,  o local  enchia de gente com trouxas de roupa para lavar. Para beber e para cozinhar, a água era buscada em uma mina, localizada no atual Jardim Ouro Branco”.

Entre os acontecimentos que marcaram a comunidade, Ada se lembra de um fato inusitado. Foi em 1949, quando um avião de quatro motores, que vinha da China para o Paraguai, com fugitivos da Segunda Guerra, aterrissou na Fazenda Brasileira.   “Como estava escurecendo, o Dr. Otávio Marques Siqueira reuniu as pessoas que tinham carro e foram iluminar um local que poderia servir de pista para o pouso. O Dr. Siqueira escreveu num papelão a palavra ‘Brasil’, pois eles não sabiam onde estavam e o combustível estava acabando.”

Mas os dias da professorinha em Paranavaí, também terminaram. Em 1948 ela se casou com o alfaiate Gentil Cruz e logo foi viver com o marido em Mandaguaçu, tendo que pedir transferência. “Na nova escola o salário demorou sete meses para sair, mas quando veio, deu para a gente comprar um terreno, no centro, e construir uma casa, com cinco cômodos grandes. Naqueles dias, com salário de professor, dava para viver melhor do que hoje. A profissão foi muito desvalorizada com o passar dos tempos”.

Com os anos, vieram os filhos, sete no todo. Só que a nova família não ficava muito tempo em um lugar. Uma das mudanças foi para Curitiba, porque Ada adoecera, e como não havia saúde pública, nada parecido com o SUS, foram em busca de tratamento médico.  Foi na capital paranaense que nasceu Clayr, a filha que agora testemunha esta viagem da mãe pelo tempo vivido. “Minha mãe é, antes de tudo, uma mulher de fibra, de valor imenso frente às necessidades básicas das comunidades em que viveu”.

Clayr lembra que Ada, além de dar aulas na escola, também abria as portas de casa para ensinar. Na varanda, com a ajuda de um quadro-negro, oferecia a luz das letras e da leitura para analfabetos, muitos deles trabalhadores em fazendas de café e estivadores.  “Especialmente no seu voluntarismo, como alfabetizadora e como parteira, minha mãe é um exemplo de gente útil. O mais incrível e que ela além de trabalhar, cuidar da casa e filhos, bordava, costurava, tricotava, fazia cortinas e almofadas para casa de gente rica, confeitava bolo da quermesse... Essas mulheres lutadoras tinham mesmo muita disposição.”

Disposição e coragem para tantas andanças por cidades diferentes, sempre em busca condições dignas de vida para a família. Mas foi em Curitiba que Ada deu novo rumo para sua vida de trabalhadora. Ali, fez o curso de enfermagem obstétrica e passou a trabalhar em hospitais, ajudando a trazer pequeninos ao mundo.
Antes de estudar, ela já havia feito partos no interior, e ainda se lembra quanto foi difícil o primeiro deles. “Não tinha ninguém para ajudar aquela parturiente, e eu fiz o que podia,  sozinha, apenas com a ajuda do marido da moça. Ela tinha em casa o livro ‘Médico do Lar’, e o marido ia lendo para mim, aos   poucos,  como eu devia fazer o parto da mulher dele.”

Depois dessa prova de fogo, Ada foi parteira voluntária nos vários lugares em que viveu. “Vinha gente de longe, de carroça, de madrugada, me pedir ajuda”. De alfabetizadora a parteira, trouxe à luz, ao longo da vida, mais de 20 mil criancinhas. “Em São Paulo, houve um período em que fiz mil partos em 11 meses. Teve uma vez que, depois do plantão noturno, tive que dobrar o turno. Naquele dia, das 6 às 13 horas, foram 16 partos”.

A ida para a capital paulista acontecera por um motivo doloroso, a perda de um filho de 19 anos, morto em um acidente em Curitiba, no dia do aniversário de Clayr. “Para não perpetuar o sofrimento, saímos dali, fomos para São Paulo. Meu marido voltou a ser alfaiate e eu trabalhei nos melhores hospitais daqueles tempos. Até no Samaritano, fundado por ingleses, que servia café e chá em serviços de prata. Trabalhava muito, mas fazia tudo com amor. Chegava a fazer turnos de 36 horas seguidas, com 12 de descanso.”

Naqueles dias, não existia o Sistema Único de Saúde, o SUS, e o atendimento público de saúde era através do INPS. “Por uma questão de lucro, havia hospitais privados que  forçavam a dizer que o parto tinha que ser cesáreo. Lembro uma vez que o médico chegou atrasado para atender uma parturiente,  na hora  que o bebê já estava com o cabelinho de fora. Ele empurrou o nenê de novo para dentro, só para fazer a cesariana, que custava mais, e era feita só por médicos. Fez o corte no ventre da mãe assim mesmo, e ainda ficou xingando, jogou a placenta na parede,   bravo comigo, pois quando ele chegou eu já estava fazendo o parto natural. Mas não fiquei quieta, falei com o diretor do hospital, e esse médico foi afastado.”

Nem todos, porém, eram como esse médico e, no seu trabalho, Ada em geral era muito respeitada. “Quando os médicos novinhos faziam residência, pediam para eu dar aula para eles, com a experiência que eu tinha. Diziam que eu sabia de parto mais do que muito médico.”

Depois de conhecer uma saúde toda privada, Ada acha que mesmo com todos os entraves no SUS, hoje a situação é muito melhor. Ela mesma só deixou de trabalhar como enfermeira porque, nos últimos cinco anos de trabalho,  esteve afastada por motivo de saúde. “Na época me aposentei com 20 salários, mas agora ficaram reduzidos a três, coisa triste depois de tantos anos de trabalho, pois hoje não posso nem ter convênio médico”.

A vida de aposentada, no entanto, não fez Ada parar em um só lugar. Por vários motivos, às vezes para ajudar um filho, às vezes para cuidar de um neto, girou mundo Brasil. Viveu  de novo em Curitiba, depois no Rio de Janeiro,  em Dourados, (no Mato Grosso),  Porto Seguro (na Bahia), até fincar os pés em Florianópolis, há 14 anos.

Olhando para o caminho trilhado, Ada pensa que sua vida foi quase sempre só trabalhar. “Minha juventude passou quase sem nenhuma distração. Os poucos momentos de lazer eram  quando  a gente se reunia e o  pai da Ruth, minha colega professora, tocava violino... Ou quando,  nos dias festivos, na Fazenda Brasileira, as pessoas acordavam com a Alvorada, para ouvir a banda de música criada pelo seu Acácio de Oliveira Andrade.”

Saudade? “Sim, sinto saudade de tudo que vivi, com erros e acertos, pois foi uma vida plena. Tanto na educação como na maternidade, trabalhei onde está começando a vida, e isso sempre alimentou minha esperança de que tudo pode ser diferente, melhor do que hoje. Por isso é que sou otimista. Até porque, pensando bem, quando olho para trás, vejo que com muita dificuldade e sem material de trabalho, eu e minha colega Ruth, hoje minha cunhada, construímos o alicerce do ensino público de Paranavaí”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lori - uma vida de trabalho

Uma das propostas da Pobres e Nojentas é justamente trazer à luz a vida daqueles que fazem a história, mas, no mais das vezes, ficam à margem. A mídia em geral gosta das "autoridades", das fontes oficiais. Nós, as nojentas, gostamos das gentes comuns, essas que andam por aí a construir a vida, de verdade. Uma dessas pessoas é o seu Lori. Durante muitos tempo ele foi o faz-tudo na TV Caxias, lá no Rio Grande do Sul, figura muito amada por todos os que trabalhavam com ele. Anos depois, Leni Inês Ferronato, recuperou a história do seu Lori, num lindo vídeo editado pelo também brilhante Javier Herrera (Paquito). É a vida mesma, como diria Luckás... em sua imanência!!!!


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Serra inteira, brasileira, do Mar

Míriam Santini de Abreu

A gente nunca sabe de onde nos chega um amor. Como ele se alastra pela memória e se enraíza tão fundo que parece fluir pelo corpo a cada pulsação. A Serra do Mar é assim. Um pulsar mineral, vegetal, cuja origem em mim se perdeu num emaranhado de impressões, lembranças, invencionices. Elas se tornam concretas em diferentes coordenadas geográficas onde a Serra se fez paisagem e vivência. Latitudes, longitudes e altitudes que são Serras no meu corpo.

Ubatuba, São Paulo
23º 21´ 20.94” S - 45º 07´59.62”O – Elevação: 971 m

É tortuosa a descida que, pela rodovia Osvaldo Cruz, liga o planalto ao litoral paulista. A imagem de satélite mostra a estrada cheia de curvas, fino risco de asfalto que corta o Parque Estadual da Serra do Mar. Ao pé da Serra está Ubatuba, onde, no século 16, se passou parte da curiosa história de um alemão chamado Hans Staden. Eu a li num relato escrito por ele e publicado no Brasil com o título “Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, A América“.
Staden veio para o Brasil duas vezes e, na segunda, ficou prisioneiro dos indios tupinambás. A narrativa das artimanhas que ele usa para evitar ser devorado são... saborosas! O alemão, que fez um autêntico trabalho de repórter ao contar o modo de vida dos índios, consegue escapar numa troca com tripulantes de um navio francês na atual Niterói. 
Com base no livro, escrito depois na Alemanha, conclui-se que Staden passou por Ubatuba quando os tupinambás levaram-no em uma expedição de guerra de 38 barcos. Ali, segundo o relato, eles acamparam e pegaram muitos peixes.
Num fevereiro chuvoso em que caminhei naquelas praias recortadas, à frente o Atlântico, atrás a Serra, eu era canoa, índio, peixe. Do que vi, do que me lembro, a prisioneira daquela Serra era eu.

***

A Serra do Mar vai do norte de Santa Catarina ao Rio de Janeiro, onde encontra a Serra da Mantiqueira, que se prolonga até o Espírito Santo. O granito que a forma tem mais de 600 milhões de anos. No período mesozóico, a região onde é a Serra do Mar foi um grande deserto.

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Joinville, Santa Catarina
26º 15´ 34.80” S - 49º 00´21.82”O – Elevação: 973 m

Joinville, cidade esparramada, de um lado o ventre líquido da Baia da Babitonga, de outro as escarpas da Serra do Mar, que vi pela primeira vez naquele ano de 1995.  Outra mulher, 145 anos antes, em 1850, também aportou ali. Era Julie Engell, alemã, como Hans Staden, e com uma história igualmente fascinante, que descobri no livro “Era uma vez um simples caminho... Fragmentos da história de Joinville”, da historiadora Elly Herkenhoff.
O pouco que se sabia de Julie Engell, recuperado por Elly, foi contado por um dos primeiros cronistas de Joinville, o oficial do exército Theodor Rodowicz-Oswiecmsky, em um livro editado na Alemanha em 1853. A história se liga ao início da colonização do mais populoso município catarinense, na época chamado Colônia Dona Francisca. Em 1850 esteve ali o engenheiro Hermann Guenther, com a atribuição de fixar o núcleo da Colônia e demarcar os lotes de terra para receber os primeiros colonos.
Rodowicz conta que Hermann Guenther chegou ao Rio de Janeiro em 1849. Antes de embarcar rumo ao norte catarinense, o engenheiro solicitou, a um funcionário da firma que o contratara, um terno para vestir um “pobre homem” que desejava levar como servente. Esse homem na verdade era Julie Engell! Segundo Rodowicz, Julie – que ele classifica de “heroína de barricadas” – viajara para a Austrália e, no Rio, já havia “perdido toda a cotação” por causa de sua ligação com Guenther.
Atribui-se a Julie a autoria dos desenhos de uma supostamente próspera colônia que foram publicados em jornais da Alemanha. Por causa deles, diz Rodowicz, muitos decidiram tentar a sorte na futura Joinville. Viram, ao chegar, apenas a Serra e a densa floresta.
A historiadora Elly Herkenhoff recuperou um outro trabalho que cita Julie Engell. Através dele ficamos sabendo que ela participou – como pioneira do movimento feminista – dos acontecimentos políticos de 1848 em Berlim, e teve que abandonar a Alemanha. Elly Herkenhoff lembra que naquele episódio a feminista Luise Otto-Peters lançou seu programa de ação, reclamando para a mulher o direito de se instruir em diversas profissões. Depois que voltou ao Rio com Hermann Guenther, Julie atuou como educadora em um instituto em Limeira, São Paulo. Ainda voltou a Berlim e faleceu na Suíça.
Essa era a mulher que, no discurso de Rodowicz, era “heroína de barricadas”, de “cotação perdida” por causa da ligação com o engenheiro e autora de desenhos imaginosos.

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Salto do Cubatão, Monte Crista e Castelo dos Bugres. Endereço: Serra do Mar em Joinville.
O primeiro, uma queda de água de 300 metros de altura, há alguns anos ameaçada pela construção de uma usina hidrelétrica;
no segundo, dizem as lendas, os jesuítas teriam escondido imensos tesouros;
no terceiro, conta um poema anônimo publicado em 1896 num antigo jornal de Joinville, com base em uma saga transmitida pelos indígenas, está preso um cavalo branco à espera de seu senhor.
Visitei esses três lugares. Ali, com em toda a Serra, inscreve-se uma saber geológico, geográfico, de fauna, de flora, há séculos um pisar de gente e de bicho. E eu, como Julie Engell, desenho essa paisagem com olhos de quem ali vê, cristalizada, toda a memória humana.
Eu, na Serra do Mar, sou negra, índia, tropeira, caboclinha. Nas madrugadas de lua cheia, galopo de um cume a outro, de Santa Catarina ao Espírito Santo, no dorso de um cavalo campeiro mágico.
Num filme, “O Paciente Inglês”, a personagem diz que os verdadeiros mapas são os nossos corpos. O meu, de norte a sul, é um granito coberto de mata, úmido de águas oceânicas, onde às vezes sopra areia daquele antigo deserto. Iluminam-me as cidades, e também me escurecem. Na noite do tempo, eu e a minha Serra nos dobraremos de vez ao Atlântico.