terça-feira, 2 de junho de 2026

Projeto Mulhercidade em ação

                                     



Estivemos, a equipe da Pobres, nas comunidades de periferia de Palhoça, na grande Florianópolis, onde pudemos observar o quanto há de gente abandonada pela administração pública e como faltam opções para que as pessoas empobrecidas alavanquem suas vidas no rumo de um bem-viver. Caminhamos pelo Brejaru, Frei Damião e Elza Soares. No Brejaru entrevistamos a Mara que mantém uma organização de apoio às mulheres, principalmente mães solo, que vivem num constante dilema entre morar ou comer, trabalhar ou perder os filhos. Também acolhe mulheres migrantes - cubanas, venezuelanas, haitianas - que procuram ajuda para recomeçar a vida num país estranho. Vera mantém espaço de trabalho com costura, artesanato, horta, pomar, para que elas possam socializar e tirar alguma renda, ainda que pequena. Vera conta com ajuda da UFSC, que através de projetos, proporciona algumas alternativas. Vera busca ajuda na prefeitura, mas pouco consegue. 

Na Frei Damião outra mulher, a Edna, se ocupa em acolher mulheres idosas e mães solo, também num trabalho solidário, que sobrevive a custa de doações. O projeto “Mães do Frei” atende quase 40 mulheres que trabalham com costura e artesanato. As mais velhas vêm muito mais por conta da solidão e do desamor que, assim como o empobrecimento, também afeta profundamente as vidas. Edna conta que, sem a ação do estado, é a própria comunidade que precisa encontrar caminhos para se apoiar. Assim é na Frei Damião. 

Na Elza Soares, onde as condições de vida são mais precárias, porque não há sequer água ou luz, são Denise e Michelly que mantêm as famílias ligadas pela solidariedade. Foram elas que decidiram ocupara terras vazias e organizar as gentes para fugir do aluguel, que estrangulava a vida. Hoje, depois de muitas batalhas e enfrentamentos, as famílias que as seguiram estão nos lotes e já ergueram suas casas, ainda que precariamente. Mas, por terem um teto, sem o dinheiro escorrer para os altos aluguéis que hoje consomem a vida das famílias,  elas pelo menos conseguem garantir comida aos filhos. Na Elza Soares, 80% das famílias são de mães solo, segurando sozinhas, a barra de criar os filhos. 

No Brejaru e na Frei Damião as coisas avançaram um pouco. Por conta de muita luta, as famílias já conseguiram erguer casas melhores, garantir um endereço, tocar a vida. Mas, na Elza, ainda há muito caminho para trilhar. São lutas com a prefeitura, com pretensos donos da área e também contra o preconceito que fica colado no corpo de quem vive num lugar que não tem endereço. “Quem dá emprego para quem não tem um endereço? Quando a gente diz que mora aqui, as pessoas torcem a cara”. 

Por toda aquela região de Palhoça o que mais se vê é justamente a solidariedade. Sabendo que pouco podem contar com o estado, as famílias vão se ajudando como podem.

Em breve divulgaremos os vídeos... 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

El Niño à vista e 70% dos municípios catarinenses flexibilizaram leis de proteção da natureza

Por Míriam Santini de Abreu 

No final de semana, a mídia local repercutiu alertas de meteorologistas para o fato de que o El Niño 2026 pode aumentar chuvas, granizo e tempestades em Santa Catarina. Tivessem as redações um editor do porte de um Carlos Fehlberg, jornalista e falecido diretor de redação do jornal Diário Catarinense (marcou época!), já estariam em produção reportagens de como o estado e os municípios estão se preparando e cobrando medidas do poder público. Mas não. O que vi foram alusões vagas sobre a Defesa Civil estar preparada. É?

E o que faz a maioria dos prefeitos? Flexibiliza a proteção da natureza.

Um levantamento do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que mais de 200 dos 295 municípios do estado já editaram normas próprias reduzindo e redefinindo áreas de preservação permanente (APPs) ao longo de rios, córregos e lagos em áreas urbanas consolidadas.  

Ações diretas de inconstitucionalidade já foram ajuizadas contra leis aprovadas por cinco municípios (Joinville, Gaspar, Bom Jardim da Serra, Massaranduba e Schroeder), e Promotorias de Justiça de todo estado instauraram, somente até novembro de 2025, 97 procedimentos para apurar a legalidade e buscar soluções judicial ou extrajudicialmente.

Que sabe a população dos municípios catarinenses sobre a destruição da natureza patrocinada por prefeitos e vereadores na maior parte dos municípios do estado?

Reproduzo no link abaixo as respostas (por e-mail a pedido) da Promotora de Justiça Stephani Gaeta Sanches, coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a uma série de perguntas que fiz sobre o assunto. 

Clique em https://jornalismoambientalsc.blogspot.com/2026/05/el-nino-vista-e-70-dos-municipios.html

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Projeto Mulhercidade inicia gravações


A nossa Vaquinha Virtual pelos 20 anos da Revista Pobres e Nojentas, celebrados neste abril, arrecadou R$ 3.260 com a colaboração de 33 pessoas. É 1/4 do que precisávamos para fazer as quatro pautas do Projeto Mulhercidade e distribuir a revista impressa. Assim, faremos duas pautas a serem divulgadas no nosso blog e redes sociais.

Já iniciamos o trabalho na comunidade Marielle Franco (virão outras) e até o final do mês a ideia é divulgar o primeiro dos dois vídeos.

Agradecimentos aos amigos e amigas que apoiaram o nosso projeto. Vocês fazem a diferença!

Seguimos na dura peleia pelo bom jornalismo.

*****

Na foto de registro da primeira apuração, Lino Peres, presidente do Instituto Cidade e Território (ITCidades, parceiro do projeto), Míriam Santini de Abreu, Isadora Pavei, estudante de jornalismo da UFSC que está fazendo reportagem sobre moradia em Florianópolis, e Rubens Lopes de Souza.

O projeto é coordenado pelas jornalistas Elaine Tavares e Míriam Santini de Abreu.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Ladra de Memórias


Texto: Miriam Santini de Abreu

Uma das minhas mais significativas recordações de infância é a ida ao supermercado, no dia do pagamento do pai, para fazer o rancho mensal. Era no antigo Super Cesa da Rua Alfredo Chaves. Pequena, uns sete anos, na primeira série, eu adorava a seção de material escolar, e desejava ardentemente uma cola. Para fazer os trabalhos de aula, precisava recorrer a uma mistura de farinha e água, com resultado detestável. E, por tanto querer a cola, tirei uma da prateleira e não a coloquei no carrinho de supermercado. Quis ficar com o objeto de desejo na mão, e nem me lembrei de entregá-lo à mãe para fazer o pagamento.

Ao chegar em casa, mostrei a cola a todos com incontida alegria. O pai, sem pestanejar, arrancou o tubinho das minhas mãos e o jogou janela afora, no meio de uma área de mata que havia atrás de casa. Olhou-me e disse: 

– Nunca mais pegue algo sem pagar!

Ai, que dor! Não pela lição, mas pelo fato de ter perdido algo tão desejado. Não me esqueci do episódio. 

Há algum tempo, recebi a visita de meu irmão do meio e, quando conversávamos sobre a infância, relatei, entre risos, a história. E ele:

– Míriam! Isso aconteceu comigo!

– Ah, sim! Era o que faltava! Pois é uma das lembranças mais significativas que tenho!

E o César insistia na afirmação de que ele, e não eu, havia levado a cola para casa sem pagar.

Não satisfeita, tão tenaz quanto a cola, conferi na época o fato com o pai e com a mãe, e assim era: o autor da estrepulia havia sido o meu irmão!

Só o que pude concluir foi que testemunhei a atitude do pai, fiquei impressionada e, com o passar do tempo, “costurei” remendos de possibilidades imaginadas para o que teriam sido os gestos de meu irmão antes do pito!

O mais impressionante é que, se eu fosse entrevistada sobre minha infância e os momentos mais lembrados, um dos que citaria seria esse.

Desde então, o Cesoca, um gozador, me chama de “ladra de memórias”.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Croniquintas/ Naquele dia

Imagens: Leo/Pixabay


Por Dinovaldo Gilioli

O cachorro late na vizinha anunciando um intruso. O homem de calça azul atravessa a rua vendendo algodão-doce. A criança implora pro pai que manda mensagens no celular. No poste os pássaros fazem algazarra. A moça assobia pro cão que escapa da guia. O homem corre feito louco. O algodão-doce derrete no asfalto. O sol estava terrível naquele dia.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A Pobres Número 1







Em maio do ano de 2006 saiu às ruas o primeiro número da Revista Pobres e Nojentas. Uma revista de classe e de gênero que buscava retratar, em reportagem, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras. Neste primeiro exemplar, distribuído gratuitamente, reportagens falando da vida da cidade e também da grande Abya Yala. Lutas travadas pelo bem-viver. Hoje, relendo, percebe-se que as histórias vivas e atuais. Um bom texto não morre. A revista pode ser vista neste endereço:

Pobres e Nojentas Nº 1

Para comemorar os 20 anos estamos, em parceria com o Instituto Cidade e Território (ITCidades), iniciando uma Vaquinha Virtual para a produção de um novo projeto, uma série de reportagens intitulada “Mulhercidade”. Para colaborar, deposite qualquer valor no Pix 48982602000118 (é o CNPJ do Instituto Cidade e Território). A campanha vai até dia 31 de março. Contribua e ajude a mídia dos trabalhadores. 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Olsen Jr. , escritor


Ele nasceu em Chapecó, oeste de Santa Catarina, e até os nove anos teve uma infância igual a de todo menino do interior. Ainda assim, era comum vê-lo entre os livros que o pai comprava dos viajantes que passavam pela cidade. Com nove ano foi para um colégio interno e lá, a leitura acabou sendo seu refúgio. Desde aí nunca mais se desapegou dos livros. 

A escrita apareceu naturalmente por conta da leitura e quando estava na faculdade tratou de usar suas habilidades no jornal acadêmico. Artigos, entrevistas, notas, tudo foi produzido com paixão. Daí para os contos, novelas e romances foi uma caminhada natural.

Autor fartamente premiado, chegou inclusive a uma final do Prêmio Jabuti. Entre suas obras mais importantes estão “Os esquecidos do Brasil” (1993), “Desterro, SC” (1998), “Estranhos no Paraíso” (2000), “Discípulos de Ninguém – um convite à insubmissão” (2014). Em 2011 foi eleito membro da Academia Catarinense de Letras e hoje comanda uma revista produzida pela entidade. 

Olsen Jr. é o primeiro entrevistado do ano de 2026 no projeto “Conversas na Tiradentes” e sua prosa rica e bem-humorada conta de sua história e dos livros que permeiam sua vida. As imagens são de Tasso Cláudio Scherer. Entrevista de Elaine Tavares.