quarta-feira, 15 de julho de 2026

O papel da mídia hegemônica no processo de verticalização em Santa Catarina


Uma boa pesquisa sobre o dito jornalismo praticado hoje pela mídia hegemônica de Santa Catarina, com análise de notícias, reportagens (onde?), colunas, é difícil de localizar. Análise quantitativa e qualitativa. Rotina de trabalho nas redações. Saúde física e mental de jornalistas. As pesquisas são raras. Os conceitos e autores da moda pululam nos artigos científicos, mas não adianta procurar meia dúzia de relatos sobre o cotidiano das redações no estado. De todo o modo, há um antes e um depois no que se refere às plataformas digitais, à Inteligência Artificial (IA) e o uso que dela fazem os grupos de comunicação catarinenses.

Minha tese de doutorado em jornalismo é de 2019, antes da disseminação comercial dos sistemas de IA. Ela aborda o espaço no jornalismo pelo estudo de ocupações urbanas para moradia e lazer e a análise se deu sobre notícias e reportagens impressas entre 2013 e 2019. Refleti sobre o tema a partir da teoria marxista do jornalismo de Adelmo Genro Filho e a teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre, uma tríade de três momentos: o espaço percebido, o concebido e o vivido.

Uma de minhas críticas foi que a cobertura jornalística sobre o tema da pesquisa priorizava o espaço concebido, que é o espaço dos cientistas, planificadores, urbanistas, tecnocratas, engenheiros sociais, todos eles produzindo discursos sobre a cidade na lógica da gestão pública ultraliberal que domina Florianópolis, onde concentrei meu estudo.

Mas pensar o espaço concebido hoje, no mundo das plataformas e IAs, leva a refletir sobre outra dimensão do espaço concebido: o digital. Aquele criado pelos grupos de mídia, completamente reféns do Vale do Silício, para alavancar o que dá mais lucro. Um espaço programado por indexação predatória, algoritmos de geolocalização e filtros comerciais a serviços dos grupos dominantes ávidos por abocanhar o espaço concreto, a terra, a paisagem, as melhores localizações.

Ele tem dado indícios em minhas pesquisas recentes sobre a cobertura jornalística acerca do processo de verticalização em Santa Catarina. Nos grupos NSC e ND, a segmentação de público-alvo para os interesses da construção civil é um produto comercial mapeado, medido e vendido com afinco, e são vários os caminhos para comprovar isso.

No caso do NSC, um bom resumo aparece em um dos e-books oferecido pela unidade “Negócios SC”, o “Estudo do Mercado Imobiliário – 2025”, com o comportamento do segmento. O estudo mostra o tamanho deste mercado, com a valorização crescente de imóveis no litoral do estado, o perfil do público (compradores para moradia e investimento e proprietários de imóveis para aluguel) e as estratégias de comunicação para alcançar os interessados em cada segmento.

Para baixar o caderno, é necessário informar e-mail e aceitar a “Política de Privacidade e Termo de Consentimento para Tratamento de Dados Pessoais Grupo NC”. São seis páginas e vale ressaltar, entre as 10 finalidades do tratamento de dados, a de “Geração de estatísticas, estudos, pesquisas e levantamentos relacionados às atividades e comportamentos no uso do Site”. Concordar com a política do grupo também implica aceitar que os dados sejam compartilhados com prestadores de serviço, parceiros e fornecedores no Brasil e no exterior, tudo controlado pelo Google Analytics. É uma cuidadosa extração de valor de troca de dados comportamentais.

No caso dos cookies, por meio das informações salvas e devolvidas, o site do grupo reconhece que o usuário já o acessou em algum momento, o que possibilita exibir o site de acordo com as preferências do usuário. Só isso pode gerar uma boa análise, por exemplo, sobre a grande visibilidade de notícias sobre o sucesso da construção civil e a baixa visibilidade daquelas sobre ocupações urbanas e lutas por moradia.

Há diversas possibilidades de parcerias do grupo com os anunciantes. Um deles é o Branded Content, em português Conteúdo de Marca, uma estratégia de marketing que une os valores de uma empresa à produção de conteúdo relevante com cara de notícia. Parece notícia. Mas não é. A divulgação do material sobre o Branded Content é esta: “Um time de jornalistas que cria conteúdo estratégico para engajar a audiência do maior ecossistema de comunicação de Santa Catarina e alavancar o reconhecimento das pequenas, médias e grandes marcas”. Esses conteúdos buscam construir relevância através de SEO (Search Engine Optimization), um conjunto de estratégias para melhorar o posicionamento de um site nos motores de busca. O grupo também promete “Brand Safety” (Segurança de Marca), para um “ambiente digital seguro e livre de fake news”, instrumento que impede anúncios de aparecerem ao lado de conteúdos considerados inseguros ou com conotação negativa para a empresa ou marca.

Mas fica a pergunta: repórteres que não são do NSC Estúdio, setor responsável pelo Branded Content, também são pressionados a produzir esse tipo de conteúdo publicitário como se notícia fosse para gerar visibilidade positiva para o setor da construção civil? Essas matérias caracterizam-se por galerias com várias imagens geradoras de mais cliques e, consequentemente, melhores métricas. Aí é vender gato por lebre, conteúdo comercial por notícia. São "notícias" que geralmente apresentam uma fonte, a indicada pela empresa. 

Entre os “cases de sucesso” divulgados pelo grupo no mencionado caderno está o de uma rede de hotéis e eventos no Norte da Ilha de Santa Catarina, tratado em uma “matéria publicitária” sobre os motivos que levaram a Praia de Canasvieiras a ser uma das mais procuradas em Florianópolis. Depois de abordar os pontos positivos da praia, a publicidade cita como hospedagem ideal a rede de hotéis, com fotos e detalhes do empreendimento. Este tipo de texto aparece com o selo “Estúdio NSC” e “Branded Content”. Mas tais selos não deixam evidente que não se trata de uma notícia! No tempo do jornal impresso, isso se vendia pelo que era, Informe Publicitário. Os tempos (e as expressões em inglês para confundir os desavisados) são outros.

Mais um investimento do “ecossistema” do grupo é o Nexpon, lançado em 2022, que investe em empresas com alto potencial de crescimento, combinando duas modalidades, conforme se anuncia: “Media for Equity (M4E), um modelo em que aportamos mídia como capital, e investimento financeiro direto. Mais do que capital, oferecemos o alcance e a credibilidade de um dos maiores grupos de mídia do Sul do Brasil como plataforma para um crescimento sustentado”. No portfólio de investimentos está uma “rede colaborativa de anfitriões profissionais que ajudam proprietários a maximizar seus rendimentos em plataformas como Airbnb e Booking”. Os modelos de investimento trazem expressões como “Media for Equity (M4E)”, “Venture Building” e “Parcerias e Joint Ventures”.

Esse tipo de parceria mereceria estudo mais amplo, principalmente porque o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, em 2025 firmou parceria com a plataforma Airbnb para “aprimorar políticas públicas de turismo e fortalecer o desenvolvimento econômico da capital catarinense”. A iniciativa prevê “compartilhamento de inteligência mercadológica e apoio em ações de promoção turística para impulsionar o turismo na região”. Em um ano (2024), o Airbnb movimentou R$ 4,7 bilhões em Florianópolis. Há aí raízes que também explicam o abusivo mercado de compra, venda e locação de imóveis na capital catarinense.

Dá para perceber que o grupo NSC não apenas apresenta vestígios do espaço concebido (o espaço projetado antes de ser vivido) em suas notícias e reportagens: ele participa da própria produção dele, permitindo ao setor imobiliário moldar a narrativa de valorização de bairros e regiões específicas. Colhendo dados de acesso, o grupo mede e revende ao mercado imobiliário (entre outros) o comportamento do público catarinense como matéria-prima de segmentação publicitária, produzindo um espaço urbano digital por meio de algoritmos de geolocalização e segmentação de público. Nesta distribuição perversa de informação, a luta por moradia, tema que pesquiso, ou é invisibilizada ou criminalizada. O SEO visibiliza bairros nobres e balneários chiques e relega aos subterrâneos do site termos relacionados à "ocupação urbana", "sem-teto" ou "periferia". A invisibilidade geográfica tornou-se uma invisibilidade algorítmica.

Há quem jure que ainda há alguma separação entre jornalismo e publicidade na mídia hegemônica catarinense. Certamente no colunismo tal suposta separação é bem tênue ou inexistente. Os colunistas refestelam-se para falar sobre os grandes e novos empreendimentos e os números exibidos pelo mercado imobiliário e são os primeiros a criminalizar com virulência as ocupações urbanas por moradia. Na seara do colunismo, do jornalismo opinativo, não vale a pena perder o tempo com pesquisa. Mas no jornalismo informativo sim.

Semanas atrás, escrevi um artigo abordando a quase inexistência de entrevistas face a face no jornalismo catarinense. Desgraçadamente, nos faltam boas pesquisas empíricas. Mas uma leitura rápida de notícias no site do grupo NSC oferece indícios de uma produção diária gerada principalmente por releases e apuração mínima, propícios para alimentar rapidamente os sistemas de gerenciamento de conteúdo. Falam ali as vozes do poder privado e público, o mesmo que repassa recursos vultosos para os grupos de mídia catarinense, contribuindo também assim para apagar as contradições sociais.

O que aparece de entrevista é provavelmente alimentada por perguntas e respostas via WhatsApp ou e-mail. Uma entrevista face a face deixa vestígios e há poucos no NSC. Os jornalistas chegam a produzir sete e até mais notícias diariamente e devem se passar semanas sem que um profissional possa ter a oportunidade de conversar com pessoas face a face para ampliar notícias e (raras) reportagens.

O círculo vicioso dos assuntos banais é alimentado pelo caça-cliques, monitoramento constante das métricas de painéis em tempo real e mais assuntos banais. A redação exibe publicamente o ranking dos repórteres com mais cliques e os assuntos mais rentáveis, forçando uma competição massacrante entre os profissionais por resultados que pouco têm a ver, como já foi exposto, com conteúdo jornalístico relevante. Escreve-se hoje para algoritmos, não para pessoas.

Em minha tese, também concluí que o jornalismo catarinense silencia sobre o espaço vivido, o espaço do cotidiano, que a imaginação deseja modificar e tomar. Mas hoje diria mais: o jornalista das redações de Santa Catarina igualmente tem liquidado o seu espaço vivido. É um ser dos escritórios. Sabe pouco da cidade e da vida cotidiana, porque dela pouco usufrui. Como jornalista porque quase não sai da redação; como pessoa, porque ganha mal. E geralmente, deslumbrado e iludido pelo status de trabalhar na filiada à Rede Globo, aliena-se em relação às coações e coerções dos patrões e à superexploração do seu trabalho

Neste cenário, a pressão não vem mais da chamada de atenção do repórter pelo editor no “aquário” da redação ou do bilhete do dono do jornal. Ela vem de um sistema digital gigantesco que se visibiliza no painel do Google Analytics piscando na redação, a lembrar o dia todo que há metas de “pageview” a serem batidas ao final do mês.

No fim das contas, vira tudo uma gigantesca extração de dados (valores de troca neste “ecossistema”) sugados pelas grandes plataformas e regurgitados num volume estrondoso de informação vendida como jornalismo, azeitada por muito dinheiro público (como já escrevi várias vezes) e que pouco diz da realidade cotidiana de Santa Catarina e de sua população.

No grupo ND não deve ser muito diferente.

Faço essas reflexões e me pergunto: a quem isto incomoda?

Fontes:

Em um ano, Airbnb movimenta R$ 4,7 bilhões em Florianópolis, aponta FGV. https://news.airbnb.com/br/em-um-ano-airbnb-movimenta-r-47-bilhoes-em-florianopolis-aponta-fgv/

Prefeitura de Florianópolis e Airbnb firmam parceria para impulsionar turismo: https://news.airbnb.com/br/prefeitura-de-florianopolis-e-airbnb-firmam-parceria-para-impulsionar-turismo/

terça-feira, 14 de julho de 2026

Projeto Mulhercidade – Episódio 1: Mobilidade


A série da Revista Pobres & Nojentas intitulada “Mulhercidade” aborda como a disposição do espaço urbano em Florianópolis e área conurbada impacta a vida das pessoas, principalmente das mulheres, desvendando as limitações físicas, sociais e simbólicas para a apropriação da cidade. 

São dois episódios e hoje apresentamos o tema da mobilidade urbana. No próximo, o tema será moradia.

Fizemos entrevistas na Comunidade Marielle Franco (Maciço do Morro da Cruz), no Centro de Florianópolis, no Brejaru, no Frei Damião e na Ocupação Elza Soares, em Palhoça. 

Os planos eram maiores, mas nos adaptamos ao valor arrecadado na Vaquinha Virtual, que ficou em um terço do esperado. Agradecemos o apoio das pessoas que participaram e também de um Sindicato, o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Estadual de Santa Catarina (Sintespe), valorosa entidade que sempre apoia o jornalismo independente da capital. Também agradecemos o apoio do Instituto Cidade e Território (ITCidades) à iniciativa.

Em especial, saudamos as entrevistadas pelo acolhimento e por contarem as dificuldades que enfrentam no cotidiano e como se organizam para romper a rede de descaso, autoritarismo e coerção que impede o direito ao uso e usufruto do que a cidade tem de bom a oferecer. 

Seguimos na senda aberta em 2006, celebrando os 20 anos da Revista Pobres & Nojentas, apoiadas em três pilares epistemológicos: a teoria marxista do jornalismo de Adelmo Genro Filho; o jornalismo libertador, inspirado na concepção filosófica de Enrique Dussel, criador da Filosofia da Libertação, e a ideia de croniportagem, vereda entre a crônica e a reportagem.

São duas décadas de aventuras jornalísticas guiadas pela frase de abertura do manifesto publicado no número 1 da revista então impressa: "cooperativa da palavra libertária, criadora, caminheira, com jornalismo de classe e a serviço da emancipação humana"

Veja o documentário


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Crônica da Calçada - Rua Coruja Dourada (Morro das Pedras)



Por Elaine Tavares, jornalista

Esta é uma pequena parte da rua Coruja Dourada, no Morro das Pedras, Leste de Florianópolis. É uma rua que tem mais de um quilômetro de extensão, cujas calçadas são bem pouco amigáveis para pessoas velhas, com deficiência ou crianças. Como cada casa faz sua própria calçada, não há uniformidade. Tem parte sem calçamento, só com grama, tem parte com pedrinhas de rio, tem poste bem no meio, tem dois níveis, outras partes têm degraus e muitas das calçadas são bem inclinadas, tornando difícil o passo por elas, porque a pessoa se desequilibra. A rua é estreita e há carros estacionados nos dois lados, o que torna a caminhada ainda mais complicada, já que o mais seguro (para não cair) é andar na via. Aí o perigo é ser atropelado.










terça-feira, 23 de junho de 2026

"Calçadas de Florianópolis" é novo projeto da Revista Pobres e Nojentas


A equipe da Revista Pobres & Nojentas inicia em junho mais um projeto, o “Calçadas de Florianópolis”, com várias etapas. A calçada é a base para a experiência boa ou má de caminhar e se apropriar da cidade a pé. 

O assunto é abordado em um blog, o calcadasdeflorianopolis.blogspot.com, onde serão postadas notícias, vídeos, fotografias, pesquisas. Em breve, faremos pesquisa abordando a percepção da população sobre as calçadas da capital catarinense.

Abrimos os trabalhos com trecho de uma entrevista com Maria de Lourdes Bitarães, presidente da Associação Acessibilidade Juntos Abrimos Caminhos, sobre as dificuldades das pessoas com deficiência em Florianópolis. A entrevista foi feita no Ato pela Acessibilidade, realizado no dia 17 de abril no Centro de Florianópolis. 

No projeto, Míriam Santini de Abreu (jornalista), Larissa Schwedersky (cientista social e antropóloga), Elaine Tavares (jornalista) e Rubens Lopes de Souza (jornalista). 

O projeto tem o apoio do Instituto Cidade e Território (ITCidades).

Veja a entrevista com Maria de Lourdes Bitarães no vídeo.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Andrea Leonora, repórter



A jornalista Andréa Leonora é a 34ª entrevistada do projeto Repórteres/SC. Nascida no Rio de Janeiro, desde pequena ela já gostava de ler jornal com o avô paterno, Oscar. 

O interesse pelo jornalismo foi despertado aos 10 anos de idade, quando ocorreu o sequestro de Carlos Ramirez da Costa, o Carlinhos, então com 10 anos, na noite de 2 de agosto de 1973, fato que causou comoção nacional. Andréa conta que acompanhava a cobertura do Jornal Nacional, com o apresentador Cid Moreira,  e sonhava descobrir a autoria do sequestro, até hoje não solucionado.

Ali começou o caminho que a levou a cursar a Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso (Facha), em Botafogo, formando-se em jornalismo. 

Em 1987, após algumas experiências jornalísticas no Rio e nem um mês depois da formatura, ela aceitou convite para trabalhar em Joinville, e a partir dali passou também por Jaraguá do Sul, Criciúma e Florianópolis a serviço de diferentes veículos de comunicação e assessorias de imprensa, atuando em variadas funções e editorias. 

Na entrevista, Andréa fala sobre coberturas jornalísticas que marcaram sua carreira e analisa o jornalismo catarinense, que acompanhou de perto como editora, por quase dez anos, da coluna Pelo Estado, da Associação de Diários do Interior (ADI/SC). 

Entrevista: Elaine Tavares (edição) e Míriam Santini de Abreu


quarta-feira, 3 de junho de 2026

Mais uma entrevista do Projeto Repórter




A jornalista Andréa Leonora é a 34ª entrevistada do projeto Repórteres/SC. Nascida no Rio de Janeiro, desde pequena ela já gostava de ler jornal com o avô paterno, Oscar, e estudou jornalismo na Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso (Facha), em Botafogo. 

Em 1987, depois de algumas experiências jornalísticas no Rio, ela aceitou convite para trabalhar em Joinville, e a partir dali atuou também em Jaraguá do Sul, Criciúma e Florianópolis a serviço de diferentes veículos de comunicação.

Na entrevista, Andréa fala sobre sua trajetória, a passagem por jornais e assessorias de imprensa e as transformações do jornalismo. 

O vídeo está em edição e será divulgado com mais detalhes da trajetória de Andréa. As imagens são de Elaine Tavares.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Projeto Mulhercidade em ação

                                     



Estivemos, a equipe da Pobres, nas comunidades de periferia de Palhoça, na grande Florianópolis, onde pudemos observar o quanto há de gente abandonada pela administração pública e como faltam opções para que as pessoas empobrecidas alavanquem suas vidas no rumo de um bem-viver. Caminhamos pelo Brejaru, Frei Damião e Elza Soares. No Brejaru entrevistamos a Mara que mantém uma organização de apoio às mulheres, principalmente mães solo, que vivem num constante dilema entre morar ou comer, trabalhar ou perder os filhos. Também acolhe mulheres migrantes - cubanas, venezuelanas, haitianas - que procuram ajuda para recomeçar a vida num país estranho. Vera mantém espaço de trabalho com costura, artesanato, horta, pomar, para que elas possam socializar e tirar alguma renda, ainda que pequena. Vera conta com ajuda da UFSC, que através de projetos, proporciona algumas alternativas. Vera busca ajuda na prefeitura, mas pouco consegue. 

Na Frei Damião outra mulher, a Edna, se ocupa em acolher mulheres idosas e mães solo, também num trabalho solidário, que sobrevive a custa de doações. O projeto “Mães do Frei” atende quase 40 mulheres que trabalham com costura e artesanato. As mais velhas vêm muito mais por conta da solidão e do desamor que, assim como o empobrecimento, também afeta profundamente as vidas. Edna conta que, sem a ação do estado, é a própria comunidade que precisa encontrar caminhos para se apoiar. Assim é na Frei Damião. 

Na Elza Soares, onde as condições de vida são mais precárias, porque não há sequer água ou luz, são Denise e Michelly que mantêm as famílias ligadas pela solidariedade. Foram elas que decidiram ocupara terras vazias e organizar as gentes para fugir do aluguel, que estrangulava a vida. Hoje, depois de muitas batalhas e enfrentamentos, as famílias que as seguiram estão nos lotes e já ergueram suas casas, ainda que precariamente. Mas, por terem um teto, sem o dinheiro escorrer para os altos aluguéis que hoje consomem a vida das famílias,  elas pelo menos conseguem garantir comida aos filhos. Na Elza Soares, 80% das famílias são de mães solo, segurando sozinhas, a barra de criar os filhos. 

No Brejaru e na Frei Damião as coisas avançaram um pouco. Por conta de muita luta, as famílias já conseguiram erguer casas melhores, garantir um endereço, tocar a vida. Mas, na Elza, ainda há muito caminho para trilhar. São lutas com a prefeitura, com pretensos donos da área e também contra o preconceito que fica colado no corpo de quem vive num lugar que não tem endereço. “Quem dá emprego para quem não tem um endereço? Quando a gente diz que mora aqui, as pessoas torcem a cara”. 

Por toda aquela região de Palhoça o que mais se vê é justamente a solidariedade. Sabendo que pouco podem contar com o estado, as famílias vão se ajudando como podem.

Em breve divulgaremos os vídeos... 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

El Niño à vista e 70% dos municípios catarinenses flexibilizaram leis de proteção da natureza

Por Míriam Santini de Abreu 

No final de semana, a mídia local repercutiu alertas de meteorologistas para o fato de que o El Niño 2026 pode aumentar chuvas, granizo e tempestades em Santa Catarina. Tivessem as redações um editor do porte de um Carlos Fehlberg, jornalista e falecido diretor de redação do jornal Diário Catarinense (marcou época!), já estariam em produção reportagens de como o estado e os municípios estão se preparando e cobrando medidas do poder público. Mas não. O que vi foram alusões vagas sobre a Defesa Civil estar preparada. É?

E o que faz a maioria dos prefeitos? Flexibiliza a proteção da natureza.

Um levantamento do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) revelou que mais de 200 dos 295 municípios do estado já editaram normas próprias reduzindo e redefinindo áreas de preservação permanente (APPs) ao longo de rios, córregos e lagos em áreas urbanas consolidadas.  

Ações diretas de inconstitucionalidade já foram ajuizadas contra leis aprovadas por cinco municípios (Joinville, Gaspar, Bom Jardim da Serra, Massaranduba e Schroeder), e Promotorias de Justiça de todo estado instauraram, somente até novembro de 2025, 97 procedimentos para apurar a legalidade e buscar soluções judicial ou extrajudicialmente.

Que sabe a população dos municípios catarinenses sobre a destruição da natureza patrocinada por prefeitos e vereadores na maior parte dos municípios do estado?

Reproduzo no link abaixo as respostas (por e-mail a pedido) da Promotora de Justiça Stephani Gaeta Sanches, coordenadora do Centro de Apoio Operacional do Meio Ambiente (CME) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a uma série de perguntas que fiz sobre o assunto. 

Clique em https://jornalismoambientalsc.blogspot.com/2026/05/el-nino-vista-e-70-dos-municipios.html

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Projeto Mulhercidade inicia gravações


A nossa Vaquinha Virtual pelos 20 anos da Revista Pobres e Nojentas, celebrados neste abril, arrecadou R$ 3.260 com a colaboração de 33 pessoas. É 1/4 do que precisávamos para fazer as quatro pautas do Projeto Mulhercidade e distribuir a revista impressa. Assim, faremos duas pautas a serem divulgadas no nosso blog e redes sociais.

Já iniciamos o trabalho na comunidade Marielle Franco (virão outras) e até o final do mês a ideia é divulgar o primeiro dos dois vídeos.

Agradecimentos aos amigos e amigas que apoiaram o nosso projeto. Vocês fazem a diferença!

Seguimos na dura peleia pelo bom jornalismo.

*****

Na foto de registro da primeira apuração, Lino Peres, presidente do Instituto Cidade e Território (ITCidades, parceiro do projeto), Míriam Santini de Abreu, Isadora Pavei, estudante de jornalismo da UFSC que está fazendo reportagem sobre moradia em Florianópolis, e Rubens Lopes de Souza.

O projeto é coordenado pelas jornalistas Elaine Tavares e Míriam Santini de Abreu.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Ladra de Memórias


Texto: Miriam Santini de Abreu

Uma das minhas mais significativas recordações de infância é a ida ao supermercado, no dia do pagamento do pai, para fazer o rancho mensal. Era no antigo Super Cesa da Rua Alfredo Chaves. Pequena, uns sete anos, na primeira série, eu adorava a seção de material escolar, e desejava ardentemente uma cola. Para fazer os trabalhos de aula, precisava recorrer a uma mistura de farinha e água, com resultado detestável. E, por tanto querer a cola, tirei uma da prateleira e não a coloquei no carrinho de supermercado. Quis ficar com o objeto de desejo na mão, e nem me lembrei de entregá-lo à mãe para fazer o pagamento.

Ao chegar em casa, mostrei a cola a todos com incontida alegria. O pai, sem pestanejar, arrancou o tubinho das minhas mãos e o jogou janela afora, no meio de uma área de mata que havia atrás de casa. Olhou-me e disse: 

– Nunca mais pegue algo sem pagar!

Ai, que dor! Não pela lição, mas pelo fato de ter perdido algo tão desejado. Não me esqueci do episódio. 

Há algum tempo, recebi a visita de meu irmão do meio e, quando conversávamos sobre a infância, relatei, entre risos, a história. E ele:

– Míriam! Isso aconteceu comigo!

– Ah, sim! Era o que faltava! Pois é uma das lembranças mais significativas que tenho!

E o César insistia na afirmação de que ele, e não eu, havia levado a cola para casa sem pagar.

Não satisfeita, tão tenaz quanto a cola, conferi na época o fato com o pai e com a mãe, e assim era: o autor da estrepulia havia sido o meu irmão!

Só o que pude concluir foi que testemunhei a atitude do pai, fiquei impressionada e, com o passar do tempo, “costurei” remendos de possibilidades imaginadas para o que teriam sido os gestos de meu irmão antes do pito!

O mais impressionante é que, se eu fosse entrevistada sobre minha infância e os momentos mais lembrados, um dos que citaria seria esse.

Desde então, o Cesoca, um gozador, me chama de “ladra de memórias”.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Croniquintas/ Naquele dia

Imagens: Leo/Pixabay


Por Dinovaldo Gilioli

O cachorro late na vizinha anunciando um intruso. O homem de calça azul atravessa a rua vendendo algodão-doce. A criança implora pro pai que manda mensagens no celular. No poste os pássaros fazem algazarra. A moça assobia pro cão que escapa da guia. O homem corre feito louco. O algodão-doce derrete no asfalto. O sol estava terrível naquele dia.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A Pobres Número 1







Em maio do ano de 2006 saiu às ruas o primeiro número da Revista Pobres e Nojentas. Uma revista de classe e de gênero que buscava retratar, em reportagem, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras. Neste primeiro exemplar, distribuído gratuitamente, reportagens falando da vida da cidade e também da grande Abya Yala. Lutas travadas pelo bem-viver. Hoje, relendo, percebe-se que as histórias vivas e atuais. Um bom texto não morre. A revista pode ser vista neste endereço:

Pobres e Nojentas Nº 1

Para comemorar os 20 anos estamos, em parceria com o Instituto Cidade e Território (ITCidades), iniciando uma Vaquinha Virtual para a produção de um novo projeto, uma série de reportagens intitulada “Mulhercidade”. Para colaborar, deposite qualquer valor no Pix 48982602000118 (é o CNPJ do Instituto Cidade e Território). A campanha vai até dia 31 de março. Contribua e ajude a mídia dos trabalhadores. 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Olsen Jr. , escritor


Ele nasceu em Chapecó, oeste de Santa Catarina, e até os nove anos teve uma infância igual a de todo menino do interior. Ainda assim, era comum vê-lo entre os livros que o pai comprava dos viajantes que passavam pela cidade. Com nove ano foi para um colégio interno e lá, a leitura acabou sendo seu refúgio. Desde aí nunca mais se desapegou dos livros. 

A escrita apareceu naturalmente por conta da leitura e quando estava na faculdade tratou de usar suas habilidades no jornal acadêmico. Artigos, entrevistas, notas, tudo foi produzido com paixão. Daí para os contos, novelas e romances foi uma caminhada natural.

Autor fartamente premiado, chegou inclusive a uma final do Prêmio Jabuti. Entre suas obras mais importantes estão “Os esquecidos do Brasil” (1993), “Desterro, SC” (1998), “Estranhos no Paraíso” (2000), “Discípulos de Ninguém – um convite à insubmissão” (2014). Em 2011 foi eleito membro da Academia Catarinense de Letras e hoje comanda uma revista produzida pela entidade. 

Olsen Jr. é o primeiro entrevistado do ano de 2026 no projeto “Conversas na Tiradentes” e sua prosa rica e bem-humorada conta de sua história e dos livros que permeiam sua vida. As imagens são de Tasso Cláudio Scherer. Entrevista de Elaine Tavares. 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Croniquintas/ Das voltas e dobras do tempo

 




Gilberto Motta - Texto e Foto

“Tudo é precioso para aquele que foi, por algum tempo, privado de tudo ” (Friedrich Nietzsche)

A precisão dos números marca o tempo das máquinas e do dinheiro.
O tempo do amor se marca com o corpo.
Um calendário é coisa precisa: anos, meses, dias, horas, que são marcados com números. Esses números sinalizam e dão a noção que temos do tempo.
Mas os pedaços de tempo são bolsos vazios; nada há dentro deles.
O bolso vazio do tempo se torna parte do nosso corpo quando o enchemos com vida.

Então o tempo deixa de ser apenas números frios e sem humanidade.
O tempo aparece como um fruto que vai sendo comido:
é belo, é colorido, é carnudo e perfumado.
E – à medida que vai sendo devorado -, transmuta, transparece e flui.

O tempo da vida é marcado por alegrias e tristezas.
Há indícios, inícios e há fins.
*Tempus fugit; o tempo foge.

Portanto, Carpe diem: colha o dia como um fruto que amanhã estará podre.
Viver ao ritmo de alegrias e tristezas é ser sábio.
*”Sapio”, no latim, quer dizer, “eu saboreio”.
O sábio é um degustador da vida.
A vida não é para ser medida.

É um portentoso banquete.

Ela é para ser saboreada.
Um texto bíblico diz:
“Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos um coração sábio”. Claro, só pode ser palavra do mestre da Palavra.
Acho que Jesus entenderia se eu acrescentasse ao “Pai-Nosso” uns pitacos tipo…”A fruta nossa de cada dia dá-nos hoje…”.
Caqui, pitanga, morango à beira do abismo, melancia, banana,
manga verde com sal em cima do pé no quintal do vizinho…

*Heráclito foi um filósofo grego fascinado pelo tempo.
Contemplava o rio e via que tudo é rio.
Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez, as águas serão outras, o primeiro rio já não existirá.
Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo…
Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar.
Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos.

Dentre eles, um me encanta:
*”Tempo é criança brincando, jogando; da criança o reinado”.

Tempo é criança?
O que o filósofo queria dizer exatamente eu não sei.
Desconfio que para nós, o tempo é um velho, cada vez mais velho, sobre quem se acumulam os anos que passam e de quem a vida foge.

Heráclito, ao contrário, diz que o tempo é criança, início permanente, movimento circular, o fim que volta sempre ao início, fonte de juventude eterna, possibilidade de novo começos.
Ficam os buracos do tempo, os sulcos de lembranças.
*A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo.(Mário Quintana)

Percebo também que as crianças odeiam Chronos, o deus dos cronômetros, dos segundos, dos centésimos de segundos. Da suposta exatidão inexorável do tempo dos homens.
O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado.
Portanto,
“Haja hoje para tanto ontem” (Paulo Leminski)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Croniquintas/ O Exame


Texto: Dino Gilioli 

A neta alertou: Vó é muito alto, tem certeza que consegue subir?

A vó não titubeou e respondeu de imediato: claro que consigo subir, quando tinha a sua idade subia num pulo só.

Mas, vó, você não tem mais a minha idade...

Por isso mesmo que não vou subir num pulo só. Vou usar os dois pés e subir devagarinho.

Pra quê isso, vó? Não precisa catar pra mim, nem estou com vontade, insistiu a neta, demonstrando preocupação. 

Buscando tranquilizar a neta, a vó disse que tinha muita experiência em subir em árvores, além disso ia pra academia três vezes por semana e ainda corria 3 km em dias alternados.

Então tá vó, se a senhora insiste, pega aquela mais bonita, bem amarelinha. Eu aaaammmmmo manga, reforçou a neta.

Pé por pé e cuidadosamente a vó catou a manga e jogou lá de cima pra neta, que pegou feliz da vida. Parecia ter ganho um baita presente!

Já embaixo, a vó recebeu mil beijos da neta, que agradeceu demais pela manga deliciosa.

No outro dia, a vó sentiu uma dor insuportável no joelho. O médico pediu uma ressonância magnética urgente. 

Na hora do exame, a atendente pediu que a vó ficasse só de calcinha, tirasse o sutiã e vestisse uma camisola de algodão. A vó estranhou e disse: Meu sutiã não tem metal e o exame é do joelho. A  atendente afirmou que era por causa do tecido. Mas é o mesmo tecido da calcinha, pensou a vó. E, sem que ela percebesse, a moça foi chamar a pessoa responsável por fazer o exame. 

A vó, vendo-se sozinha na sala, ficou indignada com a falta de resposta da atendente e abriu a porta. Viu um rapaz que parecia estar usando uniforme e perguntou: Afinal, tiro ou não tiro a calcinha?

Sem saber o que fazer, o moço, vermelho e constrangido, não disse uma só palavra! Era um paciente que também aguardava por um exame.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Croniquintas/ O grande reino do Valinho

Imagem: Eduardo Schmitz

Texto: Míriam Santini de Abreu 

O filme Saneamento Básico (Brasil, 2007), que revi há uns dias, me traz lembranças antigas. Quando eu tinha uns sete anos, o pai e a mãe conseguiram, com sacrifício, dar entrada na moradia própria, construída num terreno de um beco que mais parecia um barranco. Mas o barranco, com o passar do tempo, foi “alisado”. O que incomodava era o bueiro que cortava a parte baixa do terreno, umas quatro casas depois da nossa. Nós, as crianças do beco, o chamávamos de “valinho”, e o valinho era parte do nosso grande reino. 

Eu soube que a ideia de contaminação aparece numa certa fase da infância. Para mim, demorou, porque não tínhamos medo das doenças que a água suja poderia provocar. Minha mãe, sim, e, para seu desespero, o valinho era lugar de brincadeiras. Ela ia até a janela nos inspecionar e via: lá estávamos, pulando de uma pedra para outra, naquela mistura de água de chuva com outras águas, menos idílicas. Mas, como era só água o que víamos, ali parecia passar apenas um córrego, cercado de grandes samambaias e urtigas, no fundo de um declive alto que dava ao cenário a aparência de um mundo perdido. 

A mãe não desconfiava da capacidade de nossa misteriosa imaginação. Da janela, ela gritava:
– Saiam desse vaaaalooo! Agora!

E, quando chegávamos em casa, ela puxava as nossas orelhas de um jeito especialmente dolorido, mas no dia seguinte, vestidos com nossos calções surrados e as Congas azuis, lá estávamos, novamente, no nosso reino das águas claras. 

Crescemos, então, e o valinho da infância virou o que era, um bueiro pernicioso. Os moradores do beco organizavam abaixo-assinado todo ano pedindo à prefeitura que fizesse a canalização. Uma parte a prefeitura fez, mas a outra, não. E como todo bueiro que se preze, o nosso ficava ainda pior no verão e quando chovia. Mas eis que um dia a mãe me liga para contar que, finalmente, o valinho foi todo canalizado. As águas agora correm sob concreto e terra, tudo porque, ali perto, será construído um conjunto de apartamentos. Eu comentei: – Mãe, é o fim de uma era! 

Às vezes, quando me dou ares de muita importância, um de meus irmãos comenta, sarcástico: 
– Baixa a bola, porque tu cresceu brincando num valinho! 

Eu dou um sorriso ambíguo. Gosto de pensar que, naquele tempo, a rua nos pertencia, e nós pertencíamos ao mundo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Moacir Loth, repórter


O jornalista Moacir Loth é o 33º entrevistado do projeto Repórteres/SC. Nascido em Blumenau, ainda menino já ajudava a família na lida na roça e foi com a mãe o aprendizado da leitura. Na escola, tirava boas notas em redação e recorda que o primeiro livro lido era sobre regras gramaticais. 

Uma de suas saborosas histórias é a chegada, jovenzinho, ao Jornal de Santa Catarina, o Santa, no qual fez carreira de office boy a repórter e editor. Foi ali que ele protagonizou possivelmente uma das primeiras iniciativas no país de uma editoria dedicada exclusivamente ao meio ambiente. Em 1978 e 1979, havia duas páginas inteiras sobre o tema no Santa, publicadas nas edições de fim de semana com edição de Moacir com o então diretor da Acaprena no cargo da presidência, Nélcio Lindner. 

A vida a Florianópolis foi para ingressar no curso de Ciências Sociais na UFSC e, na capital, Moacir continuou a trajetória no Santa. O engajamento político-sindical custou-lhe três demissões e igual número de reintegrações na justiça. No currículo, passagens pelo jornalismo sindical e também no Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, onde foi diretor, integrante da Comissão de Ética e ainda diretor de base da Federação Nacional dos Jornalistas. 

O ingresso como servidor público na Universidade Federal de Santa Catarina, com passagem pela Agência de Comunicação e pela Editora da UFSC, marca uma nova fase da trajetória de Moacir, com reconhecimento pela Política Pública de Comunicação que orientava a produção do então impresso Jornal Universitário.  

Dono de um texto marcante, Moacir se destaca pelo fino humor, sempre presente, seja nas reportagens ou nos aforismos. 

Na entrevista, ele fala sobre as iniciativas editoriais e reportagens que marcaram sua carreira e avalia o jornalismo hoje em Santa Catarina. As imagens são de Rubens Lopes.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Croniquintas/ A boneca viajante

 


Texto: Elaine Tavares 

Nunca fui uma mulher de sorte. Da vida, tudo tive de arrancar. Sequer um bolo em quermesse eu ganhei. Isso, por vezes, me arrasa. Porque tudo bem não ter sorte, mas precisava tanto azar? Dia desses decidi dar um tempo das redes sociais. Só no trabalho. Daí que quando estou em casa, vou aos livros. E são muitos os que estão na lista de espera para serem lidos. Então resolvi dar passo a eles, emagrecendo a pilha.  

Vai daí que ando triste, tristíssima. Coisas da vida que não têm remédio e que precisamos enfrentar. Então, para enganar a tristeza pensei em começar a lista por um livro que ganhei recentemente do meu amigo Paulo Capela. É um texto do escritor espanhol Jordi Sierra i Fabra chamado “Kafka e a boneca viajante”. Livro pequeno, texto delicioso. É uma ficção sobre uma história envolvendo Kafka e uma garotinha que ele teria encontrado num parque, chorando porque perdeu a boneca. E Kafka decide inventar uma história de que ele era carteiro de boneca e trazia cartas da boneca que andava em viagem. Diz-se ser verdadeira a história, embora nunca tenham sido encontradas as tais cartas. 

Jordi decidiu dar vida a esse doce episódio da vida de Kafka, narrando os encontros entre a guriazinha e o escritor, que já andava no fim da vida, acometido de tuberculose. Pois não é que dei azar? 

O livro é um encanto, uma belezura sem fim. Uma narrativa delicada e emocionante. Descreve a angústia de Kafka tendo de inventar as aventuras de Brígida, a boneca, cada dia num país diferente, vivendo coisas incríveis e precisando preparar um fim para aquilo tudo. As cartas eram tão lindas que deixar de escrevê-las poderia fazer a menina ainda mais triste do que estava no começo. Um drama que vai se resolvendo da forma mais linda.  

O azar, no caso, foi ter pegado esse livro para ler em dias tão tristes. Não que o livro seja triste, não é. É bonito demais. E tão bonito, tão bonito, que no fim a gente fecha as páginas e se entrega ao pranto. Um pranto por belezura, por delicadezas, por bonitezas, por sensibilidade. Mas, enfim, um pranto. Chorei litros e, passados alguns dias, ainda estou aqui, chorando, ao lembrar. Tá, pra mim foi intenso. Pode não ser o mesmo para outro leitor. Mas, recomendo. 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Moacir Loth no Repórteres/SC

O jornalista Moacir Loth é o 33º entrevistado do projeto Repórteres/SC. Nascido em Blumenau, lá iniciou a carreira no Jornal de Santa Catarina, o Santa, no qual também trabalhou em Florianópolis. Dono de um texto marcante, se destaca pelo fino humor, sempre presente, seja nas reportagens ou nos aforismos.   

Na entrevista, Moacir fala sobre sua experiência no jornalismo sindical e científico, a trajetória na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e as iniciativas editoriais e reportagens que marcaram sua carreira.  

O vídeo está em edição e será divulgado em breve com mais detalhes da trajetória de Moacir. As imagens são de Rubens Lopes.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Márcia Konder, escritora


 

Ela nasceu no Rio de Janeiro e passou sua infância em Ipanema, vizinha de Vinicius e Tom Jobim. A arte já entrava na vida por aí. Tempos depois veio para Florianópolis e aqui pode desfrutar da convivência com figuras como Franklin Cascaes e Aníbal Nunes Pires. Tímida, encontrou no teatro uma porta de entrada para novas sociabilidades.

Atuar e escrever passou a fazer parte do seu cotidiano. Seus poemas começaram a ganhar vida e são inúmeras as coletâneas das quais suas palavras fazem parte. Tem dois livros solo publicados. Incursionou também pelo cinema fazendo ponta em filmes de cineastas catarinenses até que estrelou o delicado e maravilhoso ˜Lurdinha, a vendedora de ilusões”, de César Cavalcanti. 

Incansável na busca de novas formas de expressão acabou encontrando na dança cigana mais um espaço de vivência. Hoje, segue ativa na arte, sendo uma das apresentadoras do programa “Avós na Tarde”, publicado no Youtube todas as semanas. Também é rainha do Baile Místico, uma proposta cultural que busca dar visibilidade à mitologia local.

Sua trajetória de vida e sua obra está retratada neste episódio radiante, como ela mesma, do "Conversas na Tiradentes". Com imagens de Tasso Cláudio Scherer.