quarta-feira, 29 de abril de 2020

O tráfico, a dor e o Mocotó



Por elaine tavares

O Mocotó é uma das primeiras comunidades de periferia de Florianópolis, ela nasceu quando os negros e pobres foram tirados do centro numa operação de “limpeza” da cidade que começava a crescer. Sem ter como bancar aluguéis ou cumprir a lei sanitária que obrigava a ter banheiro em casa, as famílias buscavam, na ocupação dos morros, o espaço para viver. Lá, já vivam outras famílias, de fugitivos da escravidão ou ex-escravos, que igualmente não encontraram lugar no centro, onde começavam a se erguer os sobrados da gente rica. O pé do morro onde fica o Hospital de Caridade, lá pelo meio do 1800 era chamado de Toca, e ali ia crescendo a comunidade. Com o passar do tempo outros espaços no entorno do Morro da Cruz foram sendo tomados, prioritariamente pelas famílias negras, mas também com brancos pobres. Não é sem razão que a cidade chame os morros de “espaço da criminalidade”, porque, na verdade, esse sempre foi o nome dado a quem não participa do grande banquete das famílias abastadas. Ser pobre parece ser potencialmente bandido. E é por isso que ao longo dos tempos esses lugares onde abundam as moradias precárias, o esgoto a céu aberto, as vielas, os trabalhadores, são também espaço da repressão. Assim, sucessivamente e historicamente, é nessas comunidades onde a polícia vai buscar os bandidos, e onde a lei parece não fazer qualquer sentido. São comuns os relatos de invasões de casa, sequestro de pessoas, assassinatos, agressões, violências. E tudo fica respaldado porque, afinal, "são bandidos". Ontem (28), enquanto noticiava uma manifestação no Morro do Mocotó contra o assassinato de três jovens da comunidade, a jornalista da televisão encerrava a nota dizendo: “a polícia informa que os três mortos são ligados ao tráfico de drogas”. Opa, então tá! Aí sim! São traficantes, então tudo se justifica. Já para as famílias que montaram barricadas na Mauro Ramos para denunciar e expressar sua dor e seu protesto, aqueles jovens tinham nome, sobrenome, história, sonhos. E mesmo que fossem ligados ao tráfico, eram o peixe miúdo, aquele que surge da necessidade ou do ódio. Sim, há bandidos no Mocotó, no Mont Serrat, no Horácio, assim como há bandidos na Beira-Mar, na Bocaiuva, na Trompovski. Mas, nesses lugares chiques a polícia não chega atirando, sequer chega. Nos espaços onde vivem à larga os donos do tráfico há advogados de plantão e malas de dinheiro prontas para agir se necessário for, mas nunca é. Porque os peixes grandes não são tocados. Sempre é mais fácil exterminar a raia miúda, que não tem nada por ela a não ser os seus corpos em rebelião. Eu lembro que há alguns anos pegou fogo no Hospital de Caridade. Era de noite. E mesmo antes da chegada dos bombeiros, os jovens da comunidade do Mocotó já estavam lá tirando pessoas, ajudando a apagar o fogo e ali ficaram pé até que tudo estivesse debelado, realizando um trabalho de gigantes. Naqueles dias a imprensa subiu o morro para contar dos atos heroicos da rapaziada. Provavelmente os mesmos jovens que são mortos pela polícia nas noites de calmaria. E os que foram salvos por aquela gente invisível agradeciam emocionados. Provavelmente os mesmos que hoje fazem muxoxo diante da fala da apresentadora de televisão. O tráfico de drogas não é coisa para ser banalizada. Ele é responsável pela destruição de tantas e tantas vidas. Mas, já vai longe essa política de extermínio dos jovens negros das comunidades de periferia. Se essa fosse a política correta, então já era para ter acabado o tráfico. Mas, por que a polícia mata e tudo segue igual? Essa é uma pergunta de fácil resposta. Porque a fonte do tráfico não está na favela. Ali vicejam os aviões e os gerentes de baixo clero. Mesmo os que têm seus barracos cheios de pequenas riquezas não chegam sequer aos pés dos verdadeiros traficantes. Logo, a abordagem policial parece não ter como foco o fim do tráfico. Na verdade, as ações contra a raia miúda são para fingir que há o enfrentamento do problema. Não há. E nessa guerra de extermínio, também os policias - que são trabalhadores - acabam sendo vítimas. Seja quando tombam nos confrontos, seja quando se transformam em criaturas sem parâmetros éticos. A dor sempre fica para os “de abajo”, ou alguém já viu algum dia um traficante de peso ser assassinado ou mesmo preso? Eu nunca vi.

Ontem, no Mocotó, as famílias se manifestaram tacando fogo na rua. Sabem que não há caminho negociado. Não são ouvidas. A única maneira de serem vistas é na manifestação coletiva, na rua. 

Ontem eles tacaram fogo nos pneus para dizer basta. É a única forma de abrir diálogo. Alguém aí vai dizer: tá com pena? Leva pra casa. É porque a maioria das gentes acredita que a solução dos problemas passa pela ação individual. Não, não adiantaria levar para casa a juventude do Mocotó ou de qualquer outro lugar de periferia do país. Porque o problema não está na pessoa. Está no sistema.  É essa forma de organizar a vida que gera a violência. É da natureza do capitalismo manter  a bota sobre a cabeça dos empobrecidos. É da natureza do capitalismo manter uma periferia no limite da vida, para que as pessoas possam ser melhor exploradas. É da natureza do capitalismo fazer do narcotráfico um dos pilares da indústria da morte – que vende armas, equipamentos de segurança e gente. 

Ontem, as famílias do Mocotó botaram fogo no meio da rua para fazer ouvir seu grito. As mesmas famílias que limpam as casas, lavam a roupa, fazem a comida, atendem no comércio, nas creches, nas escolas e ainda salvam vidas quando confrontadas com a tragédia do outro. Como um dia fizeram, salvando os internados no hospital privado mais famoso da cidade.  As mesmos que são esquecidas no dia seguinte quando todos já estão confortavelmente instalados em suas casas quentinhas. 


“Ai, que romântico, quero ver se um negrinho desses um dia tirar a vida de um familiar teu”, gritam os de sempre. Sim, será trágico, e ainda assim não será culpa dele. Será do sistema que o engendrou. Enquanto isso, alguns “branquinhos” seguirão tirando a vida de muitos da classe média e alta sem que ninguém lhes aponte o dedo. 




quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Brasil e a pandemia



O Brasil vive um clima de estupefação, mas ainda assim, com a maioria da população inerte e desnorteada. Com o avanço das infecções por coronavírus os brasileiros assistem o governo federal tomar uma série de medidas anti-vida, sem conseguir esboçar reação. Os casos aumentam e justamente nesse momento de subida das infecções o governo troca a equipe do Ministério da Saúde, que, em vez de apontar caminhos para o enfrentamento da doença, se manifesta sobre como será a economia quando o pico passar. É uma situação aterrorizante.

A crise no Ministério da Saúde surgiu porque o então ministro, médico ortopedista, assumiu o comando da luta contra o coronavírus de maneira bastante ofensiva. Dava entrevista coletiva todos os dias orientando a população, informando e sugerindo que todos atendessem ao chamado de permanecer em casa. Essa posição era totalmente contrária à posição do presidente Jair Bolsonaro, que dizia em alto e bom tom: que morram todos os que tiverem de morrer, porque  não pode parar a economia.

Mas, o ministro decidiu seguir o caminho apontado pelas autoridades médicas e manteve a posição de isolamento social. A coisa foi ficando insustentável e os dois batiam boca através dos repórteres. Acabou que o presidente demitiu o ministro que, afinal, estava aparecendo para a população como um cara verdadeiramente preocupado com a saúde das pessoas. Estava tendo mais popularidade que o presidente. E o presidente não suportou.

A demissão do ministro Mandetta desarticulou todo o trabalho de combate que vinha sendo feito via Ministério da Saúde. O novo ministro escolhido pelo presidente tinha duas missões básicas: não aparecer  mais que o presidente e mandar todo mundo voltar ao trabalho. E assim está sendo feito. Acabaram-se as coletivas diárias e a orientação é de que a vida volte ao normal. Apenas ontem o novo ministro, um médico/economista que nunca na vida atuou no setor público da saúde, apareceu na televisão com sua equipe. Um show de bizarrices. Anunciou o novo secretário do ministério, que tem como virtude apenas ser um militar. Nenhuma experiência em lidar com saúde, muito menos com uma crise dessa envergadura.

A coletiva do novo ministro causou estupor. Nenhuma orientação para a população. Nada. Apenas uma algaravia absurda sobre como deverá ser a economia depois que a pandemia passar. Não dava para saber se quem estava ali era a representação da Saúde ou da Economia. Um terror.

No campo da luta social a vida está estagnada. Com a confusão causada pelas orientações diferenciadas – cada governado define sua estratégia – os trabalhadores parecem resignados. Aqueles que não conseguem ficar em isolamento e seguem trabalhando não encontram caminhos a não ser colocar uma máscara e seguir driblando o vírus até quando der. Mesmo sabendo que isso não é suficiente. Durante mais de 30 dias, tempo que durou a quarentena, uma massa gigantesca de gente seguiu com vida normal, saindo de casa todos os  dias para trabalhar, sem que houvesse qualquer ação por parte de seus sindicatos, salvo raríssimas exceções.

Agora, com o novo ministro completamente submetido aos desejos do presidente de retomar a economia, tampouco se percebe alguma ação por parte das Centrais Sindicais ou dos movimentos sociais. Tudo está paralisado, até porque boa parte das lideranças está em isolamento social. Enquanto isso, os partidários do presidente – incitados por ele  - fazem carreatas, passeatas e atos públicos pedindo a volta do comércio e abertura total de tudo. Não acreditam na pandemia e dizem que é um golpe dos chineses para desestabilizar o presidente do Brasil.

No geral, os governadores que ainda mantinham uma posição de garantir o isolamento social também decidiram se render aos desejos do presidente, sabe-se lá motivados pelo quê. E justamente no momento em que o país começa a mostrar a falência dos sistemas de atendimento, resolvem reabrir o comércio e fazer a vida voltar ao normal.  Uma sandice sem explicação. O resultado é a população toda na rua outra vez, sem os cuidados necessários. O que virá, ninguém sabe, mas pode-se intuir pelo que já aconteceu em outros países.

Não bastasse isso, o novo ministro disse que o país não vai investir em compra de respiradores ou novas UTIs porque depois não haverá o que fazer com isso. Assim, respalda a ideia de Bolsonaro de que os que tiverem de morrer, que morram logo para que a vida siga.

Alguns estados como o Amazonas e São Paulo têm apresentado altos índices de mortes e os caixões começam a aparecer nas telas da TV. Mas, ainda assim, a maioria dos brasileiros parece não acreditar que as coisas possam ficar pior. Uma boa parte acusa os que insistem nos cuidados de “querer que tudo dê errado para prejudicar Bolsonaro”. É uma loucura sem fim. Essas pessoas realmente acreditam que o mundo está girando em torno do presidente do Brasil e que tudo que acontece ou deixa de acontecer tem relação com ele.  Nunca se viu nada igual.

O antagonista natural de Bolsonaro, que deveria ser o PT e seu líder Lula, até agora manteve a posição de não atacar o presidente, sendo que Lula chegou a declarar que não iria chamar o “Fora Bolsonaro” que muitos brasileiros já estão chamando. De novo, deixa uma parcela bem significativa da população sem direção.

Assim, as gentes brasileiras seguem. Alguns devem permanecer em isolamento, mas serão poucos, porque o trabalho vai acabar definindo a volta. A maioria está nas ruas de novo e o ministro da saúde, candidamente, diz que se morrer muita gente, quem sabe o país volta a apostar no isolamento. Mas terá que morrer muita gente. Ou seja. É um governo que espera e aposta na morte. E ainda assim, o presidente segue mantendo um bom índice de aprovação.

Em meio à pandemia Bolsonaro incita seus seguidores a pedir intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. As instituições fazem ouvidos moucos e permitem que a Constituição seja rasgada, ao vivo e a cores. O máximo que fazem é lançar notas de repúdio. Da mesma forma os partidos de esquerda.

A nau Brasil parece seguir desgovernada, mas não, ela segue muito bem governada pelos interesses do capital. Afinal, em meio ao caos, nenhuma palavra dos empresários, dos industriais, da representação da classe dominante. Estão todos calados esperando que seus trabalhadores voltem e sigam girando a roda do dinheiro. Creio que desconhecem que quando Nero tacou fogo em Roma, queimou foi tudo.
 

domingo, 5 de abril de 2020

O outono do vírus não calou o Circo


Divulgação

Míriam Santini de Abreu

As luzes se acenderam sobre o picadeiro às 20h30 de sábado (4). Ao fim da contagem regressiva, entraram os palhaços. Com eles, iniciava-se o primeiro espetáculo virtual do Circo Rakmer em sua primeira visita a São José e Florianópolis (SC). Chegou e não pôde partir. Em 5 de março, a estrutura na frente do shopping Itaguaçu estava pronta para a estreia. Mas, depois de menos de duas semanas de shows e nem 500 pessoas, veio a ordem de quarentena e foi preciso parar. Aí, em meio à angústia sobre o rumo a tomar – e o da estrada era impossível – apareceu a ideia de levar a arte ao público por meio dos caminhos digitais.

Desde 31 de março, o convite aparecia nas redes sociais. O circo precisava de doações para se manter! No sábado, o apresentador Mário Motta, nascido, com o irmão Gilberto – também jornalista –, no Circo dos pais, Motinha e Nhá Fia, divulgou o pedido de doação de R$ 5,00. Ao longo da tarde, em grupos de WhatsApp, amigos convidados para conversas virtuais respondiam: – Só depois das dez da noite, porque às oito e meia vou ao circo! E, como se viu mais tarde pelos comentários nas redes sociais, teve quem fez isso depois de muito tempo ou pela primeira vez.

A live foi transmitida pelas contas do Circo no Facebook e no Instagram.  Pouco antes do início, os palhaços Poteto e Espoleta transmitiram ao vivo o making of da maquiagem. No Instagram, a estreia teve um toque ainda mais divertido. Uma parte da plateia virtual não parava de postar elogios e dar curtidas; outra pedia: – Desativa os comentários!  As palmas, corações e beijinhos, explodindo ao toque no smartphone, subiam tela acima sem parar, frisson virtual a substituir o calor das cadeiras vazias em volta do picadeiro.


Live no Instagram

Foi preciso improvisar, movimentar o celular no meio da live, lidar com o limite de uma hora de transmissão ao vivo do Instagram, driblar as atrações protegidas por direitos autorais, direcionadas às crianças depois da proibição de uso de animais em circos. Mas o gigante King Kong apareceu! No Instagram, a live atraiu cerca de 2.500 pessoas. No Facebook, em torno de 5 mil, e mais 4,9 mil na live de uma influencer. Acudiram pessoas de vários estados do país e até do exterior. “As doações vão ajudar a gente a se manter por um bom tempo”, diz, agradecido, o proprietário e apresentador do circo, Jeferson Rakmer, de 54 anos.

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Jeferson nasceu em Franca, no interior de São Paulo, em família circense, com ela se apresentando no Circo de Moscou. Em 1985, em apuros financeiros, fez contato com o empresário João Batista Sérgio Murad, o Beto Carrero, que viria a inaugurar em 1991 o parque multitemático em Penha, litoral catarinense. Integrado ao Mundo Mágico de Beto Carrero, precursor do parque, Jeferson ali permaneceu por 22 anos. Com o Circo Rakmer, iniciado em 2008, já vão outros 12. Hoje apresentador, Jeferson já foi palhaço, trapezista, adestrador: “Quem nasce em circo aprende de tudo e vai definindo o que quer fazer”.

Nas andanças com o circo, ele já viveu tanta coisa que os amigos dizem: – Fuça, faz um livro! O apelido nasceu de “Jefersonzinho” virado em “Jefucinho” e encurtado pra Fuça, e Fuça pegou. O fato de parte da família hoje morar em Manaus é uma dessas histórias. Era 1976 e o circo da família foi se apresentar naquela capital e cidades próximas. Nessas andanças por estradas marinhas, um dia a balsa entre Manaus e Belém quebrou e os Rakmer ficaram seis dias parados na beira do Rio Amazonas.

Agora, mais uma história vai para o livro. Quando a quarentena contra o coronavírus interrompeu o espetáculo em São José, Jeferson conversou com a família para sugerir o retorno a Manaus, onde moram dois irmãos, mas como pagar a passagem de 2, 3 mil reais? “Resolveram ficar aqui, a casa deles é aqui, no circo, ficaram todos sob as asas da gente, eles não têm mais vínculos com Manaus”, diz ele, que atua no Circo Rakmer com a mulher, cinco filhos, o genro e o neto. No total, são 45 pessoas, entre as quais 10 crianças. Decididos por ficar, foi preciso buscar saídas para contornar o fim dos espetáculos: “Fomos pegos de calças curtas. Atividades como a nossa a gente sabe que não vão liberar tão cedo. Somos os primeiros a parar e os últimos a voltar”.

A preocupação é ainda maior pelo desencontro de informações entre os diferentes níveis de governo, o municipal, o estadual e o federal. Fica difícil saber em quem confiar para tomar uma decisão. O temor piora porque, apesar de o circo ter um patrimônio, como os 12 trailers e ônibus, não há como fazer negócios em meio às restrições impostas para o combate ao vírus. Mas, com o passar dos dias, a ajuda para o sustento começou a chegar. A prefeitura de São José doou cestas básicas. O shopping permitiu que o circo, com capacidade para 900 lugares e cuja área foi alugada por um mês, ficasse armado sem pagar aluguel. “Nos trataram com dignidade”, ressalta Jeferson, ao mencionar que sabe de outros circos Brasil afora impedidos de entrar nas cidades e agora parados em postos de gasolina.

Sem estrutura montada, os artistas não podem ensaiar ou treinar, algo rotineiro para quem precisa se balançar em trapézios, jogar malabares, girar sobre motocicletas no Globo da Morte: “Nossa arte precisa de movimento”. Ele cita como exemplo também a situação do conhecido Cirque du Soleil, que cancelou apresentações e demitiu gente. E, por ora, será difícil encontrar trabalho em outro lugar. Jeferson explica que os artistas trabalham como microempreendedores individuais (MEI) e há constante movimentação de um circo para outro, especialmente entre aqueles que fazem acrobacias no Globo da Morte, atração muito disputada.

Os circos do Brasil, calcula Jeferson, têm uma média de 40 a 50 pessoas cada para divertir o público, mas é uma arte pouco lembrada nos discursos oficiais. O proprietário do Circo Rakmer fica com a voz embargada ao mencionar esse esquecimento: “A gente não é indigente! A gente entende todas as artes e vê que muitos programas de auditório usam o circo, as acrobacias, os malabares, mas é a música, é o teatro, que são considerados arte. Nós nos sentimos banidos, largados. Os circos são largados ao relento”. 

Um exemplo do esquecimento está na ausência de linhas de crédito específicas e na forma como são montadas as políticas públicas na área de cultura. O CNPJ do Circo Rakmer é de São Paulo, mas os espetáculos são itinerantes. Então, fica difícil concorrer tanto nos editais de São Paulo quanto em qualquer outro estado ou município que estimule produções locais: “Os circos são muito espalhados e não temos como acompanhar os projetos de lei. Há muita burocracia, cada cidade pede uma coisa diferente. Pagamos os alvarás, os impostos. Agora estamos caminhando para nos organizar e formar uma associação. É preciso entender que o circo é itinerante, mas também rotineiro”. Em Santa Catarina, por exemplo, o Circo Rakmer já circula há dois anos.

Jeferson lembra que grandes nomes da dramaturgia brasileira, como Lima Duarte e Ary Fontoura, passaram pelo circo. Para ele, o circo deve ser pensado como a mãe das artes e arte circense do Brasil, patrimônio cultural imaterial do país. Esse reconhecimento foi uma das principais reivindicações do 2º Congresso Sul-Americano de Circo, realizado em dezembro passado, em Campinas, São Paulo. Na primeira edição do Congresso, no Chile, o país-sede reconheceu o circo como patrimônio imaterial. Há, nessa arte milenar, com raízes nos artistas saltimbancos da Idade Média, patrimônio material concreto. Os circos sul-americanos empregam cerca de 50 mil pessoas, entre artistas, técnicos e outros colaboradores.

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Nesses tempos urgentes de invenção, o Circo Rakmer avisa ao público que domingo que vem tem mais. Parte dos frequentadores virtuais disse que o horário das 20h30 é tarde para as crianças e assim o próximo será às 19h30. Jeferson afirma que, nas lives de sábado, foi grande a emoção dos artistas com o espetáculo: “As pessoas estão tristes, só veem coisas duras, estão desnorteadas, sem saber o que vai acontecer”. Por isso, foi um desafio fazer em uma hora de live um espetáculo que, presencial, tem 1 hora e 40 minutos. Todos queriam se apresentar!

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Naquela uma hora, rindo à beça, eu compreendi porque, no magnífico filme "O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman, só se salva da peste e da morte a família de artistas.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A mídia dos trabalhadores em Florianópolis

Equipe da Pobres e Nojentas: Miriam Santini de Abreu, Elaine Tavares e Rubens Lopes


Jornalista Elaine Tavares recebe diploma em nome da equipe


Texto: Elaine Tavares

Fazer jornalismo em Florianópolis não é coisa fácil. Até bem pouco tempo o oligopólio formado pela empresa gaúcha RBS detinha a hegemonia, abarcando não apenas a capital, mas toda Santa Catarina. Sua ligação visceral com o poder político instituído fazia dela o braço armado comunicacional da oligarquia local. Enfrentar essa massa uniforme de propaganda oficial sempre foi um desafio. Ainda assim, ao logo dos tempos, alguns jornalistas em particular e algumas experiências de comunicação comunitária ou popular conseguiram dar à sociedade outra mirada sobre os fatos, ainda que com dificuldades e com pequeno alcance. Hoje, o controle da empresa gaúcha se esgarçou, mas as propostas hegemônicas seguem o mesmo diapasão, ligadas ao poder político e neopentecostal. A batalha é a mesma. Dura e implacável.

Pensando na história mais contemporânea da mídia popular na cidade podemos nominar a proposta levada a cabo pelo Centro de Apoio e Promoção do Migrante (Caprom), na metade dos anos 1980 que conseguiu viabilizar o Jornal das Comunidades, com o qual abria um canal de comunicação com os florianopolitanos divulgando sobre a intensa jornada de migração vivida na época. Essa leva de gente vinda do interior do estado e de outros estados da federação viabilizou uma série de ocupações urbanas, que acabaram fazendo nascer uma boa parte das comunidades de periferia da capital. O jornal era distribuído gratuitamente e era produzido por jornalistas e estudantes de jornalismo da UFSC. O debate sobre o direito à terra e à moradia se fazia por ali.

No início dos anos 1990 surgiu no bairro do Campeche o jornal Fala Campeche, que também expressava a luta vivida na comunidade por um Plano Diretor, ampliando ainda mais a temática de interesse das gentes, discutindo terra, moradia, transporte, saúde e educação. O jornal abarcava o bairro, mas também discutia a cidade.

No final daquela década, justamente por conta do crescimento da luta popular, foi a vez da aparição da Rádio Comunitária Campeche, uma proposta de comunicação popular nascida do centro nervoso da luta pelo direito à cidade que vicejava no bairro. A rádio, criada em 1998, despontava como um oásis dentro do controle comunicacional exercido pelo poder dominante, o qual tinha sob seu tacão os principais jornais, as TVs e as emissoras de rádio locais. A Rádio Campeche passou a ser não apenas a voz da comunidade se expressando pelo ar, mas também o espaço para a divulgação das lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais.

No mesmo ano de 1998, é fundada a TV Floripa, gerida por um grupo de entidades sindicais. A proposta era justamente trazer à luz todo o espectro das lutas sindicais que se faziam fortes na cidade. No início dos anos 2000, já com a consolidação das novas tecnologias, surge a Alquimídia, uma proposta  de comunicação crítica que trazia com ela também a possibilidade de criação de novos veículos, dos próprios movimentos sociais, com hospedagem solidária. Em 2004 nasce a revista de reportagem Pobres e Nojentas, que procurava ser uma referência de jornalismo de classe, focando seu trabalho nas pautas de interesse dos trabalhadores, distribuída gratuitamente nas comunidades.

Nesse período é também de grande repercussão o trabalho do ativista Hamilton Alexandre, o Mosquito, que com suas Tijoladas, expressas num blog, trazia outros olhares sobre a política da cidade. Com ele também fazia coro o meu blog pessoal, chamado primeiro de Jornalismo Amoroso e de Libertação, transformando-se mais tarde no Palavras Insurgentes, também com o objetivo de mostrar as vísceras da cidade e as lutas dos trabalhadores. Igualmente importante foi a experiência do bairro da Lagoa da Conceição, com a criação da Folha da Lagoa, espaço de jornalismo crítico.

Mais tarde foi a vez da criação do Portal Desacato, gerido por uma cooperativa, trazendo a possibilidade de uma cobertura ampliada não apenas da cidade, mas também do Oeste catarinense. E em seguida, outras novas propostas de jornalismo independente como o do Coletivo Maruim, Catarinas, Estopim, o braço estadual do Jornalistas Livres, o Daqui na Rede e por fim a proposta da Associação das Rádio Comunitárias foram aparecendo, dando mais musculatura para o jornalismo independente que vinha sendo praticado sistematicamente por um grupo pequeno de jornalistas. 

Pois foi toda essa gente que se juntou nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, para uma sessão de homenagens na Câmara dos Vereadores proposta pelo vereador Lino Peres. Um momento importante de encontro e de reafirmação do compromisso de construção de uma mídia comprometida com os trabalhadores, com os oprimidos, com os explorados da terra. Cada um dos veículos ainda em atividade recebeu um diploma de reconhecimento, e os que já não existem mais foram lembrados como deve ser, porque a luta pela soberania comunicacional é um edifício construído por inúmeras mãos de jornalistas e agentes comunicacionais que decidiram romper com a falácia do jornalismo imparcial. A memória histórica não pode nem deve ser apagada, porque essa luta não começou agora.

No capitalismo vivemos uma guerra de classes e é importante que a sociedade saiba que existe uma mídia que se emparelha com os dominadores e outra que atua irmanada com os trabalhadores. É uma batalha comunicacional travada cotidianamente. Claro que os veículos de comunicação independentes, populares e comunitários têm muito menos alcance e eficácia na relação com os meios de massa, mas eles seguem firmes na resistência até que chegue o dia em que os trabalhadores realizem a revolução e os meios de comunicação sejam controlados pela maioria.

A sessão promovida pelo vereador Lino Peres, muito mais do que amaciar egos, foi o encontro de parceiros e parceiras que trabalham pela transformação. E, para além disso, a oportunidade da reafirmação pública desse compromisso coletivo, generoso e revolucionário. Na guerra de classe, estamos todos – os que lá compareceram, os que já passaram e os que chegam agora - na trincheira dos trabalhadores e como afirmou a jornalista Paula Guimarães na sua fala, representando todos nós:

“... é um erro pensar que somos poucos ou poucas, preocupadas com construir uma narrativa anti-hegemônica. A cada dia somos muitas e muitos que, de maneira coletiva e em redes, nos movemos na contramão das fake news e na luta por uma democracia de fato e direito, só possível com a edificação do poder popular. Teorias e práticas atentas a desestabilizar verdades legitimadas sob violências são nossa maior potência. Por isso, governos autoritários não nos querem por perto. E não estaremos mesmo. Nosso lugar é do outro lado da trincheira”.

A mídia da classe trabalhadora está viva e se move, a despeito de tudo.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

15 outonos de "Jornalismo nas margens"



Completam-se quinze anos de “Jornalismo nas margens: uma reflexão sobre comunicação em comunidades empobrecidas”, da jornalista Elaine Tavares. Era outono de 2004 quando ela lançou o livro, de 48 páginas.

E neste outono de 2019, precisamente amanhã (31), às 9h30, na Sala dos Conselhos do CSE da UFSC, Elaine defenderá sua tese em Serviço Social, sob a orientação da professora Beatriz Augusto de Paiva, com o título “Terra e território na América Latina: desafio indígena na era do capital”. São dois ciclos que se encontram.

O tempo vai passar e “Jornalismo nas Margens” será um clássico, trazendo um conceito inovador, o de jornalismo libertador. Ao longo de cinco capítulos do livro, Elaine reflete sobre o jornalismo não hegemônico, feito às margens, voltado para a grande parcela da população que está abandonada pelo poder público. Entre os autores citados despontam diferentes formas de nomear: folkcomunicação, comunicação alternativa, comunicação popular. Em todas elas a “comunidade” aparece como elemento que desencadeia essa forma de comunicar e, assim, a autora, ao pensar sobre o significado da palavra comunidade, traz uma reflexão fundamental: a imprensa comunitária não é produzida somente pela e para a comunidade. Ela também se faz com a comunidade.

Esse ponto de vista faz nascer o conceito que conduz os pensares dos outros quatro capítulos: jornalismo libertador. Para isso, Elaine busca raízes na Filosofia da Libertação, especialmente no que para ela contribuiu o filósofo argentino Enrique Dussel. A autora traz, para o jornalismo, uma forma de pensar o mundo a partir dos oprimidos, de narrar a vida a partir da consideração de cada ser como único, diferente, mas real. Entra em cena o papel do próprio sujeito-jornalista, que precisa refletir sobre o comprometimento com certas realidades que são negadas ou distorcidas pelo poder público e pela grande imprensa.

A autora discute esses aspectos no capítulo 3, no qual deixa claro que jornalismo é serviço público e nada tem de “neutro”. Segue pela vereda aberta por Adelmo Genro Filho e mostra que essa ótica libertadora não vale apenas para iniciativas feitas nas comunidades. Ela pode ser colocada em prática nos meios hegemônicos e chegar a um público maior e difuso, entre o qual possa despertar reflexões.
Outro aspecto levantado por Elaine é a necessidade de o jornalista olhar o mundo a partir do ponto de vista local. No capítulo 4, são desenvolvidos aspectos da notícia popular, que necessariamente precisa ligar os acontecimentos do lugar com o regional, o nacional, o mundial, e vice-versa, contextualizando e discutindo o significado dos fatos para a comunidade no qual eles repercutem, fazem sentir seus efeitos. No livro, a autora afirma que um dos pressupostos do jornalismo libertador é “(...) desvelar o cotidiano que cerca o viver daqueles que estão à margem” (p. 25).

No capítulo 5, a autora oferece caminhos para colocar a teoria em prática, discutindo as vantagens e as diferentes opções de veículos que podem ser usados nas comunidades. É certo que “Jornalismo nas margens”, ao dar corpo ao conceito de jornalismo libertador, inspira narrativas e jornalistas comprometidos, dispostos, como aponta Elaine, a “dizer o dizível e o indizível, ser capar de ver o que está além dos olhos, narrar, descrever, contar a história”, ajudar, enfim, a narrar e construir um tempo novo.


quarta-feira, 22 de maio de 2019

A cidade tem de ser para todos

Foto: Gabinete Vereador Lino Peres

Texto: Elaine Tavares

Quem em sã consciência gosta de pobreza? Ninguém. Cada ser humano no mundo só tem uma proposição: viver a vida em alegria, sendo amado e saciado. Ademais, a pobreza não é uma coisa natural, que acontece na vida por obra de deus ou do destino. Não. A pobreza é coisa construída historicamente. Ela acontece quando algumas pessoas, pelo uso da força, da mentira ou da persuasão, se apropriam da vida do outro, relegando-o a uma existência sem fartura. No caso da pobreza do nosso tempo, ela é fruto da forma como se organiza a vida no modo capitalista de produção. 

Nesse modo há uma pequena fatia que se adona dos meios de produção e uma grande maioria que vende sua força de trabalho como única saída para sobre/viver. O trabalhador, em verdade, não vive. Ele apenas mantém a cabeça fora da lama da miséria. E os que, por algum motivo não conseguem ou não querem vender sua força de trabalho estão fadados ao abandono ou à morte. 


Quando o capitalismo começou com suas grandes fábricas moendo gente, era tanta família saindo do campo, expulsa pelos pretensos donos da terra, que não havia como as fábricas absorverem tantas pessoas com empregos. Então, o povo que conseguia trabalho, era obrigado a aceitar as condições absurdas de 18 ou mais horas de labuta, parcos salários e casebres imundos para viver. E os que não conseguiam emprego, vagavam pelas ruas, causando constrangimento aos abastados. Foi por isso que criaram leis contra a “vagabundagem”, e essas leis tornavam legal, inclusive, a escravidão. Se fossem pegas vagando pela rua, sem trabalho, as pessoas eram presas e vendidas, quando não mortas. A pobreza dos desgarrados da terra era vista como uma doença, que precisava ser escondida dos olhos das “pessoas de bem”. 


Então, não é novidade esse nojo e horror que os pobres causam aos abastados. Desde o começo do capitalismo foi assim. Basta ler os textos do velho Marx, lá no “Capital”. 


Hoje, em Florianópolis, vivemos esse momento doloroso, no qual as vítimas do capital são tidas como uma doença contagiosa. Vivendo um crescendo vertiginoso no número de moradores em situação de rua, a capital do estado de Santa Catarina, conhecida como Ilha da Magia, busca punir aqueles e aquelas que, na verdade, só precisariam de uma chance para colocar a cabeça acima da linha da miséria. 


Com as “pessoas de bem” reclamando muito dessa multidão de desgraçados dormindo nas ruas, a solução encontrada pela prefeitura foi colocar tapumes nos lugares onde o povo da rua busca abrigo para dormir. E isso é feito bem agora, quando o inverno está vindo. No nosso provinciano jogo dos tronos, os reis da cidade decidiram que o povo da rua é feio demais, fede demais, atrapalha demais e como não para de se multiplicar, a solução é simples: impedir que vivam. Já que não podem ser presos por “vagabundagem”, então que se tire tudo deles, os pequenos abrigos, a possibilidade da comunhão, a sociabilidade. 


O terror do nosso tempo é ter de vir escrever um texto no qual o que se tem a dizer é que tirem os tapumes, para que as pessoas possam dormir embaixo das marquises. Isso é, deveras, inaceitável. Pessoas há, é verdade, que vivem na rua por querer. São poucas. No geral, os que estão em situação de rua são pessoas quebradas psicologicamente, abandonadas, sem chances de trabalho, alguns dependentes químicos (que é uma condição de falta de saúde). E são consequência desse sistema que explora e mantém a pessoa no limite da vida. A rua é sua casa porque ainda que, desprovidos de tudo, eles querem viver. Querem desfrutar do jardim que deveria ser a vida. Querem a alegria e a felicidade. 


Impedidos de dormir nas marquises da Deodoro, os moradores em situação de rua se mobilizaram, porque afinal de contas também são pessoas com direito à cidade, e foram reivindicar junto à prefeitura. A ação dos moradores, juntamente com representantes de outros movimentos sociais e vereadores, exigiu da prefeitura um espaço digno para que as pessoas possam se abrigar. Hoje, os espaços que têm são poucos e cheios de regras que muito pouco podem ser cumpridas.


A batalha segue sendo travada. Os moradores da cidade, que têm casa para morar, olham os moradores de rua com intolerância. “Eles que vão trabalhar, deem duro como eu dou”, diz uma mulher no ônibus, enquanto vai apontando as dezenas de pessoas deitadas embaixo das árvores. Não há compaixão. E não há compaixão porque não há entendimento. Mergulhados na sua própria luta para não morrer, até mesmo os trabalhadores, que deveriam ser solidários, apoiam as ações higienistas. “Aquela rua lá (a Deodoro) é um fedor só. Tá certo”.


A Deodoro fede sim. Fede a gente que não conseguiu se inserir no “mercado”, fede a pobreza. Uma pobreza que é fruto da nossa própria incapacidade de construir uma sociedade justa. A saída é “limpar”, tirar o problema do caminho. Esconder. Deixar o centro saneado para os compradores de mercadorias. Não há espaço para a empatia. São os tempos do capital.


A triste notícia é que num modelo de sociedade que gera pobreza, é impossível escondê-la, domá-la, impedi-la. Enquanto a máquina do capital moi uma parte do povo, outra parte vive à margem. E luta. Porque também quer compartilhar do banquete. 


Em Florianópolis, o povo da rua não se cala, se junta e reivindica. A vida boa e bonita tem de ser para todos.


domingo, 19 de maio de 2019

Notícias do Dia, porta-voz da perversidade


Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

O cotidiano brasileiro tem mostrado o ódio que os grupos dominantes têm das ocupações. De todas elas. Se universidades, escolas, Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas, praças, ruas ficarem às moscas, usufruídas apenas pelos poucos à frente do poder instituído, a vida segue na normalidade anormal do país. Mas ai de quem ousa ocupar em plenitude o espaço público, as instituições públicas, a rua. Florianópolis dá mostras disso com frequência. E ninguém expressa mais o ódio por isso gerado que o jornal Notícias do Dia, o ND, a usina ideológica mais azeitada dos grupos dominantes de Florianópolis.

No capítulo 6 do livro “O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo”, Adelmo Genro Filho afirma que os grandes jornais burgueses, em períodos de relativa estabilidade política, não são abertamente propagandísticos ou formalmente opinativos. Eles se referenciam no jornalismo informativo moderno. Mas, no período atual, não se fareja nada que aponte qualquer forma de estabilidade, muito menos a política. E aí a imprensa assume seu lado, tanto no espaço da informação – em que deveria reinar a “pluralidade de ideias” (como afirma o ND no editorial da edição de comemoração de seus 13 anos, em 13 de março último) – quanto no de opinião, como o editorial e as colunas.

Um recente exemplo foi a cobertura das grandes manifestações de 15 de maio em defesa da educação e contra a reforma da Previdência, reunindo cerca de 35 mil pessoas nas ruas de Florianópolis. A magra notícia do ND resumiu-se a afirmações sobre o trânsito “complicado” – como se não o fosse nos dias sem manifestação – e nas declarações risíveis de Jair Bolsonaro proferidas nos Estados Unidos. O editorial naquele dia seguiu na mesma previsível linha.

Ideologia e mentira

O papel a que se presta o ND, de porta-voz da perversidade, têm aspectos menos previsíveis, e eles aparecem em uma forma específica de ocupação, aquela por moradia. Um marco disso foi a Ocupação Amarildo de Souza, alvo da cobertura jornalística dos veículos da capital entre dezembro de 2013 e julho de 2014. Talvez em nenhuma outra ocasião na história recente da imprensa da capital tenha havido um fato gerador de tantas notícias, editoriais, colunas e comentários virulentos quanto aquele. Foram 27 edições em que o assunto esteve na capa ou na contracapa do ND. Parte da explicação para isso é a localização inicial da ocupação, na SC-401, a caminho das mais badaladas praias da Ilha.

Naquela cobertura, funcionaram todos os mecanismos da ideologia: a inversão de fatos, a sua naturalização, a ocultação do que não convinha ao expô-los e a apresentação de interesses particulares como se fossem universais. E apareceu mais: a mentira. O próprio ND, à época, divulgou que o terreno ocupado pelas famílias, ao contrário do que inicialmente fora publicizado, não era particular, e sim público em sua quase totalidade. Mas, na já citada edição comemorativa de 13 anos do jornal, em 13 de março último, o ND, ao mencionar as ocupações como um dos maiores problemas de Florianópolis, afirmou, junto ao título “Invasão ilegal e prejudicial”: “Com exclusividade, ND revelou e depois combateu a ocupação oportunista de área particular no Norte da Ilha”. Não se trata de ideologia ou manipulação dos fatos, e sim de mentira.

A escalada do jornal contra as ocupações – chamadas por ele de invasões – recrudesceu em 2018, em especial em junho. Entre os dias 5 e 30 daquele mês, o assunto apareceu em 8 edições, sempre com chamada da capa – uma delas em manchete – e três editoriais. O alvo, desta vez, foi a Ocupação Marielle Franco, no alto da Caieira (Maciço do Morro da Cruz), parte dela em área particular, parte em área pública, em uma Zona Especial de Interesse Social. As chamadas ZEIS são destinadas justamente para a construção de moradias para famílias de baixa renda, mas a Prefeitura de Florianópolis até hoje não conseguiu viabilizar nem um só empreendimento do programa Minha Casa Minha Vida na Ilha para a chamada faixa 1, a de menor renda.

Em 2019, a escalada virou uma cruzada. Ela começou na edição de 13 de março e se consolidou na de 23/24 de março, dedicada ao aniversário de Florianópolis. Com o jornal, o ND distribuiu a tradicional revista FloripaÉ e um produto novo, o Dossiê ND (na foto), dedicado às “bandeiras em defesa das causas de Florianópolis”, assim listadas: Invasões / Mobilidade / Presídio / Turismo / Comcap / Cidade Limpa / Ponta do Coral / Marina. As denominadas invasões pelo ND mereceram seis páginas do dossiê.



Na edição de 27 de março, o ND abriu uma série de reportagens – dos dias 27 a 29 - sobre as chamadas invasões irregulares “e as soluções para que Florianópolis não vire um novo Rio de Janeiro”.

Cruzada contra ocupações

A referência a uma cruzada do jornal contra as ocupações não é aleatória. No editorial da edição de 17 de maio – depois de mais uma série de matérias sobre o tema –, aparece o seguinte trecho: “Aos moldes da força-tarefa que resolveu o problema de boa parte dos imóveis abandonados na Capital, o grupo formado para atuar contra as invasões e ocupações ilegais de terrenos públicos e particulares é um passo importante nessa verdadeira cruzada de Florianópolis contra a favelização e domínio do crime organizado”.

Outro trecho afirma que os “invasores” “abrem uma chaga na cidade”: “Estamos a um passo de perder o controle dessas áreas e à mercê de verdadeiras tragédias sempre que o volume de chuva é um pouco maior, já que a cobertura verde dos morros está dando espaço às casas que surgem por lá do dia para a noite”.

A força-tarefa a que o editorial se refere tem a ver com a notícia publicada na mesma edição, sobre a iniciativa do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) de instaurar inquérito civil e buscar soluções contra as ocupações. Esse é o aspecto menos previsível da previsível cobertura ideológica do ND: o jornal – acompanhado por todos os demais veículos do grupo RIC, impele a tomada de providências, mas os convidados a protagonizá-la têm endereço certo. Quem foi convidado para a primeira reunião da força-tarefa do MPSC? A prefeitura e os empresários.

A notícia de 17 de maio não registra todos os nomes e entidades dos participantes daquela primeira reunião, mas menciona três: a organização FloripAmanhã e o Conselho de Segurança do Centro. E informa ainda que para a próxima, no final de maio, serão convidadas secretarias municipais, a organização FloripAmanhã, o movimento Floripa Sustentável e a Câmara de Dirigentes Lojistas. Os três últimos representam todos os setores do empresariado de Florianópolis.

No dia 15 de abril de 2019, o movimento Floripa Sustentável apresentou um manifesto, divulgado pelo jornal e intitulado “Manifesto em favor de Florianópolis”, “(...) para levantar a discussão em torno da inclusão social como eixo de desenvolvimento da cidade” tendo como lema “Prosperidade com Inclusão Social”. O manifesto afirma que o Movimento tem quatro pilares: o desenvolvimento econômico, a inclusão social, a preservação ambiental e o planejamento urbano. Cabe destacar quais seriam as ações consideradas urgentes sugeridas pelo movimento Floripa Sustentável para a cidade e extraídas do manifesto:

*Alterar o plano diretor para elevar o gabarito atual de 4 andares vigente na Ilha, com exceção do Centro, para 10 ou mais andares, de acordo com as características de cada região
*Construção de 4 mil residências por ano, não excluindo aquela parcela da população que se afavela nos morros, nas restingas, nos mangues e nas dunas, num processo que à jusante, aparece a criminalidade, o tráfico de drogas e a insegurança em toda a cidade
*Criação de centralidade (bairros que podem viver quase por conta própria para aliviar o trânsito entre as regiões e o Centro).
*Disciplinar a entrada de imigrantes sem condições.
*Multiplicar as iniciativas visando motivar crianças e adolescentes moradoras em áreas precárias para o esporte, as música, o artesanato, etc.
*Multiplicar as ações sociais nas favelas

No manifesto, as ações sociais nas favelas não são explicitadas, nem esclarecida a fonte de recursos para a construção de 4 mil residências por ano. Apesar de a inclusão social ser tomada como eixo de desenvolvimento da cidade, do ponto de vista dos impactos no espaço urbano o que interessa são os demais itens: construir prédios com mais andares no centro, criar centralidades nos bairros, acessíveis a quem pode pagar muito para morar nos melhores localizados e, sobretudo, disciplinar a entrada de imigrantes sem condições.

Será, portanto, nestas bases a contribuição do empresariado – aparentemente, até agora, a contribuição majoritária – para a força-tarefa do Ministério Público de Santa Catarina. Isso em um contexto no qual a cidade irregular alcança quase 85% do território da Ilha, inclusive a porção mínima e precariamente urbanizada. A população de estratos sociais de 0 a 3 salários mínimos perfaz quase 40% da população e não chega a representar 15% do território ocupado irregularmente. O restante é de outros estratos sociais e, principalmente, dos setores imobiliários especulativos, que têm objetivos claros de obtenção de renda e não de uso habitacional familiar. A moradia é condição mínima para uma vida digna em um cenário no qual estão sendo destruídos todos os avanços alcançados desde a Constituição Federal de 1988.

Natureza como álibi

O frequente receio do ND de que Florianópolis vire o Rio de Janeiro é por demais conveniente. Para compreender isso, há que ler o artigo de Rose Compans intitulado “A cidade contra a favela”, no qual a autora mostra a apropriação do discurso da preservação ambiental para a retomada da discussão sobre remoções de favelas no Rio de Janeiro, medida rechaçada no processo de redemocratização do país.

Cita-se um trecho do resumo do artigo: “Depois da favela como foco de epidemias e antro de marginais, a mais nova representação social que vem sendo construída apresenta-a como fator de degradação ambiental. Auxiliada pelo saber técnico-científico que demonstra empiricamente os danos ao meio ambiente causados pelas ocupações irregulares, observa-se a constituição de um movimento conservador que busca pressionar os poderes públicos a reprimi-las, sobretudo nas áreas mais valorizadas da cidade”. Subjacente a essa representação da favela como elemento de degradação ambiental, mostra o artigo, está o pressuposto de que o pobre desmata e o rico preserva.

A autora analisa a campanha promovida, em 2005, pelo jornal O Globo, intitulada “Ilegal. E daí?”, que teve como consequência uma ação movida pelo Ministério Público Estadual solicitando à Prefeitura a remoção de 13 áreas favelizadas. Ou seja, aqui como lá, o jornal começa a “cruzada”, omite a opinião de quem olha os fatos por outro prisma e toma o objetivo – terminar com as ocupações – como de interesse de toda a cidade, seja da forma que for. Do mesmo modo, legitima tal interesse pelo combate ao crime organizado, mote frequente do ND, e para evitar danos ao meio ambiente e tragédias por deslizamento em áreas de risco.

Não há, porém, levantamentos atualizados sobre onde são exatamente essas áreas, se coincidem com as das ocupações que o jornal combate e o risco efetivo para os moradores. A preocupação com danos ao meio ambiente não pode ser levada a sério vinda do ND, que sempre se posicionou a favor dos interesses do empresariado e considera tais preocupações um “entrave”, como mostrou em série divulgada em 2015 e na recente posição a favor da manutenção dos beach clubs. Do ponto de vista do empresariado, ainda menos. Empreendimentos como o Costão Golf, por exemplo, da mesma propriedade do badalado Costão do Santinho, provocaram mudanças oportunistas de legislação para saírem do papel. Mais: o Costão Golf ganhou uma lei só para ele, a Lei Complementar 133/2003, que permitia até mesmo a instalação de um teleférico de integração do Costão Golf Club ao Costão do Santinho sobre as dunas dos Ingleses e Santinho.

À parte o que a ideologia do ND encobre, está o fato motivador, reluzente, cristalino, desta cruzada contra as ocupações: proteger a propriedade privada e tomar para uso privado o que, na Ilha, ainda é público. Isso é dito pelo próprio jornal, no editorial da edição de 9 de maio: “A pressão da sociedade precisa ser permanente, até que a propriedade privada seja respeitada e a urbanização da cidade seja plena, evitando que áreas de interesse social ou preservação permanente sejam ocupadas irregularmente”. O jornal ignora até mesmo um pequeníssimo avanço sob o capitalismo, a função social da propriedade e da cidade previstas na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Cidade, de 2001.

Sim. É disso que se trata. Mesmo nas áreas de interesse social, será o empresariado a ditar o que é ou não regular. O poder público – como historicamente ocorre na Ilha – irá direcionar os investimentos públicos em áreas e em obras decididas pelos grupos dominantes, processo amplamente mostrada no livro da professora e pesquisadora Maria Inês Sugai intitulado “Segregação silenciosa: investimentos públicos e dinâmica socioespacial na área conurbada de Florianópolis” (Editora da UFSC, 2015).

A charge abaixo, também na edição de 17 de maio, foi publicada à guisa de elogio à força-tarefa do MPSC. Mas ela expressa, perversamente, a relação de força entre seres humanos transformados em coisas. Dentro da retroescavadeira – com seu olho de ódio –, a força-tarefa dos grupos dominantes da cidade e seu discurso de defesa da natureza e da inclusão social; dentro do casebre minúsculo, em fuga, as pessoas que podem ser jogadas na rua pela incapacidade de pagar – e bem – para morar na Ilha da Magia. A charge evoca casas marcadas para desaparecer e lembra a atuação da Polícia Militar em uma ação violenta na Ocupação Marielle Franco, quando, em meio ao terror dos moradores, algumas casas foram marcadas com a letra “D”.



A essa perversidade de que o ND é porta-voz, movida pelo ódio, há que se contrapor outro ódio, do tipo tão bem descrito pelo poeta Cruz e Sousa em seu poema “Ódio Sagrado”:

Ó meu ódio, meu lábaro bendito,
Da minh'alma agitado no infinito,
Através de outros lábaros sagrados.

Ódio são, ódio bom! sê meu escudo
Contra os vilões do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais Pecados!

Artigo “A cidade contra a favela”: http://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/172

domingo, 5 de maio de 2019

Para onde irão?



/// Ocupação em Florianópolis luta para impedir despejo ///

Por Míriam Santini de Abreu

Uma fila de gente descia a rua General Rosinha, no Mont Serrat, parte do maciço que corta o centro de Florianópolis de Norte a Sul e para onde, ainda no início do século passado, foram expulsas as populações pobres que viviam nas áreas planas das proximidades. Era noite de quinta-feira. Vinham com instrumentos, palavras de ordem e um grande estandarte amarelo. Ali volta e meia passam procissão e desfiles da escola de samba Copa Lord. Desta vez, não. Eram os moradores da Ocupação Marielle Franco, onde hoje estão 120 famílias. Premidos por uma ordem de despejo prestes a ser executada, eles buscam desesperadamente apoios na cidade. Na quinta, se juntaram ao pessoal da Batalha do Rap, na Praça Tancredo Neves, na frente da Assembleia Legislativa. Nesta sexta (3), caminharam nas ruas do Centro da capital catarinense com faixas coloridas em que ficava sem resposta a pergunta: “Pra onde vamos, senhor juiz?”

Pararam antes no Largo da Catedral, um dos lugares em que os movimentos sociais se encontram, no coração da capital catarinense. Era preciso explicar aos passantes – alguns dirigindo desaforos às famílias – o que significa, de uma hora para outra, deixar de ter onde morar. Falou o Jacir, agarrado ao cachorrinho branco, o Jacir que lá na Ocupação tem uma hortinha e pés de tudo quanto é chá: “Nós temos criança, nós temos cachorro, nós temos gato, nós não pedimos nada, queremos a nossa casa. Eu não quero que derrubem nossa casa. Eu peço, fortaleçam um irmão, fortaleçam as famílias, fortaleçam as crianças”. Falou um gurizinho, o Mateus, sobre a sua tristeza de ver a mãe sempre chorando porque, disse ele, de uma hora para outra não poderá mais deitar a cabeça sobre o travesseiro. Falou a Adriana, que já não sabe o que dizer ao filho de oito anos que pedia, sorrindo, enquanto ela ajudava a pintar as faixas: “Mãe, vem pra sombra, mãe, vem tomar um ar, mãe, relaxa!”.

– Eu não sei o que eu vou dizer pra ele, nenhuma dessas mães aqui sabe. O que dizer a eles quando eles não conseguem vaga em escola porque nós não temos um comprovante de endereço, porque nós não somos vistos como pessoas, aquelas crianças não são vistas. Mas tem uma notícia boa. Porque lá dentro da comunidade Marielle Franco nós somos humanizados e os nossos filhos brincam nas ladeiras abaixo, ladeiras acima, é o espaço que eles têm, é o espaço que eles acreditaram que nós tínhamos conquistado pra eles. Mas querem nos tirar isso, e não é justo. Para onde vamos com nossos filhos?

Pouco antes de Adriana falar, o sino da Catedral havia dobrado para o início da missa. E Adriana então interrompeu o que dizia e conclamou:
– Senhor padre, eu lhe peço, com licença, dá licença. Gente, vamos pedir ajuda para quem for. É a missa.

E foram subindo a escadaria Catedral adentro. Uns paroquianos não gostaram: - Falta de respeito...
Mas o padre, que se preparava para celebrar a missa, não achou. Acompanhou os moradores na volta ao alto da escadaria e lá se soube que ele era um filho da General Rosinha, perto dali nascido, no Mont Serrat, por onde os ocupantes haviam descido para buscar apoios na cidade:

- Eu sou lá do Morro - informou o padre.
E ao final da conversa, arrematou:

– Que vocês continuem se unindo e mostrando força para esse mundo que está aí. Este é o nosso mundo. E cada um de vocês pode lutar por dias melhores.

Era o padre Eugênio Kinceski.

***

Há pelo menos sete ocupações organizadas (fora as espontâneas) na região de Florianópolis em áreas públicas ou em privadas que estavam sem uso. Todas sofrem repressão da Polícia Militar, das prefeituras ou do Judiciário para reintegração de posse. Na parte insular de Florianópolis, por causa do preço dos terrenos, ainda não foi possível construir nenhum empreendimento do Minha Casa Minha Vida para a Faixa 1, que atende famílias de baixa renda. Na parte da capital que fica no continente, foram apenas dois, num total de 156 apartamentos. A maioria está na periferia de Palhoça, onde a terra é mais barata. A lista de pessoas cadastradas à espera de uma habitação de interesse social na capital chega a quase 17 mil, mas os dados são de seis anos atrás. Em contrapartida, Florianópolis tem um dos metros quadrados mais caros do país, como na badalada praia de Jurerê Internacional. Mas muita terra hoje explorada para o turismo foi obtida por fraude.

O livro “O golpe da ‘Reforma Agrária’: fraude bilionária na entrega de terras em Santa Catarina”, de Gert Schinke, através de extensa pesquisa nos arquivos do extinto Instituto de Reforma Agrária de Santa Catarina (IRASC), que funcionou entre as décadas de 1960 e 1970, mostra que, dos cerca de 16 mil títulos de propriedade entregues pelo órgão, em torno de 11.200 poderiam ser considerados no mínimo irregulares pelos critérios que legalmente davam base para reforma agrária. Em vez de serem entregues prioritariamente a camponeses, posseiros e pescadores, como previa a lei, as terras foram concedidas a militares, funcionários públicos, empresários pecuaristas e profissionais liberais.

A Fundação João Pinheiro mostrou, ano passado, que o déficit habitacional (número de famílias que vivem em condições precárias de moradia) aumentou. Em 2015, era 6 milhões e 355 mil. O gasto excessivo com o aluguel passou a representar 50% do déficit habitacional do país. Ou seja, diz o cientista social Fernando Calheiros, em 2015 mais de 3,177 milhões de famílias urbanas com renda de até 3 salários mínimos acabaram comprometendo 30% ou mais da renda familiar mensal somente com o custeio do aluguel.

Isso foi antes que, em 2019, o IBGE anunciasse que o Brasil está com 13,1 milhões de pessoas desempregadas.

No final de senana passado, os moradores estiveram no Encontro Estadual Ocupações Urbanas e, neste sábado, no I Fórum do BRCidades de Santa Catarina, ambos na UFSC, denunciando a falta de interesse da Prefeitura em resolver a situação. A parte pública em que as famílias estão é Zona Especial de Interesse Social, destinada justamente para quem se encontra em situação precária de moradia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Privatizar o que é público só traz prejuízo

UPA do Continente também será entregue à privatização

No ano passado a prefeitura de Florianópolis anunciou que iria entregar o almoxarifado para a iniciativa privada. A intenção era se livrar do trabalho de logística de materiais dos nove almoxarifados que a administração municipal possuía, seis deles em imóveis alugados, gerando um total de despesa de quase quatro milhões de reais ao ano, somando vigilância, pessoal, luz, água, suprimentos e equipamentos.

Então a prefeitura contratou a Prime Log Distribuidora Eireli - EPplP, através de licitação, tipo concorrência pública, com a finalidade de terceirizar o serviço de armazenamento e distribuição de produtos necessários para a realização dos serviços públicos a todos os órgãos da Prefeitura.  Segundo o prefeito isso iria gerar uma economia de mais de 35%. 

Naqueles dias o Sindicato dos Trabalhadores da Prefeitura já informava à comunidade sobre os riscos de se colocar na mão da iniciativa privada um serviço como esse. Num informe, em novembro de 2017, o sindicato alerta: “Por 14 milhões de reais  4 milhões de reais, a licitação dos almoxarifados está em processo de habilitação e a previsão é que até início do ano de 2018, uma empresa privada seja a responsável por toda a logística e cuidado com os produtos comprados com verbas públicas. O descaso dos prefeitos com o investimento e cuidado dos almoxarifados não é novidade em nenhuma administração. Há anos que a logística de armazenamento dos materiais usados pelas secretárias, não é tratada com o seu devido cuidado e importância. O que era um problema crônico de desinteresse dos prefeitos e descaso com o serviço público, agora vai para as mãos da iniciativa privada, seguindo a lógica de privatização, em que um serviço é sucateado e depois "vendido" para empresas terceirizadas”.

Mesmo com a ação do sindicato o processo seguiu, sem que fosse questionado, sempre com o velho refrão de que “traria economia e benefícios”.

Na semana passada, por conta de uma denúncia que chegou via Câmara de Vereadores, a Vigilância Sanitária visitou o espaço onde passou a funcionar o almoxarifado privatizado e constatou uma série de irregularidades no armazenamento e na distribuição. A empresa não tinha autorização da Anvisa para armazenar medicamentos e muito menos a licença municipal para funcionamento.

Só no campo da saúde o resultado é dramático: o estoque de insulina, que é um medicamento vital para diabéticos estava totalmente fora dos padrões e foi imediatamente interditado. “Dados obtidos pelo Sintrasem mostram que cerca de 3.935 frascos de insulina foram distribuídos só em janeiro na rede pública de saúde de Florianópolis. Centenas de pessoas devem ser prejudicadas pela irresponsabilidade da Prefeitura e da terceirização dos almoxarifados municipais. Um comunicado emitido a todas as unidades de saúde afirma que providências estão sendo tomadas, mas "isso poderá levar alguns dias". A situação pode ficar ainda mais complicada, pois nem sequer autorização da Anvisa ou licença municipal o espaço tem”, denuncia o sindicato.

O diretor administrativo do Sintrasem, Bruno Ziliotto, acrescenta que o almoxarifado central concentra todos os materiais usados pela prefeitura, inclusive materiais de limpeza e outros materiais usados nas escolas, nos postos de saúde, etc. A insulina é só uma ponta. “Quando se entrega a coisa pública para a iniciativa privada o resultado é previsível. As empresas estão preocupadas com o lucro, não com o bem estar da comunidade”.

É importante lembrar que o setor de pequenas obras da educação da prefeitura , responsável pelos reparos nas mais de 100 unidades da rede municipal de educação, também foi privatizado no ano passado, o que configura uma tendência da prefeitura em insistir nesse processo de terceirização. A pergunta que fica é: economizar colocando em risco as pessoas tem algum sentido?

Não bastasse isso o prefeito Gean, animado com a nova lei que permite terceirizar qualquer coisa no serviço público, decidiu também entregar para a iniciativa privada o atendimento da Unidade de Pronto Atendimento do Continente, que deve ser gerida via Organização Social. Sendo assim os médicos serão contratados via empresa privada, o que pode redundar em rotatividade e a completa desvinculação da lógica do médico de família.

O sindicato entende que a experiência da terceirização no município é clara: não traz economia e não traz nada de bom para a comunidade. Sendo assim, a prefeitura deveria retomar os serviços garantindo a qualidade dos mesmos e o bem estar da população. Essa é uma luta que deveria ser encampada por todos os cidadãos e cidadãs de Florianópolis. Afinal, aquilo que parece não ter nada a ver com a vida da gente, como a privatização de um almoxarifado, acaba tendo implicações inimagináveis, como é o caso agora, da insulina que foi mal acondicionada. E se o remédio não funcionar em quem já tomou? Quem vai arcar com essa responsabilidade? E quem pode pagar uma vida?

É hora de a comunidade entender bem o que significa entregar a cidade para a lógica do lucro. Se é a empresa privada que administra, não é o ser humano que conta. Vejam o que aconteceu em Brumadinho, com a explosão da barragem. Tudo isso está ligado e quer dizer a mesma coisa: os interesses privados não se ocupam do bem estar geral.

Veja o vídeo com o Diretor do Sintrasem, Bruno Ziliotto.