quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Livro “A rebelião do vivido no jornalismo independente de Florianópolis” narra experiências de mídia alternativa na capital catarinense


O livro “A rebelião do vivido no jornalismo independente de Florianópolis”, produção da revista Pobres & Nojentas e da Letra Editorial, traz oito artigos que contam como foram as riquíssimas experiências que, desde os anos 1980, moveram e movem, na capital catarinense, jornalistas comprometidos com o que se tem chamado de jornalismo independente/alternativo/contra-hegemônico. Com elas mostram-se a força e a capacidade de organização do movimento popular de Florianópolis e o jornalismo que deu e dá visibilidade a esses movimentos.

A organização é da jornalista Míriam Santini de Abreu,  da equipe do sítio Folha da Cidade, com projeto e diagramação da jornalista Sandra Werle. São autores do livro Ana Claudia Rocha Araujo, Anita Grando Martins, Claudia Weinman, Coletivo do Portal Catarinas, Dario de Almeida Prado Júnior, Elaine Tavares, Jeffrey Hoff e Míriam Santini de Abreu.

Estão contadas as rebeldias da Bernunça (anos 1980), da Folha da Lagoa (anos 1990), do jornal Guarapuvu, da Rádio Comunitária Campeche, da Pobres & Nojentas, do Portal Desacato (anos 2000), do Daqui na Rede e do Portal Catarinas (anos 2010).

Míriam, organizadora do livro, conta que a ideia surgiu durante a pesquisa que fez para sua tese no Curso de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), intitulada “Espaço e cotidiano no jornalismo: crítica da cobertura da imprensa sobre ocupações urbanas em Florianópolis”, defendida em agosto de 2019. O objetivo da pesquisa foi examinar as manifestações da ideologia produzidas pelo jornalismo tradicional e explorar as potencialidades do jornalismo independente na cobertura do cotidiano no espaço urbano, vislumbrando a possibilidade de o jornalista ser capaz de uma prática criadora que constitua o jornalismo como obra, valor de uso, em contraposição ao jornalismo como produto, valor de troca.

A partir da discussão de como se deu a produção do espaço na cidade de Florianópolis (SC), Míriam pesquisou a cobertura jornalística de três diferentes processos de ocupação urbana – dois por moradia (Ocupação Amarildo de Souza e Ocupação Marielle Franco) e um por lazer/cultura (ocupação da Ponta do Coral) nos jornais Diário Catarinense e Notícias do Dia (jornalismo tradicional) e na revista Pobres & Nojentas, no portal Desacato e no coletivo Maruim (jornalismo independente).

A pesquisa evidenciou a importância de trazer à luz a história e a contribuição dos veículos independentes analisados e ampliar o estudo do papel de outros veículos ao longo dos últimos 40 anos em Florianópolis. “Os veículos tradicionais, hegemônicos, são fartamente estudados, mas os independentes são, de modo geral, ignorados, apesar de cumprirem, em diferentes períodos históricos, um papel fundamental na visibilização das lutas populares”, afirma Míriam. Pela dificuldade de sustentação financeira, esses veículos têm dificuldade de se manter, mas mesmo os de vida curta trazem experiências riquíssimas tanto de jornalismo (formas de organização, de sustentação financeira, de distribuição, de seleção de pautas) quanto de compreensão da vida da cidade e seus habitantes. Entre os veículos citados no livro, apenas três continuam até hoje a produzir conteúdo jornalístico de forma regular.

Há, nas histórias, descobertas valiosas, entre elas, por exemplo, a forma como os veículos hegemônicos orquestram campanhas contra os independentes quando a cobertura jornalística neles feita não convém os grupos de poder na cidade e a construção teórica fundamental que move os independentes, como a de soberania comunicacional.

É nessa linha, afirma Míriam, que o livro, apesar de trazer exemplos de Florianópolis, tem interesse para todo e qualquer veículo, jornalista ou comunicador que tenha o compromisso de efetivamente narrar a experiência vivida de uma cidade e seus habitantes.

Para comprar o livro em formato digital, por R$ 15,00, acesse https://pay.hotmart.com/D42479643K?checkoutMode=10&bid=1603742423665&fbclid=IwAR0B51PfswI81KPi4heB49PvZQCxx3u8FwEzzJu23IYisjRJjmdCgfL_hRY

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A rebelião do vivido



Entrevista com a jornalista Miriam Santini de Abreu, organizadora do livro que eterniza a história de oito experiências de jornalismo independente em Florianópolis. Algumas já viraram história, mas outras seguem sendo o espaço de resistência e luta dos movimentos sociais, sindicatos e lutas populares da capital. 

O livro em formato eletrônico está a venda, por 15 reais.

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domingo, 30 de agosto de 2020

Sobre Wakanda e o socialismo

 Por Elaine Tavares

Chadwick Boseman é um ator negro que morreu aos 40 e poucos anos e causou uma grande comoção nos Estados Unidos. Ele interpretou um rei africano de uma terra imaginária, Wakanda, no cinema. Um filme sobre um reino negro, feito só com pessoas negras. Um marco nos Estados Unidos. Não vou entrar aqui no debate sobre a mensagem do filme, absolutamente liberal. Vou apenas perguntar: e poderia ser diferente? 

Sempre é importante lembrar que as ideias socialistas e comunistas foram varridas dos Estados Unidos na grande cruzada realizada pelo nefasto Joseph McCarthy entre os anos 1946 a 1958. Durante anos a fio qualquer pessoa com ideias mais à esquerda era denunciada e cassada. Acredita-se que mais de 10 mil pessoas perderam seus empregos e caíram no ostracismo social durante a chamada era McCarthy: professores, sindicalistas, artistas, escritores. Até o grande Charles Chaplin viveu na pele esse horror. 

Nas universidades se algum professor resolvesse incluir nas suas aulas de história a verdade sobre a Segunda Guerra ou algo sobre a Revolução Russa já era denunciado por alunos e imediatamente expulso. Se alguém numa empresa qualquer fizesse um abaixo-assinado para ter café para os trabalhadores também era apontado como comunista. E o comunismo passou a ser um inimigo a ser extirpado do país. Vale lembrar que muitas dessas pessoas que foram execradas não eram comunistas. Eram apenas pessoas que queriam lutar por direitos, mínimos às vezes. McCarthy promovia uma caça aos comunistas e a população apoiava fortemente, porque toda a mídia de massa divulgava a necessidade de combater o perigo vermelho.  

Foi uma campanha tão virulenta que o Partido Comunista dos Estados Unidos quase chegou a extinção, sobrando muito pouca gente identificada com essa proposta. E quando nos anos 1960 assomam as lutas pelos direitos civis, os direitos da população negra e contra a Guerra do Vietnam, as ideias que as movimentam são mais no campo liberal. Os Panteras Negras, que falavam de socialismo e apresentaram uma visão mais radical da luta contra o racismo, igualmente foram presos e execrados, sobrevivendo uma visão mais “palatável” da luta, com as ideias pacíficas de Luther King. Muitos avanços vieram a partir daí, ainda que cobrando alto em sangue e dor da população negra. Mas, tudo redução de danos, a considerar a realidade atual via massacre sistemático dos negros naquele país. O que dizer quando um negro desarmado leva sete tiros nas costas e um branco armado de fuzil mata e sai andando? 

Hoje, observando as figuras que representam as ideias mais progressistas nos Estados Unidos – de qualquer etnia - fica bastante claro que a visão vencedora – não apenas no campo da luta contra o racismo, mas também nas demais lutas por direitos – foi a visão liberal. Assim, o máximo que a turma consegue chegar é nas pautas que traduzem as lutas contra as desigualdades, o que significa que as desigualdades seguirão existindo, só que menos. Bom, isso não é suficiente. 

Essa é também a mensagem do filme Pantera Negra, do qual Chadwick Boseman foi protagonista. E, na indústria do cinema estadunidense isso já foi altamente transformador. Seria obviamente impensável que Hollywood colocasse na tela um filme só de negros, com uma mensagem revolucionária: ou seja, Wakanda saindo de seu isolamento para comandar uma revolução mundial, acabando de vez com as desigualdades e com a exploração. Não. Isso não sairia da cidade dos anjos. O que pode sair é o que saiu. Wakanda dando uma de Banco Mundial, FMI, Nações Unidas, financiando programas de redução da pobreza. Até aí, tudo bem.

Cá no meu cantinho eu entendo perfeitamente a comoção da população negra estadunidense com a morte daquele que representa um rei imemorial dos ancestrais. E sua história de luta contra a doença, mesmo durante as filmagens, o torna ainda mais heroico como ser humano e como homem negro tentando sobreviver na selva real. Ele certamente viverá na memória das crianças negras, que nunca tinham visto um rei negro no cinema. Levá-los a ultrapassar esse limite é a tarefa hercúlea dos partidos e dos movimentos revolucionários, que ainda são minúsculos nos Estados Unidos. 

Mas, por hoje, é isso que se pode ter. Não morreu apenas um ator negro, um bom ator a se considerar sua performance como James Brown, morreu alguém que representou, pela primeira vez em muito tempo, uma imagem positiva do negro estadunidense – ainda que camuflada em rei africano e limitada pela proposta liberal.  Chadwick representa um marco no cinema estadunidense e, na pele do rei de Wakanda, representa uma esperança para muitos meninos e meninas negras acostumados a ver seus iguais apenas em papel de empregados, drogados ou bandidos. Cruzar o muro do liberalismo é o próximo passo. 

A luta pelo socialismo/comunismo nos Estados Unidos é uma estrada que vem sendo reconstruída com muito vagar. Tanto que o Partido Comunista de lá passou décadas sem conseguir eleger sequer um vereador. Apenas no ano passado, o partido pode garantir um assento no legislativo da pequena cidade de Ashlan (oito mil habitantes), ao norte, no estado de Wisconsin, conhecido por ser o berço do chamado “progressismo” ainda no final do século XIX.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Para o Grupo ND, a clandestinidade tem classe: os empobrecidos

Famílias da Ocupação Marielle Franco em luta por moradia

Por Míriam Santini de Abreu - jornalista

O Grupo ND, cada vez mais alinhado com e irrigado pelo projeto genocida de Jair Bolsonaro, voltou à carga na campanha contra os empobrecidos de Florianópolis. Em março de 2019, o grupo fez circular o Dossiê Floripa, impresso de 20 páginas que elegia as chamadas “invasões” como um dos principais problemas da capital catarinense, sob a manchete “Invasões e Omissão”. Agora, passados quase um ano e seis meses, na edição de 22/23 de agosto, em meio a uma pandemia que se alastra com mais força nos bairros periféricos, o grupo publica o chamado Relatório ND, com a manchete “Cidade ameaçada”. Tanto naquele dossiê quanto neste relatório, o discurso genérico quanto aos problemas provocados pelas chamadas invasões e construções ditas clandestinas – em uma cidade na qual 51% das construções são consideradas irregulares – é ricamente ilustrado apenas por aquelas ocupadas por populações empobrecidas. 

Ao longo de 36 páginas do Relatório ND, praticamente todas as entrevistas são com fontes oficiais, empresariais, institucionais e especializadas. Essa cidade-mercadoria concebida pelo poder e negada a uma parte dos moradores aparece em uma das chamadas de capa do Relatório ND: “Especialistas projetam soluções para combater as invasões”. Fora uma declaração de três linhas de uma moradora da Ocupação Marielle Franco, não nomeada, o caderno não entrevista sequer um morador de ocupação. Esse silenciamento radical apaga toda e qualquer experiência vivida nesses espaços tão fortemente criminalizados pelos discursos oficiais, abafando falas que pudessem minimamente permitir ao leitor levantar o véu de clandestinidade sob o qual o grupo ND esconde essas populações. O fato de dominar, com o Grupo NSC, a mídia local, ainda possibilita que esse tipo de cobertura alastre seus efeitos na TV, jornal, revista e internet, contando com notas de colunistas refugados pelo Grupo NSC, ex-RBS, velhos porta-vozes do empresariado local. 

O Grupo ND sistematicamente compara a situação de Florianópolis a do Rio de Janeiro. No caso do Rio, a pesquisadora Rose Compans mostrou como a apropriação do discurso da preservação ambiental foi fundamental para a retomada da discussão sobre remoções de favelas, medida rechaçada no processo de redemocratização do país. A autora analisa a campanha promovida, em 2005, pelo jornal O Globo, intitulada “Ilegal. E daí?”, que teve como consequência uma ação movida pelo Ministério Público Estadual solicitando à Prefeitura a remoção de 13 áreas favelizadas, processo similar ao que ocorre agora em Florianópolis. Os segmentos interessados na retomada desta política, afirma a autora, utilizam o discurso que associa ocupação irregular do solo à degradação ambiental, atribuindo aos pobres a responsabilidade pelo desmatamento e a poluição dos corpos hídricos ocorridos ao longo de décadas. Essa associação veio no lugar de outra, a que localizava nas favelas os focos de epidemias e da marginalidade. 

O Relatório ND caminha nessa senda ao insistentemente associar as ocupações ao tráfico de drogas e à degradação da paisagem. O grupo jornalístico, porém, foi o mais árduo defensor dos beachs clubs no mais caro balneário da Ilha, Jurerê Internacional. Esses clubes estão sobre Áreas de Preservação Permanente, provocam poluição sonora e privatizam parte do acesso à praia, fatos que geraram embate judicial. São, portanto, dois pesos e duas medidas: o jornal culpa os entraves ambientais e o rigor da justiça contra os beachs clubs pelas dificuldades de Florianópolis em se consolidar como destino turístico, mas cobra rigor contra as ocupações para moradia em nome da preservação ambiental. 

Clandestinos quem? 

A palavra clandestino vem do latim e significa "às ocultas". Feito às escondidas. É pelo que não diz que o Grupo ND toma partido da clandestinidade sorrateira dos grupos dominantes de Florianópolis, que há décadas, às escondidas, tomam as terras, mudam as leis conforme a conveniência e se apoderam dos recursos públicos para valorizar as localizações que lhes convêm. Três exemplos! 

1) Pesquisa da professora de Arquitetura e Urbanismo da UFSC Maria Inês Sugai revela que, em Florianópolis, no período de 1970 a 2000, o Estado, em suas três esferas, fez os mais significativos investimentos públicos nas áreas residenciais de mais alta renda da capital catarinense, não apenas dotando-as de equipamentos como hospitais, universidades e edifícios públicos como também formando uma rede de vias que as conectou, englobando o acesso à Ilha, os bairros centrais e os balneários ao Norte e Leste da Ilha. Em parte, esse processo ocorreu graças às apropriações, pelo Estado (e também pelas camadas sociais mais influentes), das áreas públicas e das terras comunais (terras de uso comum de pequenos produtores) existentes em toda a extensão da Ilha, graças a um decreto estadual de 1934. 

2) Pesquisa do historiador Gert Schinke nos arquivos do extinto Instituto de Reforma Agrária de Santa Catarina (IRASC), que funcionou entre as décadas de 1960 e 1970, revelou que, dos cerca de 16 mil títulos de propriedade entregues pelo órgão no estado, em torno de 11.200 poderiam ser considerados no mínimo irregulares pelos critérios que legalmente davam base para reforma agrária. Em vez de serem entregues prioritariamente a camponeses, posseiros e pescadores, como previa a lei, as terras foram concedidas a militares, funcionários públicos, empresários pecuaristas e profissionais liberais.  Investigação sobre essa fraude imobiliária gigantesca está no Ministério Público Federal (MPF). 

3) Para construir o Costão Golf, o empresário Fernando Marcondes de Mattos conseguiu mudar o zoneamento do distrito onde ele ficou localizado, o Distrito de Ingleses do Rio Vermelho. A aprovação do projeto que viabilizou a mudança – com apenas três votos contrários do total de então 21 vereadores – ocorreu na última sessão do ano de 2003 da Câmara Municipal de Florianópolis, à meia-noite de 16 de dezembro, e a lei foi sancionada às vésperas do Natal pela então prefeita Angela Amin. 

As páginas centrais do Relatório ND trazem o “Mapa das invasões e moradias irregulares de Florianópolis” e das 9 mencionadas – ignorando o fato trazido pelo próprio jornal de que 51% das construções na capital são consideradas irregulares – cabe ressaltar o enquadramento de duas: Monte Cristo, no Continente, e Maciço do Morro da Cruz, no Centro. O Monte Cristo tem ocupações consolidadas há pelo menos 30 anos, e o Maciço desde ao menos o início do século passado, ou seja, são ocupações muito anteriores às das mais badaladas praias de Florianópolis. Ainda assim, recebem o carimbo da clandestinidade. Apesar de o jornal não mencionar o fato, no caso da Vila do Arvoredo, também chamada de Favela do Siri e também citada como invasão, houve várias tentativas para realocar as famílias e, nessas ocasiões, moradores das áreas escolhidas fizeram abaixo-assinado contra a presença daquela população em sua vizinhança. 

Cabe destacar a perversidade dessa cobertura em um momento no qual, segundo o Covidômetro da Prefeitura de Florianópolis, o Monte Cristo e o Monte Serrat, no Maciço, estão respectivamente na segunda e na sexta posição na taxa de casos por habitante (dado de 26/08/2020). O Novo Continente, na mesma região do Monte Cristo, está em primeiro lugar. A Prefeitura apresenta os dados por bairro e, lamentavelmente, não há informação pública sobre o quantitativo de casos que, nos bairros no entorno do Maciço, como Agronômica, Trindade, Saco dos Limões ou Pantanal, englobam especificamente famílias moradoras do Maciço. No final de julho, porém, a Prefeitura realizou ação sobre cuidados pela infecção de covid-19 na comunidade do Morro do 25 após a alta dos números de moradores contaminados na comunidade. No Covidômetro, porém, os casos foram lançados no bairro Agronômica. 

A reivindicação de testes para covid-19 já levou a duas manifestações em Florianópolis, nos dias 7 e 12 de junho. Na do dia 12, a caminhada organizada, entre outros, pelo Movimento de Luta por Moradia e o Coletivo Ocupações Urbanas, iniciou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), contornou o Maciço do Morro da Cruz e encerrou na entrada do Morro do Mocotó. A luta pela testagem para a população mais vulnerável busca conhecer as reais condições da subnotificação nestes territórios e assim aplicar as medidas sanitárias e de amparo mais adequadas às comunidades. Nas manifestações, os moradores denunciaram que o aprofundamento da segregação em Florianópolis leva as populações empobrecidas para as áreas de localização cada vez mais periférica.

Essa errância sem fim marca o cotidiano de famílias que indefinidamente tentam achar um lugar no espaço para permanecer, no sentido mesmo de continuar sendo, de encontrar um “cantinho” para viver. As línguas, segundo o filósofo Henri Lefebvre, precursor do conceito de direito à cidade, expressam pobremente o tempo social e a prática social e, para a realidade urbana, as palavras são escassas, não dão conta de nomear os fenômenos. Se tivesse conhecimento das manhas da língua portuguesa, ele certamente concordaria que há grande riqueza simbólica em expressões muito usadas por aqui como “Vai procurar teu canto” ou “Aluguei um cantinho”. Na vida cotidiana brasileira, onde o habitar plenamente a cidade é privilégio, miragem, aos empobrecidos restam, com sorte, os cantos. Em Florianópolis e na Área Conurbada como um todo (com São José, Biguaçu e Palhoça), nem mais os cantos. 

O Grupo ND pergunta, junto à manchete “Cidade ameaçada”: “qual tipo de cidade queremos para viver? Dada a racionalidade político-empresarial que costura a cobertura jornalística do Relatório ND, a pergunta que lhe convém seria: que cidade eu posso vender e quem eu quero que compre?

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Relatório ND e o ópio do povo


Por Fernando Calheiros - cientista social e professor da rede pública. Atualmente cursa mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina
 

Mais uma vez a diplomada ignorância e o notório analfabetismo urbanístico se juntam ao ódio de classe para atacar os pobres da Grande Florianópolis. Trata-se de mais um embuste promovido pelo jornal Notícias do Dia – o ND, filiado não por acaso à indústria da fé do bispo e empresário Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário do grupo Record. 

O pretenso relatório [1] com foco nas “invasões irregulares” busca associar mais uma vez de forma leviana a origem do “caos urbano” da Grande Florianópolis às populações periféricas. Através do velho discurso de guerra ao tráfico, as matérias produzidas e propagandeadas pelo que há de mais tacanho e reacionário no jornalismo catarinense buscam legitimar as ações policiais violentas e arbitrárias que se intensificaram nas comunidades por meio da derrubada de casas, agressões e intimidações aos moradores. Violência que vem crescendo na conjuntura de pandemia, aumentando ainda mais a insegurança, impunidade e violações de direitos. 

O ataque promovido contra as populações mais vulneráveis não será inócuo, pois, ao mesmo tempo em que vai buscar transformar os culpados em vítimas, passando o pano para a prefeitura e para os verdadeiros criminosos, devedores e usurpadores de terras públicas, vai também, de modo dissimulado e perverso, buscar transformar as vítimas em culpados, transferindo a culpa da falta de políticas habitacionais e da histórica grilagem de terras promovida pelas elites às populações empobrecidas da região. 

Lembremos aqui das origens dos problemas fundiário e habitacional da região que, além da vinculação junto ao processo originário de acumulação e de expropriação dos pequenos produtores açorianos, vai apresentar particularidades próprias de ocupação do solo que abarcarão desde a apropriação das áreas de uso comum pelas classes mais abastadas; passando pela entrega de terras públicas através da maquiada “reforma agrária” realizada pelo IRASC no período ditatorial; chegando ao contexto atual de avanço das agendas e pautas neoliberais e do processo de financeirização da terra e moradia no país, conjuntura que vai proporcionar um agravamento da precarização habitacional. Trata-se, de modo geral, do processo histórico de mercantilização e apropriação da terra pelo grupos políticos e econômicos dominantes, processo que vai acabar inviabilizando o acesso de grande parcela dos trabalhadores de baixa renda ao solo e também à moradia no município de Florianópolis. 

No que se refere ao conteúdo do relatório publicado, esse não faz mais do que ratificar a defesa ao modelo autoritário, elitista e segregador de cidade, o qual visa transformar a capital catarinense numa meca das elites locais e internacionais. Contudo, para que esse projeto elitista se torne cada vez mais concreto e hegemônico, é preciso excluir o máximo de populações não solváveis da cidade, ou seja, os setores mais empobrecidos da classe trabalhadora, que por sua condição de exploração e miséria não conseguem se enquadrar nos padrões de consumo estabelecidos pelas elites. 

Servindo como lacaios e bocas de aluguel de especuladores, construtores e agentes ligados ao capital imobiliário, os diversos colunistas do “Relatório ND” buscam a todo custo atacar os mais pobres e vulneráveis, uma vez que, além de tornarem-se uma “paisagem indesejável”, acabam inviabilizando as possibilidades de lucro e renda do mercado imobiliário, transformando-se, por esse motivo, em inimigos da ordem e promotores do caos urbano. 

No entanto, nem um pio quando o assunto diz respeito à apropriação ilegal de terras e crimes ambientais cometidos pelas elites locais, essas que, diferentemente dos pobres, podem escolher onde vão construir seus empreendimentos de alto padrão e que, por opção, escolhem as localizações privilegiadas, de área de preservação permanente, na beira da praia, privatizando e comprometendo o bem público e o meio ambiente. Nota-se, portanto, a partir da parcialidade dos noticiários, do pretenso relatório e dos comentaristas abomináveis, o nível de intolerância, perversidade e preconceito de classe na hora de discutir sobre a problemática urbana. 

Trata-se, sem dúvida, de uma guerra declarada aos pobres da Grande Florianópolis. Essa que, mesmo diante do avanço da pandemia na região, não parou um só minuto. Ao contrário, valendo-se da lógica de “passar a boiada”, enquanto os holofotes e atenções estão todos voltados ao controle e combate do vírus, as prefeituras locais, a exemplo da Capital, aproveitam o momento de fragilidade para intensificar ainda mais as práticas de segregação e violência contra as populações mais empobrecidas da região. 

É inadmissível que as populações empobrecidas continuem sendo tratadas com tamanho preconceito e violência por parte da grupo ND. Nenhuma ação, sobretudo as que ignoram processos jurídicos e a própria constituição, pode justificar a derrubada de casas e agressões contra o povo trabalhador das periferias, tão essencial nesse momento de crise sanitária e ao mesmo tempo tão reprimido e violentado. 

Fiel porta-voz dos interesses empresariais e da indústria da fé, o grupo ND agora se volta contra parte dos próprios fiéis da Universal, povo sofrido das periferias, favelas e ocupações, que muitas vezes deixam de comer para alimentar a fome insaciável da igreja por dinheiro e poder. Por trás dessa aparente contradição, revela-se a contraface perversa e cruel do grupo ND/RECORD, que, além de lucrar com a exploração da fé, alimentando a situação de vulnerabilidade e pobreza dos fiéis, agora também busca criminalizá-los por sua condição precária de moradia e de miséria. Eis o ópio do povo! 

[1] Relatório ND: Invasão define o caos urbano na região central de Florianópolis

https://ndmais.com.br/infraestrutura/dossie-nd-invasao-define-o-caos-urbano-na-regiao-central-de-florianopolis/ 

Relatório ND: A nova rocinha não é aqui em Florianópolis

https://ndmais.com.br/infraestrutura/dossie-nd-a-nova-rocinha-nao-e-aqui-em-florianopolis/ 

Cidade ameaçada: as construções clandestinas em Florianópolis

https://www.youtube.com/watch?time_continue=11&v=zoMkmYldRzc&feature=emb_title


quarta-feira, 29 de abril de 2020

O tráfico, a dor e o Mocotó



Por elaine tavares

O Mocotó é uma das primeiras comunidades de periferia de Florianópolis, ela nasceu quando os negros e pobres foram tirados do centro numa operação de “limpeza” da cidade que começava a crescer. Sem ter como bancar aluguéis ou cumprir a lei sanitária que obrigava a ter banheiro em casa, as famílias buscavam, na ocupação dos morros, o espaço para viver. Lá, já vivam outras famílias, de fugitivos da escravidão ou ex-escravos, que igualmente não encontraram lugar no centro, onde começavam a se erguer os sobrados da gente rica. O pé do morro onde fica o Hospital de Caridade, lá pelo meio do 1800 era chamado de Toca, e ali ia crescendo a comunidade. Com o passar do tempo outros espaços no entorno do Morro da Cruz foram sendo tomados, prioritariamente pelas famílias negras, mas também com brancos pobres. Não é sem razão que a cidade chame os morros de “espaço da criminalidade”, porque, na verdade, esse sempre foi o nome dado a quem não participa do grande banquete das famílias abastadas. Ser pobre parece ser potencialmente bandido. E é por isso que ao longo dos tempos esses lugares onde abundam as moradias precárias, o esgoto a céu aberto, as vielas, os trabalhadores, são também espaço da repressão. Assim, sucessivamente e historicamente, é nessas comunidades onde a polícia vai buscar os bandidos, e onde a lei parece não fazer qualquer sentido. São comuns os relatos de invasões de casa, sequestro de pessoas, assassinatos, agressões, violências. E tudo fica respaldado porque, afinal, "são bandidos". Ontem (28), enquanto noticiava uma manifestação no Morro do Mocotó contra o assassinato de três jovens da comunidade, a jornalista da televisão encerrava a nota dizendo: “a polícia informa que os três mortos são ligados ao tráfico de drogas”. Opa, então tá! Aí sim! São traficantes, então tudo se justifica. Já para as famílias que montaram barricadas na Mauro Ramos para denunciar e expressar sua dor e seu protesto, aqueles jovens tinham nome, sobrenome, história, sonhos. E mesmo que fossem ligados ao tráfico, eram o peixe miúdo, aquele que surge da necessidade ou do ódio. Sim, há bandidos no Mocotó, no Mont Serrat, no Horácio, assim como há bandidos na Beira-Mar, na Bocaiuva, na Trompovski. Mas, nesses lugares chiques a polícia não chega atirando, sequer chega. Nos espaços onde vivem à larga os donos do tráfico há advogados de plantão e malas de dinheiro prontas para agir se necessário for, mas nunca é. Porque os peixes grandes não são tocados. Sempre é mais fácil exterminar a raia miúda, que não tem nada por ela a não ser os seus corpos em rebelião. Eu lembro que há alguns anos pegou fogo no Hospital de Caridade. Era de noite. E mesmo antes da chegada dos bombeiros, os jovens da comunidade do Mocotó já estavam lá tirando pessoas, ajudando a apagar o fogo e ali ficaram pé até que tudo estivesse debelado, realizando um trabalho de gigantes. Naqueles dias a imprensa subiu o morro para contar dos atos heroicos da rapaziada. Provavelmente os mesmos jovens que são mortos pela polícia nas noites de calmaria. E os que foram salvos por aquela gente invisível agradeciam emocionados. Provavelmente os mesmos que hoje fazem muxoxo diante da fala da apresentadora de televisão. O tráfico de drogas não é coisa para ser banalizada. Ele é responsável pela destruição de tantas e tantas vidas. Mas, já vai longe essa política de extermínio dos jovens negros das comunidades de periferia. Se essa fosse a política correta, então já era para ter acabado o tráfico. Mas, por que a polícia mata e tudo segue igual? Essa é uma pergunta de fácil resposta. Porque a fonte do tráfico não está na favela. Ali vicejam os aviões e os gerentes de baixo clero. Mesmo os que têm seus barracos cheios de pequenas riquezas não chegam sequer aos pés dos verdadeiros traficantes. Logo, a abordagem policial parece não ter como foco o fim do tráfico. Na verdade, as ações contra a raia miúda são para fingir que há o enfrentamento do problema. Não há. E nessa guerra de extermínio, também os policias - que são trabalhadores - acabam sendo vítimas. Seja quando tombam nos confrontos, seja quando se transformam em criaturas sem parâmetros éticos. A dor sempre fica para os “de abajo”, ou alguém já viu algum dia um traficante de peso ser assassinado ou mesmo preso? Eu nunca vi.

Ontem, no Mocotó, as famílias se manifestaram tacando fogo na rua. Sabem que não há caminho negociado. Não são ouvidas. A única maneira de serem vistas é na manifestação coletiva, na rua. 

Ontem eles tacaram fogo nos pneus para dizer basta. É a única forma de abrir diálogo. Alguém aí vai dizer: tá com pena? Leva pra casa. É porque a maioria das gentes acredita que a solução dos problemas passa pela ação individual. Não, não adiantaria levar para casa a juventude do Mocotó ou de qualquer outro lugar de periferia do país. Porque o problema não está na pessoa. Está no sistema.  É essa forma de organizar a vida que gera a violência. É da natureza do capitalismo manter  a bota sobre a cabeça dos empobrecidos. É da natureza do capitalismo manter uma periferia no limite da vida, para que as pessoas possam ser melhor exploradas. É da natureza do capitalismo fazer do narcotráfico um dos pilares da indústria da morte – que vende armas, equipamentos de segurança e gente. 

Ontem, as famílias do Mocotó botaram fogo no meio da rua para fazer ouvir seu grito. As mesmas famílias que limpam as casas, lavam a roupa, fazem a comida, atendem no comércio, nas creches, nas escolas e ainda salvam vidas quando confrontadas com a tragédia do outro. Como um dia fizeram, salvando os internados no hospital privado mais famoso da cidade.  As mesmos que são esquecidas no dia seguinte quando todos já estão confortavelmente instalados em suas casas quentinhas. 


“Ai, que romântico, quero ver se um negrinho desses um dia tirar a vida de um familiar teu”, gritam os de sempre. Sim, será trágico, e ainda assim não será culpa dele. Será do sistema que o engendrou. Enquanto isso, alguns “branquinhos” seguirão tirando a vida de muitos da classe média e alta sem que ninguém lhes aponte o dedo. 




quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Brasil e a pandemia



O Brasil vive um clima de estupefação, mas ainda assim, com a maioria da população inerte e desnorteada. Com o avanço das infecções por coronavírus os brasileiros assistem o governo federal tomar uma série de medidas anti-vida, sem conseguir esboçar reação. Os casos aumentam e justamente nesse momento de subida das infecções o governo troca a equipe do Ministério da Saúde, que, em vez de apontar caminhos para o enfrentamento da doença, se manifesta sobre como será a economia quando o pico passar. É uma situação aterrorizante.

A crise no Ministério da Saúde surgiu porque o então ministro, médico ortopedista, assumiu o comando da luta contra o coronavírus de maneira bastante ofensiva. Dava entrevista coletiva todos os dias orientando a população, informando e sugerindo que todos atendessem ao chamado de permanecer em casa. Essa posição era totalmente contrária à posição do presidente Jair Bolsonaro, que dizia em alto e bom tom: que morram todos os que tiverem de morrer, porque  não pode parar a economia.

Mas, o ministro decidiu seguir o caminho apontado pelas autoridades médicas e manteve a posição de isolamento social. A coisa foi ficando insustentável e os dois batiam boca através dos repórteres. Acabou que o presidente demitiu o ministro que, afinal, estava aparecendo para a população como um cara verdadeiramente preocupado com a saúde das pessoas. Estava tendo mais popularidade que o presidente. E o presidente não suportou.

A demissão do ministro Mandetta desarticulou todo o trabalho de combate que vinha sendo feito via Ministério da Saúde. O novo ministro escolhido pelo presidente tinha duas missões básicas: não aparecer  mais que o presidente e mandar todo mundo voltar ao trabalho. E assim está sendo feito. Acabaram-se as coletivas diárias e a orientação é de que a vida volte ao normal. Apenas ontem o novo ministro, um médico/economista que nunca na vida atuou no setor público da saúde, apareceu na televisão com sua equipe. Um show de bizarrices. Anunciou o novo secretário do ministério, que tem como virtude apenas ser um militar. Nenhuma experiência em lidar com saúde, muito menos com uma crise dessa envergadura.

A coletiva do novo ministro causou estupor. Nenhuma orientação para a população. Nada. Apenas uma algaravia absurda sobre como deverá ser a economia depois que a pandemia passar. Não dava para saber se quem estava ali era a representação da Saúde ou da Economia. Um terror.

No campo da luta social a vida está estagnada. Com a confusão causada pelas orientações diferenciadas – cada governado define sua estratégia – os trabalhadores parecem resignados. Aqueles que não conseguem ficar em isolamento e seguem trabalhando não encontram caminhos a não ser colocar uma máscara e seguir driblando o vírus até quando der. Mesmo sabendo que isso não é suficiente. Durante mais de 30 dias, tempo que durou a quarentena, uma massa gigantesca de gente seguiu com vida normal, saindo de casa todos os  dias para trabalhar, sem que houvesse qualquer ação por parte de seus sindicatos, salvo raríssimas exceções.

Agora, com o novo ministro completamente submetido aos desejos do presidente de retomar a economia, tampouco se percebe alguma ação por parte das Centrais Sindicais ou dos movimentos sociais. Tudo está paralisado, até porque boa parte das lideranças está em isolamento social. Enquanto isso, os partidários do presidente – incitados por ele  - fazem carreatas, passeatas e atos públicos pedindo a volta do comércio e abertura total de tudo. Não acreditam na pandemia e dizem que é um golpe dos chineses para desestabilizar o presidente do Brasil.

No geral, os governadores que ainda mantinham uma posição de garantir o isolamento social também decidiram se render aos desejos do presidente, sabe-se lá motivados pelo quê. E justamente no momento em que o país começa a mostrar a falência dos sistemas de atendimento, resolvem reabrir o comércio e fazer a vida voltar ao normal.  Uma sandice sem explicação. O resultado é a população toda na rua outra vez, sem os cuidados necessários. O que virá, ninguém sabe, mas pode-se intuir pelo que já aconteceu em outros países.

Não bastasse isso, o novo ministro disse que o país não vai investir em compra de respiradores ou novas UTIs porque depois não haverá o que fazer com isso. Assim, respalda a ideia de Bolsonaro de que os que tiverem de morrer, que morram logo para que a vida siga.

Alguns estados como o Amazonas e São Paulo têm apresentado altos índices de mortes e os caixões começam a aparecer nas telas da TV. Mas, ainda assim, a maioria dos brasileiros parece não acreditar que as coisas possam ficar pior. Uma boa parte acusa os que insistem nos cuidados de “querer que tudo dê errado para prejudicar Bolsonaro”. É uma loucura sem fim. Essas pessoas realmente acreditam que o mundo está girando em torno do presidente do Brasil e que tudo que acontece ou deixa de acontecer tem relação com ele.  Nunca se viu nada igual.

O antagonista natural de Bolsonaro, que deveria ser o PT e seu líder Lula, até agora manteve a posição de não atacar o presidente, sendo que Lula chegou a declarar que não iria chamar o “Fora Bolsonaro” que muitos brasileiros já estão chamando. De novo, deixa uma parcela bem significativa da população sem direção.

Assim, as gentes brasileiras seguem. Alguns devem permanecer em isolamento, mas serão poucos, porque o trabalho vai acabar definindo a volta. A maioria está nas ruas de novo e o ministro da saúde, candidamente, diz que se morrer muita gente, quem sabe o país volta a apostar no isolamento. Mas terá que morrer muita gente. Ou seja. É um governo que espera e aposta na morte. E ainda assim, o presidente segue mantendo um bom índice de aprovação.

Em meio à pandemia Bolsonaro incita seus seguidores a pedir intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. As instituições fazem ouvidos moucos e permitem que a Constituição seja rasgada, ao vivo e a cores. O máximo que fazem é lançar notas de repúdio. Da mesma forma os partidos de esquerda.

A nau Brasil parece seguir desgovernada, mas não, ela segue muito bem governada pelos interesses do capital. Afinal, em meio ao caos, nenhuma palavra dos empresários, dos industriais, da representação da classe dominante. Estão todos calados esperando que seus trabalhadores voltem e sigam girando a roda do dinheiro. Creio que desconhecem que quando Nero tacou fogo em Roma, queimou foi tudo.
 

domingo, 5 de abril de 2020

O outono do vírus não calou o Circo


Divulgação

Míriam Santini de Abreu

As luzes se acenderam sobre o picadeiro às 20h30 de sábado (4). Ao fim da contagem regressiva, entraram os palhaços. Com eles, iniciava-se o primeiro espetáculo virtual do Circo Rakmer em sua primeira visita a São José e Florianópolis (SC). Chegou e não pôde partir. Em 5 de março, a estrutura na frente do shopping Itaguaçu estava pronta para a estreia. Mas, depois de menos de duas semanas de shows e nem 500 pessoas, veio a ordem de quarentena e foi preciso parar. Aí, em meio à angústia sobre o rumo a tomar – e o da estrada era impossível – apareceu a ideia de levar a arte ao público por meio dos caminhos digitais.

Desde 31 de março, o convite aparecia nas redes sociais. O circo precisava de doações para se manter! No sábado, o apresentador Mário Motta, nascido, com o irmão Gilberto – também jornalista –, no Circo dos pais, Motinha e Nhá Fia, divulgou o pedido de doação de R$ 5,00. Ao longo da tarde, em grupos de WhatsApp, amigos convidados para conversas virtuais respondiam: – Só depois das dez da noite, porque às oito e meia vou ao circo! E, como se viu mais tarde pelos comentários nas redes sociais, teve quem fez isso depois de muito tempo ou pela primeira vez.

A live foi transmitida pelas contas do Circo no Facebook e no Instagram.  Pouco antes do início, os palhaços Poteto e Espoleta transmitiram ao vivo o making of da maquiagem. No Instagram, a estreia teve um toque ainda mais divertido. Uma parte da plateia virtual não parava de postar elogios e dar curtidas; outra pedia: – Desativa os comentários!  As palmas, corações e beijinhos, explodindo ao toque no smartphone, subiam tela acima sem parar, frisson virtual a substituir o calor das cadeiras vazias em volta do picadeiro.


Live no Instagram

Foi preciso improvisar, movimentar o celular no meio da live, lidar com o limite de uma hora de transmissão ao vivo do Instagram, driblar as atrações protegidas por direitos autorais, direcionadas às crianças depois da proibição de uso de animais em circos. Mas o gigante King Kong apareceu! No Instagram, a live atraiu cerca de 2.500 pessoas. No Facebook, em torno de 5 mil, e mais 4,9 mil na live de uma influencer. Acudiram pessoas de vários estados do país e até do exterior. “As doações vão ajudar a gente a se manter por um bom tempo”, diz, agradecido, o proprietário e apresentador do circo, Jeferson Rakmer, de 54 anos.

***

Jeferson nasceu em Franca, no interior de São Paulo, em família circense, com ela se apresentando no Circo de Moscou. Em 1985, em apuros financeiros, fez contato com o empresário João Batista Sérgio Murad, o Beto Carrero, que viria a inaugurar em 1991 o parque multitemático em Penha, litoral catarinense. Integrado ao Mundo Mágico de Beto Carrero, precursor do parque, Jeferson ali permaneceu por 22 anos. Com o Circo Rakmer, iniciado em 2008, já vão outros 12. Hoje apresentador, Jeferson já foi palhaço, trapezista, adestrador: “Quem nasce em circo aprende de tudo e vai definindo o que quer fazer”.

Nas andanças com o circo, ele já viveu tanta coisa que os amigos dizem: – Fuça, faz um livro! O apelido nasceu de “Jefersonzinho” virado em “Jefucinho” e encurtado pra Fuça, e Fuça pegou. O fato de parte da família hoje morar em Manaus é uma dessas histórias. Era 1976 e o circo da família foi se apresentar naquela capital e cidades próximas. Nessas andanças por estradas marinhas, um dia a balsa entre Manaus e Belém quebrou e os Rakmer ficaram seis dias parados na beira do Rio Amazonas.

Agora, mais uma história vai para o livro. Quando a quarentena contra o coronavírus interrompeu o espetáculo em São José, Jeferson conversou com a família para sugerir o retorno a Manaus, onde moram dois irmãos, mas como pagar a passagem de 2, 3 mil reais? “Resolveram ficar aqui, a casa deles é aqui, no circo, ficaram todos sob as asas da gente, eles não têm mais vínculos com Manaus”, diz ele, que atua no Circo Rakmer com a mulher, cinco filhos, o genro e o neto. No total, são 45 pessoas, entre as quais 10 crianças. Decididos por ficar, foi preciso buscar saídas para contornar o fim dos espetáculos: “Fomos pegos de calças curtas. Atividades como a nossa a gente sabe que não vão liberar tão cedo. Somos os primeiros a parar e os últimos a voltar”.

A preocupação é ainda maior pelo desencontro de informações entre os diferentes níveis de governo, o municipal, o estadual e o federal. Fica difícil saber em quem confiar para tomar uma decisão. O temor piora porque, apesar de o circo ter um patrimônio, como os 12 trailers e ônibus, não há como fazer negócios em meio às restrições impostas para o combate ao vírus. Mas, com o passar dos dias, a ajuda para o sustento começou a chegar. A prefeitura de São José doou cestas básicas. O shopping permitiu que o circo, com capacidade para 900 lugares e cuja área foi alugada por um mês, ficasse armado sem pagar aluguel. “Nos trataram com dignidade”, ressalta Jeferson, ao mencionar que sabe de outros circos Brasil afora impedidos de entrar nas cidades e agora parados em postos de gasolina.

Sem estrutura montada, os artistas não podem ensaiar ou treinar, algo rotineiro para quem precisa se balançar em trapézios, jogar malabares, girar sobre motocicletas no Globo da Morte: “Nossa arte precisa de movimento”. Ele cita como exemplo também a situação do conhecido Cirque du Soleil, que cancelou apresentações e demitiu gente. E, por ora, será difícil encontrar trabalho em outro lugar. Jeferson explica que os artistas trabalham como microempreendedores individuais (MEI) e há constante movimentação de um circo para outro, especialmente entre aqueles que fazem acrobacias no Globo da Morte, atração muito disputada.

Os circos do Brasil, calcula Jeferson, têm uma média de 40 a 50 pessoas cada para divertir o público, mas é uma arte pouco lembrada nos discursos oficiais. O proprietário do Circo Rakmer fica com a voz embargada ao mencionar esse esquecimento: “A gente não é indigente! A gente entende todas as artes e vê que muitos programas de auditório usam o circo, as acrobacias, os malabares, mas é a música, é o teatro, que são considerados arte. Nós nos sentimos banidos, largados. Os circos são largados ao relento”. 

Um exemplo do esquecimento está na ausência de linhas de crédito específicas e na forma como são montadas as políticas públicas na área de cultura. O CNPJ do Circo Rakmer é de São Paulo, mas os espetáculos são itinerantes. Então, fica difícil concorrer tanto nos editais de São Paulo quanto em qualquer outro estado ou município que estimule produções locais: “Os circos são muito espalhados e não temos como acompanhar os projetos de lei. Há muita burocracia, cada cidade pede uma coisa diferente. Pagamos os alvarás, os impostos. Agora estamos caminhando para nos organizar e formar uma associação. É preciso entender que o circo é itinerante, mas também rotineiro”. Em Santa Catarina, por exemplo, o Circo Rakmer já circula há dois anos.

Jeferson lembra que grandes nomes da dramaturgia brasileira, como Lima Duarte e Ary Fontoura, passaram pelo circo. Para ele, o circo deve ser pensado como a mãe das artes e arte circense do Brasil, patrimônio cultural imaterial do país. Esse reconhecimento foi uma das principais reivindicações do 2º Congresso Sul-Americano de Circo, realizado em dezembro passado, em Campinas, São Paulo. Na primeira edição do Congresso, no Chile, o país-sede reconheceu o circo como patrimônio imaterial. Há, nessa arte milenar, com raízes nos artistas saltimbancos da Idade Média, patrimônio material concreto. Os circos sul-americanos empregam cerca de 50 mil pessoas, entre artistas, técnicos e outros colaboradores.

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Nesses tempos urgentes de invenção, o Circo Rakmer avisa ao público que domingo que vem tem mais. Parte dos frequentadores virtuais disse que o horário das 20h30 é tarde para as crianças e assim o próximo será às 19h30. Jeferson afirma que, nas lives de sábado, foi grande a emoção dos artistas com o espetáculo: “As pessoas estão tristes, só veem coisas duras, estão desnorteadas, sem saber o que vai acontecer”. Por isso, foi um desafio fazer em uma hora de live um espetáculo que, presencial, tem 1 hora e 40 minutos. Todos queriam se apresentar!

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Naquela uma hora, rindo à beça, eu compreendi porque, no magnífico filme "O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman, só se salva da peste e da morte a família de artistas.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A mídia dos trabalhadores em Florianópolis

Equipe da Pobres e Nojentas: Miriam Santini de Abreu, Elaine Tavares e Rubens Lopes


Jornalista Elaine Tavares recebe diploma em nome da equipe


Texto: Elaine Tavares

Fazer jornalismo em Florianópolis não é coisa fácil. Até bem pouco tempo o oligopólio formado pela empresa gaúcha RBS detinha a hegemonia, abarcando não apenas a capital, mas toda Santa Catarina. Sua ligação visceral com o poder político instituído fazia dela o braço armado comunicacional da oligarquia local. Enfrentar essa massa uniforme de propaganda oficial sempre foi um desafio. Ainda assim, ao logo dos tempos, alguns jornalistas em particular e algumas experiências de comunicação comunitária ou popular conseguiram dar à sociedade outra mirada sobre os fatos, ainda que com dificuldades e com pequeno alcance. Hoje, o controle da empresa gaúcha se esgarçou, mas as propostas hegemônicas seguem o mesmo diapasão, ligadas ao poder político e neopentecostal. A batalha é a mesma. Dura e implacável.

Pensando na história mais contemporânea da mídia popular na cidade podemos nominar a proposta levada a cabo pelo Centro de Apoio e Promoção do Migrante (Caprom), na metade dos anos 1980 que conseguiu viabilizar o Jornal das Comunidades, com o qual abria um canal de comunicação com os florianopolitanos divulgando sobre a intensa jornada de migração vivida na época. Essa leva de gente vinda do interior do estado e de outros estados da federação viabilizou uma série de ocupações urbanas, que acabaram fazendo nascer uma boa parte das comunidades de periferia da capital. O jornal era distribuído gratuitamente e era produzido por jornalistas e estudantes de jornalismo da UFSC. O debate sobre o direito à terra e à moradia se fazia por ali.

No início dos anos 1990 surgiu no bairro do Campeche o jornal Fala Campeche, que também expressava a luta vivida na comunidade por um Plano Diretor, ampliando ainda mais a temática de interesse das gentes, discutindo terra, moradia, transporte, saúde e educação. O jornal abarcava o bairro, mas também discutia a cidade.

No final daquela década, justamente por conta do crescimento da luta popular, foi a vez da aparição da Rádio Comunitária Campeche, uma proposta de comunicação popular nascida do centro nervoso da luta pelo direito à cidade que vicejava no bairro. A rádio, criada em 1998, despontava como um oásis dentro do controle comunicacional exercido pelo poder dominante, o qual tinha sob seu tacão os principais jornais, as TVs e as emissoras de rádio locais. A Rádio Campeche passou a ser não apenas a voz da comunidade se expressando pelo ar, mas também o espaço para a divulgação das lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais.

No mesmo ano de 1998, é fundada a TV Floripa, gerida por um grupo de entidades sindicais. A proposta era justamente trazer à luz todo o espectro das lutas sindicais que se faziam fortes na cidade. No início dos anos 2000, já com a consolidação das novas tecnologias, surge a Alquimídia, uma proposta  de comunicação crítica que trazia com ela também a possibilidade de criação de novos veículos, dos próprios movimentos sociais, com hospedagem solidária. Em 2004 nasce a revista de reportagem Pobres e Nojentas, que procurava ser uma referência de jornalismo de classe, focando seu trabalho nas pautas de interesse dos trabalhadores, distribuída gratuitamente nas comunidades.

Nesse período é também de grande repercussão o trabalho do ativista Hamilton Alexandre, o Mosquito, que com suas Tijoladas, expressas num blog, trazia outros olhares sobre a política da cidade. Com ele também fazia coro o meu blog pessoal, chamado primeiro de Jornalismo Amoroso e de Libertação, transformando-se mais tarde no Palavras Insurgentes, também com o objetivo de mostrar as vísceras da cidade e as lutas dos trabalhadores. Igualmente importante foi a experiência do bairro da Lagoa da Conceição, com a criação da Folha da Lagoa, espaço de jornalismo crítico.

Mais tarde foi a vez da criação do Portal Desacato, gerido por uma cooperativa, trazendo a possibilidade de uma cobertura ampliada não apenas da cidade, mas também do Oeste catarinense. E em seguida, outras novas propostas de jornalismo independente como o do Coletivo Maruim, Catarinas, Estopim, o braço estadual do Jornalistas Livres, o Daqui na Rede e por fim a proposta da Associação das Rádio Comunitárias foram aparecendo, dando mais musculatura para o jornalismo independente que vinha sendo praticado sistematicamente por um grupo pequeno de jornalistas. 

Pois foi toda essa gente que se juntou nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, para uma sessão de homenagens na Câmara dos Vereadores proposta pelo vereador Lino Peres. Um momento importante de encontro e de reafirmação do compromisso de construção de uma mídia comprometida com os trabalhadores, com os oprimidos, com os explorados da terra. Cada um dos veículos ainda em atividade recebeu um diploma de reconhecimento, e os que já não existem mais foram lembrados como deve ser, porque a luta pela soberania comunicacional é um edifício construído por inúmeras mãos de jornalistas e agentes comunicacionais que decidiram romper com a falácia do jornalismo imparcial. A memória histórica não pode nem deve ser apagada, porque essa luta não começou agora.

No capitalismo vivemos uma guerra de classes e é importante que a sociedade saiba que existe uma mídia que se emparelha com os dominadores e outra que atua irmanada com os trabalhadores. É uma batalha comunicacional travada cotidianamente. Claro que os veículos de comunicação independentes, populares e comunitários têm muito menos alcance e eficácia na relação com os meios de massa, mas eles seguem firmes na resistência até que chegue o dia em que os trabalhadores realizem a revolução e os meios de comunicação sejam controlados pela maioria.

A sessão promovida pelo vereador Lino Peres, muito mais do que amaciar egos, foi o encontro de parceiros e parceiras que trabalham pela transformação. E, para além disso, a oportunidade da reafirmação pública desse compromisso coletivo, generoso e revolucionário. Na guerra de classe, estamos todos – os que lá compareceram, os que já passaram e os que chegam agora - na trincheira dos trabalhadores e como afirmou a jornalista Paula Guimarães na sua fala, representando todos nós:

“... é um erro pensar que somos poucos ou poucas, preocupadas com construir uma narrativa anti-hegemônica. A cada dia somos muitas e muitos que, de maneira coletiva e em redes, nos movemos na contramão das fake news e na luta por uma democracia de fato e direito, só possível com a edificação do poder popular. Teorias e práticas atentas a desestabilizar verdades legitimadas sob violências são nossa maior potência. Por isso, governos autoritários não nos querem por perto. E não estaremos mesmo. Nosso lugar é do outro lado da trincheira”.

A mídia da classe trabalhadora está viva e se move, a despeito de tudo.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

15 outonos de "Jornalismo nas margens"



Completam-se quinze anos de “Jornalismo nas margens: uma reflexão sobre comunicação em comunidades empobrecidas”, da jornalista Elaine Tavares. Era outono de 2004 quando ela lançou o livro, de 48 páginas.

E neste outono de 2019, precisamente amanhã (31), às 9h30, na Sala dos Conselhos do CSE da UFSC, Elaine defenderá sua tese em Serviço Social, sob a orientação da professora Beatriz Augusto de Paiva, com o título “Terra e território na América Latina: desafio indígena na era do capital”. São dois ciclos que se encontram.

O tempo vai passar e “Jornalismo nas Margens” será um clássico, trazendo um conceito inovador, o de jornalismo libertador. Ao longo de cinco capítulos do livro, Elaine reflete sobre o jornalismo não hegemônico, feito às margens, voltado para a grande parcela da população que está abandonada pelo poder público. Entre os autores citados despontam diferentes formas de nomear: folkcomunicação, comunicação alternativa, comunicação popular. Em todas elas a “comunidade” aparece como elemento que desencadeia essa forma de comunicar e, assim, a autora, ao pensar sobre o significado da palavra comunidade, traz uma reflexão fundamental: a imprensa comunitária não é produzida somente pela e para a comunidade. Ela também se faz com a comunidade.

Esse ponto de vista faz nascer o conceito que conduz os pensares dos outros quatro capítulos: jornalismo libertador. Para isso, Elaine busca raízes na Filosofia da Libertação, especialmente no que para ela contribuiu o filósofo argentino Enrique Dussel. A autora traz, para o jornalismo, uma forma de pensar o mundo a partir dos oprimidos, de narrar a vida a partir da consideração de cada ser como único, diferente, mas real. Entra em cena o papel do próprio sujeito-jornalista, que precisa refletir sobre o comprometimento com certas realidades que são negadas ou distorcidas pelo poder público e pela grande imprensa.

A autora discute esses aspectos no capítulo 3, no qual deixa claro que jornalismo é serviço público e nada tem de “neutro”. Segue pela vereda aberta por Adelmo Genro Filho e mostra que essa ótica libertadora não vale apenas para iniciativas feitas nas comunidades. Ela pode ser colocada em prática nos meios hegemônicos e chegar a um público maior e difuso, entre o qual possa despertar reflexões.
Outro aspecto levantado por Elaine é a necessidade de o jornalista olhar o mundo a partir do ponto de vista local. No capítulo 4, são desenvolvidos aspectos da notícia popular, que necessariamente precisa ligar os acontecimentos do lugar com o regional, o nacional, o mundial, e vice-versa, contextualizando e discutindo o significado dos fatos para a comunidade no qual eles repercutem, fazem sentir seus efeitos. No livro, a autora afirma que um dos pressupostos do jornalismo libertador é “(...) desvelar o cotidiano que cerca o viver daqueles que estão à margem” (p. 25).

No capítulo 5, a autora oferece caminhos para colocar a teoria em prática, discutindo as vantagens e as diferentes opções de veículos que podem ser usados nas comunidades. É certo que “Jornalismo nas margens”, ao dar corpo ao conceito de jornalismo libertador, inspira narrativas e jornalistas comprometidos, dispostos, como aponta Elaine, a “dizer o dizível e o indizível, ser capar de ver o que está além dos olhos, narrar, descrever, contar a história”, ajudar, enfim, a narrar e construir um tempo novo.


quarta-feira, 22 de maio de 2019

A cidade tem de ser para todos

Foto: Gabinete Vereador Lino Peres

Texto: Elaine Tavares

Quem em sã consciência gosta de pobreza? Ninguém. Cada ser humano no mundo só tem uma proposição: viver a vida em alegria, sendo amado e saciado. Ademais, a pobreza não é uma coisa natural, que acontece na vida por obra de deus ou do destino. Não. A pobreza é coisa construída historicamente. Ela acontece quando algumas pessoas, pelo uso da força, da mentira ou da persuasão, se apropriam da vida do outro, relegando-o a uma existência sem fartura. No caso da pobreza do nosso tempo, ela é fruto da forma como se organiza a vida no modo capitalista de produção. 

Nesse modo há uma pequena fatia que se adona dos meios de produção e uma grande maioria que vende sua força de trabalho como única saída para sobre/viver. O trabalhador, em verdade, não vive. Ele apenas mantém a cabeça fora da lama da miséria. E os que, por algum motivo não conseguem ou não querem vender sua força de trabalho estão fadados ao abandono ou à morte. 


Quando o capitalismo começou com suas grandes fábricas moendo gente, era tanta família saindo do campo, expulsa pelos pretensos donos da terra, que não havia como as fábricas absorverem tantas pessoas com empregos. Então, o povo que conseguia trabalho, era obrigado a aceitar as condições absurdas de 18 ou mais horas de labuta, parcos salários e casebres imundos para viver. E os que não conseguiam emprego, vagavam pelas ruas, causando constrangimento aos abastados. Foi por isso que criaram leis contra a “vagabundagem”, e essas leis tornavam legal, inclusive, a escravidão. Se fossem pegas vagando pela rua, sem trabalho, as pessoas eram presas e vendidas, quando não mortas. A pobreza dos desgarrados da terra era vista como uma doença, que precisava ser escondida dos olhos das “pessoas de bem”. 


Então, não é novidade esse nojo e horror que os pobres causam aos abastados. Desde o começo do capitalismo foi assim. Basta ler os textos do velho Marx, lá no “Capital”. 


Hoje, em Florianópolis, vivemos esse momento doloroso, no qual as vítimas do capital são tidas como uma doença contagiosa. Vivendo um crescendo vertiginoso no número de moradores em situação de rua, a capital do estado de Santa Catarina, conhecida como Ilha da Magia, busca punir aqueles e aquelas que, na verdade, só precisariam de uma chance para colocar a cabeça acima da linha da miséria. 


Com as “pessoas de bem” reclamando muito dessa multidão de desgraçados dormindo nas ruas, a solução encontrada pela prefeitura foi colocar tapumes nos lugares onde o povo da rua busca abrigo para dormir. E isso é feito bem agora, quando o inverno está vindo. No nosso provinciano jogo dos tronos, os reis da cidade decidiram que o povo da rua é feio demais, fede demais, atrapalha demais e como não para de se multiplicar, a solução é simples: impedir que vivam. Já que não podem ser presos por “vagabundagem”, então que se tire tudo deles, os pequenos abrigos, a possibilidade da comunhão, a sociabilidade. 


O terror do nosso tempo é ter de vir escrever um texto no qual o que se tem a dizer é que tirem os tapumes, para que as pessoas possam dormir embaixo das marquises. Isso é, deveras, inaceitável. Pessoas há, é verdade, que vivem na rua por querer. São poucas. No geral, os que estão em situação de rua são pessoas quebradas psicologicamente, abandonadas, sem chances de trabalho, alguns dependentes químicos (que é uma condição de falta de saúde). E são consequência desse sistema que explora e mantém a pessoa no limite da vida. A rua é sua casa porque ainda que, desprovidos de tudo, eles querem viver. Querem desfrutar do jardim que deveria ser a vida. Querem a alegria e a felicidade. 


Impedidos de dormir nas marquises da Deodoro, os moradores em situação de rua se mobilizaram, porque afinal de contas também são pessoas com direito à cidade, e foram reivindicar junto à prefeitura. A ação dos moradores, juntamente com representantes de outros movimentos sociais e vereadores, exigiu da prefeitura um espaço digno para que as pessoas possam se abrigar. Hoje, os espaços que têm são poucos e cheios de regras que muito pouco podem ser cumpridas.


A batalha segue sendo travada. Os moradores da cidade, que têm casa para morar, olham os moradores de rua com intolerância. “Eles que vão trabalhar, deem duro como eu dou”, diz uma mulher no ônibus, enquanto vai apontando as dezenas de pessoas deitadas embaixo das árvores. Não há compaixão. E não há compaixão porque não há entendimento. Mergulhados na sua própria luta para não morrer, até mesmo os trabalhadores, que deveriam ser solidários, apoiam as ações higienistas. “Aquela rua lá (a Deodoro) é um fedor só. Tá certo”.


A Deodoro fede sim. Fede a gente que não conseguiu se inserir no “mercado”, fede a pobreza. Uma pobreza que é fruto da nossa própria incapacidade de construir uma sociedade justa. A saída é “limpar”, tirar o problema do caminho. Esconder. Deixar o centro saneado para os compradores de mercadorias. Não há espaço para a empatia. São os tempos do capital.


A triste notícia é que num modelo de sociedade que gera pobreza, é impossível escondê-la, domá-la, impedi-la. Enquanto a máquina do capital moi uma parte do povo, outra parte vive à margem. E luta. Porque também quer compartilhar do banquete. 


Em Florianópolis, o povo da rua não se cala, se junta e reivindica. A vida boa e bonita tem de ser para todos.