domingo, 27 de setembro de 2015
Terra sem males
Está circulando em Curitiba, Paraná, o jornal "Terra sem males", editado pelo repórter fotográfico Joka Madruga. Um trabalho impresso que tem como objetivo trazer a informação que a mídia comercial não costuma dar. Também busca valorizar o foto-jornalismo, um fazer cada dia mais esquecido pelos jornais comerciais. No "Terra sem males" pode-se encontrar bons textos, temas quentes, reportagens aprofundadas e fotografias que falam da realidade para além da lógica dos "bonecos" oficiais.
Um lindo projeto e uma grande iniciativa. A Pobres e Nojentas se solidariza com os colegas do Paraná e deseja longa vida ao jornal.
O jornalismo na Venezuela
Entrevista com Esther Quiaro, jornalista venezuelana que mantém um programa diário na cadeia Unión de rádio. Ela fala sobre o jornalismo, liberdade de expressão e Leopoldo Lopez.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
O mago das plantas
Entrevista com Alesio dos Passos Santos, o homem que mais sabe de plantas medicinais em Florianópolis. Aprendendo e ensinando, todos os dias, com as gentes.
sábado, 12 de setembro de 2015
Terra Cabocla
Entrevista com Marcia Paraíso, diretora do documentário que conta a saga do povo caboclo do Contestado.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Ato dos trabalhadores municipais
Atividade realizada no dia 26, logo após a decisão de continuar a greve, apesar do corte de salário.
Imagens de Rubens Lopes.
Imagens de Rubens Lopes.
Greve na prefeitura de Florianópolis
Entrevista com o trabalhador público Wagner Muniz sobre a luta por melhores condições de vida e salário. A greve na prefeitura de Florianópolis começou dia 14 de maio de 2015.
Entrevista na Rádio Comunitária Campeche. Entrevista feita por Elaine Tavares, na Rádio Comunitária Campeche.
quinta-feira, 26 de março de 2015
A Lógica Perversa da Dívida e o Orçamento de 2015
Por Marcela Cornelli*
Desde Brasília, para Sindprevs/SC
Mais um ano vislumbramos que o montante que o
governo federal destinará para o pagamento da dívida “pública” superará o
montante de investimentos em direitos sociais básicos da população brasileira
como saúde, educação, transporte, entre outros.
Em 2014, o governo federal gastou R$ 978
bilhões com juros e amortizações da dívida, o que representou 45,11% de todo o
Orçamento executado no ano. (conforme gráfico acima – Orçamento 2014
executado).
Para a saúde foram destinados apenas 3,98%,
para a educação 3,73% e para assistência social 3,08%. É evidente o privilégio
à dívida pública, detida principalmente por grandes bancos, em detrimento do
cumprimento dos direitos sociais básicos estabelecidos na Constituição Federal.
Em 2015, não será diferente. O Orçamento
Federal proposto pelo Executivo para este ano reserva R$ 1,356 trilhão para os
gastos com a dívida pública, o que corresponde a 47% de tudo que o país vai
arrecadar com tributos, privatizações e emissão de novos títulos, entre outras
rendas. Já neste início, antes mesmo da aprovação do orçamento pelo Congresso,
todas as áreas sofreram um corte linear preliminar e, após a aprovação do
orçamento novo decreto irá contingenciar ainda mais recursos de todas as
pastas, exceto da dívida, dentro da lógica do ajuste fiscal. Por meio de
decreto, no dia 8 de março, bloqueou R$ 22,7 bilhões para os ministérios e
secretarias especiais. O ministério da Educação responde pela maior parte do
montante afetado, com o equivalente a R$ 7 bilhões anuais, o que corresponde a 31%
do total de cortes.
“A elevação acelerada dos juros, a quarta
alta seguida elevou a Selic para 12,75%, comprova o que já se esperava quando o
mercado financeiro ovacionou a nomeação da equipe econômica, composta por
Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, no Ministério do
Planejamento, e Alexandre Tombini, no Banco Central. A equipe econômica está
praticando a velha política macroeconômica assentada em juros elevados, sob a
justificativa de “combater a inflação”, sendo que, na realidade, a inflação tem
sido provocada pelo aumento dos preços administrados pelo próprio governo
(energia, telefonia, combustível, transporte etc) e pela alta de alimentos,
devido a graves equívocos da política agrícola e eventuais fatores climáticos.
Juros altos aumentam os gastos com a dívida pública, beneficiando
principalmente o setor financeiro, e prejudicam todo o conjunto da economia.
Essa política não deu certo em nenhum país da Europa, mas o Brasil teima em
segui-la. O povo brasileiro merece explicações sobre essa dívida “pública” que
está amarrando nosso país e servindo para justificar a edição de pacotes de
austeridade fiscal e corte de direitos.”, alerta Maria Lucia Fattorelli,
Coordenadora Nacional da Auditoria da Dívida Cidadã.
Por tudo isso, a Auditoria Cidadã luta pela
realização da auditoria da dívida pública brasileira, o que possibilitará
enfrentar os diversos indícios de ilegalidades já denunciados desde a CPI da
Dívida e rever esse processo que vem se tornando cada vez mais pesado e injusto
para o país, atingindo principalmente os mais empobrecidos e a classe
trabalhadora.
15 anos da Auditoria Cidadã da Dívida – 15
anos de muita luta
Nesta luta árdua encontra-se na linha de
frente à Auditoria Cidadã da Dívida, uma associação sem fins lucrativos, há 15
anos congrega diversas organizações – sindicatos, associações de classe, órgãos
eclesiásticos e movimentos sociais – e militantes que se dedicam a investigar o
endividamento público brasileiro, devido ao enorme impacto desse processo sobre
o atendimento aos direitos sociais em nosso país. A entidade surgiu
imediatamente após a realização do grande Plebiscito Popular da Dívida Externa
no ano 2000, quando 6 milhões de cidadãos, em 3.444 municípios brasileiros,
disseram NÃO à manutenção do acordo com o Fundo Monetário Internacional, à
continuidade do pagamento da dívida externa sem a realização da auditoria
prevista na Constituição Federal e à destinação da maior parte dos recursos
orçamentários a especuladores.
A motivação essencial da luta da Auditoria
Cidadã da Dívida consiste na revisão do processo de endividamento brasileiro,
cujo ciclo atual teve início durante a ditadura militar nos anos 70, e desde
então vem submetendo o País por meio de planos de ajuste fiscal e outras
medidas correlatas que aprofundam continuamente as desigualdades sociais em
nosso País. A Auditoria Cidadã luta pela realização de completa auditoria desse
processo, para que todas as ilegalidades e ilegitimidades possam ser segregadas
e devidamente repudiadas.
Em 2015 a Auditoria realizará, em outubro,
Seminário Nacional para tratar do assunto. Esse seminário será construindo a
partir das bases sociais em cada estado, visando democratizar cada vez mais o
conhecimento e transformar a Auditoria Cidadã em ferramenta de luta social.
Auditoria Cidadã da Dívida: esta luta deve
ser de todos!
*Com informações da Auditoria Cidadã da
Dívida.
Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida
segunda-feira, 23 de março de 2015
Ponta do Coral é “ponta” da luta por terra na Ilha da Magia
![]() |
| Crédito: Movimento Ponta do Coral 100% Pública |
Texto:
Míriam Santini de Abreu, de Florianópolis
Fotos: Jerônimo Rubim
Uma
ponta de terra na avenida mais badalada de Florianópolis simboliza a disputa
por uma cidade voltada ao lucro ou à população. O lugar mencionado é a Ponta do
Coral, promontório vizinho da Casa do Governador, na Avenida Beira-Mar Norte,
que aparece nos cinco primeiros lugares do ranking do metro quadrado mais caro da
capital catarinense. Cenário em disputa: área de lazer em uma cidade carente
delas ou endereço de hotel com 18 andares e 210 apartamentos.
A
luta para que a área seja parque público vem dos anos 1980, mas em 2015 ganhou
contornos dramáticos. Em fevereiro a prefeitura de Florianópolis autorizou a
construção do hotel, que também já recebeu licença ambiental prévia (LAP) da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma).
As licenças cheiram a ilegalidade.
Acontece que, em janeiro de 2014, a Câmara de
Vereadores aprovou o novo Plano Diretor da capital. Essa lei permitiu que, na
Ponta do Coral, delimitada como Área Turística
de Lazer (ATL), o empreendimento tenha até seis pavimentos. A proposta para transformação em Área Verde
de Lazer (AVL) foi derrotada pela maioria dos vereadores. Mas não se passaram
nem dois meses depois da aprovação do Plano Diretor e o prefeito Cesar Souza
Júnior (PSD) assinou dois decretos que abriram brecha para permitir o hotel
com 18 andares, atropelando assim o Plano Diretor, a lei maior de ordenamento
da expansão urbana do município.
A Hantei queria mais.
O projeto original previa 22 andares e um aterro de 34 mil metros quadrados. A empresa, em sua página na internet,
usava adjetivos como “uma das cidades mais dinâmicas do mundo”, cidade “do novo
século”, “capital mais saudável do país”, “reserva da biosfera urbana modelo”.
Mas quem mora nas áreas de risco dos morros de Florianópolis, e treme de pavor
a cada tempestade que varre a Ilha, não vai citar esses adjetivos. Para os
moradores dos 65 assentamentos ou comunidades de baixa renda do município, com
precárias condições de água, luz, educação, saúde e transporte, esses conceitos
de “marketing” são vazios.
Turismo de luxo
No Seminário
Interuniversitário intitulado “Hotel na Ponta do Coral: Quem ganha? Quem perde?”, realizado
no dia 20 de março, Paulo Capela, professor do Centro de Desportos da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), alertou que o projeto no qual o
empreendimento está embutido quer transformar Florianópolis em “cidade
mundial”. Uma das premissas é o estímulo ao turismo de luxo, pelo qual o espaço
reservado à classe trabalhadora é aquele onde ela tenha a menor visibilidade.
“Não interessa a esse projeto, desenhado há cerca de 20 anos, que haja uma
organização social que o contraponha”, disse Capela.
A
luta por esse “pedacinho de terra perdido no mar”, como canta o hino de
Florianópolis, ficou aguda desde a segunda metade dos anos 1980. Famílias
empobrecidas se organizaram e houve muitas vitórias, com a legalização de áreas
onde antes as pessoas eram vistas como “invasoras”. Mas também nessa época a
capital catarinense ficou sob os holofotes por ter virado uma mercadoria
apetitosa e lucrativa, a “Ilha da Magia”. Mercadoria turismo. A disputa tornou-se
mais forte.
A
Ponta do Coral é hoje um dos símbolos deste embate. Há outros. Mas falamos dela
porque a decisão sobre a forma de ocupação a ser feita ali sintetiza boa parte
do que, no Brasil, transforma o cidadão em consumidor e faz dele alguém em busca de privilégios, e não um sujeito de
direitos. Essa frase é de um grande geógrafo brasileiro, Milton Santos.
A
gula pela mercadoria turismo afeta outras paragens, como em Recife, onde a
poderosa construtora Queiroz Galvão, aliada a empresas, à prefeitura de Recife e
ao governo de Pernambuco, planeja construir um
empreendimento gigantesco batizado de NovoRecife, mas sob protestos do
movimento social e ambiental. Coisa bem parecida com a Ponta do Coral, onde os
empreendedores, o poder público e a mídia se unem em torno do discurso
da geração de empregos, do “desenvolvimento sustentável” e da “inclusão
social”.
A
Hantei, por exemplo, é a patrocinadora do Jornal do Almoço, o mais badalado da
RBS TV – retransmissora da Globo - que mostra com generosos minutos o suntuoso
projeto da empresa a cada vez que fala dele. Santa Catarina ainda enfrenta essa
catástrofe informativa: o grupo gaúcho é dono dos quatro maiores jornais
diários do estado. Seus colunistas usam tevê, rádio e jornal para rugir a favor
do hotel, classificado de “maravilhoso” e “moderno”. Quem é contrário ao
empreendimento recebe os adjetivos de “xiita” e “ecochato” e obviamente não tem
espaço nos meios de comunicação do grupo.
| Ponta de terra é na avenida mais badalada da Ilha da Magia |
Exemplar precioso
A
Ponta do Coral teve
uma importância estratégica no passado, como ponto de visualização quando a
Ilha contava com um sistema de defesa composto por várias fortificações e
pontos de vigia. Com a construção do aterro para a hoje engarrafada Avenida Beira-Mar Norte, no final dos anos 1970, a ponta avançada sobre o mar ficou como um
dos poucos elementos geográficos com as características físicas que o
distinguiram no período colonial.
O Colegiado do Departamento de Arquitetura e
Urbanismo da UFSC deu parecer esclarecedor: “Julgamos que o fato de a Ponta do
Coral apresentar-se como patrimônio coletivo está, antes de tudo, em sua
excepcionalidade: dificilmente existirá na Ilha de Santa Catarina outro lugar
com vocação tão extraordinária para o uso público, seja como parque urbano ou
equipamentos afins. Sua inserção urbana, em área central e ricamente acessível,
bem como seus atributos paisagísticos e históricos - o contato físico com o mar
e visual com o entorno natural e construído, próximo e distante - fazem da
Ponta do Coral um exemplar raro e precioso, configurando assim uma área de
interesse público por excelência”.
Até 1930 a Ponta do Coral era ocupada por particulares. Naquele período a Standard
Oil, depois a Esso, fizeram ali um depósito de combustíveis. Em 1960, a Esso vendeu a área
para o Governo do Estado e, em 1979, houve a transferência
para a Fucabem – que controlava os chamados “Abrigos de Menores”.
Depois de um incêndio - com fortes suspeitas de provocado – no local,
em 1980, a
Fucabem, através do governador do estado naquela época de ditadura miliar,
Jorge Bornhausen, vendeu o terreno para a Carbonífera Metropolitana,
procedimento sem licitação e que não passou pela Assembleia Legislativa. Depois
a dona foi a Carbonífera União e, mais adiante, em 1991, a Nova Prospera
Mineração, agora parceira da Hantei no projeto. Há informação recente, em nota
publicada na revista Exame, de que o
Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, dos Emirados Árabes, também está no
negócio. Resumindo, nos anos 80, portanto, o terreno público, por negociações
suspeitas, passou a ser privado.
Essas informações estão no projeto "Breve histórico sobre a Ponta
do Coral em Florianópolis - do século 18 aos dias atuais", produzido pelo
gabinete do ex-vereador petista Mauro Passos. Em 2000, o projeto dele que
transformava aquela área em Área Verde de Lazer parecia estar no ponto para
virar realidade. Dois anos depois, o PLC 245/2000 foi levado à
primeira votação, sendo aprovado por unanimidade pelos vereadores presentes no
Plenário da Câmara. Mas manobras na relatoria do projeto fizeram com que, em
2005, fossem aprovadas emendas que permitiram
a possibilidade de construção de hotel.
Foi do mesmo modo – mudando a lei – que
o projeto do badalado Costão Golf, no norte da Ilha, saiu do papel. É assim. A
lei vale quando beneficia quem tem poder de pressão para dela tirar lucro, como
ficou claro na Operação Moeda Verde, da Polícia Federal, que em 2007 desnudou a
corrupção que permite a construção de empreendimentos ilegais na Capital.
Mas há resistência contra isso, graças à
qual Florianópolis hoje tem espaços públicos de lazer como o Parque da Luz, na
cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz, que foi o resultado da mobilização - desde
o final dos anos 80 - da associação local, do movimento ambientalista e de
universitários. A população do Sul da Ilha lutou e ganhou a Lagoa do Peri e o bairro
Coqueiros também conquistou o Saco da Lama.
O movimento popular agora está fazendo
circular um abaixo-assinado
“SOS Florianópolis - Ponta do Coral 100% Pública e sem edificações e pela
criação do Parque Cultural das 3 Pontas”. São elas a Ponta do Coral, a do
Goulart e a do Lessa, as três na embocadura do Manguezal do Itacorubi. O objetivo
é que a Câmara de Vereadores aprove o projeto para criação do Parque, através
de projeto de iniciativa popular. A imprensa,
porém, quando fala do assunto, praticamente só dá destaque para a ideia
faraônica da Hantei.
Cinco dimensões
O professor Flávio Villaça, que ministrou palestra na UFSC sobre o
tema “Espaço
Urbano e Conflitos Sociais” e tem várias publicações sobre o tema, elucida a
questão. Ele diz que a terra urbana só interessa como terra-localização, como
meio de acesso a toda a cidade. Portanto, a acessibilidade é o valor de uso
mais importante para a terra urbana. De um de seus livros, pincei uma frase isolada
que retrata a luta que envolve a Ponta do Coral: “Apenas os terrenos vagos têm
seu preço continuamente atualizado; só, entretanto, quando estiverem com o uso
certo no momento certo, estarão com seu valor
plenamente realizado”.
Ora, um
terreno que passou de mão em mão ao longo de décadas, e agora está localizado
em um metro quadrado “vip” da Ilha que virou “Meca do Turismo”, está no momento
certo, para seus supostos donos, para ser devorado. Nesse processo de “engorda”
do terreno, a Hantei e a prefeitura o deixam largado, com mato crescendo. Isso
dá aos incautos o argumento, que volta e meia aparece nos jornais, de que
precisa de hotel para evitar o abandono...
Para o
professor e vereador Lino Peres (PT), a luta pela Ponta do Coral 100% Pública tem
cinco dimensões. Uma é a dimensão histórica de conflitos, carregada de avanços
e retrocessos, em uma área que mobilizou professores e estudantes da UFSC,
particularmente os da Arquitetura, no início de 1981, contra a demolição do
Abrigo de Menores. O local estava em ruínas por causa do incêndio, e clamava-se
pelo uso e acesso público à área.
Desde lá, lembra o professor, o lugar vem se
impregnando de um longo período de lutas, que hoje culmina no Movimento Ponta
do Coral 100% Pública. Há também, segundo Lino, a dimensão jurídico-fundiária,
de tramitação duvidosa e irregular. A terceira é a dimensão socioambiental, que
vai desde as primeiras propostas de uso cultural, nos anos 80, por acadêmicos,
até o Projeto das Três Pontas e todo o simbolismo paisagístico da área, o último
promontório insular.
A quarta é a dimensão acadêmica, pois muitos trabalhos
de conclusão de curso, como nos de Arquitetura e Urbanismo da UFSC e UNISUL, foram
inspirados na Ponta, todos dando a ela um uso público e cultural. Por fim há a dimensão
legislativa: “Essa dimensão implica a transformação de Área Verde de Lazer - incluída no
Plano Diretor de Florianópolis de 1976 - em Área Turística de Lazer,
modificação esta manipulada na Câmara Municipal”,
finaliza Lino.
Espaço para as futuras
gerações
Em
um dos Atos em defesa da Ponta do Coral, o arquiteto Loureci Ribeiro, envolvido
nessa luta desde os anos 80, deixou claro que a situação de abandono atual da
Ponta do Coral só ocorre porque o poder público assim quer. O local é deixado
em espera, enquanto germina a especulação. Loureci
disse que representantes das elites políticas atrasadas, empresários e políticos
inescrupulosos fazem da coisa pública e dos cargos públicos instrumentos e
objetos de suas rendas e de seus financiadores de campanha. “Assim a cidade
deixa de ser espaço de realização plena e digna de vida para o conjunto da
população e para nossas futuras gerações”, afirma o arquiteto.
Nesse sentido,
é
esclarecedora a avaliação do professor Luís Roberto Marques da Silveira, do Departamento de
Arquitetura e Urbanismo da UFSC: “Nos anos 80, de uma tacada só, desmantelaram
um espaço público e uma história”, disse ele no Seminário Interuniversitário sobre o
projeto do hotel.
Enquanto a Hantei articula políticos, empresários e jornalistas para sua
causa, o Movimento Ponta do
Coral 100% Pública busca sensibilizar a população para os impactos que o hotel irá
causar. A luta pela criação do Parque Cultural das 3 Pontas visa a conservação
ambiental e cultural das únicas áreas naturais remanescentes da antiga formação
geomorfológica da Baía Norte. A meta é garantir o uso público e adequado da
região, estimulando um turismo de alta qualidade, que permita a interação entre
a população e os visitantes com a natureza. “Outro objetivo do Parque é a
geração de trabalho e renda para a população e economia local, nos setores da
pesca artesanal [três comunidades pesqueiras cercam a área], gastronomia,
artesanato, lazer, turismo ecológico, histórico e cultural”, diz a arquiteta
Elisa Jorge, integrante do Movimento.
Nos últimos anos, diversos
pareceres de órgãos públicos, como a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e
o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), defendem o
caráter público e cultural da área. O Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMBio) emitiu parecer contra o empreendimento de hotel,
destacando que a Ponta do Coral fica na Zona de Amortecimento da Estação
Ecológica de Carijós, bem como do Parque Municipal do Manguezal do Itacorubi.
| Celebração na Ponta no Dia Internacional da Mulher |
Pandorgas livres
2015 já viu ao menos meia
dúzia de Atos públicos na Ponta do Coral. Deles participam militantes
envolvidos na luta desde os anos 80, ambientalistas, sindicalistas, professores
e, agora, muitos jovens universitários e secundaristas. Cada vez mais pessoas
atendem aos chamados nas redes sociais. No dia 8 de março, em uma celebração às
mulheres, quem estava lá viu um grupos de meninos soltar pandorga perto de onde
a ponta de terra encontra o mar.
A cena, para mim, ligou 1998 a 2015. Naquele ano, um
garoto que se chamava Willian Barbosa de Araújo e tinha 12 anos foi
eletrocutado em Canasvieiras quando soltava uma pandorga. O fato inspirou a
criação de um grupo chamado Pandorgas
Partidas, formado por professores e estudantes. Eles pintaram um mural no
Centro de Ciências da Educação da UFSC que dizia: “Uma pipa arrebentou e caiu
nas ruas da cidade. Já não se escutam as brincadeiras, o riso, o jogo das mãos
que a seguravam. Quem vai resgatá-la?”.
Pois em 8 de março de 2015,
um menino chamado Guilherme Gabriel Antunes da
Silveira, de 12 anos, também saiu de casa, lá nos altos da rua José Boiteux, no Maciço do Morro da Cruz, a espinha
montanhosa que corta a Ilha de Norte a Sul. Ele tinha um destino, a Ponta do
Coral, e um objetivo: soltar pandorga.
Sem saber, o
Guilherme voltava a realizar o sonho daqueles meninos do Abrigo de Menores, expulsos
de lá por um incêndio com indícios de criminoso. Na Ponta eles jogavam futebol
e certamente soltavam pipas. Na época, antes de ser rasgado pela Beira-Mar
Norte, o lugar formava uma extensão contínua entre o Maciço do Morro da Cruz, o
sopé da montanha do bairro da Agronômica e o promontório da Ponta do Coral.
A avenida
cortou também aquele sonho e o fio de tantas pandorgas que não mais voltaram a
voar. Mas agora há esse clamor: que a Ponta do Coral volte a germinar sonhos no
ar das pandorgas, nos pés de meninos jovens do futebol, nos barcos dos
pescadores e visitantes na embocadura do manguezal do Itacorubi.
Guilherme, esse
pequeno conhecedor da arte dos ventos, e seus amigos pintaram um outro mural,
real, num espaço verde que – assim seja – pertencerá a toda a população de
Florianópolis e às suas pandorgas.
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| O pequeno senhor dos ventos |
domingo, 22 de março de 2015
Cruz e Sousa - ainda em abandono
Ato/protesto no aniversário de morte de Cruz e Sousa, em Florianópolis. Memorial que deveria abrigar a obra do poeta está abandonado.Movimento Negro Unificado e mandato do vereador Lino Peres organizaram a homenagem e o ato.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Licenciatura Indígena
Iniciativa de professores e trabalhadores da UFSC encerra-se esse ano a primeira turma de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica.
Mulheres curdas
Por Elaine Tavares
Sempre me causaram profunda angustia as cenas – apenas vislumbradas - de soldados estadunidenses estuprando mulheres árabes após a invasão do Afeganistão ou do Iraque. Essa violência abissal contra o corpo, que é o último reduto do ser. A humilhação do uso instrumental do sexo, apenas pelo poder de fazer. Grupos de homens armados devassando um espaço que é considerado quase sagrado pelas mulheres muçulmanas. Não bastava matar seus homens, seus filhos, destruir suas casas, era preciso invadir seus corpos, entre risadas e obscenidades.
Mas as cenas dos “marines” não são cenas isoladas. Em qualquer conflito esse rasgo de vontade de poder aparece e se constitui. Nas guerras, as mulheres acabam sendo as presas mais cobiçadas. Isso desde os primórdios dos tempos, seja para servirem de escravas, seja para serem humilhadas e vilipendiadas. Seus corpos viram troféus, seus sexos lugares de despejo de ódio. O verbo “foder” assume seus contornos mais pesados. Penso no terror das mulheres das pequenas aldeias invadidas e tomadas pelas hordas, seja no oriente, no grande continente africano, ou mesmo na Europa, como se viu na guerra entre a Bósnia e a Sérvia, e como se vê hoje na Ucrânia. A certeza da violação, quando surpreendidas sozinhas e vivas no campo da morte.
Aí aparecem essas mulheres curdas, da cidade de Kobane. Elas entenderam que a guerra, sem vem, deve ser enfrentada no coletivo, como gênero humano. Formaram uma frente de mulheres, para garantir a autodefesa e se integraram às forças de combate. Luta feminina, luta de classe, luta política, tudo junto, misturado. Vejo seus rostos, nas fotos de jornais, sorridentes e altaneiras. Enfrentam hoje o Exército Islâmico, esse grupo extremista criado para espalhar o terror. Armadas de fuzis e de valentia elas marcham, ombro a ombro com os homens na defesa do território, na defesa de seus corpos.
Essas mulheres ensinam uma singela lição. Ninguém é fraco se está junto e hoje a Unidade de Defesa das Mulheres já conta com nove mil guerrilheiras. Ao se protegerem, armadas, elas garantem a liberdade de ser quem são. Não fazem discursos, nem reivindicam diferenças. Elas estão no campo de batalha, elas se protegem e lutam pelo seu espaço geográfico. E, se por um acaso, se encontram desprotegidas diante do inimigo, como foi o caso de Arin Mirkan, de 20 anos, isolada e sem munição, elas sacrificam o corpo em nome do coletivo. Foi o que fez Arin. Envolveu-se em explosivos e explodiu, levando com ela mais 23 jihadistas. Foi a sua decisão. Seu corpo. Sua decisão.
Eu reverencio essas mulheres curdas, que souberam encontrar o caminho da mulheridade, sem perder o conteúdo de classe. São vitoriosas, não apenas por colocarem os extremistas para correr. Mas, por caminharem em comunhão.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Senador de identidade nova
Míriam Santini de Abreu
Fazia meses que não víamos o Senador. Pensamos nós: ele deve
estar em campanha. Pois
eis que nesta quinta topo com ele na frente do Angeloni da Rio Branco. Cumprimentou-me
e falou de suas relações com Al Capone, de quem locou um cassino em Las Vegas. E , para minha alegria,
ele conseguiu uma carteira de identidade nova em folha!
O caso é o seguinte: o Senador usava uma fotocópia velha de
uma identidade há muito perdida para dar confiabilidade a todos os seus
manifestos. Mas precisava de um original. Ligamos para o cartório em Lauro Muller , mas
informaram que o nome do nosso Senador não constava nos arquivos de lá.
Pois alguém conseguiu apurar que sim. O Senador, em visita
ao nosso serviço nessa tarde, logo depois do encontro no Angeloni, contou que
uma certa pessoa deu a ele 200,00 para ir a Lauro Muller obter a certidão de
nascimento (ele conseguiu!). Depois, bastou fazer o RG em Florianópolis. Que
alegria a do nosso Senador!
Agora ele tem um novo desejo: ir ao Rio, São Paulo e Brasília
levar seus manifestos. Em Brasília, quer encontrar a cúpula do Superior
Tribunal de Recursos (!) porque, segundo ele, recursos são o mais importante,
têm poder, mais do que Dilma Rousseff. A presidenta, disse ele, é muita
boazinha, muito articulada, ajudou muito professores “caidinhos” da UFSC (sim,
ele disse “caidinhos”), mas não chega à altura do Superior Tribunal de Recursos.
Perguntamos se não bastava Brasília, mas ele diz que chegar
assim, sem mais, na capital federal, sem passar por Rio e São Paulo, vai tirar
todo o impacto de sua visita. Já planejou levar várias sacolas com seus
manifestos e documentos. Agora, concluiu o Senador, falta apenas dinheiro.
Demais, o Senador!
Resgate da cultura negra, debate e homenagem à militante e diretor da Fenasps no 20 de novembro em Florianópolis
Por Marcela
Cornelli
Para marcar o Dia Nacional da Consciência Negra, entidades
sindicais realizaram no dia 20 de novembro, diversas atividades culturais e
políticas em Florianópolis. Pela manhã, foram realizadas atividades em frente à Catedral
Metropolitana, no Centro da Capital, com apresentação de grupos de dança
e hip-hop. Também foram distribuídas cartilhas sobre a anemia falciforme,
alertando para as especificidades da saúde da população negra.
À noite, movimentos sindicais e sociais e estudantes se reuniram
para participar do debate “O Negro na telenovela brasileira”, com o
professor do Departamento de Estudos Sociais da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná, Ivo Pereira de Queiroz, também militante do Movimento Negro
Unificado (MNU).
A ideia de colonialidade
“São 400 anos de racismo e dominação e de desprezo às
culturas e saberes da população negra. O primeiro trabalhador do Brasil foi o
negro. 12 milhões de vidas foram gastas para construir o Brasil e agora
reclamam que o garoto negro quer uma cadeira na universidade”, disse o
professor Ivo Pereira de Queiroz. “A
‘colonialidade’ ficou”, defende o professor, referindo-se à dominação de ideias
e preconceitos que permanecem até hoje desde a época do colonialismo. “As
pessoas morrem, mas as ideias permanecem nas mentes, corações e nas
instituições”.
“Eles já fizeram o contrato com e para quem vão governar”
Na opinião do professor, “hoje vivemos em uma sociedade de
aparências e quem produz fica do lado de fora. É uma sociedade do consumo e da
alienação. Os valores e tradições são regulados pela colonialidade. No governo
não é diferente. Os governantes eleitos foram financiados pelas mesmas
empresas. Eles já fizeram o contrato com e para quem vão governar”.
O negro e as mulheres na TV
“Na TV as mulheres são transformadas em coisas. Há racismo e
inferiorização da gente negra. A mulher negra sofre ainda mais. Há o
estereótipo de que a mulher branca é para casar e para cozinhar e a mulata para
fornicar”, diz o professor. “Por isso, a lei que deu mais direitos às
empregadas domésticas foi tão combatida. A colonialidade está no imaginário
como se fosse um vírus. No desenho animado, por exemplo, a cor do mal é sempre
escura”.
O professor citou o exemplo de vários atores negros que
tiveram papéis na TV associados ao consumo do álcool, sem dentes e engraçados
e/ou mal tinham falas no seu papel, na maioria das vezes retratados como
empregadas domésticas, motoristas e/ou seguranças da elite branca. Para o
professor, houve algumas mudanças, isso graças à pressão dos movimentos negros,
porém ainda estamos muito aquém do necessário. “Até discutem a maior
participação de negros nas novelas, por exemplo, mas não discutem o conteúdo”. As TVs visam o consumo e não
avançam em determinadas questões para não desagradar o público e
consequentemente seus patrocinadores. “Dependendo do que o público pensa eles
mudam o enredo”, observou Queiroz.
O monopólio das comunicações
“O monopólio das TVs é tão naturalizado. Não se pode ser
inocente, tudo tem um propósito, uma intencionalidade. Desmistificar o consumo
das ideias é sadio. Precisamos aprender a ficar resistentes ao que os meios de
comunicação nos mostram como verdades”.
O papel dos sindicatos
“A injustiça social só desaparecerá quando vencermos a
injustiça entre as classes”, enfatizou o professor. Para ele, dentro desta
perspectiva o papel do sindicato é fundamental na discussão com os
trabalhadores e as pautas sindicais devem avançar para além das discussões das
categorias. Se isso não for feito não haverá mudanças.
Homenagem ao Diretor da Fenasps e do movimento negro
Ao final do debate foi feito menção e homenagem, pelo
movimento negro de Santa Catarina e por todos os presentes, ao militante do
movimento negro do Rio de Janeiro, Manoel Crispim Clemente Flores, servidor do INSS e ex-dirigente da
Fenasps, do Sindsprev/RJ e da coordenação
nacional da CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular), que faleceu nesta
quarta-feira, 5 de novembro, vítima de um acidente de carro. Crispim dedicou sua vida
à luta dos trabalhadores da seguridade social, ao combate à discriminação
racial e à
construção de uma sociedade com justiça social.
Participam da organização dos eventos no dia 20 de novembro
em Florianópolis as seguintes entidades: Sindes, Sindprevs/SC, Sinte, Sinergia,
Sintrasem, Sintrafesc e o Movimento Negro Unificado (MNU).
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Celebração do Dia do Saci
Atividade realizada na Esquina Democrática, em Florianópolis, no dia 31 de outubro de 2014. O Dia do Saci é celebrado desde há 11 anos na cidade, numa promoção da Revista Pobres e Nojentas, com o apoio do Sintufsc, Sintrajusc, Sindprevs e Sinergia.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
A luta pelo HU
Estudantes, sindicalistas, populares, Fórum Catarinense em defesa do
SUS, gente de todo o tipo que defende o Hospital Universitário
totalmente público se reuniram, nesse dia 30 de setembro, na reitoria da
UFSC, para acompanhar a sessão do Conselho que iria debater o tema. O
assunto HU foi tirado da pauta, mas a luta se fez. Veja como foi.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Encontro do Cavalo Marinho com o Boi de Mamão: um Brasil que se descobre!
Por Marlon Assef
Um verdadeiro reconhecimento de tradições populares e uma troca de saberes. Assim será o encontro do grupo de Cavalo Marinho Estrela Brilhante, de Pernambuco, com o Boi de Mamão Arreda Boi, da Barra da Lagoa, que acontece a partir desta quarta-feira (10). A iniciativa que reúne dois expoentes dos folguedos de Boi, uma das tradições populares mais tradicionais do país, vai promover uma aproximação de pernambucanos e catarinenses em torno da cultura popular e seus desafios . “Será uma oportunidade única de mostrar em Santa Catarina toda a riqueza do Cavalo Marinho, que é um genuíno representante da cultura popular nordestina, ao mesmo tempo em que iremos trocar referências e saberes com o Boi de Mamão da Ilha”, enfatiza João Tragtenberg, coordenador do projeto em Pernambuco.
Além de promover um riquíssimo encontro de duas manifestações populares, o projeto também propõe uma reflexão sobre os rumos da arte de rua e da cultura popular, especialmente em Florianópolis. “Ao mesmo tempo em que aprendemos os passos e as cantorias dessa dança popular que é o cavalo marinho, vamos refletir sobre a importância de políticas públicas que valorizem os espaços de rua como um lugar de todos, que deve estar aberto para as mais diversas manifestações da cultura”, diz o educador Nado Gonçalves, coordenador do Ponto de Cultura Arreda Boi, anfitrião do encontro na Barra da Lagoa.
Na primeira parte do encontro, patrocinado pelo Fundo de Cultura de Pernambuco, três oficineiros do Estrela Brilhante – Nice Rodrigues e seus filhos Natan e Totó da Rebeca – compartilham os encantos do Cavalo Marinho em oficinas no Centro Comunitário da Barra da Lagoa. Depois, será a vez de 19 integrantes do Estrela Brilhante chegarem na ilha para apresentações em escolas e espaços públicos da Barra da Lagoa. Nesse meio tempo, acontece um show com o grupo Rabequinha Gemedeira, na Casa de Noca, com a apresentação de ritmos nordestinos como o Côco de Roda, Ciranda e Forró. A abertura do show será do Arreda Boi.
Para completar a integração cultural, em outubro a turma do Arreda Boi leva para Pernambuco toda a tradição do boi de mamão da Barra da Lagoa, em oficinas e apresentações em locais públicos de Condado, o pequeno município da zona da mata onde nasceu a tradição do Cavalo Marinho.
Programação:
Dias 10, 11 e 12 set – Oficinas de construção de instrumentos, estandartes, música e dança, entre integrantes do Cavalo Marinho Estrela Brilhante e o grupo de Boi de Mamão Arreda Boi, na Barra da Lagoa.
Dia 13 set - Oficina do Estrela Brilhante aberta ao público, no Centro Comunitário da Barra da Lagoa, das 8h30 às 12h. Ingressos a R$ 20,00.
Dia 14 set – Show a partir das 18h, com o grupo pernambucano Rabequinha Gemedeira, na Casa de Noca (Lagoa da Conceição). Abertura do boi de mamão Arreda Boi. Ingressos a R$ 10,00.
Dia 25 set – Apresentação do Estrela Brilhante na Escola da Barra da Lagoa, às 20h.
Dia 26 set – Apresentação do Estrela Brilhante na Praça dos Pescadores da Barra da Lagoa, das 19h às 24h.
Contatos para entrevistas.
João Tragtenberg - (81) 9928-5632
Nado Gonçalves – 8408-4161 / 3238-2656
Marlon Aseff (Assessoria de Imprensa) – 9906-1268
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Albeneir - ídolo do Figueirense
A produção da Pobres e Nojentas esteve no Estádio Orlando Scapelli, entrevistando o ídolo maior do clube: Albeneir Marques. Esse jogador excepcional, homem generoso e gigante, não só no tamanho, mas também na capacidade de superar todos os obstáculos dessa vida.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Cotas sim! Por quê?
Por Marcela Cornelli
Moro em uma comunidade pobre do Maciço do Morro da Cruz, trabalhava em uma rede de supermercados e, quando meu filho mais velho tinha 9 anos, voltei a estudar. Com as cotas pude entrar na universidade. Ao pedir as contas do meu emprego fui questionada: ‘mas você já não tinha um emprego?’, ‘o que está fazendo agora?’ Agora não carrego mais caixas. Vivo de bolsa. Sou estudante. Até para meu marido não foi fácil explicar que eu não iria mais trabalhar, iria estudar. Esta é a difícil condição da mulher, negra e pobre na nossa sociedade”, conta Luciana de Freitas Silveira estudante cotista de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), militante do Movimento Negro Unificado (MNU) e do 4P - Poder para o Povo Preto/UFSC. A história de Luciana se repete Brasil afora. Com a instituição das cotas nas universidades em 2003, um passo importante para grandes mudanças foi dado.
“As cotas estão dentro de um projeto maior: as políticas de ações afirmativas. Quem precisa se afirmar? Os grupos sociais e/ou étnicos que foram historicamente excluídos, em virtude do processo de modernização da sociedade que é excludente, como apontam estudos. No caso brasileiro, os africanos escravizados e as sociedades indígenas foram as ‘vítimas preferenciais’, pois durante muito tempo foram vistos pelos colonizadores e seus descendentes como seres inferiores intelectual e fisicamente”, aponta o professor da Universidade Federal de Pernambuco, José Bento Rosa da Silva.
“As cotas étnicas nas universidades são reivindicações que remontam a década de 40 e 50. É bom lembrar que outros países já estabeleceram cotas, como os EUA, a partir da luta pelos direitos civis dos negros nos anos 60. E o que foi a criação do Estado de Israel em 1948? Uma espécie de reparação pelo que os judeus sofreram no decorrer da segunda guerra mundial. Portanto, temos precedentes de ações afirmativas, de ações reparadoras. As cotas são isso também na história contemporânea”, resume o professor José Bento.
“Os negros foram expropriados e sequestrados para trabalhar em outras nações. A população negra ficou excluída de todas as políticas que pudesse levá-la a um processo de igualdade. Por isso, se exige a reparação e direitos fundamentais como saúde, educação e habitação, que lhes foram negados nestes anos de história. As cotas são parte desta reparação”, diz Maria de Lourdes Mina, Lurdinha, militante do Movimento Negro Unificado (MNU).
Lurdinha lembra que 52,8% da população brasileira é negra e que as cotas vão atender cerca de 12% desta população. “Uma parcela ínfima. As cotas vêm para minimizar a desigualdade e promover parte da equidade. Vamos ter um país que promove a igualdade e discute com a sociedade as desigualdades existentes”.
“Um amigo me disse outro dia que antes, ao andar pela UFSC, não avistava negros. Estamos nos vendo mais dentro da universidade. É o negro se empoderando na universidade e isso assusta porque não se tem um debate mais profundo, ou por desconhecimento ou por medo. Quando me apresento como cotista, há um silêncio na sala. Ninguém quer debater a importância disso, nem o professor, nem os demais alunos. Ainda há muito preconceito racial que é estrutural no meio acadêmico”, opina Luciana.
“Os estudantes cotistas sofrem com o preconceito, principalmente em algumas regiões mais conservadoras do Estado”, diz Ticiane Caldas de Abreu, estudante cotista do curso de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Ticiane trabalha em um projeto em várias regiões de Santa Catarina que tem o objetivo de ajudar os alunos cotistas pedagógica e psicologicamente. Ela também acredita nas cotas como forma de reparação dos anos de desigualdade racial e social. “Na sociedade brasileira, a desigualdade social também tem cor, por isso, não podemos abandonar o discurso de raça no conceito de desigualdade social”.
“Como manter o sistema de meritocracia, se não fomos tratados de forma igual? Quando o negro foi liberto, não lhe foi dado qualquer condição de trabalho. Como os negros eram considerados mercadorias, a lei os tratou como mercadorias. Mesmo libertos, trabalhavam em troco de comida e não tinham acesso à educação”, reforça Wilson Martins Lalau, representante do Sinergia.
Historicamente, o Movimento Negro Unificado defende a reparação. “A África foi espoliada. Os europeus usurparam do povo africano peças de arte e diamantes que dariam para matar a fome do Continente. Os reflexos desta usurpação e do racismo pelos povos ocidentais europeus na África deixaram marcas até hoje. O que se vê nas grandes cidades é que a maior vítima de crimes, violência e das ações da polícia é a população negra, bem como a que tem menos acesso à saúde, educação de qualidade e, consequentemente, aos melhores empregos”, diz Lalau.
“Até então qual era o papel do negro na sociedade? O lugar do negro era no chão de fábrica, na cozinha. Sempre fomos vistos na condição de empregados e agora estamos nas universidades”, reforça Lurdinha.
No entanto, para Lalau, apesar do sistema de cotas aprovados, o Brasil não tem uma política de fato de combate ao racismo. Exemplo disso é a Lei 10.639 que institui o ensino sobre a história da África nas escolas e até então não foi implementada. “Enquanto não houver um ensino que comece a trabalhar estas questões na educação do país, não vamos avançar mais”. Na sua opinião, quando os movimentos tentam se organizar para lutar, a exemplo também do movimento indígena, há uma forte criminalização dos mesmos por parte dos governos, o que impede também que a lute avance.
Cotas no serviço público também são formas de reparação
Além das cotas nas universidades, foi aprovada neste ano a lei que institui cotas nos serviços públicos. Para Lurdinha, as cotas nos serviços públicos são um avanço apesar de serem restritas ao executivo, deixando o legislativo e o judiciário de fora. “Ainda há muito pelo que lutar”. Já o professor José Bento, lembra que estes grupos não entrarão sem concurso público, “mas será um concurso dentro da sua especificidade, dentro do pressuposto de tratar diferentemente os diferentes, até porque, os diferentes geralmente são tratados como desiguais, socialmente falando. Então as cotas visam suprimir as desigualdades, não as diferenças humanas”.
No Estado de Santa Catarina andamos a passos lentos
Em Santa Catarina, não há uma política para a população negra. Há poucas oportunidades para as crianças pobres e negras. Em Florianópolis, cinco colégios que atendiam a esta parcela da população foram fechados, a exemplo do Celso Ramos e do Antonieta. “Foram fechados de forma intencional, impossibilitando estas crianças que ali estudavam de acessar a educação pública”, diz Lurdinha. Ela lembra que os movimentos sociais e sindicais defendem outras bandeiras além das cotas, como o fim da violência policial e o genocídio da população negra e indígena no país e a titulação das terras das comunidades quilombolas. “É um enfrentamento direto com os latifundiários, com o agronegócio, com grandes empreiteiras que querem as terras para construir grandes empreendimentos”.
“Só vamos mudar esta realidade através da educação. Quem hoje no país tem uma educação mais crítica, que compreenda as relações de poder, que debata outro modelo de sociedade? Sem uma educação com senso crítico da sociedade em que vivemos, não se pode fazer mudanças profundas”, reflete Lurdinha.
O professor José Bento também avalia que solução está na educação. “É preciso educar para outras maneiras de conceber e ver o mundo. O modelo ocidental, capitalista não dá conta das nossas diversidades. É preciso elaborar outras epistemologias, outras maneiras de conhecer e conceber a sociedade e a vida do ser humano. Isso pode se fazer com políticas macro e micro, ou seja, nos sindicatos, associações, entidades de classe, movimentos sociais, etc.”, finaliza.
Fonte: Revista Previsão nº 7 – agosto 2014
sábado, 10 de maio de 2014
A memória perdida dos rios desaparecidos
| Rio da Bulha engolido sob a boca-de-lobo |
| Rio do Carreirão no único trecho visível em local público |
Míriam Santini de Abreu, jornalista
Eu tenho
21 graus de miopia e, mesmo com lente de contato - de um tipo que não corrige
os outros 3 graus de astigmatismo – enxergo mal. Lembrando do belo dito de
Eduardo Galeano, preciso que as pessoas me ajudem a enxergar. É impressionante
a quantidade de coisas que passam batido pelo meu registro visual. E neste
sábado, 10 de maio, muita gente me ajudou a enxergar coisas que eu nunca tinha
visto. Participei da 5◦ Caminhada Jane Jacobs Floripa, unindo-me a umas 30
pessoas que não ficaram com medo da chuva. Jacobs, a jornalista, escritora e
ativista política, autora do belo livro “Morte e Vida de Grandes
Cidades”, deve ter sorrido.
Começou já na Avenida Hercílio
Luz, onde pela primeira vez vi o mural “A Festa”, do artista plástico Rodrigo
de Haro, na fachada do Clube 12. Nunca havia enxergado aquela obra! E depois,
ao longo da caminhada, foi a vez de enxergar os rios que diferentes administrações
enterraram sob lajes porque deles não quiseram cuidar. Fomos descobrir os rios da Bulha e do Carreirão, aquele o
primeiro a abastecer a antiga Desterro, e em 1922 canalizado para a abertura da Avenida do Saneamento,
hoje a avenida Hercílio Luz. Ah, a memória
perdida dos rios... Do Rio da Bulha ouvi o murmúrio, as águas engolidas
passando sob uma boca-de-lobo.
Depois me
ajudaram a enxergar o Rio do Carreirão, na Presidente Coutinho, no trecho entre
a Esteves Júnior e a Gama d’Eça. Passei algumas vezes por aquele local e nunca havia notado
o único trecho desse rio ainda visível em local público. Fora esse, o rio só
pode ser visto atrás da Casa Rosa, e agora é mais uma vez vítima da gula
imobiliária do... Ministério Público de Santa Catarina! Essa história é muito
bem contada em artigo do arquiteto Gustavo Pires de Andrade Neto (veja abaixo)
e virou alvo de uma CPI na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (http://www.deputadojailson.com.br/noticias/1605/cpi--para-o-bem-do-ministerio-publico).
Em outro
trecho, dentro da área do Exército na Bocaiúva, sobrou visível, do antigo
traçado, apenas uma antiga ponte metálica. E por fim enxerguei o ponto exato
das águas da Baía Norte onde esse rio tão importante para a antiga Desterro encontra
o mar, depois de ter o trajeto e as águas violadas pelo descaso.
Bela
iniciativa, a Caminhada Jane Jacobs Floripa, para nos ajudar a enxergar a
cidade pela qual passamos e da qual às vezes tão pouco percebemos, e as obras,
como o enterro dos rios, que ainda vão afetar a vida de todos nós.
VEJA O VÍDEO DA CAMINHADA EM:
O “riacho da Malária”, o
Ministério Público e os 123 milhões de reais
Gustavo
Pires de Andrade Neto, arquiteto
“Riacho da Malária”, rio do
Carreirão, ou canal da Rio Branco, são diferentes nomes de um antigo curso
d’água que por décadas passou tranquilo pelo centro de Florianópolis. Sua
existência já era reconhecida no Plano da Vila de Desterro de 1777 e o seu
percurso ganhou mais precisão na Planta Topográfica de 1876: nascia em algum lugar próximo ao atual Ceisa Center e era o coletor
natural das águas que seguem pela Gama d’Eça até a Casa do Barão, onde se
desviavam até passar pela Travessa Carreirão e desembocar no mar.
A
cidade foi sendo urbanizada e o riacho, canalizado. Os curiosos que queiram
conhecer o Rio do Carreirão ainda podem vê-lo passar a céu aberto espremido
entre edifícios da rua Presidente Coutinho, entre a rua Esteves Júnior e
Avenida Gama d’Eça, ou talvez nos fundos de um imóvel na travessa de mesmo
nome, próxima à avenida Beira Mar.
Hoje,
este mesmo riacho que cruzava as chácaras da elite local de outrora, está no
centro de uma polêmica que relaciona questões ambientais e urbanísticas, a
defesa do interesse coletivo e suspeitas de corrupção por parte da Prefeitura
de Florianópolis e do Ministério Público de Santa Catarina. Tal riacho cruzava
o quintal arborizado da “Casa Rosa”, na Avenida Bocaiúva, onde um edifício
comercial, ainda a ser construído, foi comprado pelo MP pelo valor de 123
milhões de reais.
A polêmica
se deve basicamente a irregularidades no licenciamento da obra e ao escandaloso
valor de compra, envolvendo questões técnicas e políticas: suspeita de
superfaturamento; alto custo do imóvel; compra sem licitação; licença de
construção expedida no “apagar das luzes” do governo Dário, em desacordo com
estudo ambiental da Floram (que nem chegou a ser concluído); corte de dezenas
de árvores; desvio de curso d’água; falta de aprovação dos departamentos de
patrimônio histórico antes do início das obras; etc.
Uma
CPI acaba de ser criada na Assembleia Legislativa e deve investigar a compra do
imóvel pelo Ministério Público. A investigação sobre o MP, inédita no Brasil,
tenta pôr luz sobre pontos obscuros da negociação: valores de referência do m2
superestimados; potencial construtivo sobredimensionado; dúvidas sobre a data
da formalização da compra (oficialmente do final de 2012, mas há indícios de
que negociações ocorriam pelo menos desde 2010). Segundo notícia veiculada pelo
Jornal Diário Catarinense de 7 de maio, o próprio Conselho Nacional do MP
suspendeu o contrato com a construtora e os pagamentos, o que supõe que o
processo de compra do imóvel poderá ser revisto. No entanto, a obra não foi
paralisada.
Algumas
questões urbanístico-ambientais do projeto aprovado, por outro lado, permanecem
obscuras e não se extinguirão até que a Prefeitura suspenda (de novo) a licença
de construção. Vamos nos concentrar em algumas destas questões e contrastá-las
com o projeto aprovado no final de 2012. O resultado é impressionante. O
projeto não apenas subverte pareceres ambientais e de proteção ao patrimônio
contrários à obra, como transcende as próprias solicitações da construtora
manifestadas à Prefeitura, indo além do analisado tecnicamente e do discutido
juridicamente. Vejamos alguns casos.
A
polêmica “rio x esgoto” – Uma guerra de nomenclaturas esteve presente em todas
as fases do licenciamento. Enquanto a Floram adotava o nome “Canal da Rio
Branco” nos seus estudos e sempre exigiu o afastamento de no mínimo 15m em cada
margem do curso d’água (com apoio do próprio Ministério Público, à época), a
construtora em todos os documentos técnicos se referia ao canal como “esgoto”
ou fazia alusão à alcunha “Riacho da Malária”. Assumindo que um rio deve ser
protegido e ter as suas margens não-edificáveis (o que fatalmente reduziria o
potencial construtivo e os lucros esperados com o empreendimento), o primeiro
argumento da construtora foi negar o reconhecimento de que aquele fosse um rio.
Após o embargo judicial que suspendeu a obra, a defesa da construtora
misturaria este argumento com outro, o de que o rio em questão se encontraria
antropizado. Tanto se fosse um esgoto ou um rio vítima da urbanização voraz da
cidade, a construtora defendia que o canal da Rio Branco não merecia ser
protegido.
Da
simples cobertura do canal ao desvio do curso d’água – Mesmo aceitando o
(ambíguo) argumento da construtora, o seu pedido inicialmente manifestado à
Prefeitura não corresponde ao que se vê no projeto aprovado. O solicitado e
analisado (objeto tanto de parecer técnico privado quanto do inconcluso estudo
da Floram), era a simples “cobertura do canal”, mantendo a sua seção de 2m de
largura e também solicitava a dispensa do afastamento de 15m. O projeto, no
entanto, vai muito além. O projeto desvia o canal (que continua pelo terreno
vizinho, atual quartel do exército, onde se vê nos jardins da frente as lajes
de concreto que cobrem o canal, os antigos pontilhões de alvenaria que o
cruzavam e até mesmo uma antiga ponte de ferro) e encaminha as suas águas
diretamente para a rede de esgotos na avenida Bocaiúva, passando em seção
fechada (reduzida a 1,5m), pela lateral do primeiro subsolo, como se pode ver
no corte do projeto do edifício. Tal medida deve-se a necessidades do layout do
projeto arquitetônico. Para viabilizar a construção de três subsolos de
garagem, as águas enclausuradas não poderiam passar perpendiculares ao
edifício, mas ao seu lado. Ou seja, não satisfeita com poder desconsiderar
afastamentos, a construtora pretende desviar as suas águas e conectá-lo ao
esgoto (enquanto a conexão não fica pronta, a obra utiliza uma bomba para
retirar água que continua chegando pelo córrego e a armazena em três grandes
reservatórios). Juridicamente, a questão fundamental é que os pareceres técnicos
usados pela construtora (de 2010 e 2011), se referiam a questões específicas
solicitadas previamente (cobertura do rio e dispensa de afastamento) e não ao
desvio do riacho e conexão à rede de esgoto, algo novo que surgiu no projeto
aprovado e que não foi objeto de análise dos estudos de impacto ambiental.
De
curso d’água a esgoto: os riscos – Além da irregularidade jurídica, a licença
concedida sem base em estudo técnico apropriado traz riscos ao esgotamento
hidro-sanitário da região. O Canal da Rio Branco faz a drenagem de uma área de
cerca de 370 mil m2 do centro de Florianópolis, o que supõe um enorme volume de
água nos dias de chuva. A conexão de águas pluviais ao esgoto pode provocar um
colapso da rede. Se há suporte para tal, deve ser feito um estudo neste sentido
que o comprove. Mas, como vimos, este tema não foi previsto pelos estudos
feitos em 2010 e 2011. Curiosamente, a solução é inversa à típica ilegalidade
cometida em Florianópolis de se conectar esgotos ao coletor de águas pluviais.
Neste caso, consentida pelo município, que aprovando o projeto, acabou por
decretar a extinção do riacho.
O
direito de construir x a função social da propriedade: a questão de fundo –
Caso fosse respeitado o afastamento de 15m em cada margem do rio, como determinado
na Lei nº 6.766 /79, o potencial construtivo do terreno seria bastante
limitado, o que teria como efeito direto a redução dos lucros esperados pela
construtora com o negócio, como já foi dito. Cabe lembrar um outro tipo de
afastamento que incide e limitaria o projeto: o afastamento de 20m desde a
fachada dos fundos da Casa Rosa, um bem tombado. É esse o afastamento mínimo
exigido, de acordo com os pareceres dos órgãos de patrimônio histórico
consultados. Tal afastamento, não é seguido no Termo de Compromisso assinado
entre o município e a construtora. O termo alega questões de volumetria para
estabelecer que o novo edifício esteja no mesmo alinhamento dos edifícios da
Casa do Barão, o que resultaria em um afastamento de apenas 10m entre os fundos
da Casa Rosa e a fachada do novo edifício. É absurdo que o município tenha
proposto que um critério menos restritivo tenha se sobreposto ao mais
restritivo (de patrimônio histórico). Se fosse respeitado o afastamento de 20m
e mantido o gabarito, isso implicaria em uma redução da área de todas as lajes
do empreendimento, com grande impacto sobre o valor geral de venda do imóvel. O
potencial construtivo do imóvel poderia estar sobredimensionado também de
acordo com outros critérios. Cabe lembrar que os estudos de viabilidade
realizados em 2005 permitiam um potencial construtivo de 12 mil m2 para o
terreno e que o projeto aprovado em 2012 prevê uma área construída de 20 mil
m2. O que se vê é que o direito de construir do proprietário prevaleceu em
todos os casos, em detrimento do meio ambiente e da proteção ao patrimônio
histórico. Não deveria ser assim. A função social da propriedade, regulamentada
pelo Estatuto da Cidade, implica ônus ao proprietário, como restrições de
exercício do direito de construir. Foi garantida na Constituição justamente
para promover o aproveitamento racional e eficiente, com a adequada utilização
dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente. A função social é
inerente ao exercício da propriedade.
Tanta
polêmica deveria servir a uma reflexão mais ampla sobre urbanismo e meio
ambiente, que não se limite a “permitir” ou “proibir” a construção do edifício,
ou à “compra” ou “não compra” pelo MP. É lícito que a construtora recorra ao
caráter antropizado do rio como argumento para flexibilizar as restrições
ambientais. O papel dos rios urbanos, muitos deles “invisíveis”, debaixo de
ruas e edifícios, é uma discussão pendente que, no entanto, deve ser coletiva e
liderada pelo poder público, e não manipulada para auferir ganhos imobiliários
privados. Sem uma política de macrodrenagem em Florianópolis e um Plano Diretor
para os cursos d’água, os critérios para as decisões e os parâmetros para
ocupação serão sempre arbitrários, pontuais e sujeitos a variações, de acordo
com a persuasão do poder econômico e a complacência do município.
Quem
deveria mediar o debate entre a sociedade, o município e a legislação
ambiental? Quem defende o interesse coletivo difuso em um caso como este? Como
é sabido, o papel cabe em grande parte ao Ministério Público. Advogado e réu,
neste caso, colocando-nos diante de uma equação atípica. No entanto, já sabemos
que sem atender ao interesse público, o desenvolvimento imobiliário privado
segue a sua própria lógica. Busca a todo custo maximizar o potencial construtivo
dos seus empreendimentos, ainda que o resultado empobreça as cidades... e
transforme os rios em esgotos.
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