segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O povo resiste, luta e vencerá em Honduras!

Nas primeiras décadas século XVI, quando no imenso território que hoje é o Brasil os colonizadores começavam e explorar o pau brasil para ocupar o território, na América Central a colonização espanhola seguia acelerada, dizimando povos nativos, “empunhando uma espada e uma cruz na outra mão”. Numa das regiões que hoje é o território hondurenho, os desde então chamados indígenas resistiram com mais força, liderados por Lempira. Este foi traído e morto em combate, mas deixou rastros na cultura e na ideologia do povo mestiçado nos quase cinco séculos seguintes. A moeda de Honduras chama-se Lempira, uma cínica homenagem burguesa ao herói indígena.
Mas na alma profunda do povo mestiço, ficou a mensagem: o povo não se renderá, embora continue sendo traído, agora por modernos gestores dos monopólios, a maioria dos quais de origem estadunidense.
Desde o dia 28 de junho tem manifestações todos os dias nas principais cidades de Honduras, especialmente na capital, Tegucigalpa. É assim mesmo, todos os dias, sem que ninguém faça um panfleto sequer de convocação, reúnem-se e protestam aos milhares. Nos dias de convocação, são trinta ou cinqüenta mil pessoas na capital e em San Pedro Sula, a cidade industrial.
Os gorilas (e nenhum outro nome lhes cabe tão bem) realizaram um golpe preventivo, seqüestrando o presidente, no dia 28 de junho, justamente para que os trabalhadores e o povo pobre não começassem a tomar gosto pela soberania popular e pelos direitos elementares. Manuel Zelaya tinha aumentado os salários, distribuído terras, rurais e urbanas, entrou na ALBA, e, gota d´água, convocara um referendum com o objetivo de eleger uma assembléia constituinte.
Erraram nos cálculos os golpistas, pois o povo já começara a gostar de transformações, e não saíram mais das ruas. Não deram um único dia de trégua aos usurpadores.
Com o retorno de Zelaya, no dia 21 de setembro, indo pedir proteção justamente na embaixada brasileira, a euforia popular se multiplicou por cem. Esse plano foi inteligentíssimo, pois o Brasil é um país respeitado por lá, e força o governo brasileiro a girar à esquerda na sua política internacional. Se Zelaya fosse para a embaixada da Venezuela, não haveria tanta repercussão internacional, e os gorilas poderiam com mais facilidade invadi-la. Se fosse para a embaixada dos Estados Unidos, ela não seria invadida, mas a saída diplomática seria pela direita. Desde que se espalhou a notícia da presença de presidente legítimo, Honduras deixou de ser um país em “transe” e agora é um país em ebulição. Não tem mais jeito, a menos que liquidem multidões pela força. Os golpistas perderão!
Reprimem violentamente, e isso enfurece mais os manifestantes, radicalizando os ânimos. Decretam toque de recolher, e, pelo tempo de duração, acabam indignando também a parte da população que está indecisa, pois começa a haver uma crise de abastecimento. Suspendem o toque de recolher, e centenas de milhares aparecem em marcha, no centro da capital. Reprimem com mais violência, e instigam revoltas sempre mais fortes. Agora, às 17:00h locais (20:00h de Brasília) lançam o estado de sítio, para reprimir mais…
Não se despreze o fato de que estão matando gente, neste momento. Se o governo golpista reconhece uma morte entre os manifestantes, é porque já devem ser dezenas. Realizam prisões em massa, e precisam usar estádios como prisões, lembrando o Chile de 1973. Como ainda podem falar em democracia?!? Rádios e canais de televisão independentes fora do ar, aeroportos fechados, inclusive para impedir a presença de organismos internacionais. Uma ditadura no sentido mais exato da palavra.
E os filhos de Lempira não param de ir às ruas, e já perderam o medo até mesmo de morrer. “Nos tienen miedo porque no tenemos miedo” cantam diante dos repressores, e é verdade, porque já não temem nada. E os gorilas atacam porque todo gorila tem medo de povo na rua. Senhoras idosas, senhores de cabelo brancos, meninos, muitos jovens, todos vão às ruas. Regressando quinhentos anos na ideologia, a espada e a cruz estão juntas no combate ao povo mestiço do século XXI, assim como estavam juntas no século XVI massacrando e “reduzindo” os descendentes do povo maya. O bispo chefe da igreja católica também é gorila, desde o primeiro dia do golpe, muito embora padres católicos estejam com a resistência, assim como os evangélicos, os umbandistas e os antigos credos indígenas remanescentes.
O povo vencerá em Honduras, e isso é questão apenas de tempo e de forma. Se ainda nesta data as forças de repressão estão massacrando o povo, esse jogo vira, e em pouco tempo os organismos internacionais terão que ir garantir a vida dos gorilas. A menos que algum país abasteça de armas e munições as forças da repressão (e Israel já mandou tecnologia e instrutores de massacre) em algum momento o exército e a polícia terão que recuar, como já esboçam fazer nas escaramuças dos bairros.
A luta do povo hondurenho é nossa luta! Honduras de 2009 não pode ser a Guatemala de 1953, ou seja, o limiar de uma onda de golpes militares por todo o continente. A vitória do povo hondurenho será a nossa vitória, pois avançarão lá em soberania popular, espalhando exemplo, e os gorilas de todo o continente, inclusive os daqui, terão que pensar muito mais antes de cometer desatinos.
O governo brasileiro precisa jogar duro na ONU, e exigir uma decisão de fechamento do cerco sobre os golpistas, forçando-os a fugir enquanto têm tempo, e levando-os aos tribunais internacionais para que paguem por seus crimes. Ou o mundo vai esperar a continuidade do massacre, que pode se intensificar muito quando acabarem as munições não letais e usarem apenas as outras. Já que o povo hondurenho venceu, é preciso que os governos e os organismos multilaterais parem de fazer cena e ocupem espaço para evitar que em poucas horas os golpistas matem milhares de pessoas. Em Honduras reside parte significativa da direita mais reacionária e dos algozes mais sanguinários de todo o continente, e o mundo não pode desprezar esse elemento. Eles podem matar muita gente em poucas horas, num derradeiro suspiro de vilania.
Avante filhos de Lempira, ao pescoço dos gorilas!

Florianópolis, Santa Catarina – Brasil, 23 de setembro de 2009.
Amauri Soares
Deputado Estadual

Bravos jornalistas

Míriam Santini de Abreu

O companheiro jornalista Raul Fitipaldi me ligou cedo nesta segunda-feira, 28. É que nas primeiras horas da manhã a Rádio Globo de Honduras fora invadida pelo exército golpista de Roberto Micheletti, e a emissora estava fora do ar. Uma onda de gelo me percorreu, aguçada pela chuva incessante lá fora, ameaçando mais uma vez deixar Santa Catarina sob a água.
Passei a tarde em busca de informações, temendo o pior, porque os companheiros jornalistas da Rádio Globo de Honduras não são desses de linha de montagem de pseudo-notícias.
Pois às 16h30 em Honduras se soube que eles fugiram dos militares por uma corda desde uma janela. Relata Raul, a partir de informações vindas de lá: “Agora a rádio está transmitindo de forma precária desde a periferia de Tegucigalpa, em lugar oculto. As pessoas a localizam pelos telefones celulares dos jornalistas e pelo chat da rádio. Esses jornalistas heróis agora se dedicam através da rádio clandestinizada a proteger a comunidade das agressões nos morros, nos bairros e colônias. ISSO É JORNALISMO. Honduras está de festa pela coragem do jovem jornalista Rony Martínez Chávez e do licenciado David Romero Ellner. Heróis de Honduras junto aos desaparecidos e mortos, e à última martir hondurenha, a trabalhadora e estudante Wendy Ávila, sepultada hoje em Tegucigalpa e assassinada com gases tóxicos jogados fora e dentro da embaixada do Brasil.”
Na grande mídia do Brasil, que alardeia isenção e imparcialidade, continuam chamando Micheletti de “presidente interino”.
Raul e o jornalista Celso Martins, aqui de Floripa, estão em contato direto com os colegas de Honduras. Cumprimentos cheios de orgulho aos dois e aos jornalistas hondurenhos!

Veja vídeo com depoimentos sobre a situação de Honduras em
http://www.youtube.com/watch?v=6KjVNZ5j1BI

Visite o blog
http://honduraselogoali.blogspot.com

Rádio Globo de Honduras é invadida

Nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira a Rádio Globo de Honduras foi invadida pelo exército golpista, todos os jornalistas foram presos e a rádio fechada.

domingo, 27 de setembro de 2009

Governo golpista decide fechar Rádio Globo e Canal 36

Em Honduras, recrudesce a violência do governo golpista contra os partidários da resistência. No sábado foi assassinado o sobrinho de Alejandro Villatoro, o dono da Rádio Globo, que tem sido incansável na divulgação de todas as manifestações do povo hondurenho. E neste domingo o governo liberou um decreto no qual determina o fechamento da Radio Globo, assim como do Canal 36, veículo que também tem se pautado por um jornalismo independente.
Não bastasse isso o governo golpista decidiu dar um ultimato ao presidente Luiz Inácio para que retire Zelaya e também os brasileiros de dentro da embaixada. Segundo o chanceler golpista, como o Brasil não reconhece o governo de Micheletti, não há porque reconhecer a embaixada como um lugar neutro. “Estamos considerando um escritório privado”, ameaçou. Fonte: Iela

Situação em Honduras

Com várias emissoras de rádio fora do ar, apenas algumas ainda logram transmitir desde Honduras. Aqui se pode ouvir a Radio Uno, de San Pedro Sula, que anuncia o uso de armas químicas diante da Embaixada do Brasil, nesta tarde de 25 de setembro. Ouvir.
http://www.radiouno830.es.tl/

sábado, 26 de setembro de 2009

Sindicato dos Jornalistas organiza ato de solidariedade ao povo de Honduras

A Esquina Democrática, no centro de Florianópolis, transformou- se, por pouco mais de duas horas, em lugar de resistência e de combate pela liberdade. Sexta de luta em mais uma Primavera Quente, nome da série de atividades que o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina realiza em setembro. Entre 11h30 e 14h, o SJSC organizou um ato com abaixo-assinado em solidariedade ao povo hondurenho, que está em luta para restabelecer o governo constitucional de Manuel Zelaya. Foram recolhidas mais de 200 assinaturas, que serão enviadas à Radio Globo de Honduras, à embaixada brasileira em Honduras e ao gabinete do governo golpista.
Quem passou pelo local leu os cartazes que explicavam o que está acontecendo em Honduras e conseguiu sair mais informado, uma vez que os grandes meios de comunicação mais deturpam a notícia do que repassam informes confiáveis. As pessoas que assinaram o manifesto ainda receberam um panfleto com uma breve história sobre Honduras e a luta pela liberdade.
O ato recebeu o apoio de várias entidades do movimento sindical e popular da Capital. Vieram o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a Associação dos Docentes de Ensino Superior de SC, o pessoal do Sindicato do Judiciário Federal, dos Previdenciários, da Associação José Martí, do Portal Desacato, da Revista Pobres e Nojentas, jornalistas e estudantes de jornalismo, além de dirigentes do Sindicato dos Jornalistas. Todos se envolveram na distribuição de folhetos, na coleta de assinaturas e na conversa com a população.
A iniciativa do SJSC se deu diante dos fatos que se agravam em Honduras, com bloqueio de informações, retirada de sinal de rádios combativas, violência policial, assassinatos e desaparições, convoca todos os sindicatos e lutadores sociais para um ato em defesa do povo de Honduras, contra o cerceamento de informações, contra a violência e pelo retorno de Manuel Zelaya ao poder.
O ato mais uma vez teve o apoio estrutural do Sintrajusc, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina, que forneceu o equipamento de som, mesa e cavaletes.
Leia abaixo o texto do abaixo-assinado:
Nosostros, periodistas y moradores de la ciudad de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, firmamos esta petición en solidariedad al pueblo hondureño por su lucha para restablecer el gobierno constitucional de Manuela Zelaya. Repudiamos el golpe de Estado que tiene impuesto la violência, la censura a los medios, que asesina la gente en las calles, que apresa y desaparece militantes sociales. Exijimos que sean garantizados los derechos de la gente a libre manifestação, a la libre expresión, a la libre circulación. Hondura es una amada parte de nuestra Pátria Grande, y la vitória de la gente hondureña es la vitória de Nuestra América. Adelante pueblo. Fuera golpistas! Pátria o Muerte!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Juro que vi e ouvi

Celso Vicenzi

“Meninos, eu vi!” Menos do que o índio timbira no épico I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, mas eu vi. Juro que vi. Vi e ouvi. E não vou esquecer mais esta pérola da mídia televisiva. E não foi em uma emissora de quinta categoria, não. Era a principal do país. Data: 18 de setembro de 2009, pela manhã. A apresentadora entra ao vivo, durante a programação, para anunciar que o vice-presidente da República, José Alencar, fora internado às pressas na noite anterior, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Como se sabe, aos 77 anos, José Alencar trava uma batalha incansável contra um câncer de abdômen há mais de uma década (procurei no Google e alguns jornalistas falam em 12 outros em 15 anos; pelo menos não havia discordância sobre o número de cirurgias: 15 no total). Nessa não menos épica resistência às frequentes internações para tratamento, Alencar tem demonstrado uma obstinação admirável e um bom humor incomum para quem padece dessa enfermidade. Pois bem, na noite de 17 de setembro, o vice-presidente, mais uma vez, sente mal-estar e é prontamente transferido de Brasília para São Paulo. O repórter da Globo, já o aguardava na entrada do hospital e tão logo Alencar desembarcou, partiu em sua direção com a seguinte pergunta: “O senhor está se sentindo bem?”

Sim, juro, foi isso que ele perguntou depois de uma década de luta contra um câncer, 15 cirurgias e sabe-se lá quantas internações. Estou pasmo até agora. O repórter teve tempo suficiente para escolher a pergunta. E eis que ele não titubeia: “O senhor está se sentindo bem?” Alencar foi novamente um gentleman e alinhavou algumas considerações triviais, tentando esboçar otimismo e, claro, desvencilhando-se o mais rápido daquele repórter. Mas poderia ter sido mais irônico: “Estou ótimo! Estava em Brasília até há pouco, sem fazer nada e pensei: por que não fazer uma visita aos médicos do Sírio-Libanês?”

Corta para Santa Catarina. Escolha o menu: pode ser uma daquelas enchentes arrasadoras, soterramento de casas ou vendavais e ciclones que devastam tudo por onde passam. Perda total e mortes. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi repórteres, microfone em punho, invadindo espaços privados – sem pedir licença – e nestes cenários onde o silêncio fala mais alto, encaixarem a pergunta: “A senhora está triste?” Ou então: “Como o senhor está se sentindo?”. Perguntas endereçadas, não raro, a cidadãos e cidadãs que perderam casa, móveis, tudo – e choram a morte de familiares.

Recentemente, uma das perguntas foi: “E a senhora não está triste com tudo isso?” Para sorte do repórter, que merecia ouvir impropérios, sabiamente respondeu: “Não, estou feliz porque estou viva".

Saber perguntar é o que há de mais importante na atividade jornalística. Sem boas perguntas não se extrai boas histórias, não se constroem bons textos, bons títulos. Não se chega à apuração dos fatos, não se compreende o que está acontecendo, não se desmascara o mentiroso e, sobretudo, permite vida fácil a quem se especializou em enganar a opinião pública. Perguntas precisam incomodar os poderosos, encurralar os falsários, revelar aquilo que se esconde e que é de interesse público. Não por um simples exercício de contestação, mas porque a essência dos fatos não costuma vir à tona com facilidade. Há muitas técnicas para se obter boas respostas. Mas todas dependerão de boas perguntas. E se o jornalista não sabe o que busca, dificilmente encontrará. Se só pergunta por perguntar, despretensiosamente, superficialmente, estará a quilômetros de distância da competência que se exige para exercer a função. Porque com ou sem diploma, jornalistas são o oxigênio das sociedades democráticas.

Há diferentes tipos e técnicas de entrevista. O bom entrevistador saberá escolher a abordagem mais adequada para cada tipo de entrevista e de entrevistado. Por isso, é fundamental a preparação, que começa com uma boa formação profissional e leituras, muitas leituras sobre todos os principais campos do conhecimento humano. Não saberá perguntar quem não se interroga sobre o que acontece no mundo. Se não investiga as razões de algo ser como é, ou aparenta ser. Teoria, técnica, intuição, delicadeza, conhecimento do assunto, sensibilidade, argumentação, clareza, improviso, criatividade. Tudo pode ser usado para obter boas respostas.

Jornalista é alguém que precisa fazer perguntas para tentar compreender os fatos, desvendar a realidade, decifrar o ser humano, entender os mecanismos que desencadeiam tragédias que poderiam ter sido evitadas e, principalmente, saber quais interesses estão em disputa e quem são ou serão os beneficiados. Ou não é um jornalista, mas um segurador de microfone. Um anotador de recados.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

P&N 19 já está circulando!

A edição 19 da revista Pobres & Nojentas já está circulando!
Compre a sua na banca na frente da Catedral, em Florianópolis, ou faça de uma vez essa assinatura!

ATO EM DEFESA DE HONDURAS E DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO PAIS IRMÃO


O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, diante dos fatos que se agravam em Honduras, com bloqueio de informações, retirada de sinal de rádios combativas, violência policial, assassinatos e desaparições, convoca todos os sindicatos e lutadores sociais para um ato em defesa do povo de Honduras, contra o cerceamento de informações, contra a violência e pelo retorno de Manuel Zelaya ao poder. Honduras é parte da grande pátria Latino-Americana e a vitória de sua gente é a vitória da gente brasileira. Será nesta sexta-feira, dia 25 de setembro, na Esquina Democrática em Florianópolis, das 11h30min às 14h. Venha participar! O povo de Honduras em luta precisa de cada um!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jornalismo de resistência

Por Elaine Tavares - jornalista

Nada é mais animador do que acompanhar a cobertura jornalística da Rádio Globo de Honduras nestes dias de golpe de estado. Primeiro porque a equipe chefiada por Don David Romero imediatamente tomou posição: contrária ao golpe. Claramente, sem vacilação. E depois, pela postura jornalística que esta mesma equipe tomou ao longo destes meses. Os jornalistas noticiam dia e noite tudo o que acontece no país. As mobilizações populares, as reuniões, os debates. Eles abrem o microfone para todas as vozes, mesmo as golpistas.
A rádio Globo e toda sua equipe está sendo nestes dias um ponto de apoio para toda a população. As pessoas confiam nos repórteres, ligam dos cantos mais remotos do país, passam informações, chamam seus companheiros para mobilizações. Usam a rádio como um espaço democrático e participativo de união e mobilização. E os jornalistas não se furtam a passar sua opinião sobre os atos dos golpistas.
Hoje, dia 22 de setembro, eram cinco horas da manhã quando o exército hondurenho chegou diante da embaixada brasileira e ali estavam os repórteres da Rádio Globo, relatando tudo. E mais, chamando o povo a sair de casa, a vir para a rua e se manifestar em apoio da legalidade constitucional, que é o retorno de Zelaya ao governo. Para quem vive num país onde a maioria dos jornalistas é cortesã do poder, este é um momento de pura emoção. Os jornalistas hondurenhos, pelo menos os da rádio Globo, estão do lado da maioria das gentes. Eles não ficam protegidos pelo exército golpista. Eles ficam no meio do povo, correndo os mesmos riscos.
Naquelas primeiras horas da manhã, as gentes que vivem longe da capital congestionavam as linhas da rádio para passar informação. O país inteiro se expressa pelas ondas livres desta emissora que, apesar de privada e pertencer a um liberal, encontrou no seu corpo jornalístico o esteio onde amparar a realidade vista pelos olhos do povo.
Para nós, que somos informados pelo jornalismo entreguista e amorfo das grandes redes do Brasil, ouvir a Rádio Globo de Honduras é quase como sorver o néctar daquilo que devia ser o jornalismo em todos os lugares. Um fazer absolutamente encarnado na vida real, das maiorias, do povo. Um espaço de expressão de todas as vozes e não só de algumas. A equipe de jornalistas da Rádio Globo me enche de orgulho de ser o que sou: jornalista. Alguém comprometido e parcial. Porque não dá para ser neutro diante de um golpe ou diante da destruição da vida das gentes. Que vivam os jornalistas de Honduras, uma categoria que tem o amor e a confiança do povo. Coisa rara e por isso digna de nota.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Paraguai inventado

Elaine Tavares
O professor Mauro César Silveira, do Curso de Jornalismo da UFSC, foi o conferencista na primeira atividade do Núcleo de Estudos da História da América Latina, coordenado por Waldir Rampinelli. Ele trouxe as informações sobre o estudo que fez das charges publicadas em jornais brasileiros durante o episódio da Guerra contra o Paraguai, de 1864 a 1870. Este trabalho acabou virando livro, esgotou, e agora deve ser reeditado pela editora da UFSC em 2010.
Mauro tem formação em jornalismo, mas fez mestrado e doutorado em História, porque entende que o jornalismo só pode expressar seu compromisso social se tiver perspectiva histórica. E a opção pela busca do desvelamento da idéia-imagem do Paraguai durante o período da guerra contra aquele país surgiu justamente para observar como o jornalismo considerado mais crítico da época desenhou o conflito. “Eu sempre acreditei que o jornalismo tem como papel central quebrar estereótipos, eliminar os preconceitos e esperava encontrar isso nas charges, porque sempre foi do humor, da caricatura, essa coisa de questionar o poder”.
Mas, ao pesquisar nas folhas satíricas mais importantes da corte Mauro ficou surpreso ao perceber que todas elas, mesmo as mais críticas, tinham a mesma idéia preconceituosa do Paraguai. E mais, ao logo da pesquisa, ele constatou que a maior tragédia do continente latino-americano, que massacrou um povo inteiro, tinha sido apresentada como a saga de um “sanguinário e cruel” dirigente: Francisco Solano Lopes. Isso sem contar no desrespeitoso e preconceituoso tratamento dado ao fato de que a maioria dos paraguaios era indígena.
Mauro levantou 591 imagens que se referiam ao Paraguai, 202 delas especificamente relacionadas com a questão do conflito. E, em todas estas, a referência a Solano Lopes era a de um inimigo sádico e sanguinário. “Solano aparecia sempre associado ao demônio ou a uma ave de rapina, e os desenhos ainda apresentavam o castigo que ele devia merecer: a morte. Ou seja, o jornalismo estava totalmente submetido à visão oficial de que a guerra era uma cruzada civilizatória para libertar os paraguaios de um louco”. O professor destaca a importância deste tipo de trabalho para compreender como o jornalismo ainda hoje faz esse jogo de servidão ao poder instituído. Lembrou da invasão do Iraque, evento tão contemporâneo, que foi referendado pela mídia com a mesma lógica de mentiras.
O fato é que esta imagem construída durante a guerra contra o Paraguai - que é conhecida como um tremendo genocídio uma vez que dos um milhão e trezentos mil habitantes do Paraguai, restaram pouco mais de 200 mil no final do conflito – até hoje povoa o imaginário social, fazendo do país de Solano Lopes sempre um “lugar ruim”. Mauro lembra que até no esporte, um espaço do jornalismo que aparece como neutro politicamente, esta imagem do Paraguai é bastante reforçada. “Agora pouco se falava que os times pequenos que disputam o campeonato brasileiro são como cavalos paraguaios, ou seja, pensam grande e morrem no meio do caminho. Isso é uma alusão à Solano Lopes que, segundo a mídia da época, foi quem declarou guerra ao Brasil, sem se dar conta que lutava contra um gigante e por isso foi derrotado. Ora, nada mais mentiroso. A guerra começou porque o Brasil invadiu o Uruguai e servia aos interesses dos latifundiários gaúchos e do império inglês. Solano Lopes apenas se defendeu.
Mauro também mostrou uma reportagem bem atual da revista Veja em que ela mostra os dez países que mais fazem falsificações. Nesta lista não estava o Paraguai, mas o título da matéria era: Made in Paraguai. Isso só reafirma a idéia-imagem de um lugar onde reina a pobreza, a feiúra, a corrupção e a falsificação. Tudo herança daqueles dias da guerra. “Até o Almanaque Abril, na sua edição deste ano, divulga informações incorretas sobre o conflito. Diz que Solano declarou guerra contra o Brasil porque queria chegar ao mar. Não fala da invasão do Uruguai, não fala que o Brasil nem exército tinha, montou um com escravos e pobres. Ou seja, a guerra contra o Paraguai segue criando preconceitos e mentiras”.
O trabalho de Mauro Silveira é uma instigante reflexão sobre o caráter cortesão do jornalismo atual que, tal qual nos dias da guerra contra o Paraguai, nada mais é do que um modelo de propaganda como bem já apontou o teórico estadunidense Noam Chomski. Basta que se observe como trata a Venezuela, Hugo Chávez ou o aymara Evo Morales. Exceções há que só confirmam a regra.

Editora Expressão Popular celebra 10 anos com lançamento de livros na UFSC

A Editora Expressão Popular está celebrando 10 anos. Uma proposta dos Movimentos Sociais, que sentiram a necessidade de formação política para a Classe Trabalhadora, que é o motor transformador, para construir uma sociedade com justiça social.
Propõe dar condição de acessar livros de Pensadores Clássicos e Modernos de alto gabarito, que trabalham temas políticos para a libertação do pensamento coletivo, livros estes que são impossíveis de serem acessados em outras editoras que os comercializam simplesmente como mercadorias e de alto custo.
A Editora Expressão Popular entende que o acesso ao saber é um direito de todos, e não só dos economicamente privilegiados.
O Ato contará com o Lançamento de quatro Livros de Leandro Konder: A derrota da dialética; Introdução ao fascismo; Marxismo e alienação; O marxismo na batalha das idéias e será apresentado um vídeo do autor que contextualizará um pouco os temas. Teremos a presença de um representante da Expressão Popular que fará uma análise sobre a Editora e a conjuntura política atual.
E é com muita alegria que convidamos você para participar dessa comemoração, aqui em Florianópolis no dia 28 de setembro de 2009 no Auditório do CED - UFSC às 18:00 horas. Ao final, um pequeno coquetel com produtos da Reforma Agrária, e o “coquetel dos livros”. Estaremos também no dia 29/09 em Criciúma – UNESC; 30/09 em Blumenau – FURB; 01/10 em Lages e 08/10 em Chapecó.
Convidamos você que compartilhar desta convicção ideológica.
Ajude-nos a divulgar esta mensagem, repassando para seus amigos.
PÁTRIA LIVRE Editora Expressão Popular Brigada Mitico – MST DCE da UFSC

Convite a quem ama a Primavera e os livros


domingo, 20 de setembro de 2009

Pobres & Nojentas 19 chega com a Primavera

A revista Pobres & Nojentas n. 19 chega nesta semana, junto com a Primavera! Nela há reportagens sobre a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos trabalhadores da Previdência Social, e também um perfil do maestro Newton Kramer dos Santos, que semeia música num rancho de canoa na praia do Campeche, em Florianópolis, além dos artigos e colunas que já são a marca da P&N. Há ainda um ensaio de imagens que são puro fogo. Registre-se que parcela significativa das fotografias desta edição, inclusive o ensaio de imagens, contou com o trabalho dos repórteres fotográficos Claudio Silva e Luís Prates, dois profissionais de "mão mandona" que sabem domar as manhas da luz.
A gente avisa quando a nossa filhota chegar!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Reforma agrária em Santa Catarina

Em Taió, no Alto Vale do Itajaí (SC), o MST planta mais uma semente da reforma agrária. Veja o vídeo na conta de P&N no You Tube:
http://www.youtube.com/PobresyNojentas?gl=BR&hl=pt

O medo

Elaine Tavares
É uma coisa assim, que chega no meio da madrugada, ou numa tarde de sol. A gente nunca sabe direito explicar. Vem e se instala. Paralisa, encaixota, prende. Alguns se deixam vencer, incapazes de sair da armadilha criada sabe-se lá como. Outros, debatem-se, agitam-se, e escapam. Não é coisa fácil porque, afinal, em cada esquina da vida ali está, a espreitar.
É a primeira espinha que deixa a carta torta, é o primeiro beijo que não se deu, é a nova escola, a cidade outra que não a mesma, outros amigos jamais feitos. É a timidez, é a insegurança, é o terror de abandonar as seguras margens onde sempre se esteve. O temor de dar o passo necessário, a ansiedade por não saber o que fazer.
O medo é essa coisa doida que desaloja, que desconforta, que dói. O medo é prisão da qual a alma se sente incapaz de sair. O medo vai sugando a alegria, o prazer, o sonho, a vida. O medo estanca todas as possibilidades. Ele é como um dragão, maior do que nós mesmos. Mas não é invencível. É só um balão inflado pelas nossas fantasias. Fruto da nossa incerteza. Tem remédio.
Dia desses, num encontro mágico, uma mulher quéchua me ensinou um encanto. Disse que quando ele viesse, voejando sobre mim, era para eu respeitar, porque o medo é só a outra face da coragem... “Há que rezar ao grande deus, Inti, e pedir que ele mande esta outra face. Depois, há que soprar, que o medo se transmuda em bravura. Mas tem que acreditar”. Desde então é assim! Quando o medo chega, eu sopro... E tudo fica como tem de ser.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Não à fosfateira!

Prezados Cidadãos Catarineses,
O Comitê das Nascentes, uma organização ambientalista criada na região de Rancho Queimado, está organizando um movimento de protesto contra a implantação da IFC (Indústria de Fosfatos Catarinense), a qual pretende se instalar no município de Anitápolis, gerando diversos impactos negativos, sociais, ecológicos e econômicos a toda região (especialmente ao turismo e a agricultura familiar). Tendo em vista o desejo da maioria da população dos municípios no entorno de Anitápolis pela NÃO implantação da IFC, no dia 20 de setembro, às 11 horas da manhã, convidamos você para estar presente no movimento "GRITO DE FORA FOSFATEIRA". O evento acontecerá no Trevo da BR 282, entrada de Anitápolis, conforme informado no convite.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Aos jornalistas

Míriam Santini de Abreu
Palavras podem encantar e brutalizar. Podem tornar banal o sentimento mais arrebatador; podem cobrir de enlevo o fato mais casual. Li “Passeio ao farol”, de Virginia Woolf, e me lembro ainda agora daquela escrita correndo como fogo líquido nas minhas veias. As mil e tantas páginas de “José e seus irmãos”, de Thomas Mann, atravessei sedenta, devoradora. Eu sorria ao observar o livro fechado e pensar nos capítulos finais, aos quais eu não me rendia, antevendo o prazer dolorido do parágrafo final, da frase derradeira. História tão antiga, bíblica, sabida, mas contada por Mann como se, naquela narrativa, se escondesse o mais indevassado dos mistérios humanos. E por ter estendido as mãos a Mann, a quantas outras leituras ele me levou!

E os jornalistas, ah, o que são esses jornalistas que sabem deixar a letra rolar, enroscar-se com outra, deslizar o sentido, confundir... como disse mesmo Elaine Tavares... desalojar! Ai, um jornalismo que desaloja... que faz um ponderado sentir-se sem chão, um insolente tremer, um sábio perder a compreensão.

Oriana Fallaci, que neste dia 15 faz três anos que partiu, também me desalojava. Era à procura dela que eu me estendia sobre as mesas da hemeroteca da Unisinos, em São Leopoldo, deslizando os dedos sobre os velhos exemplares da revista Realidade, que publicava textos da atrevida italiana. Na época da faculdade não havia a “Estante Virtual”, e andei meses atrás de um livro dela, “Um homem”. Encontrei-o sem querer numa banca na Feira do Livro em Porto Alegre. Puro Serendipity. Como jornalista e escritora, Fallaci é deleite de fera.

Marcos Faerman também me desaloja. Revivem indefinidamente as pessoas que ele entrevistou para reportagens que não canso de ler. Os trindadeiros de Paraty que perderam as terras. Os homens e as águas envenenadas de Alagados. Kosak, o europeu enfeitiçado pelas sombras mortas dos índios xetás.

Eni Orlandi, em seus livros, costuma dizer que somos condenados, desde que nascemos, a interpretar. Precisamos dar um sentido ao mundo, dar um sentido às coisas que acontecem nele.

Assim, pode-se dizer que o jornalista é uma espécie de interpretador profissional, porque seu trabalho é produzir discursos sobre o mundo e fazê-los circular em diferentes meios.

Todos os dias, lemos textos e ouvimos jornalistas que nos trazem notícias de fatos próximos e distantes, e essas notícias são interpretações. Por isso é impossível falar em jornalismo isento.

Ficar isento é renunciar à interpretação. Isso é uma impossibilidade para o ser humano, porque parar de interpretar significa deixar de perceber o mundo, significa morrer.

Quando falamos de um jornalismo feito a partir do Brasil, da América Latina, renunciar à interpretação, ser isento, significa não só a morte individual, mas também a morte coletiva. E por quê?

Porque há, disponíveis, milhões de discursos sobre o mundo, mas poucos são capazes de ajudar a maioria das pessoas a compreendê-lo. E como mudar algo se não o compreendermos?

A questão é que abandonar a idéia da isenção também nos faz sair de uma certa zona de conforto, porque somos obrigados, diante dos fatos, diante da realidade, a fazer escolhas, como seres humanos e como jornalistas. “Ouça sempre o outro lado”, nos dizem. Mas há vários outros lados, há múltiplas versões. Qual levar em conta? A partir da qual, das quais, interpretar?

Essa pergunta transpira em cada pauta, em cada reportagem. E a resposta define o caminho jornalístico de cada um, e por isso a importância da leitura, da análise, da observação das coisas e das pessoas.

Nada disso impede as dúvidas, as inquietações terríveis, a sensação de desamparo. Também, para esses momentos, é preciso buscar respostas.

A minha é a certeza de saber que escolhemos uma profissão privilegiada. Todos os dias, saímos de casa para interpretar o mundo, por força de ser humano e de ser jornalista. E todos os dias eu saio de casa sabendo disso, mas sabendo de um pouco mais:

Como dizia Paulo Freire, tudo na História é possibilidade, nada está determinado. Então, ser jornalista é sair de casa sabendo que o nosso trabalho tem um propósito: é mostrar essas possibilidades que nascem, que se constroem dia a dia em todos os lugares nesse tempo que nos é dado viver.

E do que nos serviria falar sobre essas possibilidades de construção da História? Bem, mais uma vez só posso dar a minha resposta, e para ela uso uma frase de Dom Hélder Câmara, que costumava dizer: “Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e com a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça. Esta é a tarefa de todos nós”.

Um teto todo seu










Míriam Santini de Abreu
Gosto quando estou no blog da Pobres e verifico que, comigo, estão visitantes na página, o que é revelado pelo contador de acessos. Gosto mais ainda quando isso acontece na madrugada. Ah, que sensação de cumplicidade! Sim, a técnica domina também o espírito do homem... Aí penso nos e nas jornalistas dos meus quereres, com suas mandonas mãos deslizando no teclado, exigindo que ali se materialize o pensamento. Com esses companheiros compartilho o gosto pelo que Virginia Woolf chamou de “um teto todo seu” – os seus ensaios sobre mulheres e literatura. Um lugar com os livros, revistas, amontoados de papéis, bugigangas, e – onde antes estava a máquina de escrever – o computador.
Dia desses liguei para a Elaine Tavares e disse o Pedro:
- Hi, está lá em cima martelando aquele computador!
No alto da escada da casa dela no Campeche, a imagem de um Che arrebatador.
O Karl, em São Francisco do Sul tem um quarto cheio de pós mágicos. Com eles viaja até os atóis de Bizâncio.
Eu, em algum lugar da alma bagunçada, tenho 15 anos, e cultivo indolência para arrumações.

Ah, sob o lugar onde a gente escreve há uma raiz gigantesca que atravessa a crosta terrestre, os oceanos, as florestas, até se enlaçar com uma antiga árvore em Wadi Feran, no deserto de Sinai...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Insensatez


Míriam Santini de Abreu

Já passa da meia-noite, é 15 de setembro! Eu deveria, queria, ser um pássaro neste dia, que espero de sol, porque - disse Karl - o Deus precisa de nosso pobre coração para existir.