segunda-feira, 13 de abril de 2009

A Serra em mim III – Lugar de rugosidades

Casarões: patrimônío do século 19


90 edificações são tombadas pelo Condephaat

Igreja Matriz dedicada a São Luiz de Tolosa



Ruas com pedras pé-de-moleque



Mercado Municipal de São Luiz

"Rugosidades" cheias de colorido



Vista geral

Chafariz com monumento em homenagem ao Teatro

Igreja Nossa Senhora do Rosário
Míriam Santini de Abreu

São Luiz do Paraitinga tem 90 edificações do século 19 tombadas pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado de São Paulo). São as “rugosidades” do ciclo do café, lá no século 19. Rugosidade, explica o geógrafo Milton Santos em um dos seus livros, é o que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem. É o que resta do processo de eliminar, acumular, sobrepor, “com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares”.
É assim com a Igreja Matriz dedicada a São Luiz de Tolosa e a Igreja Nossa Senhora do Rosário, construídas no século 19. A segunda foi feita em taipa sobre alicerce de pedras da região. Na lateral direita a Igreja é cercada por um muro de pedras construído por escravos. Hoje compõem o Largo do Rosário uma Praça e um Chafariz, com monumento em homenagem ao Teatro, daí o nome Largo do Teatro. Duas ruas ainda mantêm as pedras em pé-de-moleque, também construídas por escravos.
Eu dei tantas voltas naquelas ruas estreitas que, no final do segundo dia, as pessoas já me cumprimentavam. Despedimo-nos, eu e Rogério, de um casal de São Paulo, com quem entabulei conversa na frente de uma lanchonete. Meia hora depois, cruzamos novamente com eles na outra ponta do centro de São Luiz. Já éramos dali.

A Serra em mim II - Bolicho de São Luiz

São Luiz: vista geral

Casarão-bolicho no centro da cidade


Míriam Santini de Abreu

O Casarão das Frutas, em São Luiz do Paraitinga, região do Alto Paraíba, alto da Serra do Mar, em São Paulo, lembra um bolicho, aquelas pequenas casas de comércio onde há de tudo à venda. Lugar para conversar, encontrar vizinho, marcar reunião, comprar presente de última hora. São Luiz do Paraitinga, com 11 mil habitantes, é a terra onde foi criada a Sociedade dos Observadores de Saci, a Sosaci, que também nasceu em conversa de boteco. Episódio contado pelo jornalista Robson Moreira no livro Palavras, escrito com o também jornalista Jô Amado:

A filosofia da boa reunião

A reunião do CA (Conselhos de Anciãos) instância fundadora da Sociedade dos Observadores do Saci – Sosaci, começou por volta das sete da noite e entrou pela madrugada. Num boteco, claro. Dia seguinte, na primeira hora, uma mensagem do Saci Jô:
- Sacizada! Que tal uma outra reunião pra gente se lembrar do que foi discutido ontem?

domingo, 12 de abril de 2009

A Serra em mim I



Míriam Santini de Abreu

O sertão paulista sempre foi lugar dos meus mais secretos desejos. Onde a Serra do Mar se joga no atlântico. Estar lá me fez lembrar de um diálogo da minisséria A Muralha, baseada no romance homônimo de Dinah Silveira de Queiróz:

- Como esperei vosmecê... Dias e noites a imaginar como seria a minha prometida. E ela veio-me como eu esperava. Como sonhava.

O sertão paulista era o meu prometido.

Naquele fevereiro, eu era um fantasma de mim sobre o cavalo, cavalo e cavaleira vindos de terras rasgadas por um antigo caminho de pedras.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Céu de outono

Sexta de lua cheia, Floripa sob um impecável céu de outono, e no domingo Maria e Maria Madalena não mais encontrarão O Ressuscitado para ungi-lo de aromas...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Delicadezas...



Míriam Santini de Abreu
Eu mal consigo pregar um botão. Meus dedos não tem delicadeza nem perspicácia. Tentei aprender a fazer crochê, mas desisti nos primeiros cinco minutos. Minha mãe, sim, é uma mestra nessas artes das linhas, dos plantios e podas, do transformar frutos em geléias. Os quadros na sala do apartamento onde vivo são criações dela. A mocinha com o guarda-chuva, com a qual eu às vezes converso, parece uma personagem de Jane Austen. Delicadezas...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Porque é preciso romper as cercas: do MST ao jornalismo de libertação


Será no dia 16 de abril, no Auditório do Centro Sócio-Econômico da UFSC, às 19h, o lançamento do livro da jornalista Elaine Tavares: “Porque é preciso romper as cercas: do MST ao Jornalismo de Libertação”.

Neste trabalho, Elaine narra uma histórica ocupação do MST, a da Fazenda Anonni, no interior do Rio Grande do Sul, ocorrida em 1985/86. E, nesse contar das lutas das gentes, ela desvela a sua própria trajetória na busca de um jornalismo que se compromete e toma posição, sem perder o foco na realidade objetiva.
São os primeiros passos da discussão do que mais tarde Elaine veio a cunhar como Jornalismo Libertador, conceito no qual se ampara o jornalismo que não é servil, nem porta-voz dos poderosos, mas que narra a vida desde o olhar da comunidade das vítimas, como ensina o filósofo da libertação, Enrique Dussel.
Hoje, falar deste acampamento que existiu no interior de Sarandi, com mais de seis mil pessoas acampadas, é recuperar o caminho histórico do MST, atualmente acossado por agressões de toda sorte, como a que obriga o fechamento de suas escolas no Rio Grande do Sul. Então, o lançamento do livro acaba sendo também um momento de justo apoio a este movimento que tem sido um sendero de luta e transformação.
Assim, o encontro terá poemas, música, a fala do MST, produtos da reforma agrária para serem degustados (vinho, queijo e salame) e o livro da Elaine. Uma noite para homenagear o MST e conhecer suas origens.

Sobre a autora: Elaine Tavares, jornalista e pesquisadora no IELA/UFSC, é gaúcha nascida em Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Viveu sua infância em São Borja, na barranca do rio Uruguai e, depois, foi virar mulher às margens do "Velho Chico", em Pirapora, Minas Gerais. Das heranças ribeirinhas que amealhou, estão a paixão pela vida dos que andam nas estradas secundárias e o amor pela narração das histórias. Contar das gentes tem sido sua sina. Vivendo em Florianópolis desde 1987, também aprendeu com o mar que, às vezes, é preciso se jogar barulhento nos penhascos para capturar a beleza de se ser quem se é.

Dia 16. 19h . Auditório do CSE/UFSC


terça-feira, 7 de abril de 2009

Seriam estas as fases sucessivas da imagem

Uma aula de Jean Baudrillard
sobre um haicai
de Fernando José Karl


www.nautikkon.blogspot.com

domingo, 5 de abril de 2009

Um lugar no mundo

Alto de Serra, entre dois rios, local de pouso de tropas, calendário oficial com festa pagã e religiosa, céu imerso na frente fria tão belo quanto céu azul, corda de vagalumes na noite de lua cheia pálida. Um lugar no mundo e na alma. Onde? Leia na próxima Pobres!

sábado, 4 de abril de 2009

Minha folhagem se libertou de mim

Míriam Santini de Abreu
Não tenho jeito com plantas. O meu é o anti-polegar verde. Uma vez ganhei um bonsai que me pareceu demasiado alto. Inventei de podá-lo. Em uma semana estava morto. Minha investida na arte das hortas caseiras teve mais sucesso. Até cortei garrafas PET para fazer os canteiros. Vingaram as salsas e o manjericão, mas eu cozinho pouco; nascia tempero demais para minha modesta ambição culinária.
Há dois anos ganhei a folhagem que está na foto (a alcachofra foi alvo de outro post). Até que cuidei da pobrezinha, mas, lá no fundo, desejava que ela evoluísse e fosse até a pia beber água. As raízes já estavam grandes demais para o vaso, emaranhadas, loucas por liberdade.
Na semana passada parecia que o meu desejo de ver o vegetal evoluir seria atendido. Dizia a notícia: "Aparelho ajuda plantas a pedir água pelo Twitter". Mas o negócio é complicado. É que pesquisadores do programa de telecomunicações interativas da Universidade de Nova York desenvolveram um aparelho que permite que as plantas informem seus donos pelo Twitter quando precisam de água, ou se estão sendo irrigadas demais. Um aparelho chamado Botanicalls, composto por sensores de umidade de terra que ficam conectados a uma placa de circuito, mede o nível de umidade e transmite a informação a um microcontrolador. "O aparelho determina que níveis de umidade são baixos demais ou altos demais e transmite um sinal ao serviço de microblogs Twitter", dizia o texto.
Até agora, os pesquisadores venderam quase 100 kits Botanicalls, ao preço de 99 dólares: "... o comprador precisa montar o kit com componentes básicos, o que, segundo Faludi, pode ser um desafio, mas compensa no final".
Kit? Montagem? Ai, ai, ai... Tomei uma decisão. Dei a folhagem para uma vizinha que cuida do jardim do condomínio onde moro e adora plantas. A minha ganhou a liberdade num canteiro pleno de espaço e de terra, e se livrou de mim.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Os sinos dobram por ti

15 horas agora, os sinos da restaurada Catedral
Metropolitana de Florianópolis tocam faceiros.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

STF retira da pauta recurso contra o diploma


O recurso contra o diploma para exercício da profissão de jornalista foi retirado da pauta de votações do STF nesta quarta-feira, dia 01. Não foi divulgada nova data para julgamento. Dirigentes do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, profissionais e estudantes de jornalismo da UFSC estiveram na vigília realizada na frente do prédio da Justiça Federal em Florianópolis. A Executiva da FENAJ e a Coordenação da Campanha vão definir novas ações, mas desde já a orientação é para que se mantenha a movimentação nos estados e os preparativos para o Dia do Jornalista, 7 de abril.

Pela ordem, senhores!




Fotos: Míriam Santini de Abreu

Por Elaine Tavares – jornalista

A Assembléia Legislativa de Santa Catarina votou e aprovou por amplíssima maioria o novo Código Estadual do Meio Ambiente. Não valeram os estudos, as contradições, a polêmica, nem mesmo a sombra da tragédia ambiental que se abateu sobre a região do Vale do Itajaí, que praticamente derreteu a cidade de Blumenau. Dos 41 deputados, 38 votaram sim, sete se abstiveram e dois estavam ausentes. Nas galerias lotadas de pequenos agricultores vindos de todos os cantos do estado, não havia espaço para a dúvida: o código era a salvação da lavoura.

Usando o artifício da manipulação, os deputados transformaram toda discussão da lei num único ponto: o espaço nas margens do rio. Durante os discursos, foi o que predominou. Os ambientalistas, acossados em um pequeno espaço do plenário, eram vistos como inimigos. Ao final, o que parece ter ficado realmente claro é que os organismos de luta ambiental não conseguiram levar o debate aos agricultores, o que favoreceu aos governistas, que deram coloração ideológica ao tema. Tampouco os demais movimentos organizados, como os sindicatos mais combativos, se envolveram na luta. O resultado foi, em nome do “desenvolvimento”, a abertura de uma porta para a destruição ambiental do estado que já acumula a estatística de ser o que mais degrada a mata atlântica.

O cenário da trama
Plenário lotado, saguão da assembléia também. Como o espaço ficou pequeno, mais um telão foi montado na rua, sob uma imensa e cara estrutura de lona. Os discursos se sucediam em clima de guerra. As falas iam direto ao coração dos pequenos produtores, que passaram a figurar como os “grandes prejudicados”, caso o código não passasse. Assim, a lógica era essa: quem se manifestasse contra o código era automaticamente contra a pequena produção. Não havia meio termo.

Entre os milhares de pequenos produtores que se postavam em frente aos telões o clima era de confronto com qualquer um que parecesse ligado à luta ambiental. “A senhora é ambientalista?” Diante da negativa, as falas transbordaram em justificativas. E, no fundo, eles certamente têm razões para buscar a aprovação do código, embora não conheçam dele as “letras pequenas”. No geral, querem apenas defender o direito de plantar mais perto do rio e cortar as árvores que hoje estão proibidas de corte como a araucária e o angico.

Vindo da cidade de Bocaiúva, Ivone Rodrigues da Silva, mais conhecido como “Calça-Larga”, não hesita em defender o código. Com ele vieram mais dezenas de agricultores lotando quatro ônibus. “A senhora veja que um pequeno produtor tem pouca terra. Se tiver de deixar 30 metros do rio, o que nos sobra? Nós vamos ficar sem espaço para plantar. E somos nós os que plantamos a comida de toda a gente. Como vamos produzir arroz, feijão?”

Fernando Carlos Mezzaroba veio de Videira, também num grupo de vários ônibus. A preocupação dele é com a madeira. “E as árvores? Eu tenho 400 pinheiros lá na minha terra e não posso fazer nada com eles. Então, o que a gente faz? A gente corta quando elas brotam, porque se vingar, não dá mais pra tirar. Isso é o que acaba com o pinheiro, porque ninguém mais quer plantar”.

Rubens Hoffmann, de Mirim Doce, também justificava o apoio na necessidade de usar o espaço perto do rio. “A gente planta, mas a gente conserva. A gente faz o manejo de forma correta. Nós fazemos isso a vida inteira. Agora tá esse problema todo porque não se pode mais cortar árvore. Nós sabemos como fazer. Ninguém aqui é contra preservar a natureza, mas nós precisamos sobreviver”.

Calça-Larga insistia em dizer que sem essa liberação das margens do rio os pequenos vão migrar para a cidade e causar mais problema social. “No campo a gente vive melhor, na cidade o caminho é o da marginalidade. Mas se não tivermos terra, como vamos fazer? Esses ambientalistas que são contra o código não conhecem o campo, não tem um palmo de terra. A gente sabe como usar e cuidar”.

Sem orientação
Os agricultores centram suas críticas nos órgãos de fiscalização. Segundo eles, a polícia ambiental tem mais poderes que a polícia normal. “Eles entram e prendem se a gente arrancar uma árvore. Nós não somos ladrões, isso não tem cabimento. A gente só quer plantar. Não tem ninguém para nos orientar, só sabem fazer autuação”.

Esse desabafo dos camponeses tem sua dose de sentido. Orientação é o que parece não haver, seja do ponto de vista do estado, seja do ponto de vista dos movimentos ambientalistas. O discurso contrário ao código não conseguiu se espalhar entre os agricultores, ficou confinado a debates acadêmicos. O governo, espertamente, bateu em dois pontos muito específicos e, com o apoio das entidades de classe, conseguiu a adesão de toda a gente. Poucos dos que faziam vigília em frente à Assembléia sabiam que os maiores beneficiados com o novo código são as gigantes empresas de aves e suínos. Estas sim é que encherão seus baús destruindo os rios e as florestas. Para se ter uma idéia, conforme dados do Levantamento Agropecuário Catarinense, dos aproximadamente seis milhões de hectares que servem à produção agrícola de Santa Catarina, 32,52% pertencem a apenas 1,9% dos proprietários rurais, detentores de grandes latifúndios. E aos pequenos, grande parte no sistema de integração do agronegócio, coube vir fazer a pressão.

Outra coisa que produtores reunidos na Praça Tancredo Neves não sabiam é que, se a preocupação pela aprovação era o uso das margens dos rios, então não precisava tanta mobilização, uma vez que o pequeno agricultor familiar, em função da reconhecida função social da sua atividade, já tem autorização legal, pelo próprio Código Florestal (lei 4.771/65) - que a lei estadual em questão pretende revogar - para utilizar as áreas de preservação permanente, desde que o faça mediante um sistema de manejo agroflorestal sustentável. Muitos deles ao receberem essa informação ficavam em silêncio, não acreditando.

O que predominou foi a ideologia do progresso. Nas faixas colocadas por todo o plenário e no lado de fora, esse era o recado. O campo quer embarcar no trem do progresso, mesmo que para isso a natureza tenha de ser sacrificada. O já antigo discurso de domínio do homem sobre a natureza segue pontificando, a despeito de todos os sinais que o planeta tem dado de que, se não há cuidado com a natureza, é o homem quem sofre. Nesse caso, ainda foi usado o desconhecimento dos camponeses sobre o Código Florestal, levando-os a sair de suas casas para defender um direito que eles já tem. Na verdade, o que vieram fazer na capital, depois de horas de viagem, foi garantir vantagens aos grandes, aos que já absorvem toda a sorte de privilégios e que estavam tolhidos pelo Código Florestal. Estes, pelo seu lado, não se fizeram visíveis na Assembléia.

Para um pequeno agricultor que levanta de madrugada e com sacrifício consegue plantar apesar de todas as condições contrárias, fica bem difícil aceitar o argumento de que eles não preservam a natureza. E, de certa forma, isso não é verdade. No geral, os pequenos produtores sabem muito bem como fazer o manejo dos recursos naturais. O que talvez não tenham ainda se dado conta é que, em Santa Catarina, muito da agricultura de subsistência foi desbancada pelo sistema integrado, no qual o pequeno segue sendo o dono de sua terrinha, mas está de forma irremediável dependente da grande empresa. É ela, em última instância, que dá as cartas e define as pautas.

Mas, sobre isso, os seus organismos de classe não fazem debate, a mídia aponta os ambientalistas como eco-chatos, terroristas, hippies e outros tantos adjetivos que induzem ao desmerecimento das causas, e o governo busca usar as dificuldades dos pequenos para favorecer, na verdade, aos grandes empresários do agronegócio. São apenas negócios. A natureza é só cenário para o chamado “desenvolvimento”. Para que venha a riqueza da “modernidade” é preciso destruir as margens dos rios, ocupar os topos de morro, garantir o corte indiscriminado das árvores e outras tantas aberrações. Os pequenos são engolidos por esse discurso e os grandes seguem desfrutando dos benefícios das leis especialmente preparadas para eles.

O fim da espécie
A aprovação do Código Estadual de Meio Ambiente deixa muito visível o significado do chamado sistema democrático-capitalista. Este é, na verdade, um sistema sem lei. Nele, as leis mudam sempre que for necessário atender aos interesses do grande capital. E, de forma extremamente competente, o sistema consegue enredar nas suas tramas aqueles que deveriam ser os seus maiores opositores. É a velha alienação já apontada por Marx.

De qualquer forma, a luta contra o código catarinense não termina aqui. Há muitas disputas a se fazer no campo jurídico e há tempo para se fazer a orientação necessária tanto entre os agricultores como na comunidade urbana. Vai depender da vontade política dos movimentos sociais, dos sindicatos, em assumir isso como uma luta conjunta em defesa da vida.

Os efeitos da destruição causados pelo modelo de desenvolvimento capitalista estão aí e se manifestam cotidianamente nas secas, nas enxurradas, nos dias de extremo calor, de extremo frio, no efeito estufa, nos tsunamis, nos ciclones, nos furacões, no derretimento das geleiras. Todas estas coisas acabam afetando a vida dos humanos em geral, como espécie. Segundo o cientista inglês James Lovelock, a terra é um sistema vivo que se auto-regula. Se o homem busca destruí-la com seu desejo de domínio, vai se dar mal. A terra tem condições de suportar os processos de degradação, ela realiza transições, vai se acomodando. Lovelock deixa claro que a destruição provocada pelo humano pode levar ao desaparecimento da espécie, não da terra. Esta se recupera.

O código ambiental de Santa Catarina legaliza o crime contra a natureza. Ela vai balançar, mas deve resistir. Já o homem... Talvez seja hora de se discutir de forma mais sistemática e responsável o modelo de desenvolvimento que nos é apresentado como panacéia de progresso e modernidade. Sem mudar o nosso modo de organizar a vida, fatalmente pereceremos como espécie.

Já o teatro do poder, protagonizado pelos deputados catarinenses, este deve ser visto como o que realmente é: um espaço de porta-vozes a soldo do grande capital. Não é à toa que seu bordão mais usado é o indefectível: “pela ordem, senhores”. Pois é, pela ordem!

Aos movimentos cabe desordenar, desvelar, subverter.

terça-feira, 31 de março de 2009

BOLETIM ELETRÔNICO DA POBRES


A P&N começará a enviar um BOLETIM ELETRÔNICO para interessados que cadastrarem e-mail. Cadastre-se em revistapobresenojentas@gmail.com

Mudanças à vista


Míriam Santini de Abreu

Do meu apartamento dá para ver o quadrante sul de um cemitério, uma pracinha arenosa, casas e, algo de que gosto muito, um filete distante de montanhas azuis. Na semana passada cortaram tudo o que havia de verde ao lado da praça; agora descubro que ali irá ser construído um prédio. Os tapumes já foram fincados na terra seca. Mais uns meses e minha vizinhança irá virar concreto.

Assembléia aprova Código Ambiental

A Assembleia Legislativa aprovou no dia 31 o Projeto de Lei nº 238/2008, que institui o Código Ambiental de Santa Catarina. O Projeto de Lei recebeu 31 votos a favor e sete abstenções, sem nenhum voto contrário. P&N em breve irá falar mais sobre isso.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A cidade invisível

Elaine Tavares - jornalista

Enquanto milhares de pessoas se esbarram no terminal urbano e empilham-se nos coletivos urbanos, no ritmo louco entre a casa e o trabalho, sem tempo para pensar sobre os motivos de terem de viver assim, os governantes seguem decidindo coisas que tem ligação direta com a vida das gentes. E aí está o paradoxo. Eles decidem pelas gentes, e as gentes sequer sabem o que acontece. O que lhes cabe é sofrer as políticas, e assim mesmo, sem tempo para que possam pensar.
É o que acontece com o plano diretor. E o que é isso? É a lei que define como vai se organizar a cidade, nosso espaço de viver. O prefeito Dário Berger no seu primeiro mandato propôs o plano diretor participativo levando a discussão para os bairros e proporcionando que as pessoas pudessem opinar e decidir. E assim foi. Por meses as comunidades se reuniram, debateram, planejaram, decidiram, fizeram oficinas, informaram. Uma coisa linda de ver. Pois agora, depois de três anos de trabalho a prefeitura manda uma carta para os representantes das comunidades no Núcleo Distrital agradecendo o apoio e pedindo toda a estrutura de volta. Ou seja. A participação acabou. Segundo a prefeitura, agora serão os técnicos os que vão finalizar o processo e, com isso, ninguém sabe se o que foi exaustivamente discutido nas comunidades será levado em conta.
Coisa típica isso. Usa-se a comunidade, faz-se a propaganda da “participação”, mas a decisão mesmo será dos tecnocratas. Não é nem dos técnicos porque como a gente sabe, a decisão é política. O plano diretor atenderá os interesses dos grandes e poderosos. Grandes prédios, empreendimento gigantescos, tudo para dar mais beleza e conforto aos graúdos. Que importa se não há planejamento viário, que importa se não há água suficiente. Toca a encher de gente os bairros, verticalizar, asfaltar.
Bom, lá no Campeche a comunidade disse não. Primeiro diz que não vai entregar a sala onde estava instalada a representação distrital. Segundo, vai continuar acompanhando bem de perto os trabalhos. Terceiro, vai fazer valer aquilo que, de forma democrática e participativa, a comunidade decidiu. Daí que é muito importante as demais comunidades fazerem o mesmo porque plano diretor é coisa séria. Ele diz respeito a nossa vida mais cotidiana. Ele pode dar respostas para as filas no trânsito, para a falta de praças, para a melhoria da qualidade de vida de todos. Eu disse de todos e não só dos ricos. Plano diretor é coisa para ser acompanhada por todos nós.
A gente sabe que não é fácil viver nesta moenda do capital. Sempre cansado, trabalhando demais, e ainda ter de bancar as peleias com o poder público. Mas é necessário. Sem isso a cidade segue sendo espaço para poucos. São muitas as lutas para travar, eu sei. Mas, esta, é fundamental. Então, no seu bairro, procure a associação de moradores e diga que não aceita entregar a decisão do plano diretor para quem não vive os problemas reais da cidade. O prefeito Dário iniciou um processo participativo e não tem o direito de parar agora. A cidade também é nossa.

Assembléia pode aprovar Código Ambiental no dia 31

No dia 31 (terça-feira), a proposta do Código Ambiental de SC será deliberada em reunião conjunta das comissões na Assembléia Legislativa, seguindo, depois, para votação em Plenário. Se aprovado o projeto oportunista, o Estado estará na contramão de todas as discussões sobre a questão ambiental. Para entender o assunto, acesse
http://www.apremavi.org.br/mobilizacao/santa-e-fragil-catarina/
Para saber como está a tramitação na Assembléia, acesse:
http://www.alesc.sc.gov.br/noticias/mostraintegranoticia.php?codigo=19988

sábado, 28 de março de 2009

Estio

Míriam Santini de Abreu
Um anoitar alaranjado era como calda ardente sobre a Babitonga. Na margem lavrada, a palmeirinha encolhida de umidades sonhava que era plumagem de pavão.

O que é isso?


Tás curioso para saber o que é isso??? Leia a Pobres & Nojentas número 17, que circula em meados de abril!