sábado, 29 de setembro de 2007

Livro discute jornalismo e meio ambiente

Quando a palavra sustenta a farsa: o discurso jornalístico do desenvolvimento sustentável é o título do livro de Míriam Santini de Abreu, uma das editoras de Pobres & Nojentas.

Árvores furiosas

Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

Há o chavão “fúria da natureza” em muitas notícias sobre tempestades, tornados, tormentas, tufões, terremotos, tsunamis... O t parece carregar o peso semântico do regurgitar da Terra. E o que dizer da fúria das árvores? Bonito ver árvores furiosas. Em “O Senhor dos Anéis - As Duas Torres”, elas lutam ao lado dos humanos, lideradas por um pastor de árvores bem zangado. Parece o Humbaba da floresta de cedros de Gilgamesh: “Ó Gilgamesh, o vigia da floresta nunca dorme!”.
Assustadoras também são certas florestas de pinus, como em Correia Pinto, perto de Lages. Ali uma estrada vicinal corta uma floresta dessas, e aquelas extensões verdes perfeitamente enfileiradas e silenciosas dão tremura nos nervos. Não é culpa das árvores. Nós também as estressamos.Basta ver o curta Parálisis, de Gabriel Acevedo Velarde (Peru/México 2005). Ao longo de dois minutos e meio, arbustos de calçada tremelicam e resmungam à passagem dos humanos.
Quase ao final, um arbusto parece estar à beira de um enfarte, quase vomitando folhas. Corre uma semana antes que o espectador do curta consiga passar ao lado de um arbusto na rua sem temer pela própria segurança. Dá receio até de pendurar rede em toco de árvore.Lá em casa, aliás, cortaram o pessegueiro que sustentava uma das alças da rede, mas foi por imposição do Poder Público. Parece que os pessegueiros de Caxias estavam doentes e, pior, contaminando os da Argentina. Não entendi nada, e ninguém soube me explicar direito a história. As árvores e arbustos têm razão na sua fúria.

Jornalismo e educação

Vale a pena conhecer a dissertação de mestrado de Marcilene Forechi, Jornalismo e educação: da invenção da realidade à formação de jovens, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo. Confira o resumo do trabalho e o enlace para acesso:

RESUMO


O discurso jornalístico sobre a realidade dos jovens das classes populares envolvidos com fatos violentos legitima certas maneiras de pensar e orienta, por produzir sentidos sobre a violência e sobre os jovens, as ações para combater a violência. Essa dissertação de mestrado apresenta uma reflexão sobre o jornalismo como conhecimento e sobre a educação numa perspectiva ampla que inclui os processos sociais, culturais e políticos presentes na sociedade. A pesquisa de campo foi realizada de julho a novembro de 2005, com um grupo de jovens moradores do bairro Jacaraípe, na Serra, considerado um dos 10 com maior índice de homicídios do município. Também foi realizada uma pesquisa envolvendo reportagens de um jornal diário e entrevistas com jornalistas. A perspectiva teórica desse trabalho rejeita a idéia do jornalismo como espelho da realidade e propõe pensá-lo como construção. Dessa forma, é possível situá-lo como um processo educativo não formal, que interpenetra os demais campos sociais modificando o estatuto da percepção. A partir das análises, foi possível estabelecer um paralelo entre as concepções de juventude presentes na imprensa e a percepção que os jovens têm da sua própria realidade e da realidade construída nas páginas do jornal.
Foi possível perceber que o jovem das classes populares retratado nas matérias sobre violência é visto pela imprensa como um sujeito autônomo, descontextualizado de sua realidade imediata e que tem sua juventude ligada unicamente à sua idade. Uma das pistas encontradas ao final do trabalho foi a possibilidade de considerar a produção jornalística como um dos elementos mediadores da realidade e, assim, inseri-lo nas propostas curriculares da educação formal.


http://www.ppge.ufes.br/dissertacoes/2006/Marcilene%20Forechi.pdf

Favela dos ricos

Leia o artigo de Marc Dourojeanni sobre Jurerê Internacional, o bairro “chique” de Florianópolis, SC, que ele chama de “favela de ricos”.

http://www.oeco.com.br/oeco/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=6&pageCode=80&textCode=24148&date=1190278800000

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Banqueiros não dividem lucro

Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

Os bancários Diego – leitor de Pobres & Nojentas - Héverton e Julio, de Florianópolis, Santa Catarina, estão na luta por melhores salários e condições de trabalho para a categoria, que sofre cada vez mais de problemas como Lesões por Esforço Repetitivo e depressão, provocadas por aumentos sucessivos de produtividade e pressão violenta para venda de produtos aos clientes, entre outros. Na sexta, 28, direção e bancários ligados ao Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Florianópolis e Região paralisaram as atividades de várias agências da Capital catarinense, manifestação que se repetiu país afora como parte da Campanha Nacional. Na primeira semana de outubro, dependendo do resultado das próximas assembléias, os bancários podem entrar em greve por tempo indeterminado, porque os donos dos bancos, apesar dos recordes nos lucros, se recusam a dar reajuste maior do que 5,2% e a negociar a sério as demais cláusulas da pauta de reivindicações.

Iluminadores do cotidiano




Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

Imagem da cidade. Profissão de risco. Lembro-de Marcos Lomba, que entrevistei há um ano. Perdeu as duas pernas e um braço quando se preparava para consertar uma linha viva danificada na Grande Florianópolis. Era para a rede estar desenergizada, mas não estava. Foram semanas no hospital, e a luta, hoje, pela indenização. Marcos, como o homem na foto, literalmente ilumina o nosso cotidiano.

Mãos de madeira

Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

Quando as vi, agarrei-as sem o menor pudor. São as mãos do tecelão Cícero Moreira do Nascimento, pra lá da curva dos 50, que vende tapetes no Centro de Florianópolis, cidade onde vive há 25 anos. Mãos de madeira, duras, calosas de tanto trabalhar no tear. Mora no bairro Barreiros e tem sete filhos. Na semana que terminou havia vendido apenas um tapete. É de Caruaru, Pernambuco. “Lá tem muito Cícero, Cícera, Francisco e Francisca. E se numa família não há ninguém com esse nome, pode contar: não é católica!”. Rosto de pura bondade, esse Cícero. Mas não quis ser fotografado.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Rádio comunitária no Monte Cristo

O discurso da democratização dos meios de comunicação é fácil de fazer. Difícil é colocar idéias e projetos em prática ou apoiar quem decide caminhar ao longo das veredas do jornalismo dito alternativo. Por isso é bonita de se ver a iniciativa de um grupo de aguerridos jovens do Monte Cristo, em Florianópolis, que estão lutando para manter no ar uma rádio comunitária. A próxima transmissão é no sábado, 29 de setembro, a partir das 14h.
O pessoal está fazendo uma série de atividades abordando e sensibilizando os jovens para a importância de um espaço público onde a comunidade possa se expressar livremente. Para saber mais acesse
http://radiomontecristo.blogspot.com/
http://www.bairromontecristo.blogspot.com/

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O povo se levanta

Servidores públicos e o Movimento dos Sem Terra na terça-feira, 25; na quarta-feira, 26, trabalhadores demitidos depois da suspensão da loteria catarinense Tri-Mania. Os primeiros em caminhada rumo à Casa do Governador, os segundos, vestidos com uniforme amarelo, gritando palavras de luta e segurando cartazes no Largo da Alfândega, em Florianópolis. A Capital catarinense, geralmente quieta, ferve nesta semana. Suspendo a caminhada apressada para conversar com um rapaz, em pé sobre um branco, faixa segura numa das mãos.
- Olha, esses todos, trabalhadores, na rua. Fica aqui e apóia a nossa manifestação.

O horror econômico – escreveu a jornalista francesa Viviane Forrester. O horror do desemprego.
Mas o povo se levanta.

Bem lembrado

Um comentário na página da revista, na postagem sobre a eleição na UFSC, nos faz lembrar: a UFSC é a única Universidade Pública FEDERAL de Santa Catarina. Há uma Estadual, a UDESC, e universidades municipais.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Estradas e olhos-de-boneca


Por Míriam Santini de Abreu, jornalista

Bem sabem os que viajam como passageiros: é intenso, às vezes, o desejo de frear a chegada, de se deter, de interromper o fluxo de espaço e tempo para agarrar um pensamento fugaz, esmiuçar uma paisagem, sentir-se inacessível. É assim que fico, um pouco imóvel, quando das janelas cerradas espio a vida que passa na SC-302 entre Rio do Sul e Alfredo Wagner, em Santa Catarina. Imóvel e comovida.
O longo trecho de estrada é asfalto sobre terra arada. Todos os meus sentidos se dobram diante de florestas preservadas, como ainda há na Serra do Mar Catarinense - na reserva florestal de Caçador vi uma araucária que deve ter meio século. Mas são igualmente belas essas culturas agrícolas que se espraiam nas pequenas propriedades catarinenses.
E tão belas quanto elas são as mulheres, os homens e as crianças que vislumbro de passagem, entre um quilômetro e outro. Ora os vejo ajoelhados, de bermuda, chinelos e boné, consertando um instrumento qualquer, ora estão na boléia de um trator que cruza o campo; em seguida espio uma mulher que varre a varanda ou bate com força o tapete para espantar o pó, e mais adiante, na beira da estrada, uma mocinha de chapéu de palha levando pela mão um piá.
Constrange-me um tanto a minha mirada invasiva, desavergonhada, que captura esses instantes íntimos de vida de outro. Comove-se saber que a vida deles e a minha depende do caldo da terra, do vingar das sementes, repousada aí a possibilidade de pagar o crédito agrícola, o empréstimo para o trator, os hectares de lavoura comprados com muita economia. E há as casas, umas de alvenaria, outras de madeira bem velha, como as da minha falecida vó Antônia, tão velhas que parecem ser a sombra cinzenta de uma matéria espessa que ali apenas deixou vestígios. Gris.
Mas se me constranjo, é só um tanto, porque sei que estamos, eu e eles, à espera, à procura, e olhos, ouvidos, mãos, o corpo todo, denunciam esse eterno tatear pelo vir-a-ser, pelo vir-a-estar. E assim, faminta, espicho o pescoço para lançar minhas redezinhas de íris, pupila, cristalino, poéticos nomes para designar o que me permite depois, por horas a fio, trazer à lembrança essas paisagens amadas. E sempre evocar uma frase que li em algum lugar, algo assim: "E sempre ouço às minhas costas a marcha do tempo que passa adiante". E ficamos – eu e eles – em meio aos bramidos desta marcha, deste tempo.
E se tudo isso não bastasse, em setembro florescem nas terras catarinenses, nos canteiros das casas, como em todos os lugares onde se permite à natureza despertar, os olhos-de-boneca. Dendrobium nobile. Floradas quase ofensivas, de tão cativantes, gotejando das árvores e arbustos, deixando-me completamente enevoada. Orquídea feiticeira, esta, que me provoca tal turbação a ponto de me deixar à distância, temerosa de seus efeitos, temerosa dos delicados labelos lilases e roxos, condão vegetal que me arrebata. Os olhos-de-boneca parecem se agarrar aos troncos nos quais se sustentam. Mera aparência. Os troncos é que se agarram aos cachos delicados, para pulsarem ainda mais belos nessa extraordinária e fugaz florada de Primavera.

E que aqui se diga: só Florbela Espanca poderia, nos seus versos que fazem o coração arder, palavrear o que a chegada de setembro, no Sul do mundo, inspira em todos os seres. Rendamo-nos à portuguesa.

http://www.laurapoesias.com/poetas/florbela_espanca_primavera.htm


Nildo e Maurício na UFSC

O professor Nildo Ouriques, cujo perfil foi publicado na edição 8 de Pobres & Nojentas, e o professor Maurício Pereima lançam nesta quarta-feira, 26, a candidatura à eleição para reitor e vice da Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC. Haverá poemas, festa, frutas, vinho e compromissos sendo assumidos com uma nova forma de gerir a única Universidade Pública Federal de Santa Catarina.

Desacato na rede

Página de formação, informação e desenho charmoso, Desacato está inundando o mundo virtual com artigos, notícias e entrevistas feitas por gente de vários lugares do país. Elaine Tavares, editora da Pobres e Nojentas, e Raul Fitipaldi, que escreve textos lindos para a revista, também estão no time. Delicie-se em
http://www.desacato.info

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Mídia e poder


A democratização da comunicação é um tema que está na pauta de lutas de boa parte dos movimentos sociais e será alvo de debate na Assembléia Legislativa de Santa Catarina.

domingo, 23 de setembro de 2007

O museu do lixo



Por Míriam Santini de Abreu - jornalista

O Museu do Lixo da Companhia Melhoramentos da Capital (Comcap) - empresa de economia mista controlada pela Prefeitura Municipal de Florianópolis - completa quatro anos no dia 25 de setembro. O Museu fica no Centro de Transferência de Resíduos Sólidos (CTReS), no bairro Itacorubi, e tem área de 200 metros quadrados. O local é visitado por cerca de 3,6 mil pessoas todos os anos, com destaque para estudantes da rede pública.
Quando visitei o Museu, em companhia de estudantes de Jornalismo da UFSC, fiquei impressionada com o trabalho de Valdinei Marques, que se auto-denomina Neiciclagem, o embaixador do lixo.Ele leva os visitantes para conhecer o processo de coleta seletiva, as “colinas” de lixo antigamente depositado no local e agora coberto por terra e grama e, principalmente, o Museu. Impossível enumerar a quantidade de objetos reunidos ali, e cuja harmoniosa composição delicia adultos e crianças. Num canto, sofás e um aparelho de som que toca discos de vinil. Noutro, estantes cheias de livros, bibelôs, aparelhos domésticos. Uma deliciosa vertigem para os olhos, tudo aquilo. Nei faz cerimônia de iniciação em volta de uma mandala pintada no chão, e depois todos saem de lá com certificado de agente ambiental.
No CTReS também acompanhei a transferência de resíduos de um caminhão de coleta residencial para outro, maior, no qual o material é colocado para ser levado ao aterro sanitário. Quem vê o lixo despencar de um veículo para outro, restos de comida, papel, plástico e o que houver – tudo num gotejar escuro e viscoso – fica a duvidar da possibilidade de um futuro para a espécie que produz tal tipo de sociedade. As fotos são de Vera Flesch.

Humor na rede

Visite o blog do cartunista Solda em http://www.cartunistasolda.blogspot.com/

sábado, 22 de setembro de 2007

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

É tempo de celebrar! Feliz Primavera!

Por Elaine Tavares - Jornalista

Os povos pagãos, nas suas culturas, sempre me pareceram mais sábios. Eles tinham como costume celebrar a vida nos equinócios e solstícios, rendendo homenagens às estações. E isso não era coisa à toa. É porque cada estação traz com ela suas bênçãos. No girar desta bola azul, as comunidades vão experimentando a beleza do outono, a introspecção do inverno, a volúpia do verão e a alegria da primavera. É ainda nesse lento rodopiar que a terra e as gentes vão encontrando seu momento de plantar, colher, descansar e dançar.
Pois hoje, nesta nossa parte do mundo, é o equinócio da primavera. No ritmo das estações, tudo começa a vicejar. A voz dos passarinhos fica mais forte, as flores embestam a aparecer e, a despeito de todas as dores e lutas, também as pessoas parecem florescer em festa.
Aqui estamos nós no imenso jardim vendo cada coisa que plantamos no inverno, apontar pela terra afora. Então é hora de dançar a dança dos deuses, fazer “pago à Pacha Mama”, reverenciar Inti (o sol), saudar Ñanderu, o grande pai Guarani, que com Jacy e Kuaray tornam esse mundo tão belo. É tempo de dizer o nome da beleza para que ela nos tome inteira como crêem os Navajos.
Um dia, bem longe, os povos do leste invadiram nossa Tekoá (terra-casa) e soterraram a cultura autóctone, trazendo novo deus e desconhecidos santos. Mas, sempre é tempo de recuperar nossa condição primeira, de povo de Abya Yala, e retomar velhos rituais. A caminhada dos tempos já tratou de mostrar que na profusão de deuses e deusas que co-existem nas mais variadas culturas, o que fica como certeza final é de que esta terra é sagrada e cabe a nós cuidar para que ela siga firme, com saúde e um lugar bom de viver. A Eko Porã do povo Guarani(terra boa e bonita para todos).
Esse tempo ainda não vingou, proliferam as guerras, as gentes precisam migrar de um lado para outro buscando sobreviver em meio à destruição do capital. Mas, em cada ser que vive, brilha a indefectível esperança. Dia virá em que todos poderão dançar para Inti, Pacha Mama, Viracocha, Quetzalcoalt, Istsá Natlehi, Wakan Tanka, Krisna, Jesus, braços dados, irmãos. E a terra será bela, e o banquete repartido. Paraíso. Socialismo. Eko Porã.
Enquanto isso, celebremos, pois. Os passarinhos nos chamam, as flores perfumam a vida e nós temos a obrigação de render graças. Porque nada no mundo pode ser melhor que caminhar na direção da beleza, da vida plena, da alegria, da Eko Porã. Em meio à tormenta, cantamos, dançamos e plantamos jardins porque confiamos, como Jeremias, diante da sua terra arrasada, que ainda vingarão flores neste lugar...
Feliz primavera! Viva Abya Yala.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A saúde dos bancários

A vida do trabalhador bancário não está nada fácil. A edição 5 de Pobres & Nojentas mostrou a história de Márcia Platt, que adquiriu Lesão por Esforço Repetitivo e hoje luta para conscientizar outros colegas sobre o problema. A saúde é um dos temas que estão na pauta da campanha salarial dos bancários, que na quinta-feira, 20, fecharam por duas horas as agências do Besc, do Santander e do Bradesco localizadas no centro de Florianópolis. A paralisação faz parte do calendário de mobilização da Campanha Nacional na base do sindicato de Florianópolis e Região. Foto: SEEB Floripa

Dia sem Carro

O dia 22 de setembro é o Dia Mundial sem Carro, um manifesto contra os graves problemas causados pelo uso massivo de automóveis. Lúcio Gregori, ex-secretário de Transporte na gestão de Luiza Erundina em São Paulo (1989-92), costuma dizer que nenhum outro sistema de transporte dá tanta liberdade de locomoção quanto o carro, mas é uma solução individual, acessível a poucos, e o preço é alto: poluição e caos no trânsito. “O desafio é fazer o transporte coletivo dar esse mesmo grau de liberdade, com mobilidade plena e acesso universal”, disse ele em reportagem sobre mobilidade urbana na edição 8 de Pobres & Nojentas.
O conceito de mobilidade urbana vai além do ir e vir de veículos e do conjunto de serviços que possibilitam esses deslocamentos. Ele tem a ver com as necessidades das pessoas e o acesso delas às facilidades, serviços e oportunidades que a cidade oferece: escolas, hospitais, locais de emprego, moradia e lazer.
Pensar sobre isso deixa claro que viver e morar em uma cidade são coisas diferentes. Quem vive aproveita as boas coisas. Quem apenas mora vê a cidade passar no intervalo entre a casa e o trabalho, sem conseguir experimentar o que está atrás das portas com placas de anúncios, das cercas, dos eventos pagos. É como viver dentro e fora ao mesmo tempo, num intervalo de espaço que a mídia chama da periferia. São os empurrados para a periferia que mais precisam do transporte coletivo, e os que menos têm acesso a eles. É, portanto, urgente refletir sobre as conseqüências da aposta em investimentos no transporte individual e tomar decisões que ampliem o acesso e a qualidade do transporte coletivo.