segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Em busca do jornalismo perdido

















O grande livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, ficção científica escrita em 1953, apontou uma sociedade futura na qual as pessoas teriam uma tela multidimensional na sala de casa e que ali ficaria passando informação sem parar,  o dia todo, e a pessoa, viciada naquela algaravia, não conseguiria mais compreender o mundo criticamente. Tudo se resumiria naquele caleidoscópio de palavras desconexas que perpetuavam o poder de quem mandava. Aquela passagem do livro sempre me causou calafrios. Era o mundo perdido no qual vivia a esposa do personagem principal, o que descobre a beleza dos livros num mundo no qual eles não mais existiam.

Apesar da mensagem de esperança que o perturbador livro de Bradbury traz, aquela imagem da sociedade futura fica a corroer os miolos, principalmente quando aquilo que era só uma invenção ficcional nos anos 50 do século passado parece ser a realidade dos tempos atuais. Esse é o nosso mundo. As televisões espertas, de 50 polegadas, já conectam a internet e, nela, o facebook, esse espaço multicomunicacional que parece ter abduzido todas as mídias numa só. Ali, no seu mural, as informações passam em velocidade da luz, formando a mesma algaravia enfeitiçante da sala do mundo Fahrenheit. A vida está ali, prisioneira e saltitante.

Essa constatação aterrorizante é o que me leva a pensar sobre a minha profissão: o jornalismo. Onde ele está? Quem consegue vê-lo em meio a selva de informações fortuitas, rápidas, e mentirosas? Sobreviverá ao buraco negro do facebook, cada vez mais empoderado?

Antes de mais nada é preciso entender sobre o que estou falando, visto que há muitos entendimentos sobre o que seja o jornalismo. Falo da análise do dia, a descrição da realidade com impressão de repórter, contexto histórico, narrativa. Falo da produção de textos e vídeos que apresentem criticamente aspectos da realidade, levando o leitor/espectador a pensar sobre os fatos e estabelecer nexos com a vida.

É fato que não é o facebook o assassino do jornalismo. Ele agoniza desde há tempos na medida em que foi hegemonizado como mera propaganda, a apontar as belezas do sistema capitalista, da agricultura predadora, do consumo desenfreado e outras facetas mais desse modo de organizar a vida. As notícias que pipocam nas telas de TV, nos jornais, não dizem da realidade. Elas servem para aprisionar e alienar numa verdade inventada, que esconde o discurso da maioria da população. A voz do jornalismo existente é a voz oficial, do presidente, do deputado, do economista, do especialista. Nele não aparecem os trabalhadores, os que lutam, os que realmente criam o mundo. Esses estão fora, sem lugar onde expressar sua voz.

Por conta disso que ao longo dos tempos sempre foi necessário constituir um jornalismo de verdade, que se faz em outras instâncias, alternativas e populares. Um jornalismo que abre espaço para a voz do oprimido, da comunidade das vítimas e que contextualiza a realidade. E desde há tempos, esse jornalismo vem se equilibrando no emaranhado de um mundo midiático, criado para o engano. É a luta de classes se  expressando no campo da palavra, da informação. De um lado, os poderosos, buscando impor seu modelo de mundo como o modelo universal, e de outro lado - ainda que com menos poder de abrangência, mas valente  - as gentes em luta, procurando abrir espaço para a informação crítica que leve as pessoas a pensar sobre a realidade e, desde aí, transformá-la.

Com a ascensão da revolução tecnológica, o jornalismo precisou se reinventar. A Rede Mundial de Computadores trouxe uma novidade até então impossível de ser pensada: a possibilidade de a palavra do oprimido também ultrapassar os limites geográficos. Isso aprecia bom. Com a popularização da internet, os sindicatos, movimentos sociais, movimentos indígenas, movimentos populares, pessoas individuais, cada um que quisesse externalizar seu pensamento, tinha a sua chance. E não apenas para a sua aldeia, mas para o mundo inteiro. As incognoscíveis páginas, criadas em linguagem html foram se popularizando, com a criação de modelos facilmente manipuláveis. Vieram então os blogs que se tornaram muito mais acessíveis. A internet não apenas democratizava o espaço para que os movimentos coletivos se expressassem mundialmente, mas também viabilizava que qualquer um, com acesso à rede, pudesse ser um produtor de conteúdo.

Aí mais uma vez foi a hora de pensar o jornalismo. Se qualquer um pode divulgar informações, como peneirar o que é apenas informação e o que é jornalismo? Como reconhecer o que é uma opinião? Como estabelecer os nexos entre as informações soltas divulgadas aos borbotões? Como encontrar espaços de informação crítica e contextualizada? O que se viu num primeiro momento foi que as pessoas continuavam a acessar a informação formal, produzida pelos mesmos grupos que já dominavam a informação televisiva ou do papel. Ou seja, a informação/propaganda produzida pelo jornalismo das grandes empresas de comunicação ainda era a referência. E, de novo, os movimentos e entidades da luta popular tiveram de disputar o espaço internético como "ilhas alternativas", sempre perdendo a batalha para os velhos grupos de poder que controlam a mídia no mundo.

Foi então que chegou o facebook, um espaço na rede que começou a abocanhar todas as possibilidades comunicacionais, aglutinando-as numa só. O correio eletrônico foi sendo abandonado e a comunicação agora vai se fazendo - em tempo real  - pelo esquema de mensagens do face. A ideia é de que a pessoa esteja o tempo todo conectada, aproximando-nos daquela assombrosa ficção de Bradbury. E assim, no mundo atual, ou a pessoa está conectada, ou não é. É a versão eletrônica do consuma ou te devoro, outro mantra do capitalismo.

Agora, a novidade que se aproxima me foi sussurrada por um texto do irianiano Hassein Derakhshan, chamado de o pai dos blogs do Irã, que informa o novo plano de Zuckerman: acabar com a possibilidade da publicação de links no facebook. E o que isso significa? Que se hoje os blogs e os movimentos sociais utilizam o facebook para potencializar suas informações, divulgando os links para serem consultados, amanhã isso já não será possível. A tendência será a morte das páginas individualizadas. Segundo Hassein, o facebook acabará sendo a única fonte de informação, totalmente homogeneizada. Não é sem razão que o criador dessa tecnologia tem andado pelo mundo fazendo convênio com os governos para permitir que "todos" tenham acesso ao facebook.

Atualmente um bilhão e meio de pessoas usam a internet diariamente e mais da metade tem o facebook como fonte principal de informação. Se considerarmos que somos sete bilhões no planeta, ainda há gente demais fora dessa mídia, coisa que Zuckerman está batalhando muito para mudar. Mas, esse mudar é apenas seguir sendo o mesmo, já que a tal da internet dos pobres apenas possibilitará o acesso ao facebook, tornando a pessoa prisioneira dessa plataforma.

A questão é que o futuro nos reserva uma espécie de oligopólio mundial, uma plataforma única de comunicação, na qual será muito difícil discernir o que é verdade, o que é mentira, o que é propaganda, o que é crítico. Estaremos jogados na sala multidimensional de Bradbury, com as vozes falando, falando, falando e não dizendo nada, fortalecendo a dominação.

Voltamos então a questão do jornalismo. Como ele sobreviverá nessa sala caleidoscópica? Haverá saída? Encontraremos um espaço para a informação crítica? Estará perdido para sempre o jornalismo que desaloja, que perturba, que faz pensar? Perguntas incômodas, mas necessárias.


No mundo ficcional de Bradbury as pessoas acabaram encontrando uma maneira de fazer seguir o pensamento crítico. E nós, encontraremos? Essa é a questão que tem me corroído as entranhas.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O meio-ambiente é um bem comum

Entrevista realizada pela jornalista Elaine Tavares, no Programa Campo de Peixe, com o professor da UFSC, Daniel José da Silva, sobre a necessidade de a população se apropriar da luta pelo equilíbrio ambiental.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O ano que vem


















A abertura dos trabalhos legislativos no Brasil mostrou que o ano de 2016 não vai ser fácil para os trabalhadores. Com a presença da presidenta Dilma, que falou para os deputados e senadores, buscando apoio para suas pautas, o que ficou nítido e claro é que muita luta será necessária para garantir que direitos não sejam tirados e outros possam vir. Tendo como mote a retomada do crescimento, Dilma pediu apoio para a aprovação de um novo tributo, a CPMF, que incidirá sobre movimentações financeiras e também para as novas medidas que aprofundarão o chamado ajuste fiscal.

Não precisa ser muito esperto para saber que o tal ajuste será pago pela maioria dos trabalhadores, uma vez que o carro chefe da sua proposta é a desvinculação das receitas. E o que isso significa: que com ela, o governo poderá manejas os recursos do orçamento jogando verbas para onde julgar mais necessário. Com isso, o orçamento da seguridade social, que envolve saúde, moradia, educação, assistência social e previdência, poderá ser movido para outros objetivos, coisa que atualmente não pode ser feita. A Constituição define que arrecadação das contribuições sociais só podem ser gastas com o social. Desvinculando as receitas, o governo pode puxar recursos das contribuições sociais e garantir o superávit fiscal sem precisar criar outros tributos.

Com essa proposta de desvinculação o governo já acena com redução de financiamento do programa Minha Casa, Minha Vida, para quem tem menos renda, e cortes no Pronatec (formação técnica e para o trabalho) e o programa Ciência sem Fronteiras (formação no exterior). O argumento da presidenta para que aconteça a desvinculação é de que a carga tributária - que é a parte do orçamento que pode ser movida - diminuiu de 16% do PIB para 13,5%, enquanto que as contribuições previdenciárias aumentaram. A proposta é criar a CPMF e colocar parte dos recursos desse imposto na previdência. É deveras, uma matemática estranha, já que põe e tira recursos ao mesmo tempo e ainda continua com o velho discurso de que a previdência é deficitária.

Não bastasse querer mexer nos valores orçamentários das contribuições sociais, a presidenta ainda quer fazer nova reforma na Previdência que vai aumentar a idade mínima, mudar o fator previdenciário e ajustar a previdência dos trabalhadores públicos. Com isso, as novas gerações  - as mudanças não valerão para quem já está no sistema - terão de trabalhar muito mais tempo para garantir aposentadoria, além de terem de recorrer, obrigatoriamente à previdência privada, caso seus salários ultrapassem o valor definido como máximo que é, na verdade, muito baixo: 2.400 reais.

Nesse pequeno mas significativo pacote de propostas se esconde um mundo de mudanças que mexe diretamente com o bolso e vida da maioria dos trabalhadores, visto que os mais ricos seguirão acumulando sem maiores problemas. Dilma acenou com medidas que beneficiam os empresários médios e prometeu abrir novos mercados para os grandes exportadores, bem como a privatização de estratégicos espaços, como é o caso dos terminais dos portos públicos e estradas.

As pautas legislativas

Mas se as metas do governo federal não parecem muito atrativas para os trabalhadores, as outras pautas que estarão em debate nesse ano novo legislativo também representam péssimas mudanças, quando não um retrocesso abismal.

Pelo menos 10 grandes projetos deveriam preocupar sobremaneira os brasileiros e mobilizá-los no debate e na resistência pois, ainda que sejam temas periféricos às questões estruturais influem demasiado na vida cotidiana e reforçam preconceitos e ódios que já se expressam em grande número no país. Um deles é a proposta de um Estatuto da Família, da bancada evangélica, que considera família apenas a união entre um homem e uma mulher. Nada poderia ser mais atrasado que isso, mas já foi aprovado nas comissões. Outro é o da redução da maioridade penal para 16 anos, que pretende encher as cadeias para melhor alimentar a roda do capital. Também estará em pauta a chamada lei antiterrorismo que nada mais é do que legalizar a criminalização das lutas sociais  visto que, hoje, o conceito de terrorismo ficou mais largo, abrangendo nele qualquer pessoa que se coloque em luta contra os governos. Nessa linha de leis esdrúxulas está também a que criminaliza os agentes de saúde que informarem às mulheres sobre soluções abortivas como por exemplo a pílula do dia seguinte, mesmo que em caso de estupro.  

A pauta do ano igualmente se ocupará de temas como a permissão da terceirização sem limites, a retirada da Petrobras como exploradora exclusiva do pré-sal, a revogação do estatuto do desarmamento, a privatização dos Correios e da Caixa Federal, a flexibilização do conceito do trabalho escravo e a redução da idade para o trabalho que deverá ficar em 14 anos.

Assim que os dramas serão intensos e a vida nacional colocada num profundo turbilhão. Nesse cenário temos um movimento social ainda muito dócil, sindicatos adormecidos e centrais de trabalhadores mais ocupadas em defender o governo, o que torna tudo muito incerto. Permitirão os trabalhadores brasileiros a retirada de mais direitos? Suportarão uma nova reforma da previdência? Estarão dispostos a aceitar retrocessos bárbaros e a consolidação de preconceitos?

Recentes pesquisas mostraram que 1% da população mundial detém a riqueza equivalente aos 99% restantes, o que mostra que o abismo entre os mais ricos e os mais pobres só aumenta. Os dados ainda comprovam que 62 pessoas no mundo detém uma riqueza equivalente a riqueza da metade da população - ou seja, do que 3 bilhões e meio de pessoas. Isso não é bolinho. São dados aterradores. Esse abismo se expressa igualmente nos países capitalistas, nos quais os índices de riqueza também aumentam e se separam drasticamente dos mais pobres. Isso significa que motivos para luta existem e sobram.

Ocorre que o capitalismo moderno e sua pedagogia da sedução ainda tem muito poder sobre as pessoas que, ingenuamente, acreditam que "com muito esforço" podem vencer na vida, "chegar lá". Esse tipo de crença é o que permite que os pobres permaneçam pobres e os ricos cada vez mais ricos. Romper essa mentira é tarefa difícil, ainda mais se considerarmos a crise pela qual passa o sindicalismo, que deveria ser o espaço da rebeldia e da organização para a luta. Sem trabalho de base e sem credibilidade essas entidades estão aí, em vida vegetativa. Caberá aos trabalhadores e aos que vivem sob a opressão do capital encontrar os caminhos da luta para mudar tudo isso.  

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Exposição marca os 30 dias do assassinato de Vitor Pinto




















Desde há 500 anos, quando chegaram nas nossas terras os invasores, que a proposta do mundo branco  é exterminar os povos indígenas. Primeiro foi através da escravidão.Não deu certo. Depois houve a tentativa de integrar o índio na cultura branca, entendida como civilização. Tampouco foi possível. O índio que vive no mundo branco nunca é totalmente aceito. A sociedade é racista, preconceituosa e discriminadora.

Assim, não foi sem razão que o assassinato bárbaro do menino de dois anos,  Vitor Kainkang - degolado por um jovem de 23 anos em Imbituba, litoral catarinense - passou sem maior alarde nos meios de comunicação. Um pouco mais de atenção e já se poderia notar  a culpabilização da vítima. O que fazia a família fora da aldeia? Porque não ficam quietos nos seus lugares de origem? Porque para a sociedade dita branca o lugar  do índio é confinado em algum lugar bem distante, que não incomode a vista.

Mas, os povos indígenas são povos livres que como qualquer um de nós têm todo o direito de se movimentar pelo território. Além do mais, como são relegados pelas políticas públicas governamentais e raramente tem suas terras demarcadas, eles precisam batalhar para garantir a comida na mesa. E uma das formas de sobrevivência que encontram é justamente vender seu artesanato na temporada de verão no litoral. Logo, o fato de uma família Kaingang estar no litoral, tão longe de sua terra e em condições precárias de alojamento é muito mais responsabilidade dos governos do que deles.

Daqui a quatro dias se cumprem os trinta dias do assassinato de Vitor, o pequeno guerreiro kaigang. O provável assassino está preso, mas o inquérito deve ser concluído até a próxima semana. Em Florianópolis movimentos sociais e de apoio a questão indígena, bem como representantes das três etnias (Kaingang, Guarani e Xokleng Laklãnõ, preparam uma homenagem para marcar a data do assassinato. Está sendo organizada pelo Museu do Brinquedo uma exposição de brinquedos e brincadeiras no hall da Biblioteca da UFSC, a partir do dia 29, para lembrar a meninice perdida de Vitor.  

Passe o tempo que passar, nas terras indígenas ninguém vai esquecer. Até porque, outros meninos e meninas estão aí, na dura luta pela sobrevivência não só de si mesmos, mas de toda a sua cultura.

Vitor Pinto, presente!!!

domingo, 24 de janeiro de 2016

Comunidade vai reconstruir rancho do Aparício

Em entrevista no programa Campo de Peixe, da Rádio Campeche, seu Aparício e o filho Pedro contam da mobilização da comunidade para reconstruir o rancho da canoa, queimado criminosamente no último dia 16 de janeiro. No incêndio foram destruídas duas canoas centenárias.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Núcleo Gestor do Plano Diretor volta a se reunir



















Por Miriam Santini de Abreu

Primeira reunião do Núcleo Gestor, que irá conduzir este processo, ocorreu nesta quarta-feira, 20/01
Comentário ouvido na primeira reunião do Núcleo Gestor do Plano Diretor de Florianópolis, realizada no Teatro da UBRO nesta quarta-feira, 20: 

- Aaaiii, são sempre os mesmos!

Sim, os mesmos, e ainda bem que, mais uma vez, eles quase lotaram o auditório do teatro, num dia de verão de 30 e poucos graus, para debater o presente e o futuro de Florianópolis, que ultimamente aparece no noticiário às voltas com problemas graves de falta de saneamento.


O Núcleo Gestor, de acordo com lei federal (Estatuto da Cidade), é um órgão colegiado que reúne representantes do poder público e da sociedade para discutir tudo o que se relaciona com a revisão dos Planos Diretores nos municípios com mais de 20 mil habitantes. O processo de revisão do Plano Diretor de Florianópolis também estava em discussão via Núcleo Gestor, mas ele foi destituído pelo prefeito Cesar Souza em 2013, pouco antes de o projeto do Plano chegar à Câmara de Vereadores.


De nada adiantaram os avisos ao prefeito. O Plano foi aprovado por maioria na Câmara no dia 17 de janeiro de 2014, com direito à forte repressão da Polícia Militar sobre as dezenas de representantes comunitários que foram protestar contra o atropelo com que se decidiu o rumo do crescimento da cidade.

Pouco mais de dois anos depois, a prefeitura foi obrigada a reconstituir o Núcleo Gestor por força de uma decisão judicial proferida no âmbito de Execução Provisória de Sentença, que tramita na 6° Vara Federal de Florianópolis. A decisão, de 4 de dezembro de 2015, também obriga o município a realizar as 13 Audiências Públicas Distritais e a Municipal, que deveriam ter sido feitas antes da entrega do Plano à Câmara em 2013. Além disso, suspende todos os processos de aprovação de novos empreendimentos (condomínios, loteamentos, desmembramentos e incorporações) e de alvarás de construção, bem como o cancelamento dos efeitos de todos aqueles que, ainda que deferidos, não iniciaram a implantação. A justiça deu prazo de 30 dias para a prefeitura se mexer, e por isso a primeira reunião do Núcleo foi marcara em pleno mês de janeiro.

A base da medida judicial é uma decisão do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre que condenou o município ao decidir que a tramitação do processo, que levou à aprovação do Plano Diretor, não foi válida porque ignorou a participação popular prevista em lei. Para ser ter uma ideia do atropelo, o projeto chegou à Câmara com cerca de 600 emendas feitas por vereadores e pela própria prefeitura, que emendou o texto que ela mesma encaminhou.

A posição inflexível do prefeito e do secretariado, de destituir o Núcleo Gestor, deu no que deu. O processo foi parar na Justiça, dois anos se foram e agora é preciso, como se diz, voltar ao que deveria ter sido feito.

Na primeira reunião, foi decidido que o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF) irá resgatar as últimas atas das reuniões do Núcleo, em 2013, para conferir a nominata dos 8 representantes do Poder Público, 18 da sociedade civil e 13 representantes distritais. É que as instituições, órgãos e entidades são os mesmos de 2013, mas é necessário confirmar se as pessoas que as representam serão as mesmas.

A justiça mandou a prefeitura dar plenas condições ao Núcleo Gestor para fazer o trabalho e garantir a ampla divulgação e realização das Audiências Públicas. A população precisa, então, ficar de olho no calendário de atividades e participar, porque o Plano Diretor é a lei mais importante para definir como a cidade vai ser daqui para diante.


Veja o vídeo

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O negro em Florianópolis

Entrevista com Jeruse Romão, que recebeu nesse 18 de novembro, a Medalha Zumbi dos Palmares, na Câmara de Vereadores de Florianópolis.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Jornalista Roseméri Laurindo lança "O Jornalismo Diversional de Fátima Bernardes".




Jornalismo Diversional. Quais seriam os segredos e as táticas jornalísticas adotados por Fátima Bernardes, uma das das apresentadoras da televisão brasileira na atualidade? Existe uma fórmula para o sucesso? No livro “O Jornalismo Diversional de Fátima Bernardes”, a autora Roseméri Laurindo apresenta, de forma clara e direta, os gêneros jornalísticos compreendidos por meio de um tipo autoral diferenciado, denominado autor-marca. Produzida e distribuída pela Primavera Editorial (SP), a obra será lançada no dia 19 de novembro, a partir das 18h30min, na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, em São Paulo.

Segundo a autora, o Jornalismo Diversional é uma forma, que embora trabalhe com a realidade, tem o objetivo de dar uma aparência mais romanesca aos fatos, personagens e ações. Esse gênero jornalístico traduz um conceito que classificou o programa “Encontro com Fátima Bernardes” como modelo de Jornalismo Diversional. Focando na personalidade da apresentadora Fátima Bernardes, o livro alinha os conceitos jornalísticos para apresentar, com maior propriedade, a complexidade do gênero autor-marca no programa. “Composto por pesquisas acadêmicas e entrevista com Fátima Bernardes, o livro revela as transformações do jornalismo no cenário atual”, acrescenta Roseméri.

Sobre a Autora

A jornalista e escritora Roseméri Laurindo, natural de Blumenau, é Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. Graduada em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. É Coordenadora do Curso de Jornalismo da Universidade Regional de Blumenau (FURB), onde é professora titular de Teorias da Comunicação. Realizou estágio pós-doutoral na Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, junto à Universidade Metodista de São Paulo, com apoio do CNPq. É integrante do Grupo de Pesquisa Pensa-Com/Brasil, liderado por José Marques de Melo. É Coordenadora do Grupo de Pesquisa sobre Gêneros Jornalísticos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação (Intercom). Em 2014, recebeu o Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação, da Intercom, na categoria Liderança Emergente. Autora de várias publicações jornalísticas e científicas, dentre as quais o livros o AI-5 na Academia - O manual do lead usado pelos golpistas de 1964 para punir o ensino de jornalismo -, pela Edifurb (2014).

Serviço

Lançamento do livro “O Jornalismo Diversional de Fátima Bernardes”, por Roseméri Laurindo
19 de novembro, a partir das 18h30min
Na Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1731- São Paulo/SP)
Primavera Editorial: http://www.primaveraeditorial.com/produto/edu/o-jornalismo-diversional-de-fatima-bernardes
Livro: ISBN: 978-85-61977-95-5. 128 pág., R$ 29,90

domingo, 8 de novembro de 2015

Florianópolis e o Fora Cunha

Registro de Rubens Lopes, em imagens e edição, da passeata pelo Fora Cunha realizada em Florianópolis, dia 06 de novembro de 2015. Contra o PL 5069, que torna mais difícil a vida das mulheres.


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dia Nacional do Saci-Pererê e seus amigos será comemorado na Capital em 06 de novembro




















Pelo décimo segundo ano, acontece a celebração do Dia Nacional do Saci-Pererê e seus amigos, que esse ano será no dia 06 de novembro, por conta das chuvas que caem em Florianópolis. A atividade será das 5h às 18 horas, na Esquina Democrática, em frente à igreja São Francisco, em Florianópolis.

A promoção é da Revista Pobres & Nojentas, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc), Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do Estado de Santa Catarina (Sintrajusc) e Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina (Sindprevs/SC). No dia haverá música, contação de histórias, boi-de-mamão e distribuição de “sacizinhos”. O dia “oficial” é 31 de outubro, mas, como será um sábado, neste ano vamos antecipar!

A lenda é assim! Basta que exista um bambuzal e, de repente, de dentro dos caniços, nascem os sacis. É como eles vêm ao mundo, dispostos a fazer estripulias. Conta a história que esses seres já existiam bem antes do tempo que os portugueses invadiram nossas terras. Ele nasceu índio, moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do mundo Tupi-Guarani. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram sendo dizimados.

Quando milhares de negros, caçados na África e trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava com o peso das correntes da escravidão.

Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o que o escravo queria ser: livre! Desde então, essa figura adorável faz parte do imaginário das gentes nascidas no Brasil. O Saci-Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a liberdade.

Com o processo de colonização cultural via Estados Unidos – uma nova escravidão - foi entrando devagar, na vida das crianças brasileiras, um outro mito, alienígena, forasteiro. O mito do Haloween, a hora da bruxa e da abóbora, lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo.

A história é bonita, mas não é nossa. Tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil. Na verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. É por isso que a Pobres & Nojentas quer recuperar o Saci, o brasileiro moleque das matas, guardião da liberdade, amante da natureza que hoje está ameaçada de destruição. Junto com ele trazemos também os amigos, as bruxas de Cascaes, o Caipora, o Curupira, a Mula-sem-cabeça e tantos outros que povoam o imaginário em todas as regiões do país.

Venha brincar com a gente. Esperamos você na celebração!

Mais informações com Elaine Tavares no 9907-8877.


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Novo programa da Pobres e Nojentas - Rogério Ferrari

Voltamos com as entrevistas das Pobres e Nojentas. Desta vez com o fotógrafo baiano Rogério Ferrari. Confira a boa conversa com esse artista da luz.


domingo, 27 de setembro de 2015

Terra sem males




Está circulando em Curitiba, Paraná, o jornal "Terra sem males", editado pelo repórter fotográfico Joka Madruga. Um trabalho impresso que tem como objetivo trazer a informação que a mídia comercial não costuma dar. Também busca valorizar o foto-jornalismo, um fazer cada dia mais esquecido pelos jornais comerciais. No "Terra sem males" pode-se encontrar bons textos, temas quentes, reportagens aprofundadas e fotografias que falam da realidade para além da lógica dos "bonecos" oficiais.

Um lindo projeto e uma grande iniciativa. A Pobres e Nojentas se solidariza com os colegas do Paraná e deseja longa vida ao jornal.





O jornalismo na Venezuela

Entrevista com Esther Quiaro, jornalista venezuelana que mantém um programa diário na cadeia Unión de rádio. Ela fala sobre o jornalismo, liberdade de expressão e Leopoldo Lopez.


terça-feira, 15 de setembro de 2015

O mago das plantas

Entrevista com Alesio dos Passos Santos, o homem que mais sabe de plantas medicinais em Florianópolis. Aprendendo e ensinando, todos os dias, com as gentes.


sábado, 12 de setembro de 2015

Terra Cabocla

Entrevista com Marcia Paraíso, diretora do documentário que conta a saga do povo caboclo do Contestado.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ato dos trabalhadores municipais

Atividade realizada no dia 26, logo após a decisão de continuar a greve, apesar do corte de salário.
Imagens de Rubens Lopes.


Greve na prefeitura de Florianópolis

Entrevista com o trabalhador público Wagner Muniz sobre a luta por melhores condições de vida e salário. A greve na prefeitura de Florianópolis começou dia 14 de maio de 2015. Entrevista na Rádio Comunitária Campeche. Entrevista feita por Elaine Tavares, na Rádio Comunitária Campeche.

 

quinta-feira, 26 de março de 2015

A Lógica Perversa da Dívida e o Orçamento de 2015

Por Marcela Cornelli*

Desde Brasília, para Sindprevs/SC

Mais um ano vislumbramos que o montante que o governo federal destinará para o pagamento da dívida “pública” superará o montante de investimentos em direitos sociais básicos da população brasileira como saúde, educação, transporte, entre outros.
Em 2014, o governo federal gastou R$ 978 bilhões com juros e amortizações da dívida, o que representou 45,11% de todo o Orçamento executado no ano. (conforme gráfico acima – Orçamento 2014 executado).
Para a saúde foram destinados apenas 3,98%, para a educação 3,73% e para assistência social 3,08%. É evidente o privilégio à dívida pública, detida principalmente por grandes bancos, em detrimento do cumprimento dos direitos sociais básicos estabelecidos na Constituição Federal.
Em 2015, não será diferente. O Orçamento Federal proposto pelo Executivo para este ano reserva R$ 1,356 trilhão para os gastos com a dívida pública, o que corresponde a 47% de tudo que o país vai arrecadar com tributos, privatizações e emissão de novos títulos, entre outras rendas. Já neste início, antes mesmo da aprovação do orçamento pelo Congresso, todas as áreas sofreram um corte linear preliminar e, após a aprovação do orçamento novo decreto irá contingenciar ainda mais recursos de todas as pastas, exceto da dívida, dentro da lógica do ajuste fiscal. Por meio de decreto, no dia 8 de março, bloqueou R$ 22,7 bilhões para os ministérios e secretarias especiais. O ministério da Educação responde pela maior parte do montante afetado, com o equivalente a R$ 7 bilhões anuais, o que corresponde a 31% do total de cortes.
“A elevação acelerada dos juros, a quarta alta seguida elevou a Selic para 12,75%, comprova o que já se esperava quando o mercado financeiro ovacionou a nomeação da equipe econômica, composta por Joaquim Levy, no Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, no Ministério do Planejamento, e Alexandre Tombini, no Banco Central. A equipe econômica está praticando a velha política macroeconômica assentada em juros elevados, sob a justificativa de “combater a inflação”, sendo que, na realidade, a inflação tem sido provocada pelo aumento dos preços administrados pelo próprio governo (energia, telefonia, combustível, transporte etc) e pela alta de alimentos, devido a graves equívocos da política agrícola e eventuais fatores climáticos. Juros altos aumentam os gastos com a dívida pública, beneficiando principalmente o setor financeiro, e prejudicam todo o conjunto da economia. Essa política não deu certo em nenhum país da Europa, mas o Brasil teima em segui-la. O povo brasileiro merece explicações sobre essa dívida “pública” que está amarrando nosso país e servindo para justificar a edição de pacotes de austeridade fiscal e corte de direitos.”, alerta Maria Lucia Fattorelli, Coordenadora Nacional da Auditoria da Dívida Cidadã.
Por tudo isso, a Auditoria Cidadã luta pela realização da auditoria da dívida pública brasileira, o que possibilitará enfrentar os diversos indícios de ilegalidades já denunciados desde a CPI da Dívida e rever esse processo que vem se tornando cada vez mais pesado e injusto para o país, atingindo principalmente os mais empobrecidos e a classe trabalhadora.

15 anos da Auditoria Cidadã da Dívida – 15 anos de muita luta
Nesta luta árdua encontra-se na linha de frente à Auditoria Cidadã da Dívida, uma associação sem fins lucrativos, há 15 anos congrega diversas organizações – sindicatos, associações de classe, órgãos eclesiásticos e movimentos sociais – e militantes que se dedicam a investigar o endividamento público brasileiro, devido ao enorme impacto desse processo sobre o atendimento aos direitos sociais em nosso país. A entidade surgiu imediatamente após a realização do grande Plebiscito Popular da Dívida Externa no ano 2000, quando 6 milhões de cidadãos, em 3.444 municípios brasileiros, disseram NÃO à manutenção do acordo com o Fundo Monetário Internacional, à continuidade do pagamento da dívida externa sem a realização da auditoria prevista na Constituição Federal e à destinação da maior parte dos recursos orçamentários a especuladores.
A motivação essencial da luta da Auditoria Cidadã da Dívida consiste na revisão do processo de endividamento brasileiro, cujo ciclo atual teve início durante a ditadura militar nos anos 70, e desde então vem submetendo o País por meio de planos de ajuste fiscal e outras medidas correlatas que aprofundam continuamente as desigualdades sociais em nosso País. A Auditoria Cidadã luta pela realização de completa auditoria desse processo, para que todas as ilegalidades e ilegitimidades possam ser segregadas e devidamente repudiadas.
Em 2015 a Auditoria realizará, em outubro, Seminário Nacional para tratar do assunto. Esse seminário será construindo a partir das bases sociais em cada estado, visando democratizar cada vez mais o conhecimento e transformar a Auditoria Cidadã em ferramenta de luta social.

Auditoria Cidadã da Dívida: esta luta deve ser de todos!
*Com informações da Auditoria Cidadã da Dívida.
Fonte: Auditoria Cidadã da Dívida

segunda-feira, 23 de março de 2015

Ponta do Coral é “ponta” da luta por terra na Ilha da Magia



Crédito: Movimento Ponta do Coral 100% Pública


Texto: Míriam Santini de Abreu, de Florianópolis
Fotos: Jerônimo Rubim 

Uma ponta de terra na avenida mais badalada de Florianópolis simboliza a disputa por uma cidade voltada ao lucro ou à população. O lugar mencionado é a Ponta do Coral, promontório vizinho da Casa do Governador, na Avenida Beira-Mar Norte, que aparece nos cinco primeiros lugares do ranking do metro quadrado mais caro da capital catarinense. Cenário em disputa: área de lazer em uma cidade carente delas ou endereço de hotel com 18 andares e 210 apartamentos.
A luta para que a área seja parque público vem dos anos 1980, mas em 2015 ganhou contornos dramáticos. Em fevereiro a prefeitura de Florianópolis autorizou a construção do hotel, que também já recebeu licença ambiental prévia (LAP) da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma). As licenças cheiram a ilegalidade.
Acontece que, em janeiro de 2014, a Câmara de Vereadores aprovou o novo Plano Diretor da capital. Essa lei permitiu que, na Ponta do Coral, delimitada como Área Turística de Lazer (ATL), o empreendimento tenha até seis pavimentos. A proposta para transformação em Área Verde de Lazer (AVL) foi derrotada pela maioria dos vereadores. Mas não se passaram nem dois meses depois da aprovação do Plano Diretor e o prefeito Cesar Souza Júnior (PSD) assinou dois decretos que abriram brecha para permitir o hotel com 18 andares, atropelando assim o Plano Diretor, a lei maior de ordenamento da expansão urbana do município.
A Hantei queria mais. O projeto original previa 22 andares e um aterro de 34 mil metros quadrados. A empresa, em sua página na internet, usava adjetivos como “uma das cidades mais dinâmicas do mundo”, cidade “do novo século”, “capital mais saudável do país”, “reserva da biosfera urbana modelo”. Mas quem mora nas áreas de risco dos morros de Florianópolis, e treme de pavor a cada tempestade que varre a Ilha, não vai citar esses adjetivos. Para os moradores dos 65 assentamentos ou comunidades de baixa renda do município, com precárias condições de água, luz, educação, saúde e transporte, esses conceitos de “marketing” são vazios.

Turismo de luxo
No Seminário Interuniversitário intitulado “Hotel na Ponta do Coral: Quem ganha? Quem perde?”, realizado no dia 20 de março, Paulo Capela, professor do Centro de Desportos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), alertou que o projeto no qual o empreendimento está embutido quer transformar Florianópolis em “cidade mundial”. Uma das premissas é o estímulo ao turismo de luxo, pelo qual o espaço reservado à classe trabalhadora é aquele onde ela tenha a menor visibilidade. “Não interessa a esse projeto, desenhado há cerca de 20 anos, que haja uma organização social que o contraponha”, disse Capela.
A luta por esse “pedacinho de terra perdido no mar”, como canta o hino de Florianópolis, ficou aguda desde a segunda metade dos anos 1980. Famílias empobrecidas se organizaram e houve muitas vitórias, com a legalização de áreas onde antes as pessoas eram vistas como “invasoras”. Mas também nessa época a capital catarinense ficou sob os holofotes por ter virado uma mercadoria apetitosa e lucrativa, a “Ilha da Magia”. Mercadoria turismo. A disputa tornou-se mais forte.
A Ponta do Coral é hoje um dos símbolos deste embate. Há outros. Mas falamos dela porque a decisão sobre a forma de ocupação a ser feita ali sintetiza boa parte do que, no Brasil, transforma o cidadão em consumidor e faz dele alguém em busca de privilégios, e não um sujeito de direitos. Essa frase é de um grande geógrafo brasileiro, Milton Santos.
A gula pela mercadoria turismo afeta outras paragens, como em Recife, onde a poderosa construtora Queiroz Galvão, aliada a empresas, à prefeitura de Recife e ao governo de Pernambuco, planeja construir um empreendimento gigantesco batizado de NovoRecife, mas sob protestos do movimento social e ambiental. Coisa bem parecida com a Ponta do Coral, onde os empreendedores, o poder público e a mídia se unem em torno do discurso da geração de empregos, do “desenvolvimento sustentável” e da “inclusão social”.
A Hantei, por exemplo, é a patrocinadora do Jornal do Almoço, o mais badalado da RBS TV – retransmissora da Globo - que mostra com generosos minutos o suntuoso projeto da empresa a cada vez que fala dele. Santa Catarina ainda enfrenta essa catástrofe informativa: o grupo gaúcho é dono dos quatro maiores jornais diários do estado. Seus colunistas usam tevê, rádio e jornal para rugir a favor do hotel, classificado de “maravilhoso” e “moderno”. Quem é contrário ao empreendimento recebe os adjetivos de “xiita” e “ecochato” e obviamente não tem espaço nos meios de comunicação do grupo.

Ponta de terra é na avenida mais badalada da Ilha da Magia

Exemplar precioso
A Ponta do Coral teve uma importância estratégica no passado, como ponto de visualização quando a Ilha contava com um sistema de defesa composto por várias fortificações e pontos de vigia. Com a construção do aterro para a hoje engarrafada Avenida Beira-Mar Norte, no final dos anos 1970, a ponta avançada sobre o mar ficou como um dos poucos elementos geográficos com as características físicas que o distinguiram no período colonial.
O Colegiado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC deu parecer esclarecedor: “Julgamos que o fato de a Ponta do Coral apresentar-se como patrimônio coletivo está, antes de tudo, em sua excepcionalidade: dificilmente existirá na Ilha de Santa Catarina outro lugar com vocação tão extraordinária para o uso público, seja como parque urbano ou equipamentos afins. Sua inserção urbana, em área central e ricamente acessível, bem como seus atributos paisagísticos e históricos - o contato físico com o mar e visual com o entorno natural e construído, próximo e distante - fazem da Ponta do Coral um exemplar raro e precioso, configurando assim uma área de interesse público por excelência”.
Até 1930 a Ponta do Coral era ocupada por particulares. Naquele período a Standard Oil, depois a Esso, fizeram ali um depósito de combustíveis. Em 1960, a Esso vendeu a área para o Governo do Estado e, em 1979, houve a transferência para a Fucabem – que controlava os chamados “Abrigos de Menores”.
Depois de um incêndio - com fortes suspeitas de provocado – no local, em 1980, a Fucabem, através do governador do estado naquela época de ditadura miliar, Jorge Bornhausen, vendeu o terreno para a Carbonífera Metropolitana, procedimento sem licitação e que não passou pela Assembleia Legislativa. Depois a dona foi a Carbonífera União e, mais adiante, em 1991, a Nova Prospera Mineração, agora parceira da Hantei no projeto. Há informação recente, em nota publicada na revista Exame, de que o Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi, dos Emirados Árabes, também está no negócio. Resumindo, nos anos 80, portanto, o terreno público, por negociações suspeitas, passou a ser privado.
Essas informações estão no projeto "Breve histórico sobre a Ponta do Coral em Florianópolis - do século 18 aos dias atuais", produzido pelo gabinete do ex-vereador petista Mauro Passos. Em 2000, o projeto dele que transformava aquela área em Área Verde de Lazer parecia estar no ponto para virar realidade. Dois anos depois, o PLC 245/2000 foi levado à primeira votação, sendo aprovado por unanimidade pelos vereadores presentes no Plenário da Câmara. Mas manobras na relatoria do projeto fizeram com que, em 2005, fossem aprovadas emendas que permitiram a possibilidade de construção de hotel.
Foi do mesmo modo – mudando a lei – que o projeto do badalado Costão Golf, no norte da Ilha, saiu do papel. É assim. A lei vale quando beneficia quem tem poder de pressão para dela tirar lucro, como ficou claro na Operação Moeda Verde, da Polícia Federal, que em 2007 desnudou a corrupção que permite a construção de empreendimentos ilegais na Capital.
Mas há resistência contra isso, graças à qual Florianópolis hoje tem espaços públicos de lazer como o Parque da Luz, na cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz, que foi o resultado da mobilização - desde o final dos anos 80 - da associação local, do movimento ambientalista e de universitários. A população do Sul da Ilha lutou e ganhou a Lagoa do Peri e o bairro Coqueiros também conquistou o Saco da Lama.
O movimento popular agora está fazendo circular um abaixo-assinado “SOS Florianópolis - Ponta do Coral 100% Pública e sem edificações e pela criação do Parque Cultural das 3 Pontas”. São elas a Ponta do Coral, a do Goulart e a do Lessa, as três na embocadura do Manguezal do Itacorubi. O objetivo é que a Câmara de Vereadores aprove o projeto para criação do Parque, através de projeto de iniciativa popular.  A imprensa, porém, quando fala do assunto, praticamente só dá destaque para a ideia faraônica da Hantei.

Cinco dimensões
O professor Flávio Villaça, que ministrou palestra na UFSC sobre o tema “Espaço Urbano e Conflitos Sociais” e tem várias publicações sobre o tema, elucida a questão. Ele diz que a terra urbana só interessa como terra-localização, como meio de acesso a toda a cidade. Portanto, a acessibilidade é o valor de uso mais importante para a terra urbana. De um de seus livros, pincei uma frase isolada que retrata a luta que envolve a Ponta do Coral: “Apenas os terrenos vagos têm seu preço continuamente atualizado; só, entretanto, quando estiverem com o uso certo no momento certo, estarão com seu valor plenamente realizado”.
Ora, um terreno que passou de mão em mão ao longo de décadas, e agora está localizado em um metro quadrado “vip” da Ilha que virou “Meca do Turismo”, está no momento certo, para seus supostos donos, para ser devorado. Nesse processo de “engorda” do terreno, a Hantei e a prefeitura o deixam largado, com mato crescendo. Isso dá aos incautos o argumento, que volta e meia aparece nos jornais, de que precisa de hotel para evitar o abandono...
Para o professor e vereador Lino Peres (PT), a luta pela Ponta do Coral 100% Pública tem cinco dimensões. Uma é a dimensão histórica de conflitos, carregada de avanços e retrocessos, em uma área que mobilizou professores e estudantes da UFSC, particularmente os da Arquitetura, no início de 1981, contra a demolição do Abrigo de Menores. O local estava em ruínas por causa do incêndio, e clamava-se pelo uso e acesso público à área.
Desde lá, lembra o professor, o lugar vem se impregnando de um longo período de lutas, que hoje culmina no Movimento Ponta do Coral 100% Pública. Há também, segundo Lino, a dimensão jurídico-fundiária, de tramitação duvidosa e irregular. A terceira é a dimensão socioambiental, que vai desde as primeiras propostas de uso cultural, nos anos 80, por acadêmicos, até o Projeto das Três Pontas e todo o simbolismo paisagístico da área, o último promontório insular. 
A quarta é a dimensão acadêmica, pois muitos trabalhos de conclusão de curso, como nos de Arquitetura e Urbanismo da UFSC e UNISUL, foram inspirados na Ponta, todos dando a ela um uso público e cultural. Por fim há a dimensão legislativa: “Essa dimensão implica a transformação de Área Verde de Lazer -  incluída no Plano Diretor de Florianópolis de 1976 - em Área Turística de Lazer, modificação esta manipulada na Câmara Municipal”, finaliza Lino.

Espaço para as futuras gerações
Em um dos Atos em defesa da Ponta do Coral, o arquiteto Loureci Ribeiro, envolvido nessa luta desde os anos 80, deixou claro que a situação de abandono atual da Ponta do Coral só ocorre porque o poder público assim quer. O local é deixado em espera, enquanto germina a especulação. Loureci disse que representantes das elites políticas atrasadas, empresários e políticos inescrupulosos fazem da coisa pública e dos cargos públicos instrumentos e objetos de suas rendas e de seus financiadores de campanha. “Assim a cidade deixa de ser espaço de realização plena e digna de vida para o conjunto da população e para nossas futuras gerações”, afirma o arquiteto.
Nesse sentido, é esclarecedora a avaliação do professor Luís Roberto Marques da Silveira, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC: “Nos anos 80, de uma tacada só, desmantelaram um espaço público e uma história”, disse ele no Seminário Interuniversitário sobre o projeto do hotel.
Enquanto a Hantei articula políticos, empresários e jornalistas para sua causa, o Movimento Ponta do Coral 100% Pública busca sensibilizar a população para os impactos que o hotel irá causar. A luta pela criação do Parque Cultural das 3 Pontas visa a conservação ambiental e cultural das únicas áreas naturais remanescentes da antiga formação geomorfológica da Baía Norte. A meta é garantir o uso público e adequado da região, estimulando um turismo de alta qualidade, que permita a interação entre a população e os visitantes com a natureza. “Outro objetivo do Parque é a geração de trabalho e renda para a população e economia local, nos setores da pesca artesanal [três comunidades pesqueiras cercam a área], gastronomia, artesanato, lazer, turismo ecológico, histórico e cultural”, diz a arquiteta Elisa Jorge, integrante do Movimento.
Nos últimos anos, diversos pareceres de órgãos públicos, como a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), defendem o caráter público e cultural da área. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) emitiu parecer contra o empreendimento de hotel, destacando que a Ponta do Coral fica na Zona de Amortecimento da Estação Ecológica de Carijós, bem como do Parque Municipal do Manguezal do Itacorubi. 

Celebração na Ponta no Dia Internacional da Mulher
Pandorgas livres
2015 já viu ao menos meia dúzia de Atos públicos na Ponta do Coral. Deles participam militantes envolvidos na luta desde os anos 80, ambientalistas, sindicalistas, professores e, agora, muitos jovens universitários e secundaristas. Cada vez mais pessoas atendem aos chamados nas redes sociais. No dia 8 de março, em uma celebração às mulheres, quem estava lá viu um grupos de meninos soltar pandorga perto de onde a ponta de terra encontra o mar.
A cena, para mim, ligou 1998 a 2015. Naquele ano, um garoto que se chamava Willian Barbosa de Araújo e tinha 12 anos foi eletrocutado em Canasvieiras quando soltava uma pandorga. O fato inspirou a criação de um grupo chamado Pandorgas Partidas, formado por professores e estudantes. Eles pintaram um mural no Centro de Ciências da Educação da UFSC que dizia: “Uma pipa arrebentou e caiu nas ruas da cidade. Já não se escutam as brincadeiras, o riso, o jogo das mãos que a seguravam. Quem vai resgatá-la?”.
Pois em 8 de março de 2015, um menino chamado Guilherme Gabriel Antunes da Silveira, de 12 anos, também saiu de casa, lá nos altos da rua José Boiteux, no Maciço do Morro da Cruz, a espinha montanhosa que corta a Ilha de Norte a Sul. Ele tinha um destino, a Ponta do Coral, e um objetivo: soltar pandorga.
Sem saber, o Guilherme voltava a realizar o sonho daqueles meninos do Abrigo de Menores, expulsos de lá por um incêndio com indícios de criminoso. Na Ponta eles jogavam futebol e certamente soltavam pipas. Na época, antes de ser rasgado pela Beira-Mar Norte, o lugar formava uma extensão contínua entre o Maciço do Morro da Cruz, o sopé da montanha do bairro da Agronômica e o promontório da Ponta do Coral.
A avenida cortou também aquele sonho e o fio de tantas pandorgas que não mais voltaram a voar. Mas agora há esse clamor: que a Ponta do Coral volte a germinar sonhos no ar das pandorgas, nos pés de meninos jovens do futebol, nos barcos dos pescadores e visitantes na embocadura do manguezal do Itacorubi.
Guilherme, esse pequeno conhecedor da arte dos ventos, e seus amigos pintaram um outro mural, real, num espaço verde que – assim seja – pertencerá a toda a população de Florianópolis e às suas pandorgas.

O pequeno senhor dos ventos
 


domingo, 22 de março de 2015

Cruz e Sousa - ainda em abandono

Ato/protesto no aniversário de morte de Cruz e Sousa, em Florianópolis. Memorial que deveria abrigar a obra do poeta está abandonado.Movimento Negro Unificado e mandato do vereador Lino Peres organizaram a homenagem e o ato.