Acompanhe o segundo programa: Pobres e Nojentas no Mercado
Oldemar Olsen Júnior é um dos mais importantes escritores de Santa Catarina e ocupa a cadeira número 11 da Academia Catarinense de Letras. Nascido em 1955, na cidade de Chapecó, desde cedo se descobriu um leitor insaciável e aos 13 anos já se debruçava sobre um romance que acabou sem final. Desde aí escreveu poemas, contos, crônicas e outros romances, esses sim terminados. Alguns ganharam prêmios importantes. Oldemar é um criador por natureza, e um contestador. Toda essa indignação que o consome escorre para os escritos, para os romances, e se divide com o mundo. Tem cinco livros publicados, dois de contos: Os esquecidos do Brasil , livro de estreia em 1993, Desterro, SC, de 1998; um romance: Estranhos no Paraíso , em 2000; um livro de crônicas: Confissões de um Cínico, em 2002 e ainda uma novela: O Burguês Engajado, de 2003.
É amante contumaz dos Beatles, dos quais sabe tudo o que se possa saber. Hoje vive em Rio Negrinho, interior do estado, e segue escrevendo crônicas para jornais. Por agora está escrevendo um "pequeno romance", que deverá ter 600 páginas.
Encontramos com ele no Mercado Público, comprando um peixinho. O encontro rendeu um divertido e interessante papo. Confiram e deliciem-se!
terça-feira, 19 de novembro de 2013
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Meninos por um fio
Por Raquel Moysés - jornalista
Quem sabe a vida do menino Erick poderia ter sido salva se o setor de queimados do Hospital Infantil de Joinville não tivesse sido fechado em 2011. Quem sabe, o garotinho não poderia ter sido transferido imediatamente de Lages, no planalto serrano, para a maior cidade catarinense, no norte, sem ter de esperar uma semana por uma vaga em outro Estado.
Mas por que será que nos dias em que tanto se falou da situação desesperadora do menino de quatro anos que sofria, com 70% do corpo queimado, muito pouco se disse e menos ainda se explicou sobre o fechamento, em Joinville, dos dez leitos antes destinados aos pequeninos que desgraçadamente se queimassem?
O menino Erick Pereira Melo, filho do pedreiro Michael e da vendedora Ariana, morreu no dia 30 de outubro de 2013, enquanto a equipe médica do Hospital Seara do Bem, de Lages, cuidava dele e aguardava a melhora de seu estado clínico para finalmente transferi-lo a um hospital de Porto Alegre. Erick se queimara na tarde de 23 de outubro, enquanto brincava com fogo e álcool com um amiguinho de sete anos, no Bairro Jardim Celina, na cidade serrana.
A história desesperadora do menino e sua família mostra que há variáveis não controláveis, dependendo da gravidade dos casos e da incerteza de se dispor, no tempo necessário, dos setores especializados e dos leitos exigidos para o tratamento da saúde de seres humanos.
A morte de Erick poderia ter ocorrido de qualquer forma, mesmo se não tivesse sido desativada a ala de queimados do Hospital Materno Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, de Joinville. A sua vida talvez não pudesse ter sido salva ainda que houvesse, no mesmo dia do acidente, um leito disponível no Hospital Infantil de Florianópolis. Talvez também não tivesse sido possível salvá-lo se ele fosse transferido para o hospital da capital gaúcha, quase uma semana depois da fatalidade.
Mas, como estamos sempre no terreno das hipóteses, permanece aberta uma pergunta, que não quer calar: – E se não fosse assim? E se apenas uma entre as possibilidades acenadas pudesse permitir a salvação do menininho que se queimou durante uma infeliz brincadeira infantil? Quantos meninos ainda terão que morrer para que sejam respondidas perguntas que não nos deveriam dar sossego?
Em 2011, quando a ala de queimados do Hospital Infantil de Joinville foi fechada, os meios de comunicação deram discreta cobertura ao acontecimento, denunciado pelo Fórum Catarinense em Defesa do SUS e contra a Privatização da Saúde. Na ocasião, o deputado Amauri Soares, que faz parte da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, ressaltou que o Hospital Materno Infantil de Joinville é administrado por uma Organização Social (OS), de Curitiba, que venceu a licitação aberta, em 2008, pelo governo estadual, para terceirizar a gestão do hospital público catarinense. Soares enfatizou que o tratamento de queimados é longo e doloroso, e que isso talvez pudesse contrariar a expectativa da OS com a execução de serviços que tragam retorno rápido e justifiquem maiores investimentos públicos no hospital.
Com a desativação do setor no hospital do norte catarinense, a única alternativa para atendimento pediátrico especializado em queimados passou a ser a do Hospital Joana de Gusmão, de Florianópolis. E este hospital, o único infantil da capital, então contava com apenas dez leitos de UTI, (no momento reduzidos a oito, por causa da reforma em andamento), para dar conta de todas as regiões de Santa Catarina.
A justificativa para fechar a ala de queimados, dada pela direção da Organização Social Hospital Nossa Senhora das Graças, que desde 1º de setembro de 2008 responde pela gestão do Hospital Infantil de Joinville, é de que a demanda atendida não justificava o repasse de recursos do Ministério da Saúde e não seria mantida pelo governo do Estado. Em seis meses, segundo informaram, haviam sido registrados 25 atendimentos, uma média de um paciente por semana. E taxa de ocupação tão baixa não dava o “retorno” esperado.
A direção da OS somente só não explicou o que significava “retorno”. Serviço de saúde tem que dar lucro? E se fosse apenas uma criança a salvar - como o menino Erick - ainda assim não estaria justificada a existência do setor de queimados? Salvar uma vida é o mesmo que salvar o mundo inteiro, diz o Talmude.
Através de sua assessoria de imprensa, a direção do hospital afirmou, na ocasião do fechamento do setor, que nenhum profissional seria demitido e que a população não seria prejudicada. A “única” diferença é que os casos mais graves de queimadura, de acordo com o quadro clínico e a disponibilidade de vagas, seriam atendidos no Joana de Gusmão. O hospital infantil da capital, segundo avaliou-se em 2011, conseguiria atender toda a demanda de Santa Catarina. Já os dez leitos reservados para os queimados, em Joinvile, seriam destinado a outros serviços.
Serviços que dariam um maior retorno? Mais lucrativos?
Conforme foi divulgado, a organização social paranaense que administra o hospital há cinco anos estaria avaliando a possibilidade de destinar aquele espaço a demandas “mais urgentes”. Como, por exemplo, uma ala psiquiátrica infanto-juvenil, que seria a primeira em Santa Catarina destinada especificamente a pacientes com até 16 anos.
A criação desse setor para crianças e adolescentes havia sido cobrada do governo de Santa Catarina, através de uma ação civil pública, pela 4ª Promotoria de Justiça de Joinville. A obra, no entanto, em 2013, ainda faz parte da lista de promessas do governo estadual para investimentos em saúde. Mas a criação de um setor psiquiátrico infanto-juvenil em Joinville, segundo a promotoria, fazia parte do cronograma de serviços do contrato firmado entre o Estado e a OS Hospital Nossa Senhora das Graças, e isso deveria ter sido cumprido em abril de 2009.
O que pouca gente sabe é que tais acontecimentos trágicos têm relação direta com a política de privatização dos serviços públicos de saúde, de vento em popa no Brasil. A apropriação desses serviços pelo sistema privado vem acontecendo em Santa Catarina e em todo o país, com o respaldo de uma bem tramada rede de legislações, que facilitam a entrega de bens públicos para atender a interesses de grupos particulares.
Através de leis e normativas, empresas e fundações de direito privado – mascaradas de Organizações Sociais (OSs), Parcerias Público-Privadas (PPPs), Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscips), Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) – se apoderam, com finalidade de lucrar, de fundos estatais (o famoso dinheiro público), arrecadados através da cobrança de altos impostos pagos pela população.
Os nomes simpáticos até podem ocultar a natureza dessas organizações, mas seus estatutos as escancaram. Elas são, na verdade, empresas privadas, que auferem lucros, enquanto se anunciam como sendo até de fundo caritativo. E os que desconhecem as novas formas de privatização, dificilmente desconfiariam de siglas banais, que escondem verdadeiras arapucas de captação “filantrópica” de preciosos bens públicos, como, por exemplo, hospitais e serviços do Sistema Único de Saúde, o SUS.
Em Santa Catarina, embora haja desde 2007 uma decisão do Ministério Público do Trabalho, transitada em julgado (isto é, da qual não se pode mais recorrer), proibindo transferir hospitais estaduais para Organizações Sociais, o governo catarinense prossegue a escalada de privatização de serviços essenciais de saúde. Seis unidades já foram terceirizadas, entregues para Organizações Sociais de direito privado, segundo denuncia o SindSaúde-SC. Todas elas de vital importância para a saúde da população: o Centro de Pesquisas Oncológicas (Cepon); o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (Hemosc); o Hospital de Araranguá; parte do Regional e o Hospital Materno Infantil, ambos de Joinville; o Hospital de São Miguel do Oeste.
Igualmente são alvo dessas novas formas de privatização o Hospital Florianópolis, o Hospital de Ibirama e a parte do Regional de Joinville que ainda resta pública. Nem mesmo o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o SAMU-192 se livrou deste destino, tendo sido entregue pelo governo estadual à Organização Social Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM).
No caso do SAMU-192, uma contenda judicial ainda se arrasta em meio a decisões provisórias. Uma liminar, que em agosto de 2012 determinara a suspensão da terceirização do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, foi derrubada por decisão Tribunal de Justiça de Santa Catarina, o qual deliberou pela continuidade da gestão terceirizada até ser julgado, pelo Supremo Tribunal Federal, o mandado de segurança que ordenou o retorno da gestão ao governo do Estado.
A gestão da organização social paulista, no entanto, não conseguiu evitar a interdição total do prédio do SAMU em Florianópolis. A decisão judicial de interditar a edificação, através de liminar obtida em ação civil pública ajuizada pela 33ª Promotoria de Justiça da Capital, foi tomada para afastar o risco de proliferação de doença e contaminação da população em razão da precariedade das instalações.
Como se vê, nada confirma a propalada eficiência das festejadas Organizações Sociais (OS´s), apresentadas como a salvação da saúde pública, assim como agora se quer impor nacionalmente às universidades federais a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) como a redenção dos Hospitais Universitários (Hus e HCs).
Empresas de direito privado, que recebem polpudas somas de dinheiro público, com autonomia total para decidir sobre vagas, compra de materiais, aplicações no mercado financeiro, contratação de trabalhadores pela CLT, etc, essas organizações, apresentadas como tábuas de salvação, abrem as portas para “todas as formas de clientelismos possíveis”. É o que denuncia a Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, movimento que reúne os fóruns estaduais em defesa do SUS.
Em São Paulo, segundo divulgou a Frente, um levantamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE) provou que um mesmo cateter que era comprado através de licitação por R$ 0,55, custava para uma Organização Social R$ 2,55. Outro estudo do TCE também demostrou que em estabelecimentos hospitalares administrados por OS's, em São Paulo, a mortalidade geral é maior e o número de funcionários por leito menor do que nos hospitais administrados pelo Estado.
Dados como os citados comprovam o quanto é escandaloso investir recursos públicos no setor privado que trabalha com a saúde humana na lógica da mercadoria. Assim como é vergonhoso que gestores de saúde fechem setores essenciais “não lucrativos”, ferindo o direito humano à vida e ao cuidado na aflitiva hora da doença.
A morte de um garoto de quatro anos, lá na serra catarinense, tem o poder de acender um sinal de alerta em cada um de nós. Já não basta dizer palavras de ordem em manifestações e guardar silêncio na vida cotidiana. “Morreu um menininho! Podia ser meu filho!” E, afinal, não é mesmo? Erick não é um filho da humanidade?
“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte...
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora...
Quem grita vive contigo!”
(“Menino”, de Milton Nascimento)
domingo, 10 de novembro de 2013
Fórum Unificado de Comunicação
No dia 5 de novembro, em Florianópolis, jornalistas, dirigentes sindicais e representantes de movimentos sociais criaram um Fórum Unificado de Comunicação. Participaram da criação do Fórum as seguintes entidades: Sindprevs/SC, Sinasefe, Sindaspi, Sintrajusc, Seeb Floripa, Sintespe, Sintufsc, Sindicato dos Farmacêuticos, Sindes, CUT/SC, MST, Cooperativa de Produção em Comunicação e Cultura (CpCC), Portal Desacato e Revista Pobres & Nojentas.
O Fórum terá como uma de suas prioridades fomentar a discussão da imprensa sindical e alternativa no Estado, diante da necessidade da disputa de hegemonia com a mídia burguesa. A próxima reunião será realizada no dia 26 de novembro (terça-feira), às 9h, no Sindprevs/SC. Na reunião, será definido o nome do Fórum e aprovado o manifesto que conterá a sua linha política de atuação.
Este é um primeiro passo pra acirrar a luta em Santa Catarina contra o monopólio da mídia e pela democratização da comunicação. Por uma comunicação para os trabalhadores! Esta luta deve ser de todos nós!
O Fórum terá como uma de suas prioridades fomentar a discussão da imprensa sindical e alternativa no Estado, diante da necessidade da disputa de hegemonia com a mídia burguesa. A próxima reunião será realizada no dia 26 de novembro (terça-feira), às 9h, no Sindprevs/SC. Na reunião, será definido o nome do Fórum e aprovado o manifesto que conterá a sua linha política de atuação.
Este é um primeiro passo pra acirrar a luta em Santa Catarina contra o monopólio da mídia e pela democratização da comunicação. Por uma comunicação para os trabalhadores! Esta luta deve ser de todos nós!
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
“Pobres & Nojentas no Mercado”: jornalismo de classe
O programa “Pobres &Nojentas no Mercado” leva para o vídeo os mesmos princípios que desde 2006 dão o sul da Revista Pobres &Nojentas, de Florianópolis. A cada 15 dias o canal da P&N no YouTube apresenta um novo episódio com entrevistas gravadas em um dos mais “nojentos” pontos de encontro da Capital catarinense, o Mercado Público, onde o povo se encontra para buscar o alimento do corpo e da luta.
A P&N, que começou impressa, vai assim se enraizando nas chamadas mídias sociais, como o blog, ativo desde 2007, e a conta no Facebook. Com o YouTube, a equipe pode também explorar o vídeo sem tempo contado para dar sua palavra. Os entrevistados são escolhidos como são os da revista: pessoas "nojentas", gente da vida real, que atua no turbilhão, que pensa, age, pesquisa, caminha, divulga, sorri. A palavra que dizem é libertária, criadora, caminheira.
Essa é uma caminhada que seguimos fazendo, sempre com a marca da revista, a de um "jornalismo de classe", porque sabemos exatamente qual é nosso lugar nesse mundo.
Nossa conta no YouTube é:
Visita a gente!
A P&N, que começou impressa, vai assim se enraizando nas chamadas mídias sociais, como o blog, ativo desde 2007, e a conta no Facebook. Com o YouTube, a equipe pode também explorar o vídeo sem tempo contado para dar sua palavra. Os entrevistados são escolhidos como são os da revista: pessoas "nojentas", gente da vida real, que atua no turbilhão, que pensa, age, pesquisa, caminha, divulga, sorri. A palavra que dizem é libertária, criadora, caminheira.
Essa é uma caminhada que seguimos fazendo, sempre com a marca da revista, a de um "jornalismo de classe", porque sabemos exatamente qual é nosso lugar nesse mundo.
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domingo, 3 de novembro de 2013
A Dura Realidade dos Terceirizados
Por Flavia Alli, jornalista - Matéria reproduzida: Jornal da
ASSUFRGS / Out. 2013
O PL 4330 é a nova armadilha do governo federal a serviço
das empresas.
O Projeto de Lei esconde a verdadeira face do
desmantelamento dos direitos básicos e sociais conquistados pela classe
trabalhadora no curso da História, com vistas a diminuir os custos de trabalho
para aumentar os lucros dos empresários.
O PL 4330 promete regulamentar a terceirização no país. Mas,
se mostra enquanto ideologia quando vemos, na prática, pois o modelo de
contratação permite que seja adotado em todos os setores da empresa, abrindo
caminho para que todos os trabalhadores sejam pessoas jurídicas. Na realidade,
o projeto permite uma flexibilização dos direitos trabalhistas: acabando com
13º salário, férias remuneradas, FGTS, vale-transporte e refeição, assistência
médica e aposentadoria, seja para trabalhadores do campo ou da cidade. Além
disso, a Emenda 3 prevê restrições fiscais do Ministério do Trabalho e da
Previdência para punir as empresas que mantenham vínculo empregatício como
prestadores de serviços.
O PL 4330 quebra a regra colocada pela CLT, no que diz
respeito a vinculação do empregado diretamente com a empresa, permitindo que
aumente a concorrência entre os próprios trabalhadores na venda da sua força de
trabalho. Com a alta concorrência entre a própria classe trabalhadora, diminui
os custos de produção, pois permite aos capitalistas que paguem salários
menores frente a carnificina em busca de trabalho para sobreviver.
Este fato não é agitação barata da esquerda: Segundo dados
do Dieese, os trabalhadores terceirizados ganham em média 27,1% menos que os
contratados diretamente – aumentando a desigualdade de renda.
A jornada de trabalho também sofre ataques, uma vez que
trabalham três horas a mais por semana para as empresas, em condições de
trabalho bem mais sucateadas: 8
a cada 10 trabalhadores que sofrem acidentes de trabalho
são terceirizados. Os dados são ainda mais estarrecedores quanto às vítimas de
morte por tais acidentes: a cada cinco trabalhadores mortos, quatro são
terceirizados.
TERCEIRIZADOS REALIZAM SUAS REFEIÇÕES NOS BANHEIROS
SANITÁRIOS E MATOS, NA UFRGS.
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul o quadro não é
muito diferente. Para mostrar a degradante situação que são expostos os
trabalhadores terceirizados na Universidade, a imprensa da ASSUFRGS realizou
entrevistas com vítimas deste modelo de contratação.
A fim de evitar perseguições e retaliações por parte das
empresas e da reitoria, os trabalhadores tiveram seus nomes trocados. Mas a
situação é real e precisa ser acabada.
Para Amanda, o dia inicia no Colégio aplicação com a
ausência de sala/espaço para trocar de roupa e guardar seus pertences. Em um
banheiro em reforma, improvisado, misturam-se a materiais de construção
atirados, sem condições alguma de estrutura para realizar a troca de roupas.
Mas, o dia de trabalho não para por aí: Sem local adequado
para alimentação, Amanda é apenas mais uma entre tantos terceirizados que para
se alimentar e continuar trabalhando, precisa ir ao banheiro, mais
especificamente, no vaso sanitário, para fazer a refeição.
A história de Amanda se repete semelhante aos demais
funcionários do Campus do Vale. No setor 4 do Campus, muitos deles precisam ir
aos matos do campus para realizar suas refeições. “Se a GERT nos vê comendo no
mesmo espaço dos servidores, nos dá advertência, e depois a gente sabe: vem a
demissão”, diz Amanda.
Outra terceirizada, Débora, denuncia a questão do
vale-alimentação, que também prejudica a vida do trabalhador. “A empresa
fornece um cartão vale-alimentação. O campus tem o RU, mas não aceita este
cartão”, relata Débora frente a dificuldade de garantir os direitos
trabalhistas para manutenção de uma vida saudável.
Ponto Eletrônico, chuva e sucateamento das condições de
trabalho
Os trabalhadores terceirizados, ainda, sofrem com o
sucateamento das condições de trabalho. No Colégio Aplicação, por exemplo, o
ponto eletrônico foi retirado do local, sem explicações. Essa situação faz com
o que os trabalhadores se desloquem por uma grande distância, em uma estrada
esburacada, em meio ao mato do campus, que em dia de chuva vira um verdadeiro
lodo. Os uniformes ficam encharcados, e os trabalhadores precisam continuar nas
atividades da forma que estão, colocando em risco sua própria saúde.
Outra questão é a segurança do campus, uma vez que a
Universidade comporta três turnos, e os terceirizados à noite, principalmente
as mulheres, ficam à mercê da falta de iluminação e riscos à vida e integridade
do seu corpo.
“A gente se troca num banheiro em reforma, come num vaso
sanitário, e ainda sofremos com o deslocamento do ponto eletrônico em dias de
chuva, e os colegas com a segurança à noite. Porque temos que nos esconder? Não
somos seres humanos que nem todos? Estamos sendo tratados como lixo, na
verdade!”, relata Débora.
Em outros campi da UFRGS, recebemos relatos de falta de
estrutura, bem como a obrigação de trabalhar com roupas (uniformes) rasgados,
já que as empresas não garantem ao trabalhador terceirizado seus plenos
direitos.
Cerceamento da organização sindical
A diferenciação entre contratados e terceirizados no plano
privado corresponde ao serviço público como no caso acima, em que os
terceirizados tem direitos trabalhistas muito abaixo dos servidores, e até
mesmo dos garantidos via CLT.
O PL 4330 atua também na fragmentação das lutas da classe
trabalhadora, uma vez que diferencia os trabalhadores pelo regime, e
desvaloriza o trabalho sem respeitar a dignidade humana. Sem contratar
diretamente os trabalhadores, a terceirização fragiliza a organização sindical
dos mesmos, além de extinguir a responsabilidade quanto às obrigações
trabalhistas. Isso já acontece na UFRGS: segundo Amanda, quando os
trabalhadores reclamam ou reivindicam seus direitos à GERT, esta diz que é de
responsabilidade da empresa terceirizada; e quando questionada a empresa,
empurram à administração da Universidade o problema.
O trabalhador, já que se vê restrito na luta enquanto
indivíduo, acaba não reivindicando seus direitos, pois fica passível de
retaliação e demissão por parte da empresa contratada, uma vez que não consegue
se organizar enquanto classe trabalhadora na luta por seus direitos!
Dia do Saci Pererê
A Revista Pobres e Nojentas promove desde há sete anos o "Dia do Saci", para celebrar a cultura nacional. Esse ano contou com a parceria do ator Eduardo Bolina, que movimentou a festa com seu personagem Magrão. Também participaram os velhos amigos e companheiros de luta que sabem a importância da cultura para o processo de superação da colonização mental.
sábado, 2 de novembro de 2013
O Assédio Moral no meio sindical: uma contradição na luta de classes
Texto e fotos: Marcela Cornelli, jornalista e Diretora do Sindes
“O Assédio Moral fere os direitos e retira a identidade dos trabalhadores. A Frente surgiu com o objetivo de debater e combater esta prática. Para acabarmos com o assédio moral precisamos construir várias ações, mas, principalmente, conscientizar os trabalhadores e as trabalhadoras. A Frente parlamentar tem buscado avançar nesta luta”, disse o deputado Neodi Saretta (PT), presidente da Frente, que abriu a mesa do debate.
“A atual gestão da Fites priorizou esta luta. A cartilha traz alguns diferenciais de outras cartilhas sobre o assunto. A cartilha da Fites fala do assédio cometido pelo sindicalista, traz um depoimento de uma trabalhadora em sindicato e um questionário a ser respondido pelos trabalhadores e encaminhado à Federaçãos”, disse Janilde Franco de Araújo, Diretora de Política Social da Fites, trabalhadora do Sindsprev/RJ e uma das elaboradoras da cartilha.
Na opinião de Janilde, “alguns sindicatos começaram a se transformar em grandes escritórios. É como se o sindicalista passasse a ter uma grande empresa para administrar. Ele não vai mais para a base fazer política e começa a disputar espaço com o funcionário dentro da entidade. Toda relação de trabalho tem conflitos. Isto é inerente à sociedade capitalista na qual vivemos onde há hierarquia, relação de poder e luta de classes. Mas o que deve imperar é o respeito.”
Emocionada, a diretora da Fites e do Sindes, Sivandra Krauspenhar, trabalhadora de sindicato e vítima de Assédio Moral, fez um relato do assédio que sofreu. Ela falou a dificuldade de denunciar o assédio e buscar a Justiça. “Fiquei três meses para poder escrever sobre o que aconteceu comigo. Escrever era relembrar o assédio”, conta. “Sempre trabalhei com amor e carinho. Foram 13 anos e não três dias. Não foram todos os diretores que me assediaram, mas os que não se manifestaram foram coniventes”.
“Tive sintomas como depressão profunda, paralisia da cintura para cima, dores nos braços, entre outros. Quando retornei de uma licença médica eles tiraram minhas funções. Apesar de vítima, você se sente culpada pelo assédio. O apoio doa amigos da família é fundamental. É preciso também que o trabalhador que sofre assédio procure o seu sindicato para ser orientado. O Sindes me apoiou muito.”
“Assédio moral dói. Mas, quando vem de pessoas, sindicalistas, que dizem combater esta prática, dói mais ainda”, disse Schirlei Azevedo, Representante da Rede de Combate ao Assédio Moral no Trabalho.
Para Schirlei, as relações de trabalho estão desumanizadas. Isso é resultado da sociedade capitalista que oprime os trabalhadores. “Não existe capitalismo humanizado. O capitalismo oprime e até mesmo ceifa vidas”.“O trabalho continua sendo central nas nossas vidas e quando acontece alguma coisa negativa no trabalho, isso nos abala muito. Os trabalhadores em sindicatos se questionam o porquê sofreram algum tipo de violência se não estão em uma empresa privada. Em uma empresa, se o trabalhador se submete ao assédio, é um processo rápido até a sua demissão. No sindicato leva o tempo que a pessoa aguentar”, argumentou a palestrante Margarida Barreto, médica do trabalho, professora da Universidade de São Paulo (USP) e vice- coordenadora do NEXIN (Núcleo de Estudos Psicossociais da Dialética Exclusão/Inclusão Social).
“Em uma empresa privada os trabalhadores compram a ideia de que se a empresa crescer eles crescerão juntos. Em uma entidade sindical os trabalhadores compraram a ideia de que podem transformar o mundo”, ponderou a palestrante. “Não é possível aceitar que a solidão e o sofrimento do trabalhador sejam uma coisa normal. Que a injustiça impere no local de trabalho”.
“Em uma empresa privada, a gestão visa o lucro e para isso oprime os trabalhadores. Dentro das entidades sindicais é ainda mais sofrido. Quando o trabalhador é também um militante, ele sonha com uma mudança na sociedade e quando o assédio acontece dentro do espaço que deveria ser de transformação e luta, ele perde sua identidade, desanima. Viver estas contradições é muito difícil. A solidariedade de classe precisa ser resgatada”, disse.
O presidente da Fites e do Sindes/SC, Edilson Severino, que coordenou a mesa, disse que o desafio da Fites está só começando. “É um primeiro passo. Há muito o que fazer. A cartilha será lançada em outros estados no intuito de iniciarmos um combate a esta prática nefasta aos trabalhadores”.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Dia Nacional do Saci-Pererê será comemorado em dia 31 de outubro
A Celebração do Dia Nacional do Saci-Pererê será no
dia 31 de outubro, quinta-feira, das 15 às 17 horas, na Esquina Democrática, em
frente à igreja São Francisco, na Capital. A promoção é da Revista Pobres & Nojentas, com
apoio do Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do Estado de
Santa Catarina (Sintrajusc) e do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade
Federal de Santa Catarina (Sintufsc). No dia também será lançado o novo livro
da jornalista Elaine Tavares, da equipe da Pobres & Nojentas,
intitulado "Olímpia Gayo visita o diabo". O trabalho conta a história
da freira franciscana Olímpia Gayo, que iniciou um fecundo trabalho de
organização das mulheres prostituídas em Lages. No dia haverá música, contação de
histórias, brincadeiras e distribuição de “sacizinhos”.
A lenda é assim! Basta que exista um bambuzal e, de
repente, de dentro dos caniços, nascem os sacis. É como eles vêm ao mundo,
dispostos a fazer estripulias. Conta a história que esses seres já existiam bem
antes do tempo que os portugueses invadiram nossas terras. Ele nasceu índio,
moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do
mundo Tupi-Guarani. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser
encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram
sendo dizimados.
Quando milhares de negros, caçados na África e
trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma
redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque
libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito
originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava
com o peso das correntes da escravidão.
Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma
perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o
que o escravo queria ser: livre! Desde então, essa figura adorável faz parte do
imaginário das gentes nascidas no Brasil.
O Saci-Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a
liberdade. Com o processo de colonização cultural via Estados Unidos – uma nova
escravidão - foi entrando devagar, na vida das crianças brasileiras, um outro
mito, alienígena, forasteiro. O mito do Haloween, a hora da bruxa e da abóbora,
lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo.
A história é bonita, mas não é nossa. Tem raízes
irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil. Na
verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura
alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. É por isso que a Pobres
& Nojentas quer recuperar o Saci, o brasileiro moleque das matas,
guardião da liberdade, amante da natureza que hoje está ameaçada de destruição.
Queremos vida digna, um país soberano na política,
na economia, na arte e na cultura. Cada região deste Brasil tem seus próprios
mitos. Caipora, Boitatá, Curupira, Bruxa, Negrinho do Pastoreio... São os
amigos do Saci que estão presentes na atividade do Dia do Saci Pererê, saudando
e buscando a liberdade.
SOBRE O LIVRO DA JORNALISTA ELAINE TAVARES
Prefácio escrito pela teóloga Ivone Gebara.
"Elaine Tavares tem o dom e a arte de contar
histórias de mulheres apaixonadas pela vida. Mulheres que são parte da história
oculta da bondade e da beleza e que atuaram intensamente para que esses valores
continuassem a se manifestar nas vidas sofridas e silenciadas.
"Olímpia Gayo visita o diabo" é mais uma
preciosa narrativa que revela o percurso de uma mulher que cresceu vencendo o
sofrimento que a vida punha em seu caminho. Desde criança vencia o sofrimento
preparando-se e lutando pela dignidade da vida de outras sofredoras e
sofredores.
O texto move o coração e convida a abrir os olhos
para as vidas ocultas, aparentemente sem valor, para a escória humana que somos
e criamos assim como para a salvação e libertação que também podem nascer de
nós. Sim, somos salvadoras umas das outras, somos a mão estendida, o abraço
apertado, o sentido da solidariedade, a misericórdia vivida. Somos a voz que
denúncia, que grita até que os corações de pedra comecem a palpitar de novo e
ver e ouvir o mundo ao seu redor.
Conheci Olímpia num encontro de estudos em Julho de
2013 em Lages. Sua
congregação religiosa me convidara para uma semana de reflexão sobre
espiritualidade ecofeminista. Desde as primeiras palavras que ouvi de Olímpia,
a cumplicidade nas ideias, nas visões e, sobretudo, sua forma de "sentir a
dor do mundo" ecoaram em
mim. Cada uma do nós, de seu jeito, vivia a paixão pela vida
manifestada através de muitas formas e expressa através de muitos nomes.
Tínhamos muitas coisas em
comum. Enfrentamos demônios parecidos, aqueles que atingem os
corpos de mulheres e querem silenciar seus gritos de liberdade.
Nas visitas e encontros de Olímpia com os
"diabos" da fome, da droga, da prostituição, seu nome, que faz
lembrar o Olimpo, moradia dos deuses gregos, espantava os algozes e trazia algo
apaziguador, algo ao mesmo tempo celeste e terrestre. Os diabos fugiam e se descobria sua face
oculta, sua beleza, sua momentânea integridade.
No encontro de coração a coração os diabos não ficam. Abrem o espaço
para o amor e a justiça. Por isso tantas pessoas marginalizadas encontraram na
presença de Olímpia a força para viver, levantar-se e seguir o caminho do
resgate da vida.
Ao final da leitura do livro um sentimento de
profunda gratidão e beleza tomou conta de mim. Gratidão à Elaine, à querida
Olímpia e a tantas pessoas que no anonimato sustentam a vida e anunciam a
grandeza do amor, único capaz de curar os corações partidos e renovar a face da
terra".
Ivone Gebara
Teóloga
Fites lança Cartilha sobre Assédio Moral no Meio Sindical nesta quarta
Segundo a Organização Mundial de Saúde(OMS) o Assédio Moral é definido como o uso deliberado de força e poder contra uma pessoa, grupo ou comunidade, causando danos físicos, mentais e morais. Com o objetivo de denunciar tal prática dentro do meio sindical e também de orientar os sindicatários sobre como proceder em caso de ser vítima dessa situação, a Fites - Federação Nacional dos Trabalhadores em Entidades Sindicais e Órgãos de Classe lança a Cartilha Assédio Moral no Meio Sindical.
O evento, que tem o apoio do Sindes, será realizado no dia 30 de outubro (quarta-feira) às 15 horas no Plenarinho da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis.
Para debater o tema estarão presentes no lançamento:
Edilson Severino - Presidente da Fites e do Sindes/SC;
Janilde Franco de Araujo - Coordenadora de Elaboração da cartilha e Diretora de Política Social da Fites;
Margarida Barreto – Médica do Trabalho, professora da Universidade de São Paulo e vice coordenadora do NEXIN - Núcleo de Estudos Psicossociais da Dialética Exclusão/Inclusão Social;
Schirlei Azevedo - Representante da Rede de Combate ao Assédio Moral no Trabalho;
Sivandra Krauspenhar - Trabalhadora de sindicato e vítima de Assédio Moral.
Mais informações entre em contato pelo e-mail sindes@sindes.org.br[mailto:sindes@sindes.org.br] ou nos telefones (48) 3028-4537 / 9901-8927.
Após o lançamento será servido um coquetel aos presentes.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Pobres e Nojentas no Mercado
Depois de oito anos publicando a revista Pobres e Nojentas, agora o projeto chega à televisão. A cada 15 dias, uma entrevista especial, com gente pobre e nojenta de Florianópolis e do mundo. Sempre lembrando que "pobres e nojentas" são aquelas pessoas que rompem com os conceitos estabelecidos e criam o novo. Na luta, mas com beleza!!!! As gravações serão no tradicional Bar do Alvim, no Mercado Público Municipal. 54 anos de parceria com as gentes...
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Plano Diretor: teria sido muito fácil fazer melhor
Míriam Santini de Abreu
Não se sabe que “bicho” vai pousar na Câmara de Vereadores de
Florianópolis nesta sexta-feira, e que a Prefeitura chama de projeto do Plano
Diretor. Ontem a Prefeitura organizou, na Assembleia Legislativa, a chamada
primeira Audiência Pública Geral do Plano Diretor. Mas, como não foi uma
Audiência deliberativa nem se votarem propostas, não fica claro se o Executivo
contemplou, na proposta final, o que os gestores ouviram ontem e também nos
divulgados 100 encontros nos quais levaram a proposta às comunidades.
O Auditório Antonieta de Barros estava lotado. A maior parte das
falas criticou o calendário apertado, a metodologia usada pela prefeitura e a
falta de documentos fundamentais, como os mapas de condicionantes ambientais,
para se fazer uma análise de fato da proposta. Mesmo nas poucas falas em defesa
da prefeitura, não se ouviu referências positivas em relação ao projeto, e sim
ao empenho da equipe. Ficou claro que mesmo o setor empresarial discorda do
apressado calendário para definir, em poucas semanas, o futuro da Cidade.
O prefeito Cesar Souza nem deu as caras na Audiência. O
super-secretário de Meio Ambiente
e Desenvolvimento Urbano de Florianópolis, Dalmo Vieira, apresentou as linhas
gerais, como tem feito nas reuniões. A vantagem das linhas gerais é não entrar
em detalhes que efetivamente farão a diferença quando se bater o martelo, por
exemplo, no tipo de ocupação dos nacos mais apetitosos da Capital, como o Sul
da Ilha e outras áreas ambicionadas pelo setor imobiliário.
Representantes distritais, da UFSC, da UDESC e moradores
mostraram-se preocupados também porque, apesar dos alardeados 100 encontros
feitos pela prefeitura, não se sabe o que, de fato, foi anotado e contemplado
no projeto que será entregue à Câmara. O secretário Dalmo falou muito na
responsabilidade da prefeitura e na democracia para definição do projeto, mas,
quando até setores empresariais expuseram dúvidas sobre que texto irá aparecer
na Câmara, ficou bem vaga a expressão concreta desse discurso.
Dalmo Vieira praticamente não respondeu, de fato, nenhum pergunta.
Como os questionamentos eram feitos em bloco, restrita, cada pergunta, a três
minutos, ele respondia aos tópicos menos comprometedores e ignorava aqueles que
efetivamente poderiam esclarecer as comunidades.
Membros do Núcleo Gestor Participativo do Plano Diretor,
dispensado por e-mail, pelo secretário Dalmo, de suas atribuições, levantaram
várias questões que ficaram sem resposta. Desde 2006, essas pessoas, indicadas
pelas suas comunidades e entidades, têm feitos reuniões para construir um
projeto que contemple a diversidade de representação no próprio Núcleo, no qual
a bancada empresarial tem assento. Agora, esse trabalho, expresso em documentos
construídos coletivamente, ficou no caminho em troca de outro cujo detalhamento
ainda é um mistério.
Se termina de forma lamentável essa etapa de definição dos rumos
da Capital, agora começa outra. O projeto irá para a Câmara, próximo local do
embate. E para o dia 26, das 9 às 18 horas, na UFSC, está marcada a Conferência
Popular do Plano Diretor. Dessa sairão os encaminhamentos que a de ontem
sonegou à cidade, quando, pouco depois das 22 horas, foi encerrada a Audiência
e desligados os microfones. Como disse o representante distrital da Lagoa da
Conceição, teria sido muito fácil fazer melhor.
Espionagem, soberania e o leilão do petróleo
elaine tavares
Sempre digo por aí, não sem certa tristeza: somos os arautos da desgraça.
Aqueles que sobem no mais alto monte e ficam a gritar sobre os males que virão.
Não que sejamos videntes, pitonisas, magos. Não. Apenas analisamos a realidade,
observamos as relações de causa e efeito e pronto: aí está o que pode acontecer.
No geral, as coisas acontecem mesmo. É ciência.
Desde há muito
anos denunciamos os programas de espionagem do governo dos EUA. E antes de nós
outros já denunciavam. Mas, nossas palavras ficam no vento: teoria da
conspiração, coisa de esquerdinhas, maluquices dos que são anti-progresso e
tantas outras etiquetas pejorativas que se usam para desqualificar nossas
análises e opiniões. Para a maioria da população, que conhece a realidade
através da mídia comercial, as relações com os Estados Unidos sempre foram muito
boas e assim tem de ser, afinal, esse é um país grandioso que tem muita coisa a
ensinar e oferecer. Pessoas há que, inclusive, acreditam ser muito bom ser
dependente dos EUA, já que esse é um país importante.
Em todos os meios
de comunicação de massa raras são as notícias ruins sobre os EUA. No mais das
vezes, as que aparecem são as impossíveis de esconder, como é o caso das
chacinas que jovens adolescentes praticam sistematicamente. Mostra-se o fato, a
dor, a tragédia, mas quase nunca aparece uma boa análise dos motivos que levam a
isso. O jornalismo não se presta a desvelar a realidade. É mera propaganda.
Então, fatos como esses aparecem como patologias, falhas na matrix, e não há
ligação com o fenômeno da violência de uma sociedade militar. Assim, logo em
seguida, novas notícias sobre a Disneylândia ou o lançamento do "Homem de Ferro
3" colocam as coisas todas no lugar outra vez.
Pois agora, nos últimos tempos, a espionagem dos
EUA sobre o mundo veio à tona na denúncia de um jovem estadunidense que
trabalhou para uma dessas empresas que roubam dados e fuxicam a vida de pessoas
e estados para que o governo possa atuar na defesa dos interesses da elite
dominante daquele país. A notícia se espalhou. Não havia como negar. Até então,
as provas repassadas pelo WikiLeaks eram vistas com ceticismo e seu criador,
Julian Assange, era igualmente desqualificado como pessoa, para que suas
informações se perdessem no vazio. E, afinal, Assange é um inglês, logo, poderia
ser um inimigo dos EUA, ou, quem sabe, um esquerdinha a mais.
Foi apenas quando a denúncia veio de dentro mesmo
do "monstro" que os meios de massa tiveram de dar algum destaque. Ainda assim,
tudo segue meio nebuloso. E Edward Snowden ainda está revestido de mistério.
Afinal, como um "americano" normal iria denunciar seu próprio país. Seria ele um
tolo? Assim como foi tolo o jovem Brad Manning ao denunciar as atrocidades dos
EUA no Iraque, tentando mudar essa realidade, tentando "ajudar" seu país?
Perguntas que a mídia comercial deixa no ar, para que as pessoas passem elas
mesmas a formular essas teses, aceitando-as como verdadeiras: os caras são
traidores da pátria deles.
Só isso pode explicar o fato de o Brasil ter sido
espionado naquilo que tem de mais estratégico que são suas riquezas naturais, e
tudo ficar por isso mesmo. Comprovado ficou que os Estados Unidos espionaram a
Petrobras, espionaram a presidente do país, espionaram ministros. O máximo que
se teve de repercussão foi um discurso na ONU e um pedido de explicações ao
governo dos EUA. O governo explicou? O Brasil se satisfez com as explicações? O
que está em jogo no tabuleiro da espionagem das riquezas do país?
Alguém já pensou no que aconteceria se fosse o
contrário. Se o governo brasileiro tivesse espionado alguma empresa estratégica
dos EUA, que respostas receberia do país governado por Barak Obama? Certamente a
Quarta Frota ocuparia nosso litoral. Os mariners viriam aos montes, os Seals, a
CIA, e toda a sorte de mercenários ou patriotas. Haveria uma guerra? Ocupariam
Brasília? Viriam o Rambo, o Duro de Matar, o Homem de Ferro, o Capitão América,
os Vingadores? Sim, viriam!
Mas, e o Brasil, que poderia fazer? Uma guerra?
Possivelmente não. Temos de ser realistas. Mas, uma coisa poderia ser feita sim.
Ou melhor, deveria. Cancelar os leilões da Petrobras. É fato notório e
comprovado que espionaram a empresa brasileira de petróleo. É fato que o Brasil
tem reservas imensas no pré-sal. É fato que as empresas estadunidenses estão de
olho no petróleo, não só aqui, mas em todo o mundo. Logo, se espionaram a
Petrobras estão de posse de informações estratégicas sobre os campos de
petróleo. E, sendo assim, serão as vencedoras nos leilões que mais lhe
interessarem. Não é esquerdismo, nem teoria da conspiração. É matemática. Junta
dois mais dois e tem o quatro. Não há erro.
Pois apesar de todo esse cenários de filme
roliudiano, a presidente Dilma (que foi espionada também) decidiu manter o
leilão do Campo de Libra para o dia 21. Está ajoelhada diante do império.
Nenhuma reação prática além das palavras na ONU. E mais, chamou o exército para
cercar as ruas impedindo que a população se manifeste. Submete-se
vergonhosamente aos interesses externos e enfrenta o povo de seu país como
inimigo. Porque, afinal, exército é uma instituição que existe para defender o
país de agressões externas, de inimigos.
As perguntas que as pessoas devem se fazer é: quem
são os inimigos do país? Quais são os que devem ser enfrentados? As pessoas que
aqui vivem e que querem proteger as riquezas naturais? Ou os estrangeiros que
vêm explorar o petróleo, levando as riquezas para fora do país? Seriam os
trabalhadores da Petrobras, os sindicalistas, os militantes do Movimento Sociais
os verdadeiros inimigos do Brasil? Pensem nisso... Com calma!
E aqui vão outras indagações para ligar os fios da
realidade social: que relação tem tudo isso com os protestos que tem sido
realizados nos últimos tempos? Por que foi votada uma lei que transforma em
"bandido" e "perigo nacional" aqueles que estão nas ruas se expressando da única
forma com a qual conseguem ser ouvidos? Por que se manda para os presídios
estudantes e populares que enfrentam a polícia na luta por direitos e por
soberania? Seria realmente "vandalismo" a reação desesperada de quem não
consegue ser escutado como cidadão que pensa e decide as políticas de governo?
Afinal, os governantes não deveriam governar baseado nas demandas do seu povo?
Ou devem governar baseados nos desejos de empresas transnacionais ou governos
estrangeiros?
Pois essa é a trama do tecido social que temos
estendido sobre nossos olhos. Segunda-feira acontece o primeiro leilão do
pré-sal. Nossas riquezas sendo entregues possivelmente aos mesmos que nos
espionaram. Nas ruas, as pessoas que insistem em ver o Brasil soberano, dono de
suas própria riquezas, enfrentarão mais que a polícia. Enfrentarão o exército,
colocado nas ruas para "defender" a nação. Defender o Brasil dos brasileiros.
Jovens, sindicalistas, populares, reagirão organizadamente, pacificamente.
Outros reagirão desesperadamente. A luta é desigual. De um lado, homens armados,
treinados para exterminar o inimigo. Do outro, gente indignada, apaixonada,
desesperada diante da força bruta.
E na televisão os
repórteres bem-mandandos ouvirão pessoas que chamarão de "vândalos" aos que
lutam. E aparecerão pessoas do povo dizendo que o lugar de quem está mascarado e
reage violentamente num protesto deve ser mesmo o presídio. E toda essa gente
que luta pelo Brasil soberano será colocada na condição de bandido, terrorista,
baderneiro. E os âncoras dos telejornais farão aquelas caras constritas para
falar da "violência" perpetrada por pessoas que não querem o progresso do
Brasil. O progresso deles, dos âncoras, que são os ventríloquos daqueles que
dominam, é o da entrega das riquezas, o da submissão, da dependência. E as
pessoas "de bem" dormirão tranquilas, sabendo que os "bandidos" estarão nas
cadeias.
Só que as pessoas
que lutam pela soberania nacional não são bandidas. Elas são o povo. E isso não
se acaba assim, na prisão de alguns. A luta recomeça e, de novo, nas ruas,
estarão milhões. Porque a realidade mesma é clara. Esses espaço geográfico é
dos brasileiros e dos que aqui escolheram viver. Não pode servir de lugar de
exploração, como sempre tem sido desde a invasão em 1500.
A segunda-feira
que virá escreverá os destinos do país.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Comunidades querem o Plano Diretor que construiram
Comunidades de Florianópolis realizaram nesse dia 15 de outubro de 2013 um ato público diante da Prefeitura Municipal, que destituiu o Núcleo Gestor do Plano Diretor e está apresentando para a Câmara um plano que pode não ter a visão das comunidades. Importante lembrar que as comunidades vem discutindo esse plano desde 2006.
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