terça-feira, 16 de março de 2010

Rony Martínez e o jornalismo em tempos de cólera

Elaine Tavares


A experiência popular e revolucionária da Rádio Globo Honduras durante o golpe de estado vivido por aquele país foi relatada esta manhã (16/03) pelo jornalista hondurenho Rony Martínez, que veio à Florianópolis a convite do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina. Rony relatou todas as peripécias vividas pelo pequeno grupo de jornalistas da Rádio Globo Honduras desde as primeiras horas da manhã do dia em que os militares seqüestraram Manuel Zelaya e usurparam o poder. “Naquele dia estávamos preparados para cobrir a festa cívica que seria o plebiscito sobre a Constituinte, mas o que encontramos foi o exército nas ruas, inclusive em frente à rádio. Nós monitoramos as demais emissoras e todas elas tratavam o domingo como um dia qualquer. Decidimos naquele momento que não faríamos isso. Passamos a transmitir contando ao povo que havia acontecido um golpe de estado”.

Segundo Rony, boa parte da imprensa foi procurada pelos militares e eles chegaram a oferecer dinheiro ao diretor da rádio Globo Honduras. Mas falou mais alto a dignidade, o patriotismo e o compromisso com a população. David Romero, veterano jornalista e comandante da equipe de jornalistas da rádio, decidiu que em primeiro lugar havia de estar o dever de bem informar o povo. Por isso, a rádio Globo Honduras jamais se rendeu e desde as primeiras horas do golpe abriu seus microfones para dizer a verdade às gentes. Não bastasse isso, os programas da rádio passaram a privilegiar a voz das pessoas comuns, que nas vilas, nas cidades, nos bairros passavam, ao vivo, as informações sobre como andava a resistência.

“Não foi à toa que nossa rádio foi invadida violentamente duas vezes pelo exército. E nas duas vezes nós fugimos, descendo por uma corda os três andares do prédio. É que já tínhamos preparado essa rota de fuga e quando eles quebraram o portão, nós escapamos pela janela. A partir daí, passamos a transmitir clandestinamente pela internet”. Mas a internet não era suficiente e a rádio voltou a transmitir pelo dial, sempre cedendo espaço para o movimento de resistência. Segundo Rony, todos concordavam que o que havia acontecido não era uma troca constitucional de um presidente por outro, como dizia a imprensa cortesã. Não! Aquilo era um golpe e o presidente Zelaya era o presidente legítimo. Além disso, decidiram fazer valer a Constituição cujo artigo terceiro dizia: é permitido ao povo hondurenho se rebelar contra qualquer governo usurpador. E foi o que fez toda a gente, inclusive os profissionais da rádio.

Nos dias em que a rádio esteve fechada os jornalistas não ficaram calados. Uma equipe pequena, mas aguerrida, foi para frente do palácio presidencial exigir o direito de contar os fatos ao povo. Rony mostrou as fotos destes dias. Carregando cartazes feitos à mão, rabiscados com canetas coloridas, os jornalistas se postaram em frente ao prédio do governo, dizendo sua palavra. Foi um ato quase heróico naqueles dias em que a repressão baixava violentamente sobre o povo. “A gente sabia que éramos a única rádio de alcance nacional a falar sobre a resistência. Era nosso dever fazer com que aquilo continuasse. Por isso ninguém se furtou a seguir transmitindo na clandestinidade”.

Rony revela que não foi fácil viver estes meses todos na contramão da história, cercados pelo exército, premidos pela oligarquia, ameaçados, perseguidos, mas entende que desde aquele domingo do golpe os jornalistas cumpriram com seu dever patriótico. “Antes do golpe nós estávamos em terceiro lugar na audiência. Agora, a rádio é um fenômeno nacional. E tudo isso por uma coisa muito singela. Nós dizemos a verdade ao povo. E as pessoas sabem disso, e acreditam e usam a rádio como espaço para dizer a sua palavra”.

O jornalista Ronnie Huette, também de Honduras, que atuou nos dias do golpe como jornalista independente, igualmente está em Florianópolis e participou da conferência. Ele mostrou o trabalho fotográfico que realizou em Honduras e contou um pouco sobre as organizações populares que estão em luta hoje no país. Segundo ele, desde o dia do golpe as gentes hondurenhas estiveram nas ruas, marchando, se manifestando, enfrentando a polícia, coisa que não saiu nos jornais daqui nem de lá. “Por várias vezes quando a gente se sentia ameaçado enquanto fazia nosso trabalho, ligávamos por celular para a Rádio Globo Honduras e lá saia a nossa denúncia, ao vivo. Só assim nos sentíamos protegidos”.

Os dois jornalistas hondurenhos entendem que a luta em Honduras ainda segue viva. Agora, para além dos tradicionais partidos Conservador e Liberal, já se articula uma Frente Nacional de Resistência que deve entrar também no plano político eleitoral. As gentes em luta não reconhecem o governo de Pepe Lobo, consideram este um governo ilegítimo e vão seguir batalhando pela verdadeira democracia participativa. “Não queremos mais ser representados por fazendeiros, políticos a soldo, oligarquia. Não. Queremos nós mesmos decidir sobre o nosso destino”.

Sobre os perigos que enfrenta todos os dias ao dividir com David Romero a coordenação de um programa líder em audiência durante a manhã, Rony não doura a pílula. El conta que os jornalistas da Rádio Globo Honduras estão sempre sob vigilância, que sofrem ameaças constantes e que se obrigam a estar sempre em lugares públicos para evitar alguma violência. “E se a gente viaja para algum lugar ou vai para espaços menos seguros, temos de avisar ao pessoal dos direitos humanos. Nada nos garante seguir vivos, mas é uma forma de a gente se proteger”. Hoje o exército não está mais nas ruas de modo ostensivo, mas a violência segue, os assassinatos também.

Para quem veio até o CSE e viu o jovem jornalista de 25 anos defender com tanta convicção a vocação revolucionária do jornalismo, não deixou de ficar com uma pontinha de inveja. Num país onde a maioria dos escribas está soldo do capital, perdida da consciência de classe, parece cada vez mais difícil a prática daquilo que Rony definiu com bastante sensibilidade e que é o que a Rádio Globo Honduras faz: dizer a verdade ao povo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Minha casa e seus escuros

Elaine Tavares


Outro dia me assombrei com a limpeza clínica da casa de uma amiga minha. Tudo reluzia. Nenhuma rugosidade. Aquilo acendeu em mim o desejo de um lugar assim, tão imaculado. Minha pequena e velha casa de madeira parece não se prestar. E assim fui ruminando no caminho do Rio Tavares.

A noite corre solta quando chego ao Campeche. Pelo caminho de areia o estresse do ônibus vai sendo superado por conta do cheiro forte de ervas e flores, típicos daquela vereda. Ao abrir o já quebrado portão de madeira ali assoma a minha morada. No alpendre os quatro gatos esperam, impávidos, como deuses. Steve, o cachorro, mais serelepe, me pula, entre lambidas e ganidos de alegria. Suas patinhas cheias de barro e sereno borram todo o piso que eu quero limpo, tal qual o da casa da minha amiga. Impossível. Como controlar a alegria?

Dentro de casa, por mais que se faxine, ali sempre estão, imperiosas, as aranhas, a tecer suas teias, que pipocam em cada cantinho como se aquela fosse a morada das bruxas. Dia após dia. Lagartixas correm pelas paredes na divertida caçada às moscas e mosquitos. Não posso livrar-me delas. São tão belas e equilibram a fauna.

Abro as janelas e o ar do Campeche invade cada cômodo, com aquele leve cheiro de citronela e jasmim. Os gatos já entraram porta adentro e correm pela sala como se perseguissem espíritos. As abelhas, que moram na aroeira em frente ao quarto, aparecem, mas são inofensivas. Os marimbondos, cuja casinha fica no alpendre, também fazem seu cumprimento, voejando e fazendo um barulhinho peculiar. Zé Pequeno vigia esperando caçá-los.

Na lembrança da limpeza vislumbrada pego a vassoura para eliminar uma grande teia que se formou no vão da escada. Mas, ali, vejo uma pequena aranha fazendo seu trabalho milenar e lembro da fala do grande filosofo Gaston Bachelard que dizia que as sombras das casas são os espaços oníricos, lugares onde vivem os sonhos, sagrados, portanto.

Então, perdida do meu desejo da impecável limpeza baixo a vassoura e deixo que o bichinho siga seu tramar. Amanhã talvez, quando ele não mais esteja... Minha velha casinha é cheia desses pequenos lugares de sombra, espaços oníricos, talvez por isso eu ainda tenha um grande baú de sonhos, o qual abro a cada dia, escolhendo o mais luminoso para tornar real. Alguns não acontecem, e me enchem de dor, mas outros sim, se fazem... E eu sigo, com meus bichos e minhas escuridões, até que venha o grande meio dia.

Honduras: a conjuntura pós-eleição e o papel da Rádio Globo Honduras

É nesta terça-feira, dia 16, às 9h, no Auditório do CSE da UFSC, na Capital, a conferência com o jornalista hondurenho Rony Martínez. Ele fala sobre a conjuntura de Honduras, recuperando os seis meses vividos sob o golpe militar, e a nova fase, no governo de Pepe Lobo. Martínez conta ainda a experiência da Rádio Globo Honduras que durante todos estes meses decidiu se colocar a favor da resistência, realizando um jornalismo vibrante, no qual a voz das gentes passou a ser a matéria prima principal.

Rony atua na equipe coordenada pelo veterano jornalista Dom David Romero e vem à Florianópolis a convite do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, que realiza neste mês de março uma série de atividades junto às escolas de jornalismo do estado.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O jogo do faz-de-conta

Celso Vicenzi – Jornalista – Florianópolis/SC


Como ficou demonstrado após o recente tiroteio na Avenida Beira Mar Norte, em Florianópolis, as autoridades e a polícia podem dominar as gangues do tráfico, se assim desejarem. O Executivo, o Judiciário e o Parlamento dispõem de meios para isso. As autoridades de segurança e a polícia possuem inteligência, equipamentos e profissionais qualificados. Sabem onde estão a droga e os traficantes. É só subir os morros ou locais do tráfico e recolher armas, prender os criminosos e apreender boa parte da droga. E se fizerem um cerco aos acessos estratégicos, asfixiam financeiramente o comércio da droga, pois os traficantes não terão para quem vender. Claro que, ao mesmo tempo, deveriam implementar políticas públicas para dar oportunidades a jovens que são cooptados pelo tráfico porque têm poucas perspectivas no mundo do trabalho (falta educação, falta lazer, falta formação profissional, faltam moradias decentes, faltam políticas públicas, falta uma vida digna).

Então por que não fazem? Este é um segredo a que poucas pessoas têm acesso, mas a conclusão é óbvia: a venda de armas e drogas são dois dos três negócios mais lucrativos no mundo (o outro é a prostituição/tráfico de pessoas). Alguns dos cidadãos mais influentes e ricos, em todas as principais cidades, têm negócios de fachada, mas ganham dinheiro mesmo é com drogas e venda de armas para criminosos. Algumas autoridades, no mundo todo, são muito bem pagas para fechar os olhos. Os traficantes não são apenas esses jovens, geralmente sem escolaridade, que estão na periferia das cidades. Estes distribuem as drogas e correm todos os riscos. Quando não são mortos, acabam presos. Os maiores traficantes, no entanto, estão em postos-chaves da sociedade, ocupando cargos importantes ou desviando parte da fortuna ganha ilicitamente em negócios legalizados. Isso tem nome: lavagem de dinheiro. E explica muitas grandes fortunas, às vezes, surgidas da noite para o dia - ou vice-versa.

O enfrentamento entre a polícia e os traficantes, muitas vezes não passa de um faz-de-conta, embora muitos policiais, honestos, desejam efetivamente combater o tráfico e impor a lei. Às vezes, quando algumas gangues passam dos limites estabelecidos e trocam tiros na Beira Mar Norte, isto passa a ser inadmissível. E aí a polícia mostra, rapidamente, toda a sua eficiência. Sim, porque a violência entre as gangues é tolerada, desde que circunscrita à periferia. Dito de modo mais grosseiro: pobre morrer – até por bala perdida – é aceito, mas essa mesma violência em bairros de classe média ou alta, correndo o risco de atingir pessoas mais “importantes”, é intolerável. Em Florianópolis, pelo menos, ainda é (há cidades brasileiras em que esse limite já não é tão claro). Nesses momentos, a pronta reação da polícia, como aconteceu, com a apreensão de um grande arsenal de armas (submetralhadoras, pistolas, coletes à prova de bala e munição) é a prova de que o tráfico não é assim tão inexpugnável. Fica claro que se as autoridades quiserem é possível diminuir substancialmente a violência a que são submetidos boa parte dos cidadãos. No entanto, o discurso de parte das autoridades e da mídia, tentando convencer a sociedade, é de que é impossível acabar com a violência e o tráfico. Talvez seja impossível acabar com o tráfico de drogas, mas é possível diminuir essa absurda violência. Para que isso aconteça, nossas autoridades, em todos os escalões e poderes, teriam que enfrentar pessoas muito mais poderosas do que crianças, adolescentes e jovens de bermuda e chinelo, armados nas periferias das grandes cidades. Será que desejam?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sindicato discute Jornalismo de Resistência

Jornalista hondurenho Rony Martinez fará conferências em todo o Estado

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina realiza no mês de março mais uma edição do Círculo da Palavra, desta vez com uma série de atividades envolvendo o debate acerca da prática do Jornalismo. A proposta é discutir com profissionais e estudantes os desafios de um jornalismo que se compromete e assume postura diante da vida do país. Para exemplificar isso traz a Florianópolis o jornalista hondurenho Rony Martinez, repórter da Rádio Globo Honduras, emissora privada que, desde o dia do golpe militar que instaurou a ditadura em Honduras, decidiu fortalecer o jornalismo de resistência.

A Rádio Globo Honduras, desde a quartelada, abriu seus microfones para defender a Constituição e o direito legítimo do presidente Zelaya de seguir governando, entendendo que a proposta de ouvir a população sobre uma nova Constituição para o país era democrática e acertada. Como estratégia de atuação, o grupo de jornalistas e locutores-apresentadores, comandados pelo veterano jornalista Dom David Romero, decidiu entregar a palavra ao povo hondurenho. Todos os dias, durante toda a programação, as gentes entravam no ar falando da situação de sua província, sua cidade, seu bairro. Assim, a rádio acabou sendo um dos poucos veículos comerciais a garantir espaço para as informações da luta de resistência. Cada marcha organizada, cada ato de protesto, cada reunião, tudo ia ao ar, mostrando que o povo hondurenho não estava em casa aceitando a ditadura imposta pelas armas. Era o jornalismo em seu estado puro, informação contextualizada e interpretada.

O trabalho da Rádio Globo Honduras logo começou a incomodar a ditadura que imediatamente mandou fechar as portas e lacrar o transmissor. A rádio foi invadida, apesar do cerco que a comunidade fez ao prédio. Os trabalhadores tiveram de fugir por uma janela, pendurados em uma corda, os transmissores foram levados e o povo ficou sem a rádio. Mas, no dia seguinte, de lugares não sabidos a rádio voltaria, transmitindo via internet, jamais interrompendo o fluxo de informação sobre a luta do povo hondurenho. Mais tarde garantiria a volta ao canal aberto, sem abrir mão da defesa dos direitos constitucionais da gente de Honduras. Por todo este trabalho de informação e dignidade a Rádio Globo Honduras ganhou o Prêmio Ondas, promovido pela Sociedade Radiofônica de Barcelona, Espanha, como a melhor rádio ibero-americana.

Rony Martinez, que chega a Florianópolis no dia 14 de março, é um jovem jornalista que atua diretamente com Dom David, num programa diário, todas as manhãs. Sua ação nestes meses de ocupação do país por um governo golpista é a expressão concreta de que é possível fazer jornalismo sério e comprometido mesmo nas situações mais assustadoras. Junto com a fala do jornalista hondurenho sobre esta experiência de jornalismo de resistência e libertação haverá o lançamento de um filme de média-metragem produzido por um grupo de cineastas e jornalistas de Florianópolis, chamado “De um golpe, Honduras”.

Programação com o jornalista Rony Martinez – Rádio Globo Honduras

16/3/10 – 9h

Conferência e Debate – Conjuntura de Honduras e Jornalismo de Resistência – Rony Martinez – Auditório do CSE/UFSC

17/3/10 – 19h

Conferência e Debate – Jornalismo de Resistência – Rony Martinez – Auditório Estácio de Sá - 19h

18/3/10 – 19h

Conferência e Debate – Jornalismo de Resistência – Rony Martinez – Auditório Unisul - Logo após o debate, apresentação do filme “De um golpe, Honduras”.

15h - Coletiva de imprensa para os meios alternativos: TEMA: Radio Globo Honduras e o Filme De Um Golpe, Honduras – Local : Sindicato dos Jornalistas

19/3/10 – 9h - II Encontro pela Soberania Comunicacional – Auditório do Sindicato dos Bancários - Promoção: Portal Desacato e Revista Pobres e Nojentas. Apoio: Sindicato dos Jornalistas de SC e Sindicato dos Bancários de Florianópolis e Região

DEBATE: 9h - O jornalismo de resistência e libertação – Rony Martinez, Elaine Tavares, Jilson Santos (AGECON) e Raul Fitipaldi.

DEBATE: 14h – O uso da Internet na Luta pela Soberania Comunicacional – Marco Arenhart, Urda Klueger, Celso Martins e Ronnie Huete.

Entrega do Prêmio Volodia Teitelboim. Premiados: Urda Klueger, Míriam Santini de Abreu, AGECON e Rony Martínez Chávez. Coordena: Vanessa Bortucan

Lançamento do Filme “De um golpe, Honduras”. Roteiro: Raul Fitipaldi. Direção: Aline Razzera Maciel.

20/04/10 – 11h

. 11h - Visita à Rádio Campeche – Participação no Programa Campo de Peixe com transmissão unificada com Tegucigalpa/Honduras.

21/04/10 – Encontro com comunicadores do Meio Oeste - Fraiburgo – Agecon – Escola Agrícola 25 de Maio

22/04/10 – Conferência e Debate – Jornalismo de Resistência – Rony Martinez – Auditório IELUSC/ Joinville - Logo após o debate, apresentação do filme “De um golpe, Honduras”.

23/04/10 – Viagem para São Paulo – Encontro com Mídia Alternativa

24/04/10 - Viagem para Honduras

quarta-feira, 10 de março de 2010

Um plano para Florianópolis



Comunidades não aceitam farsa montada pela prefeitura


Por Elaine Tavares - jornalista

A ilha de Santa Catarina, que é parte de Florianópolis, esta capital adorável que leva o nome de um tirano, sempre foi conhecida por suas belezas naturais. São 42 praias, algumas delas ainda belíssimas, quase sem a depredação humana. Por conta disso, nos anos 80 começou uma grande explosão migratória de gente que queria viver num lugar que tivesse todas as modernidades de uma capital, mas que conservasse aquele ar provinciano de um lugar pequeno. Por ser uma ilha - 424 quilômetros quadrados/ 54 km de comprimento por 18 de largura - logo, finita, as pessoas que para aqui vieram acreditavam que a vida seria sempre como foi: pacata, segura e cheia de beleza. Mas, hoje, com 408 mil habitantes e 250 mil carros, a cidade é cotidianamente um caos, com apenas algumas “ilhas” de conforto reservadas aos donos do capital. Quando chega o verão, o caos triplica, com a ilha chegando a abrigar um milhão de pessoas, que disputam a péssima malha viária, a água e a luz.

Por conta de todos os problemas causados pela ocupação desordenada da ilha, somado ao turismo predador, as comunidades vivem em pé de guerra com o poder público, porque, como é sabido, os governantes, no mais das vezes, não estão nem aí para as gentes. Eles governam para um grupo específico de pessoas “os ricos” e a maioria da população precisa ganhar na luta aquilo que é seu direito. Agora, neste ano de 2010, uma batalha de titãs está para ser travada: é a do Plano Diretor, construído durante três anos pelas comunidades organizadas. Nele, a população exige, entre vários pontos, o fim da verticalização da ilha, o respeito ao ambiente natural e a melhoria da mobilidade urbana. Mas, a prefeitura, depois de incentivar a participação de todos, contratou uma empresa/fundação de fora da cidade que será a responsável pelo desenho do Plano Diretor. Isso gerou revolta entre as gentes que prometem fazer barulho se a proposta feita por elas não for acatada.

A última ação da prefeitura, por exemplo, foi reunir na FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) um grupo de pessoas que nunca participou do processo do plano diretor, mas que foi convidada a dar palpites no último minuto do “segundo tempo”. Segundo Ataíde Silva, da Associação dos Moradores do Campeche, era uma multidão de corretores de imóveis, especuladores e outros tipos jamais vistos no processo participativo e que certamente serão os que terão mais poder no fechamento do projeto final.


Prefeitura desrespeita a lei

A idéia do plano diretor participativo sempre foi uma reivindicação das comunidades e em 2006 foi acolhida pelo IPUF, órgão da prefeitura, sendo implementada a partir de audiências públicas oficiais. Depois, foram criados grupos gestores nos distritos e um grupo gestor municipal, tudo oficial e dentro da lógica da institucionalidade. Este processo todo durou três anos, com realização sistemática de reuniões nas comunidades, oficinas, encontros, debates. Durante este tempo todo, uma infinidade de gente saiu de suas casas, entregou suas noites, fins-de-semana e horas de trabalho para produzir um desenho - o mais democrático e participativo possível - das comunidades onde viviam. Tudo foi pensado. Como seriam as ruas, a mobilidade, o tamanho dos prédios, o saneamento. Porque a coisa mais racional para quem administra uma cidade é ouvir quem nela vive, pois nada melhor do que aquele que sofre o cotidiano e conhece seu lugar de morada para encontrar saídas para os problemas que surgem com o crescimento da cidade.

Mas, terminado este processo, depois de tudo pensado e decidido, a prefeitura decidiu entregar para uma empresa privada - preterindo inclusive seus próprios técnicos - o fechamento do plano. Não bastasse isso, para realmente fechar a proposta de organização da cidade, realizou outros encontros fora do que estava acordado, como, por exemplo, um no Hotel Castelmar, em horário comercial, e outro na FIESC. Ora, ao fazer isso a prefeitura privilegiava uma parcela da sociedade, os empresários, que muito pouco participou no decorrer dos três anos de discussão. Essa atitude provocou nas comunidades uma sensação muito forte de ilegitimidade. Nós vamos entrar na justiça para garantir o respeito ao que foi decidido pelas comunidades. Essa empresa só tinha que sistematizar o que a população pensou e não fazer outra coisa?, insiste Ataíde.

E foi justamente nestas duas reuniões que a CEPA (fundação contratada para fazer o plano) apresentou a proposta que choca com quase tudo o que as comunidades discutiram. No plano da empresa, apresentado inclusive em encarte no jornal de maior distribuição na cidade, a proposta principal é crescer. Ou seja, completamente na contramão das propostas atuais de organização urbana, que criticam o verticalismo e o crescimento exacerbado. Além disso, divide a cidade em zonas metropolitanas, de multicentralidade (que significa grande densidade populacional) e de patrimônio cultural (poucas comunidades no sul, na lagoa e no norte). Nas duas primeiras tudo está permitido em nome do progresso e nas culturais, alguma coisa pode se salvar.

No caso do bairro do Campeche, a CEPA estabeleceu que será uma zona de multicentralidade, podendo haver construções de vias expressas e prédios de mais de quatro andares. Mas, a comunidade não decidiu por isso. Pelo contrário. A proposta é de manter a via principal como está, e abrir espaço para ciclovias e outras vias de acesso a comércio, impedindo assim o crescimento sem medida e a imobilidade causada pelo excesso de carros. No que diz respeito a prédios também está vetada a verticalização. A comunidade tem bem claro que esta proposta dos empresários de encher o bairro com até 400 mil pessoas é um delírio só possível na cabeça de quem lucra com a construção civil. “Nossa comunidade só tem água para 180 mil pessoas. Não dá para brincar com os recursos naturais”. E isso se aplica a qualquer outra comunidade que esteja sob as vistas predadoras dos empresários da construção.

O que os lideres comunitários perceberam foi que a empresa ainda usou as informações dadas pela comunidade para valorizar certas áreas para a especulação. Exemplo: quando a população lutou por ter um parque na região da penitenciária, os que mandam na cidade decidiram alterar o zoneamento para aquela região, permitindo que fossem construídos prédios em volta da área do parque. E assim pode acontecer com outros espaços que historicamente são reivindicados pela comunidade. Nesse sentido, os ricos usam a luta do povo para tornar ainda mais valorizado os espaços que serão destinados a eles. É um jogo absolutamente desigual.

No projeto da CEPA, divulgado em jornal diário, tudo parece muito bonito, mas, nele, não aparecem as letras pequenas, no caso, o micro-zoneamento. Assim, um desavisado, ao ler as diretrizes pode achar que está tudo bem, uma vez que o discurso, como sempre, apela para a idéia de desenvolvimento, como se preservar e organizar a vida de maneira mais natural fosse coisa de louco. A empresa propõe conservação da paisagem, corredores de articulação da mobilidade, regiões de acelerada transformação e inovação (nome bem típico do neoliberalismo) e descentralização da ocupação. Mas, o panfleto não diz sobre como isso será feito e para o benefício de quem.


A reação popular

Para as comunidades que se debruçaram sobre o Plano Diretor durante três anos seguidos esta proposta da prefeitura é farsesca e ilegal. E, sendo assim, a única resposta deve ser a luta. Se a empresa contratada está apresentando apenas uma proposta de macro zoneamento, as comunidades já definiram o micro e o macro. Ou seja, como vai ser o sistema viário de cada lugar, que ruas devem ser criadas, como tem de ser as construções, quantos andares, que áreas precisam ser preservadas. As gentes que aqui vivem desde sempre sabem muito bem onde tem alagamento, onde verte a água, onde a chuva prejudica. O povo sabe do lugar onde está. E não vai permitir que sua palavra seja negada.

No caso do Campeche, já são vinte anos discutindo um plano diretor. E, desta vez, foi um processo proposto pela própria prefeitura. Não cabe, pois, faltar com a palavra. Ou o que foi decidido pela comunidade é posto em prática, ou se haverá de levantar em rebelião.

Isso vale também para a proposta de saneamento que está proposta no plano o qual prevê grandes obras, emissário jogando esgoto no mar e outras coisas faraônicas, só desejadas pelas empresas de construção. Já as comunidades decidiram que querem um saneamento alternativo, pequenas estações de tratamento nos bairros que não poluem rios nem o mar. As soluções existem e já foram colocadas no papel depois de inúmeras oficinas realizadas pelo Movimento Saneamento Alternativo (MOSAL) que reúne várias entidades e associações de bairros de Florianópolis. Sendo assim, não se permitirá qualquer mudança apenas para privilegiar o empresariado e os especuladores.


O meio ambiente

A cidade de Florianópolis é conhecida como um lugar mágico, de belezas inacreditáveis e a idéia dos empreiteiros é transformar o lugar num monstro de concreto. Mas, a população já decidiu que não quer isso. Pelo contrário, quer preservar o que tem de mais belo que é a natureza. Se, para isso for necessário sair da roda viva do progresso sem limite, muita gente está disposta a aceitar. O povo quer segurança, vida saudável, tranqüilidade e beleza. Pelo menos no Campeche isso já é decisão comunitária. E em outros lugares também, o que torna a proposta da prefeitura uma aposta na minoria rica que mal vive a cidade.

Mas, como a população da capital já viu escaparem os mega empresários que falsificaram licenças ambientais no que ficou conhecido como Operação Moeda Verde, levada a cabo pela Polícia Federal, as barbas estão de molho. Porque boa parte destas figuras está por trás dos planos da prefeitura. Eles estão pouco se lixando para a natureza ou para a segurança ambiental das pessoas. Querem lucros e nada mais. São os mesmos que privatizam os costões, os aqüíferos, que destroem a paisagem e erguem espigões. Alguns acabam tornado-se inúteis como os da Praia Brava, que era um dos lugares mais lindos da ilha e hoje é uma nesga de concreto. Foram tantos prédios numa destruição tão brutal daquele espaço que nada restou da beleza que havia. Já ninguém mais quer morar lá.

Agora, no Campeche, segundo informações do presidente da Amocam, a Casan, que está construindo a rede coletora de esgoto no bairro, autorizou a empresa privada que faz o serviço a colocar os canos nas ruas que passam por cima das dunas, portanto, ilegais, colocadas em área de preservação. “O que isso significa? Que valeu a pena invadir as dunas?”

O que precisa ficar claro para a população é que estão em questão dois projetos bem definidos. Um deles foi discutido e decidido democraticamente pelas pessoas que vivem nesta cidade, nos bairros, nas comunidades, num processo de longos anos. O outro foi desenhado a portas fechadas, por empresa alienígena, levando em conta apenas os interesses dos empresários, que em nada se encontram com os interesses da população.

Agora está posto o desafio para toda a população. Ou as gentes se acordam e defendem uma cidade onde se possa viver com segurança e conforto, ou a ilha de Santa Catarina estará fadada a acolher - nos empreendimentos pomposos - uma pequena fatia de ricos, em detrimento da destruição da vida da maioria.

Não precisa ser muito esperto para ver que os desastres ambientais, que estão acontecendo cada dia com mais freqüência, tem relação visceral com a maneira como os seres humanos organizam suas cidades. Casas coladas na beira-mar são levadas por tsunamis, prédios altíssimos desabam sob os temores de terra. Mas, nos lugares onde as construções são baixas e se respeita a natureza, os desastres sempre causam muito menos dano e as vidas e salvam.

Aos florianopolitanos cabe decidir por um bom viver para todos e não só para alguns.

terça-feira, 9 de março de 2010

TPM

Míriam Santini de Abreu

Coisa que só mulher entende. Agorinha tive que sair do trabalho e correr até a pastelaria do Keko´s para fazer um tratamento de choque contra TPM: pastel de banana com chocolate e laranjinha Água da Serra. O convívio humano está insuportável hoje e meu alento é imaginar um monte de alfinetes em bonequinhos de vodu. Sou horrível mesmo. Mas admito.

Relatório diz que 198 homossexuais foram mortos em atos homofóbicos no país em 2009

Extraído do UOL Notícias

Um relatório divulgado no dia 4 pelo GGB (Grupo
Gay da Bahia) informa que 198 homossexuais foram mortos no Brasil no ano
passado por homofobia, nove a mais do que em 2008. De acordo com a entidade
baiana, que há três décadas coleta informações sobre homofobia no país,
Bahia e Paraná foram os Estados que registraram o maior índice de homicídios
contra homossexuais (25 cada um).
Segundo o antropólogo Luiz Mott, um dos fundadores do GGB, dentre os
homossexuais assassinados no ano passado, 117 eram gays, 72, travestis, e
nove, lésbicas. "Mesmo com todos os programas lançados pelo governo federal,
o Brasil é o país com o maior número de homicídios contra lésbicas, gays,
bissexuais e travestis", disse Mott, professor aposentado da UFBA
(Universidade Federal da Bahia).
"A cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil e
precisamos dar um basta nesta situação", afirmou Marcelo Cerqueira,
presidente do GGB. Segundo o grupo baiano, o levantamento que contabilizou o
número de gays mortos foi feito em delegacias, publicações em jornais e
revistas, Internet e por outras entidades que lutam pelos direitos dos
homossexuais. "Isto demonstra que o número deve ser ainda maior, porque
muitas famílias têm vergonha de revelar que possuem parentes homossexuais",
acrescentou Luiz Mott.
O número de gays assassinados no Brasil tem aumentado nos últimos
anos. Em 2007 foram 122. "Depois do Brasil, o México (35) e os Estados
Unidos (25) foram os países mais homofóbicos em 2009", disse Marcelo
Cerqueira. Os dados do GGB revelam, ainda, que entre 1980 e o ano passado
foram mortos 3.196 gays no Brasil. Entre as vítimas estão padres,
pais-de-santo, professores, profissionais liberais, profissionais do sexo e
cabeleireiros. Do total das vítimas, 34% foram mortas com armas de fogo, 29%
(arma branca), 13% (espancamento) e 11% (asfixia). Os demais 13% foram
mortos por outras modalidades.
Segundo o professor de filosofia Ricardo Liper, da UFBA, "mesmo em
crimes envolvendo drogas e outros ilícitos, a condição homossexual da vítima
sempre está presente, fruto da homofobia cultural e institucional que
impregna a mente dos assassinos". "Se a Secretaria Especial de Direitos
Humanos da Presidência da República não implementar as deliberações do
Programa Brasil Sem Homofobia, vamos denunciar o governo brasileiro junto à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados
Americanos (OEA), e à Organização das Nações Unidas (ONU), pelo crime de
prevaricação e lesa humanidade contra os homossexuais", disse Luiz Mott.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ao Fábio, gaúcho mineiro que cumpriu uma promessa

Míriam Santini de Abreu


Chorei hoje, de alegria, intensa, daquelas que fazem a alma arder, como há tempos não ardia. Tudo porque o Fábio Chagas, o gaúcho que mora em Minas Gerais e que conheci em Cuba, cumpriu uma promessa.

Todos os dias, no acampamento em que ficamos, um CD tocava, a partir das 5h45, uma seleção de músicas para acordar o povo. Começava com o galo cantando, o que provocava muitas risadas. Todos nós, os participantes da XVII Brigada Sul-Americana de Trabalho Voluntário e Solidariedade com Cuba, já sabíamos a seqüência das músicas. Mas uma eu amava em particular, e só consegui descobrir que era do músico, poeta e cantor cubano Silvio Rodríguez. O nome, ninguém sabia dizer.

Pois o Fábio, um professor universitário bom de conversa, conseguiu gravar o CD do acampamento e prometeu que o enviaria para mim, lá das montanhas de Minas.

E agora, Fábio, estou eu, ouvindo o CD, tolamente chorando de felicidade, de saudade de Cuba, daqueles dias, ouvindo Silvio Rodríguez cantar como se fosse só para mim.

Ah, o presente que um homem pode dar a uma mulher!

Para nós... Mulheridade!

Por Elaine Tavares

Não gosto dessa coisa de gênero masculino, gênero feminino. Somos todos, desta raça bela/frágil, um “pequeno gênero humano”, como diz Bolívar. Mas gosto de mulheridade. Essa coisa que as mulheres tem, esse jeito, essa mirada, essa doçura, essa fortaleza, essa paciência, esse modo de fazer cinco coisas ao mesmo tempo, esse equilibrar no anabela 10cm, e ainda sorrir como se a vida fosse um campo de leite e mel. Mulheridade exige diferença, exige dengo, exige delicadeza, exige respeito, exige risos, exige potência, exige carinhos. Mulheridade não quer competição, não quer igualdade. Mulheridade quer partilha, harmonia, lado-a-lado, batom. Mulheridade quer salto alto, saia longa, sombra escura, sexo, fuzil.

Mulheridade quer esmalte, livros, pedras, ternuras, poemas. Mulheridade quer cabelo esvoaçante, pés descalços, flores, balas na agulha. Mulheridade quer colares, anéis, granadas, bandeiras, echarpes, foices, enxadas. Mulheridade é essa coisa louca que só as mulheres são. Ventania, calmaria, lago escuro, menstruação.

Neste dia de mulheres, sem ofensa, só pra nós... Esse sopro, essa mágica... Fantasia e furacão. Por que ao cabo, só as mulheres, esse caos, compreenderão...

domingo, 7 de março de 2010

Minhas amigas, mulheres

Míriam Santini de Abreu
Volta e meia recebo essas mensagens que falam das mil vantagens dos homens sobre as mulheres, muitas das quais ironizando os nossos cuidados excessivos com a aparência, a nossa vontade de dividir a vida - fatos alegres ou tristes - com as amigas, a nossa disposição excessivamente emocional, lendo nas entrelinhas sutilezas que os homens são incapazes de pronunciar nas linhas. Sim, sim...
Essas mensagens me fazem pensar nas minhas amigas, minha família que não é de sangue, mas que me socorre em ocasiões nas quais a família de sangue não está por perto para me livrar do abismo. São mulheres com as quais eu rio, eu choro, eu celebro a vida, enfrento a escuridão. Elas sabem o que me faz sofrer, o que me deixa feliz. E quantas vezes foi no colo delas que salvei a melhor parte de mim.
Em Cuba, onde estive durante duas semanas, não se discute muito relações de gênero. Lá as mulheres se colocam à altura em tudo, sempre. Claro, foi um processo construído ao longo de décadas. Como me encantaram aquelas mulheres! Elas fazem parte de um projeto coletivo, e tenho notado cada vez mais a importância disso. Quando a gente aposta demais em projetos individuais, e eles fracassam, é difícil demais ficar à tona. Os projetos coletivos, não, eles nos alimentam mais porque enredam a nossa vida com a vida dos outros.
Eu faço parte de um projeto coletivo com muitas das minhas amigas, a revista Pobres & Nojentas. E quando sinto que vou cair, ou mesmo que caí, da beira do abismo elas agarram as minhas mãos porque a nossa menina - filha do jornalismo no qual acreditamos - tem que sair!
E isso me faz pensar nos homens, que - dizem as mensagens de correios eletrônicos - não são tão massacrados quanto nós pela imposição da beleza e da juventude, não procuram os amigos para chorar, tão racionais e incapazes de deter dor ou prazer nas entrelinhas. Sim, sim... Será?
Mas vou dizer: tanto aço, tanta têmpera, para mim só faz sentido se, naqueles momentos de fragilidade de todos nós - homens e mulheres - esse aço puder se deixar penetrar por ternura a ser compartilhada. Assim a vida fica mais leve e a gente menos frágil.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Rumo ao Sul



Na primeira foto, Jack em "las Manos de Dios"


Jackson Abreu, DJ e surfista, esteve no Uruguai no final do ano, de onde trouxe um relato da beleza que são as viagens:


Foi minha primeira grande viagem fora do Brasil. Impossível descrever tamanha satisfação para um manézinho da ilha que poucas vezes atravessou a ponte para conhecer um pouco do litoral e interior do nosso estado (Santa Catarina). Relato aqui o que para mim se tornou uma regra, separar um pouco de grana, todo mês, para viajar.

1.100 km foram o suficiente para que eu descobrisse um país tão rico culturalmente que me deixou muitas saudades e lembranças. Um povo que recebe o visitante de braços abertos e com admiração, pois, para os uruguaios, o Brasil é o país do futuro.

La Paloma é um lugarzinho maravilhoso onde passamos a maior parte da viagem e também onde fizemos amigos para nunca mais esquecer. Praias maravilhosas e gente hospitaleira, um farol com vista de encher os olhos, ao custo de 150 pesos, R$ 1,50. É fácil transformar a moeda uruguaia, o peso, para real (10 PESOS equivalem a 1 REAL). O artesanato é uma característica do povo, e muitos artistas tem obras belíssimas. No único dia de chuva resolvemos ir a Montevidéu, uma cidade cheia de prédios à beira-mar. Eu queria conhecer mais, pois me falaram que é uma cidade cheia de museus e de atividades culturais, mas a chuva não permitiu ver muita coisa.

Em Punta del Leste, que parece Jurerê Internacional mais rica ainda, o que destaco é Las Manos de Dios, uma escultura em forma de dedos como se estivesse saindo da areia, obra de um artista chileno. De volta a La Paloma, em uma das praias conhecemos Valentin, um homem de coração aberto pronto para ajudar o mundo. Nós queríamos alugar uma casa, pois onde estávamos, nas cabanas de Andresito, já havia reserva para outros hospedes. Valentin nos apresentou Isabel, que cuidava de uma casa para uma amiga. Acertamos o aluguel e de lá “expulsamos” Valentin, que estava na casa enquanto não aparecesse alguém para alugar. Valentin tornou-se nosso amigo e assim passamos a conhecer mais da sua história de vida, um homem culto, surfista e professor de tênis que mora no Havaí e passa o verão do hemisfério sul no lugar onde nasceu. Na despedida, claro que Valentin e Isabel choraram, nos deixando de coração na mão.

Saindo de La Paloma, esbarramos com uns ciclistas e então a surpresa. Minha namorada pergunta: “Vocês são de onde?” e a resposta! “De Floripa”. Eles, que haviam saído de Florianópolis no dia 26/12/2009, foram até Buenos Aires de avião e seguiram de bike para o Uruguai, onde os encontramos. Fato ainda mais inusitado, eles são do bairro Campeche (Sul da Ilha), de onde saímos.

Seguimos em frente rumo a Punta del Diablo, praia procurada por muitos jovens mochileiros uruguaios e argentinos Nesse dia prevalecia o famoso vento sul e a praia não era a atração principal, pois o programa do dia foi em volta de uma praça bem simples, onde havia uma barraca de bambu e lona, cheia de livros e muitos leitores, alguns bebendo e curtindo um som na viola.

Aí meu sogrão olha para mim e diz: “Parece o Farol de Santa Marta em Laguna na década de 70, e o melhor, com ondas”, como se estivesse voltando no tempo e passando um filme. Lugar tão procurado que, após o dia 02/01 de qualquer ano, não se consegue um lugar para pousar, a cidade fica cheia. Tivemos que dormir em outra cidade próxima chamada La Coronilla.

No dia seguinte voltamos para Punta del Diablo, pois as ondas prometiam, mas ficaram nos devendo. Almoçamos em um bistrô que servia uma comida tão maravilhosa que tivemos que conhecer o chef, Mario Padrón, outra pessoa fantástica. Atrás do bistrô almoçava um senhor em uma área reservada, que nos contou várias histórias de quando trabalhava em fazenda e lidava com gado. Pegamos mais umas ondas e tocamos em direção ao Chuí, passamos no free shopping e em seguida pegamos a estrada para Florianópolis.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Cuba 1

Fica ligado! A primeira edição de Pobres & Nojentas de 2010 será sobre a viagem a Cuba feita pelas jornalistas Marcela Cornelli e Míriam Santini de Abreu. Assina! Aí embaixo, Míriam na Praça da Revolução, em Havana.


Ai, beleza, Martí...

"Y antes de morir me quiero

Echar mis versos del alma"

Rios

Míriam Santini de Abreu


Certa mulher viu partir sua filha mais dileta. A menina era cria da ventania. Vivia nos sótãos e porões e sonhava ser caramanchel para ter resistência de ferro aturdido por flores. E partiu levando apenas umas mudas de roupas e sementes:

- O mundo ainda não fez florescer a palma pela qual meu espírito anseia – disse, atrevida, ao sair.

Deste mundo a mulher nada mais quis saber. Enclausurou-se. Procurou úmidos refúgios em escamas prateadas de peixes; esmerilhou as unhas em veredas arenosas; sentiu rodar no céu, com olhos cegos, o disco dourado da lua; perdeu no mar umas lascas de voz que ninguém ouvia. Na madrugada sonhava com casas em ruínas, e a música do mundo deixava feridas em seus tímpanos.

Então, perto da meia-noite de um dia eterno, a filha perdida de si mesma voltou. No corpo magro vestia uma túnica bordada e sorria. Ninguém soube dizer onde andara, o que fizera. Só ela sentia que sob os olhos, numa senda em meio a minúsculas pedras/poros limosos, invisível, corria um fino rio salgado.

terça-feira, 2 de março de 2010

Trilogia ser ou não ser – Parte II – Será que ela é?

Li Travassos, de Florianópolis


Muita gente utiliza a palavra GÊNERO sem, contudo, saber o que significa exatamente. Em sentido amplo, ela define tanto o valor quanto as expectativas colocados sobre uma pessoa, em determinada sociedade, de acordo com seu sexo biológico. Estas expectativas são sobre os comportamentos, sentimentos, tarefas, e até mesmo vestimentas que cada sexo deve exibir. E tudo que aparece como diferente do esperado é questionado – e não raramente rejeitado. Além disso, a orientação sexual do indivíduo "rebelde" é logo questionada também.

Por exemplo, na horrível marchinha (cujo autor desconheço) que modifiquei e usei para nomear este texto, se diz que Zezé tem cabelo comprido. Cabelo comprido, na maioria das sociedades atuais, é considerado "coisa de mulher" (séculos atrás era símbolo de macheza...). Por isso, se Zezé é homem, MAS usa cabelo comprido, então ele deve ser homossexual. Será que ele é?

Quanto a mim, várias pessoas já "deduziram" que sou homossexual, em função de minhas posições radicais, minha tendência a defender o que penso com unhas e dentes... Já me acusaram de pensar demais, falar muito alto, e outras coisas que as mulheres não fazem. Ou não deveriam fazer, na cabeça de alguns... Para completar, eu não gosto de unhas compridas, não uso esmalte (porque é péssimo para o meio ambiente), não uso brincos (para poder "meter a boca" em quem usa piercing)... A conclusão é que sou homossexual. Sou?

Respondo parafraseando o personagem (foto acima) do filme Hair (Milos Forman, 1979), sobre o movimento hippie nos Estados Unidos, na época da guerra do Vietnã. Ao ser preso, o rapaz não deixa cortarem seus longos cabelos, levando à velha conclusão de que só pode ser homossexual. Ao ser questionado sobre isso, responde: "Se eu encontrasse Mick Jagger na minha cama, eu não o expulsaria de lá... Mas não, eu não sou homossexual". Quanto a mim, se eu encontrasse Zélia Duncan na minha cama eu não a expulsaria de lá... Mas não, eu não sou homossexual.

Então, se uma pessoa homossexual não é aquela que age de forma diferente daquilo que é esperado para seu sexo, nem quem tem uma aparência diferente daquilo que é aceito para seu sexo, o que define a homossexualidade? Em linhas gerais, homossexual é quem, na vida adulta ², sente desejo sexual por pessoas do mesmo sexo e, normalmente, busca manter relações sexuais e afetivas com estas pessoas. Digo normalmente porque alguns sentem o desejo, mas não buscam as relações, seja por vergonha, seja por medo, seja por culpa.

E porque todos estes sentimentos negativos em função de um simples desejo? Ora, todo mundo sabe que a homossexualidade ainda é muito rejeitada socialmente, e desperta muitos preconceitos. O que a maioria das pessoas não imagina é de onde vem esta rejeição e o que gera estes preconceitos. Em minha opinião, toda a negatividade que se coloca sobre a homossexualidade é uma questão de gênero. Mais claramente, está relacionada à profunda desvalorização da mulher através dos séculos.

Como assim? A mulher é considerada muito inferior ao homem. Assim, o homem que "se equipara" à mulher, tendo relações sexuais com outro homem, ou imitando os trejeitos de uma mulher, está abrindo mão de um poder e valor com o qual ele nasceu. E isso é considerado ridículo. Homens e meninos que parecem mulheres são vítimas de chacota, são chamados de Maricas, Sisi, etc.

Há uma tendência a achar particularmente ridículo um homem vestido de mulher. Principalmente se ele não for um travesti. Por isso, os blocos de homens vestidos de mulher fazem tanto sucesso no carnaval: este é um período onde há uma licença para o ridículo... Fora da "festa da carne", há até casos absurdos de pessoas que, em grupo, seguram um homem (homossexual ou não) e, na marra, o vestem de mulher, colocam batom... tudo como uma forma de humilhá-lo, vingar-se dele. Nossas novelas adoram mostrar uma cena assim vez ou outra... E o pior é que a agressão costuma vir dos personagens considerados "mocinhos"...

Mas por que a mulher "muito masculina" ou vestida de homem, raramente é considerada engraçada? Por que ela desperta raiva, e não risos? Começa pelo fato de que as mulheres se apropriaram das roupas dos homens faz tempo. Mas mesmo que haja uma situação flagrante de travestismo, a mulher que quer se parecer com um homem, ou que participa de uma relação sexual com outra mulher "de forma ativa", desperta muito ódio. Porque, ao contrário do homossexual do sexo masculino, ela está querendo ter um poder e um valor que não tem. Com o qual não nasceu. Por isso, desperta ódio por parte dos homens, que se sentem ameaçados. A cena terrível de estupro no filme "Meninos não choram" (Kimberly Peirce, 1999) é um bom exemplo disso. Mas a mulher muito masculina também desperta ódio em algumas mulheres, que não admitem que alguém do seu sexo não se adapte ao estereótipo feminino de "sedução e submissão" ao qual elas mesmas estão amarradas.

Também é por este motivo, pela relação que existe entre gênero e homossexualidade, que o homem homossexual visto como "ativo" na relação, sequer é considerado homossexual (ou bissexual). O mesmo vale para a mulher homossexual "passiva" (a sandalinha que se relaciona com a sapatão). Em Florianópolis, isto é particularmente forte: o homem que "come" outro homem se considera um baita macho... Jamais irá se pensar como bissexual. Eu mesma já fui considerada homossexual pelos pais de uma amiga (porque "mulher não fala assim, não pensa deste jeito"...), e eles acreditavam que nós duas tínhamos um caso. Mas é claro que ela não era homossexual, só eu... Que lamentável!

Outra questão que precisa ser levantada, é o fato de algumas pessoas chamarem a orientação sexual de opção sexual. Considerando todo o preconceito que sabemos que existe sobre os homossexuais, quero crer que muito pouca gente iria escolher ser homossexual, se realmente pudesse escolher. As pessoas podem escolher se vão viver de acordo com seus desejos sexuais, mas não podem escolher o que vão desejar. Desejar sexualmente homens ou mulheres é igual a preferir pessoas loiras ou morenas, com mais ou menos pêlos, mais altas ou mais baixas, etc. Até mesmo as escolhas repetitivas por homens violentos, por alcoólatras, por mulheres "castradoras", por pessoas pouco afetivas, por alguém menos inteligente, também fazem parte de nossa orientação sexual. Ou seja, as características físicas (incluindo o sexo) e psíquicas das pessoas que vão despertar nosso desejo são pré-determinadas.

Mas antes que você decida fazer parte do Bloco da Gabriela ("Eu nasci assim, eu cresci assim... vou ser sempre assim..."), vale dizer que todas estas questões são definidas pela nossa relação com nossos pais, ou com as pessoas que fizeram estes papéis em nossas vidas. Para alguns, dizer que a homossexualidade é inata é uma forma de garantir que não se trata de uma doença. Mas é o mesmo que alguém dizer que já nasceu gostando de mulheres loiras, ou de homens peludos... Não dá. Esta linha de pensamento que pretende que características de personalidade sejam inatas visa, ao fim e ao cabo, tirar da sociedade (e conseqüentemente da família) toda a responsabilidade pelos sujeitos que ela produz.

Agora, que o Conselho Federal de Psicologia tenha que baixar uma resolução para proibir os psicólogos de considerarem a homossexualidade uma doença (e oferecerem tratamento para a mesma) e que tenhamos que lutar por uma lei que proíba a expressão do preconceito contra os homossexuais (assim como que tenhamos que ter uma lei que proíba a expressão do racismo), é algo que me deixa injuriada com a espécie humana.

E qual o alcance de uma lei? Ela não pode mudar os sentimentos e pensamentos das pessoas. Poderá uma lei impedir, por exemplo, que um pai ou uma mãe expulsem o filho ou filha com mais de 18 anos de idade de casa, ao descobrir que ele/ela é homossexual? Porque isso acontece até hoje, não tenha dúvidas. O que levaria um pai ou mãe a agir deste jeito? Vergonha de ser apontado como genitor de um homossexual? Medo de ser considerado "culpado"? Ou a decepção porque não vai ter netos?

Com relação a esta última questão, vale ressaltar que, quando se quer, há muitas maneiras de se ter um filho, além da relação sexual heterossexual. Mesmo que a adoção de crianças por casais homossexuais tenha sido proibida no Brasil, há como um dos dois adotar e o outro ajudar a criar, existe a inseminação artificial, e várias outras "modernidades".

Interessante é que, apesar da intolerância da maioria, na luta entre "civilização e barbárie", os homossexuais podem ser considerados "mais civilizados" que os hetero, justamente por não escolherem seu par sexual de acordo com o instinto de preservação da espécie. Porque não vamos nos iludir: a maioria dos homens hetero ainda sente maior desejo por mulheres jovens e bonitas (leia-se com seios fartos e quadris largos), ou seja, com características de boas procriadoras. E a maioria das mulheres hetero ainda se sente mais atraída por homens bem sucedidos, ou fortes, ou super inteligentes, que seriam bons provedores para suas crias ³.

Há mulheres que, como nos tempos primitivos, ainda se acham no direito de escolher o macho mais poderoso que seus atributos de fêmea podem atrair, e engravidar dele, quer ele queira, quer não. É uma forma de garantir o próprio futuro, contando com as leis que obrigarão o sujeito a sustentar o filho para sempre. Foi o que fez a brasileira que engravidou de Mick Jagger, acabou com o casamento do cara, e arranca dele uma verdadeira fortuna por mês, à guisa de pensão para o filho. Fala aí, Mick, você não preferia ter transado com o moço loirinho do Hair? Hein, hein?

Em breve, o terceiro e último capítulo da trilogia "Ser ou não ser". Falar nisso, que estrambótico uma pessoa deixar seu comentário em japonês, chinês, ou sei lá que língua oriental no meu primeiro texto da trilogia, não? Nem o nome da criatura dá para saber. Sou defensora do direito de expressão, mas quem não diz nem o nome, e não se expressa para todo mundo entender, sinceramente, acho muita empáfia. Poderia até conseguir uma tradução, mas me nego...


1. Palavras iniciais do conhecido monólogo do personagem Hamlet, de Shakespeare, na peça de mesmo nome.

2. Experimentar sua sexualidade com pessoas do mesmo sexo na infância ou adolescência não conta.

3. Quanto a mim, ficaria bem satisfeita com um sujeito que tivesse o corpo do Humberto Martins e o cérebro do Chico Buarque...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Lançamento de Pequeno Álbum, novo livro do escritor Viegas Fernandes da Costa

Acontece no dia 11 de março (quinta-feira), a partir das 20:00 horas, no Bar e Restaurante Farol, em Blumenau, o lançamento do livro “Pequeno Álbum”, de autoria do escritor Viegas Fernandes da Costa.

Terceiro livro de Viegas, a obra reúne 44 contos curtos, alguns deles premiados, como é o caso dos contos Teresa e Ítalo. Com uma prosa que margeia a poesia, os textos de Pequeno Álbum procuram construir imagens com palavras, cada conto constituindo-se como fotografias compostas não por luz, mas de verbo. O livro, publicado pela editora Hemisfério Sul, apresenta ainda ilustrações da artista plástica Daiana Schvartz e orelha do contista Rodrigo Oliveira.

Durante o lançamento será servido um coquetel e o autor estará autografando a obra. O preço do livro é de R$ 15,00.


Sobre o autor:

Viegas Fernandes da Costa nasceu em Blumenau (SC) em 1977. Licenciado em História e pós-graduado em Estudos Literários, atualmente trabalha na Biblioteca da Universidade Regional de Blumenau, onde edita o site de literatura Sarau Eletrônico, e no Colégio Metropolitano de Indaial, onde leciona Filosofia e Atualidades. Além de Pequeno Álbum, é autor de Sob a Luz do Farol (Ed. Hemisfério Sul, crônicas, 2005) e De Espantalhos e Pedras Também se Faz Um Poema (Ed. Cultura em Movimento, poemas, 2008).


Comentário do contista Rodrigo Oliveira a respeito do livro “Pequeno Álbum”:

“Não à toa que o primeiro texto que lemos ao nos debruçarmos sobre este Pequeno Álbum de Viegas Fernandes da Costa chama-se Poema. Não que se trate de um livro de versos. Mas é a poesia que permeia e dá corpo à prosa de Viegas.

Pequeno Álbum parece trazer um tom mais intimista do que Sob a Luz do Farol e De espantalhos e pedras também se faz um poema, trabalhos anteriores do autor. Sensível, este álbum estabelece relações do texto com a própria arte, pelos olhos e palavras do escritor. Intertextual, Viegas dialoga e nos apresenta alguns daqueles que traz estampados em seu álbum: Chaplin, Tornatore, Flaubert, Quintana, Sartre, Kafka, Calvino e tantos outros que poderíamos preencher toda a orelha deste volume. Quantas memórias trazem este livro!

Entre estes grandes nomes sorriem, ainda, como de fotogramas amarelados pelo tempo, figuras que resgatam memórias mais introspectivas, como em Reminiscência, de memórias expostas, gengivas nuas e sorriso ancião inocente. Com esta sensibilidade e aquela intertextualidade, este Pequeno Álbum se revela igualmente metaliterário. O autor, olhando para as figuras deste álbum, parece querer encontrar, em primeiro lugar, a si mesmo. Em Composição compõe "silêncios como quem compõe versos" e explica: "É nestes silêncios que me encontro e onde podem me encontrar como realmente sou!". Nos contos e textos de Pequeno Álbum podemos ver o escritor se dobrando sobre o próprio texto, sobre o próprio fazer literário, como no premiado Ítalo, conto de construção ímpar e riquíssima leitura. Teresa e O Velho, a Velha e o Violino apresentam ainda personagens belíssimos em narrativas sensíveis que exploram os limites desta prosa poética proposta por Viegas.

É tocante, é incômodo, é lírico. É necessário, este Pequeno Álbum. Porque nos lembra que "poesia não se pode ler (...) a poesia vivemos".

Apreciando este álbum observamos o autor, pouco a pouco, tentar desvendar-se, retomar um passado, vislumbrar um futuro, resgatar e desnudar a si mesmo e a seu próprio texto. É quase sem perceber que, ao fim do volume, nos quedamos nós mesmos desnudados e expostos ali, estampados neste Pequeno Álbum.”


Serviço:

O que: Lançamento de Pequeno Álbum, terceiro livro do escritor Viegas Fernandes da Costa

Quando: 11 de março (quinta-feira), às 20:00 horas.

Onde: Bar e Restaurante Farol, Praça do Estudante (no final da rua Antônio da Veiga), Blumenau, SC.

Maiores informações: Editora Hemisfério Sul (3035-3181 e 3339-7334) e Viegas Fernandes da Costa (8445-9150 e 3321-0222)