domingo, 17 de maio de 2009

Moralização do espaço urbano?

Por Ricardo Machado*

Um fenômeno da modernidade foi a expansão crescente da vida urbana. Desde o século XIX, este movimento tem sido quase ininterrupto em todas as partes do mundo. No entanto, a cidade moderna caracterizava-se pela intensidade da vida pública. A rua era o espaço de múltiplas sociabilidades no mundo do trabalho, do lazer e das relações políticas. As vivências múltiplas e contato com a diversidade da rua moderna foram construídas em oposição do contato com seus iguais na vida privada. Nas cidades modernas a rua era um espaço fundamental de construção da cidadania, pois era na rua que se tomava contato com as diferenças e eram ali que estavam evidenciados os conflitos econômicos e de valores estéticos.
No entanto, nas últimas décadas vivemos um momento de ruptura em relação ao conceito de vida urbana. Cada vez mais vivenciamos uma privatização do espaço público e a busca de relações essencialmente mediadas pelo domínio privado. Por isso, observamos o esvaziamento do público na medida em que se valorizam vivências em centros comerciais fechados (chamados de Shoppings), pelo automóvel, pelos condomínios fechados, pelos clubes recreativos etc. As ruas perderam sua ênfase na relação, para valorizar somente a mobilidade no espaço. Assim, a cidade deixou de ser uma experiência pública e de contato com a diferença para ser segregacionista, tornando a população ainda mais dividida socialmente e simbolicamente. Com isto cria-se um ser humano pautado em uma subjetividade cada vez mais centrada em si mesmo, com medo da diferença, e consequentemente, medo da vida pública. É este medo que tem feito pedir cada vez mais controle, repressão e vigília sobre a já restrita vida pública que ainda temos em nossas cidades.
Este movimento pode ser claramente observado nos temas debatidos pelo poder legislativo blumenauense sobre as formas de uso do espaço público. Este processo de moralização da vida urbana, que divide a sociedade entre pessoas de “bem” e de “mau”, que fala do retorno da família às ruas, não permitirá o aumento da vida urbana, mas ao contrário, criará uma relação ainda mais discriminatória, segregacionista, e consequentemente, ainda mais doentia.
É preciso voltar às ruas, para que possamos fazer um uso público do espaço público. Mas estou certo que não precisamos de mais medidas controladoras e repressoras sobre as formas de uso do espaço. Ao invés disso, precisamos ocupar estes espaços, reconhecendo que os diferentes grupos fazem apropriações distintas do conceito de urbanidade.
Desconfiemos deste “homem de bem”, pois se trata da forma mais cínica de trazer à público os preconceitos de classe e estéticos. É para ele que construímos os pilares da cultura do medo e do enclausuramento.

* Historiador e Professor da FURB

ABAIXO INFORMAÇÕES RETIRADAS DO BLOG DO VEREADOR FÁBIO FIDLER
12 de Maio de 2009
24ª sessão: Fiedler solicita apoio a projeto
No dia em que apresentou o Projeto de Lei Complementar que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em praças e paques municipais, o vereador Fábio Fiedler (DEM) utilizou seu espaço na tribuna para explicar pontos da proposta e solicitar apoio dos demais parlamentares.FAMÍLIA Para Fiedler, o objetivo do projeto é preservar a família blumenauense. “É garantir que o cidadão de bem, aquele que leva a sua família aos parques e praças, possa fazer bom uso destes locais e não seja constrangido e molestado por quem faz mau uso dos espaços”, explicou.

Disponível em:
http://ffvereador.blogspot.com/

O senhor Buda

Fernando Karl
o senhor Buda não reverencia nenhum Deus
nem crê na alma
nem no paraíso
o senhor Buda tinha sempre a palavra "sunyata" ("vazio", em japonês) na ponta da língua: "sunyata", ao contrário do oco da morte, não dá medo, antes é uma estratégia oriental pra lá de magnífica: tornar-se "sunyata" ou "vazio", por exemplo, para não ser atingido pelo sabre da finitude, pela corrupta vox dos políticos, pela gripe suína etc.
o que há de oco numa xícara é "sunyata", e isto é belo como o Taj Mahal.
"sunyata" --- com a tessitura de átomos levíssimos --- dá aparência de ser "vazio", mas é pleno de invisível, de angélico prana.
outro dia li que o prana não é o ar nem o oxigênio, mas matéria fina de toda certeza. prana: sopro vital, alento.
a palavra também é matéria fina de toda certeza e sua origem é a mesma que a do fogo.
e Shakespeare disse: "Se a palavra é sopro e sopro é vida".
e já pronunciou Kant: "Devemos aprender a sermos invisíveis com mais humildade".

Otávio Rocha, RS





O Parque da Gruta, na vila de Otávio Rocha, perto de Caxias do Sul, RS, tem cascata, gruta natural e uma estátua de Nossa Senhora das Graças. Nos arredores, os parreirais estão avermelhados. Valia ir ao Google saber o motivo, mas, com ou sem explicação científica, as uvas nascerão.


Uma luz no convento


Míriam Santini de Abreu
Em Caxias do Sul (RS), minha família mora em um beco, e a vista do alto dele é esta aí em cima. Pois coisa que eu amava era, nos dias de puro sol, vislumbrar, lá longe, o Convento das Carmelitas Descalças, no fundo da foto. Na noite da véspera de Natal, as luzes se acendem para a celebração, e do beco eu observo as janelas altas repletas de luz. E agora está. Um esqueleto de prédio roubou o que, desde criança, era a minha iluminura. Também inventaram de fazer uma rua bem próximo de casa para facilitar o acesso dos automóveis à entrada Sul da cidade. Parece que no próximo Natal só verei bonecos vermelhos de papai noel pendurados nas janelas do prédio novo.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Farra do turismo em Santa Catarina

Elaine Tavares
O presidente Lula esteve em Santa Catarina recepcionando um seleto grupo de mega-empresários que veio para um obscuro fórum de turismo chamado de Congresso do Conselho Mundial de Viagem e Turismo. A idéia de um encontro na ilha, em Florianópolis, partiu da monopólica Rede Brasil Sul, que sugeriu ao governador trazer gente do turismo para promover o estado. Foi feito. Com a ajuda do governo federal, representado pela senadora Ideli Salvatti, do governo estadual e também do municipal, foram amealhados cerca de sete milhões de reais para garantir aos empresários tudo de bom e do melhor. Hospedados no Costão do Santinho, do também mega empresário Marcondes de Mattos, eles comeram, beberam e tramaram “grandes empreendimentos” turísticos para Santa Catarina à custa do dinheiro público. Não bastasse isso, ainda passearam no jatinho do governador, também pago com dinheiro público, por sobre regiões do estado onde poderiam “investir”.
No mesmo dia em que o evento acontecia, agricultores de todo o Estado faziam mobilização na capital, pedindo recursos ao governo para minimizar os efeitos da seca na região oeste. Coincidentemente as entidades que traziam os agricultores para protestar eram as mesmas que, semanas antes, mobilizaram mais de mil produtores no oeste para aplaudir o Código Ambiental, aprovado pela Assembléia Legislativa do Estado. Este código, construído pelo executivo, promove mais destruição ambiental que causa mais mudanças no clima, sendo portando causa da falta de chuva na região. Papo de louco? Não, é o bom e velho “realismo mágico” da nossa terra, que de mágico nada tem.
Para se ter uma idéia dos absurdos, no mesmo dia em quem rolava o evento milionário no mega hotel de Marcondes de Matos (empresário acusado de construir um campo de golfe com licenças ambientais falsificadas), o governador falava ao povo catarinense pelo seu órgão oficial, a RBS. O repórter, sem qualquer espírito crítico pergunta quais os benefícios desta reunião de turismo. Ao que o governador responde que vai geral muita coisa boa para o povo catarinense porque os empresários iriam trazer grandes empreendimentos para cá e que, com isso ajudariam a preservar a natureza, além de gerarem empregos. “Temos aqui no estado um grande volume de mata atlântica, e isso é muito bom para o turismo”. De novo o absurdo. Este governo foi o que, segundo pesquisas oficiais, mais desmatou a mata atlântica e que, com esse novo código aprovado, vai poder desmatar muito mais.
Pois, ainda se não bastasse a “farra dos dólares”, gasta com os gigantes do turismo mundial, ainda teve a desastrada presença do presidente Lula que, querendo ser engraçado para justificar o seu atraso aos “ocupadíssimos” homens do business, protagonizou a cena mais degradante. Ao mendigar os investimentos e fazendo propaganda da “primeiromundice” de Santa Catarina, disse que aqui tínhamos um estado rico, com estrutura, o que era bom, pois “os turistas não gostam de miséria. Caso contrário o Haiti seria o paraíso”.
Ora, além de ofender as gentes deste aguerrido país, o presidente Lula mostrou que não tem a menor vergonha de atuar como um capacho dos Estados Unidos na desastrada ocupação do Haiti, onde o exército brasileiro comanda as forças “de paz” da ONU.
E, assim, entre a fartura criminosa de dinheiro público - num estado que ainda não garantiu moradia para os desabrigados de Blumenau e volta as costas aos agricultores premidos pela seca – e a desavergonhada presença do presidente se prestando ao papel ridículo de animador de platéia, a vida em Santa Catarina vai seguindo. Para coroar com chave de ouro toda esta festança de dinheiro público, a população de Florianópolis vai receber, “de graça”, do braço midiático do poder no estado, a RBS, um show do Roberto Carlos. Para esse evento, que deve distrair a consciência das gentes enquanto o governo busca fazer de Florianópolis uma nova Dubai, a empresa siamesa da Globo devastou árvores no aterro sul, bem no espírito “preservação da natureza”. Mas, conforme diz em seu jornal “Diário Catarinense”, tudo vai ser devidamente replantado.
O que se espera, para que esta semana de horror e realismo nada mágico não fique pior, é que o “rei” não termine seu show cantando um de seus clássicos que clama pela proteção das baleias, que é uma espécie de hino à proteção ambiental. Aí sim, haverão apenas duas saídas para os lutadores deste estado. Ou saem pelo aterro afora gritando “Jesus Cristo, eu estou aqui”, em coro com Roberto, esperando ser esturricado com um raio. Ou começam a preparar a revolução. Alguém arrisca uma aposta?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ilha da Magia é porto, mas da nau de garapuvus



Acima: plenário lotado na audiência sobre o Plano Diretor Participativo na Câmara de Vereadores de Florianópolis; abaixo, panfletagem na frente da Catedral, centro da Capital, sob a chuva


Míriam Santini de Abreu, jornalista

“Dinheiro, volte
Eu estou bem, cara, mantenha suas mãos fora do meu monte
Dinheiro, é um sucesso
Mas não me venha com essa bobagem
Estou no grupo de viagem de primeira classe e alta fidelidade
E acho que preciso de um jatinho”

Money, Pink Floyd

E então aportaram em Florianópolis os homens de terno preto, nos jatinhos e limusines, para conferir a veracidade da carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel, todos a bordo da nau WTTC:

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Aportaram no Costão do Santinho, onde pedras adornadas com misteriosas pinturas rupestres vigiam o mar. Até este sábado, 16, irão mesclar conversas e acepipes enquanto traçam o futuro da Ilha de Santa Catarina e de todo o litoral catarinense. Parte da conta foi paga com dinheiro público, R$ 6,5 milhões, e será – alardeiam – compensada pela “mídia internacional”. O carro-chefe dos impressos do Grupo RBS no Estado, o Diário Catarinense, há uma semana conta em detalhes como será dividido o excelente butim, com o qual também irão se regalar governantes e empresários locais:

Edição de 10 de maio: 37 projetos, somando R$ 12 bilhões, irão transformar Santa Catarina em destino internacional: marinas, ecoresorts em praias “paradisíacas”, campos de golfe. Um dos homens de terno preto profetizou: “Estamos em recessão e temos que procurar por lugares que têm potencial e um valor de futuro”. Na capa da mesma edição, o título “Desolação” referia-se à seca que atinge o Planalto e o Oeste Catarinense.

Edição de 11 de maio: outro homem de terno preto lamenta que haja tanta “burocracia” e “insegurança jurídica” no Brasil impedindo o licenciamento dos empreendimentos. Preocupante, segundo ele, também é a atuação do Ministério Público, que impediria “avanços na área de investimentos estrangeiros e afasta os grandes investidores”. Um dos empreendimentos é em Governador Celso Ramos, que custará R$ 2,5 bilhões, gerando presumivelmente 10 mil empregos diretos e 15 mil indiretos num município que tem cerca de 12 mil habitantes.

Edição de 12 de maio: reportagem afirma que o maior número de empregos gerados no setor destina-se a ocupações de faxineira, recepcionista, camareira, cozinheira, garçom, barman e auxiliar de cozinha.


Edição de 13 de maio: Florianópolis, dizem, precisa de uma “intenção estratégica”, assim como Dubai, um dos Emirados árabes. Ali, na cidade plantada no meio do deserto, erguida com dinheiro do petróleo, clientes especiais podem escolher, a preços de R$ 20 milhões a R$ 133 milhões, 14 modelos de luxo de minissubmarinos construídos nos Emirados, com um alcance de aproximadamente 5.500 km. Nesta mesma edição, um texto de apenas uma coluna fala do fim do Plano Diretor Participativo de Florianópolis.
Edição de 14 de maio: esportistas, empresários e políticos da nau WTTC juntam-se para angariar recursos para uma tal de Fundação Amazônia Sustentável. Um dos homens de terno preto diz que eles irão chamar a atenção de todos “para a necessidade de preservar a maior floresta tropical do mundo”. A página na internet revela que os co-fundadores da tal Fundação são o governo do estado do Amazonas e o banco Bradesco, a mantenedora é a Coca-Cola e o parceiro é a rede de hotéis Marriott. A Cola-Cola está cada vez mais afoita na cruzada para privatizar fontes de água mundo afora. Na Amazônia, nada melhor que manter uma fundação com a chancela do governo do estado. Entre os objetivos da Fundação Amazônia Sustentável estão:
“. Promover a edição, publicação e distribuição de livros, revistas e outras formas de divulgação, bem como apoiar a realização de congressos, seminários, simpósios, exposições e demais eventos de interesse técnico-científico;
. Oferecer condições para que a iniciativa privada possa contar com instrumentos adequados de co-participação na programação de pesquisas e no apoio a programas e projetos de interesse das áreas de meio ambiente, recursos hídricos, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.”

Ah, a boa Parceria Público-Privada, com um toque de aval científico!

O conteúdo que foi alvo da breve análise acima, sobre as mais recentes edições do DC a respeito da nau do WTTC, se repete no A Notícia, de Joinville, no Jornal de SC, em Blumenau, no Hora, em Florianópolis, além das rádios, internet e na onipresente programação local e regional da RBS TV. A discussão feita pelo Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina sobre o oligopólio da RBS no Estado, que é alvo de Ação Civil Pública no Ministério Público Federal, mostrou os reflexos disto. O Grupo praticamente monopoliza o discurso de e sobre Santa Catarina, e saiu do intestino da rede gaúcha, nos seus Painéis RBS, a idéia de fazer a nau do WTTC aportar em Santa Catarina.
O corolário disso está em dois fatos recentes no Estado. Na edição de 6 de maio, uma reportagem no DC discorre sobre as medidas adotados pelo governo do Estado contra a seca que arrasa o Planalto e o Oeste Catarinense. E quais são?
1.incentivar a construção de cisternas, poços e açudes; 2.criar um comitê de ação para combater a estiagem e seus efeitos; 3.monitorar a chuva, os rios e as águas subterrâneas; 4.liberar R$ 1 milhão (!) para a contratação de empresas para a distribuição de água.
Detalhe: a conta da construção de cisternas, poços e açudes ficará para quem “aderir à iniciativa”.
É de imaginar a equipe de governo a matutar sobre como convencer a chuva malvada a cair, enquanto aguardava, ansiosa, a vinda da nau do WTTC.
Agricultores que se endividaram para construir chiqueiros e aviários e assim atender o agronegócio estão com a produção parada. Estudos mostram que, nos últimos nove anos, sete foram de estiagem. A falta de chuva não é novidade; o desequilíbrio ambiental também não. E a resposta estrutural que o governo do Estado dá é sancionar, em abril, o Código Ambiental, que vai ao encontro da necessidade de lucro cada vez maior, especialmente da cadeia do agronegócio. O jornal da Assembléia Legislativa de 30 de abril registra a visita da comitiva parlamentar catarinense à Câmara dos Deputados e ao Senado para defender a nova lei ambiental, alvo de Ação Direta de Inconstitucionalidade. Na foto, deputados, em seus ternos chiques em volta de uma mesa, são o retrato macilento da penúria da política.
Que grande orquestração, este Código Ambiental sob medida para “os negócios”, essa nau do WTTC à cata de ouro, prata ou outra coisa de metal ou ferro, esse discurso hegemônico da mídia RBSiana que vende a paisagem e se importa tão pouco com as pessoas!
Basta relembrar a célebre entrevista do governador Luiz Henrique da Silveira na TVBV, no qual ele desfia suas recorrentes reclamações acerca de qualquer iniciativa, movimento ou discurso que se contraponha ao que ele planeja para Santa Catarina. Em certo trecho LHS afirma: “Agora você me diz: e a favela do Siri? Do lado do campo de golfe que não querem deixar o Fernando Marcondes (de Mattos, dono do Costão do Santinho Resort) fazer? Por que não se proíbe a proliferação de favelas, que jogam, me permita a expressão irada, cocô para a praia, para provocar doenças nas nossas crianças? Por que não se atua nisso aí para impedir? Né? A favela pode poluir a praia! Agora um resort, um hotel, um campo de golfe para atrair turista e gerar emprego e renda não pode!”
Isso está em http://video.google.com/videoplay?docid=-8286208201407673708 A favela à qual o governador de Santa Catarina se refere é retratada, assim com a luta de seus moradores, na mais recente edição da revista bimestral Pobres & Nojentas.
Fica a critério de cada um analisar os sentidos que o discurso de Luiz Henrique da Silveira provoca. Mas a prática está escancarada, e jorra inesgotável daquele pavilhão construído no Costão do Santinho, inspirado nas arenas da Grécia, onde as escotilhas da nau do WTTC deram passagem à piratas bem-vestidos e com cabeças-de-planilha.
Por tudo isso é que, com gosto, fotografei o Plenário lotado da Câmara de Vereadores de Florianópolis na audiência pública que, nesta quinta-feira, 14 de maio, discutiu o golpe que o prefeito Dário Berger está aplicando para barrar o Plano Diretor Participativo da Capital. Gente reunida ali, em noite de chuva, para dizer NÃO! Acesse
http://www.youtube.com/user/SindiJornalistasSC para saber mais sobre o assunto.

Pero Vaz de Caminha disse na Carta a El Rei D. Manuel: E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.
Ao se desvanecer esta frente fria no outono ilhéu, embarcarão, também, os piratas da nau do WTTC. Mas a lenha que tomaram de nós há 500 anos pode ter ficado mais forte. Os garapuvus de Desterro, árvores-gente-canoa, não vão se desprender da terra assim tão facilmente...

Casa de Menandro

Edward_Dimsdale


Fernando Karl

Logo se espalha um suave vento e as cortinas começam a dançar. A serenidade de um verso latino. Na casa de Menandro angst morre nas pedras. Eu escuto orvalho no olho do peixe que paira o aquário da casa antiga, casa antiga que os vendavais circundam. Uma ramagem de sutis idílios faz sombra na parede branca da casa de Menandro. O sol marinho dá nas calhas e nas venezianas. Menandro desce os degraus de pedras soltas, nos galhos do salgueiro vai deixando blusa, calça, sapatos, chapéu, cachimbo.

Núcleo Gestor Municipal denuncia a prefeitura por interromper e atrasar o Plano Diretor Participativo

Nesta quinta-feira, 14, tem panfletagem na frente da Catedral, em Florianópolis, e Audiência Pública na Câmara de Vereadores sobre o Plano Diretor.
Desafiando a suspensão unilateral imposta pelo Prefeito Dário Berger ao processo de elaboração do Plano Diretor, muitos dos 13 núcleos distritais criados para elaborar o plano continuam se reunindo: o Núcleo Gestor Municipal do Plano Diretor Participativo – NGPDP - fez reuniões auto-convocadas e pediu que a Prefeitura retomasse o processo. A decisão do prefeito está em claro conflito com as leis federais que determinam que o planejamento e a gestão urbana sejam amplamente participativos.
A Prefeitura mandou desmontar as bases distritais utilizadas intensivamente pelas comunidades para seus trabalhos e reuniões. Mas muitos núcleos negaram-se a entregar as chaves como o IPUF exigiu.
O prefeito indicou no começo do ano que pretende mandar o Plano Diretor pronto para a Câmara Municipal até julho, mas o Núcleo Gestor autoconvocado lembra que isto será impossível sem o amplo envolvimento das comunidades em cada etapa do processo, que é exigido por lei. As comunidades querem terminar o processo o mais breve possível, mas com a plena troca de idéias e informações necessárias, para que o processo seja legítimo, democrático e participativo como manda a lei.
Nos últimos dois anos, centenas de reuniões comunitárias foram realizadas em 13 núcleos distritais e outros 8 sub-núcleos, a fim de elaborar um Plano Diretor para a cidade. Todas as regiões realizaram audiências públicas distritais em fins de 2007 e no ano passado para aprovar diretrizes para o plano, mas nenhuma Audiência Municipal foi convocada para aprovar as diretrizes ou considerar o planejamento da cidade como um todo, sendo que o processo de elaboração do PDP está apenas na metade. Durante esses dois anos e meio, a Prefeitura também não dotou o PDP de orçamento específico para que pudesse deslanchar e culminar com a elaboração do projeto de lei, o qual, diante do cronograma deliberado pelo Núcleo Gestor, já estaria agora em discussão na Câmara Municipal.
A prefeitura suspendeu os trabalhos do Núcleo Gestor Municipal após as eleições de 2008, e mandou fechar os núcleos distritais no começo deste ano, deixando as comunidades, e a sociedade civil em geral, sem voz no processo e sem informação sobre o Plano Diretor.
O rompimento do processo participativo claramente viola leis federais como o Estatuto da Cidade e a resolução 25 do Conselho das Cidades, que determinam:
A coordenação do processo participativo de elaboração do Plano Diretor deve ser compartilhada, por meio da efetiva participação de poder público e da sociedade civil, em todas as etapas do processo, desde a elaboração até a definição dos mecanismos para a tomada de decisões.
O Núcleo Gestor Municipal foi criado pelo município em 2006 para fazer essa coordenação, e é composto por representantes do governo, da sociedade civil e dos núcleos distritais. Apesar das exigências federais e do fato de que o IPUF coordenou dezenas de reuniões em 2008, o prefeito está argumentando que o decreto municipal que criou o Núcleo Gestor expirou no fim de 2007.
No início do ano passado, o Núcleo Gestor também aprovou uma resolução pedindo uma moratória no licenciamento de projetos com grande impacto, até a aprovação do novo plano diretor. Esta resolução foi referendada posteriormente na Audiência Pública Municipal de apresentação de diretrizes, realizada no Clube 12, em julho de 2008. A medida, quase igual a uma proposta feita pela prefeitura para o bairro do Itacorubi, busca evitar pressão excessiva sobre a capacidade de infraestrutura da cidade, para que grandes mudanças irreversíveis ocorram antes que o Plano Diretor Participativo esteja pronto. Mas a prefeitura não enviou a resolução para a Câmara, nem muito menos implementou o que ela propunha.

Perguntas básicas sobre Planejamento Participativo

1. Como deve funcionar a participação?

O Estatuto da Cidade, lei federal 10.257/01, determina: 4o No processo de elaboração do plano diretor e na fiscalização de sua implementação, os Poderes Legislativo e Executivo municipais garantirão: I – a promoção de audiências públicas e debates com a participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade; II – a publicidade quanto aos documentos e informações produzidos; III – o acesso de qualquer interessado aos documentos e informações produzidos.
Para regulamentar a lei, a resolução no. 25, do Conselho das Cidades federal determina: Art.4º No processo participativo de elaboração do plano diretor, a publicidade (...) deverá conter os seguintes requisitos: I – ampla comunicação pública, em linguagem acessível, através dos meios de comunicação social de massa disponíveis; II- ciência do cronograma e dos locais das reuniões, da apresentação dos estudos e propostas sobre o plano diretor com antecedência de no mínimo 15 dias; III- publicação e divulgação dos resultados dos debates e das propostas adotadas nas diversas etapas do processo;
Art.5º A organização do processo participativo deverá garantir a diversidade, nos seguintes termos: I – realização dos debates por segmentos sociais, por temas e por divisões territoriais, tais como bairros, distritos, setores entre outros; II -garantia da alternância dos locais de discussão.

Pergunta 2. Houve "ampla comunicação pública" (...) "quanto aos documentos e informações produzidos"?

A prefeitura não apresentou diagnósticos ou propostas formais para o Núcleo Gestor Municipal ou para os distritos. A divulgação do processo do PDP, pela Prefeitura foi um desastre. Por exemplo, a cartilha de sensibilização e mobilização for apenas distribuída em meados de 2008, quando deveria ser a primeira peça a ser produzida em fins de 2006.

Pergunta 3. Por que democracia participativa se temos democracia representativa?

Você sabia que a soma dos votos recebidos por todos os vereadores eleitos na cidade não chegam a representar 20% dos 301.000 eleitores de Florianópolis? Oitenta por cento da cidade não tem seu candidato eleito na Câmara Municipal! O próprio prefeito foi eleito por somente 41% desses eleitores. Claro que as pessoas eleitas ganham legitimidade e poder, mas a Constituição e o Estatuto da Cidade determinam que a sociedade tem o direto de participar diretamente na gestão e planejamento da cidade. A qualidade e a legitimidade política das diretrizes produzidas por via das discussões distritais com ampla participação das comunidades e dos diferentes movimentos sociais e entidades de classe é muito superior às definições tomadas entre quatro paredes por meia dúzia de técnicos, forma tradicional como eram produzidos os planos diretores anteriormente.

Comissão de Comunicação e Mobilização

Leia artigo sobre o assunto:

O golpe do Prefeito itinerante no Plano Diretor Participativo

Carlos Magno, do Fórum da Cidade

O PDP é uma conquista da Sociedade civil organizada de Florianópolis, mais do que isso é uma quase imposição desta frente à legitimidade e legalidade do mesmo.
O PDP nada mais é que um processo de planejamento participativo e está claramente definido no Estatuto das Cidades como o principal instrumento do Planejamento Urbano e visa à efetivação do direito a cidade e a seu final deve se consubstanciar numa lei municipal, que organizara o crescimento e o funcionamento da cidade. É no Plano que está o projeto da cidade que queremos. Ele diz quais os objetivos a serem alcançados, em cada área da cidade e, para viabilizá-los, identifica instrumentos urbanísticos e ações estratégicas que devem ser implementadas. Ele orienta as prioridades de investimentos da cidade, ou seja, indica as obras estruturais que devem ser realizadas. No Plano Diretor são regulamentados os instrumentos criados pelo Estatuto da Cidade, que possibilitam um avanço da Reforma Urbana com justiça social. Define coletivamente o uso e ocupação do solo bem como a agenda real da cidade.
O Concidades (Conselho Nacional das Cidades) através, principalmente, das resoluções de números, 13, 25 e 34 regulamentou, definindo os critérios, conteúdo mínimo e demais orientações e recomendações para que o Plano Diretor, atendendo ao Estatuto da Cidade, seja efetivamente democrático e participativo.
A cidade é o palco onde todos os atores sociais devem estabelecer um pacto social de modo a garantir o equânime usufruto dos bens e serviços disponíveis no espaço urbano, cabendo a cada cidadão igual responsabilidade no processo decisório de elaboração do Plano Diretor.
O PDP, assim como as audiências públicas, os plebiscitos, os referendos, o orçamento participativo, as conferências e os congressos da cidade e o Conselho da Cidade são espaços de exercício da democracia direta, participativa. Esses mecanismos de aperfeiçoamento democrático, consagrados a partir da Constituição de 88 e regulamentados pelo Estatuto das Cidades precisam ser consagrados, respeitados e exercitados em nossa cidade, pois representam uma evolução da democracia com o efetivo controle social.
Para garantir o processo foi criado o Núcleo Gestor do PDP, órgão colegiado definido a partir de audiências públicas para coordenar o processo, definindo em conjunto a metodologia do Plano Diretor.
Essas são as regras, esse é o acordo isso é que determina a lei. A dissolução unilateral do Núcleo gestor pelo executivo municipal, com o fechamento das bases distritais, é uma violência contra a democracia, mais do que isso ao Estado Democrático de Direito. O Núcleo Gestor é o fiador do processo e cabe a ele, junto com o chefe do poder executivo, entregar à Câmara o projeto de lei. A partir daí pode se transformar em Conselho da Cidade para acompanhar a tramitação do mesmo e ser o órgão de fiscalização da sociedade e do poder púbico para que os ditames do PDP sejam cumpridos.
Que democracia de ocasião, oportunista, casuística é essa? Até antes das eleições o processo participativo era propalado, propagandeado, papagaiado como uma grande mudança, como exemplo de participação popular. Tão logo terminam as eleições, eleito, o prefeito e nova Câmara decreta-se o fim do núcleo e desconsidera-se todas as deliberações deste, definidas antes das eleições.
Democracia é antes de tudo um valor político e a par das definições e dos discursos deve se consubstanciar em atos concretos em atitudes coerentes. Nossa frágil e jovem democracia local começava a trazer a tona os verdadeiros anseios da população e isso fica claro pela análise das diretrizes e demandas populares elencadas nos 13 distritos e oito subdistritos. Elas apontam mudanças e a principal, a que garante todas as outras é a participação popular na definição e controle das políticas urbanas. É justamente isso que mais incomoda e assusta aqueles que sempre fizeram da cidade um “espaço de oportunidades”, na verdade, um cassino no qual especulam com o solo urbano, sempre ganham, enquanto a maioria só vê piorar sua qualidade de vida.
O executivo agora está com pressa...! Três meses para findar o Plano Diretor! Quanto cinismo! Iniciou o processo em agosto de 2006, quando o prazo legal para a entrega do Plano Diretor se encerrava em 10 de outubro do mesmo ano. Levou um ano para montar as bases distritais, nunca colocou no orçamento municipal recurso exclusivo para o PDP. Não contratou equipe técnica exclusiva para o trabalho. Sucateou o Instituto de Planejamento Urbano. Não articulou plano de mídia. E o prefeito nunca foi ao rádio ou a televisão conclamar a população para participar do PDP.
Está claro que as contas de campanha dos patrocinadores (aqueles que sempre querem ganhar) está sendo cobrada, afinal o nosso itinerante prefeito tem a possibilidade bastante real de perda de mandato já no mês de junho.
Essa atitude do prefeito Dário Berger é uma agressão à cidadania ativa de Florianópolis, é um total desrespeito e uma traição a todos aqueles que acreditaram e foram parceiros do executivo. Essa atitude é um golpe, é um verdadeiro estelionato político impetrado contra a sociedade civil.
Afora estes aspectos éticos e políticos recaem ainda sobre o executivo o ônus de estar cometendo um ato ilegal, que certamente lhe será cobrado nas instâncias jurídicas cabíveis caso sua decisão de cassação da cidadania florianopolitana persista.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Esgoto na praia, não!

Elaine Tavares
Agora que é outono caminhar pela praia do Campeche em Florianópolis é como caminhar na beleza. O azul do céu, intenso, se mistura ao do mar que, encapelado, vem bater violento na areia clarinha. Já não há turistas e as pessoas, que arriscam molhar os pés ou tomar o tímido sol, todas se conhecem. A vida assume aquele tom de comunidade que é coisa muito boa.
Pois no dia primeiro de maio esta gente toda se reuniu em frente ao grande oceano para a missa dos pescadores. Mesmo quem não é católico se acerca porque o que vale é desejar sorte aos Pedros do mar. Já faz cinco anos que a colônia de pescadores da região faz o encontro, tentando vitalizar a pesca para que ela não se perca no mundo cada dia mais vazio de artesãos.
Então, na manhã friazinha, o povo se junta para cantorias e rezas, pedindo para que as redes se encham. E, como não podia deixar de ser, vêm também os políticos. Prefeito, secretário da pesca, vereadores. Ficam ali, como peixes fora d´água, parecendo se importar. As gentes acolhem, afinal, espantar por quê? E, ao final, eles fazem discursos e saem felizes, cumprindo os rituais.
Mas, este ano, foi diferente. A comunidade não estava para brinquedo. Até porque a prefeitura está com um projeto de jogar bem ali no mar do Campeche o esgoto de quase toda a ilha. A proposta é construir um emissário que vai mar adentro e solta os dejetos no mar aberto. O povo que conhece de saneamento e ambiente já deu o veredicto: vai contaminar a praia, mesmo que fique bem distante. O mar traz, isso é fato!
Pois na hora do rito, da fala do prefeito, ele foi confrontado. Com a fala mansa e o jeito cismado de pescador, o seu Getúlio, que é quem organiza a festa, colocou a questão. “Na nossa praia não”. E o prefeito, acuado, sem palmas ou vivas, ficou sem chão. “Em algum lugar temos que jogar”. Saiu miudinho, com a saia justa. Pela praia ficaram as gentes a confabular. Pescadores, artesãos, artistas, moradores, surfistas, militantes, todos estão alertas. Esgoto na praia não vai rolar.
Não é à toa que o padroeiro do bairro é São Sebastião. Se o prefeito insistir, muitas são as flechas!... E infinitos os arqueiros...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Andarilho da luz

Míriam Santini de Abreu

“Eu vô-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”
Nietzsche

- Boa tarde! Como vai? Viu o Clayton?
Era geralmente com esta saudação que o seu Geraldo aparecia na sala do sindicato onde eu trabalhava no campus da Universidade Federal de Santa Catarina, a UFSC. Eu nunca soube quem era o Clayton. Mas incitava a conversa:
- Teve uns problemas! Agora vai bem.
E o seu Geraldo continuava:
- E como vai a Salete? Soube de fulano? E como vai sicrano?
E assim íamos, os dois, conversando sobre pessoas de quem eu não ouvira falar. Nem mesmo desse homem, que volta e meia me visitava, tenho a certeza da identidade. Era a forma como ele respondia quando eu perguntava o seu nome... A resposta não era segura; às vezes, nem vinha. Ele me olhava com aqueles olhos azuis lá no fundo das órbitas, deixando ainda mais magro o rosto comprido, e respondia: Geraldo. Ou não respondia, e engatava outro rumo para a conversa.
Conhecidos dizem que seu Geraldo mora no Saco dos Limões, um bairro da capital próximo da universidade. Pode ser. Em sua andança diária, ele sempre atravessa o campus da UFSC. Um dia desses cruzei com ele no Corredor das Casuarinas, as árvores enfileiradas ao lado dos prédios das engenharias. Calças ajustadas na cintura por uma corda, tênis velho e sujo, seu Geraldo caminhava com passos seguros e rápidos, apoiado num cajado:
- Para que isso, seu Geraldo?
- Para espantar os lobos! Você não vê? Estão por toda parte.
Sorri ao compreender que ele se referia aos cachorros andarilhos da capital catarinense.
Seu Geraldo é um homem de luz e de movimento. Um mistério que perdurou durante algum tempo no sindicato envolvia os ventiladores de teto do auditório. Era comum algum funcionário passar por ali e encontrar os quatro ligados em velocidade máxima, mesmo nos dias mais frescos. Pois houve uma tarde em que o seu Geraldo acabara de sair de minha sala e o flagrei apertando todos os interruptores que fazem o equipamento funcionar. Ligou e saiu!
Acho que minha miopia de alto grau me faz intolerante a excesso de luz, principalmente para trabalhar. Lá no sindicato, as cortinas ficavam sempre cerradas, com uma ou duas janelas abertas. Pois a primeira coisa que o seu Geraldo fazia era afastar as cortinas com volúpia, descerrar as janelas e, com expressão séria diante do meu espanto impotente, recomendar:
- Você precisa de luz!
Num dia de chuva fina, apareceu com uma de suas camisetas surradas coberta por uma sacola de supermercado com o fundo aberto, as alças presas aos braços, toda molhada. Uma capa improvisada. E no final das visitas, ele geralmente pedia uma pasta, onde colocava folhetos em geral recolhidos em setores da universidade, e umas “pratinhas”.
Pena que nunca fui capaz de compreender o sentido de muitas das conversas de seu Geraldo. Tudo nele, a voz, o rosto, as palavras, tinham algo inquietantemente profético. Numa andança minha que cruzou com a dele, fora do ambiente de trabalho, ele mal me olhou:
- Seu Geraldo! Que pressa! Vai aonde?
- Vou encontrar os guerrilheiros. Eles estão amotinados! – respondeu, voltando o rosto e acelerando o passo.
Mas nos entendíamos. Certa tarde, no sindicato, tivemos uma breve conversa sobre a saúde do Clayton, enquanto as cortinas eram abertas com um quase furor. De repente, ele me olhou, sorriu e disse, já para fechar a porta:
- Você é uma estrela. Eu sou outra. Nós somos alguma coisa, né?
Faz tempo que não o vejo. Talvez esteja com os guerrilheiros.


“Ah, o mendigo!
No verão foi visto só
com a terra e o céu”
Kikaku

Moradores das favelas lutam para derrubar os muros

Fátima Lacerda (Agência Petroleira de Notícias)
O prefeito do Rio pretende cercar 13 favelas da Zona Sul, a pretexto de defender o meio ambiente, impedindo que continuem a crescer. Mas a consulta popular feita pela Associação de Moradores da Rocinha no último sábado, 2, uma das comunidades escolhidas pelo prefeito Eduardo Paes, revelou que a população local não quer saber de muro, apesar de muitas informações desencontradas que circulam na mídia. Dos 1184 moradores que participaram do plebiscito realizado no último sábado, 1111 disseram “não” ao muro, contra apenas 56 “sim”, enquanto 6 anularam o voto. O prefeito carioca desconfia do resultado, acusa “manipulação política”, conforme matéria divulgada em O Globo. O mais lógico seria desconfiar da forma como foi conduzida a pesquisa anterior, feita pelo Datafolha, indicando que os moradores da Rocinha estavam divididos e induzindo o leitor a acreditar que “os mais pobres eram favoráveis à construção do muro em torno da favela”. A pesquisa do Datafolha apontou “empate técnico”.
O presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Antônio Ferreira (Xaolin), lembra o significado simbólico dos muros idealizados pelo prefeito que parece sofrer de miopia, já que não consegue enxergar além do seleto grupo social de onde provem e para quem governa. Xaolin ensina: “O muro tem um significado simbólico de separação. No caso da cidade, ele isola os mais pobres, vetando o acesso à floresta. Nós também temos o direito de acessar a mata e todo o resto da cidade livremente. O muro não impede novas construções. Ele dá força ao preconceito. Além disso, esse projeto foi imposto de cima para baixo e não houve diálogo nenhum”. (depoimento extraído do Correio da Cidadania). Na mesma linha de raciocínio, o presidente da Federação das Favelas do Estado do Rio de Janeiro/Faferj, Rossino de Castro, pergunta, perplexo: "Querem transformar as comunidades em guetos?" A atitude dos moradores da Rocinha e demais, que deverão participar do ato convocado pela Faferj, desconcerta o plano das elites. Em 1989, o mundo saudava a derrubada de um muro, o de Berlim. A luta de Nelson Mandela e tantos outros contra os muros do apartheid, na África do Sul, durou cinco décadas, até que o regime de segregação racial fosse derrubado oficialmente, em 1993. Mas a humanidade não caminha em linha reta. Vive em permanente queda de braço.
O capitalismo neoliberal reforçou novamente as muralhas, reinventando justificativas para encobrir a velha luta de classes. Ariel Sharon levantou, em 2000, o Muro da Cisjordânia que, mesmo sentenciado pelo Tribunal de Justiça de Haia (2004), continua de pé, mantendo os palestinos isolados como num campo de concentração. Com oito metros de altura, é duas vezes mais alto que o Muro de Berlim e quinze vezes mais longo. Os muros que separam os Estados Unidos do México começaram a ser construídos em 1994, com George Bush, o pai. Apesar das polêmicas que a obra gerou, em 2006, o Congresso estadunidense aprova a construção de novos muros “de segurança”, que impressionam pela tecnologia agregada: barreiras de contenção, iluminação de altíssima intensidade, detectores antipessoais de movimentos, sensores eletrônicos, rádios, policiamento ostensivo, helicópteros com armamentos separam as fronteiras de San Diego-Tijuana, Arizona, Novo México, Texas...E o que dizer do Muro de Marrocos, símbolo da ocupação marroquina no Saara Ocidental? E dos arames farpados que “protegem” da imigração as cidades espanholas de Ceuta e Melilla? Qual é a diferença entre esses muros da vergonha e os muros do Eduardo Paes? A retórica, talvez. Mas, essencialmente, a diferença é nenhuma. Conter o crescimento de favelas com muros, atribuir aos pobres a responsabilidade pela destruição das matas que restam (a maior parte já foi destruída por séculos de dominação branca); culpar, punir quem fica de fora das políticas públicas, é fazer uma aposta na guerra. É desafiar os povos segredados que, como reação natural, tenderão a ocupar mais. Sr. Prefeito, fica um apelo: que tal fazer diferente? Ouvir o que as comunidades têm a dizer e tentar governar para todos os cariocas? Nesse debate, a posição mais sensata, mais inteligente, mais civilizada é a dos moradores das favelas que só querem ser ouvidos, respeitados, integrados à cidade. No caso da Rocinha, os moradores sugerem, como alternativa ao muro, um anel viário que começaria no Morro Dois Irmãos, cercando a comunidade pela mata, já apelidadas de ‘ecotrilhas’. A idéia construir uma trilha pavimentada que serviria como área de esporte e lazer para quem vive na Rocinha, na Gávea, em São Conrado. O controle seria feito pelo poder público, por meio da guarda municipal comunitária e da guarda florestal.A favela quer negociar. Mas para ser ouvida, tem que demonstrar força. Fica o chamado: Santa Marta, Rocinha, Pedra Branca, Chácara do Céu, Parque da Cidade, Benjamin Constant, Morro dos Cabritos, Ladeira dos Tabajaras, Morro da Babilônia, Chapéu Mangueira, Cantagalo, Pavão-Pavãozinho, Vidigal, Providência e tantas outras e todos os humanistas, sejam de que partido for. Amanhã, quarta-feira, 6 de maio, às 15 horas, compareçam ao ato em frente à Federação das Favelas do Rio de Janeiro, na Praça da República, 24, no centro, Rio de Janeiro.
Abaixo a política dos muros e dos campos de concentração! Que tal inverter o discurso dominante e começar a cobrar uma política séria de habitação popular. Será que o projeto anunciado pelo presidente Lula vai mesmo sair do papel ou ficará restrito às boas intenções? Urge que sociedade se mobilize para derrubar os muros da segregação e do preconceito. www.apn.org.br

sábado, 9 de maio de 2009

Mulheres em mim

Rosangela Bion de Assis

Quantas, tantas...
Todas na mesma busca, procura.
Uma me desperta
e já outra toma o café.
Uma abre a porta, beija
e outra senta a mesa.
São muitas, sendo uma.
É uma, com infinitos lados.
Cada um com seus desencantos.
Quantas moram em mim?
Uma sempre com a boca pintada,
outra é só reflexão,
uma na limpeza,
outra largada.
Ainda no mesmo dia,
bailarina,
fêmea,
idealista,
perdida,
sonhadora.
Elas não sabem como.
Só sabem que, com a mesma intensidade,
se amam
e tudo queriam mudar.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Quem é pirata?

Por Elaine Tavares - jornalista

Tenho lido e escutado as notícias sobre os “piratas” na Somália e, nem sei bem porque, ainda me surpreendo com a falta de responsabilidade e a má fé dos jornalistas. Tudo bem que o jornalismo de hoje em dia é um pastiche, mera propaganda do sistema capitalista. Mas, vez em quando, penso que os profissionais que atuam nesta área precisariam ter um mínimo de dignidade e, diante de questões abissais como a da Somália, pelo menos tentar contextualizar os fatos.

Um “pirata” somali não é obra do acaso. Ele não brotou no mar assim, de chofre, por conta de uma possível “natureza malvada” daquela gente. Não. Os “piratas” no Golfo de Áden são a expressão acabada do processo de destruição empreendido pelos países coloniais naquela região do continente africano. Com a criação de fronteiras artificiais e as disputas dos países da Europa e da União Soviética a situação por ali só se agravou a partir dos anos 60 quando foi “inventado” o país, dividindo etnias e famílias que ocupavam aquela região por séculos desde os tempos do Império Otomano. As gentes locais e suas formas de organizar a vida foram solapadas pela presença estrangeira e, hoje, seguem mergulhadas numa luta encarniçada pelo poder político, que envolve questões externas e internas, como a demarcação de fronteiras com a Etiópia.

Pelo fato de, na década de 70, a União Soviética hegemonizar o governo naquela região – que é tremendamente estratégica tanto política como comercialmente - a intervenção dos Estados Unidos logo se fez presente com todo o seu aparato de intrigas, golpes e construção de lideranças locais aliadas, o que mergulhou o país em uma sangrenta guerra civil, na qual os que mais padecem são as gentes do povo, como sempre acontece nestes jogos de poder.
Em 1992, com o velho golpe da ajuda humanitária os Estados Unidos – liderados pelo democrata Bill Clinton - ocuparam a Somália, mas acabaram metidos numa enrascada tremenda, enfrentando a reação, e saíram de lá vencidos, com vários soldados mortos e uma centena feita refém dos soldados somalis. A pirataria vem desde estes dias, não é coisa de agora e surgiu mais na tentativa de garantir alimento para as pessoas que morriam de fome. Mesmo agora, a maioria das investidas é nos navios carregados de comida.

O povo da Somália vive na mais absoluta miséria, acossado por uma luta sem tréguas que envolvem vários interesses que não são os deles. Seja o controle do território que é porta de entrada para o mundo asiático, seja a tentativa de dominação pela fé, seja o uso do território para depósito de lixo atômico, seja pela rapina dos peixes do mar.

É possível que entre os que hoje tomam os navios que por ali passam ou ali vão roubar as riquezas da Somália existam “bandidos”, como fala a mídia. Mas, a maioria faz parte da Guarda Costeira Voluntária da Somália, argumentando que o que estão fazendo nada mais é do que a defesa nacional. Imaginem que um navio de uma nação qualquer fosse para a costa dos Estados Unidos jogar lixo ou pegar todo o peixe de lá, ou da Itália, ou da Inglaterra? A ação da Guarda Costeira destes países seria considerada pirataria? Certamente que não.

- Ah, mas eles fazem reféns!... Sim, é verdade, e isso não se justifica. Mas, quem em sã consciência pode julgar o ato desesperado de uma nação que vive há mais de uma década num caos não provocado por ela? O povo somali há tempos vem tentando se fazer ouvir, há décadas busca resolver seus problemas, mas as grandes nações não deixam. Elas fazem é fomentar ainda mais o caos intervindo com seus exércitos, planos secretos e seus desejos de dominação. Então, quando homens armados e famintos se voltam contra os impérios, são denominados “piratas”. Típico.

Para nós, figuras tão distantes deste terrível campo de batalha, para onde o simpático Obama deve enviar tropas bem loguinho – alimentando assim a bocarra da indústria de armamento nesta crise do capital – fica o desafio de conhecer mais sobre estas gentes. Há séculos que o povo do continente africano vem sendo dizimado pela cobiça das grandes nações capitalistas e tudo o que fazemos é silenciar. Que pelo menos agora não sejamos cúmplices de mais uma ação de violência contra a gente da Somália, impedida que está desde há anos, de construir sua própria história.

Os piratas, enfim, não são os homens famélicos e desesperados, os que ainda encontram forças para defender seu chão. Piratas são estes que chegam com seus navios, roubando as riquezas dos outros e travestindo-as de “livre comércio”. Estes sim mereciam ser parados e julgados como ladrões.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Esperem a vez

Míriam Santini de Abreu

Esta semana estive duas vezes no Setuf do Ticen (as siglas parecem espirrar, provavelmente de alergia) para retirar a segunda via do cartão que “concede o benefício” de pagar menos para usar o transporte coletivo. Quem paga em dinheiro gasta mais. Perdi o cartão sabe Deus onde. O tal Setuf está sempre cheio. Há quatro tipos diferentes de senha. Nas paredes cartazes do tipo “Não faça perguntas ao vigilante”, “Vocês está sendo filmado”, “Acesso restrito”. Os funcionários têm que passar o dia ouvindo o sinal do aviso eletrônico de mudança de senha. E os “usuários”, que esperem a vez.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Rugosidades da alma

Míriam Santini de Abreu
Cada cidade tem a sua rugosidade. Peço essa palavra emprestada da geografia, ou melhor, do geógrafo brasileiro Milton Santos. É um conceito absolutamente poético quando a rugosidade nos faz parar na rua e tremer o olhar. Rugosidade, explica ele em um dos seus livros, é o que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem. É o que resta do processo de eliminar, acumular, sobrepor, “com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares”.
Em Florianópolis, rugosidades são aqueles casarões do centro, patrimônio histórico agora rodeado por prédios chiques com suas peles de vidro. Em São Leopoldo, onde morei, é uma pequena igreja que, para não ser demolida, ficou encravada nas paredes de um shopping center. Notar essas coisas é como descascar a história e encontrar diferentes cores de tinta.

Penso, com um certo encanto, que as rugosidades podem ser também de outro tipo, acumular outras coisas. Coisas que ligam o tempo de agora ao do passado através do fazer das gentes. É assim com as benzedeiras. No século 21, com tantas conquistas na medicina, há remédio e operação para quase tudo. Conseguir comprar a panacéia e se curar é outra coisa. Mas mesmo hoje há homens e mulheres que curam doenças com benzeduras de tudo quanto é tipo.

Em Caxias do Sul, a cidade onde nasci, uma das mais conhecidas era a velha Fedrizzi, onde minha mãe nos levava quando não conseguíamos dormir. Era uma insônia estranha, amedrontadora. No meio da noite, eu e meu irmão mais novo acordávamos e, com o pouco de luz que vinha da janela, víamos os objeto longe e perto, em rápida sucessão. Eu berrava e a mãe já sabia o motivo: eu estava “enxergando longe”. No dia seguinte, dá-lhe benzedura. Há pouco tempo, minha mãe é que andava com dor nas costas e foi procurar a Iró, outra benzedeira que mora perto de casa. Ela usa uma vela, que passa ao longo da curvatura da coluna enquanto faz orações e fala baixinho algumas palavras.

Lá na serra gaúcha também vive O Velho, cujo nome completo desconheço porque sempre o chamam assim. Mas é José. Se alguém torceu o pé no futebol, deu mau jeito nas costas ou no pescoço, profere a sentença: “Vou no Velho”. Ele mora em Caxias, nasceu em Vacaria e aprendeu a arte da cura com o pai. O Velho não é de muita conversa, mas a casa simples onde mora sempre tem gente precisando colocar alguma coisa no lugar. Se alguém faz muito fiasco, O Velho não perdoa: “Não pode estar doendo tanto”. Na saída, quem tem dinheiro dá o que pode.
Dirão alguns que é melhor procurar o posto de saúde ou chamar o Help. Talvez. Eles podem dar um jeito no corpo, mas as rugosidades também fazem bem para a alma.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Pobres no Orkut

A jornalista Marcela Cornelli
está cuidando da Pobres & Nojentas no Orkut. Temos lá a nossa comunidade,
"Comunidade Pobres & Nojentas", tão charmosa quanto a revista.
Visitem-nos!!!

A História Oculta dos Estados Unidos

Por Waldir José Rampinelli - Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina - Fonte: IELA


04.05.2009 - Nos arredores de Boston, em uma lápide no parque nacional se lê a inscrição: “Aqui jaz uma mulher índia, uma wampanoag, cuja família e tribo entregaram suas vidas e suas terras para que esta grande nação pudesse nascer e prosperar”. Muitos cidadãos estadunidenses, gente decente e bem intencionada – diz Noam Chomsky –, desfilam continuamente junto a esta tumba, lendo o epitáfio sem exibir a mínima reação, quando não um sentimento de satisfação pela homenagem prestada a esta pobre gente. Provavelmente não fariam o mesmo diante de um Auschwitz ou um Dachau, tanto que o Dia Anual de Lembrança do Holocausto é um evento nacional nos Estados Unidos. Sete grandes museus se espalham pelo país recordando o massacre nazista e nenhum sobre a escravidão capitalista. O genocídio dos nativos – cuja população girava em torno de 12 a 15 milhões de pessoas por volta de 1492 – se estendeu mais tarde aos negros, sem esquecer a opressão e a exploração da classe dominante aos brancos pobres, às mulheres e às crianças. Por sua vez, com o expansionismo externo, os Estados Unidos não apenas conquistaram 55% do território mexicano, como também se apoderaram de domínios e ilhas espanholas, obrigaram a França a vender a Luisiânia e impuseram, baseados em suas mais diversas doutrinas (Monroe e Destino Manifesto), uma hegemonia sobre a América Latina. Deste modo eles foram se expandindo e contando a sua história como uma grande saga e uma grande aventura de um grande povo
[1].
O historiador Howard Zinn mostra em “A outra história dos Estados Unidos”
[2] - ainda sem tradução para o Brasil –, a história que não é ensinada nas escolas e universidades e tampouco escrita nos livros e revistas. “Se a história tem que ser criativa – para assim antecipar um possível futuro sem negar o passado – deveria, creio eu, se centrar nas novas possibilidades baseando-se no descobrimento dos fatos esquecidos do passado, nos quais, ainda que seja só em breves pinceladas, as pessoas mostraram uma capacidade para a resistência, para a unidade e, ocasionalmente, para a vitória”[3]. Ao se referir à Declaração de Independência redigida por Thomas Jefferson e proclamada em 4 de julho de 1776, afirma que, embora ela enunciasse “que todos os homens são criados iguais, que seu Criador lhes dá certos direitos inalienáveis, entre outros o da Vida, o da Liberdade e o da Felicidade”, ocorreu, no entanto, que uma grande maioria dos estadunidenses foi claramente excluída destas conquistas, como os índios, os negros, os brancos pobres e as mulheres. A estes foram oferecidas as aventuras e as recompensas do serviço militar para que lutassem por uma causa que talvez nunca sentiram como própria. Zinn fala da vitória final em 1781, em Yorktown, na Virginia, na qual os ingleses foram derrotados com a ajuda de um potente exército e frota francesa, bem como dos marginalizados da sociedade.
Persiste até hoje nos Estados Unidos uma verdadeira mitologia em relação aos Pais Fundadores da Pátria. Segundo Zinn, eles não buscavam um balanceamento de poder, mas sim um mecanismo que desse o total controle à classe dominante da época. “O certo é que não queriam um equilíbrio igualitário entre escravos e patrões, entre os sem terras e os latifundiários, entre os índios e os brancos” (p. 82). Os Fundadores não levaram em conta as mulheres, que significavam a metade da população. Elas nem sequer foram mencionadas na Declaração de Independência e estiveram ausentes da Constituição, sendo a parte invisível da nação.

Duas guerras civis
A Guerra Civil ou da Secessão (1861-1865), apresentada como a da abolição da escravidão, teve um objetivo fundamental, qual seja, o de transferir mais poder aos ricos do Norte, de modo especial aos monopólios. “Um governo assim”, afirma Zinn, “não aceitaria que fora uma revolta que pusera fim à escravidão. Só se acabaria com a escravidão em termos ditados pelos brancos, e somente quando o exigissem as necessidades políticas e econômicas da elite empresarial do Norte. Foi Abraham Lincoln quem combinou com toda a perfeição as necessidades do empresariado, a ambição do novo Partido Republicano e a retórica do humanismo”
[4]. Uma vez libertos, os negros tiveram que se alistar no exército e na marinha. “Sem sua ajuda”, diz o historiador James McPherson, “o Norte não teria vencido a guerra da forma como o fez, e talvez, simplesmente, não a ganhasse”, menciona Zinn (p. 148). Lembro que às vésperas da Guerra Civil a escravidão já havia desaparecido em toda a América Latina, com exceção de Cuba (1886) e do Brasil (1888).
Na década de 1870, quando os negros começaram a se organizar para exigir os direitos civis, a oligarquia branca do sul usou de seu poder econômico preparando grupos racistas com práticas terroristas, como a Ku Klux Klan. “Aboliu-se a escravidão, porém foi substituída por uma espécie de peonagem. Não se resolveu a posição dos negros na sociedade, de modo que, cem anos depois, eles não desfrutavam de todos os direitos que, ao parecer, a guerra lhes havia prometido”.
[5] No centenário da independência (1876), uma “Declaração Negra da Independência” denunciou o Partido Republicano, que antes havia merecido sua confiança na busca da liberdade, conclamando os votantes de cor a assumir uma posição política própria. A Declaração, entre outras coisas, dizia que o sistema atual “apresentou ao mundo o absurdo espetáculo de uma terrível guerra civil pela abolição da escravidão negra enquanto a maioria da população branca [os brancos pobres] – aquela que criou a riqueza da nação – se vê obrigada a sofrer uma escravidão muito mais dolorida e humilhante”[6]. O mais grave da guerra foi, talvez, o legado de ódio e amargura que sobreviveu à geração combatente, especialmente contra os negros. Quase cem anos depois, no começo de 1945, quando o Queen Mary zarpou carregado de soldados para a guerra na Europa, os negros foram postos na parte inferior do navio, perto das máquinas, enquanto os brancos respiravam o ar puro na escotilha.
A outra guerra civil é o termo utilizado por Zinn para analisar o aumento da luta de classes nos Estados Unidos ao longo de todo o século XIX, tema totalmente ausente dos livros de história (cap. 10). Juntamente com a industrialização aparecem os operários que vão incrementar o conflito capital versus trabalho. As greves são uma constante não apenas por salário, mas também por redução de jornada laboral e por direito à sindicalização. Em 1844, quatro anos antes do surgimento do Manifesto Comunista, saiu no Awl o seguinte texto:

A divisão da sociedade entre as classes produtivas e as não produtivas e a distribuição desigual do valor entre elas nos leva em seguida a outra distinção: a do capital e mão-de-obra [...] a mão-de-obra agora se converte em mercadoria [...] o capital e a mão-de-obra estão enfrentados
[7].

Algumas categorias, como as feministas que se organizaram nos locais de trabalho, passaram a fazer greves exigindo não apenas salário igual para a mesma tarefa realizada, como também o fim da opressão sexual. Muitas delas se aliaram aos negros, enquanto certos sindicatos de trabalhadores brancos exigiam que os trabalhadores de cor criassem os próprios na luta pela desigualdade racial e de gênero.
A busca por uma sociedade mais justa – identificada como socialista – foi intensa no final do século XIX e principalmente no XX dentro dos Estados Unidos (cap. 13). Escritores famosos, como Upton Sinclair, Jack London, Theodore Dreiser, Frank Norris e outros, defendiam publicamente o socialismo ao mesmo tempo em que atacavam violentamente o capitalismo. Uma parcela dos trabalhadores, dando-se conta de que a raiz de sua miséria estava no sistema capitalista, começou a trabalhar por um novo tipo de sindicato. Em junho de 1905, na cidade de Chicago, cerca de duzentos socialistas, anarquistas e sindicalistas radicais de todas as partes dos Estados Unidos fundaram o Industrial Workers of the World (IWW), que faria um grande trabalho na organização de um sistema alternativo ao capitalismo. O IWW liderou greves, comandou marchas, organizou concentrações, criou grupos de estudos e divulgou publicações sendo sistematicamente atacado e perseguido pelo Estado. As mulheres socialistas, que formavam parte do movimento feminista, fizeram uma grande campanha pelo sufrágio universal e pela igualdade no casamento e na vida sexual. Margaret Sanger, no seu livro Woman and the new race, mencionado por Zinn (p. 254), afirmava que “nenhuma mulher pode considerar-se livre se não possui e controla seu próprio corpo. Nenhuma mulher pode se considerar livre até que possa escolher conscientemente se será mãe ou não”.
Embora as mulheres tenham conseguido o direito ao voto, apenas em 1920, após a aprovação da Décima Nona Emenda Constitucional, muitas delas, como Emma Goldman, tinham claro que apenas o sufrágio universal não as ajudaria na busca de sua emancipação. Era fundamental continuar a luta – dizia Goldman – reafirmando sua personalidade, tendo direito sobre seu corpo, negando-se a ter filhos a não ser que os deseje, recusando-se a ser uma empregada de Deus, do Estado, da sociedade, de seu marido, de sua família, enfim, fazendo sua vida mais simples, porém mais rica e profunda. Somente isto e não o voto libertará a mulher (p. 255).

A função do Estado
O Estado foi o grande propulsor do sistema capitalista nos Estados Unidos. Para isto criou toda uma estrutura que possibilitasse a existência de uma classe dominante que gerasse o lucro a partir do mecanismo da mais-valia explorando o trabalho dos imigrantes irlandeses, alemães, italianos, chineses e, finalmente, dos judeus e gregos. A Corte, o Congresso e o Executivo atuaram em perfeita consonância na consecução deste objetivo. Já em 1893, um juiz do Supremo Tribunal – David J. Brewer –, dirigindo-se ao Colégio de Advogados do estado de Nova York, dizia que “é uma lei invariável que a riqueza da comunidade esteja nas mãos de uns poucos” (sic). O governo, por sua vez simulando neutralidade para manter a ordem, foi servindo aos interesses dos ricos. O mesmo aconteceu com os partidos políticos, o Republicano e o Democrata. Um acordo entre os dois – que possibilitou a eleição de Rutherford Hayes, em 1877 – defendia que, ganhando um ou outro, já não haveria mudanças significativas na política nacional. Para Domhoff, há uma considerável semelhança entre os partidos, já que ambos são controlados pelas elites. Os dirigentes dos partidos apresentam apenas diferenças internas, ao passo que os partidários divergem por questões de classe e profissão. O Partido Republicano é controlado pelos grandes industriais e grandes banqueiros da classe superior
[8], brancos, protestantes e anglo-saxões provenientes de famílias que se tornaram ricas e famosas entre a Guerra Civil e a grande depressão da década de 1930. Recruta seus integrantes nas classes dominantes locais como pequenos comerciantes, altos funcionários de escritórios, advogados, médicos, engenheiros, enfim, pessoas pertencentes à classe média alta. O Partido Democrata, por sua vez, é composto por elementos muito novos e, ao mesmo tempo, muito antigos da classe superior, incluindo aristocratas do sul e descendentes de ricos, obtendo seu apoio entre trabalhadores, funcionários médios de escritórios, intelectuais, escritores e artistas de classe média alta[9].
As universidades, muitas delas criadas a partir de doações de famílias ricas que inclusive lhe emprestavam o nome, não estimulavam a crítica. Pelo contrário, adestravam os professores e estudantes a serem leais ao sistema capitalista. Deste modo a classe superior tem não apenas o controle geral delas, mas também de seus objetivos no largo prazo. As próprias universidades subvencionadas por recursos públicos, portanto com maior liberdade pedagógica, trataram de imitar as privadas. “As famílias, as igrejas e as escolas” – diz C. Wright Mills – “se adaptam à vida moderna; os governos, os exércitos e as empresas a modelam, e, ao fazê-lo assim, convertem aquelas instituições menores em meios para seus fins”
[10]. Mills mostra como as elites burocrática, econômica e militar se articulam em uma todo-poderosa dominação de classe.

O nacionalismo
O governo protegeu a indústria nacional de suas concorrentes estrangeiras, facilitou o surgimento dos monopólios, buscou mercados cativos para compra de matérias-primas e vendas de produtos manufaturados e lançou mão, principalmente no final do século XIX e início do XX, de estratégias como o pan-americanismo, o big tick, a diplomacia do dólar e a boa vizinhança para exercer sua dominação sobre a América Latina. Além disso, serviu-se do nacionalismo para se fortalecer diante de problemas internos e externos. O historiador Richard Hofstadter, no seu livro The american political tradition, pesquisou os principais líderes nacionais começando por Jefferson e Jackson, passando por Hoover e chegando a Theodore e Franklin Roosevelt; analisou republicanos, democratas, liberais e conservadores, chegando à conclusão de que “o alcance de visão [...] dos principais partidos sempre foi determinado pelos horizontes da propriedade e da empresa [...] pelas virtudes econômicas da cultura capitalista [...] Essa cultura tem sido intensamente nacionalista” (p. 416).
As reformas de Roosevelt para salvar o capitalismo da grande crise foram importantes, mas não fundamentais. Na realidade, coube a Segunda Guerra Mundial a função de debilitar a velha militância trabalhista dos anos trinta, já que o conflito passou a gerar milhões de novos empregos com salários mais altos. O New Deal só havia reduzido o desemprego de 13 para 9 milhões de pessoas. Além disso, a guerra aumentou o patriotismo e a união de todas as classes para derrotar os inimigos externos, enfraquecendo assim a luta contra os monopólios internos e as greves locais por melhorias sociais. Em 1948, o Tratado de Ajuda Externa – conhecido como Plano Marshall – exigia dos que aceitassem a “cooperação” que comprassem produtos manufaturados dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que obrigavam as nações européias e suas colônias a se abrirem aos investidores estadunidenses sobre uma base de igualdade.
Zinn termina seu livro mostrando que o Vietnam foi a primeira grande derrota do império global estadunidense no pós-Segunda Guerra Mundial, o que se deveu à luta dos camponeses revolucionários e ao movimento de protestos dentro dos Estados Unidos. Analisa os novos movimentos de mulheres, negros, índios e carcereiros nos anos 1960 e 1970. Mostra como Watergate, com a saída de Nixon, deixou intacto o sistema, tanto que as multinacionais atuaram na queda de vários governos, principalmente na América Latina. Comenta o trabalho da Agência Central de Inteligência e da Comissão Trilateral, esta criada para favorecer a união entre Japão, Europa Ocidental e Estados Unidos na luta, não contra um comunismo monolítico, mas sim contra os movimentos revolucionários do Terceiro Mundo que questionavam o sistema capitalista. Não deixa de falar de Carter-Reagan-Bush e o consenso bi-partidista.
Sem dúvida trata-se de um grande livro para conhecer uma história que sempre nos foi contada de outra maneira. A obra foi escrita em poucos anos, mas o seu autor tem mais de vinte de pesquisa e ensino e tantos outros de participação em movimentos sociais. Só assim se consegue escrever A outra história dos Estados Unidos.

[1] CHOMSKY, Noam. La fabricación del consenso. Nexos, México, n. 97, p. 29, jan. 1986.
[2] ZINN, Howard. La otra historia de los Estados Unidos. 2 ed. México: Siglo XXI Editores, 2005.
[3] Ibidem, p. 21.
[4] Ibidem, p. 142.
[5] MOYANO PAHISSA, Angela et alii. EUA: sintesis de su historia I. México: Aliança Mexicana, vol. 8, 1988, p. 467.
[6] ZINN, op. cit., p. 182.
[7] Ibidem, p. 172.
[8] Para Domhoff, “a ‘classe governante’ é uma classe social superior que possui uma parte desproporcionada da riqueza da nação, recebe uma quantidade desproporcionada dos lucros anuais de um país e proporciona um número desproporcionado de seus membros às instituições dirigentes e aos grupos que decidem os destinos do país.” DOMHOFF, G. William. Quién gobierna Estados Unidos? 16. ed. México: Siglo XXI Editores, 1988, p. 11.
[9] Ibidem, p. 124-125.
[10] MILLS, C. Wright. La élite del poder. México: Fondo de Cultura Económica. 1987, p. 14.

Instituto de Cardiologia suspende exames e consultas

O governo de Santa Catarina avança na privatização e terceirização do que é público. Confira na notícia abaixo:
No dia 1º de maio, oito setores ambulatoriais do Instituto de Cardiologia de Santa Catarina (ICSC) deixaram de funcionar, cessando a realização de cerca de dois mil atendimentos mensais aos usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) entre consultas, exames e outros procedimentos. A interrupção foi aprovada, por unanimidade, por médicos que atendem no Instituto de Cardiologia, após a Secretaria Estadual de Saúde declarar-se impossibilitada de reajustar o valor da “hora plantão”, o qual está há muito tempo fixado em R$ 22,50. A “hora plantão” é paga pelas horas trabalhadas que excedem a carga horária de 20 horas semanais, previstas pela lei. Devido à posição da Secretaria de Saúde, os cardiologistas decidiram cumprir somente a carga horária exigida por lei, e em função da falta de médicos em vários setores foram priorizados os atendimentos na Emergência e na Unidade Coronariana, que funcionam nas dependências do Hospital Regional de São José.

Pararam de funcionar no dia 1º de maio os seguintes setores:

- Ambulatório de Cardiologia, incluindo os atendimentos prestados na área de Cardiologia Geral, Controle de Anticoagulação, Cardiopatia Congênita em adultos e Cirurgia Cardíaca;
- Serviço de arritmias, que realizava avaliações de funcionalidade de marcapassos e cardiodesfibriladores implantáveis, tratamentos medicamentoso e por cateterismo de arritmias e exames de holter;
- Serviço de Reabilitação Cardíaca, que trabalhava com a recuperação de pacientes com doença cardíaca através de exercício físico supervisionado;
- Serviço de miocardiopatias e transplante, que atendia pacientes com doença cardíaca avançada, sendo alguns transplantados;
- Parte do Serviço de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, que realizava Cateterismos Cardíacos para diagnóstico e tratamento, incluindo Cateterismos Cardíacos Pediátricos;
- Serviço de medicina nuclear, que realizava exames e procedimentos terapêuticos contra o câncer;
- Serviço de Ergometria, que realizava testes de esforço e parte do Serviço de Ecocardiografia.

O Corpo Clínico do Instituto de Cardiologia enviou correspondência à Associação Catarinense de Medicina, Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina, Sindicato dos Médicos de Santa Catarina e Promotoria Pública do Estado de Santa Catarina alertando: “corre iminente perigo o atendimento público em cardiologia prestado pelo ICSC” e pedindo atenção para as estratégias oportunistas de terceirização dos serviços executados pelos profissionais do ICSC. Eles afirmam, no documento enviado, que a adequada remuneração dos atos médicos é somente um dos aspectos da crise vivida pelo Instituto de Cardiologia. A falta de pessoal médico para o adequado atendimento à população nesses setores, diante do impasse instalado, obrigou os cardiologistas a, nesse momento, priorizarem os serviços emergenciais.

Alguns desses atendimentos eram prestados exclusivamente pelo Instituto de Cardiologia. Além da população, também ficam prejudicados os oito médicos que atualmente cursam pós-graduação no ICSC e que realizavam estágios e recebiam orientação em vários desses serviços.

Durante vários anos os médicos do Instituto de Cardiologia cumpriram espontaneamente carga horária superior às 20 horas semanais previstas por lei. Com essa jornada de trabalho adicional, os cardiologistas viabilizavam o atendimento nesses setores paralelamente à realização de plantões durante as noites, finais de semana e feriados nas unidades de emergência e coronariana. O Cosemesc (Conselho Superior das Entidades Médicas de Santa Catarina) reivindica que a Secretaria de Estado da Saúde corrija o valor da “hora plantão”, mas até o momento não se chegou a nenhum acordo. Os médicos também manifestaram-se contrários a remuneração das “horas sobreaviso”, cujo valor atual é de 50% do valor da “hora plantão”.

domingo, 3 de maio de 2009

Alesc exibe documentário "Maciço"

Míriam Santini de Abreu

Vale a pena conferir o documentário "Maciço”, vencedor do Edital Cinemateca Catarinense/Fundação Catarinense de Cultura. “Maciço” tem 79 minutos de registro sobre as comunidades que compõem o Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis. Eu e Marcela Cornelli vimos no auditório da Casa da Memória, no centro da Capital. As próximas exibições, gratuitas, são as seguintes:

05 de Maio / 19h -
Fundação Cultural Badesc - Rua Visconde de Ouro Preto, 216 Centro - Informações: 48 3224.8846

Convidado: José Geraldo Couto e Maria Cecilia MN Coelho

07 de Maio / 19h - Auditório Antonieta de Barros – Alesc - Rua Doutor Jorge Luz Fontes, 310 Centro - Informações: 48 3221.2500

Convidados: Vilson Groh, Jeferson Dantas, Karen Christine Rechia e Ed Soul

Mais informações em:


http://www.cizaniafilmes.blogspot.com/
http://www.olharpontodoc.blogspot.com/

Graça musical








Míriam Santini de Abreu

Milagres acontecem, às vezes sob a lua crescente. Final de domingo um pouquinho frio, na nostálgica Freguesia do Ribeirão da Ilha, sul de Florianópolis, ouvindo o violinista e compositor gaúcho Yamandu Costa, e com ele o acordeonista Alessandro Kramer, tocando a Suíte Retratos – Pixinguinha... Gratuito!
Havia um menino com um olho e um ouvido colados na porta da igreja. Terá visto ou ouvido o santo que despejou essa graça?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A Serra em mim VI – Ubatuba







Míriam Santini de Abreu

A folheteria turística de Ubatuba, no litoral paulista, vende o mar, as praias, a estrutura comercial voltada para quem deseja estar ali para banhar-se, bronzear-se, fazer esportes radicais e comprar. Tanto que, nos locais que visitei, ninguém sabia dar informação precisa sobre onde comprar livros que contassem a história da cidade. Queria saber mais da Aldeia de Iperoig, habitada pelos tupinambás quando chegaram os portugueses. Ou sobre Hans Staden, o aventureiro alemão que foi aprisionado pelos indígenas em Ubatuba durante nove meses.

No belo casarão da Fundação de Arte e Cultura (foto acima), não havia publicações para vender. Indicaram as livrarias e um sebo, onde havia um único exemplar de um livro já esgotado, e que era usado apenas para pesquisas. No centro de informações turísticas obtive apenas uns folhetos com fotografias e indicações de pontos turísticos. O Centro de Visitantes do Projeto Tamar Ubatuba, para proteção das tartarugas marinhas, valeu a visita. Mas o Projeto já virou grife, tanto que a lojinha no interior do Centro de Visitantes vende uma série de roupas e acessórios com imagens dos bichos. O preço é tão salgado quanto o mar onde elas vivem.