segunda-feira, 9 de março de 2009

Nas ruas rebeldes, presente!...

Elaine Tavares, jornalista
Eu tenho outros pensares sobre a morte. Acredito firmemente que há mortos que nunca morrem. Estes são aqueles, imprescindíveis, que estão sempre na ponta de lança das lutas. Por isso não perco meu tempo com lágrimas. Gosto de celebrar meus mortos seguindo seus exemplos.
Por isso que estes dias, nas passeatas das gentes em luta pelo transporte coletivo, eu os vi, vivos, carregando bandeiras vermelhas, tal qual faziam em vida. Dois queridos companheiros desta UFSC, cujos corpos já não estão. Mas que eu jamais considerarei mortos, porque vivem em mim e em tantos outros que os amam.
Nas tardes quentes em que os jovens estudantes, junto com os militantes sociais, enfrentavam a polícia e o nojo dos passantes, pude vislumbrar o meu querido amigo Eduardo Dalri, militante comunista, implacável diante da injustiça, sempre presente nos protestos e nas lutas. Caminhava colado na pele daquela gurizada que iniciava agora o caminho tantas vezes por ele percorrido. Eduardo nunca morrerá enquanto houver um menino clamando justiça.
E o outro, que vi, riso largo, olhar azul, correndo por entre o povo, foi o Assis, guerreiro da gente, amigo fiel, eterno militantes de todas as causas. Assis sempre puxou a orelha dos estudantes da UFSC, no seu jeito meigo/bruto. “Não sejam burros, tem que lutar”. Ver ali, carregando o carrinho de som, o Diógenes, da Economia, foi ver o Assis. Era o sonho do Assis, um DCE de luta.
E assim são as coisas. Os nossos mortos seguem aí, vivos em nós. Eles não precisam de bustos, de placas, de nada que não seja nossa boa e velha luta. Mas, sempre é bom lembrá-los. E nem precisa ser em datas específicas. Falo isso porque me lembro das mulheres que foram ao sepulcro chorar por Jesus, quando ele se foi. Foram duramente repreendidas por um anjo que guardava a tumba. “Por que procurais entre os mortos aquele que vive?”. Faço minhas estas palavras, e conclamo aos que amam estes dois companheiros que foram para outro plano há tão pouco tempo a não procurá-los entre os mortos. Porque não estão. Eles vivem, nas ruas rebeldes... É lá que o reverenciamos!

domingo, 8 de março de 2009

Berro D'Água

Miriam Santini de Abreu

A propósito de uma postagem no blog
www.filosofadapedra.blogspot.com, em que é citado o livro “A morte e a morte de Quincas Berro D'Água”, de Jorge Amado, fiquei a pensar em como seria o berro da água. Por que a água berraria? E não de trata do sussurro de um fio d´água em meio à floresta, do gorgolejar da água em um velho encanamento, do trovejar de uma cachoeira numa queda de 50 metros. Trata-se de um berro, que também é diferente de um grito. O segundo implica susto; o primeiro, pavor. Quincas Berro D'Água berrou quando tomou água em vez de pinga. Mas o berro era dele, não da água. Teria a água berrado ao perceber que, sendo água, inundaria a garganta acostumada com pinga? A Filósofa da Pedra despertou uma inquietação que irá dar assunto para crônica.

Sobre o Dia Internacional da Mulher

hoje


hoje há uma nova luz no horizonte
e é uma dádiva do dia
hoje
momento a momento
muda o mundo,
a vida acontece
germina o futuro
hoje é o chão da existência

helena kolody

quarta-feira, 4 de março de 2009

Americanas mesquinha

Míriam Santini de Abreu
Não gosto de loja de departamentos. São impessoais, estão sempre lotadas. Mas precisava de um certo produto, que encontrei em uma loja no centro de Florianópolis. Caro, mas comprei. "Vai na Americanas!" - ouvi, dias depois. Lá estaria mais barato. E estava. Fiquei uns 15 minutos escolhendo mais algumas peças do produto. Ninguém à vista para pedir informação. Na fila esperei uns 10 minutos. A moça que me atendeu no caixa, simpática, reclamava de dor nas costas. A cadeira na qual sentava estava longe de ser confortável.
Na saída, chuva assustadora. Eu, assim como outros clientes, espero na frente da loja o aguaceiro passar. Mas decido pedir uma sacola plástica, daquelas grandes, para colocar uns livros, porque a sacola em que haviam embalado minhas compras era muito pequena, sem condições de abrigar algo além das mercadorias. Pois o segurança responde que não. Nada de bolsas. Nao podia dar. Óbvio que a iniciativa não partira dele. Certamente eram ordens do gerente, obedecendo algum coordenador, preocupado com as planilhas de algum diretor cuja cara o vigilante nunca deve ter visto.
Eu já detestava loja de departamentos. Agora detesto mais. E pago o que o comércio de rua cobrar, mas nas Americanas não entro mais. De império mesquinho, que nega sacolas de plástico e não garante cadeiras decentes para os seus trabalhadores, quero distância.

O tempo e o medo



Tem sido assim. Calor e umidade durante o dia, chuva tremenda no final da tarde ou noite. De dar medo.

domingo, 1 de março de 2009

Olhar de viajante


Míriam Santini de Abreu

Um homem com os olhos sombreados pelo chapéu, sentado na beira do rio, conta histórias sobre o saci. Lugar: o sertão paulista. Outro homem, rosto fino marcado por rugas, bate na terra com um sarrafo e revela que assim encontra objetos enterrados na mata, arte batizada de rabdomancia. Lugar: o litoral fluminense. São pessoas assim que os viajantes encontram Brasil afora, memória plena de causos, vidas enlaçadas com todos os que se dispõem a sentar e ouvir.
Há boa literatura sobre viajar, deslocar-se no tempo e no espaço, deixar para trás o que é familiar. Mas os significados disso são sempre muito pessoais. Viajar, penso eu, também é um ato de profunda fé. É preciso acreditar que o tempo passado longe dos amores, dos amigos, do que nos é sagrado, será generoso. Que a sorte será boa. Viajar é se desprender momentaneamente do-que-é para apostar no que-virá-a-ser.
Viagens também revelam o sem-fim de experiências de vida. Muitas vezes fica-se um dia, dois em uma cidade, um pequeno lugarejo, e no terceiro alguém nos cumprimenta, porque nos viu no dia anterior. Ou então basta entrar na padaria de uma ruazinha para receber o sorriso de uma atendente para quem somos ligeiramente familiares. Aí se tem a sensação de já pertencer àquela terra, àquelas rotinas, como se não houvesse lugar para voltar. Ali nascemos, ali ficamos. Por isso o retorno ao lar às vezes deixa a alma cheia de penumbras. A gente percebe que é de todos os lugares, e também de nenhum.
Nas últimas décadas o ato de viajar passou a fazer parte do lazer administrado, com uma imensa rede de negócios voltada para a prestação do turismo. Esse é mais um serviço do capitalismo. Mas conhecer aqueles homens – um na beira do rio, outro na trilha no meio da mata – é algo que não está em nenhum pacote turístico.

Jardim interno


Míriam Santini de Abreu
Às vezes, a alma é lama, mas às vezes é um jardim interno. E às vezes o jardim interno que é a alma espia descaminhos e, como quem não quer nada, entrelaça as sebes delgadas com um outro jardim. E exulta.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Endereço

Que graça! Em que lugar se pensa tanto na
beleza?!


Marujo de patas

Míriam Santini de Abreu
Era leitosa a tarde, parte dos morros coberta pela neblina. Eu mascava azedinhas sobre um tapete de trevos úmidos ao lado do embarcadouro quando o pequeno cão se aproximou. Queria se despedir. Descobrira um grande segredo: sob as águas daquela tranqüila baía homens cruéis haviam escondido um tesouro. Quando abri os olhos para desfazer a miragem, o pequeno marujo de patas já se largava ao desconhecido.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Seminário do Mucap em março

Quando: 5, 6 e 7 de março no Plenarinho da Assembléia Legislativa de Santa Catarina

5 de março

18h: Reunião do MUCAP: avaliação e planejamento do Movimento

6 de março

18h: Transporte Público, com Lúcio Gregório (Secretário de Transporte da gestão da prefeita Luisa Erondina – SP)

7 de março

09h: Organizações Sociais e Privatizações, com Sara Gramemann (Professora da UFRJ)

12h: Almoço na Vigília “Quartel da Liberdade” da APRASC e do Movimento Mulheres que Lutam, na Praça da Bandeira

14h: Organizações Sociais em Santa Catarina: o exemplo do Hemosc e do Cepon, com Mário Zunino (Hemosc)

Após as palestras: debate e formação para a campanha e formação de um projeto de iniciativa popular contra as O.S e em defesa do serviço público.

Contato para inscrições:
mucap@sintufsc.ufsc.br

Experiência e delícia

Míriam Santini de Abreu
Eu às vezes almoço no serviço. Pago uma "quentinha" em um restaurante qualquer no centro de Florianópolis e, quando como, às vezes nem coloco a comida no prato. Fica na "quentinha" mesmo - geralmente apoiada na mão esquerda, e não na mesa - e ainda tenho o hábito de comer sem faca, espetando e cortando tudo com o garfo. Dias desses deixei espantado um colega. - Cruzes, que modos! Me falta finura, admito.
Mas é certo que comer pode ser uma experiência, não só uma necessidade. No Carnaval visitei o Cé e a Val, irmão e cunhada, em Porto Alegre. Os dois têm gosto de preparar delícias. Serviram risoto com alho-poró, que eu só não repeti, depois da terceira vez, porque estava no limite da honra. Pratos, taças, bebida, tudo num impecável serviço de mesa. Tive que admitir: foi uma experiência.

Parque Getúlio Vargas: vida que flui


O Parque Getúlio Vargas, ou dos Macaquinhos, em Caxias do Sul, vivia jogado às traças. Mas, assim como o Parque Cinqüentenário, foi reformado, e agora está assim, ponto de encontro, namoro, caminhada, brisa nas bochechas, vida que flui entre árvores e crianças.

Chimia de figada



Míriam Santini de Abreu
Tive o gosto de mais uma vez participar do ritual de preparo da figada, comandado por minha mãe e minha tia. Lavar, moer, ferver, adoçar e depois despejar a massa viscosa em potes de vidro. E terminar a lida passando a chimia num pão novo! A vizinhança da mãe comenta: - Mas hoje tem tudo no supermercado!
Tem... Mas não a experiência!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A mão que me alimenta

Elaine Tavares
Nós somos a teia de nossas relações. Ao longo da vida vamos amealhando pessoas com as quais costuramos essa bonita colcha que é nossa existência. E, nesse costurar, vamos tecendo a “família”. Coloco a palavra entre aspas porque entendo que família é algo que está além da consangüinidade. Senti isso neste verão quando, trabalhando, não encontrei aqueles que me alimentam nos dias de labor. Eles, que para muitos são invisíveis, se mostraram absolutamente essenciais para minha existência. Sem estas criaturas, a colcha do meu viver ficou mais feia.
Reparei nisso no dia em que os vi voltar. Era uma tarde quente e, ao escapulir da sala para levar um documento, os percebi lavando mesas e preparando o bar para voltar à ativa. Ali estavam com seus sorrisos e seus rostos iluminados. Enchi-me de alegria, pois eles me faziam falta. Num átimo percebi que estes seres também são minha família. Estão colados em mim. O Emerson, que no escondido da cozinha prepara os lanches, a Elisângela que nunca aparece, mas faz aqueles bolos deliciosos que nos espreitam no vidro. O Leandro, o Éderson, o Itamar e a Bruna que se revezam na azáfama de atender toda a gente nas horas de burburinho, sempre com um sorriso, apesar do cansaço. E o Habdon, que invariavelmente tem um comentário sobre a política da América Latina. Nenhum lanche é servido sem uma boa análise.
Cada um deles, presentes no meu cotidiano, tece parte de mim. É das mãos deles que vem o café, o pastel, o bolo, o sanduíche, a energia que move meu corpo nestas tantas lutas. Por isso, nestes dias de volta às aulas, eu me sinto impelida a agradecer. Porque eles poderiam ser só funcionários do bar, seres anônimos. Mas não são. Estas vidas que vendem sua força de trabalho ao Marcos e Angelis, têm nome próprio, são seres singulares, meus companheiros de classe. Cúmplices no sonho de uma vida boa. Eles no balcão e eu criando mundos com palavras. Trabalhadores, todos nós, conspirando para que chegue a sociedade sonhada, na qual não existam explorados nem oprimidos. Essa coisa boa que chamamos socialismo...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Todo Poder é triste

"Não há potência má, o que é mau, há que se dizer, é o grau mais baixo da potência, e o grau mais baixo da potência é o Poder. O que é a maldade? É impedir que alguém faça o que pode, que efetue sua potência. De modo que não há potência má, há Poderes maus. Talvez por isto, todo Poder seja mau por natureza. A tristeza está ligada aos sacerdotes, aos tiranos, aos juízes, porque estes proíbem a potência de se expressar. Todo Poder é triste”.
Gilles Deleuze (1925-1995).


O Abecedário de Gilles Deleuze

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Pobres & Nojentas 16 chegou!

A luta das mulheres dos Praças que tomou os quartéis e às ruas em Santa Catarina – um movimento em defesa da dignidade de uma classe de trabalhadores que sofre com os desmandos do Governo Estadual – é a matéria de capa, assinada por Elaine Tavares, da edição número 16 de Pobres & Nojentas que chega às mãos dos nossos leitores a partir de hoje. A luta dos desabrigados pela enchente que atingiu o Estado no final do ano passado também é contada pelas mãos da jornalista Miriam Santini de Abreu nesta edição. Como sempre, a Pobres & Nojentas, vem para dar voz aos marginalizados e mostrar que outra forma de comunicação e jornalismo, além do que se vê mídia burguesa, é possível de ser construída. Vale a pena conferir esta nova edição que abre o ano de 2009. A Pobres & Nojentas também está à venda na banca da UFSC e na da Catedral, em Florianópolis. Não percam!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Movimentos formam Frente contra Aumento da Tarifa

Marcela Cornelli

Confira abaixo o Manifesto contra o Aumento da Tarifa, lido nesta terça-feira, dia 10/2, na Câmara de Vereadores em Florianópolis. O documento foi elaborado como resultado da formação da Frente Contra o Aumento da Tarifa, formada no dia 9/2, em Florianópolis, que mais uma vez vai chamar toda a população às ruas contra o aumento abusivo das passagens de ônibus na Capital e por um transporte público de qualidade e acessível a todos.

A próxima reunião da Frente Contra o Aumento da Tarifa será no dia 16 de fevereiro, às 18 horas, no Sindicato dos Bancários de Florianópolis.

Manifesto Contra o Aumento da Tarifa

Senhores e senhoras parlamentares:

Na noite de ontem (9/2), nos articulamos - militantes do Movimento Hip Hop, Portal Desacato, Centro Acadêmico Livre de Pedagogia (CALPE-UFSC), Movimento Passe Livre (MPL), PT (Partido dos Trabalhadores), UFECO (União Florianopolitana das Entidades Comunitárias), PJ (Pastoral da Juventude), Juventude Avançando (JÁ), Centro Acadêmico Livre de Arquitetura (CALA-UFSC), Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários (SEEB), Associação dos Praças de SC (APRASC), Movimento Universidade Popular (MUP), Movimento Mulheres que Lutam, Movimento das Esposas e Familiares dos Praças, Consulta Popular, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Centro Acadêmico Livre de História (CALH-UFSC), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Diretório Central dos Estudantes (DCE-UFSC), Centro Acadêmico Livre de Letras (CALL-UFSC), União da Juventude Socialista (UJS), União Catarinense dos Estudantes (UCE), Núcleo Plano Diretor Participativo da UFSC, Grupo de Ação Feminista (GAFE), Centro Acadêmico Livre de Serviço Social (CALISS-UFSC), TV Floripa, Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Estadual de SC (SINTESPE), Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis (SINERGIA), Movimento das Mulheres Trabalhadoras Urbanas (MMTU), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), União Estadual de Moradia Popular (UEMP/SC), Sarcástico, Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina (SINDPREVS/SC), Gabinete do Vereador Battisti de São José, Colegiado Estudantil do CEFET/SC, estudantes e independentes – para construir uma mobilização popular para barrar o aumento da tarifa de ônibus e exigir do poder público, soluções urgentes para o transporte coletivo da Grande Florianópolis.

A Frente Contra o Aumento exige a imediata redução da tarifa, que passou de R$2,50 para R$2,70 em dinheiro e de R$1,98 para R$2,10 no cartão. Um reajuste de 6,66% que ultrapassa os 6,17 da inflação baseado no Índice do Custo de Vida, do Dieese. Se somarmos os reajustes desde 1994, início da administração Amin, os números ficam ainda mais dramáticos: de 1994 até agora, a passagem passou de R$0,30 para os atuais R$2,70 em dinheiro ou R$2,10 no cartão. Isso representa simplesmente cerca de 600% de aumento, contra aproximadamente 218% de aumento na inflação do mesmo período. O drama ganha contornos reais se pensarmos que cada passagem custará 0,6% do total do salário mínimo. Multipliquem por todas as vezes que os senhores e sua família utilizam o sistema e entenderão a revolta do povo de Florianópolis.
Exigimos também a municipalização da COTISA – prometida pelo prefeito Dário Berger, há três anos, que poderia reduzir em até 10% a tarifa – e ainda a execução de um novo projeto para cidade, construído pelas forças populares que a ela querem ter acesso.

É imprescindível acabar com a lógica individualista, antipopular, repressiva, adotada pelos governos municipal e estadual de Dário e Luiz Henrique, que rege aspectos vitais como a mobilidade, acessibilidade e a ocupação urbana.

É inconcebível a manutenção do vínculo entre o custo do transporte e a tarifa e a defesa do sistema privado de concessão. O transporte é um serviço essencial que, de acordo com a Constituição, deve ser garantido pelo Estado, assim como a saúde e educação. A Prefeitura de Florianópolis segue uma política óbvia de priorização do transporte individual motorizado com alargamento de vias, construção de mais elevados, apoio à especulação imobiliária, incentivo à entrada de mais automóveis nas ruas. Age completamente na contramão da vontade da população que pede respostas para os congestionamentos, a poluição, o alto preço da tarifa, a péssima qualidade dos ônibus, a falta de horários, a demora nos trajetos.

Florianópolis será lembrada pelas Revoltas da Catraca de 2004 e 2005, pela resistência das comunidades e da juventude aos abusos e das empresas de transporte e do poder público. E mais uma vez a população está disposta a se levantar para ser ouvida, ocupar vias, apitar e protestar na Câmara e Prefeitura da cidade, debater e buscar soluções para os problemas que os governantes não resolvem.

Florianópolis, 10 de fevereiro de 2009.

Frente Contra o Aumento da Tarifa

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Varais ao sol

Míriam Santini de Abreu
Dizem que o sol nasce para todos. Igualmente banhados pelos raios generosos, teríamos as mesmas oportunidades. Mas não. O sol não é social, ele é natural. E a frase de efeito fica assim apenas bonita, mas nada diz da crua desigualdade da nossa existência. Mas então completo a frase: sol nasce para todos os varais. Ah! Os varais são sociais. A roupa no varal conta um pouco do que somos, do que temos. O vestido de baile na segunda, fraldas na quarta, uma camiseta com o escrito AMOR na sexta, tudo pendurado ao sol. Panos cujo formato, cor, acessórios desvendam parte do que nos move.
Todo o serviço de casa me aborrece profundamente, menos lavar roupa e leva-lá à luz e ao ar. No balde, amontoadas, são algo sem forma; presas aos fios, se libertam. Às vezes, quando estendidas, roçam o rosto da gente, suaves, às vezes furiosas quando lhes açoita o vento sul. E então se enrolam numa promíscua confusão de viscose, algodão, náilon. Quando aparece um vizinho ou vizinha na mesma lida, trocamos olhares cúmplices e um sorriso fugaz. Missão comum: evaporar a água dos panos.
Nos dias em que o sol é ardente, gosto de terminar o serviço e depois me debruçar na janela para espiar o processo de secar. Os prendedores enfileirados parecem andorinhas coloridas. Cantos do mundo onde pano e grampo viram roupandorinha. É prazer igual a chegar em casa minutos antes de uma chuva forte de verão, a tempo de recolher a roupa seca e cheirosa.
Dirão talvez que isso seja coisa desimportante. O mundo se contorce e estou eu a meditar sobre varais. Mas respondo que, tantas vezes, os gestos mínimos ou raros, a pequenez, a desimportância podem ser revolucionárias. Tudo banhado pela luz. Dúvida? Voe para http://admiradoresdevarais.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Filósofa da Pedra


Acontece sempre nas madrugadas em que o vento sul açoita de um modo um pouco mais ostensivo o musgo que cobre as veias da pedra. Então, liberta de seu silêncio absorto, a Filósofa da Pedra, sem bondade nem maldade, sopra inquietações que deslizam rua abaixo, depois rolam, entram em incontida refrega, até se atirarem ao mar. As ninfas que vigiam a entrada da pedra escrevinham garatujas, tentando inutilmente eternizar, em tabuinhas de argila, os impropérios ou as voluptuosas sílabas fundidas no discurso da Filósofa. Sobram fragmentos, muitos deles reproduzidos dia a dia neste blog cujo Verbo vem dos tempos de Set. Quando a Filósofa da Pedra emerge da gruta, visível por apenas 50 milisegundos, envolta em negros cabelos, os olhos latejantes, é audível, sempre, apenas um estilhaço de suas breves palavras:
- Esperem. A grande onda virá...


Blog da Filósofa da Pedra:



A fada de São Chico

Foto de Ana, avó de Fernando Karl, do alto de seus 97 anos.
Uma fada que mora em São Francisco do Sul, SC

Beijos ilhéus ao Karl

Fernando Karl, poeta e jornalista colaborador desta Pobres, completa hoje 48 translações. Recebi Casa de Água, edição comemorativa dos 25 anos de produção poética de Karl. A edição ficou linda e leve. Quem deseja adquirir o livro pode entrar em contato com o Antonio, dono do sofisticado Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do contato@sebodomquixote.com.br ou do telefone: (47)3633-5365. Detalhe: o livro só pode ser encontrado no Sebo Dom Quixote. O preço do exemplar é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00). Isso significa que, por apenas R$ 35,00, você pode levar para casa 25 anos de dedicação ininterrupta à arte de escrever.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O grande jardim

Míriam Santini de Abreu

Contei a Fernando Karl de meu imenso amor pela obra José e seus Irmãos, de Thomas Mann. José, que adorava a lua sob o terebinto do deserto. E Fernando fez um poema:


O GRANDE JARDIM

Dedico à Míriam

O grande Jardim,
em cuja periferia coberta de moitas andei à toa,
já está fechado para mim.

Alguém que visitasse aquela moça gaúcha em seu terraço grego,
ornado com uma pequena balaustrada
e crivado com vasos de terracota,
a flagraria lendo "José", de Thomas Mann.

Alguém que visitasse esta moça chamada Míriam,
dificilmente poderia imaginar que ela fizera
incursões marítimas pelo Adriático em busca de José,
o belo José.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Relatos sobre a Ilha


Os primeiros europeus que aportaram na Ilha deixaram relatos preciosos sobre a natureza, os habitantes, os primeiros povoamentos. Parte desses relatos de viajantes estrangeiros, que nos visitaram nos séculos XVIII e XIX, virou livro. Um dos viajantes, Antoine Joseph Pernetty, esteve na Ilha em 1763, e assim inicia suas observações:"Foi a 23 (novembro 1763) que nos apercebemos pela primeira vez da terra do Brasil, cerca de 15 léguas de distância; entretanto, pudemos ancorar somente a 29, na baía que forma um canal em volta da Ilha de Santa Catarina".
Num dos trechos do capítulo dedicado à história natural da Ilha e da costa do país, Dom Pernetty traça uma impressão peculiar do ambiente que o cerca, especialmente do manguezal:


"...O ar insalubre deste clima é verdadeiramente a causa da palidez dos brancos que ali habitam. Destes bosques onde o sol jamais penetra, elevam-se vapores densos que formam brumas eternas no alto das montanhas que cercam a ilha. As partes baixas, muito alagadiças, estão igualmente cobertas desde às seis ou sete horas da tarde até às oito horas do dia seguinte, quando o sol as dissipa. Estes vapores possuem em geral um odor lodoso que, com a circulação do ar fechada, parece dissiparem-se para dar lugar a outros que se sucedem. Este ar insalubre é corrigido levemente pela quantidade de plantas aromáticas, cuja perfume suave se faz sentir a três ou quatro léguas do mar, levado pelo vento da terra. Entretanto, fica-se recompensado deste abandono da natureza pela singularidade dos animais e das plantas produzidas por este clima. A ilha é amaldiçoada pelo homem rico que quer gozar, mas é muito cara aos naturalistas..."


Fonte: Ilha de Santa Catarina: relato de viajantes estrangeiros nos Séculos XVIII e XIX. Organizado por Martim Afonso Palma de Haro. Florianópolis: Editora da UFSC/Editora Lunardelli, 1990. (3° ed.) 329p.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Montanhas Semiramis




Míriam Santini de Abreu

Diz a lenda que a Deusa, um pouco cansada depois do sétimo dia da Criação, entediou-se com o formato das montanhas Semiramis, na Pérsia. Os cumes pontudos e arrogantes pareciam desafiá-la, a Deusa que os havia criado. Então olhou em volta, os olhos dourados estreitados, desejando outra forma para a pedra que a inquietava.
O seu mundo ainda era um afresco. Num canto dele, espiou uma das criaturas cujo esboço havia lhe custado ordens imperiosas ao barro, para que ficasse da forma como havia sonhado. Um sonho estranho, no qual ela havia custosamente caminhado até o alto das montanhas Semiramis para buscar a Chuva. E a Chuva lhe havia sido ofertada por aquele estranho ser que agora ela observava. Assim que despertou, deitada sobre trevos úmidos, soprou a idéia ao barro e fez o homem.
Agora, findos os dias, estudou os detalhes de sua criação.
Passaram-se eras. E então, a Deusa contemplou os braços do homem. Os braços que fizera para ele. Sorrindo, acariciou com os dedos as pontas incisivas das montanhas Semiramis.



Bolsa da Pobres!

Sucesso total a "bolsa ecológica" de Pobres & Nojentas!

Sol de verão

O sol anda imenso em Floripa. Suam as gentes, as flores, as pedras. Até os pensamentos suam.

E o sol manda um presente:

http://br.youtube.com/watch?v=5MltrnVOG2s

Um espelho no banheiro

Por Elaine Tavares - jornalista

Apesar de estarmos no século XXI algumas questões ainda permanecem estagnadas no serviço público, principalmente na universidade. Uma delas é o completo desconhecimento da “mulheridade”.. Uso esse conceito em vez do de “gênero” porque o segundo não me compraz. Parece-me que de alguma forma esteriliza as lutas pela emancipação das mulheres e torna tudo meio gosmento, sem identidade. Por isso inventei o conceito de “mulheridade”, porque creio que falar da mulher é falar da diferença e da posição de classe. Não dá para só pensar na mulher como um gênero, porque este gênero se divide em classes e as mulheres da classe dominante são tão opressoras quanto os homens, por isso não me permito misturar as coisas.

Quando digo mulheridade quero falar do jeito específico de ser mulher trabalhadora, lutadora, cheia de vontade de mudar esse mundo que aí está como espaço do consumo, da dominação, do medo e da opressão.

Pois um dos aspectos da mulheridade é a beleza. E isso bem que poderia ser considerada coisa do gênero, porque é comum às mulheres que oprimem e às que lutam. Há uma coisa em nós que nos move na direção da beleza, esse jeito de escolher um adereço, uma pintura. Pode ser a mulher mais pobre do mundo, mas ela sempre vai encontrar um jeito de realçar o que é bonito nela. Por isso me encantam as mulheres indianas. Mesmo na mais triste miséria elas vestem-se de cores, pulseiras e pingentes. Sabem que a beleza é um estado de espírito e que se precisa dela para ter força de lutar e mudar as coisas. A beleza nos aquece, enternece, salva. Veja a diferença de uma Margareth Thatcher, a dama de ferro inglesa, com seus terninhos sem sal e o cabelo armado como um capacete. Mulher sem mulheridade. No poder feito um homem, com toda a sua vileza, crueldade, desprovida de ternura.

Outra coisa que atrai ás mulheres é o espelho. Filhas diletas de narciso elas não podem ver um. Porque as mulheres cheias de mulheridade gostam de se ver. No reflexo invertido elas saúdam a beleza, a graça, a ternura que brota nos seus corpos, nos olhos cheios de brilho e vontade de transformar as coisas em volta. Esse adereço indispensável é coisa mítica, é primal. Sem a imagem por inteiro antes do arrancar para o dia, parece que falta algo. É por isso que as mulheres aproveitam cada falso-espelho como as vitrines, por exemplo. Parece que há sempre que confirmar a beleza que nos é intrínseca.

Na Universidade Federal de Santa Catarina o único banheiro a ter um espelho onde a gente se vê por inteiro é o Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Pudera. Ele, geralmente, é dirigido por mulheres. E elas lá sabem muito bem da mulheridade que lhes cabe. Sempre falei deste delicado detalhe do CFH, sonhando com o dia em que o Centro onde trabalho também tivesse espelhos de se ver por inteiro no banheiro feminino. Mas os demais centros são masculinos demais, incapazes de um gesto de ternura e compreensão da mulheridade.

Pois, ao voltar à ativa neste janeiro, tomei um susto. Susto bom. Ao entrar no banheiro do Centro Sócio-Econômico lá estava ele. Enorme. Desci as escadas conferindo o banheiro de cada andar. E, em todos, assomava o santo oráculo da beleza feminina. Isso me deu um alento. Se no CSE, ao assumir a nova direção sob o comando de Ricardo Oliveira, deu-se um passo na direção da compreensão da mulheridade, isso significa que esta universidade pode, sim, um dia mudar. Sair do atraso, do conservadorismo, do pensamento único, patriarcal, colonialista. O professor Ricardo me surpreendeu com esse gesto de profunda ternura e me deu esperanças! Isso foi um bom começo de ano!

A arte vazia do arqueiro de palavras

Schopenhauer

Fernando Karl

Há um pensamento do filósofo alemão Schopenhauer, que li em "O Mundo como Vontade e Representação", que reza assim:
O ponto em que a Coisa-em-si entra mais imediatamente no fenômeno é aquele em que a consciência ilumina a Vontade.
A Vontade é, para Schopenhaeur, irracional. A Vontade, no fundo, não sabe o que quer. E, para educá-la, só há uma saída: focarmos as coisas que nos cercam (ou as coisas que imaginamos) com o Vazio da contemplação tranqüila, sem intenção, desapegada.
Segundo Kenzo Awa, mestre do Kyudô (Caminho do Arco), se quisermos acertar o alvo, devemos proceder assim: “Na máxima tensão, sem intenção”.
Algo dispara a flecha, Algo acerta o alvo.
Algo: outro nome para o Deus, para a quintessência.
Mas também Algo
diz pára de ressentimento
diz pára de medo
diz pára de mentir
diz pára de sofrer
diz pára de desamor
diz pára de pobreza
O Eu, que só será Eu se for um Vazio reverente, se torna o claro espelho do objeto. Wu wei: ação na não ação. Noutras palavras, o Eu deixa fluir, reverente, o Algo que o rege no íntimo; o Eu não se intromete, deixa a onda jorrar, a música ser música.
Vazio (Capítulo 1 do Tao): “Não sendo, podemos contemplar sua essência”.
Objeto (Capítulo 1 do Tao): Sendo, apenas vemos sua aparência”.
O Deus, segundo o Evangelho são João, “é Espírito”. E, sabemos, o Espírito sopra onde quer.
Se me permitem um exemplo: Na máxima tensão, o Eu profundo de cada um de nós contempla, sem intenção, a seguinte cena prosaica: um bule que verte chá fervente na toalha de linho. A Coisa-em-si (que é libérrima e irracional por natureza) é que retém a potência profunda do que está acontecendo com este bule que verte chá fervente na toalha de linho. Se o Eu se intrometer nesta imagem do bule que verte chá fervente na toalha de linho, o Eu só terá a fantasia, a farsa, e se transformará num bicho peludo de longas patas, mais conhecido como ego. Por outro lado, se o Eu deixar fluir a Coisa-em-si deste bule que verte chá fervente na toalha de linho, aí o Eu terá a presença do Algo, do Deus que, respeitado em sua ancestralidade, virá à tona e revelará ao Eu todo o Seu Mysterium.
E sendo Mysterium, é improviso, é Vita Nova, é Algo, é o Deus, é paraíso, é jazz do coração.
Nunca é demais recordar a etimologia do vocábulo Deus: vem do sânscrito –, onde é grafado D'jeus e significa lua clara no céu: mente silenciosa, sem sonhar.
De onde se conclui que o Deus, tendo forma lunar, é o feminino.
O Deus, o Algo, é luz, é consciência.
A quem o Deus serve, a quem o Algo serve? A todo Eu que tiver consciência do Deus, do Algo.
Quando pronuncio a palavra feminino, não me refiro à mulher, mas ao Ser, que tanto pode ser macho ou fêmea.
Há homens que são mais femininos que as mulheres.
O cano do canhão é o pênis masculino; os edifícios pontiagudos são pênis masculinos; o punhal é o pênis masculino.
A árvore é feminina; a pérola é feminina; o vento é feminino.
A Coisa-em-si: aquilo que independe do espaço e do tempo.
A Coisa-em-si independe da causa e do efeito.
Segundo Platão, uma Idéia é aquilo que sempre é, mas nunca vem a ser, nem deixa de ser.
Idéia: objetividade imediata da Coisa-em-si. Para Schopenhauer, a Coisa-em-si é pulsão vital (a Trieb freudiana: força vital). Pulsão como discernimento vital? Ainda mais: pulsão como discernimento vital do discernimento vital. Pulsão (a partir de um aforismo de Lacan): objeto jamais fixável de uma vez por todas. Fixar o que não pode ser fixado, isto é função da arte que cria a consciência que ilumina a Vontade. Para Schopenhauer a maior das artes é a música. Ele a menciona em "O Mundo como Vontade e Representação": se tudo findasse, ainda não findaria a música.

O texto acima, inédito, é um fragmento do livro O cacto e o angorá (o aqui e o agora) – A arte vazia do arqueiro de palavras, de Fernando José Karl.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Varais

Escrevi uma crônica sobre varais para o amigo e jornalista Eduardo Schmitz, do Observatório Local, de Taió. Concordamos: jornalista parece gostar de varal!

Comentário do Eduardo:

Não gosto de tocar nas roupas de varais, a não ser as que jazem estendidas no quintal de casa. São como vampiros cujo gene lhes permite regalar-se ao sol. Carregadas de sensação, são mortas-vivas sedentas de um corpo para deles roubar o espírito e viver outra vez. Quando cursava a quinta série a professora de português (Veneranda) passou à turma a tarefa de escrever alguns versos descrevendo a rua onde cada aluno morava. No meu tinha um trecho que dizia: "Na minha rua existem varais que não se esvaziam mais". Bobinho é claro, mas nunca esqueci deste verso e da visão da rua.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Câmara aprova projeto que pisoteia direitos dos municipários




Veja entrevista com Charles Pires, do Sintrasem, sobre as implicações do projeto

A administração de Dário Berger e a quase totalidade da Câmara de Vereadores de Florianópolis disseram a que vieram na noite de segunda-feira, dia 26. Em sessão que teve convocação extraordinária e que atropelou o regulamento da Casa, foi aprovado o projeto que cria o Regime Próprio de Previdência dos servidores do município. Entre outros problemas, o texto do projeto prevê que o dinheiro arrecadado para garantir as aposentadorias será jogado no mercado financeiro. Como se sabe, os fundos de pensão que administram esses valores são os que sofreram as maiores perdas na crise financeira iniciada em 2008. A alíquota de pagamento também subirá de 8% para 11%, significando perda salarial para os trabalhadores.

Servidores com cargos comissionados praticamente lotaram a galeria da Câmara de Vereadores, deixando de fora quem estava na manifestação contra o ataque ao bolso e aos direitos dos municipários. O SINTRASEM - Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis - organizou a luta contra a aprovação do projeto do lado de fora da Câmara. Para garantir que os servidores não entrassem para protestar, a Polícia Militar isolou a entrada do Plenário. Houve agressão aos manifestantes quando servidores e lideranças sindicais exigiram o direito de entrar na assim chamada "casa do povo". O cinegrafista da TV Floripa, além de outros manifestantes, teve os olhos atingidos por spray de pimenta. E assim começa a segunda administração de Dário Berger em Florianópolis.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Movimento dos Atingidos pelo Desastre se levanta em Blumenau

Míriam Santini de Abreu

Mais uma luta se faz sob a figueira que inunda de sombras a entrada da prefeitura de Blumenau (SC). A maioria dos homens, mulheres e crianças que ali se encontraram na tarde de 22 de janeiro não havia saído de suas casas. Para eles, o que antes era um endereço virou amontoado de terra, pedra e escombros. Identificavam-se pelo abrigo onde foram deixados pelo poder público. Mas já faz dois meses. Agora, formaram o Movimento dos Atingidos pelo Desastre e apenas ontem, organizados, arrancaram uma data na agenda do prefeito João Paulo Kleinübing. Serão recebidos na terça-feira, 27, às 14 horas.

“Houve uma catástrofe, mas não podemos ser esquecidos, não podem tratar isso como coisa normal”, dizia Nelson de Almeida Rodrigues, 53 anos, que está em um abrigo com a família. Ele perdeu a casa onde morava, no bairro Asilo, e quer ver cumprida a promessa que os governantes fizeram de reconstruir as moradias. Há três anos ele também espera a decisão judicial para responsabilizar quem o atropelou quando pilotava uma motocicleta. A cirurgia no fêmur direito lhe custou a plena capacidade para o trabalho. “Tem hora que dá vontade do cara gritar”, desababa Nelson.

O Movimento exige a imediata reconstrução gratuita das casas e definição de prazo para que todos os desabrigados tenham as suas moradias. Também esperam mais agilidade da Defesa Civil, que dá o parecer sobre a situação das áreas que ainda não foram vistoriadas. A luta tem o apoio do Fórum dos Movimentos Sociais e Fórum dos Trabalhadores de Blumenau. Tulio Vidor, presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Ensino Superior de Blumenau (Sinsepes), conta que, logo depois do desastre, pessoas ligadas às entidades que compõem os Fóruns começaram a visitar os abrigos para verificar a situação de seus trabalhadores. Formaram-se grupos para fiscalizar, levantar os problemas, esclarecer a população e cobrar providências. Os desabrigados e desalojados organizaram reuniões e duas plenárias e criaram o Movimento dos Atingidos pelo Desastre, que ontem obteve a primeira vitória.

Nelci Klaus de Morais e Luciana Ribeiro não se conheciam, mas agora sabem que há muito em comum a uni-las. Ambas tem três filhos e estão no abrigo da escola Júlia Lopes de Almeida. Antes das chuvas que arrasaram a cidade, elas moravam de aluguel. “Perdi todos os meus móveis, que ainda estou pagando, mas salvamos nossas vidas”, diz Nelci. Agora, recebendo 500,00 por mês e endividada, ela não tem como alugar outro imóvel. Luciana deixou na casa de parentes o que conseguiu salvar. A preocupação de ambas é serem forçadas a sair da sala de aula onde se abrigam para voltar ao ginásio da escola. “O ginásio é quente, tem goteiras, não dá para ficar lá.”

A situação pode ter data marcada para ficar pior. Com a volta às aulas no final do mês, a prefeitura de Blumenau começou a discutir o projeto de “moradias provisórias”. Na verdade, são obras para levar as famílias a galpões. Planeja-se concluir o primeiro no Bairro Badenfurt, onde deverão morar em torno de 40 famílias. Além do Badenfurt, estão mapeadas as regiões do Garcia, Progresso, Velha, Itoupava Seca, Itoupava Norte e Salto. Os prédios seriam locados e adaptados pela Prefeitura para as construções de moradias em parceria com o Governo do Estado. Só que, nas condições definidas pelo município – e sem ouvir as pessoas - os desabrigados não aceitam deixar os atuais abrigos.
Até agora, a prefeitura não deu informações elementares como localização exata, capacidade de pessoas, segurança, respeito à privacidade familiar, tempo de permanência. Também não há garantia de que o tal “provisório” não vire “definitivo”. “Os recursos das doações, que deveriam ser destinados a resolver nosso problema de moradia, estão servindo para aumentar a especulação imobiliária. Isso porque o dinheiro é usado para pagar aluguel de casas e não para a construção das moradias destruídas pelas chuvas”, diz a Carta Aberta à população. Nicacio Antonio Mariano, da coordenação do Movimento, diz que faltam esclarecimentos por parte da prefeitura, e por isso a luta também é por acesso e discussão pública sobre os projetos e propostas em tramitação.

Instalada em um abrigo no bairro Progresso com a filha de 2 anos, Josiane Butci, 25 anos, divide o lugar com cerca de 40 pessoas, e a maioria se conhece porque eram vizinhos. “A falta de informação é o problema maior, porque não sabemos quando e para onde vamos, e quanto tempo teremos que ficar nos galpões”, diz ela.

Os abrigos têm um regulamento que define a hora das refeições. Quem chega atrasado não come. Há denúncias de que crianças são impedidas de se alimentar porque os pais precisam sair para trabalhar e as deixam na companhia de outros desabrigados. O horário de visitas também é controlado, assim como a hora de apagar as luzes. Muitos desabrigados, em suas falas, comparam a experiência a uma prisão. Há outras situações humilhantes, como a proibição de reuniões do Movimento. Qualquer atividade depende de autorização da SEMASCRI (Secretaria Municipal da Assistência Social). Os desabrigados, já fragilizados pela falta de privacidade e de conforto adequado, ouvem ameaças de expulsão do abrigo e de demissão do emprego. Em muitos casos a presença de militares serve para aumentar a intimidação.

Mas dois meses depois do desastre, e agora que na mídia se fala mais do verão e dos turistas, os desabrigados de Blumenau mostram que, para além dos gestos solidários, o que se faz fundamental é a luta.

Outras reivindicações do Movimento


- Os Abrigos Provisórios devem ser construídos em localização adequada, com segurança,
- Participação dos desabrigados nas decisões e definição do tempo de permanência nos abrigos provisórios.
- Direito de reunião, de ir e vir e fim imediato das perseguições e ameaças nos abrigos
- Respeito às famílias nos abrigos e direito de privacidade
- Acesso às informações de recursos das doações e sua destinação final.
- Não-demissão e repressão no ambiente de trabalho
- Reconhecimento do Movimento dos Atingidos pelo Desastre como legítimo representante de todos os desabrigados e atingidos

LEIA MAIS NA PRÓXIMA EDIÇÃO DA REVISTA POBRES & NOJENTAS, QUE CIRCULA EM FEVEREIRO

A voz do Movimento nas ruas

Crédito: Míriam Santini de Abreu, da revista Pobres & Nojentas

Ato reuniu centenas de atingidos pelo desastre







A caminhada nas ruas centrais de Blumenau






O aumento da tarifa é abuso do direito

Por Elaine Tavares – jornalista

Já vai longe a Revolta da Catraca, quando, em 2004, na cidade de Florianópolis, as gentes decidiram se rebelar contra o aumento das tarifas de ônibus. Naqueles dias, quem não lembra, a polícia baixou valendo no povo sob o seguinte argumento: aquela massa de desvalidos, os que são obrigados a usar o transporte coletivo, estava atentando contra a ordem pública. E assim foi como os meios de comunicação se referiram aos lutadores. Eram os baderneiros, os desordeiros, atentando contra o direito de ir-e-vir. Muitos foram presos e respondem processos até hoje.

Pois nestes dias de sol forte, de um janeiro doido, fomos surpreendidos com mais um aumento de tarifas. Agora, para irmos trabalhar e fazer mover a roda do capital, precisamos pagar 2,10, isso quem tem cartão. Quem não tem terá de desembolsar absurdos 2,70. Agora vejam: uma família que seja formada por um casal e dois filhos vai gastar mais de 500 reais em passagem. Isso se resumir sua vida a ir e voltar do trabalho. Nada destas coisas “anti-produtivas” como ir almoçar em casa, ou passear, ou ir à praia, ao cinema, por exemplo. Não, só para trabalhar, vai entregar aos empresários do transporte 500 reais. Parece uma coisa surreal. A gente paga para trabalhar. E mais, paga adiantado. Essa gente nunca perde.

Procurei indignação nas gentes, mas não encontrei. Nas filas, o povo segue com sua cara triste, amansado pela máquina de moer ideológica que diz: aceitem, aceitem, aceitem, é assim mesmo. Agora começou mais uma novela da Globo, melhor ficar em casa e acreditar que a pobreza da gente é digna, afinal, ali na novela, pobre toma suco de laranja no café da manhã.

Então, depois de ouvir o Dário Berger dizer na TV que o aumento da tarifa é um direito dos empresários, fui buscar algumas coisa na área do direito para ver se ele estava certo. Então, num trabalho do historiador argentino Alejandro Olmos, encontrei uma doutrina que fala do abuso do direito. Diz essa doutrina que os direitos nunca são absolutos e que o exercício das faculdades que surgem da lei devem efetuar-se em função do espírito que anima a própria lei. Um dos elementos que caracteriza o abuso do direito é a intencionalidade de prejudicar; ou seja, quando existe um fazer doloso ou culposo no sujeito, mas também quando sua ação excede os limites impostos pela boa fé, a moral e os bons costumes.

Diz Alejandro que um dos antecedentes é uma lei prussiana de 1794, na qual se impunha a obrigação de ressarcir o dano “quando das circunstâncias resultar de modo inequívoco que entre as várias formas de usar o direito se optou pela mais prejudicial” estabelecendo ainda que “ninguém pode abusar de sua propriedade para ofender ou prejudicar a outro”. Ó, isso é importante.

Também o Código Civil alemão estabelece em seu parágrafo 226 que “não se permitirá exercer um direito quando seu exercício somente tenha por objetivo prejudicar o outro”. Bueno, e por aí vai.

Fiquei pensando, será que esse aumento da tarifa do ônibus não é um abuso do direito? Não está nesse aumento a intenção clara de prejudicar os trabalhadores, visto que eles já não têm salário digno e ainda terão de desembolsar mais para ir gerar lucro ao patrão?

Diz ainda o Código Civil da Grécia de 1941 no artigo 281: “o exercício de um direito está proibido se sobre passa manifestamente os limites impostos pela boa fé ou os bons costumes, ou pelo fim social e econômico deste direito”. Na Tchecoslováquia diz o direito: "Nenhuma pessoa pode abusar de seus direitos em prejuízo dos interesses da sociedade ou de seus concidadãos; não pode enriquecer-se em detrimento deles".

Pronto: esse último é supimpa. Então, se a doutrina do direito internacional estabelece que ninguém pode enriquecer em detrimento dos interesses da sociedade, vamos usar isso aí a nosso favor. Que tal, não é incrível?

Ah, tá... Esqueci. A justiça brasileira tem os olhos vendados para nós. Bueno, então resta a luta! Vamos a ela!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Karl: 25 anos de poesia

Um dos desenhos do livro


A editora Letradágua está lançando Casa de água, uma edição comemorativa dos 25 anos de produção poética do escritor catarinense Fernando José Karl, autor do blog Nautikkon e colaborador da revista Pobres & Nojentas. Casa de água é uma antologia que reúne 200 poemas, selecionados pelo poeta catarinense Dennis Radünz, dos livros de Karl. Nessa antologia também foram incluídos 30 desenhos de sua autoria. Eis os títulos que compõem o Casa de água:
1. Tema para romance
2. No verão amadurecem os chapéus
3. Desenhos mínimos de rios
4. Diário estrangeiro
5. Travesseiro de pedra
6. Brisa em Bizâncio
7. Se eu mesmo fosse o inverno sombrio.
Quem deseja adquirir o livro pode entrar em contato com o Antonio, dono do sofisticado Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do
contato@sebodomquixote.com.br ou do telefone: (47)3633-5365. Detalhe: o livro só pode ser encontrado no Sebo Dom Quixote. O preço do exemplar é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00). Isso significa que, por apenas R$ 35,00, você pode levar para casa 25 anos de dedicação ininterrupta à arte de escrever.

www.sebodomquixote.com.br

Filosofia e noite escura

Jussara Godoi
Numa noite dessas, ouvindo o barulho do vento, resolvi abrir uma das janelas do apartamento, que fica próxima a uma pedra monumental, obra da arquiteta natureza. Bem no alto, estão as plantas que cresceram sem a ajuda humana. Por alguns instantes senti pena de um pequeno coqueiro, que lutava para conseguir ficar em pé, parecendo me pedir socorro. Fiquei olhando e pensei: será que ele sabe o que se passa ao seu redor? Atrás de mim, estava a TV ligada. Ao levantar para ouvir o vento, deixei em canal qualquer. Era um debate filosófico, cujo público era formado por educadores e o tema “Família, Educação e Cidadania”. Fiquei entre ouvir o vento e o debate. O palestrante se esforçava para passar a sua idéia sobre a atual situação da sociedade. Em alguns momentos, com citações bíblicas, comparava a maioria da sociedade aos fariseus. Percebendo que daquele debate pouca coisa era relevante, revolvi mudar de canal. Desta vez, era um psicanalista que falava sobre "Ética na contemporaneidade", baseado em Spinoza e Nietzsche. Voltei os olhos novamente para o coqueiro se debatendo e, desta vez, desejei estar no seu lugar, pois sua luta contra o vento me pareceu mais leve do que aquela que eu nem sei direito qual é... Fiquei por mais alguns instantes a olhar a noite escura. Depois pensei em algumas amigas, que de vez em quando se sentem assim e ficam a desejar que venha a grande onda... E quem sabe ela nos dê uma resposta.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Pinus de Cima da Serra


Míriam Santini de Abreu

Na frente da casa de minha avó Antônia havia uma araucária. Na época das pinhas, era uma festa fazê-las despencar árvore abaixo, os pinhões espalhados sobre a terra. Nos chamados Campos de Cima da Serra, no Nordeste gaúcho, elas reinavam. Hoje se brinca: a região virou a dos Pinus de Cima da Serra. No Rio Grande do Sul, assim como em Santa Catarina, alastram-se os monocultivos de espécies exóticas.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

P&N apóia luta dos praças de SC


Página na internet fora do ar, pedido de dissolução de entidade representativa de cerca de 10 mil trabalhadores, lutadores a ponto de serem punidos em Conselhos de Disciplina, nos quais o procedimento é sumário para excluir, da instituição militar, profissional considerado incapaz do ponto de vista ético, moral e profissional. Assim o governo de Luiz Henrique da Silveira está tratando a Associação de Praças do Estado de Santa Catarina, a Aprasc. Na quarta-feira, 14, representantes de cerca de 20 entidades do movimento sindical, popular e de partidos políticos participaram da reunião do COMITÊ DE SOLIDARIEDADE À APRASC E CONTRA A CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS. A P&N foi representada por Míriam Santini de Abreu e Elaine Tavares.


Um dos assuntos discutidos foi a afronta, por parte do governo, ao princípio da liberdade de expressão e informação, consagrado na Constituição Federal. A página da Aprasc informa: Por determinação da Justiça, a pedido do governador Luiz Henrique da Silveira, o site da APRASC (www.aprasc.org.br) vai ficar fora do ar durante 90 dias. Além disso, já são 10 os soldados submetidos a Conselho de Disciplina.


Mas a Aprasc, com apoio de movimentos, entidades, grupos políticos e personalidades, segue firme na luta. Está recolhendo assinaturas em abaixo-assinado – são quase duas mil por dia apenas em Florianópolis – e organiza vigília na praça em frente à Assembléia Legislativa, em Chapecó e em Lages. Na reunião desta quarta-feira foram encaminhadas outras atividades. Uma delas será o Ato Popular Nacional Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais e em Solidariedade à Luta dos Praças e seus Familiares, programado para fevereiro.


O governo estadual tenta impedir e punir a luta dos praças desde que, para exigir o cumprimento de lei, os trabalhadores e trabalhadoras ocuparam os quartéis, de 22 a 27 de dezembro. A principal reivindicação do movimento é o cumprimento integral da Lei Complementar n° 254, aprovada na Assembléia Legislativa e sancionada por LHS em 15 de dezembro de 2003. A lei reorganiza a estrutura administrativa e a remuneração dos profissionais do Sistema de Segurança Pública: incorpora abonos e gratificações aos salários, prevê reajustes salariais e cria adicional de atividade progressivo. Também avança na construção de um plano de carreira, estabelecendo a proporcionalidade remuneratória (o maior salário não pode ser superior a quatro vezes o menor salário, eliminando as graves distorções vigentes até hoje, quando a diferença ultrapassa sete vezes). Embora no caso dos oficiais os abonos de dois soldos e meio já tenham sido incorporados aos salários, os praças sofrem há três anos com os salários congelados.


A Aprasc está divulgando junto à população que já são cinco anos de promessas não- cumpridas por parte do governo estadual e inúmeras mesas de negociação, nas quais o governo sequer apresentou uma proposta de cronograma para o cumprimento prático da Lei. A luta está se fazendo com o apoio fundamental do nascente Movimento de Esposas e Familiares dos Praças. Trata-se de uma luta em defesa da segurança pública para todo o povo catarinense e em defesa da dignidade e dos direitos dos servidores públicos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Esperando um menino

Por Elaine Tavares - jornalista

Eu confesso. Gosto de ler a bíblia. Acho um livro fantástico, quase que uma grande reportagem sobre a história de um povo. É fascinante. Uma das histórias das que gosto muito é do menino Davi vencendo o gigante Golias. Aterrado diante de um homem grande, o exército de Israel se acovarda na guerra contra os filisteus. Seus homens tremem e paralisam. Até que um guri, com uma prosaica funda, se adianta e diz: vou pegar esse gajo! E assim faz. Com a força de sua mão, joga a pedra no meio da cabeça do gigante e ele tomba. Mais tarde, Davi torna-se rei daquele povo, que conheceremos como judeu.

Hoje, vendo a TV julguei ver Golias. Não era mais filisteu. Havia assumido a face daquele que lhe vencera há milênios. Ali estava diante das portas de Gaza, com todo o seu poder. O gigante acossando um povo indefeso. Tal como um daqueles monstros de filme japonês, este Golias avança sobre os palestinos com um dos mais poderosos exércitos da terra. Pasma, ouço os locutores falarem dos ataques do Hamas. Para William Bonner e os demais títeres da mídia cortesã, quem está agredindo é a Palestina. “Mais um ataque contra Israel”. É assim. Seria para rir se não estivéssemos num palco de horror. O governo de Israel é o Golias redivivo. Sabe de seu poder e avança, roubando terras, roubando vidas. Estoura as cabeças das mulheres, que carregam crianças. Arrebenta crianças, que buscam as mães. Aniquila a juventude palestina, esperando que esta gente se acabe. Destrói casas, deixa almas em escombros.

Espero a ação dos governantes da terra. Espero o embargo, o bloqueio, e nada. Penso em Cuba, embargada desde há 50 anos por querer ser livre. Contra a ilha socialista a coisa funciona. E este Golias que baba sangue, por que não é parado? Por que se calam as gentes? Por que gritam apenas os que não têm poder? Por que se omitem os grandes da terra? Como podem permitir que isso prossiga?

Na tela de luz encontro os olhos de um menino. Está impávido. Não tem medo. Nesta história enviesada ele é Davi. Tem uma funda e uma pedra. Só ele pode parar o gigante opressor.. A sua volta jazem os mortos, o vermelho do sangue encharca a terra. Crianças mutiladas, homens destroçados. E ele segue de olhos vidrados. Já não espero governantes, poderosos, grandes da terra. Eu sinto vontade de um desses guris palestinos que parecem “imorríveis”. Porque ao que parece, quanto mais deles tombam, outros tantos se levantam.

Um dia, naquelas terras, um guri judeu venceu o filisteu, que nada mais era do que a raiz da Palestina. Falastin. Mas, hoje, os guris estão do lado filisteu. A história e suas voltas. A samsara. Nós aqui gritamos, do alto de nossa impotência. Os grandes dormem. Deles nada virá. São vocês, pequenos filhos da palestina que, sozinhos, com suas pedras, hão de vencer essa criminosa ocupação que vem desde 1947. Você estão aí morrendo, lutando. E eu, tão longe, ainda que abomine a guerra, só posso esperar que vocês, tal qual aquele Davi, tenham boa pontaria.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Nosso balanço

O ano de 2008 foi pleno para a equipe da Pobres & Nojentas. Conseguimos chegar ao número 15 da revista, que completou três anos com novo projeto gráfico. Também lançamos, além do blog em www.pobresenojentas.blogspot.com e da conta no You Tube, br.youtube.com/PobresyNojentas, um novo blog, http://revistapobresenojentas.wordpress.com, para postagem exclusiva de artigos jornalísticos e científicos sobre comunicação e jornalismo. No final do ano também vendemos a camiseta da Pobres, com ilustração assinada pelo jornalista Eduardo Schmitz.
Outra novidade foi a estréia da Pobres & Nojentas Teórica, que fala sobre o jornalismo que se faz nos sindicatos. Os três artigos mostram que este é um espaço privilegiado para se fazer jornalismo contextualizado e que aprofunde a interpretação dos fatos. O livreto (36 págs., Cia. dos Loucos, Florianópolis) foi lançado no encontro anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, em novembro, no Rio de Janeiro.
No dia 1° de dezembro também lançamos o livro Mulheres da Chico, escrito por Catarina Francisca de Souza, Daniele Braga Silveira, Janete Osvaldina Marques, Lídia Almeida, Maria do Carmo Apolinário e Jussara Fátima dos Santos, a Sara, moradoras na Chico Mendes, bairro Monte Cristo, na capital catarinense, que enfrentaram o desafio de fazer um livro sobre suas experiências de vida.
O livro, editado pela Companhia dos Loucos, que também edita a revista bimestral Pobres & Nojentas, conta histórias de lutas, desafios, de momentos tristes e de alegria, de fantasias e desejos. A organização do livro foi feita pela educadora Sandra C. Ribes, com fotografias de Sônia Vill e projeto gráfico e diagramação de Sandra Werle e Marcela Cornelli.
O segundo lançamento foi na Casa Chico Mendes no dia 16 de dezembro. As autoras falaram sobre o significado de ter o livro impresso, e sobre a forma como as famílias acolheram a iniciativa. As cinco que estiveram no lançamento expressaram o desejo de, futuramente, escrever outro livro. “Eu deveria ter falado mais, contado mais. Mas dá para fazer outro, né? – perguntou Janete. Daniele, que mora em Laguna, concedeu entrevistas e foi convidada a deixar exemplares para venda em uma livraria da cidade.
Mais uma vez, em 2008, contamos com o apoio fundamental do SINDPREVS-SC, o Sindicato dos Previdenciários em Santa Catarina, para viabilizar a publicação da revista, da P&N Teórica e do livro Mulheres da Chico. Em 2009 queremos fazer a Pobres chegar ao número 20, terminando o ano com a publicação de mais uma P&N Teórica. E sabe mais o quê!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ato em solidariedade aos palestinos


O Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino realizou ato público na terça-feira, dia 6, em protesto contra os bombardeios em Gaza, na Palestina ocupada. O ato ocorreu em frente ao Pró-Cidadão, em Florianópolis. Participaram representantes do movimento sindical e popular na Capital. A Pobres estava lá. As fotos são da jornalista Vera Flesch, que já fez matéria para a revista, na qual entrevistou Khader Othman, que nasceu em uma cidade a oeste de Ramallah e hoje vive em Florianópolis. Ele é membro do Comitê.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Panos de beleza




Míriam Santini de Abreu

Gosto de toalhinhas de crochê, de tricô, bordadas, espalhadas sobre os móveis da casa. Minha mãe agora me presenteou com duas colchas e uma almofada feitas por ela, que dessas artes tudo entende. A renda da colcha rosa tem uns 60 anos, recente apenas o tecido. A colcha branca tem quase a mesma idade; ganhou apenas uma reforma. Panos belos, trabalho de décadas atrás, que me ligam com as mulheres da família.

Anoitecer

Míriam Santini de Abreu
Li uma vez sobre o anoitecer, hora da volta ao lar, da esperança, da renovação. Nasci às 6 horas, mas encantam-me mais as 18 horas, ou mais tarde, para ver o sol sumir atrás das montanhas, como nas do interior de Caxias do Sul.