Elaine Tavares - jornalista
Eu não o conheci pessoalmente, mas sempre soube quem ele era. Um homem doce, sensível, companheiro, amigo, um mestre. Um desses seres que não temem ensinar o que sabem, porque tem consciência de que a única coisa a deixar de herança é o exemplo de vida bonita e digna. E assim foi Sergio de Souza, o cara que comandou a revista Caros Amigos desde o início do seu projeto. Sérgio era a Cara da Caros. Dele emanava uma delicadeza, um cuidado com o texto dos outros, um respeito, que eram coisas raras no mundo vaidoso e superficial do jornalismo.
Como colaboradora da revista meu contato com Serjão sempre foi através de Thiago Domenici, o secretário de redação. Outro ser adorável, igualmente raro no mundo da imprensa. Guri que teve Sérgio como professor. Aprendeu com ele, em quatro anos de trabalho conjunto, como é que se faz jornalismo, como se trata as pessoas e o cuidado que se deve ter com quem escreve, porque nós, os “escrevinhadores”, somos seres borbulhantes, inconstantes, sensíveis. E o Thiago sugeria, palpitava, discutia pautas. E o Thiago elogiava, comentava, ajudava. Uma figura especial. Um exemplo de cuidado e respeito.
Pois dia desses o Serjão resolveu fazer uma coisa muito má, destas que nunca ousara fazer. Foi embora. Encantou. E deixou um buraco na vida do jornalismo. E deixou uma cratera na vida daqueles que caminhavam com ele nesta vereda de ternura e paixão pela palavra. Quem, como eu, participava de longe deste projeto da Caros Amigos, sofreu, mas não desesperou. Sabíamos que aquela gente que tinha construído com Sérgio a proposta de uma revista crítica, bonita e inteligente, não negaria fogo. Era um povo que aprendera a lição do velho companheiro. Então seguimos, sabendo que Sérgio viveria para sempre.
Pois ontem me chegou a carta do Thiago, secretário de redação da Caros, que tantas vezes mediou, com carinho e respeito, a publicação de vários dos meus textos. Despedia-se de todos os que tinham caminhado por estes anos com ele, o Sérgio e a turma da Caros. Fora demitido por telefone e sem direito a aviso prévio. Seu pecado: ser um “seguidor” do Serjão. O menino que entrou na revista como estagiário, que não perseguia grana nem fama. Que só queria fazer jornalismo bom, deste que serve a maioria das gentes. O guri de riso largo que aprendeu com Sérgio que as pessoas precisam de amor, atenção, cuidado, palavras de incentivo, respeito. O guri que não o renega. O guri que sabe com quem aprendeu. O guri que o reverencia. Diz ele: “Escrevo para me despedir e dizer que o modo como saí foi injusto. Impensável em outras épocas. O tratamento dispensado aos ´jovens seguidores do secretário` como foi divulgado é lamentável. Vale registrar, não foram só "os jovens seguidores do secretário" que deixaram o projeto decepcionados. O projeto só existe porque as pessoas - que devem ser respeitadas antes de tudo - o conduzem de coração, alma, sem nenhum tipo de "ismo" como diz o editorial número 1. A revista não é patrimônio de um só, é de todos os colaboradores, leitores e envolvidos no seu dia-a-dia. Espero, sinceramente, que isso permaneça de algum modo e que respeitem a minha história interrompida e de todos os que deixam o projeto. Sim, decepcionados com argumentos e tratamentos! Ao contrário do que possam dizer em notas divulgadas e invencionices, é sempre bom ouvir a versão dos dois lados”.
Por conta desta arbitrariedade, vários outros companheiros saíram da Caros Amigos. Não reconhecem mais nela o projeto que suleou a revista nos tempos do Serjão. Sabiam eles que as mudanças seriam naturais, mas não esperavam coisas desse tipo, como a demissão sumária e desrespeitosa do Thiago, os argumentos usados e a descaracterização da revista. Numa outra carta, divulgada pelos trabalhadores que se demitiram em solidariedade ao Thiago, chega-se a conclusão de que o bom ambiente de camaradagem e alegria que havia antes, acabou. Assinam o manifesto: Cylene Dworzak Dalbon (repórter), Jackson Viapiana (estagiário), Léo Arcoverde (repórter), Mariana Nóbrega (assistente de arte), Mariana Santos (estagiária), Natália Mendes (estagiária), Rodrigo Aranha (repórter), Rodrigo Mendes (texto), Vinícius Souto (assistente de redação).
Renato Pompeu (editor especial) também pediu demissão e assina o manifesto, mas sua posição é diferenciada, pois reconhece a autoridade da direção da revista, porém julga que a única coisa que o atraía na redação, o bom ambiente de camaradagem no trabalho, deixou de existir. Em solidariedade a Thiago Domenici, também saem da revista: Mariana Camarotti (correspondente na Argentina), Fernando Evangelista (repórter) e Lilian do Amaral (texto).
E é assim que se esvai um lindo projeto de jornalismo, de pensamento próprio e de crítica. Melancolicamente a Caros Amigos põe um ponto final a um jeito de ser e fazer jornalismo, como o que era levado por Sérgio e sua trupe. Os seguidores, como dizem. Fico pensando em Jesus, em Che, em Gandhi e outros tantos seres que iluminaram caminhos e abriram veredas por onde até hoje andam aqueles que se atrevem a segui-los. Ser seguidor de uma prática bonita, respeitosa, amorosa, delicada, crítica, bonita e tudo o mais que ensinava Sérgio não deve ser defeito. É qualidade. Por isso, Thiago e toda a gente que saiu da Caros em solidariedade a ele, só devem se orgulhar.
O mundo humano é assim mesmo. As coisas nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Mas coisas há que não morrem. E certamente não há de morrer no Thiago as lições que aprendeu do grande companheiro que hoje parece ser a causa de sua demissão. Às vezes, Thiago, quando a gente perde, é quando a gente ganha. Pode ser que, na imensidão do cosmos, onde agora está vivendo aquele que te fez um jornalista tal qual tu és, estejam sendo tramados os planos para novas propostas.
Coisa novas podem nascer deste grupo que hoje é chamado de “seguidores do Serjão”. Coisas novas, belas, dignas. Porque ninguém caminha com um mestre em vão. A melhor resposta é ultrapassá-lo. Lá em cima, na beira da nuvem, ele está olhando, orgulhosos e seguro. Sabe que essa galera vai parir o novo. Um novo que terá a cara de vocês e não a dele. Aí sim ele terá sido grande.
Não é hora de chorar o que se perdeu, mas sim, abrir as trilhas para o que virá. Aqui, da periferia da periferia, Santa Catarina, eu me solidarizo e aposto minhas fichas nesta galera de seguidores... Contem comigo para o que vai nascer!...
quinta-feira, 19 de junho de 2008
quarta-feira, 18 de junho de 2008
O homem que é um caminho
Por Elaine Tavares - jornalista
Imagine aquele homem, de riso largo e olhos penetrantes, sentado em sua cadeira de balanço, charuto entre os dedos e um mate quentinho a lhe aquecer as juntas gastas. Do alto dos seus 80 anos ele ainda olharia de esguelha para alguma mulher bonita e sairia às ruas nas passeatas, serelepe como um menino. Mas El Che não chegou lá. Não soube o que é perder a força, os hormônios, sentir o corpo fraquejar. Não perdeu a beleza heróica, não envelheceu. Caiu, executado numa escola pobre, de um longínquo lugar da Bolívia. Seus olhos de lâmpada, que iluminaram a luta mais bonita do século XX, ficaram abertos, mirando os assassinos, numa expressão quase de pena.
Ernesto nasceu na Argentina e viveu sempre no limite. Asmático, venceu cada crise, recusando-se a cenas de auto-piedade. Quando o ar lhe faltava, ele arfava, barulhento, e se escondia para que ninguém o visse lutar contra a doença que tentava impedi-lo de viver à larga. Foi assim que se embrenhou pela América Latina e descobriu que muito mais do que argentino, ele era um revolucionário, prisioneiro das causas do povo. E assim foi até o fim.
El Che é homem sem igual. Não é à toa que vive para sempre. Enfrentou a doença, enfrentou o império, se embrenhou nas selvas e defendeu com seu próprio corpo os sonhos coletivos de uma multidão. E é tão especial que, mesmo morto, consegue levar adiante milhões de almas em rebelião. Seu rosto anguloso de olhar firme é presença segura em qualquer lugar onde haja gente em luta. Sua força revolucionária é tão grande que nem apropriado pela Fórum conseguiu se transformar num pastiche. A cara do Che nas camisetas da famosa marca não podiam mesmo encantar a classe que compra roupas caras. Essa gente não o conhece, não sabe do seu valor. Assim, não vingou.
O Che vive mesmo é nas camisetas de malha ruim, produzidas nos fundos de quintal, em fabriquetas de serigrafia, que se vendem nos encontros populares. Porque essa gente é a sua gente. Os empobrecidos, os desvalidos, os oprimidos, os marginais, os que dizem não, os que sonham, os que transformam, os que anunciam boas novas, os que fazem rebeliões, os profetas.
O Che vive porque não é mais um homem, é um caminho, vereda de liberdade, de vida digna, de riquezas repartidas. O Che e seu olhar de infinito está sempre ali, a dizer: sim, é possível. Vamos em frente, em luta. Esse homem de junho, esse homem outonal, essa chama. É sua voz de trovão que nos convida a acreditar que as lutas coletivas sempre serão as armas mais seguras para chegar a uma nova organização da vida. O Che de Rosário, de Alta Gracia, de Córdoba, da Bolívia, da Venezuela, do Peru, do Equador, da Guatemala, de Cuba... O Che do mundo... Ele nos acena, invencível, e nós o seguimos... Porque assim como ele, vive, eterna, a esperança deste ainda-não almejado. Nós o faremos... Eu sei!
Imagine aquele homem, de riso largo e olhos penetrantes, sentado em sua cadeira de balanço, charuto entre os dedos e um mate quentinho a lhe aquecer as juntas gastas. Do alto dos seus 80 anos ele ainda olharia de esguelha para alguma mulher bonita e sairia às ruas nas passeatas, serelepe como um menino. Mas El Che não chegou lá. Não soube o que é perder a força, os hormônios, sentir o corpo fraquejar. Não perdeu a beleza heróica, não envelheceu. Caiu, executado numa escola pobre, de um longínquo lugar da Bolívia. Seus olhos de lâmpada, que iluminaram a luta mais bonita do século XX, ficaram abertos, mirando os assassinos, numa expressão quase de pena.
Ernesto nasceu na Argentina e viveu sempre no limite. Asmático, venceu cada crise, recusando-se a cenas de auto-piedade. Quando o ar lhe faltava, ele arfava, barulhento, e se escondia para que ninguém o visse lutar contra a doença que tentava impedi-lo de viver à larga. Foi assim que se embrenhou pela América Latina e descobriu que muito mais do que argentino, ele era um revolucionário, prisioneiro das causas do povo. E assim foi até o fim.
El Che é homem sem igual. Não é à toa que vive para sempre. Enfrentou a doença, enfrentou o império, se embrenhou nas selvas e defendeu com seu próprio corpo os sonhos coletivos de uma multidão. E é tão especial que, mesmo morto, consegue levar adiante milhões de almas em rebelião. Seu rosto anguloso de olhar firme é presença segura em qualquer lugar onde haja gente em luta. Sua força revolucionária é tão grande que nem apropriado pela Fórum conseguiu se transformar num pastiche. A cara do Che nas camisetas da famosa marca não podiam mesmo encantar a classe que compra roupas caras. Essa gente não o conhece, não sabe do seu valor. Assim, não vingou.
O Che vive mesmo é nas camisetas de malha ruim, produzidas nos fundos de quintal, em fabriquetas de serigrafia, que se vendem nos encontros populares. Porque essa gente é a sua gente. Os empobrecidos, os desvalidos, os oprimidos, os marginais, os que dizem não, os que sonham, os que transformam, os que anunciam boas novas, os que fazem rebeliões, os profetas.
O Che vive porque não é mais um homem, é um caminho, vereda de liberdade, de vida digna, de riquezas repartidas. O Che e seu olhar de infinito está sempre ali, a dizer: sim, é possível. Vamos em frente, em luta. Esse homem de junho, esse homem outonal, essa chama. É sua voz de trovão que nos convida a acreditar que as lutas coletivas sempre serão as armas mais seguras para chegar a uma nova organização da vida. O Che de Rosário, de Alta Gracia, de Córdoba, da Bolívia, da Venezuela, do Peru, do Equador, da Guatemala, de Cuba... O Che do mundo... Ele nos acena, invencível, e nós o seguimos... Porque assim como ele, vive, eterna, a esperança deste ainda-não almejado. Nós o faremos... Eu sei!
terça-feira, 17 de junho de 2008
Pobres 13 está sendo parida
Míriam Santini de Abreu
Que nos aguardem! A próxima Pobres & Nojentas, filha de número 13, a primeira do terceiro ano de vida, estará circulando até o final deste mês. E com novo projeto gráfico, tratado por Rosangela Bion de Assis e Sandra Werle, as jornalistas que dão rosto para os nossos textos ossudos e musculosos. E virá com mais duas croniportagens enviadas às Editoras para o I Festival de Croniportagem de Abya Yala. Tínhamos uma proposta, há algum tempo, de publicar pequenos textos sobre Florianópolis, que se insinua de modo único na vida de cada um de nós. O Raul Fitipaldi, da equipe da Pobres e do Desacato, que parece ter 10 dedos em cada mão - todos a jorrar palavras - foi quem mandou. Leia o texto dele na próxima Pobres!
domingo, 15 de junho de 2008
Travesseiro de pedra - Opus 2
À minha vó Ana
Vista de lado é pedra antiga
que não perde o perfume,
embora o vento fustigue as bordas duras onde adormeço.
De frente, o travesseiro de pedra
é retângulo sumério --- polido --- fascinado
pelas voltagens nuas da primavera.
Se o tenho sob a cabeça ventilada de árvores,
o travesseiro de pedra revela-se santo,
posto que não é só de pedra,
nem serve apenas de travesseiro, antes alivia,
com sua imagem, todo cansaço inútil.
Assim como está, travesseiro entre goiabeiras,
é tudo o que tenho nesta manhã de verão
em que a infância faz sombra em meus olhos.
Fernando José Karl
Lythia
Eu agora vou lhes revelar o Mysterium: Eu, o Insano S., sou Deus — e como ser Deus sem perder a simplicidade? Amo apenas uma das deusas: Lythia. Se sou o que sou — e sou Deus — devo tudo a ela.
Posso construir edificações de vento, esquecer um jasmim e um pão embaixo do travesseiro; posso, também, ser esta sombra no muro pintado a cal. Eu sou a sibila Lythia ou Wittgenstein — fogo e água ao mesmo tempo; eu sou o nó de fogo coroado — e já fui pedra em Calcutá, musgo em Ulan Bator, jazz em New Orleans, fui para cama com a chuva e nasceu o silêncio.
Tanto me feri nos fios cortantes da concha, e já sei que não basta que deusas de água me enlouqueçam de eu sonhá-las, mas a presença delas serve, de alguma maneira, para distrair a dor, enquanto flutuo nos cellos suntuosos de Brahms aqui neste terraço do Hotel Sunset Boulevard, e, saibam, de Godot ainda nem sombra. Esta é toda a vida de um Deus que, mesmo sendo Deus, tem de ficar esperando Godot. Sendo o que sou — Deus — também respiro esta música que torna invisível as árvores, o Castelo da Pureza, e faz com que as ondas se destrocem nas pedras.
Confesso que, sendo Deus, sou o frescor do silêncio e a neblina e guardo no relicário — onde a alma é hóspede silenciosa —, o fato de haver conhecido mulheres que morreram virgens sem nunca acenderem um fósforo. Mulheres virgens são grandes cipoais emaranhados a torrentes de cristal fluindo dentro de pensamentos velados: nem procures a verdade nem afastes as ilusões. Cristalino sob o eucalipto, o vento espera a gueixa Yuki na rua da Pedra.
Com meu desprezo habitual por tudo o que cacareja, chamo o vento de “aquele que dorme num canteiro de vermes e sequer é tocado pelos vermes”. Estua no desconhecido o talismã sereneiro. Desce a luz nas imagens sonhadas de sereias visíveis — ou palavras — que nunca me pesam ou em mim duram apenas o riscar de um fósforo: este que guardo no bolso.
Desfio, como se fosse um rosário de neblinas, um roseiral na secura e adormeço se escuto o vendaval ao longe. Muitas vezes o meu desejo é simplesmente ser um filósofo com gatos brancos na neve — uma neve onde eu pudesse matar a sede.
Fernando José Karl
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Filme aborda seqüestro do Ônibus 174
O cineasta Bruno Barreto irá lançar em outubro o filme "Última parada 174", sobre o fato ocorrido na tarde de 12 de junho de 2000 no Rio de Janeiro. O assunto foi tratado no documentário "Ônibus 174", de José Padilha, que contou a trajetória de discriminação, prisão e exclusão do assaltante, e estará mais uma vez nas telas de cinema. Leia notícia completa em
http://www.divirta-se2.uai.com.br/agitos/interna_noticias.asp?codigo=3754
Veja a chamada do filme em
http://msn.guiadasemana.com.br/MSN/film.asp?ID=11&cd_film=2214&cd_city=1
http://www.divirta-se2.uai.com.br/agitos/interna_noticias.asp?codigo=3754
Veja a chamada do filme em
http://msn.guiadasemana.com.br/MSN/film.asp?ID=11&cd_film=2214&cd_city=1
segunda-feira, 9 de junho de 2008
A madrugada é perigosa para mim
Míriam Santini de Abreu
A madrugada é perigosa para mim. Quando as outras vozes se calam, as minhas vozes libertam-se de uma prisão que desconheço para me assombrar. Gritam. Sussuram. São de uma lucidez insuportável, não temem nada. Posso pouco quando, furiosas, me acusam; quando, repletas de suavidade, me perdoam. Abro a cortina devagar para encontrar cúmplices, mas o mundo dorme, e os despertos devem também estar às voltas com inquietações ardentes. Do corpo. Da alma. Há uma certa hora, a mais quieta, em que todas as verdades do mundo me encontram, fico flamejante, sábia das coisas da infância e da velhice. E num átimo, num tempo incontável nem antes nem adiante, desconheço tudo, escapam-me de todo as certezas. E fico buscando inutilmente a plenitude perdida, para voltar ao lugar e ao tempo de onde parti, ignorando sempre um pouco mais.
A madrugada é perigosa para mim. Quando as outras vozes se calam, as minhas vozes libertam-se de uma prisão que desconheço para me assombrar. Gritam. Sussuram. São de uma lucidez insuportável, não temem nada. Posso pouco quando, furiosas, me acusam; quando, repletas de suavidade, me perdoam. Abro a cortina devagar para encontrar cúmplices, mas o mundo dorme, e os despertos devem também estar às voltas com inquietações ardentes. Do corpo. Da alma. Há uma certa hora, a mais quieta, em que todas as verdades do mundo me encontram, fico flamejante, sábia das coisas da infância e da velhice. E num átimo, num tempo incontável nem antes nem adiante, desconheço tudo, escapam-me de todo as certezas. E fico buscando inutilmente a plenitude perdida, para voltar ao lugar e ao tempo de onde parti, ignorando sempre um pouco mais.
Quase-sabre
A poesia de Fernando Karl é um um quase-golpe de sabre. Quando toca o corpo, eriça a pele. Às vezes faz sangrar. Confira em http://nautikkon.blogspot.com/
quinta-feira, 5 de junho de 2008
MAS O POETA MORA A SÓS NUMA CASA DE ÁGUA (De um poema de Hilda Hilst)
Um sol de gelo paira a Casa de Água:
o que eu adoro é ninfa imaterial,
agreste brancura da flor de mandacaru,
dançar na Casa de Água de Georgia O’Keeffe
ou sonhar o pescoço de Vishnu,
depois rabiscar águas com barcas brancas.
O sonho humano se abrupta nos
escolhos.
Georgia O’Keeffe lambe, com língua de
vaca,
o sal do megafone.
No seu túmulo, grafado em pedra,
inscreve-se:
eu fui uma Casa de Água.
Por Fernando Karl
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Mansa umidade à espera...
domingo, 1 de junho de 2008
Do primeiro jornal a gente não esquece
Míriam Santini de Abreu
Eu era auxiliar de escritório em uma rede de supermercados de Caxias do Sul em meados de 1990. Entrava na segunda fase de Jornalismo e decidi bater na porta do extinto jornal Folha de Hoje para pedir emprego. Consegui um estágio e lá fiquei durante dois anos. Como tantos outros que passaram pelo jornal, a minha relação com a Folha era um caso de amor.
Havia a Tríade dos Editores – Cancian, Ibanor e Braga. E trabalhava lá o Darci Demetrio, que sabíamos – os repórteres - ter ganho um Prêmio Esso Regional Sul de Jornalismo. Toda semana o Demetrio selecionava uma reportagem para colocar no mural da Redação e comentar. Lembro-me ainda hoje do dia em que a primeira que fiz foi “para o trono”, como dizíamos. Recortei o comentário, que fora datilografado em máquina de escrever, e o guardei.
A rotina na Folha dava a sensação de banho em dia frio. Suavemente cálida. Eu amanhecia plena de notícias a apurar e escrever, e anoitecia pulsátil, mesmo depois das acabrunhantes viagens diárias a São Leopoldo para cursar jornalismo na Unisinos.
Na Folha aprendi a adorar a Editorial de Geral, onde está a peonada do jornalismo: Repórter de Geral. Aprendi a adorar também as botas pretas de cadarço com sola pesada, confortáveis e aptas para qualquer solo e clima. Botinha de Repórter é como as batizei.
Toda manhã as pautas nos esperavam em tirinhas de papel. Cada saída com a equipe repórter-fotógrafo-motorista era uma celebração para mim, “foca” deslumbrada. Digitávamos os textos em PCs com monitor de fósforo verde em meio ao alarido da Redação, uma sala apenas dividida em Editorias com uns seis PCs cada. Os Editores ficavam no único aquário – a sala com divisória de vidro - e havia as salas menores de Fotografia e Arquivo, de recebimento de telex e de diagramação e finalização das edições. Ah, que grande azáfama! Papel, bloco, telefones, dicionários, “espelhos”, “bonecos”, fotos, canetas, pressa!
Quando o relógio apontava 17h30, eu, a Rosane Berti e o Samuel Frison corríamos Redação afora, sempre atrasados para encontrar, na Praça, o ônibus para a Unisinos. Havia histórias e risos nessas viagens, sempre tendo a Folha de Hoje como cenário. Em 2007 as pessoas que trabalharam no jornal organizaram uma confraternização em Caxias e houve um quase consenso em relação aos episódios mais marcantes da história da FH. Um deles foi o dia em que parte do prédio da Prefeitura da cidade pegou fogo.
Era final de tarde, mas o Cancian, nosso Editoral Geral, não precisou chamar ninguém de volta ao trabalho. Estávamos todos lá, uns nos carros do jornal, outros subindo às carreiras a rua Dom José Barea, no alto da qual está, ainda hoje, o Centro Administrativo. Eu e o Samuel chegamos juntos, e ainda hoje me lembro da gafe que cometi. Lá estava o prefeito Mansueto Serafini, uma expressão atordoada no rosto. Eu, afobada pela corrida, lasquei:
- Oi, prefeito, tudo bem!?
Atrás dele, as chamas destruíam parte do prédio!
Nem bem perguntei, me dei conta da gafe e saí dali rapidinho. Uma insensibilidade de Nero, a minha.
Uma hora depois chega à rua, esbaforido, o então secretário da Educação. Ele conta que uma criança quase fora esquecida no local porque dormia em uma das salas da Secretaria. A mãe havia saído e voltou desesperada quando soube do incêndio. Os detalhes da história hoje me escapam, mas eram muitos, e eu e o Samuel resolvemos fazer um texto assinado pelo dois.
Eu estava então imbuída do espírito dos manuais de redação e – temente àqueles preceitos ridículos - insistia em um texto protocolar. O Samuel, hoje mestre e doutorando em Letras, queria fazer uma narrativa quente como as chamas. O texto publicado foi um híbrido, e o episódio da criança, dias a fio, discorrido em nossas viagens a São Leopoldo.
A Folha fechou de forma melancólica em meados dos anos 90. Não sei se algum estudante de jornalismo da Universidade de Caxias do Sul contou a história do jornal. Espero que sim.
Eu era auxiliar de escritório em uma rede de supermercados de Caxias do Sul em meados de 1990. Entrava na segunda fase de Jornalismo e decidi bater na porta do extinto jornal Folha de Hoje para pedir emprego. Consegui um estágio e lá fiquei durante dois anos. Como tantos outros que passaram pelo jornal, a minha relação com a Folha era um caso de amor.
Havia a Tríade dos Editores – Cancian, Ibanor e Braga. E trabalhava lá o Darci Demetrio, que sabíamos – os repórteres - ter ganho um Prêmio Esso Regional Sul de Jornalismo. Toda semana o Demetrio selecionava uma reportagem para colocar no mural da Redação e comentar. Lembro-me ainda hoje do dia em que a primeira que fiz foi “para o trono”, como dizíamos. Recortei o comentário, que fora datilografado em máquina de escrever, e o guardei.
A rotina na Folha dava a sensação de banho em dia frio. Suavemente cálida. Eu amanhecia plena de notícias a apurar e escrever, e anoitecia pulsátil, mesmo depois das acabrunhantes viagens diárias a São Leopoldo para cursar jornalismo na Unisinos.
Na Folha aprendi a adorar a Editorial de Geral, onde está a peonada do jornalismo: Repórter de Geral. Aprendi a adorar também as botas pretas de cadarço com sola pesada, confortáveis e aptas para qualquer solo e clima. Botinha de Repórter é como as batizei.
Toda manhã as pautas nos esperavam em tirinhas de papel. Cada saída com a equipe repórter-fotógrafo-motorista era uma celebração para mim, “foca” deslumbrada. Digitávamos os textos em PCs com monitor de fósforo verde em meio ao alarido da Redação, uma sala apenas dividida em Editorias com uns seis PCs cada. Os Editores ficavam no único aquário – a sala com divisória de vidro - e havia as salas menores de Fotografia e Arquivo, de recebimento de telex e de diagramação e finalização das edições. Ah, que grande azáfama! Papel, bloco, telefones, dicionários, “espelhos”, “bonecos”, fotos, canetas, pressa!
Quando o relógio apontava 17h30, eu, a Rosane Berti e o Samuel Frison corríamos Redação afora, sempre atrasados para encontrar, na Praça, o ônibus para a Unisinos. Havia histórias e risos nessas viagens, sempre tendo a Folha de Hoje como cenário. Em 2007 as pessoas que trabalharam no jornal organizaram uma confraternização em Caxias e houve um quase consenso em relação aos episódios mais marcantes da história da FH. Um deles foi o dia em que parte do prédio da Prefeitura da cidade pegou fogo.
Era final de tarde, mas o Cancian, nosso Editoral Geral, não precisou chamar ninguém de volta ao trabalho. Estávamos todos lá, uns nos carros do jornal, outros subindo às carreiras a rua Dom José Barea, no alto da qual está, ainda hoje, o Centro Administrativo. Eu e o Samuel chegamos juntos, e ainda hoje me lembro da gafe que cometi. Lá estava o prefeito Mansueto Serafini, uma expressão atordoada no rosto. Eu, afobada pela corrida, lasquei:
- Oi, prefeito, tudo bem!?
Atrás dele, as chamas destruíam parte do prédio!
Nem bem perguntei, me dei conta da gafe e saí dali rapidinho. Uma insensibilidade de Nero, a minha.
Uma hora depois chega à rua, esbaforido, o então secretário da Educação. Ele conta que uma criança quase fora esquecida no local porque dormia em uma das salas da Secretaria. A mãe havia saído e voltou desesperada quando soube do incêndio. Os detalhes da história hoje me escapam, mas eram muitos, e eu e o Samuel resolvemos fazer um texto assinado pelo dois.
Eu estava então imbuída do espírito dos manuais de redação e – temente àqueles preceitos ridículos - insistia em um texto protocolar. O Samuel, hoje mestre e doutorando em Letras, queria fazer uma narrativa quente como as chamas. O texto publicado foi um híbrido, e o episódio da criança, dias a fio, discorrido em nossas viagens a São Leopoldo.
A Folha fechou de forma melancólica em meados dos anos 90. Não sei se algum estudante de jornalismo da Universidade de Caxias do Sul contou a história do jornal. Espero que sim.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Poemacios
"... vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- enxerto de terra,
trabalhadeira. Madrugadeira ....
lutadora, sambista, feminista"
lutadora, sambista, feminista"
(Cora Coralina)
quinta-feira, 29 de maio de 2008
A difícil arte de ser só
Por Elaine Tavares – jornalista
É assim. A gente sente um sentimento oceânico, ou um medo imenso ou qualquer outra coisa grandiosa, que precisa ser repartida. Então a gente busca os amigos. Mas eles estão ocupados demais e não podem te ouvir. É uma festa, um encontro, o ônibus que já vai sair. E tudo se esvai. E a gente fica sozinha na calçada, com aquela sensação abismal de abandono. Nestas horas há dois caminhos a seguir.
O primeiro deles é choramingar que ninguém te ama, ninguém te quer e que os teus amigos são uns egoístas que só pensam em suas próprias demandas. Baseado nisso, ir para casa com a firme certeza de que se está mergulhado na solidão, que a vida é injusta, que as pessoas não são capazes de retribuir todo o amor e o cuidado que se tem com elas cotidianamente.
O segundo caminho é o da deusa. Saber que aqueles que têm como missão serem os cuidadores da vida, seja de gente, bicho ou planta, são definitivamente seres solitários. São os que não precisam de nada em troca, são os que simples e gratuitamente dão... Sem nada esperar. São os que, como Morgana, a maga, fazem sua parte neste mundo material e depois entram na barcaça que conduz às brumas, e nelas se perdem para sempre.
Os seres humanos são seres do turbilhão. Estão, como o coelho de Alice, sempre com pressa. Mas isso não significa que não amam ou não se importam. É que poucos deles têm essa deliciosa certeza de que nas brumas vive o sagrado e que na presença do sagrado é impossível se estar só.
Iniciada nas coisas dos deuses, eu sempre optei pelo caminho de Morgana. Sem vazios na alma, sem autocomiseração. Mas, sozinha, domo minhas próprias ondas e navego, apesar da névoa, por que sei que, nas brumas, me espera a inefável deusa, a mãe. Então, não há motivos para ter medo de solidão ou tristeza. No sagrado, tenho a melhor companhia.
Claro que este é um caminho de fé.
É assim. A gente sente um sentimento oceânico, ou um medo imenso ou qualquer outra coisa grandiosa, que precisa ser repartida. Então a gente busca os amigos. Mas eles estão ocupados demais e não podem te ouvir. É uma festa, um encontro, o ônibus que já vai sair. E tudo se esvai. E a gente fica sozinha na calçada, com aquela sensação abismal de abandono. Nestas horas há dois caminhos a seguir.
O primeiro deles é choramingar que ninguém te ama, ninguém te quer e que os teus amigos são uns egoístas que só pensam em suas próprias demandas. Baseado nisso, ir para casa com a firme certeza de que se está mergulhado na solidão, que a vida é injusta, que as pessoas não são capazes de retribuir todo o amor e o cuidado que se tem com elas cotidianamente.
O segundo caminho é o da deusa. Saber que aqueles que têm como missão serem os cuidadores da vida, seja de gente, bicho ou planta, são definitivamente seres solitários. São os que não precisam de nada em troca, são os que simples e gratuitamente dão... Sem nada esperar. São os que, como Morgana, a maga, fazem sua parte neste mundo material e depois entram na barcaça que conduz às brumas, e nelas se perdem para sempre.
Os seres humanos são seres do turbilhão. Estão, como o coelho de Alice, sempre com pressa. Mas isso não significa que não amam ou não se importam. É que poucos deles têm essa deliciosa certeza de que nas brumas vive o sagrado e que na presença do sagrado é impossível se estar só.
Iniciada nas coisas dos deuses, eu sempre optei pelo caminho de Morgana. Sem vazios na alma, sem autocomiseração. Mas, sozinha, domo minhas próprias ondas e navego, apesar da névoa, por que sei que, nas brumas, me espera a inefável deusa, a mãe. Então, não há motivos para ter medo de solidão ou tristeza. No sagrado, tenho a melhor companhia.
Claro que este é um caminho de fé.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Rotina de gueisha
Fernando Karl
Ao bater do meio-dia, a gueixa Yuki entrava na tina de Ofurô, a nudez dentro da tina, onde os perfumes derramados davam à água um tom cristalino de nada: depois uma carpa a penetrava, gozoza, de escamas macias, a carpa ia e vinha e friccionava as fendas da gueixa com o cerimonial de quem celebra um culto noturno; e embrulhada num céu que não tinha fim, a alma de Yuki --- céu de seda --- e, num dos recantos de seu mistério, a gueixa ondulava suavemente os quadris, dando aqui e além certo olhar ao jardim lá fora, entre árvores silenciosas – o jardim de pedra.
O resto da tarde, se havia luz que salpicasse as profundezas do horto, a gueixa Yuki passava lendo na Sala de Chá, e ali a mobília era de vime e os pequenos vasos de flores de cerejeira calavam cada mágoa, cada ira.
Um jardim de pedra; aí, quando nele estava, Yuki saboreava os escritos de O Livro do Vento, do poeta Syn Li. Enquanto iam sendo lidas as pequenas odes – a música na vitrola refrescava o ar –, e a gueixa agitava o leque e pensava na carpa, no céu, na seda.
Ao bater do meio-dia, a gueixa Yuki entrava na tina de Ofurô, a nudez dentro da tina, onde os perfumes derramados davam à água um tom cristalino de nada: depois uma carpa a penetrava, gozoza, de escamas macias, a carpa ia e vinha e friccionava as fendas da gueixa com o cerimonial de quem celebra um culto noturno; e embrulhada num céu que não tinha fim, a alma de Yuki --- céu de seda --- e, num dos recantos de seu mistério, a gueixa ondulava suavemente os quadris, dando aqui e além certo olhar ao jardim lá fora, entre árvores silenciosas – o jardim de pedra.
O resto da tarde, se havia luz que salpicasse as profundezas do horto, a gueixa Yuki passava lendo na Sala de Chá, e ali a mobília era de vime e os pequenos vasos de flores de cerejeira calavam cada mágoa, cada ira.
Um jardim de pedra; aí, quando nele estava, Yuki saboreava os escritos de O Livro do Vento, do poeta Syn Li. Enquanto iam sendo lidas as pequenas odes – a música na vitrola refrescava o ar –, e a gueixa agitava o leque e pensava na carpa, no céu, na seda.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Via Crucis do correntista
Míriam Santini de Abreu
Estava inativa há dois meses a conta que eu mantinha em um banco privado. Solicitei um extrato e tomei o susto: R$ 30,00 de gasto com tarifas. Paguei a dívida e acordei na segunda-feira disposta a cancelar a conta.
Primeira Estação
Ligo para um 4004. Depois de aguardar alguns minutos para poder discar o dígito para atendimento pessoal, sou informada de que o cancelamento deve ser feito em minha agência, a quase 200 quilômetros de Florianópolis.
Segunda Estação
Ligo para a minha agência. Lá me dizem que cancelamento só por um 0800 exclusivo para encerrar contas. Disco e aguardo a oportunidade de falar com um ser humano, e não com uma gravação. A funcionária é taxativa: o serviço só pode ser feito em minha agência ou em uma agência “parceira”.
Terceira Estação
Digito um ofício requerendo o fim da conta, assino, embarco num ônibus e marcho para uma agência do banco no Centro da Capital.
Quarta Estação
Há apenas um rapazote no balcão de atendimento e dois seguranças na térreo da agência. O rapazote está no telefone. Vou até o segundo andar e pergunto:
- Onde cancelo conta?
- Lá no fundo, no balcão.
A funcionária dos fundos está no telefone. Desliga e informa que o cancelamento é no térreo. Desço, mas espumando de raiva.
Quinta Estação:
Explico o caso ao rapazote. Ele faz a mesma Via Crucis na qual deixei meu lamento. Informam a ele, no 0800, que o cancelamento só pode ser feito na minha agência. Prestativo, o bancário explica que a cliente está “extremamente incomodada”. Pedem que ele ligue para a minha agência. Lá a gerente da conta responde que não pode fazer nada, só pelo 0800.
Sexta Estação:
O funcionário relata à gerente da conta os detalhes do meu calvário, parecendo, a meu ver, tão irritado quanto eu. Compreendeu a minha raiva. Depois de insistir com firmeza, ele finalmente consegue fazer um memorando interno que assino e que é remetido, via malote, para a minha agência.
Conclusão
Depois de fazer picadinho do cartão eletrônico do banco, medito sobre a diferença entre o público e o privado. Não adianta querer discutir políticas públicas de educação e saúde na sede chique dos planos privados ou na escola particular dos filhos. Ali somos clientes. Ou paga e aceita ou procura outro prestador de serviço. A discussão tem que ser na escola pública e no SUS. Ali a gente é cidadão. Mas quem pode fazer essa briga não faz. Prefere ser cliente. E assim todos ficamos cada vez menos cidadãos.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Uma sombra em rebelião
Elaine Tavares
Aconteceu assim. E só poderia ser no meu Campeche, lugar de magias. Vinha eu mui fagueira cuidando dos vaga-lumes que rodopiavam sob minha cabeça. Eram umas dez horas da noite e eu fazia o percurso que vai do ponto do ônibus até minha casa, o que dá uns 600 metros. Além dos vaga-lumes, as estrelas luziam brilhantes na noite fresca de lua nova. Noite típica de outono, plena de beleza, sagrada. Nessas horas mortas eu gosto de limpar a mente, não pensar em nada, só fruir esse presente da natureza, completamente integrada na pulsação do universo. E assim caminhava, sentindo o vento geladinho. Feliz.
Foi então que, de inopino, minha sombra andou. É sério! Andou... Vinha ela, correta, me acompanhando tranqüila, no lugar onde deveria estar. Mas, num repente, andou. Vejam bem, eu não estava drogada, até porque a única droga que uso é o transporte coletivo da Capital, mas já não estava nele. A menos que tenha sido alguma reação tardia. Mas, em tese, eu estava limpa. De cara.
Durou um segundo e logo voltou à sua posição. Não havia nenhum foco de luz que a deslocasse, não estava passando nenhum avião. Tudo estava naquela santa paz das noites tranqüilas. Mas o fato é que minha sombra andou. Por alguns segundos se libertou de mim e seguiu à frente. Estupefiz! No meio do caminho parei e fiquei a indagar o que poderia ter sido aquele ato de rebeldia.
Estaria minha sombra enfarada de mim? Estaria meu corpo comportando-se como uma prisão para sua negra liberdade? Estaria ela querendo me dizer algo? Estaria prenunciando meu fim?Então, no meio da noite clara, na companhia dos vaga-lumes, nenhum som se fez. Minha sombra calada ficou e seguiu ordeira, do meu lado, pouca coisa atrás. Mas me deixou essa inquietude, esse desassossego. Minha sombra, essa louca, deve ter aprendido nas tantas lutas que fiz que é preciso sair do trilho, revolucionar.
Foi então que, de inopino, minha sombra andou. É sério! Andou... Vinha ela, correta, me acompanhando tranqüila, no lugar onde deveria estar. Mas, num repente, andou. Vejam bem, eu não estava drogada, até porque a única droga que uso é o transporte coletivo da Capital, mas já não estava nele. A menos que tenha sido alguma reação tardia. Mas, em tese, eu estava limpa. De cara.
Durou um segundo e logo voltou à sua posição. Não havia nenhum foco de luz que a deslocasse, não estava passando nenhum avião. Tudo estava naquela santa paz das noites tranqüilas. Mas o fato é que minha sombra andou. Por alguns segundos se libertou de mim e seguiu à frente. Estupefiz! No meio do caminho parei e fiquei a indagar o que poderia ter sido aquele ato de rebeldia.
Estaria minha sombra enfarada de mim? Estaria meu corpo comportando-se como uma prisão para sua negra liberdade? Estaria ela querendo me dizer algo? Estaria prenunciando meu fim?Então, no meio da noite clara, na companhia dos vaga-lumes, nenhum som se fez. Minha sombra calada ficou e seguiu ordeira, do meu lado, pouca coisa atrás. Mas me deixou essa inquietude, esse desassossego. Minha sombra, essa louca, deve ter aprendido nas tantas lutas que fiz que é preciso sair do trilho, revolucionar.
Minha sombra, companheira, quer voar... Rebelde e livre, como eu!
domingo, 25 de maio de 2008
Nos Atacam e Resistimos
Da nossa carne fazemos trincheira. Po Raul Fitipaldi, da equipe de P&N
Nos atacam e resistimos Manuel
Com bombas, com tanques
E resistimos com abraços, com vozes
Com lágrimas e sorrisos
Nos atacam e resistimos Augusto
Roubando as riquezas, escondendo a comida
E resistimos como sementes, com mãos e braços
Cantando quando nos dói, chorando por alegrias
Nos atacam e resistimos Emiliano
Entram nas casas e nos jogam fora
E resistimos levantando construções,
Construindo levantamentos e abrigos
Nos atacam e resistimos Sendic
Atiram com balas para quebrar-nos as pernas
E resistimos oferecendo a cara
Alçamos taquaras e pedras e anseios
Nos atacam e resistimos Rachel
Quando entram com suas bulldozers em nosso jardim
E resistimos com um lenço na mão
Fazemos redes de lenços para subir às estrelas
Nos atacam e resistimos Ernesto
Contra as doenças que inventam para acabar-nos
E resistimos botando as mãos nos leprosos e nos fuzis
Da nossa carne fazemos trincheira inexpugnável
Nos atacam e resistimos Micaela
Arrebentam nosso corpo e quebram nossos braços
E resistimos criando mais braços e mais corpos
Do ventre da Pacha Mama o leite morno da esperança
Nos atacam e resistimos Patrício
Esfaqueiam a terna pele da negra pátria
E resistimos abrindo nossos diamantes luminosos
Para ensinar o caminho das horas novas
Nos atacam e resistimos Fidel
Quando tu, Pai contemporâneo desta Pátria Grande
Desistas de corpo e vivas eterno entre nós,
Livres e contundentes, plenos e soberanos,
Resistiremos às tentações de derrotas e renúncias
Com o sangue libertário de Manuel, de Augusto, de Emiliano, de Rachel, de Ernesto, de Micaela, de Patrício, de todos os que hoje estão acompanhando uma nova estrela que ilumina o trajeto da inevitável libertação da Pátria Mãe, dia trás dia, até que daqueles que nos atacam não fiquem nem lembranças, nem sinais, nem covardias.
Nos atacam porque venceremos, mais cedo que tarde
Por isso nos atacam
Por isso resistimos, camarada Pedro Marín.
Em homenagem a Manuel Marulanda
Ele também ilustra!
Míriam Santini de Abreu
O jornal Observatório abriu espaço para mais uma crônica minha. O editor, Eduardo Schmitz, escreve, edita, fotografa, diagrama e, deveras "nojento", ainda ilustra. Ilustrações que amo. Vá em
sábado, 24 de maio de 2008
Lua Cheia de Maio
Míriam Santini de Abreu
Surpreendi a lua se libertar do mar de água brava da Praia Mole, em Florianópolis. Mas de longe, a visão meio obscurecida por uns eucaliptos. E quis surpreendê-la sozinha, eu e ela, o mais próximo possível. Escuro ali, cadê o caminho para o mar? Tento por um lado, cerca; por outro, arbustos espinhosos. Até que encontro uma trilha cercada de mata baixa, uns 70 metros. Vacilo. Mas ela me aguarda, e então vou. E no fim da trilha encontro a areia e o mar iluminados. Não há foto ou filmagem que dê conta de representar a beleza daquela Lua Cheia de Maio. Não há, à venda, Lua Cheia engarrafada. Mas vá na conta de P&N no You Tube (à direita) para ter uma pálida amostra.
http://br.youtube.com/watch?v=v9QC4COpfUg
terça-feira, 20 de maio de 2008
P&N na América Latina 6

Machu Picchu e WaynaPicchu ao fundo e a cidade sagrada vista de cima de WaynaPicchu, a 2.634 metros de altitude.
Destino: Machu Picchu no Peru
Saída de Florianópolis dia 10 de janeiro. Chegada a Machu Picchu dia 21 de janeiro
Destino: Machu Picchu no Peru
Saída de Florianópolis dia 10 de janeiro. Chegada a Machu Picchu dia 21 de janeiro
A cidade Sagrada dos Incas
Por Marcela Cornelli
Jornalista da P&N
Jornalista da P&N
Nas asas do Condor. Foi assim que me senti. Me imaginei voando nas asas de um Condor, quando Machu Picchu abriu-se inteira abaixo de nós. O Condor era considerado pelos Incas um animal sagrado. Eles acreditavam que, por ser a ave que voa mais alto, o Condor faria a ponte entre os homens e o Deus Sol (Inti). Cheguei a Machu Picchu num misto de alegria, tristeza e culpa. Foram 11 dias de grande aventura e eu estava ali. Mas meu coração estava inquieto, pois, um dia antes de subir a Machu Picchu, recebi a triste notícia que meu pai havia falecido no Brasil. Quis voltar, porém ele já havia sido enterrado. Então resolvi subir a montanha por ele, por mim, e para tentar entender melhor alguns mistérios da vida.
A cidade outrora habitada pelos Incas, agora vazia, ainda transborda de energia e vida. A primeira parte de Machu Picchu que visitamos foi a Tumba Real e ali o guia explicou que os mortos eram enterrados em posição fetal e voltados para o amanhecer do sol, onde recebiam os primeiros raios solares, porque os incas acreditavam que os mortos renasciam. Eles não acreditavam em reencarnação. Para os Incas, os mortos renasciam num outro plano religioso. Tomei forças tocando nas ruínas sagradas e toda a magia do lugar ajudou a aliviar um pouco minha dor. Como disse a minha grande amiga Elaine, “se acreditarmos que a morte é só um momento da grande caminhada, fica mais fácil entender...”.
A forte neblina foi dispersando-se aos poucos, a chuva parou, o vento frio cortava o alto da montanha e a nossa frente ali estava ela, a cidade sagrada dos Incas. Hoje muralhas de pedra, ruínas cercadas de uma paisagem exuberante à beira de um grande penhasco. Alguns quéchuas que viviam na região já sabiam da sua existência e por ali passavam e usavam o local para a pastagem de seus animais. O que se sabe é que os espanhóis, quando chegaram a Machu Picchu, encontram a cidade já vazia. O que fez os Incas partirem deixando a cidade inacabada ninguém sabe. Acredita-se que os Incas, ao saberem da chegada dos espanhóis na região, fugiram para a floresta.
Machu Picchu foi um centro religioso e de estudos astronômicos e experimentos agrícolas – em seus terraços eram plantadas inúmeras variedades de papas. Havia em Machu Picchu também um jardim botânico onde se cultivavam várias plantas, entre elas a coca. A cidade ficou conhecida para o mundo com a chegada do historiador e professor da Universidade inglesa de Yale, Hiram Bingham, em 1911. O historiador foi levado para lá pelos índios quéchuas que já viviam na região e conheciam as ruínas.
Machu Picchu estava coberta pela vegetação. Com a chegada de Hiram Bingham os tesouros e segredos de Machu Picchu, até então guardados pela floresta, foram descobertos. Os objetos encontrados pelo historiador nas escavações feitas no santuário peruano foram levados para Yale, nos Estados Unidos, e nunca mais voltaram. Nos últimos anos o governo peruano tenta repatriar os tesouros, entre eles estátuas de ouro e peças de cerâmica (sobre a luta do governo Peruano para trazer os objetos de volta recomendo uma matéria da revista Carta Capital, nº 497, de 7 de maio/2008).
Pela manhã passeamos por Machu Picchu visitando vários pontos da cidade como os Templos do Condor e do Sol, o Templo das três janelas, o posto de vigilância, o relógio e o calendário solar, os salões de reuniões e onde aconteciam rituais religiosos, entre outros misteriosos e encantadores lugares. Fizemos a trilha que leva à ponte Inca e à tarde subimos o deslumbrante monte WaynaPicchu – a montanha que vemos atrás de Machu Picchu na famosa foto do sítio arqueológico. Do alto do WaynaPicchu, a 2.634 metros de altitude, Machu Picchu parece ter sido construída aos seus pés, protegida pela floresta, num lugar estratégico, perto do céu, do Deus Inti, e rodeada pelas fortes correntezas do Rio Urubamba. Faltam-me palavras para retratar tamanha beleza e grandiosidade. No alto do WaynaPicchu mais ruínas Incas. Impossível, pensei. Impossível eles terem construído algo aqui. Mas estavam ali, mais vestígios de uma civilização enigmática, que construiu uma cidade de pedra num lugar inacessível, que vivia em comunhão com a natureza, que nas ruas da cidade construiu canais onde a água que ali passava era compartilhada por todos, que carregava pedras pelas montanhas acima, demonstrando força e coragem, que estudava as estrelas e vivia sobre a guarda dos espíritos da velha montanha.
O tempo máximo de permanência em WaynaPicchu era até as 16 horas. Descemos. Admiramos um pouco mais Macchu Picchu. Recarregamos as energias. Despedimos-nos da cidade e seguimos montanha abaixo pela trilha Inca. A cada 100 metros da descida olhávamos para traz. Queria voltar. Queria chegar ao Brasil rápido pelo fato acontecido. Queira voltar a Machu Picchu. Talvez ficar ali por muito, muito mais tempo. As pernas já não agüentavam mais, descemos a montanha quase em silêncio total, acompanhados por um cão, que apelidamos de Inca Cão e que nos guiou pela trilha Inca. Machu Picchu ficava para trás, mas seguia conosco toda a magia do lugar.
Uma viagem inesquecível para todo amante da América Latina. Voltamos a Cuzco no dia seguinte. Depois, aceleramos a volta de avião, pois eu precisava chegar ao Brasil com urgência. Fomos a Lima e de Lima tomamos outro avião para São Paulo e depois Florianópolis. Como perdemos a conecção Lima/São Paulo, acabamos ficando um dia na capital peruana - uma cidade linda e agradável, muito interessante também para se conhecer. Depois posto algumas fotos de Lima também. Com as matérias da P&N na América Latina espero ter inspirado alguém a aventurar-se pelos lindos caminhos da nuestra américa ou por outras paragens ...
domingo, 18 de maio de 2008
Plano Diretor tem muita reunião, mas pouca participação
Míriam Santini de Abreu
Está quieta a discussão do Plano Diretor Participativo de Florianópolis, que tem como eixo principal a participação efetiva da população, prevista no Estatuto da Cidade. O PDP irá definir o futuro da Capital no que se refere aos aspectos ambientais, culturais, econômicos, sociais, institucionais e espaciais. Até agora houve muita reunião, mas o assunto não “colou” no dia-a-dia da maioria dos moradores. São sete etapas previstas, e agora está se avançando para a terceira, que terá fóruns temáticos sobre área como meio ambiente, mobilidade urbana e saneamento. Modesto Azevedo, que representa a União Florianopolitana de Entidades Comunitárias (Ufeco) no Núcleo Gestor do PDP, fala sobre o assunto na entrevista abaixo:
O ritual da nudez, após o banho de sais
Por Fernando KarlPara iniciar o ritual da nudez, a Senhora retorna ao quarto, após o banho de sais, envolta numa toalha branca. Para entenderes bem o que é o céu na alma, observe primeiro o modo como ela se desnuda. Eu obedeço, dando ao rosto o maior interesse possível, enquanto a Senhora deita na cama e acaricia as pernas com óleo de amêndoas.
Confesso que foi no verão a primeira vez que vi a Senhora, no Café Graben, que era então o único lugar onde se podia observar, pela imensa janela transparente, as pessoas que andavam na rua. E elas todas iam ao açougue, à Botica da Erva Santa ou ficavam nos bancos no Largo do Paço.
No Café Graben eu tinha fome, muita fome, porque não havia comido nem uma folha de alface nem bebido um copo d’água sequer. A Senhora entrou de longo chapéu azul, como se usava naquela época, e sua nuca muito branca foi o que de imediato me chamou atenção. Ela se sentou próxima de gordas senhoras, nas suas ricas vestimentas que, ao fundo do Café Graben, faziam barulho com o garfo e a faca e davam com a língua nos dentes sobre um assunto ou outro, sempre banal.
No momento em que a Senhora se levantou para ir ao banheiro, eu fui atrás, um pouco encharcado de vodca, confesso, e aconteceu dela se espantar quando o animal que há em mim arrancou cada peça de sua roupa e ali a Senhora ficou, no meio do banheiro, com a nudez branca e um tufo de pêlos negros entre as coxas. Confusão? Tumulto? Nada disso. Ela colou seu corpo no meu e fiquei durante minutos passando a língua nos ombros, nos quadris, no púbis, com a intenção de secar a chuva que nestes lugares havia se acumulado.
Depois que saímos do banheiro do Café Graben, a Senhora foi levada em braços para a Botica da Erva Santa, veio o farmacêutico, era noite; a Senhora tinha a cabeça rachada, e da fenda da cabeça tentava sair, com dificuldade, um pássaro azul com garras afiadas que bateu asas e singrou ao telhado de um casarão próximo.
Dali do interior da Botica pude fazer sinal a um tílburi que por ali passava; e retornamos, eu e a Senhora, ao sobrado onde ela residia.
O tílburi no meio do caminho atropelou uma menina de 12 anos. Eu escutava a respiração da menina, com a alma nos olhos, incapaz de desvendar o motivo porque ela havia acabado de morrer. O dono do tílburi fugiu e nunca mais foi visto.
Por muito tarde que chegássemos ao sobrado da Senhora, não estávamos com sede, ela adormeceu e a coloquei na cama.
Confesso que foi no verão a primeira vez que vi a Senhora, no Café Graben, que era então o único lugar onde se podia observar, pela imensa janela transparente, as pessoas que andavam na rua. E elas todas iam ao açougue, à Botica da Erva Santa ou ficavam nos bancos no Largo do Paço.
No Café Graben eu tinha fome, muita fome, porque não havia comido nem uma folha de alface nem bebido um copo d’água sequer. A Senhora entrou de longo chapéu azul, como se usava naquela época, e sua nuca muito branca foi o que de imediato me chamou atenção. Ela se sentou próxima de gordas senhoras, nas suas ricas vestimentas que, ao fundo do Café Graben, faziam barulho com o garfo e a faca e davam com a língua nos dentes sobre um assunto ou outro, sempre banal.
No momento em que a Senhora se levantou para ir ao banheiro, eu fui atrás, um pouco encharcado de vodca, confesso, e aconteceu dela se espantar quando o animal que há em mim arrancou cada peça de sua roupa e ali a Senhora ficou, no meio do banheiro, com a nudez branca e um tufo de pêlos negros entre as coxas. Confusão? Tumulto? Nada disso. Ela colou seu corpo no meu e fiquei durante minutos passando a língua nos ombros, nos quadris, no púbis, com a intenção de secar a chuva que nestes lugares havia se acumulado.
Depois que saímos do banheiro do Café Graben, a Senhora foi levada em braços para a Botica da Erva Santa, veio o farmacêutico, era noite; a Senhora tinha a cabeça rachada, e da fenda da cabeça tentava sair, com dificuldade, um pássaro azul com garras afiadas que bateu asas e singrou ao telhado de um casarão próximo.
Dali do interior da Botica pude fazer sinal a um tílburi que por ali passava; e retornamos, eu e a Senhora, ao sobrado onde ela residia.
O tílburi no meio do caminho atropelou uma menina de 12 anos. Eu escutava a respiração da menina, com a alma nos olhos, incapaz de desvendar o motivo porque ela havia acabado de morrer. O dono do tílburi fugiu e nunca mais foi visto.
Por muito tarde que chegássemos ao sobrado da Senhora, não estávamos com sede, ela adormeceu e a coloquei na cama.
A arte de fazer sopa de agnolini








Míriam Santini de Abreu
Às vezes, o inverno na Serra Gaúcha é envolto em neblina. Só é possível ver o que está a cinco, dez metros. Depois, só brumas. E aí a grande alegria é poder estar em casa, a chapa do fogão repleta de pinhões, a boa leitura feita sob cobertas quentes. E, à noite, molhar o pão no caldo de uma sopa de agnolini. A sopa de agnolini é um pitéu da culinária da Serra. A minha mãe sabe fazer tudo, desde o recheio até a massa passada na máquina.
Uma das tradições de família, quando éramos crianças, era a seguinte: o César, meu irmão do meio, ficava com o encargo de fazer as bolinhas de recheio. Eu, que sempre fiz questão de ter encargos bem vagos, adorava verificar, de soslaio, se o Cé estava distraído e, então, juntar quatro ou cinco bolinhas e comer tudo de uma vez só. O Cé berrava:
- Mãe, olha essa guria, ela não pára de comer!
Eh, eh, eh, como era divertido!
E fazer sopa de agnolini é assim:
Recheio:
Cozinhar 1 peito de galinha na água, que também será o caldo da sopa
Moer o peito e misturar a carne a uma clara de ovo, noz moscada, um pouco de canela, sal e queijo ralado. Amassar bem
Massa:
3 ovos, 3 xícaras de farinha de trigo, 1 colher de óleo e 2 colheres de água. Amassar até que fique bem lisinha e, depois, passar na máquina para espichar
Caldo:
Usar a água na qual foi cozinhado a galinha. Colocar uma cebola, alho, tempero verde e 1 caldo de carne
Como fazer o agnolini:
É preciso cortar a massa já espichada em pequenos quadrados. Colocar o recheio e fechar, unindo as duas pontas. Deixar o agnolini secar por algumas horas e, depois, cozinhar no caldo. Servir com queijo ralado e pão. Fica ainda melhor com um pouco de cren, uma raiz forte de origem européia. Os imigrantes ralavam a raiz e deixavam curtir três ou quatro colheradas num copo com vinagre de vinho tinto. Hoje, o bom cren é triturado no liqüidificador. Num copo de raiz forte, vão duas ou três colheres de vinagre de vinho branco e uma colher de açúcar. A mistura deve ter a consistência de uma pasta, quase como uma mostarda.
Veja parte do processo na conta de P&N no You Tube:
sexta-feira, 16 de maio de 2008
A gente adora uma muvuca!
Por Míriam Santini de Abreu
A gente adora uma muvuca! Basta caminhar no centro das cidades para perceber: o povo pára quando percebe uma agitação incomum, um alarido, um bafafá. Formam-se aquelas rodas cerradinhas, quem está fora nada vê, tem que chegar perto, forçar passagem, esticar o pescoço. Mesmo os apressados estreitam as sobrancelhas para tentar ver algo que dê uma pista do motivo para a curiosidade.
Há nas ruas das cidades esses seres incomuns: o velho, tocador de viola, chapéu preto com algumas pratas juntadas ao longo do dia; os guarani, meninos e meninas ainda, com sua canção pungente, que sempre deixa a alma um pouco dolorida, ligada a um passado que, às vezes, ameaça não ter futuro; o vendedor de homens-aranha, que lança os pegajosos bonequinhos paredes acima enquanto grita: - Lá vem eles, lá vem eles!; o homem da cobra, estranhas ervas à venda, ameaçando os transeuntes com uma suposta cobra dentro de um saco. E como fala, esse o homem da cobra!
São acontecimentos da vida urbana bons de perceber. Revelam pequenas afrontas ao tempo do relógio, das mercadorias, da produção. Trinta segundos, um minuto, cinco, pouco mais, pouco menos, tirados para perceber a vida que pulsa na cidade, antes da entrega ao “expediente”. Tempo mágico, de desafio, impetuoso ao quebrar a rotina, arriscar um percurso diferente, um movimento mais sinuoso do corpo, um pensamento hostil ao estado de coisas dito normal.
Milton Santos dizia que, se há um futuro possível, ele está sendo gestado nas cidades, onde revela-se de maneira crua o desamparo a que boa parte da população está relegada mas, que, também, abre novas possibilidades de ampliação da consciência. Em seu livro “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, ele diz que é nas cidades que se observarão a renascença e o peso da cultura popular.
Pena que esse espaço público apareça sempre tão negativamente na mídia. A rua é confundida com pista de veículos, com espaço de comércio – “comércio de rua” em contraposição ao “comércio de shopping”. Há poucas notícias e reportagens que abram outros sentidos, permitindo que essa vida que pulsa nas cidades apareça, mostre-se em suas belezas e feiúras. Mas Milton Santos também acreditava que, sob a pressão das situações locais, das pessoas vivendo nos lugares, se gestaria uma “comunicação imaginosa e emocionada”. Esse tempo virá, e para dar notícias desse espaço.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Amar a humanidade
Míriam Santini de Abreu
Lançamento do livro do Dinovaldo Gilioli, da direção do Sindicato dos Eletricitários, Sinergia, no dia 14 de maio. Estavam lá tantas caras que conheço, caras da minha grande família de Florianópolis, que, devagar, aprendi a amar. Com essa gente estou em casa, aqueles sorrisos acolhedores, os abraços afetuosos, a lembrar de miudezas deliciosas, pequenas delicadezas. Saímos de lá perto das 21 horas, o ar brando e fresco da noite volteando o corpo, a lua num crescente. Que vontade de me pendurar nela! Paramos no Mercado Público para agarrar com todos os dentes um pastel de camarão fervente, moléculas de gordura plenamente recheadas. Então estou como Florbela Espanca:
Tenho sede d’amar a humanidade…Eu ando embriagada… entontecida…
segunda-feira, 12 de maio de 2008
P&N na América Latina 5



As ruínas Incas em Pisaq e as ruas de Ollantaytambo, no Vale Sagrado. Criança acena para o trem na viagem até a Vila de Macchu Picchu.
Destino: Macchu Picchu no Peru
Cuzco - Vale Sagrado – Vila de Macchu Picchu
Cuzco - Vale Sagrado – Vila de Macchu Picchu
Por Marcela Cornelli
Jornalista da P&N
Partimos de Cuzco no dia 20 de janeiro pela manhã rumo a Mapi, ou Águas Calientes, uma vila no meio da montanha, base para a subida a Macchu Picchu. Seria mais um dia de viagem até subirmos a montanha. Deixamos as mochilas aos cuidados da agência de viagem (no chão, ao lado do banheiro) na qual compramos um pacote com o transporte e as entradas para Macchu Picchu. Só levamos uma muda de roupa, água, capa de chuva, alguns casacos, nossos documentos e dinheiro. Para chegarmos à Vila de Macchu Picchu fizemos parte do caminho de ônibus até Ollantaytambo, onde pegamos o trem que corta as montanhas, margeando o Rio Vilcanota (Wilcamayu - Rio Sagrado), também chamado de Rio Urubamba. Para chegar a Vila de Macchu Picchu, ou Águas Calientes (prefiro chamar de Vila de Macchu Picchu – os nativos também), só de trem ou pela famosa trilha Inca – para fazer a trilha Inca leva-se uns quatro dias de caminhada partindo de Cuzco e também é necessário fazer reserva com antecedência nas agências de turismo.
Antes de chegar a Ollantaytambo, que também faz parte do Vale Sagrado dos Incas, passamos por Pisaq, um povoado que guarda muitas tradições e onde também há ruinas Incas. Em Pisaq há um grande mercado de artesanato e comidas típicas que vale a pena ser visitado. As ruínas ficam no alto da montanha, são menores que Macchu Picchu, mas também possuem toda magia do Vale Sagrado. De Pisaq fomos para Ollantaytambo, também uma pequena cidade, uma vila. Andando pelas ruas de Ollantaytambo, rumo à estação para pegar o trem até a Vila de Macchu Picchu, você pensa ter passado por um portal do tempo. A cidade mantém muitas características da cultura incaica e é cercada de montanhas e ruinas Incas.
Na estação de Ollantaytambo pegamos o trem para Àguas Calientes, onde passamos a noite, para logo cedo subirmos a Macchu Picchu. Pegamos o trem na classe turística. Durante a viagem é possível ver as exuberantes paisagens do Vale Sagrado, as montanhas andinas, a mata nativa, tudo isso beirando o rio Urubamba. O trem corta as montanhas por entre túneis. Nas margens crianças acenam. Dentro tomamos um lanche com muito mate de coca, pão com queijo e um delicioso doce que lembra o cheese cake das padarias de Floripa. Chegamos à Vila de Macchu Picchu no final da tarde, porém a Vila é muito lúgrubre, úmida e escura, talvez por ser janeiro, a época das chuvas na região, e já parecia noite.
O barulho da cachoeira que corta a Vila perdura noite adentro. Dormimos num hotel que nem vou recomendar, apesar de ser barato, pois era muito úmido, cheirando a mofo, chovia e fazia frio e a resistência do chuveiro caía o tempo todo, etc, etc ... Por isso, ficamos até tarde da noite caminhando pelas ruelas, cheias de restaurantes, lojas de artesanatos, bares, mercadinhos e toda estrutura para receber os turistas. A praça da cidade é muito aconchegante mesmo à noite e estava cheia de turistas e crianças nativas brincando. Achamos estranho tantas crianças na rua à noite, e, seguindo uma delas até um prédio da administração da Vila, descobrimos que os pais estavam participando de uma importante reunião, que, é claro, nós, turistas, não podíamos ter acesso. Muito curiosa, eu queria entrar, mas eles estavam discutindo problemas da localidade e me senti invadindo um pouco a vida da comunidade, então preferi ficar na praça conversando com as crianças, que nos explicaram que estas reuniões são comuns na “municipalidad”.
Antes de retornar ao hotel fomos jantar. Há muita opções, para todos os bolsos e todos os gostos. Prefirmos seguir o “menu” do dia, como eles falavam: sopa de cogumelos (mas não eram alucinógenos), salada de frutas, na entrada, suco de mamão e truta com batatas e um molho que não me lembro o nome, bem picante e gostoso. Para acompanhar, a famosa cerveja Cuzqueña. Tudo isso por uns 30 soles, 10 reais, dividido em duas pessoas. Já era quase meia noite quando voltamos ao hotel.
O barulho da cachoeira que corta a Vila perdura noite adentro. Dormimos num hotel que nem vou recomendar, apesar de ser barato, pois era muito úmido, cheirando a mofo, chovia e fazia frio e a resistência do chuveiro caía o tempo todo, etc, etc ... Por isso, ficamos até tarde da noite caminhando pelas ruelas, cheias de restaurantes, lojas de artesanatos, bares, mercadinhos e toda estrutura para receber os turistas. A praça da cidade é muito aconchegante mesmo à noite e estava cheia de turistas e crianças nativas brincando. Achamos estranho tantas crianças na rua à noite, e, seguindo uma delas até um prédio da administração da Vila, descobrimos que os pais estavam participando de uma importante reunião, que, é claro, nós, turistas, não podíamos ter acesso. Muito curiosa, eu queria entrar, mas eles estavam discutindo problemas da localidade e me senti invadindo um pouco a vida da comunidade, então preferi ficar na praça conversando com as crianças, que nos explicaram que estas reuniões são comuns na “municipalidad”.
Antes de retornar ao hotel fomos jantar. Há muita opções, para todos os bolsos e todos os gostos. Prefirmos seguir o “menu” do dia, como eles falavam: sopa de cogumelos (mas não eram alucinógenos), salada de frutas, na entrada, suco de mamão e truta com batatas e um molho que não me lembro o nome, bem picante e gostoso. Para acompanhar, a famosa cerveja Cuzqueña. Tudo isso por uns 30 soles, 10 reais, dividido em duas pessoas. Já era quase meia noite quando voltamos ao hotel.
Dormimos para poder pegar o ônibus que sobe até Macchu Picchu bem cedo, às 5 da manhã. Choveu a noite toda e foi com muita chuva e neblina que subimos as ruas de barro até Macchu Picchu e cruzamos o portal de entrada do parque arqueológico, às 6h20min. Fomos os primeiros a entrar. O parque fecha às 17 horas, não queríamos perder um minuto sequer. Macchu Picchu é deslumbrante, maravilhosa, mística, exuberante. Vista de tão perto, nos faz questionar como algo tão grandioso foi construído à beira de um gigantesco penhasco, num lugar quase que inacessível. A cidade só abriu-se, mostrou-se para nós, ao meio-dia. Foi um dia de muitas emoções, incluindo a subida do Waynapicchu, na língua quéchua dos incas “Montanha jovem”, a 2.634 metros de altitude, uns 300 metros mais alto do que o sítio arqueológico de Machu Picchu, ou “Montanha Velha”. A visita ao sítio arqueológico de Macchu Picchu, a subida ao Waynapicchu, onde somente alguns turistas se aventuram, e a descida pela trilha Inca ficam para a próxima parte desta série, na próxima segunda, pois tanta beleza e grandiosidade não caberiam em poucas linhas e o texto já está longo, e o domingo acabando ...
domingo, 11 de maio de 2008
Poesia: primeira manhã do mundo
"A ética humana deve ser mais profunda --- cuidar das crianças, escutar música, não deixar que a poesia seque. Em nome de não sei o quê, sempre deixam a poesia de lado, logo a poesia que é dádiva perene dos anjos. Poesia: primeira manhã do mundo."
Frase do jornalista e poeta Fernando Karl
Frase do jornalista e poeta Fernando Karl
Pandorgas
Há uma pracinha atrás do nosso condomínio. Ali os guris - 10 a 60 anos - jogam futebol, gritam, xingam. Pais e mães cuidam da tarde, a falar das coisas da vida. Vozerio bom. E os piás soltam pandorga, seja o céu claro ou escuro. A vida na cidade fortalece, às vezes.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Sessão Especial discute questão palestina
No dia 15 de maio, a partir das 19 horas, haverá Sessão Especial a respeito da questão Palestina na Câmara Municipal de São José, SC. Os debatedores são Fawzi El Mashni, ex-embaixador da Autoridade Palestina no México, e Youssef Ahmad Youssef, professor da UNISUL. A Câmara Municipal de São José fica na Praça Arnoldo de Souza, 38, Centro Histórico do município.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
terça-feira, 6 de maio de 2008
Contestado tem Agência de Notícias Populares
Com os principais meios de comunicação de Santa Catarina dominados por uma só empresa, é cada vez mais importante o incentivo às mídias como a Agência Contestado de Notícias Populares, AGECON. Depois de seis meses de trabalho, a Agência está no ar, ainda em fase experimental, fruto do trabalho de várias organizações sociais como a CRESOL - Tangará, Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA, Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB, Pastoral da Juventude Rural – PJR, Sindicato dos Servidores Municipais de Fraiburgo – SINTSER, Associação Paulo Freire de Educação e Cultura Popular de Fraiburgo – APAFEC e Jornal Vitória.
De 13/04 até dia 28/04 o site da AGECON registrou 1.170 acessos, uma média de 78 acessos diários, e é mais um importante passo que os movimentos sociais da região do Contestado dão no sentido de ocupar o latifúndio da comunicação.
Para saber mais sobre a AGECON basta acessar o site: www.agecon.org.br A missão da Agência é ser um instrumento de luta, divulgando as ações e notícias dos movimentos e outras organizações sociais, anunciando um projeto popular para o Brasil e denunciando a criminalização feita aos movimentos e organizações sociais pelos grandes meios de comunicação.
Fonte: http://www.desacato.info/
De 13/04 até dia 28/04 o site da AGECON registrou 1.170 acessos, uma média de 78 acessos diários, e é mais um importante passo que os movimentos sociais da região do Contestado dão no sentido de ocupar o latifúndio da comunicação.
Para saber mais sobre a AGECON basta acessar o site: www.agecon.org.br A missão da Agência é ser um instrumento de luta, divulgando as ações e notícias dos movimentos e outras organizações sociais, anunciando um projeto popular para o Brasil e denunciando a criminalização feita aos movimentos e organizações sociais pelos grandes meios de comunicação.
Fonte: http://www.desacato.info/
Letra Editorial lança Transparente Demais

Lua nova, o jardim do Palácio Cruz e Sousa repleto de sombras arredias, um frescor na noite... Tudo para fazer do lançamento do livro de poemas Transparente Demais, de Rosangela Bion de Assis, um evento concorridíssimo, como dizem os colunistas sociais. Eram 22 horas desta segunda, 5, e a fila da autógrafos não terminava. A Letra Editorial caprichou na organização do lançamento, e a Pobres & Nojentas, diagramada pela Rô, teve espaço para divulgação e vendas. A capa do livro é primorosa, os poemas também. Nesta semana vamos mostrar as fotos!
Diretor do Sinergia lança livro de poemas

Dinovaldo Gilioli, da direção do Sindicato dos Eletricitários, Sinergia, lançará no dia 14 de maio, quarta-feira, às 19h, na Fundação Cultural Badesc, o livro "Cem Poemas". Haverá declamação de poemas e intervenção teatral. A Fundação Cultural Badesc fica na rua Visconde de Ouro Preto, 216 na Capital.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
P&N na América Latina 4


Lago Titicaca e seus encantos e a Praça de Armas em Cuzco
Destino: Macchu Picchu, no Peru La Paz – Copacabana – Puno – Cusco
Marcela Cornelli - Jornalista da P&N
Nos despedimos de La Paz, na Bolívia, no dia 17 de janeiro, num dia frio e chuvoso, e seguimos rumo à cidade sagrada dos Incas. Era uma hora da tarde. Nosso destino: seguir viagem até Cuzco, no Peru. Considerada a cidade imperial dos Incas, Cuzco era o mais importante centro administrativo e cultural do Império Inca até ser invadida e destruída pelos espanhóis. O conquistador Francisco Pizarro invadiu e saqueou a cidade, estabelecendo o domínio espanhol em Cuzco no dia 15 de novembro de 1533.
O nome original da cidade era Qosqo em Quechua, que significa "o umbigo do mundo". As ruas principais de Cuzco contêm restos de paredes Incas. A cidade foi praticamente destruída e os espanhóis construíram suas casas sobre os muros de pedras incas. A Praça das Armas no centro da cidade é ponto de encontro de turistas vindos do mundo todo. Cuzco possui em torno de 300.000 habitantes e está a 3.400 metros acima do nível do mar. Por isso, para chegar até lá, você ainda sentirá os efeitos da altitude.
O nome original da cidade era Qosqo em Quechua, que significa "o umbigo do mundo". As ruas principais de Cuzco contêm restos de paredes Incas. A cidade foi praticamente destruída e os espanhóis construíram suas casas sobre os muros de pedras incas. A Praça das Armas no centro da cidade é ponto de encontro de turistas vindos do mundo todo. Cuzco possui em torno de 300.000 habitantes e está a 3.400 metros acima do nível do mar. Por isso, para chegar até lá, você ainda sentirá os efeitos da altitude.
Em La Paz, pegamos uma van lotada num lugar chamado Cementério. Ao lado da saída dos micro-ônibus e das vans, que eram todos muito velhos, mas até que em bom estado, pode-se comprar alguns mantimentos, água e capas de chuva. Daqui para a frente ter sempre à mão a capa de chuva e ter as roupas da mochila envoltas em sacos de lixo são duas dicas que deixo para quem faz o trajeto até Macchu Picchu por terra. Eu e George, meu companheiro nessa linda viagem, fomos no banco da frente com o motorista. As mochilas foram em cima da van. Eu ainda estava bastante enjoada devido à altitude. As janelas da van não abriam, com exceção da janela do lado do motorista. De turistas somente nós dois, os demais eram bolivianos e eles iam atrás, rindo, contando histórias e comendo, comendo o tempo todo, pollo e papas fritas.
O cheiro de comida dentro da van era muito forte e eu ia passando um pouco mal, mas logo que avistei o Titicaca não havia mal-estar que perdurasse e, como se não bastasse a linda vista, ainda íamos escutando numa rádio boliviana músicas clássicas. Ao som de Bach e Strauss seguíamos na van com os boliavianos pelas margens do Titicaca, o maior Lago da América Latina, com 8.300 kilômetros de extensão e também o lago navegável mais alto do mundo.
Pelo caminho, antes de chegarmos a Copacabana, presenciamos a retirada de corpos de um acidente com um ônibus pequeno que havia caído no penhasco. A viagem margeando o Titicaca se faz numa estrada asfaltada e boa, porém qualquer descuido do motorista pode provocar um acidente e o carro despencar metros de altura. O motorista do ônibus tombado havia dormido no volante, foi o que nos disseram. Paramos para ver o que estava acontecendo. Todo mundo estava parando, mas não só por curiosidade e sim em solidariedade, porque poderia ter sido qualquer um dos demais ônibus e vans que por ali passavam. Em meio a um clima um pouco mais triste pelos 21 bolivianos mortos seguimos nossa viagem. A paisagem é inspiradora. O Titicaca parece um imenso mar, formado pelo degelo das cordilheiras andinas.
Nas margens do Titicaca as plantações ainda realizadas com técnicas incas enchem os olhos e a paisagem com várias tonalidades de verde. Na Bolívia, só de batatas ou papas, como eles falam, são 158 tipos. Pelo caminho muitos carros enfeitados com flores nos chamaram a atenção. O motorista da van explicou que os carros estavam vindo de algum batizado. Precisamos atravessar de barco uma parte do Titicaca. A van foi numa pequena balsa e nos encontrou do outro lado. O barco balançava bastante e as crianças e senhoras ficaram com um pouco de medo. Um dos meninos que estava conosco sentou no meu colo e olhando-me assutado disse: “Yo no sé nadar”. O irmão mais velho riu dizendo que a preocupação era porque não tinha nenhum salva-vidas no barco. Mas a travessia pelo Titicaca não dura mais do que uns 10 minutos e logo chegamos na outra margem.
Ainda com a mesma van fomos até Copacabana. A cidade é pequena e tem no centro uma praça com uma igreja em homenagem à Nossa Senhora de Copacabana, santa que também originou o nome da praia de Copacabana no Rio de Janeiro. Já era final de tarde e apesar de muitos turistas pararem por ali pelo menos um dia, resolvemos seguir rumo a Cuzco. Para isso, pegamos mais uma van até a fronteira. Também para cruzar da Bolívia ao Peru só nos foi solicitado a carteira de identidade. Cruzamos a pé. E tivemos sorte porque quando mal saímos da aduana, estacionou na frente do prédio um ônibus lotado de turistas franceses. Se tívessemos ficando cinco minutos a mais em Copacabana enfrentaríamos uma pequena fila de turistas para cruzar a fronteira. Já do lado peruano pegamos outra van até Yunguyo e dali mais um ônibus rumo a Puno, nossa próxima parada antes de chegar a Cuzco.
O ônibus que nos levou a Puno era pequeno e velho e as bagagens seguiram amarradas em cima do veículo. De turistas como nós, havia um casal de canadenses, que entraram desconfiados no ônibus, não pelo povo, pois a exemplo da Bolívia, todos eram bem hospitaleiros com os viajantes, mas, talvez, por estarem muitos dias na estrada como nós, numa viagem cheia de surpresas, porque nunca se sabia muito o que viria pela frente. Seguimos todos por mais uma etapa da viagem, ainda margeando o Titicaca, agora do lado peruano. Do som no ônibus (um toca-fitas antigo) sonava uma canção típica peruana. O ônibus seguiu até Puno sem maiores problemas. Já era noite quando chegamos no terminal da cidade de Puno. E mais uma vez trocamos de meio de transporte. Agora um taxista (numa bicicleta transformada em táxi e coberta com uma lona) nos levou pelas ruas de Puno até a rodoviária onde, finalmente, após trocarmos seis vezes de meio de transporte desde que saímos de La Paz, ou seja em menos de 24 horas, conseguimos pegar o ônibus para Cuzco.
Estávamos tão cansados que pedimos ao taxista uma dica de empresa para que o ônibus fosse um pouquinho bom, que, pelo menos, não quebrasse. A rodoviária em Puno estava tomada por turistas, nativos só nos balcões das empresas de ônibus e nas lanchonetes. Parada para um lanche, banheiro, não dava quase para andar no meio de tanto turista. Eram mais ou menos umas 22 horas. E todos estavam eufóricos naquela rodoviária. Acredito que porque Macchu Picchu estava cada vez mais próximo.
Na viagem até Cuzco um susto na aduana. Bolivianas que viajavam no ônibus nos pediram para “guardar” atrás da gente e embaixo dos encostos dos nossos bancos roupas de crianças e muitas roupinhas de bebês. Enquanto elas socavam malas nos nossos pés e roupas nos nossos bancos fiquei segurando um dos bebês, que também estava socado de roupa, nem se mexia. Achamos que era para elas não pagarem excesso de bagagem e resolvemos ajudar. Porém na aduana para entrar no estado cuzquenho, levamos um susto. Entraram no ônibus muitos policiais. O ônibus não tinha luz interna.
Os policiais entraram segurando nas mãos lanterninhas (iguais àquelas usadas pelos agentes Mulder e Scully no seriado Arquivo X) e colocavam a luz na cara de todos. Pensei nas roupas, se não eram contrabando. Ficamos nervosos, mas não nos movemos. Estávamos embaixo de uma manta que as bolivianas tinham nos emprestado para nos cobrirmos e, é claro, para esconder as roupas. Passado o susto, o resultado: as mulheres tiveram suas várias malas apreendidas, só restando basicamente as roupas que carregamos para elas. Recebemos muitos sorrisos e palavras de agradecimento, mas ficamos com a certeza de que nos metemos em algo que poderia não ter acabado muito bem.
Chegamos em Cuzco no dia 19 de janeiro, às seis da manhã - uma das últimas paradas da viagem antes de subirmos a Macchu Picchu. Pegamos um táxi até o centro da cidade e nos hospedamos num hotel bem baratinho, sem luxo algum, mas atrás da Praça das Armas, um dos pontos turísticos mais famosos de Cuzco, pertinho de tudo e ainda tinha um delicioso café da manhã, com leite, café, pão, suco de mamão e geléia, mas nunca imagine o pão brasileiro, o de lá é mais duro, escuro e em forma de uma grande hóstia redonda. Há muitos passeios para fazer ao redor de Cuzco e na própria cidade, que tem como a Praça das Armas o ponto de encontro, com muitas construções espanholas, restaurantes, cafés, bancos, agências de turismo. Aproveite em Cuzco também para tomar a cerveja Cuzquenha e a Inka Cola, além de, para quem não é vegetariano, experimentar os pratos com carne de Lhama e Alpaca.
Em Cuzco é bom ficar de olho nos preços dos pacotes de passeios. Lembram da professora do Rio de Janeiro que encontramos em Puerto Quijarro na Bolívia - início de nossa viagem. Ela estava pelas ruas de Cuzco buscando "la policia” para reclamar que tinha sido “assaltada” no preço dos pacotes para visitar o Vale Sagrado dos Incas. Por isso, pesquise tudo com calma, há muitas possibilidades e decida o que é melhor para você. É possível continuar a viagem por conta própria, porém resolvemos, para agilizar o tempo e garantir os ingressos para Macchu Picchu, fazer um pacote de viagem para o Vale Sagrado e para subir Macchu Picchu. Aproveitamos o dia para passear pelo centro de Cuzco. À noite choveu muito, andamos pelas ruas de Cuzco embaixo de chuva mesmo, a emoção de estarmos tão perto do nosso destino aumentava.
No dia 20 de janeiro partimos bem cedo com um micro ônibus para o Vale Sagrado e rumo a Mapi (ou Aguas Calientes - nome turístico, mas que os nativos não gostam muito). Mapi é base para a subida a Macchu Picchu. É uma vila que fica no meio da montanha e só se chega lá por trem. Na próxima segunda-feira conto mais sobre o Vale Sagrado dos Incas, a vila de Mapi e como é chegar a Macchu Picchu, a cidade perdida do Império Inca.
domingo, 4 de maio de 2008
Entrevista na CBN
Nesta segunda, 5, às 15 horas, a jornalista Rosangela Bion de Assis dará entrevista à CBN sobre o lançamento do livro Transparente Demais.
Blog do Samuel
O professor caxiense Samuel Frison, que é colaborador de Pobres & Nojentas, fez a estréia de seu blog. É
E já puxamos para cá um de seus posts:
A Editora Record lança o livro de ensaios de Nélida Pinõn, Aprendiz de Homero. Na publicação a autora fala dos livros que influenciaram sua carreira de escritora e leitora. Autora de República dos Sonhos e a A Doce Canção de Caetana, fluente narradora e contadora de histórias, Nelida é hoje uma das autoras brasileiras mais respeitadas e traduzidas línguas afora. Em Aprendiz de Homero, fala de Quixote a Shakespeare como narrativas fundadoras, não esquecendo de Machado e Dante. A última obra da autora, Vozes do Deserto, recebeu inúmeros prêmios e reeditou o mito de Scherazade, um alter-ego confesso de Nélida. Atualmente trabalha com a edição de um livro de contos, sendo professora convidada para palestras na França e nos Estados Unidos, onde divulga a literatura brasileira. Por Zeus Nélida, continue...
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