segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crônica de um Mandado de Despejo

Por Pepe Pereira dos Santos, Leandro Monteiro Dal Bó e o grupo de solidariedade às comunidades tradicionais de Imbituba

Tarde de uma quinta-feira, véspera de jogo do Brasil na copa da África. Em Imbituba, sul de Santa Catarina, sul do Brasil, o que está em campo no sítio do Sr. Antero Francisco Cardoso na Volta da Taboa, nos Areais da Ribanceira, entrada da cidade, é outra escalação. Perú, cabras, bois, cavalos, galinhas, jegues, cachorros, universitários, sindicalistas, amigos, parentes, ativistas do MST, todos contra o dilúvio de uma ordem de despejo requerida pela justiça.

A ordem judicial é contra agricultores tradicionais de uma área de 240 hectares. Aqui existe a ACORDI, Associação Comunitária Rural de Imbituba. Essa verdadeira Arca de Noé, que é a pequena propriedade do Seu Antero, de 3 hectares, já sobreviveu a outra tentativa de despejo a 4 anos atrás, quando a família teve a casa queimada por jagunços do que se dizia proprietário destas terras. Terras há décadas cultivadas por cerca de 80 famílias que têm como principal atividade, o plantio e o beneficiamento da mandioca.

Portanto, a resistência a esta nova tentativa de despejo faz com que a Dona Aurina Abreu, esposa de Seu Antero, esteja com os nervos bastante abalados. Temerosa dos desfechos dos acontecimentos, ela saúda e cumprimenta com certo alívio a chegada de cada um que vem para se somar ao pequeno grupo de solidariedade. Entre estes está Rui, ex-sindicalista, militante da brigada urbana Mitico do MST, morador da região. Preso arbitrariamente enquanto ajudava na organização da ACORDI, juntamente com a atual presidente da associação Marlene Borges e o bacharel em direito e agricultor Altair Lavratti, membro da direção estadual do MST.

Foram presos e algemados, acusados de formação de quadrilha e de estarem organizando invasão das terras que já são ocupadas por esses moradores há décadas. Essa prisão, na época, foi contestada por todos, inclusive por setores da própria polícia de SC e Federal em notas oficiais, publicadas nos veículos de comunicação, com repercussão nacional e mobilizações de várias organizações em defesa do direito dos presos e da comunidade tradicional local. Depois a justiça veio a questionar as prisões. Hoje todos os presos abriram processos contra o Estado, pedindo reparação. Vale frisar que Marlene, a presidente da ACORDI, está grávida; gravidez de risco, sabidamente. Foi presa em sua residência às 6 da madrugada em uma operação de guerra montada pela polícia que cercou sua casa acompanhada por uma equipe da RBS.

Difícil reparar os traumas de um evento dessa natureza, magnitude e violência. Os presos ficaram incomunicáveis durante 12 horas em locais não sabidos pelos familiares e advogados, violando flagrantemente as leis criminais e a própria Constituição.

É, portanto, explicável a expectativa desse pequeno grupo que se reúne em solidariedade ao Seu Antero nessa véspera de dia de jogo da Seleção de futebol Brasileira na copa do mundo. Aqui o jogo dos adversários é duro. E pelos comentários, está prestes a acontecer.

O mandado de despejo já foi expedido. Os moradores temem que tais mandados sejam executados após a Sétima Feira da Mandioca realizada em Imbituba na sede da ACORDI nos dias 24 a 27 de junho de 2010, no fim de semana último. Evento que reuniu milhares de visitantes vindos da região de Imbituba, de outros municípios, de outros estados e até de outros países. Autoridades estaduais e federais. As autoridades locais estiveram presentes com apenas o secretário municipal de agricultura. Parece que estas estão no time dos adversários. A elite local pretende que no espaço aonde vivem os agricultores, que dali tiram seu sustento, seja construída uma fábrica de cimento da Votorantim. Além de empreendimentos imobiliários de alto padrão.

As terras, que são originalmente da União foram negociadas de formas suspeitas. Localizam-se entre o mar e a BR-101. O que atiça a cobiça e a pressão legal e ilegal para que os moradores e agricultores abandonem suas terras.

Final de tarde, quase noite. A expectativa continua no grupo de solidariedade. A noite vai ser longa na casa do Seu Antero. Muitos convidados ficarão para dormir.

O temor é que o despejo ocorra enquanto todos estão com a atenção voltada para a copa. Amanhã às 11 horas, horário local, a Seleção Brasileira entra em campo. Aqui nas Areias da Ribanceira, Seu Antero já está há muito tempo neste campo, neste jogo e para ele e a Dona Aurina, essa é mais uma jogada, mas a expectativa é grande. A diferença é que ela traz o medo da perda do seu espaço de vida.

Enquanto todos os olhares do mundo se voltam para a copa do mundo na África do Sul, em Imbituba, Santa Catarina, sul do Brasil, o mundo de dezenas de famílias pode acabar. Aqui o resultado do jogo é mais arriscado. É tudo ou nada. Como final de campeonato, para uma linda região, uma comunidade tradicional, expulsa do campo, fica fora de jogo como milhões de excluídos da terra. A terra sem estes guardiões tem o seu meio ambiente ameaçado. O cartão do juiz não é o vermelho. Parece mais o verde dos dólares que move os interesses nesta região portuária. A “Arca de Noé” de Seu Antero é todo um modo de vida que pode ser levado pelo dilúvio dos interesses do mercado.

Sexta-feira, 2 de julho. O grupo está na expectativa de que o caso se resolva em favor da maioria comunitária não dos interesses da minoria especulativa. A Seleção Brasileira foi derrotada e volta para casa, mas o povo continua em luta e permanece em resistência.

Galeria de Imagens: http://picasaweb.google.com.br/leandro.db/ImbitubaCronicaDeUmMandadoDeDespejo

Pobres & Nojentas se une à Resistência Hondurenha

Na segunda-feira passada, 28 de junho de 2010, o Povo Hondurenho passou-se nas ruas do país fazendo uma demonstração contundente de seu rechaço ao Golpe de Estado perpetrado pela oligarquia, os militares e os Estados Unidos naquela nação mesoamericana.

Quando Globo TV Honduras apresentava as imagens do dia no seu programa Interpretando a Notícia, conduzido pelos jornalistas David Romero Ellner e Héctor Amador, o jornalista Rony Martínez que nos visitou em março aqui em Desterro, tomou conta do programa e disse: “- Agora vou apresentar o número da Revista Pobres & Nojentas de Brasil, especialmente feito para destacar a Resistência Hondurenha naquele país. Olhem-se aqui companheiros jornalistas. Estas fotos trazem nossa história. Aqui estão os homens e mulheres da Resistência em Honduras, e os homens e mulheres que nos receberam e são nossa família lá em Florianópolis”.

Rony Martínez pediu um primeiro plano e foi mostrando e comentando página por página, toda a Pobrinhas que se unia nesse momento, em “pleno corpo físico” à Resistência Catracha. Os jornalistas que lá se encontraram, fotografados pelo colega hondurenho Ronnie Huete Salgado, se emocionaram muito e o colega Raul que estava em sua casa da Ilha assistindo a emissão via internet também. Era a Pobrinha cumprindo seu papel de integrar e integrar-se cada vez mais profundamente à luta dos povos oprimidos.

Os nomes da Elaine, Míriam, Rosângela, Celso e Raul soaram musicalmente na dicção privilegiada do jornalista hondurenho que deixou saudades, junto com Ronnie Huete Salgado, entre nós, aqui na Ilha. Ficou linda a Pobres na TV de Honduras, andando passo a passo com a Resistência, marchando junto ao Povo Hondurenho a 1 ano do Golpe!

Sindicato discute a prática do Jornalismo em Instituições Públicas

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC) promove, no dia 5 de julho de 2010, segunda-feira, às 19 horas, na Casa da Memória (Rua Padre Miguelinho, nº 58, esquina com a Rua Anita Garibaldi, na frente da Câmara de Vereadores) em Florianópolis, mais um Círculo da Palavra, que desta vez discutirá “A Prática do Jornalismo em Instituições Públicas”. Serão debatidos temas como a situação do trabalho do jornalista na instituição (problemas laborais, condições de trabalho, doenças, assédios), os limites entre a prática do jornalismo, da propaganda e das relações públicas nessas instituições e os principais desafios dos jornalistas que nelas atuam.

O debate será, depois, transformado em mais um “Cadernos de Jornalismo”, que será distribuído nas escolas e entre os colegas jornalistas. Neste mesmo dia (5 de julho) será lançado o primeiro "Cadernos", que trata da prática dos repórteres fotográficos em Santa Catarina, tema discutido em um Círculo da Palavra realizado no ano passado.

A mesa sobre o Jornalismo em Instituições Públicas será formada por:

- Caio Teixeira, jornalista no Tribunal Regional do Trabalho (TRT12)

- Lúcia Helena Vieira, jornalista na Assembléia Legislativa de SC (Alesc)

- Moacir Loth, jornalista na Universidade Federal de SC (UFSC)

- Ricardo Leandro de Medeiros, jornalista na Prefeitura Municipal de Florianópolis

O SJSC enfatiza a importância da participação dos jornalistas, filiados ou não, na atividade. Hoje, em função do enxugamento cada vez maior das vagas nas redações dos meios de comunicação, as instituições públicas se constituem em importantes locais de atividade profissional. Em função do fim da exigência do diploma, um desafio que se coloca é discutir questões como a qualificação profissional, as relações de trabalho e a própria dinâmica e os limites do exercício profissional.

Participe de mais essa atividade do seu Sindicato!

SJSC lança Cadernos de Jornalismo I: a prática do fotógrafo



O Sindicato dos Jornalistas de SC convida para o lançamento, no dia 5 de julho, segunda-feira, às 19 horas, na Casa da Memória, em frente a Câmara de Vereadores, do I Cadernos de Jornalismo, que tem como tema “O repórter fotográfico e o discurso jornalístico na fotografia”. Depois do lançamento haverá mais uma edição do Círculo da Palavra, que desta vez discutirá o jornalismo nas instituições públicas.
O Caderno, com 36 páginas, é o resultado de uma ação do Sindicato, o Círculo da Palavra, que chamou os repórteres fotográficos para debater e refletir sobre o seu fazer. A atividade foi realizada em Florianópolis e em Joinvile em 2009. Na Capital, as contribuições são de: -Claudio Silva da Silva, repórter fotográfico freelancer -Luís Henrique Prates, repórter fotográfico freelancer -Marcelo Bittencourt, repórter fotográfico do Notícias do Dia -Roberto Scola, repórter fotográfico do Diário Catarinense -Elaine Tavares, jornalista, mediadora do debate Em Joinville, as contribuições são de: - Cleber Gomes, repórter fotográfico do Jornal A Notícia - Joyce Reinert, repórter fotográfica do Jornal Notícias do Dia - Mauro Artur Schlieck, repórter fotográfico da Secretaria Municipal de Comunicação da Prefeitura de Joinville (Secom) - Álvaro Diaz, professor de fotografia do Ielusc A apresentação do Caderno é feita pela jornalista Elaine Tavares. Leia um trecho: “O repórter fotográfico não tem nicho. Ele é o caçador de imagens gerais, no esporte, na economia, na política, na geral. Ele precisa estar munido de várias lentes, ter o sentido aguçado, a vista alerta. Ele é um repórter que fotografa. Ele é jornalista e, de quebra, conhecedor de uma linguagem que é diferente da do texto alfabético. Suas "letras" são rasgos de luz. Ele as domina, ele as doma. O repórter fotográfico não tem tempo para produzir a foto, ele captura o instante, daí a necessidade do raciocínio rápido, tão ágil quanto um flash. O repórter fotográfico é um mago.”

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Com Vicki Peláez, hoje mais que nunca

Por Dante Castro - Peru

A jornalista Vicki Peláez foi quem revolucionou a reportagem de rua na televisão peruana. Começavam os turbulentos anos 80 e, a imprensa devolvida aos seus proprietários, mais o retorno à democracia representativa, sacudiram as ataduras impostas aos meios pela ditadura militar de Morales Bermúdez. A propriedade dos meios de comunicação estava com a gente da direita, mas os jornalistas eram quase todos de esquerda. Das escolas de jornalismo saiam profissionais identificados com os interesses do povo (agora não mais). E, entre eles se destacou a cusquenha Vicki, com suficiente audácia para baixar até as portas do inferno se fosse necessário.

Uma tarde, ao final do segundo governo de Belaúnde, ela foi seqüestrada por um comando do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA)e o preço de sua libertação foi que o Canal 2 passasse a reportagem completa em nível nacional. O MRTA anunciava o início de sua campanha guerrilheira com a recuperação da espada e da bandeira original do libertador José de San Martín. Os encapuzados, portando moderno armamento de guerra, rodeavam a Vicki Peláez e informavam aos telespectadores sobre o programa tupacamarista.

Quando Vicki foi libertada pelos seus captores, os serviços de inteligência, muito mais desorientados que os de hoje, começaram a seguir a jornalista e a gravar sua vida, com a intenção de mostrar sua cumplicidade com o MRTA. Todos os que conheciam a Vicki, sabíamos que essa não era sua posição política. Pois ela teve de mudar-se para outras terras e buscar outros climas onde exercer o jornalismo crítico e de investigação sem ser perseguida. Foi assim que chegou aos Estados Unidos, não para se aliar aos ianques, mas para manifestar sua posição inamovível frente a toda injustiça, venha de onde vier.(Isso tem de ser bem esclarecido porque não podemos permitir que qualquer desorientado, torpe e ignorante, tire por conclusão que por estar Vicki nos EUA e trabalhar num jornal de lá, tenha se vendido ao imperialismo. Isso não é assim).

Encontramos-nos em 1992 fazendo curso de pós-graduação em Literatura Latino-Americana, em Havana, Cuba. Contei a ela que já conhecia seu marido Juancho Lázaro, porque havíamos praticado karatê no dojo Zen Bu Kan, por vários anos, sob a direção de Koichi Kokubo. E também lhe contei que nesse mesmo dojo praticava karatê junto com a gente, um silencioso advogado que depois identificamos como sendo Vladimiro Montesinos. Rimos muito destas causalidades da vida.

A intenção de Vicki em Havana não era só estudar literatura, mas também buscar a cura para um câncer do qual padecia sua irmã. Nunca cheguei a saber se tudo deu certo. Espero que sim. Isso é para que fique claro que ela não foi à Cuba para aceitar ser espiã.

Vicki já trabalhava como jornalista num diário de Nova Iorque onde naturalmente não imperava uma linha de esquerda, mas onde havia um certo clima pluralista. Lá, ela criticou duramente o bloqueio anticubano, apesar de dividir espaço no mesmo jornal com jornalistas de opinião diferente. Seus artigos e investigações sempre colocaram a descoberto as manobras belicistas dos falcões ianques, denunciavam as violações de direitos humanos e destapavam casos de corrupção.

Uma das vezes em que retornou ao Peru, foi me visitar na revista Caretas, onde eu trabalhava. Tomamos sorvete de lúcuma (coisa que não existe em Nova Iorque), recordamos a nossa esta em Havana e ela me deu várias pistas a seguir de escândalos de corrupção em Lima, e me falou sobre como se vão embora os lucros que se obtêm com o turismo em Cuzco. Graças a ela entrevistei o presidente regional e constatei todos os fatos. Foi o meu artigo da semana.

Anos mais tarde, uma amiga de São Marcos quis ir trabalhar nos EUA como jornalista, já havia exercido a profissão em Lima e queria alçar novos vôos. Recomendei que visitasse Vicki Peláez em Nova Iorque. Um mês depois me disse que Vicki já tinha lhe apresentado aos seus diretores e ela estava trabalhando no mesmo diário. Não aconteceu o mesmo comigo porque, no meu caso, a recomendação tinha de ser feita por um cubano emigrado aos EUA, e como faria qualquer cubano exilado, ele não me aprovou.
Eu não andava muito bem por aqui. Era os dias em que o general Miyashiro difundiu a calúnia de que Dante Castro, igual que seus amigos, era membro das FARC no Peru. A revista Caretas, onde eu trabalhava, não me demitiu, mas nunca mais voltaram a me dar uma página ou comissões. Sem poder responder a Miyashiro, optei por me demitir voluntariamente. Mas, isso não importa, e sim o que acontece hoje com Vicki.

Hoje a estão processando nos EUA, acusada de espiã russa. Nada mais absurdo. Esse teatro foi montado pelos serviços de inteligência estadunidense, a CIA e o FBI, para calar uma das vozes mais críticas da imprensa escrita de Nova Iorque. Essa montagem reciclada da guerra fria e dos tribunais macartistas está sendo armado bem diante do nariz do “simpático” e "democrático" Barack Obama.

Suspeito eu que depois de fazerem toda uma campanha de desqualificação em público, lhe pedirão desculpas em privado e a mandarão para fora dos Estados Unidos. Isso deve começar hoje com a audiência pública na qual serão lidas as acusações e mostradas as “provas”. Advirto que nenhuma prova tem peso suficiente e tudo se reduz a suposições. Não há nada mais distante para Vicki que a Rússia pós-soviética, assim como há 20 anos também era distante para Vicki a Rússia soviética. Ou seja, não há nada com os russos.

Os jornalistas peruanos – e latino-americanos - deveriam demonstrar indignação por esse macabro espetáculo e fazer manifestações em favor da dignidade da nossa colega. Parece que muitos ainda tem dúvidas e acreditam que o FBI não se equivoca e que, como Deus, está sempre fazendo o que é certo. Será por isso que ninguém por aqui se manifestou contra a captura de Vicki e de seu esposo Juancho. A um acusado se presume inocência, assim ensina o jornalismo. Por isso, não podemos condenar, com nosso silêncio cúmplice, a uma vítima do imperialismo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Quando o “menor” não é meu

Por Elaine Tavares – jornalista


A cidade de Florianópolis, no sul do Brasil, está estarrecida diante de algumas informações que chegam aos correios eletrônicos como se fosse um rastilho de pólvora. Uma garota de 13 anos, de um colégio de gente endinheirada, teria sido estuprada por colegas, praticamente da mesma idade. Um dos garotos seria filho de conhecido empresário, outro de um delegado. Uma carta de mães indignadas – que o colégio nega que sejam de lá – descreve a atrocidade com riqueza de detalhes. Nenhuma informação saíra na imprensa porque, dizem as mães, um dos estupradores é filho do dono de uma rede de comunicação. O jornal Diário Catarinense deu uma nota no dia 30 de junho, lacônica, divulgando o ocorrido, mas, alertando para o fato de que como todos são menores de idade o inquérito segue sob segredo de justiça. Nenhum nome, nenhuma informação a mais.

Muito bem. Corretíssima nota do DC. Quando são menores os envolvidos em crimes, não se divulgam nomes, não se publicam fotos. E mesmo se são maiores e não há flagrante, não se poderia divulgar porque haveria apenas uma presunção de crime. Os nomes só poderiam ser divulgados depois de as pessoas terem sido julgadas. E as fotos, só publicadas com a autorização do vivente. Mas, claro, isso só vale para os que conhecem a lei, no caso, os ricos, que podem ter bons advogados. Com os pobres, tudo é liberado.

Seria bom que o DC agisse assim em todos os casos que envolvessem adolescentes infratores. Seria bom que os jornais preservassem o direito dos menores, impedindo assim que eles ficassem marcados para o resto da vida por conta de alguma infração cometida nesta idade “tão problemática”.

Mas ocorre que este debate está eivado de um recorte de classe. Quando são os pobres que cometem crimes, o que está implícito nos informes que nos chegam via TV ou jornal é de só poderiam acabar assim. “Não tem educação, não tem chances, estão fadados ao fracasso”. Como se isso fosse coisa natural. E não é assim. O prefeito Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, chegou ao absurdo de chamar as mulheres pobres e negras que vivem nos morros de “fábricas de marginal” porque, afinal, é de seus ventres que saem os filhos da pobreza.

Mas e quando quem comete um crime é um rico? Como a coisa anda? A primeira tese que se levanta é que a criatura deve ter algum problema mental. Vide o caso da loira que matou os pais, num fato que ficou semanas no ar. Pois é assim. Já se é um pé rapado quem mata os pais, aí está certo. É quase óbvio, é “da sua natureza”. Um juiz que rouba o INSS é protegido pela polícia federal. Jovens que matam um homossexual não tem seus nomes revelados para não terem seu futuro estragado. Não são menores, só ricos. Os canalhas que falsificam licenças ambientais, porque são empresários freqüentados por artistas e governadores são escoltados por agentes públicos, sem autorização para fotos. Depois, quando são soltos seguem suas vidas entre champanhes e festas. Nada os marca para sempre. Nada.

Agora este caso da garota violentada é mais um para esta triste estatística. Ficará em segredo de justiça para não manchar a vida dos garotos. Certamente haverão de se defender teses sobre graves problemas que teriam estes adolescentes, porque só isso poderia explicar tamanha infâmia, tamanha crueldade. Não é da natureza de jovens bem-nascidos cometerem atrocidades. Vamos lembrar os que queimaram o índio Galdino, hoje vivendo muito bem, em cargos públicos até. “Foi uma fatalidade”.

Ah! A hipocrisia burguesa! Todos os dias, em cada lugar deste mundão de deus os ricos estão violentando as gentes. De todas as formas. Parece ser da natureza de quem domina permanecer na impunidade. Por isso eles criam exércitos, milícias, leis, justiça. Porque estas coisas existem para eles, para proteção deles. É por isso que os gritos de “justiça, justiça” dos que estão à margem, fora do centro de poder, se perdem no vazio. A justiça é uma invenção dos poderosos para sua própria proteção. Só a eles serve. Vez em quando se dá uma vitória a um pobre para que o povo tenha a ilusão de que é possível confiar no sistema. Bobagem! Lei não é sinônimo de justiça.

Dou um exemplo de uma comunidade indígena dos Andes, por exemplo. Lá, se alguém viola o código da comunidade, é punido exemplarmente. O coletivo não pode ser maculado pela ação individual. A comunidade depende da harmonia. Se um homem mata outro ele não vai preso. Ele é obrigado a sustentar por toda a vida a sua família e a do outro que ele matou, vivendo essa vergonha para sempre. Porque um homem morto é um braço a menos na construção do coletivo. São regras simples, de comunidades simples.

No mundo capitalista a justiça é individual. Um homem morto é só um homem morto num universo de milhares de braços sobrantes. Uma peça, que é trocada, sem dor. Não há uma quebra no equilíbrio, porque é cada um por si. Por isso às famílias agredidas só resta chorar.

É o que ocorre agora, em Florianópolis, neste triste caso. A família da garota violada buscará justiça. Achará? O que devolve uma inocência perdida? O que recupera toda essa dor de nunca mais poder confiar em alguém? Como se retoma o equilíbrio numa sociedade medida pelo individualismo e pelo consumo? Quem se importa com essa dor? Haverá uma indignação momentânea e o caso cairá no esquecimento, como sempre é numa sociedade eternamente a espera do próximo espetáculo? Num estado dominado por um monopólio de comunicação, qual será a repercussão disso tudo?

Este é o estado da coisa. E deve ser pensado no seu todo. Os finos salões da burguesia também são capazes das coisas mais sórdidas. E não é por problema mental não. Só que aos poderosos tudo parece permitido. Até quando? Até que as gentes mudem este panorama, construindo uma outra sociedade que não esta, dominada pelo dinheiro de alguns. Porque hoje, aqui, neste modo de organizar a vida, a burguesia, por exemplo, pede histericamente a redução da idade penal para conter a violência cada dia maior. Mas, não é para todos. Isso vale apenas para quando o “menor” não é seu.

Venha celebrar com a gente!!!

Sábado, dia 3, será dia de viver e respirar jornalismo de verdade. Coisa boa isso, num tempo em que o jornalismo é pura gosma. Mas, em Florianópolis tem gente que resiste, e insiste... Então, no sábado pela manhã, na sede do Centro Cultural Baiacu de Alguém, em Santo Antonio de Lisboa, o portal Desacato vai lançar a cara nova. Este portal, que existe a quatro anos, divulgando as lutas sociais na América Latina, está se renovando e para isso faz festa. Na festa, o querido jornalista Celso Martins será homenageado. O motivo é o excelente trabalho que ele vem desenvolvendo como repórter e analista nos seus blogs “Honduras é logo ali” e “Sambaqui na rede”. Celso foi um dos primeiros jornalistas brasileiros a denunciar o golpe em Honduras e tem demonstrado densa vitalidade no seu trabalho textual e fotográfico com relação aos fatos que envolvem a vida da cidade de Florianópolis e da América Latina.

Então, nós te convidamos para esta homenagem, porque as pessoas precisam ser lembradas quando vivas, cheias de vigor e no auge da maturidade profissional. Assim como o competentíssimo Celso Martins.

Neste encontro de jornalistas da boa cepa, podem chegar todas as gentes. A partir das 10h o rebuliço começa, com o lançamento do novo Portal. Depois, haverá vídeo e música, seguidos de um delicioso almoço. No horário das 13h, haverá a projeção do excelente filme, de produção local, “De um golpe, Honduras”, roteirizado por Raul Fitipaldi (um dos coordenadores do Desacato) e dirigido pela brilhante dupla Pepe dos Santos e Aline Razzera Maciel.

É sábado, em Santo Antônio, com esse dia lindo de sol... Não perca. Apenas 10 reais.

Esperamos todo mundo lá!!!! Porque é preciso celebrar a vida...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Prenda minha

Sabe cantar, esse Venturini...

http://www.youtube.com/watch?v=CbatqnoR3vQ

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Um ano de fantasmas e resistência em Honduras

Por Raúl Fitipaldi

A história virou sobre os calcanhares e numa brincadeira da sorte, Honduras que vinha integrando-se à sua região, a um pequeno progresso, às primeiras brisas da mudança mínima, viu-se obrigada a ingressar nas cavernas da ditadura. Foi tão anacrônico, tão grotesco o Golpe de Estado, que a história dirá, sem dúvida, que propiciou no médio prazo mudanças maiores, mais profundas, não mais encabeçadas por um homem bom, senão por um povo bom.

Não deve existir nenhum latino-americano consciente que afirme que sua vida política foi indiferente com Mesoamérica desde o 28 de junho de 2009. Os ianques mais uma vez nos enganaram, nos mentiram, abusaram de nós. De novo as oligarquias ordinárias, apátridas, usurárias, serviram-se das armas que compra o povo para lhe açoitar. Castigaram pobres, indígenas, mestiços, trabalhadores, estudantes, mataram mulheres indefesas. A receita da humilhação, a mentira, a norte e a impunidade se engendrou no laboratório bananeiro dos gringos. E nos pegou de calças na mão, literalmente incrédulos, sem reação. Nos pegou dormindo no século XXI, com menos pesadelos que no século XX, com algumas esperanças em nosso cofre de sonhos. Só mal-dormindo pela Colômbia, o Panamá, Peru e alguma que outra úlcera do passado. Acordaram-nos de um tiro, um tiro em Honduras. De golpe emergiu um desses paisinhos que nunca lembramos em primeiro lugar quando fazemos a longa lista da Nossa História da Pátria Grande e Libertária. Apareceu-se e ficou em nosso colo, até que se liberte para sempre; fixou-se em nossos olhos e nos ouvidos, juntou-se Honduras à solidária labor da liberdade. Ressuscitou Francisco Morazán.

Os fantasmas dos nacionalistas e liberais mais reacionários começaram a menear-se no labirinto da história. O roto neroniano de Micheletti, o cinismo de Vázquez Velázquez, a ortopedia intelectual de Ramón Custodio López, a batina taciturna do fascista Andrés Rodríguez Madariaga, regaram-se pela internet. As fotos destes repressores começam a flutuar num terreno cenagoso, em páginas dissolutas dos jornais pró-ianques. A acéquia do atraso começou a cuspir mentiras até fartar-se de enganações e inventar uma eleição fraudulenta e sem representatividade que deu luz internacional ao tal Porfírio Lobo Sosa. Que acontecerá com Honduras? Será Honduras início do temporal para a região? Os latino-americanos não queremos mais coturnos, mais fome da que temos, mais leilão da pátria, mais morte, mais desaparição.

E então vem aí o grito de Honduras Resiste! Nas abas do chapéu do líder, nas respostas dos homens de bem, na Venezuela de pé, no Equador sem bases ianques, na Bolívia originária, na Cuba revolucioniária, na Nicarágua de Sandino, no Brasil, no Uruguai, na Argentina, na terra guarani... na Pátria toda começa a mover-se a idéia, a palavra, a multiplicação do grito, Honduras Resiste! Abraçamo-nos aos jornalistas hondurenhos e o eco ressoa da Cordilheira até as profundezas do Amazonas, do Prata até as margens do Rio Bravo, Honduras Resiste! É hoje, quando o fantasma se proclama duvidosamente vitorioso, que as pessoas se juntam à procura da mudança. Falam para os ianques agressores que os anônimos, os negros, os índios, os artesãos, os operários brancos e mestiços decidiram que os 28 de Junho se festejará a luta pela liberdade. Essa resistência, usando as palavras do Che, a formam os majoritários, é uma onda que não pára, e nessa onda vai se afogar mais cedo do que tarde a última tentativa ditatorial do Império. Surgirão os desaparecidos dentre as pedras e serão o edifício da libertação de todos.

Passou-se um ano, mas, Honduras não passou, Honduras se tornou nossa para sempre.

28 de junho de 2010.

Aos leitores e colaboradores do desacato.info


R$10,00 sem bebida

Prezados amigos,

Depois de quatro anos de expansão continua do nosso portal chegou o momento de transformá-lo em um instrumento de comunicação mais ágil, renovado e eficaz, tanto para o leitor como para nossos valiosos cronistas. As modificações que estamos fazendo abrangem nosso aspecto, nossa imagem e as ferramentas imprescindíveis para um relacionamento mais equilibrado com nossos leitores. O novo desacato.info terá uma diagramação mais acessível e mais prática para localizar a temática. Também contará com um espaço para a opinião dos nosssos leitores depois de cada artigo ou crônica, assim como de um contador de leituras realizadas. Isto permitirá ao conselho editor medir diariamente a aceitação, o aporte ou a dissidência dos leitores frente as posições vertidas por nossos colaboradores, para ir conformando um perfil mais amplo, mais diverso e mais preciso do nosso portal. Isto é pensado também como uma forma de intercâmbio e relacionamento entre cada colaborador e seus leitores.

Devemos enfatizar que a amplidão não significa diluir ou rebaixar alguns dos pressupostos básicos do nosso projeto de comunicação. Desacato é e seguirá sendo uma proposta anticapitalista em todos os aspectos. Portanto, não é um espaço aberto a opiniões dos exploradores ou seus serviçais. Eles já tem os grandes meios de comunicação. Nossa voz é e seguirá sendo a da classe que vive ou pretende viver do trabalho, sem diferenciar se se trata de trabalho físico ou intelectual. Ou seja, uma voz para todos aqueles que o capital explora, margina ou empobrece.

Agradecemos vossa compreensão neste período de transformação do portal onde manteremos o sítio com limitações. A data de inauguração do Nvo Desacato será o próximo 3 de julho. Comprometemo-nos para que o portal renovado continue desacatando com a palavra, a imagem e as idéias, junto com todos aqueles que lutam por extinguir o sistema.

Conselho Editor

26 de junho de 2010

Desacato: Integrante da Rede Popular Catarinense de Comunicação

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Valor de uso, quê?...

Elaine Tavares

Ali estava eu, enredada nos livros, tentando entender a diferença entre valor de uso e valor de troca. Marx, Engels, Ludovico Silva, Lenin, Rosa... A cabeça fervilhando em idéias. Então, do nada, ela foi escalando pelas minhas pernas. Nenhum respeito para com aqueles velhos parceiros que tentavam melhorar a minha compreensão sobre o mundo capitalista, predador.

Sem medida, ela foi mordendo meus dedos, arranhando o casaco, fincando as unhas na minha cara. Qualquer tentativa de deixá-la quietinha no colo era logo rechaçada com um movimento brusco, um pulo, uma desenfreada alegria. Era a gata que me tem, a Bartolina Sisa, bebezinho de pouco mais de dois meses. Pedaço de vida insuportavelmente alegre. Criança ainda, ela só quer brincar.

Então eu fiquei a pensar sobre o valor de um gato. Será valor de uso ou de troca? Terá alguma utilidade? “Esses bichos não servem pra nada”, me diz um amigo. Logo, não tem valor? Ela, alheia às elucubrações filosóficas que giravam na minha cabeça, só me olhava com seus olhos graúdos e me convidava à brincadeira. Nada de Lenin, nem de Marx. Só aquele saltitar inconseqüente, infantil, alucinado. Corre aqui e ali, esconde-se sob a cadeira, pula no colo, sobe nos ombros, salta pela mesa, come os óculos, mastiga o cabelo e sai correndo. Mais um minuto e volta, e tudo de novo.

Impossível seguir estudando. Alguém ali exigia um tempo. Queria essa delícia do nada fazer, da risada cristalina, da inefável doçura, do tempo parado na alegria. As patinhas vez ou outra se transformando em afiadas garras ao estilo Wolverine. E esse jeito gato de ser, tão majestoso, tão cheio de si, tão imponderável.

Assim, em nome da Bartolina, dei um tempo ao velho Marx. Gato não tem valor, nem de uso, nem de troca. Gato é isso, pura graça. E graça no sentido teológico, como momento de absoluto encontro com o sagrado.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Sinos de Santa Maria

Míriam Santini de Abreu


No final de semana vi um filme de 1945, “Os Sinos de Santa Maria”. As resenhas sobre ele explicam: “Bing Crosby interpreta o papel do Padre O'Malley, que é enviado para recuperar a falida escola paroquial. Ele logo se desentende com Irmã Benedict (Ingrid Bergman) sobre a educação das crianças. Além da deliciosa batalha de inteligência dos dois, há outro problema. Um ganancioso empresário quer demolir o Santa Maria e só um milagre pode salvá-lo agora”.

O filme é especialmente tocante ao mostrar o relacionamento entre o Padre O'Malley e a Irmã Benedict. E tocante porque é um relacionamento absolutamente amoroso! A forma como se dá a interpretação de ambos é rara de se ver hoje em dia. O jeito de olhar, de calar, de sorrir, de se surpreender... A cena final é tão absolutamente bela que voltei ao trecho quatro vezes. Nela, O'Malley revela a Benedict o verdadeiro motivo pelo qual pediu que ela fosse transferida do Santa Maria para outro lugar. Poderia ser apenas o gesto de respeito do Pároco pela Irmã. Mas a gente vê nele o gesto de amor de um homem que compreendeu profundamente uma mulher.

Depois do filme reli a entrevista que a jornalista italiana Oriana Fallaci fez com Bergman e que está no livro “Os Antipáticos”. Nela, Bergman diz que a felicidade é feita de boa saúde e má memória, frase que atribuiu ao músico, teólogo e médico alemão Albert Schweitzer.

Toda vez que vejo Bergman em um filme, assim como Audrey Hepburn, fico enternecida, esperando que elas tenham sido felizes.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O ser humano sufocado em sua vontade de ser

Míriam Santini de Abreu


Ontem, a caminho do TRT, na rua Esteves Júnior, eu parei para ouvir um homem que se colocou à minha frente. Ele estava vestido com calça de tergal, camisa branca e se movimentava com o auxílio de duas muletas. Contou, com jeito de quem estava com lágrimas prontas a rolar dos olhos, que estava na perícia e o INSS ainda não havia liberado seu pagamento do mês. Precisava de uma cesta básica e de um bujão de gás para levar para casa.

Eu não tinha dinheiro, mas me lembrei de um cheque meio amassado no fundo da bolsa e o preenchi com o valor de um bujão. O homem, pai de dois filhos, começou a chorar, falando de seu constrangimento por estar a pedir na rua, de sua experiência de estar se sentindo humilhado. Quis beijar a minha mão, gesto que repeli. Sentei-me ao seu lado, nos pegamos as mãos e eu afirmei que tudo ficaria bem, que tudo iria melhor.

Falei sem fé, porque as coisas não mudam por ato de nossa vontade. Não no mundo capitalista. E por assim pensar, logo me levantei para não me sentir ainda mais hipócrita e para não chorar ali com ele, cada um com a sua miséria.

Disse a ele para descontar o cheque no banco, mas ele respondeu que preferiria pagar as compras direto no mercado.

- Mas no mercado vão pedir o meu doc... – avisei. Antes mesmo que eu terminasse a frase, ele exclamou, puxando uma pilha de papéis do bolso:

- Eu tenho, eu tenho os meus documentos!

Lembrei-me então de uma notícia em um jornal local, sobre duas mortes na Via Expressa, que liga a ilha ao continente. Um dos mortos foi um indígena que trabalhava como servente. Ele atravessava a via para comprar alimentos para o jantar dos filhos. Minutos depois a esposa o viu coberto por um plástico. Segundo a notícia, o homem não sabia ler nem tinha carteira de identidade.

Aquele gesto do homem com que eu falava, de tirar os documentos do bolso, e justamente ali, na frente do Tribunal do Trabalho, foi de uma tristeza insuportável.

Pena é que, como disse José Saramago, Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele crêem. Mas o fato é que, nesse mundo, ser ateu também não é para qualquer um.

Recordo de um texto do jornalista Marcos Faerman, no Manifesto de libertação da palavra:

A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Esta linguagem não é uma fuga (tese dos populistas chulos, contra os revolucionários chucros). É o único caminho para nos levar à débil captação de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.”

Convite para lançamento de livro

PORQUE "A MORTE NUNCA DORME"...*

Li Travassos

Partiu para o outro lado, neste dia 18 de junho de 2010, a maravilhosa pessoa chamada José Saramago, que foi emprestada à humanidade por 87 anos. Doente já há algum tempo, magro demais, Saramago continuava escrevendo, com a pressa dos que sabem que não têm muito tempo. Para quem não aproveitou até agora, ainda dá para fazê-lo: há um tanto de livros publicados deste escritor incomparável, que você poderá ler, e talvez repensar um punhado de coisas. José Saramago foi o homem heterossexual mais honestamente feminista que eu já li. Defensor da dignidade das profissionais do sexo, da dignidade e da valorização do trabalhador braçal, da dignidade do ser humano. Foi o coração mais generoso que já pude conhecer através de uma obra literariamente impecável, digna, de fato, do Nobel que recebeu. Este homem, que não acreditava em Deus, que conhecia profundamente o lado mais sórdido da alma humana, que descrevia a podridão do homem com detalhes insuportáveis, era, contudo, um crédulo na capacidade de mudança deste mesmo ser humano. Sua obra, cheia de contrastes, vai da crítica a construção, do horror a esperança, do humor sutil à tragédia mais crua. Ateu, Saramago questiona Deus como só os grandes santos tiveram coragem de fazer. Sinto hoje uma dor profunda, que tento diminuir com o conhecimento de que ele estava sofrendo muito com sua doença, e com a crença de que nos deixou, através de sua obra, o que tinha que nos deixar. Quem puder aproveitar que o faça. A quem não puder, meus sinceros sentimentos...

* Frase de Saramago em As intermitências da morte, da Companhia das Letras.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Luzes de Desterro

Sempre Floripa:

http://www.youtube.com/PobresyNojentas?gl=BR&hl=pt

Estudantes de Porto Rico em luta pela universidade pública

Por Elaine Tavares - jornalista

Nestes tempos de Copa do Mundo, quando o planeta inteiro vira uma bola e as emissoras de televisão dão destaque aos mínimos fazeres dos craques do futebol, um pequeno país do Caribe, a menor das ilhas das Antilhas Maiores, vive um movimento de luta que já dura quase dois meses, mas permanece no silêncio da mídia. E não é para menos, Porto Rico é um pedaço de terra agregado dos Estados Unidos, um país dominado e subjugado, sem direito a gritar por liberdade, apesar de oficialmente chamar-se “estado livre associado”. Conquistado pela Espanha em 1493, o pequeno país foi ocupado militarmente pelos Estados Unidos em 1898, trocando de dono desde então. Porto Rico foi colônia até 1952, quando passou a ser considerado um estado autônomo, tendo direito inclusive a eleição de seus dirigentes. Essa “concessão” por parte dos Estados Unidos não aconteceu por bondade. Ela foi alavancada pela luta do povo que se levantou em rebelião no chamado “grito de Jayuya”. Por conta desta luta veio autonomia, mas ela existe só na aparência, uma vez que a moeda, a defesa, e as políticas de relações exteriores e comerciais de Porto Rico são totalmente comandadas pelos Estados Unidos.

A luta da gente de Porto Rico por independência nunca cessou. Vem desde os Tainos, povos originários que foram dizimados pelos espanhóis, e segue até hoje. Muitas foram as revoltas e revoluções, todas abafadas militarmente pela metrópole colonial. Os Estados Unidos realizaram vários plebiscitos para que a população escolhesse entre ser livre, permanecer como estado autônomo ou se integrar à nação estadunidense, sendo o último deles no ano de 1998. A maioria decidiu por permanecer como está, mas este resultado é contestado pelas gentes que lutam por libertação. “É preciso que se compreenda como se forma essa maioria, o poder financeiro que está por trás, a despolitização causada pela própria condição de colônia”. A velha Borinquen (nome originário que significa ilha do senhor valente), de 176 quilômetros de comprimento por 56 de largura, que foi uma das primeiras ilhas vistas por Cristóvão Colombo, volta e meia assoma em meio ao domínio estadunidense e as gentes se lembram quem são. Então ressurgem as lutas de libertação.

Os estudantes

Em todo o mundo os estudantes são quase sempre a ponta de lança nas revoltas e revoluções. Por estarem num ambiente de conhecimento e por possuírem a deliciosa rebeldia juvenil, eles abrem janelas nos muros escuros da opressão e saltam por elas, com suas bandeiras e utopias. Assim tem sido em Porto Rico desde que o país foi entregue aos Estados Unidos como despojo de guerra. Ocupado militarmente, Porto Rico precisou se levantar em muitas batalhas para defender sua cultura e sua história. E, quando os Estados Unidos tentaram imputar uma nova língua ao povo local em 1902, os estudantes disseram não. E resistiram no que ficou conhecido como “guerra da língua”. Até hoje o país mantém o espanhol como língua oficial por se entender mais para a América Latina do que para o norte. Hoje, são os estudantes universitários, outra vez, que escrevem mais uma página da história do pequeno país, numa greve memorável na qual reivindicam a autonomia para a universidade e lutam contra a privatização do ensino público.

No dia 21 de abril de 2010 os estudantes da Universidade de Porto Rico iniciaram uma greve contra uma nova lei que prepara a privatização da instituição, privando a universidade de recursos, assim como também a saúde, a cultura e a assistência social. Em pouco tempo, o que era só um movimento estudantil passou a ser uma luta nacional. Como se um grande dique de sonhos e esperanças estivesse se rompido as gentes começaram a identificar na luta particularista dos estudantes um projeto de nação. No grito contra a privatização e pela autonomia da universidade, também os estudantes foram percebendo que a questão era muito mais profunda e assomou, de novo, o desejo de liberdade popular.

A lei que levou os estudantes às ruas acabou por provocar o congelamento de salários dos trabalhadores públicos e também eles, mais de 15 mil, foram para as ruas defender seus direitos e os serviços públicos em geral. Como a população mais pobre depende dos serviços públicos no que diz respeito à educação, saúde e assistência social, o apoio às lutas dos trabalhadores e estudantes foi imediato. Já em 2005 os estudantes universitários tinham realizado greves, uma vez que o processo de privatização vem se fazendo devagar, como em quase toda América Latina, mas, este ano, as medidas do governo, reduzindo o orçamento e aumentando o valor das matrículas foram decisivas para outra explosão que, com a parceria dos trabalhadores, se transformou numa tormenta.

Já se vão quase dois meses e a luta segue firme em Porto Rico. E, como sempre acontece, a repressão tem sido violenta. Os estudantes fizeram greve de ocupação e o governo colocou a universidade sob sítio impedindo a entrada de água e alimentos. Mas, o povo, solidário, tem encontrado maneiras de fazer chegar a comida e a água. A medida de força levou o país a se levantar e sindicalistas, artistas, trabalhadores de todos os tipos realizam marchas, atos políticos, colocam o país em efervescência.

No mês de maio o governo ameaçou suspender o ano acadêmico e declarou que a UPR iria perder sua condição de universidade pública. Alegava que a greve era abusiva, ilegal e, por isso, endurecia na repressão e na criminalização dos estudantes. Como se pode notar, tudo muito igual, receita da cartilha neoliberal e entreguista bem comum aos governantes desta nossa América Latina. Mas, os estudantes não se intimidaram. Exigiam negociações e mantinham a greve. A mobilização popular tomava dimensões gigantescas e o governo teve de recuar, abrindo negociações. De qualquer forma há uma guerra midiática em curso. Na televisão porto-riquenha o governo e entidades empresariais gastam fortunas tentando convencer a população de que a greve na universidade é ruim para o país. Por outro lado, os estudantes, através da “Rádio Huelga” (http://radiohuelga.com/wordpress) buscam o diálogo com o povo, mostrando que quando as gentes estão unidas, podem vencer, como já aconteceu no final dos anos 90, quando mobilizações como essa tiraram as tropas estadunidenses da região de Vieques.

Hoje, na metade do mês de junho, a luta no campus de Río Piedras continua. Os estudantes que seguem acampados na UPR realizam atos, fazem formaturas simbólicas, criam hortas comunitárias, fazem limpeza, promovem teatro, chamam a população para visitar o campus, para que possa ver como é possível existir uma universidade autossustentada, autônoma, e livre para pensar a realidade nacional. As negociações seguem de maneira lenta, a universidade continua sitiada, a repressão recrudesce.

Os estudantes estão esperançosos com um novo mediador do conflito, o ex-juiz Pedro Lopez Oliver, que parece estar conseguido fazer avançar as conversas e pode até ser que nos próximos dias as coisas se resolvam, com o governo voltando atrás no aumento das taxas de matrícula e na retirada de orçamento da universidade e garantindo que nada será privatizado. Os grevistas também querem garantias de não punição uma vez que há ameaças de expulsão das lideranças. Só assim o movimento encerra.

Veja a fala dos estudantes numa mensagem ao país!

http://www.youtube.com/watch?v=ED03HiVzRd0

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Polícia Militar invade a UDESC

Veja no endereço abaixo as imagens da invasão da UDESC pela PM.

http://www.youtube.com/watch?v=nx8agy19YrE

Leite de Rosas




Míriam Santini de Abreu

Sempre me impressiona o modo pelo qual os cheiros agem como gatilhos que despertam nossas emoções mais remotas ou recentes.

O cheiro da brasa apagada de fogão a lenha sempre me leva para Caxias nas noites frias em que, pequenos, eu e meus irmãos assávamos pinhões na chapa.

Dia desses tive que ultrapassar com urgência um homem que caminhava na minha frente na rua. Ele se espantou com o meu ímpeto e eu expliquei:

- Me desculpe, mas o seu desodorante traz lembranças que fazem a minha alma arder.

Ele apenas sorriu.

No domingo, num impulso nostálgico, comprei um desodorante Leite de Rosas. Isso porque me lembrei da tia Zulmira, irmã de minha mãe e minha madrinha. Ela faleceu em 1994, depois de uma doença dolorosa. Sempre que vejo o Leite de Rosas, com aquela embalagem inconfundível, recordo dela. Tia Zulma usava o produto, e aquele cheio sempre me leva de volta a outro tempo, outro espaço, outros desejos, tudo embalado por um certo jeito de ser de minha tia, um jeito de menina travessa.

O Leite de Rosas completou 80 anos. Eu estou para completar metade disso. Assustador.

Jornalistas fazem ato pelo diploma

Será neste dia 17 de junho de 2010, às 14h, na Esquina Democrática.

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e a Regional Sul da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecos) chamam os colegas profissionais, estudantes e professores de Jornalismo, a representação das mantenedoras dos cursos de jornalismo e a sociedade catarinense para um ato de desagravo à decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que há um ano, em 17 de junho de 2009, decidiu que a formação superior não pode ser exigida dos jornalistas.

Mais do que um erro histórico, a decisão do STF permite o ingresso na profissão a pessoas sem qualquer noção de jornalismo, da sociedade e, especialmente, da ética profissional.

A manifestação pública de todos nós vai além do repúdio a Gilmar Mendes, relator do voto que, pela primeira vez na história de um País, entendeu que não é necessário estudar para o exercício de uma profissão complexa e importante.

O ministro Gilmar Mendes será esquecido com a poeira do tempo e os jornalistas, os estudantes, os cursos e as instituições mantenedoras e a sociedade vencerão esta batalha, trazendo de volta, através do Congresso Nacional, a necessidade da formação para o acesso ao registro profissional.
Em 17 de junho, junte-se a nós. Diga sim à formação dos jornalistas.

Ato em Florianópolis - Dia 17 de junho, das 14h às 16h, na Esquina Democrática, no Calçadão da Felipe Schmidt