domingo, 27 de abril de 2014

Terra aprisionada: quilombolas proibidos de plantar fazem Ato em São Roque, no Sul de SC


Míriam Santini de Abreu, jornalista
Fotos: Marcela Cornelli 


A Comunidade Quilombola São Roque realizou neste sábado, dia 26 de abril, um ato simbólico de ocupação de uma terra que era para ser dela, mas na qual ela não pode trabalhar. Os moradores, que vivem na localidade de Pedra Branca, em Praia Grande, sul do estado, roçaram o terreno e neste domingo semeiam hortaliças nele. Os dois gestos são uma resposta à pressão do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), que assinou Termo de Compromisso com a comunidade, mas voltou atrás no ano passado. Com o impasse, os moradores não podem plantar ali para se alimentar, sob pena de cometer crime ambiental.

Cerca de 36% do território quilombola, já delimitado pelo Incra, está sobreposto ao dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral. Por isso é preciso regulamentar o uso e o manejo da terra e dos recursos naturais. É isso que as famílias tentam fazer desde a década passada. Já são 18 Termos de Compromisso, um interminável vai-e-vem, e nenhuma resposta concreta para garantir a subsistência das famílias. É um processo de dar esperança para depois tirá-la. Essa dificuldade levou ao outro gesto feito neste sábado, o de devolução de sementes ao governo.

Há três anos a comunidade, através de um edital do governo federal, recebeu 200 sacas de sementes de milho e feijão. Mas a validade venceu, porque as famílias foram proibidas de plantar. Os grãos sem aproveitamento, deixados ontem na frente do Posto de Informações e Controle do ICMBio, também simbolizam a resistência às tentativas de expulsar as famílias do lugar.

A situação parecia se resolver no início de 2013, quando a presidência do ICMBio assinou mais um Termo de Compromisso com a comunidade. Mas, em 20 de maio, o presidente do órgão suspendeu o processo e alegou não reconhecer a sua própria assinatura no documento. O fato levou o Ministério Público Federal a abrir uma Ação de Execução (nº 5009890-88.2013.404.7204) contra o ICMBio para fazer valer o documento. Mas o Instituto mantém sua posição e continua a criminalizar os moradores. A expectativa agora é pelo julgamento do caso, que está na subseção da Justiça Federal em Criciúma.



Área mínima

Representantes de quatro comunidades remanescentes de quilombos e lideranças do movimento popular e sindical apoiaram ontem a luta das cerca de 30 famílias que vivem na Pedra Branca, em São Roque. Depois de um almoço comunitário, todos foram até a área pleiteada no Termo de Compromisso descumprido pelo ICMBio, de 41,5 hectares. Isso representa 0,0001% da área total dos dois parques e permitiria o plantio e a garantia de subsistência. Mesmo assim, não podem usá-la.

No Ato feito depois da roça do terreno, os moradores esclareceram que ali, muitos anos atrás, já se plantava para subsistência. A mata com o tempo se regenerou até o chamado estágio médio, e a lei diz que, sendo até esse estágio, as comunidades tradicionais assim reconhecidas podem fazer o manejo. Era isso que o Termo, aceito e agora negado pelo ICMBio, garantia.

Maria de Lourdes Mina, da coordenação estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), que desde os anos 2000 atua pelos direitos da comunidade, lembrou que há mais de um século, por sua forma de lidar com a natureza, a comunidade de São Roque é que preserva aquele lugar. Os dois parques só foram criados depois, a partir dos anos 1970. “Essa área que foi definida para uso dos quilombolas no Termo de Compromisso só se regenerou porque a comunidade respeitou a lei, e agora os seus direitos não são reconhecidos”, disse Mina.



Sem direito de plantar

A comunidade está fazendo um Abaixo-Assinado contra a posição intransigente do ICMBio, por entender que o rigor usado contra os quilombolas não se aplica aos grandes e médios proprietários da região e nem, de forma generalizada, aos de Santa Catarina e do país, caracterizando racismo ambiental. Já foi sugerido que as famílias saiam dos parques, e elas são constantemente acusadas de prejudicar a conservação da Mata Atlântica. Os estudos antropológicos feitos na área e os relatos dos moradores revelam que os quilombolas são alvos de constrangimentos morais, físicos e econômicos. A avaliação de Maria de Lourdes Mina é que nunca houve tantos ataques aos quilombolas como agora, mas também é certo: nunca eles haviam se organizado tanto para defender seus direitos.

No caso de São Roque, a ocupação tem cerca de 180 anos, ligada à economia escravagista na região entre os Campos de Cima da Serra e a planície costeira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No interior, onde estão as escarpas, vales e cânions da Serra Geral, praticava-se a pecuária extensiva, e na planície irrigada pelos rios que descem a serra se faziam, como hoje, os cultivos.

O relatório antropológico feito em 2006 por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em convênio com o Incra, é que caracterizou a identidade, historicidade e territorialidade dos quilombolas com a terra onde vivem. E ela é linda. Uma grande pedra branca se destaca entre os rochões vizinhos, com grandes porções de floresta e paisagens que atraem visitantes o ano todo. Mas os quilombolas enfrentam interesses econômicos e setores do movimento ambientalista, dentro e fora do governo, que querem gerir os parques nacionais e defendem a preservação da natureza sem qualquer presença humana, mesmo que o próprio governo federal tenha garantido a titulação das terras aos remanescentes das comunidades dos quilombos.

Apesar de estarem ali desde antes da criação dos parques e de terem uma relação ancestral com a terra, eles precisam de auxílio para garantir a subsistência. As cerca de 30 famílias que vivem hoje na localidade têm moradias precárias, algumas sem energia elétrica e com dificuldade de acesso. Recebem multas se plantarem, e até mesmo se deixarem cachorros entrarem no parque. Um morador foi multado em 2 mil reais por esse motivo. Para sobreviver, uma das alternativas é ser diarista em terras alheias.

Marcio da Silva Oliveira, 25 anos, cuja família mora na comunidade, teve que parar de estudar na sétima série e hoje trabalha no plantio de fumo e bananeiras em São João do Sul. “Eu quero plantar feijão, milho, verdura, esse tipo de coisa, mas se tivesse terra só da gente seria bem melhor”, diz o jovem.

Genito da Silva, 63 anos, que mora na Praia Grande, para onde se mudou depois que uma enchente na região arrasou a casa de seu falecido pai, atesta: “Aqui é o seguinte: se planta um quilo de feijão, colhe um saco de feijão, 60 quilos. Aipim e batata, nem se fala. A terra é boa. Aqui, trabalhou, tem o que comer, não passa mais fome”.

Enquanto aguarda a decisão da Justiça Federal em Criciúma, o povo de São Roque vai lutar, porque não pode mais viver da doação de cestas de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), se tem onde plantar. Vilson Omar da Silva, de 56 anos, em um discurso emocionado, disse que os quilombolas estão impedidos de manter sua forma de vida e sua cultura naquelas terras, mas o território é deles, de muitos anos. E não poder plantar é como estar exilado da terra sob os próprios pés. O Ato deste final de semana mostra que resistir significa nunca mais ter que destruir sementes porque a terra foi aprisionada.



Veja vídeos sobre o Ato de sábado na página da Pobres & Nojentas no YouTube:

A liberdade da terra: Ato no Quilombo de São Roque (SC) em 26 de abril de 2014

Ato denunciou racismo ambiental do ICMBio e a difícil situação da comunidade.



A liberdade da terra:




A liberdade dos homens:




A história da luta:




Com sementes, sem terra:



















segunda-feira, 14 de abril de 2014

Encontrando Johnny Depp

Durante a décima edição das Jornadas Bolivarianas, encontramos o ator Douglas May, que é sósia de Johnny Depp. Na entrevista ele conta como se encontrou com esse personagem e fala de seu interesse pela política.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Caminhada por memória, verdade e justiça

Veja como foi, em Florianópolis, a caminhada que lembrou o golpe civil-militar de 1964. Dia 01 de abril de 2014.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Para que jamais se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

Nesta terça-feira, 1º de abril, haverá Caminhada para lembrar os 50 anos do golpe civil-militar no Brasil e para repudiar todas as atrocidades cometidas na ditadura militar.
A concentração será na sede da União Catarinense dos Estudantes, na Rua Álvaro de Carvalho, nº 246, no Centro de Florianópolis, onde, às 16h, haverá mostra de cinema e exposição fotográfica. Às 17 horas a caminhada seguirá seu percurso e fará paradas em frente ao prédio da Farmácia Catarinense, onde era a livraria Anita Garibaldi, do PCB, e onde a repressão, em 1964, retirou os livros e os queimou na calçada; no Prédio da antiga FAED, onde funcionava o Centro de Informações da Marinha, base da repressão em Santa Catarina (CENIMAR); no Museu Cruz e Sousa, antigo palácio do Governo do Estado; encerrando as atividades na Esquina Democrática, no Centro da Capital, que tem sido um marco das manifestações desde os anos 1980. 

Para que jamais se esqueça. Para que nunca mais aconteça.
http://issuu.com/camilarodrigues86/docs/jornal-50_anos_do_golpe

terça-feira, 18 de março de 2014

Profeta para além do mundo



Texto e fotos: Míriam Santini de Abreu


O Seu Claico aparece no local onde trabalho quase todos os dias. Magro, olhos azuis intensos, calça e camiseta impregnadas de cheiro de suor, ele acumula uma quantidade imensa de papéis em diferentes pastas. Nós o chamamos de Senador, porque ele se auto-nomeou líder político nacional de um ou de vários partidos no Senado. O que sei de Seu Claico, além do sobrenome, Xavier Fernandes, é o nome dos pais e da rua e bairro onde ele mora na Capital, além do fato de ter um irmão. Ah, e a cidade onde ele nasceu, em SC.
Isso porque, sempre que chega, Seu Claico pede que carimbemos um ou mais textos seus e que façamos uma ou duas cópias desses exemplares, nos quais ele anexa sua carteira de identidade. Nota-se que o Senador, que está sempre a caminhar no Centro de Florianópolis e no campus da Universidade Federal, passa por vários órgãos públicos, e sempre há alguém que digita os escritos feitos à caneta, em letra espinhenta que se alastra nas linhas.  
Num deles, Seu Claico se auto-denomina técnico de futebol da Seleção Brasileira e lista suas contribuições ao futebol brasileiro e mundial, como: a bola leve profissional, as joelheiras acolchoadas, o apito profissional e as luvas para jogadores.
Em outro ofício, o Senador se auto-intitula chefe de segurança da UFSC e criador da Otasa (Organização dos Tratados do Atlântico Sul-Americano). Num parágrafo, ele acrescenta: “Eu, Claico [...] sou o criador das luzes a laser, do adubo orgânico, do macro-computador, do telefone com tela das cintas plásticas, as armas a laser, do aero-brazer, do carro do futuro, da linguagem comum para computação mundial, da imagem e som para computação mundial, dos telões, dos vidros planos, dos vidros impermeáveis, dos aços impermeáveis, do freezer, das agulhas a laser, da enceradeira que encera e lustra, enfim, ALELUIA, outras coisas”. Em outra carta, a Otasa vira uma organização dos trabalhadores do Atlântico Sul.
Dia desses, quando ele esteve aqui para fazer umas cópias e carimbar vários ofícios, pedi um cargo (uma carta revela que em 2012 ele me indicou, em ofício, vereadora, com mais umas três dezenas de nomes, incluindo o de Lygia Fagundes Telles e de um certo Beto Leão do Beco):
- Mas eu já te nomeei!
- Para quê?
- Para o STF!
- Mas Seu Claico... Eu vou ficar entediada no STF!
- Entediada?
- É... O dia inteiro trancada lá naqueles gabinetes! Que horror!
- Ah, tu não quer ficar entediada? Então pega a tua pasta ali e vai lá para fora, para a rua, porque tem um monte de problemas pra resolver!

***

Muitos dos escritos do Senador são de sua lavra. Ele chega, cumprimenta (outro dia o cumprimento foi: “a bruxa tá solta!”. Houve uma tarde em que abriu a porta e anunciou: - Tem gente morando em cavernas aqui na cidade!), pede um cafezinho, senta e começa a escrever, sem parar de murmurar para si mesmo. Outros textos, que ele pede para reproduzir, já vêm digitados. Também seriam dele, e apenas digitados por seus colaboradores em órgãos públicos e entidades municipais, estaduais e federais, como revelam os carimbos nas folhas?
Carta dele de 2012, como diretor da UNICEF, mostra ser oportuno discutir, em nível mundial, a situação da criançada no mundo, nesses termos.
Outra de 2012, uma Nota Oficial, anuncia o casamento do Senador com uma certa senhora, cujo nome omito porque é conhecida na cidade. Ela decidiu, diz a nota, assumir um compromisso social com o cantor e compositor Clássico Fernandes, ou Claico Fernandes. Enlace matrimonial na Catedral da Sé e recepção no Clube Paulistano e no Iate Clube do Rio de Janeiro.
Há uma carta escrita por ele, à caneta, curiosa. O assunto é a denúncia do ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, que reclama de ofensas e calúnias propagadas pelo Senador e exige da Justiça Internacional dez trilhões de libras esterlinas.
- Eu acho ser um direito do Ressuscitado! – escreve o Senador.
Na carta ele se defende junto à Suprema Corte Internacional, especificamente ao Juiz Federal Paul Gallotti, se auto-intitula um vagabundo por morar onde mora (cita rua e bairro) e conclui:
“Até parece uma piada, morador de Barraco no Brasil é obrigado a pagar 10 trilhões de libras esterlinas a morador do bairro de Boston em New York em USA”.
Não localizei a segunda página desta carta no monte que guardo, de quase uns dez centímetros de altura, de ofícios entregues a mim pelo Senador. Mas encontrei uma carta já digitada, como o mesmo conteúdo, que assim termina:
“Sua Excelência, se observa o absurdo do assunto, uma vez que se o citado vagabundo tivesse dinheiro iria morar numa mansão, isso até parece piada”.

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O Senador, que se proclama O Dominador das Mídias, já oficiou no interesse da comunicação, como em uma carta de dezembro de 2010: “A liminar jurídica trata-se de agradecer Sua Excelência, a Senhora Presidenta da República, Dra. Dilma Roussef, pelo fato de confirmar aquilo que é de direito com relação à minha solicitação de concessão nos meios de comunicação de rádio e televisão convencional e em TV a cabo via satélite para o mundo bem como o direito de evitar o jornal do Claico e a revista do Claico em edição nacional e mundial, uma vez que eu me preocupo com o verdadeiro jornalismo e que, inclusive, por causa disso, já fiz algumas denúncias na Justiça Federal de Santa Catarina (cita o endereço), uma vez que meu conceito com relação à verdade contraria os interesses de terceiros”.

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Mais um diálogo com o Senador em dia de visita onde trabalho:
- Como vai a senhora?
- Bem, Senador, e o senhor?
- Bem, sempre me reinventando.
- Reinventando?
- Claro, todos os dias a gente tem que tem emoções e pensamentos novos.

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Quem digitar “Carta do Claico” na internet irá encontrar um blog que lançou a campanha “Em Busca das Cartas Perdidas” para fazer um compêndio sobre a vida e trajetória do Senador. Ele volta e meia pede que a gente consulte novidades sobre seus ofícios na internet, e recentemente passou a carregar consigo um pendrive com arquivos das cartas.
Foi nesse blog que encontrei um fato surreal sobre o resultado das andanças do Senador na cidade. Está no Diário da Justiça de Santa Catarina, Ano XLVI, Número 11.283, de 24 de setembro de 2003. Há um Despacho do Tribunal Pleno em Mandado de Segurança da Capital, no qual o impetrante é Claico Xavier Fernandes e impetrados o Governador do Estado e prefeito e vice de Florianópolis, São José e Palhoça.
O Juiz Relator inicia o Despacho indeferindo a “peça”, assim mesmo, citada entre aspas, “eis que se trata de um mero manuscrito disforme, ininteligível e sem qualquer sentido, nominado apenas como mandado de segurança”. O Juiz Relator menciona ainda o fato de a petição inicial não ter sido subscrita por advogado, mas pelo próprio impetrante, que já teria, conforme consulta no SAJ – Sistema de Automação do Judiciário, impetrado “outros mandados de segurança com pedidos teratológicos e desarrazoados”.
O Juiz Relator cita a decisão proferida em outro Mandado de Segurança, que por sua vez menciona um terceiro (!) no qual o impetrante é o mesmo, o Senador. A decisão é no sentido de o Poder Judiciário não perder mais tempo “com essas heresias, tanto doutrinárias como religiosas”, citando ainda que o impetrante não tem registro na Ordem dos Advogados do Brasil. Abaixo transcrevemos um trecho usado pelo Juiz Relator, citando um colega, para indeferir a petição inicial do Senador contra o governador e os prefeitos:
“Ora, do relato acima realizado, vê-se claramente a heresia do pedido formulado por Claico Xavier Fernandes, que em franco desrespeito para com o Poder Judiciário, tirando lugar de outros feitos que em seu lugar poderiam ser deslindados. É inadmissível que resida em juízo piada transvestida em processo que da simples tentativa de leitura ofenderia qualquer leigo, quiçá um julgador (?), que tem como função primordial a pacificação social, e não a apreciação da galhofa posta em juízo”.

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No Mandado de Segurança impetrado no Judiciário estadual, o Senador se apresenta como “Senhor do Brasil Profeta Claico Fernandes do Universo Entidade Animal e Espiritual, Maior e Forte do Reino Unido Profeta Claico Fernandes do Brasil por ordem do Criador da Espiritualidade e do Cosmos e do Olimpo”.
Lembrei de um trecho do Evangelho de Tomé, no qual Jesus diz:

“Vim pôr Fogo ao mundo
e eis que hei de preservá-lo,
até que arda.”

O Nosso Profeta não veio buscar a pacificação social.



P.s: só um repórter-fotográfico de fato para retratar o Senador! Ele fez questão de posar para a foto que fiz, showman das mídias que é, como afirmam algumas de suas cartas. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Uma mulher dá à luz letras e pequeninos




















Por Raquel Moysés - jornalista
             
Manhã muito fria, chá fumegante nas canecas, três mulheres se encontram numa sala da Universidade Federal de Santa Catarina. Uma delas quer se contar. A outra, sua filha, espera que ela possa finalmente se contar. A terceira, repórter, tem a tarefa de narrar essa vida feminina feita de palavras, olhares, mãos que se movem, um rosto que expressa em linhas as tantas encruzilhadas desse “já tão longo andar”.

Mas, como falar de uma vida que amadureceu sem que tenha sido possível testemunhar a sua travessia?  A pergunta paira no ar quando a entrevista começa e, como sempre acontece quando alguém se confessa, o primeiro momento é de constrangimento.   Logo, porém, o chá aquece o peito e olhares sinceros se cruzam.  Nasce uma confiança, e a história se faz viva. Aos fragmentos, aos borbotões, talvez com lacunas e imprecisões, pois, a distância de anos, nem sempre é possível dizer tudo como exatamente aconteceu. Só não se perde a certeza de ter vivido, e é este sentimento que dá força às palavras desta mulher que se conta ao narrar a vida de um tempo.

Então, eis a história de dona Ada. Lembrada aos poucos, com algumas reticências, mas plena de sua verdade.

Primeiro é preciso que se diga que esta senhora de 85 anos deseja mais do que apenas contar-se. Ao falar de si mesma, Odair Carvalho Cruz, dona Ada, espera descrever um momento histórico, um país, o DNA de uma região, uma história de pioneiros desbravadores. A história dos seus, a sua própria história.

Nascida em Cambará, no Paraná, em 1928, Ada se transferiu para Paranavaí com 16 anos, em agosto de 1944, nos dias tristes da segunda grande guerra. Filha mais velha da família Gomes Carvalho, mudara-se com os pais, mais três irmãos, de Arapongas para o pequeno povoado que originou Paranavaí. À época com o nome de Fazenda Brasileira, o lugarejo pertencia à comarca de Apucarana, distrito de Mandaguari.

Naquele mesmo ano, em dezembro, o padre João Guerra rezou a primeira missa na casa dos pais de Ada, pois nem mesmo capela havia no povoado. Waldomiro e sua mulher Paulina haviam rumado para o novo destino em busca das glebas ofertadas para famílias de desbravadores por Manoel Ribas, então governador do Paraná. “Era uma área de mata e nossa primeira casa foi um rancho de madeira, chão de terra e teto de zinco.” A fila para adquirir as tábuas com que levantar as primeiras moradias era longa, e o trabalho certo para seu José Ebiner, dono da primeira serraria. “As casas naquela época eram cobertas de tabuinhas. Antes de amanhecer o dia e até altas horas da noite se ouviam marteladas nas construções”.

A família plantava para a subsistência, mas aos poucos foi melhorando de situação, mudando-se para casa nova. O rancho acabou cedido para o sargento Marcelino, transferido de Curitiba, e primeiro delegado do lugar. Ada lembra que, como não havia delegacia, o primeiro homem que Marcelino prendeu teve que ficar amarrado a uma árvore, com uma corrente. “Era minha mãe que levava água e comida para ele...”

Para diminuir a penúria dos que chegavam o Estado mandou construir uma casa grande, chamada de Migração. Ali havia um alojamento provisório para as famílias, e o sargento também foi morar lá. Com entrada separada, uma sala foi destinada ao primeiro presídio.

Naqueles primórdios de Paranavaí não existia escola, igreja, farmácia ou qualquer serviço de saúde no povoado. Sequer havia onde comprar alimentos. Antes de Leodegário Patriota abrir o primeiro armazém, as mercadorias vinham de Londrina, em um caminhão do Estado, e era nessa venda móvel que as pessoas compravam arroz, feijão, charque, banha, açúcar, sal, café. Os meios de comunicação também eram escassos, pois só havia um rádio amador, pertencente ao Estado.      

Ada foi catequista na Fazenda Brasileira e também sua primeira professora estadual. Para dar aulas, dividia a única sala com a única professora municipal, Ruth Doubek, que mais tarde se tornaria sua cunhada. “Era para eu ir trabalhar em Arapongas, mas preferi ficar ali, onde não tinha escola. A minha posse em Londrina foi assinada pelo então delegado de ensino, Newton Guimarães.”

A jovem educadora havia estudado em Cambará até o ensino complementar, que era a escola primária, com duração de quatro anos, acrescida de mais um ano de estudos. O ginásio era para poucos, e nem havia um na sua cidade natal, mas o que Ada sabia já era muito, naqueles anos em que o índice de analfabetismo chegava a 70%.

As duas professorinhas recebiam o salário em Apucarana, e às vezes iam buscar o dinheiro de caminhão, pois o ônibus passava pela Fazenda Brasileira só a cada 15 dias. “Os moradores, que sabiam o dia e a hora da chegada da jardineira ‘Catita’, corriam para receber os que chegavam e também para pegar as correspondências trazidas pelo motorista e cobrador”.

Para ajudar na preparação das aulas, quando ia para a cidade, Ada comprava livros e jornais. “Eu ganhava 140 mil réis, e com isso dava para a gente viver. Queria ter algo mais para me basear, além da ‘Cartilha do Povo’, que a gente usava naqueles tempos. Eu gostava de ensinar as crianças e também dava aulas de religião, de trabalhos manuais. Elas aprendiam a cantar os hinos, o nacional, o da independência, o hino à bandeira...”

No começo, eram poucos alunos, com idades entre oito e 15 anos. Mas como os pais, que não sabiam ler e escrever,  queriam que os filhos estudassem, logo havia uns 30 na sala  de aula. “A primeira escolinha funcionava num cômodo da casa do Sr. Doubeck, o inspetor de terras. Arrumamos um quadro-negro e com caixotes fizemos a mesa. Os bancos foram feitos com tijolos e tábuas velhas. As aulas eram de segunda a sábado, e os alunos traziam de casa um caldeirãozinho com comida. Era bóia fria mesmo,  o que eles comiam.” Foi só mais tarde que a escolinha ganhou um nome: Escola Isolada Colônia Brasileira. E uma sede, no prédio em que estava em construção o Hospital Santa Casa, na Praça Silvio Vida.

A coordenação motora dos estudantes às vezes era precária, e Ada tinha que segurar a mão deles para ensiná-los a escrever. “Enquanto uns faziam alguma tarefa, eu ajudava os outros. Era tudo feito em um só ambiente, mas tudo corria bem, os alunos respeitavam muito as professoras, queriam imitar o que elas faziam. Não é como hoje, que professor corre até o risco de apanhar de aluno...”
A saúde das famílias era precária. Havia gente que sofria com anemia, amarelão, ferida brava, vermes. “As crianças andavam descalças e como a areia da região era quente demais, queimavam a solinha dos pés, se contaminavam...”

Só mais tarde, quando construíram o primeiro posto de saúde, o povoado passou a contar com um médico, o Dr. Aguilar Arantes. Com o tempo também abriu a primeira farmácia, que era de João Machado, um senhor de Minas Gerais. “O primeiro caso de câncer de que me lembro foi de uma moça chamada Catarina, que acabou morrendo. Ela não tinha nem cama em casa, ficava deitada sobre um colchão de palha, no chão...”

Mas o trabalho de Ada jovenzinha não se limitava à escola. “Ajudava a mãe nas tarefas de casa, cuidava dos animaizinhos. A água a gente pegava em um ribeirão,  o local  enchia de gente com trouxas de roupa para lavar. Para beber e para cozinhar, a água era buscada em uma mina, localizada no atual Jardim Ouro Branco”.

Entre os acontecimentos que marcaram a comunidade, Ada se lembra de um fato inusitado. Foi em 1949, quando um avião de quatro motores, que vinha da China para o Paraguai, com fugitivos da Segunda Guerra, aterrissou na Fazenda Brasileira.   “Como estava escurecendo, o Dr. Otávio Marques Siqueira reuniu as pessoas que tinham carro e foram iluminar um local que poderia servir de pista para o pouso. O Dr. Siqueira escreveu num papelão a palavra ‘Brasil’, pois eles não sabiam onde estavam e o combustível estava acabando.”

Mas os dias da professorinha em Paranavaí, também terminaram. Em 1948 ela se casou com o alfaiate Gentil Cruz e logo foi viver com o marido em Mandaguaçu, tendo que pedir transferência. “Na nova escola o salário demorou sete meses para sair, mas quando veio, deu para a gente comprar um terreno, no centro, e construir uma casa, com cinco cômodos grandes. Naqueles dias, com salário de professor, dava para viver melhor do que hoje. A profissão foi muito desvalorizada com o passar dos tempos”.

Com os anos, vieram os filhos, sete no todo. Só que a nova família não ficava muito tempo em um lugar. Uma das mudanças foi para Curitiba, porque Ada adoecera, e como não havia saúde pública, nada parecido com o SUS, foram em busca de tratamento médico.  Foi na capital paranaense que nasceu Clayr, a filha que agora testemunha esta viagem da mãe pelo tempo vivido. “Minha mãe é, antes de tudo, uma mulher de fibra, de valor imenso frente às necessidades básicas das comunidades em que viveu”.

Clayr lembra que Ada, além de dar aulas na escola, também abria as portas de casa para ensinar. Na varanda, com a ajuda de um quadro-negro, oferecia a luz das letras e da leitura para analfabetos, muitos deles trabalhadores em fazendas de café e estivadores.  “Especialmente no seu voluntarismo, como alfabetizadora e como parteira, minha mãe é um exemplo de gente útil. O mais incrível e que ela além de trabalhar, cuidar da casa e filhos, bordava, costurava, tricotava, fazia cortinas e almofadas para casa de gente rica, confeitava bolo da quermesse... Essas mulheres lutadoras tinham mesmo muita disposição.”

Disposição e coragem para tantas andanças por cidades diferentes, sempre em busca condições dignas de vida para a família. Mas foi em Curitiba que Ada deu novo rumo para sua vida de trabalhadora. Ali, fez o curso de enfermagem obstétrica e passou a trabalhar em hospitais, ajudando a trazer pequeninos ao mundo.
Antes de estudar, ela já havia feito partos no interior, e ainda se lembra quanto foi difícil o primeiro deles. “Não tinha ninguém para ajudar aquela parturiente, e eu fiz o que podia,  sozinha, apenas com a ajuda do marido da moça. Ela tinha em casa o livro ‘Médico do Lar’, e o marido ia lendo para mim, aos   poucos,  como eu devia fazer o parto da mulher dele.”

Depois dessa prova de fogo, Ada foi parteira voluntária nos vários lugares em que viveu. “Vinha gente de longe, de carroça, de madrugada, me pedir ajuda”. De alfabetizadora a parteira, trouxe à luz, ao longo da vida, mais de 20 mil criancinhas. “Em São Paulo, houve um período em que fiz mil partos em 11 meses. Teve uma vez que, depois do plantão noturno, tive que dobrar o turno. Naquele dia, das 6 às 13 horas, foram 16 partos”.

A ida para a capital paulista acontecera por um motivo doloroso, a perda de um filho de 19 anos, morto em um acidente em Curitiba, no dia do aniversário de Clayr. “Para não perpetuar o sofrimento, saímos dali, fomos para São Paulo. Meu marido voltou a ser alfaiate e eu trabalhei nos melhores hospitais daqueles tempos. Até no Samaritano, fundado por ingleses, que servia café e chá em serviços de prata. Trabalhava muito, mas fazia tudo com amor. Chegava a fazer turnos de 36 horas seguidas, com 12 de descanso.”

Naqueles dias, não existia o Sistema Único de Saúde, o SUS, e o atendimento público de saúde era através do INPS. “Por uma questão de lucro, havia hospitais privados que  forçavam a dizer que o parto tinha que ser cesáreo. Lembro uma vez que o médico chegou atrasado para atender uma parturiente,  na hora  que o bebê já estava com o cabelinho de fora. Ele empurrou o nenê de novo para dentro, só para fazer a cesariana, que custava mais, e era feita só por médicos. Fez o corte no ventre da mãe assim mesmo, e ainda ficou xingando, jogou a placenta na parede,   bravo comigo, pois quando ele chegou eu já estava fazendo o parto natural. Mas não fiquei quieta, falei com o diretor do hospital, e esse médico foi afastado.”

Nem todos, porém, eram como esse médico e, no seu trabalho, Ada em geral era muito respeitada. “Quando os médicos novinhos faziam residência, pediam para eu dar aula para eles, com a experiência que eu tinha. Diziam que eu sabia de parto mais do que muito médico.”

Depois de conhecer uma saúde toda privada, Ada acha que mesmo com todos os entraves no SUS, hoje a situação é muito melhor. Ela mesma só deixou de trabalhar como enfermeira porque, nos últimos cinco anos de trabalho,  esteve afastada por motivo de saúde. “Na época me aposentei com 20 salários, mas agora ficaram reduzidos a três, coisa triste depois de tantos anos de trabalho, pois hoje não posso nem ter convênio médico”.

A vida de aposentada, no entanto, não fez Ada parar em um só lugar. Por vários motivos, às vezes para ajudar um filho, às vezes para cuidar de um neto, girou mundo Brasil. Viveu  de novo em Curitiba, depois no Rio de Janeiro,  em Dourados, (no Mato Grosso),  Porto Seguro (na Bahia), até fincar os pés em Florianópolis, há 14 anos.

Olhando para o caminho trilhado, Ada pensa que sua vida foi quase sempre só trabalhar. “Minha juventude passou quase sem nenhuma distração. Os poucos momentos de lazer eram  quando  a gente se reunia e o  pai da Ruth, minha colega professora, tocava violino... Ou quando,  nos dias festivos, na Fazenda Brasileira, as pessoas acordavam com a Alvorada, para ouvir a banda de música criada pelo seu Acácio de Oliveira Andrade.”

Saudade? “Sim, sinto saudade de tudo que vivi, com erros e acertos, pois foi uma vida plena. Tanto na educação como na maternidade, trabalhei onde está começando a vida, e isso sempre alimentou minha esperança de que tudo pode ser diferente, melhor do que hoje. Por isso é que sou otimista. Até porque, pensando bem, quando olho para trás, vejo que com muita dificuldade e sem material de trabalho, eu e minha colega Ruth, hoje minha cunhada, construímos o alicerce do ensino público de Paranavaí”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lori - uma vida de trabalho

Uma das propostas da Pobres e Nojentas é justamente trazer à luz a vida daqueles que fazem a história, mas, no mais das vezes, ficam à margem. A mídia em geral gosta das "autoridades", das fontes oficiais. Nós, as nojentas, gostamos das gentes comuns, essas que andam por aí a construir a vida, de verdade. Uma dessas pessoas é o seu Lori. Durante muitos tempo ele foi o faz-tudo na TV Caxias, lá no Rio Grande do Sul, figura muito amada por todos os que trabalhavam com ele. Anos depois, Leni Inês Ferronato, recuperou a história do seu Lori, num lindo vídeo editado pelo também brilhante Javier Herrera (Paquito). É a vida mesma, como diria Luckás... em sua imanência!!!!


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Serra inteira, brasileira, do Mar

Míriam Santini de Abreu

A gente nunca sabe de onde nos chega um amor. Como ele se alastra pela memória e se enraíza tão fundo que parece fluir pelo corpo a cada pulsação. A Serra do Mar é assim. Um pulsar mineral, vegetal, cuja origem em mim se perdeu num emaranhado de impressões, lembranças, invencionices. Elas se tornam concretas em diferentes coordenadas geográficas onde a Serra se fez paisagem e vivência. Latitudes, longitudes e altitudes que são Serras no meu corpo.

Ubatuba, São Paulo
23º 21´ 20.94” S - 45º 07´59.62”O – Elevação: 971 m

É tortuosa a descida que, pela rodovia Osvaldo Cruz, liga o planalto ao litoral paulista. A imagem de satélite mostra a estrada cheia de curvas, fino risco de asfalto que corta o Parque Estadual da Serra do Mar. Ao pé da Serra está Ubatuba, onde, no século 16, se passou parte da curiosa história de um alemão chamado Hans Staden. Eu a li num relato escrito por ele e publicado no Brasil com o título “Verdadeira História dos Selvagens, Nus e Devoradores de Homens, Encontrados no Novo Mundo, A América“.
Staden veio para o Brasil duas vezes e, na segunda, ficou prisioneiro dos indios tupinambás. A narrativa das artimanhas que ele usa para evitar ser devorado são... saborosas! O alemão, que fez um autêntico trabalho de repórter ao contar o modo de vida dos índios, consegue escapar numa troca com tripulantes de um navio francês na atual Niterói. 
Com base no livro, escrito depois na Alemanha, conclui-se que Staden passou por Ubatuba quando os tupinambás levaram-no em uma expedição de guerra de 38 barcos. Ali, segundo o relato, eles acamparam e pegaram muitos peixes.
Num fevereiro chuvoso em que caminhei naquelas praias recortadas, à frente o Atlântico, atrás a Serra, eu era canoa, índio, peixe. Do que vi, do que me lembro, a prisioneira daquela Serra era eu.

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A Serra do Mar vai do norte de Santa Catarina ao Rio de Janeiro, onde encontra a Serra da Mantiqueira, que se prolonga até o Espírito Santo. O granito que a forma tem mais de 600 milhões de anos. No período mesozóico, a região onde é a Serra do Mar foi um grande deserto.

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Joinville, Santa Catarina
26º 15´ 34.80” S - 49º 00´21.82”O – Elevação: 973 m

Joinville, cidade esparramada, de um lado o ventre líquido da Baia da Babitonga, de outro as escarpas da Serra do Mar, que vi pela primeira vez naquele ano de 1995.  Outra mulher, 145 anos antes, em 1850, também aportou ali. Era Julie Engell, alemã, como Hans Staden, e com uma história igualmente fascinante, que descobri no livro “Era uma vez um simples caminho... Fragmentos da história de Joinville”, da historiadora Elly Herkenhoff.
O pouco que se sabia de Julie Engell, recuperado por Elly, foi contado por um dos primeiros cronistas de Joinville, o oficial do exército Theodor Rodowicz-Oswiecmsky, em um livro editado na Alemanha em 1853. A história se liga ao início da colonização do mais populoso município catarinense, na época chamado Colônia Dona Francisca. Em 1850 esteve ali o engenheiro Hermann Guenther, com a atribuição de fixar o núcleo da Colônia e demarcar os lotes de terra para receber os primeiros colonos.
Rodowicz conta que Hermann Guenther chegou ao Rio de Janeiro em 1849. Antes de embarcar rumo ao norte catarinense, o engenheiro solicitou, a um funcionário da firma que o contratara, um terno para vestir um “pobre homem” que desejava levar como servente. Esse homem na verdade era Julie Engell! Segundo Rodowicz, Julie – que ele classifica de “heroína de barricadas” – viajara para a Austrália e, no Rio, já havia “perdido toda a cotação” por causa de sua ligação com Guenther.
Atribui-se a Julie a autoria dos desenhos de uma supostamente próspera colônia que foram publicados em jornais da Alemanha. Por causa deles, diz Rodowicz, muitos decidiram tentar a sorte na futura Joinville. Viram, ao chegar, apenas a Serra e a densa floresta.
A historiadora Elly Herkenhoff recuperou um outro trabalho que cita Julie Engell. Através dele ficamos sabendo que ela participou – como pioneira do movimento feminista – dos acontecimentos políticos de 1848 em Berlim, e teve que abandonar a Alemanha. Elly Herkenhoff lembra que naquele episódio a feminista Luise Otto-Peters lançou seu programa de ação, reclamando para a mulher o direito de se instruir em diversas profissões. Depois que voltou ao Rio com Hermann Guenther, Julie atuou como educadora em um instituto em Limeira, São Paulo. Ainda voltou a Berlim e faleceu na Suíça.
Essa era a mulher que, no discurso de Rodowicz, era “heroína de barricadas”, de “cotação perdida” por causa da ligação com o engenheiro e autora de desenhos imaginosos.

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Salto do Cubatão, Monte Crista e Castelo dos Bugres. Endereço: Serra do Mar em Joinville.
O primeiro, uma queda de água de 300 metros de altura, há alguns anos ameaçada pela construção de uma usina hidrelétrica;
no segundo, dizem as lendas, os jesuítas teriam escondido imensos tesouros;
no terceiro, conta um poema anônimo publicado em 1896 num antigo jornal de Joinville, com base em uma saga transmitida pelos indígenas, está preso um cavalo branco à espera de seu senhor.
Visitei esses três lugares. Ali, com em toda a Serra, inscreve-se uma saber geológico, geográfico, de fauna, de flora, há séculos um pisar de gente e de bicho. E eu, como Julie Engell, desenho essa paisagem com olhos de quem ali vê, cristalizada, toda a memória humana.
Eu, na Serra do Mar, sou negra, índia, tropeira, caboclinha. Nas madrugadas de lua cheia, galopo de um cume a outro, de Santa Catarina ao Espírito Santo, no dorso de um cavalo campeiro mágico.
Num filme, “O Paciente Inglês”, a personagem diz que os verdadeiros mapas são os nossos corpos. O meu, de norte a sul, é um granito coberto de mata, úmido de águas oceânicas, onde às vezes sopra areia daquele antigo deserto. Iluminam-me as cidades, e também me escurecem. Na noite do tempo, eu e a minha Serra nos dobraremos de vez ao Atlântico.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Lançada em Santa Catarina Campanha do Plebiscito Nacional por uma Assembleia Constituinte Exclusiva do Sistema Político

Por Marcela Cornelli

Foi lançado nesta quarta-feira, dia 18 de dezembro, em Santa Catarina a Campanha do Plebiscito Nacional por uma Assembleia Constituinte Exclusiva do Sistema Político. O lançamento aconteceu no Plenarinho da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis. Pela manhã foi realizada uma plenária dos movimentos sociais e à tarde aconteceu o lançamento do Plebiscito e de uma cartilha explicativa sobre o tema, sua importância e seus objetivos, que será distribuída posteriormente aos trabalhadores.

Estiveram presentes entidades sindicais, parlamentares e representantes do movimento social. O lançamento foi organizado pelo Comitê Estadual pelo Plebiscito por uma Assembleia Constituinte Exclusiva do Sistema Político, que está sendo formado por diversas entidades sindicais e movimentos sociais organizados entre eles Sintespe, Sintaema, Sinergia, Sinasefe, Sindes, Marcha Mundial das Mulheres, Via Campesina, Cáritas e Pastorais Sociais, Juventude Revolução, Consulta Popular, MST, Gabinete Pe. Pedro, Corrente do Trabalho (PT), CUT e CTB. Mais entidades, centrais sindicais e movimentos estão sendo chamados para compor o Comitê Estadual. Nacionalmente, 70 entidades estão apoiando a realização do Plebiscito e novos apoios deverão vir nos próximos meses.

O Plebiscito será realizado em setembro de 2014 e terá uma única pergunta: Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político Brasileiro? O objetivo é realizar um Plebiscito nos moldes do Plebiscito da ALCA.

Para Fatima Sandalhel, da Consulta Popular e da organização nacional do Plebiscito, as mobilizações de junho trouxeram à tona pautas como maior participação popular e mudanças políticas. As mobilizações pautaram o assunto. “A possibilidade de uma Assembleia Constituinte é uma oportunidade dos movimentos sociais e sindicatos proporem uma bandeira de luta mais ofensiva”. “Dos 550 deputados, somente 91 votam em pautas de interesse dos trabalhadores segundo dados do Diap”, disse Fátima. Ela lembrou que no Congresso, 8% são negros e cerca de 9% são mulheres. “A Assembleia Constituinte pode mudar esta correlação de forças por mudanças no país”.

Fátima também defendeu que o processo de construção do Plebiscito será um momento de diálogo com a população e de politização dos trabalhadores. Para ela, será necessário criar um novo mecanismo de comunicação com a juventude que foi às ruas em junho pera que ela entenda a importância de uma Assembleia Constituinte.

O deputado estadual Pe. Pedro (PT) também presente na mesa de debates pela manhã disse ver no Plebiscito e na Assembleia Constituinte mecanismos de participação popular e enfrentamento do poder econômico que determina as relações na sociedade.

Nauro José velho, da Consulta Popular e do MST, representou o Comitê Estadual na mesa e falou sobre a importância da luta organizada dos trabalhadores. “É um momento em que os movimentos sociais podem agarrar o Plebiscito ou deixar as coisas como estão”, observou. Para ele, a reforma política que está sendo realizada pelo governo, a aprovação da lei de greve, da "lei do terrorismo", só vão piorar as formas de organização dos trabalhadores. Daí a importância da luta por uma Assembleia Constituinte. Ele disse ainda que por ser uma reforma exclusiva, avanços sociais da Constituição de 88 não poderão ser retirados.

Leonardo Nürnberg, da Juventude Revolução, falou sobre a importância de alcançar massivamente os jovens nesta campanha. “A construção do Plebiscito e a Assembleia Constituinte são mecanismos para acumulação de forças para a construção do socialismo”.

A próxima reunião de planejamento do Plebiscito será realizada durante todo o dia 3 de fevereiro, a partir das 9 horas, no Sintespe. Todas as entidades sindicais e de movimentos sociais organizados estão convidadas.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Saiu a número 30


Edição tem reportagem sobre Plano Diretor, edital dos transportes, ocupação Palmares, crônicas e América Latina Peça a sua. Só cinco pilas....

Cláudio Silva da Silva - repórter fotográfico

Programa Pobres e Nojentas no Mercado 4 entrevista o repórter fotográfico Cláudio Silva da Silva. Um dos mais importantes profissionais do estado. Ele fala de sua caminhada no jornalismo e dos desafios da profissão.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Qual o papel de um sindicato



Por Dino Gilioli



Num mundo cada vez mais mercantilizado, pautado pela lógica da rapidez das máquinas e marcado pela dura sobrevivência da maioria das pessoas perguntamos: Qual o papel de um sindicato? Pedro Tierra lembra-nos que o ofício de poeta, de certo modo, pode se resumir na observação dos gestos humanos e na sua tradução pela subversão da palavra. Neste sentido, perguntamos: Qual a função de um sindicalista?
O sistema atual que “regula” a sociedade reduz o trabalhador a um mero vendedor da força de trabalho. De tal forma que o homem ou mulher trabalhadora são registrados, na maioria das empresas, como apenas mais um item de custo. Valendo, neste caso, a lógica de que para reduzir custos tanto faz uma matéria prima, uma mercadoria ou um trabalhador.

No nosso entendimento um sindicato deve atuar na contramão dessa perversa lógica e perceber o trabalhador, acima de tudo, como um ser humano – na sua integralidade. Logo, a ação de um sindicato de caráter emancipador não deve se limitar a uma pauta de reivindicação. A luta dos trabalhadores deve suplantar as questões imediatas e corporativas.

Sem esquecer da origem do sindicalismo que nasce pela necessidade de garantir a subsistência do trabalhador, diante de um sistema cada vez mais excludente é preciso que façamos uma profunda reflexão sobre a  atividade sindical. É preciso que discutamos qual o papel político de um sindicato, que permita olhar o trabalhador para além da raia economicista. Ou seja, um sindicato que tenha presença objetiva e subjetiva na vida do trabalhador.

Nessa perspectiva é possível tecer com os trabalhadores uma representação de classe que, além de reivindicar, atua num horizonte onde a cultura é compreendida como espaço genuíno da expressão humana, do exercício crítico e criativo. É possível vislumbrar uma instância de poder coletivo que estimula a solidariedade, o companheirismo e a prática da liberdade pela valorização da vida.

Pois, como diz o poeta: “um sindicato deve ter sensibilidade para perceber estrelas e consciência para sacudir o chão”.

Dino Gilioli - é poeta, membro do Conselho de Administração da Eletrosul e dirigente do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis - Sinergia

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Pérola - trançando a vida nos cabelos

Programa Pobres e Nojentas no Mercado 3 - Entrevista com a cabeleireira Pérola, personagem da vida de Florianópolis. Mulher, guerreira, que trança a vida nos cabelos e na valentia.